terça-feira, 2 de abril de 2019

Dhoruba

Quando me calo, faço retumbar o recado no silêncio dos relâmpagos.

Quando falo, elevo o tom do dizer e digo o que tem para ser dito, não recuo, não pisco, de olho fixo, miro o chão e corto o horizonte com meu raio.

Digo uma vez, porque não caio duas vezes no mesmo dizer.

Se eu falo, não é porque sei tudo. É porque carrego muito.

Parto do topo, racho o céu, mostro que nem alto nem baixo vão me dizer como trovejar.

Quem não aprende pelos pés descalços a andar, eu parto o topo e racho o coco até entender que o tempo fecha quando o espírito se deita na birra.

Cheguei não foi à toa! Quero as nucas diante da mim, assim, pedindo um lampejo de bênção, uma quentura pra fechar o corpo quando ele está com ferida aberta e ardida.

De um lado pro outro, os ventos acompanham meu respirar profundo, escuro, sem pressa, que faz tremer até mesmo quem nesta terra não caminha mais.

Poeira não me cega, madeira não me atinge.

Enquanto rodopio, presto atenção nos que enganaram o próprio andar.

Anuncio minha fúria sem nublar o recado:

Hoje eu vou cair. Cair não, despencar.

Endireite seus passos! Ande direito, olhe pro chão, não abaixe a cabeça, abaixe os olhos!

Seus ancestrais estão atrás de você, menino! Ande que nem eles, mas ande hoje, agora – quando chegar, conte a eles o que o amanhã trará.

Eu já terei passado, mas até lá não há ginga que se esquive do meu soprar.

Eu sou a tempestade!

Sou aquele que se anuncia e fica até se esgotar.

A ordem chama, o caos inflama, o pé de água se torna e com o toró aplico minha didática -

Mude quem tiver que mudar, mude o que tiver que mudar, senão eu sopro pros confins do esquecimento aquele que achou que podia se criar no cimento.

Semente nenhuma brota da casca! Vem de dentro o novo, a essência que não morre, mas renasce transformada.

Eu sou a tempestade!

Vim pra varrer, não pra sujar! Vim pra espalhar, não pra bagunçar! Vim pra semear, não pra colher!

Procure por mim na tempestade e não se assuste...

 Quando me encontrar, eu já terei a tudo limpado.