terça-feira, 1 de agosto de 2017

Não respire fundo

Um rastro de pólvora risca o meio da minha coluna. Desenha o caminho percorrido pela fúria quando, num instante qualquer do dia, sinto a implosão ruir tudo dentro de mim. A raiva, que há anos me acompanha, abre lentamente a caixa e pega um palito. Verifica sua ponta, aprecia aquele tom rosado, cômico, inocente e, então, risca-a com a superfície seca de seus lábios até que a faísca é invocada. Ela se aproxima do meu corpo, deita sobre mim, sussurra em meus ouvidos, “Não respire fundo”, e deixa que caia o fósforo sobre o pó acinzentado.

Cada segundo queima. 

Vão por vão da espinha, sinto a quentura se aproximando da nuca. 

Ah, se eu pudesse descrever a raiva que sinto...

(...)

Sob o olhar do lorde, os corpos ajoelham-se vazios, famintos, confinados na miséria da própria existência. Ele, antes um deles, brilha como sol gelado dos confins do esquecimento, reluzente feito pedaço de universo, escuro na pele, brilhante nos detalhes. Cegado pela raiva, penetra com o par de olhos opacos em meio à legião que o cultua. Percebe que a angustia traz aos seus a impotência da ação e decide que é do seu sangue que precisam provar. Do pó de si mesmos, erguem-se os caídos e seu lorde sopra em seus ouvidos o mandamento apagado: “Não respirem fundo”.

(...)

Pistola. Ferro. Peça. Há dias (quase todos) que ando pelas ruas engatilhado. Ando no gingado do bumbo que gira pelo bairro em busca de buraco pra muquiar as balas - aquelas ideias que não são trocadas. Saio com vários pensamentos ricocheteado na cabeça e, com o pente destravado, olho pros lados na fissura de um algo – ou de não ser alvo – como se algo ou alguém estivesse vindo pro arrebento. É puro tormento. Eu suo, eu soo, mas não corro. Todo dia o corpo endurece com se tivesse sido furado, só que não – ele está sempre preparado. Saio de casa sem dar adeus, porque pode ser que alguém ouça e impeça minha volta. Eu só saio, caminho, caço, deslizo, vou pela sombra porque nela eu sumo, não sou visto, não sou encontrado, fico no rastro de pólvora na estrada das costas dele, preparando o berro pra sussurrar na esquina da sua cabeça: “Não respire fundo”. Um corre, o outro escorre.

(...)


De longe, ele observava o movimento da boca à sua frente. Incrédulo, parecia não reconhecer mais aquele rosto. Era, agora, uma mistura de cinzeiro cheio de água com jornal molhado. Algo indesejável, incompatível com a figura que antes tinha direcionado seus sentimentos. Aos poucos, o estado hipnótico foi passando e então a temperatura crespuscular que misturava tons frios e quentes beijou-lhe a pele. Um arrepio, uma sensação de formigamento no rosto, suor nas mãos, secura na boca. A traição. Sua comida favorita sendo servida fria ou sem sal. Um prato vazio – e você sem vontade de cozinhar. Há fome. Muita. Mas ao invés de dormir para que ela passe, você ferve de raiva. A água quente na panela de seu peito começou a evaporar e ele, possesso pela raiva que ria de sua cara agora em banho-maria, ajeitava a espinha como nunca antes. Totalmente ereto, o outro lhe observa assustado e diz: “Calma! Respire fundo”.

Não.   

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Se tivessem nos dito

Se tivessem me dito que o amor doía, eu teria corrido. Corrido para fora do portão, até a calçada de casa, e esperar você chegar sobre o caminhão de feira, com cheiro de cansaço e fruta, de casca dura e polpa mole, lá do alto, a me olhar te olhar. Sempre, no mesmo horário, eu fugiria do meu dia para cair no nosso: um quadrado no calendário marcado com coração, verde demais pros outros, descascado e maduro para mim.

