terça-feira, 13 de agosto de 2013

Maria cheia





Foi batizada de “Maria” porque sua mãe amava o mar. E ela também amaria. 

Já não tinha mais casa pra limpar nem fogão pra alimentar. O passado tragou sua vida num gole de chuva sem começo nem fim que assim, desavisada de aviso, enxurrou o endereço e escorreu cada canto salinizado da sala para a vala. No litoral, basta ter casa pra acabar na rua, sem paredes, sem panelas, com abandono de cama e céu de teto.

Maria cansou de lutar pela chance de ser alguém. Esqueceu-se de resgatar dos escombros aquele documento que lhe atribuía nome, pai, mãe e uma pegada de polegar. Na verdade, fez questão de deixar de ser. Só não abriu mão do “Maria”, afinal, era a única herança que lhe restava. Decidiu que era hora de atender ao chamado ancestral de sua matriarca. 

Leve de bagagens e pesada de lembranças, a mulher arrastou as chinelas pelos paralelepípedos pulando a amarelinha do próprio desgosto, desviando da sola dos pés o bloco do inferno... Percebeu que era mais fácil jogar adiante a pedra do desconhecido e deixar que os números guiassem seu caminhar gingado. 

Como na transição da tarde para a noite, o chão duro de terra se desfez em areia. Mudou de cor, deixou de ser bronzeado, vermelho, caboclo, para então mostrar seus cachos dourados e finos. O terreno lambido virou beira de mar e o horizonte agora era só promessa velada pela noite. Maria sentiu uma forte vontade de banhar a pele negra com o breu das águas noturnas, mas a espinha gelada paralisou seus joelhos. Bastava observar a dança das ondas e ouvir suas saias zunindo num rodar infinito. Bastava ser Maria para amar o que via – o mar.

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