segunda-feira, 10 de abril de 2017

Cobra criada

Na caçada, a presa vira o jogo, revira o corpo e trança o pescoço, inverte a corrida, quando vê já tomou o ferro e o berro agora aponta pra ponta contrária.

E agora quem caça? Qual nuca é mirada? Quem sua agora soa o estalar do gatilho. Quem nunca é caça? Com atraso, chega a hora, sem bater na porta, escorrendo pelos pulsos e economizando ponteiro de quem calculava a morte a cada segundo. Questão de tempo.

Vem buscar, vem pro arrebento do seu peito estilhaçado na bala de sal. A ferida ainda queima, salpicada de pólvora, sem anestesia, sem amortecer, sem massagem. Deixa a sorte ser morte. Questão de veneno.

Respira fundo e busca lá no teu túmulo um suspiro de paz. Agoniza que agora é o momento. Hoje não é dia da caça, é dia de quem caça dor. Grita, chora, implora, pé na sua cara, agora a gente cobra. Pica seu calcanhar até o barril esvaziar. Saraivada de mágoa pro seu peito envenenado. Olha bem pra essas escamas aqui, grava na lápide da sua memória cada palavra sibilada. Quebrei sua casca, caiu seu véu. O revide é remédio pique antídoto pra quem só destilou fel.

Eu não tenho pena, não me deram asas. Já me viu voar? Sou rasteiro, não faço barulho, sinto seu cheiro de longe, armo a mente, armo os dentes, preparo o bote, quero seu calcanhar. Sou sorrateiro.
Vem me caçar, mas vem sem pressa de voltar. Primeiro senta, depois chora, primeiro sente, depois ora, depois espere pra provar se Deus sabe o que faz. Se ele existe e se consegue te escutar. Teotoxina, coaguloArrogante, cosmoAgonia. Com todo esse arsenal na ponta de minha língua, eu jamais me esconderia num pomar.  

Aqui, a serpente não tenta. Ela consegue.  

Aqui não tem gênesis e maçã. Aqui tem gênero lachesis.

Páginas Pretas III

Há exceções.
Há momentos em que não somos.
Nestes momentos, eu me encontro, novamente, angustiado.
Todos estes anos e tudo o que desejei era o que ninguém mais queria:
uma vida normal, uma vida simples, rotina.
Cada dia, um drama, um tiro, um grito, uma panela batendo.
A mãe gritando, irritada, sempre pronta pra partir pra cima.
Batendo.
As marcas ficam, não na pele, mas no espírito.
A alma fica roxa, machucada, assim, cismada. Não confia.
Vazia. Confina. 

Fiquei sozinho te esperando não chegar. Há exceções, menos para o esquecimento.
Fui jogado no limbo do descaso, na noite em que tínhamos algo marcado.
Marcou, mais uma vez, a alma.
Passo sobre o viaduto, olho para a longa linha de carros a rabiscarem de luz o asfalto.
Paro, logo, penso: além de mim, quantas pessoas passaram aqui hoje pensando em pular?
Sanidade, cidade, noite, abandono, eu por eu mesmo, no caminhar, voltei pra casa
Pelo menos o caminho eu ainda sei.

A transição da sensação me muda. Desloca, muta. Perco o endereço, o CEP, não sei.
Só sei que é fúria. Três faces da mesma moeda, sem cara, nem coroa, três irmãs.
Furiosas.
Não tem grito. Não tem briga. Não tem soco. Não tem tiro. Silenciosa, a fúria se faz assim.
Corrói o vácuo, arranha as paredes do vácuo, estilhaça as vidraças do vácuo.
Ela ocupa, toma conta, sem dizer nada. Ela se espalha.
Há exceções. Menos pro excesso de nada.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Os silêncios

São as vezes que me calei que ainda ecoam aqui dentro. O maldito não dito, a conversa muda, o falar pelos cotovelos impossibilitados de tocarem a boca. Tantas vezes que hoje contam à mente história não vividas, mentiras prontas, farsas. É isso que resta quando deixo de falar. Ainda bem que nunca deixo de escrever.
(...)