Se tivessem me dito que o amor corria, eu teria doído, pois o tempo passaria rápido demais e mesmo todos os anos segurando a vontade de te provar não teriam me dado a chance de ao seu lado caminhar. Caminhar e caminhar, sem parar, pelas ruas. Conversar sobre o universo com tamanho daquelas algumas horas em que estivemos separados, sentindo a presença um do outro há anos luz. Nossa rotina secreta - que transcendia as esquinas dos quarteirões - deixava pegadas incansáveis que eu fazia questão de transformar em rastro. Assim, sabia como voltar e te trazer de volta comigo.

Se tivessem me dito que o amor nunca morreria, eu teria amado. Mas dei outro nome, chamei de amizade, de amigo, de querido, irmão, de meu aliado. Tudo para não admitir que nascia dentro de mim um pedaço do sempre. Tive medo, pavor, receio, quando engoli o choro, mas não o amor, quando chorei de escorrer, mas sem escorrer o amor, quando gritei de angústia no travesseiro, mas não gritei que queria te amar, quando vi outros lábios nos seus, mas os meus, com amor, aos teus não consegui selar. Era pra sempre, aquele amor era pra sempre, mesmo doendo, correndo, morrendo, era pra sempre.

Se tivessem me dito que o amor intimidaria, eu teria encolhido – e não escondido - o meu pra te mostrar, aos poucos, que a grandeza dele não estava no tamanho, mas sim no peso. Que era pra ser pesado, mesmo, pra fazer seu corpo se curvar, sentir o meu e não ver mais graça na leveza dos dias longe de mim. Separados, leves, juntos, pesados, na terra branca, fincando as silhuetas nos lençóis, regando os lotes de cama com o suor, mistura de amor com pavor. Era pra temer apenas a pequenez dos outros amores que, pelas beiradas, tentavam acessar seu peito para nele encontrarem algum conforto. O meu, você podia encarar.

Se tivessem me dito que o amor crescia, eu teria cabido. Com joelhos esticando; braços desengonçados caindo em torno dos seus ombros; olhos abrindo as cortinas de cada amanhecer; com a voz oscilando entre o grave da discussão, o agudo da aflição e o sussurro da rendição; com todas as dimensões se expandindo, eu caberia. Teria tamanho o suficiente para alcançar o topo das suas ideias e me alojar lá, no pico, usando o seu amor para me esquentar. Mas eu não cresci com ele. Fiquei pequeno demais pra que você se sentisse gigante. Lá do alto do seu caminhão de feira, você me olhou, minúsculo, e não percebeu que...

Se tivessem te dito que o amor é detalhe, você teria me amado. 

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Cobra criada

Na caçada, a presa vira o jogo, revira o corpo e trança o pescoço, inverte a corrida, quando vê já tomou o ferro e o berro agora aponta pra ponta contrária.

E agora quem caça? Qual nuca é mirada? Quem sua agora soa o estalar do gatilho. Quem nunca é caça? Com atraso, chega a hora, sem bater na porta, escorrendo pelos pulsos e economizando ponteiro de quem calculava a morte a cada segundo. Questão de tempo.

Vem buscar, vem pro arrebento do seu peito estilhaçado na bala de sal. A ferida ainda queima, salpicada de pólvora, sem anestesia, sem amortecer, sem massagem. Deixa a sorte ser morte. Questão de veneno.

Respira fundo e busca lá no teu túmulo um suspiro de paz. Agoniza que agora é o momento. Hoje não é dia da caça, é dia de quem caça dor. Grita, chora, implora, pé na sua cara, agora a gente cobra. Pica seu calcanhar até o barril esvaziar. Saraivada de mágoa pro seu peito envenenado. Olha bem pra essas escamas aqui, grava na lápide da sua memória cada palavra sibilada. Quebrei sua casca, caiu seu véu. O revide é remédio pique antídoto pra quem só destilou fel.

Eu não tenho pena, não me deram asas. Já me viu voar? Sou rasteiro, não faço barulho, sinto seu cheiro de longe, armo a mente, armo os dentes, preparo o bote, quero seu calcanhar. Sou sorrateiro.
Vem me caçar, mas vem sem pressa de voltar. Primeiro senta, depois chora, primeiro sente, depois ora, depois espere pra provar se Deus sabe o que faz. Se ele existe e se consegue te escutar. Teotoxina, coaguloArrogante, cosmoAgonia. Com todo esse arsenal na ponta de minha língua, eu jamais me esconderia num pomar.  

Aqui, a serpente não tenta. Ela consegue.  

Aqui não tem gênesis e maçã. Aqui tem gênero lachesis.

Páginas Pretas III

Há exceções.
Há momentos em que não somos.
Nestes momentos, eu me encontro, novamente, angustiado.
Todos estes anos e tudo o que desejei era o que ninguém mais queria:
uma vida normal, uma vida simples, rotina.
Cada dia, um drama, um tiro, um grito, uma panela batendo.
A mãe gritando, irritada, sempre pronta pra partir pra cima.
Batendo.
As marcas ficam, não na pele, mas no espírito.
A alma fica roxa, machucada, assim, cismada. Não confia.
Vazia. Confina. 

Fiquei sozinho te esperando não chegar. Há exceções, menos para o esquecimento.
Fui jogado no limbo do descaso, na noite em que tínhamos algo marcado.
Marcou, mais uma vez, a alma.
Passo sobre o viaduto, olho para a longa linha de carros a rabiscarem de luz o asfalto.
Paro, logo, penso: além de mim, quantas pessoas passaram aqui hoje pensando em pular?
Sanidade, cidade, noite, abandono, eu por eu mesmo, no caminhar, voltei pra casa
Pelo menos o caminho eu ainda sei.

A transição da sensação me muda. Desloca, muta. Perco o endereço, o CEP, não sei.
Só sei que é fúria. Três faces da mesma moeda, sem cara, nem coroa, três irmãs.
Furiosas.
Não tem grito. Não tem briga. Não tem soco. Não tem tiro. Silenciosa, a fúria se faz assim.
Corrói o vácuo, arranha as paredes do vácuo, estilhaça as vidraças do vácuo.
Ela ocupa, toma conta, sem dizer nada. Ela se espalha.
Há exceções. Menos pro excesso de nada.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Os silêncios

São as vezes que me calei que ainda ecoam aqui dentro. O maldito não dito, a conversa muda, o falar pelos cotovelos impossibilitados de tocarem a boca. Tantas vezes que hoje contam à mente história não vividas, mentiras prontas, farsas. É isso que resta quando deixo de falar. Ainda bem que nunca deixo de escrever.
(...)