Naquele dia, eu já tinha o discurso pronto. Chegaria até você e, sem rodeios, anunciaria o fim. Chegando no café, sentei-me diante de você e calei. Não disse absolutamente nada. A conversa seguia, as frases mornas, as perguntas vagas, o desinteresse posto à mesa. E eu não disse absolutamente nada. Tudo o que saía pela minha boca era apenas o som mecânico das ações programadas para manter a falsa ordem dentro de mim. O ronco do motor que antes foi batida cardíaca. O cheiro de fumaça do que antes foi o perfume de minhas palavras. Eu calei porque não queria te deixar, mesmo já dento feito isso. Era puro egoísmo. Duas horas de conversa e eu não te disse nada além de: fica.
(...)
O sinal tocou. As mãos começavam a gelar. Busco a todo custo uma maneira de conseguir ficar dentro da sala. Não era permitido. Intervalo era intervalo. Todos para fora da cela. Descia como se estivesse indo para a pena de morte. No pátio, mais correria, mais gritaria, sol para poucos, sombra para mim – que não queria ser visto. As rodas se formam, os amigos se encontram, inimigos se confrontam e nós, os excluídos, tentamos a todo custo elevar nosso nível de camuflagem. Inútil. Somos alvo. Hoje eu decidi ser firme e enfrentar o inevitável. Não pare me sentir vencedor, mas para testar meus limites. Tudo armado: eu na parede, eles do outro lado. Eu de mãos vazias, eles munidos de comida. Eu firme e calado, eles rindo e preparados. Atiram a primeira esfirra. Eu não me movo e continuo olhando para eles. Atiram a segunda. Acertam a parede próxima à minha cabeça. Permaneço. O silêncio toma conta de todo o pátio. Cai sobre os tantos ombros o véu da tensão. Juntos, decidem me acertar de vez. Sozinho, continuo a apostar em mim mesmo. Toca o sinal, quebra-se o silêncio, todos sobem, eu também. Mas meu corpo, esse fica.
(...)
A rotina me trazia segurança. Já me bastava toda a oscilação de sentimentos. No meu quarto, com a porta sempre trancada, podia mergulhar num universo à parte. Bem clichê mesmo – fuga dentro de si. Aumentava o volume do som ao ponto de fazer com que a janela tremesse. Esta era minha forma de ficar em silêncio. Os ouvidos, amortecidos pelo vibrar incessante, desistiam de resistir. Rendidos, apenas captavam as sonoridades de modo homogêneo. Era bom se desprender. Deitado no chão, com as costas doloridas tentando se alinhar, eu flutuava. Nem peso do corpo, nem peso da vida, muito menos peso nas orelhas. Eu ouvia, lá no fundo, aquele ruído sutil do suspiro de alívio. Como uma ampulheta, inverti a ordem do tempo e espaço. O caos de fora trazia a tranquilidade para dentro. Grão por grão fui me desfazendo e no barulho fiquei, assim, em silêncio. Eu não mais escutava. Eu ressoava. Disse a mim mesmo: só por hoje, ninguém vai me atrasar.
(...)
Às 22h, eu e meu irmão já esperávamos o barulho das chaves. Era um tilintar muito forte, anunciando a chegada da tempestade. As nuvens cinza abriam a porta de casa e começavam a se espalhar pela cozinha. Derrubavam as panelas, furiosas, e apagavam as luzes. Trovões retumbavam pelos cômodos como se nos procurassem – ou melhor, perseguissem. Tremíamos, torcendo para que Morfeu ouvisse nossas preces e jogasse sobre nós seu sopro sonífero. Não adiantava. A tormenta continuava sua caçada, agora na sala, soltando raios contra minha mãe. Ela, silenciosa, aguentava. Cada gota pesada, cada vento cortante, cada relâmpago atordoante... A tempestade parecia não ter fim. Só ela esbravejava e fazia barulho. A casa parecia ruir. Até que finalmente adormecíamos. No outro dia, o raiar do sol. Céu azul demais, como se estivesse se redimindo pela culpa da noite passada. Meu pai estava de barba feita, sem aquelas nuvens cinzas a cobrir seu rosto. Parecia outro homem – agora não tempestuoso. 

(...)

"Que voz de menina". "Que voz fina, hein?". "Engrossa essa voz!". "Fale direito, rapaz". "Fale igual homem". "Fale, mas fale com firmeza". "Fale!". E quando eu falava, só tinha vontade de me calar. Falava baixo, quase que sem emitir som. Escondia-me no silêncio, já que a voz era a culpada por tantos xingamentos. Responder a chamada na escola? Não era com "presente", era com o braço levantado, apenas. Quanto menos me ouvissem, menos iriam me agredir. Mutei-me. Muito cedo, inclusive. Só que a mente não para de gritar. Ela estava em estado de histeria, lutando contra os demônios que (me) tentavam conduzir até o abismo. Até o sono sem fim. Até os braços do maestro da manhã. Às 7h, estava novamente no meu lugar, calado, esperando por mais uma chamada. - Vinicius!? Ausente.
(...)
Dobro a esquina de casa e ouço o choro. Fino, tímido e sofrido. Pesado. Era desespero. Reconheci na hora. Alguém luta pela sobrevivência pedindo socorro. Procuro, tento fazer algum som para que demonstre minha presença e, então, ele surge das sombras – tão escuro quanto elas. A pequena criatura caminha até mim, agora em silêncio e se acomoda sobre meus pés. Exausta, parece relaxar em paz. Pego com as mãos, olho em seu rosto e sinto o amor se espalhar por meu corpo até se espelhar nos meus olhos. Com a ponta dos dedos, sinto seu coração batendo acelerado. A vida pulsa. Ele é lindo. Kali, seu nome é Kali. Silenciosamente, subimos para casa, seguros de que, a partir daquele momento, um protegeria o outro. Sem dizer uma palavra, agradeci por tê-lo encontrado. Obrigado.
(...)
Antes que conseguisse emitir qualquer som, selou minha boca com um beijo. Ainda que estivesse nervoso, decidi me deixar levar. Era a chance de ser conduzido. De dançar para descansar. O desejo pelava e tudo escorria pelas mãos. A boca que caçava a outra boca, as línguas que se trançavam, as pernas que se lambiam, braços para o alto, quadris para baixo. Miscelânea. Babel. Quarto. Mil palavras se espalharam dentro de minha cabeça – outras mil debaixo do peito – mas só uma escapava no sussurrar incessante: silêncio. Ele sabia me tocar. Conhecia cada verso, cada acorde. – Você está muito quieto! Você que não está ouvindo meu corpo cantar.
(...)
Calaram meu desejo, calaram meu querem, calaram meu sexo, calaram meu amor, calaram minha paixão, calaram meus relacionamentos, calaram minha expressão, calaram vontade, calaram meu coração. No mundo, eu não voz nem vez. Fui silenciado. Condenado à boca fechada. Mas não perceberam que sou filho do barulho. Não entenderam que eu sou a desordem durante a sinfonia, que eu sou a cãibra do maestro, a corda que estoura, o sopro que falha, que eu sou o acorde que não existe, o refrão que nunca se repete. Esqueceram que não se cala os dissonantes. Um dia, abrirei a pandora em minha caixa torácica e a última a sair dela, dirá: 

"Em silêncio, eu sempre me disse tudo".