Naquele dia, eu já tinha o discurso pronto. Chegaria até você e, sem rodeios, anunciaria o fim. Chegando no café, sentei-me diante de você e calei. Não disse absolutamente nada. A conversa seguia, as frases mornas, as perguntas vagas, o desinteresse posto à mesa. E eu não disse absolutamente nada. Tudo o que saía pela minha boca era apenas o som mecânico das ações programadas para manter a falsa ordem dentro de mim. O ronco do motor que antes foi batida cardíaca. O cheiro de fumaça do que antes foi o perfume de minhas palavras. Eu calei porque não queria te deixar, mesmo já dento feito isso. Era puro egoísmo. Duas horas de conversa e eu não te disse nada além de: fica.
(...)
O sinal tocou. As mãos começavam a gelar. Busco a todo custo uma maneira de conseguir ficar dentro da sala. Não era permitido. Intervalo era intervalo. Todos para fora da cela. Descia como se estivesse indo para a pena de morte. No pátio, mais correria, mais gritaria, sol para poucos, sombra para mim – que não queria ser visto. As rodas se formam, os amigos se encontram, inimigos se confrontam e nós, os excluídos, tentamos a todo custo elevar nosso nível de camuflagem. Inútil. Somos alvo. Hoje eu decidi ser firme e enfrentar o inevitável. Não pare me sentir vencedor, mas para testar meus limites. Tudo armado: eu na parede, eles do outro lado. Eu de mãos vazias, eles munidos de comida. Eu firme e calado, eles rindo e preparados. Atiram a primeira esfirra. Eu não me movo e continuo olhando para eles. Atiram a segunda. Acertam a parede próxima à minha cabeça. Permaneço. O silêncio toma conta de todo o pátio. Cai sobre os tantos ombros o véu da tensão. Juntos, decidem me acertar de vez. Sozinho, continuo a apostar em mim mesmo. Toca o sinal, quebra-se o silêncio, todos sobem, eu também. Mas meu corpo, esse fica.
(...)
A rotina me trazia segurança. Já me bastava toda a oscilação de sentimentos. No meu quarto, com a porta sempre trancada, podia mergulhar num universo à parte. Bem clichê mesmo – fuga dentro de si. Aumentava o volume do som ao ponto de fazer com que a janela tremesse. Esta era minha forma de ficar em silêncio. Os ouvidos, amortecidos pelo vibrar incessante, desistiam de resistir. Rendidos, apenas captavam as sonoridades de modo homogêneo. Era bom se desprender. Deitado no chão, com as costas doloridas tentando se alinhar, eu flutuava. Nem peso do corpo, nem peso da vida, muito menos peso nas orelhas. Eu ouvia, lá no fundo, aquele ruído sutil do suspiro de alívio. Como uma ampulheta, inverti a ordem do tempo e espaço. O caos de fora trazia a tranquilidade para dentro. Grão por grão fui me desfazendo e no barulho fiquei, assim, em silêncio. Eu não mais escutava. Eu ressoava. Disse a mim mesmo: só por hoje, ninguém vai me atrasar.
(...)
Às 22h, eu e meu irmão já esperávamos o barulho das chaves. Era um tilintar muito forte, anunciando a chegada da tempestade. As nuvens cinza abriam a porta de casa e começavam a se espalhar pela cozinha. Derrubavam as panelas, furiosas, e apagavam as luzes. Trovões retumbavam pelos cômodos como se nos procurassem – ou melhor, perseguissem. Tremíamos, torcendo para que Morfeu ouvisse nossas preces e jogasse sobre nós seu sopro sonífero. Não adiantava. A tormenta continuava sua caçada, agora na sala, soltando raios contra minha mãe. Ela, silenciosa, aguentava. Cada gota pesada, cada vento cortante, cada relâmpago atordoante... A tempestade parecia não ter fim. Só ela esbravejava e fazia barulho. A casa parecia ruir. Até que finalmente adormecíamos. No outro dia, o raiar do sol. Céu azul demais, como se estivesse se redimindo pela culpa da noite passada. Meu pai estava de barba feita, sem aquelas nuvens cinzas a cobrir seu rosto. Parecia outro homem – agora não tempestuoso. 

(...)

"Que voz de menina". "Que voz fina, hein?". "Engrossa essa voz!". "Fale direito, rapaz". "Fale igual homem". "Fale, mas fale com firmeza". "Fale!". E quando eu falava, só tinha vontade de me calar. Falava baixo, quase que sem emitir som. Escondia-me no silêncio, já que a voz era a culpada por tantos xingamentos. Responder a chamada na escola? Não era com "presente", era com o braço levantado, apenas. Quanto menos me ouvissem, menos iriam me agredir. Mutei-me. Muito cedo, inclusive. Só que a mente não para de gritar. Ela estava em estado de histeria, lutando contra os demônios que (me) tentavam conduzir até o abismo. Até o sono sem fim. Até os braços do maestro da manhã. Às 7h, estava novamente no meu lugar, calado, esperando por mais uma chamada. - Vinicius!? Ausente.
(...)
Dobro a esquina de casa e ouço o choro. Fino, tímido e sofrido. Pesado. Era desespero. Reconheci na hora. Alguém luta pela sobrevivência pedindo socorro. Procuro, tento fazer algum som para que demonstre minha presença e, então, ele surge das sombras – tão escuro quanto elas. A pequena criatura caminha até mim, agora em silêncio e se acomoda sobre meus pés. Exausta, parece relaxar em paz. Pego com as mãos, olho em seu rosto e sinto o amor se espalhar por meu corpo até se espelhar nos meus olhos. Com a ponta dos dedos, sinto seu coração batendo acelerado. A vida pulsa. Ele é lindo. Kali, seu nome é Kali. Silenciosamente, subimos para casa, seguros de que, a partir daquele momento, um protegeria o outro. Sem dizer uma palavra, agradeci por tê-lo encontrado. Obrigado.
(...)
Antes que conseguisse emitir qualquer som, selou minha boca com um beijo. Ainda que estivesse nervoso, decidi me deixar levar. Era a chance de ser conduzido. De dançar para descansar. O desejo pelava e tudo escorria pelas mãos. A boca que caçava a outra boca, as línguas que se trançavam, as pernas que se lambiam, braços para o alto, quadris para baixo. Miscelânea. Babel. Quarto. Mil palavras se espalharam dentro de minha cabeça – outras mil debaixo do peito – mas só uma escapava no sussurrar incessante: silêncio. Ele sabia me tocar. Conhecia cada verso, cada acorde. – Você está muito quieto! Você que não está ouvindo meu corpo cantar.
(...)
Calaram meu desejo, calaram meu querem, calaram meu sexo, calaram meu amor, calaram minha paixão, calaram meus relacionamentos, calaram minha expressão, calaram vontade, calaram meu coração. No mundo, eu não voz nem vez. Fui silenciado. Condenado à boca fechada. Mas não perceberam que sou filho do barulho. Não entenderam que eu sou a desordem durante a sinfonia, que eu sou a cãibra do maestro, a corda que estoura, o sopro que falha, que eu sou o acorde que não existe, o refrão que nunca se repete. Esqueceram que não se cala os dissonantes. Um dia, abrirei a pandora em minha caixa torácica e a última a sair dela, dirá: 

"Em silêncio, eu sempre me disse tudo".

terça-feira, 14 de março de 2017

O dialeto dos amantes




Não há casa para nós. As portas existem, estão ali, intactas, mas as fechaduras não reconhecem nosso jeito de girar as maçanetas. Tornamo-nos estranhos diante da entrada e comuns na hora da saída. 

O abandono cotidiano tocando a campainha debaixo do peito fazia pensar “quando ele volta”; fazia dizer “preciso dar uma volta”, mas sem retorno. Estranhos no mesmo recinto. Perdidos na rotina, companheiros de quarto, mas não de corpo. A gente se deitava e esfriava. Dávamos a volta na cama para não cruzarmos os olhares. Acaba mais um dia com olhos fechados, mas com as costas se olhando. Sem toque.

A tolerância que fez do amor primeiro persistência, depois insistência, envenenou a comida. Por que ainda estávamos ali? Por que ainda vivíamos juntos? O que nos prendia? Ou o que faltava para nos libertarmos um do outro? Na volta para casa, você segurou minha mão de leve. Eu ergui a cabeça que antes mirava a calçada e esperei. Esperei até que você dissesse algo.

- Eu estou aqui.
- Eu sei.
- Estou de verdade.
- Que bom.
- E você?
- Eu estou.
- E está bem?
- Sim. Apenas o silêncio, você sabe...
- Sei, sim.
- Eu te amo.
- Eu também.

Foi na simplicidade que untamos nossos corações. Encerramos os diálogos, as provações, as demonstrações, as cartas, os jantares, os amigos, os familiares, as festas, as datas. Trancamos as bocas, demos a volta no cadeado e então enterramos a chave no quintal. Aquele silêncio que parecia mais o murmurinho durante o velório de uma história a dois era, na verdade, nosso pacto. Tanto foi dito e tanto machucou.

Quantas vezes tentamos explicar os sentimentos e só o que saiu foram palavras tortas, mal interpretadas? Inúmeras. Eu não aguentava mais sentar diante de você à mesa e dizer que não sabia mais o que dizer. Dizer que não tinha mais o que dizer. Dizer sem dizer absolutamente nada. Porque o que eu queria falar não cabia em palavras, escorria, sim, pela ponta dos dedos e desenhava no seu rosto a imagem - muda - que queria ver a cada dia. O som ficava por conta dos cômodos, da madeira rangendo a cada anoitecer, do mundo lá fora exigindo explicações. Aqui dentro de nós, eu queria silêncio. E você também. Mas tive que lhe dizer algo...

- Você me sente?
- Sim. Por quê?
- Porque às vezes eu mesmo me perco.
- Por isso sempre pego na sua mão.
- Você sente falta de discutir?
- Um pouco. Só quando sei que você está irritado.
- Ultimamente ando inquieto.
- Sim. Por isso mesmo que gosto de discutir. Assim você fala o que te incomoda.
- E o que estamos fazendo agora?
- Eu estou segurando sua mão enquanto você tenta se perder.

Há com olhar para um relacionamento e admirar a paisagem morta? Há como ver beleza no vácuo? Nos cantos silenciosos de um universo em constante expansão – e extinção? Há como viver não convivendo? Era isso que me perguntava toda vez que a cabeça repousava sobre o travesseiro. Buscava explicações terrenas para questões que nasciam e se firmavam no teto das ideias. Mais silêncio.

Nós nos gostávamos com tudo o que tínhamos. Principalmente com o que não tínhamos. A voz, a vontade de falar, a vontade de trocar uma caminhada sem dizer nada por longas horas sentados, dissertando sobre o incerto.

Eu amava nosso silêncio. Porque através dele eu conseguia alcançar o melhor de você. Através dele, eu sabia que você me alcançava e entendia. Era nossa conversa secreta.

O dialeto dos amantes.

Até que um dia você me disse algo.

- Adeus.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Por mim


Na sonolência do meu olhar, escondo o desejo imenso de repousar sobre o seu peito. Saio pra rua, caminho meio torto, esperando que a brisa da noite sopre meu rosto e tire esse calor todo. 

Penso em nós. Soa bonito dentro dos ouvidos, tipo sussurro mesmo. De leve, você não diz que me quer. Não diz nada, silencioso, distante, só vem e vai como quem não sabe o que faz – mas sabe com quem faz. É uma mistura de falta com contemplação, aquela visita que se faz apenas com as lembranças. Não tem batida na porta nem sorriso nas mãos. Não tem toque de campainha ou abraço de coração. É só a vontade, mais uma vez, fervendo o sangue.

As luzes despencam do céu pra forrar o asfalto. Pelas vielas, astros espalhados, escondidos, mas reluzentes. Gosto de me perder no jardim de cacos, caçambas, ralos. Parece que os pés se sentem em casa e caminham descalços pelos cômodos. Por isso eu ando. Ando muito, sem nenhum incômodo. 

Gosto de ir pra longe da sua voz... Assim, eu sinto que ecoo. Retumbo aí dentro de você e me espalho tempestuoso pelo céu das ideias, nublando todas as brigas que tivemos. Tem dias que o meu tempo tá fechado, mas ainda assim, quando você ri, eu me abro.

Passo atrás de passo, eu sigo pelo caminho das quebradas, subo no ônibus e escolho qualquer parada. Veja só, eu me vejo só, agora aqui, rimando sem querer, pensando sem querer, sentindo muito, sem querer. A cada sinal que entrega a tiazinha pra sua goma ou o senhor pro seu culto, eu permaneço lá no fundo, oculto, calado, mas com a cabeça a mil – sem dar sinal. 

Com os ouvidos nos fones, a música estabelece um diálogo tranquilo, versando comigo, contando “Quando você vem”. Como você chega e me desestrutura. Tem caos que a gente pede mesmo. Que a gente quer. Tem desordem que alinha nossa espinha, pressiona a nuca, faz a pressão subir e descer sem parar. Aquela muvuca que encaixa na nossa. Mas não pode ser sempre assim, senão vira bagunça.

Com o rosto colado na janela do metrô, vejo a noite cobrindo as casas, apartamentos, avenidas, postes e suas luzes de mercúrio. Sinto o pé no chão de aço se movendo rápido e fico em órbita. Será que tô mesmo na terra ainda essas horas? Eu penso demais, briso demais, sopro demais vários pensamentos no teto da cabeça. Eu me falo – calado – e continuo dizendo frases e mais frases, num eterno cosmos. 

Assim vou me enchendo. Tem horas que cansa. Tem horas que eu lanço uma sacada muito boa e olho pro horizonte como se ele me admirasse. Mas sempre falta caneta pra registrar. Então, só deixo passar. 

Tem horas que a mente atua como ponta de lança e me fura. Sinto aquela dor se espalhar pela carne de um jeito que chega a ser suave. E então eu volto. A realidade me chama cedo e sempre diz: “já acordou?”. Sim, sem hora.

Sou filho da cidade com o concreto. Da mãe pé no chão cujo solo é de asfalto, sem marido, garantida, noturna, mal-humorada à luz do dia. Eu sou filho das esquinas, das vendinhas, das quitandas, das feiras, das pracinhas. Sou filho da quebrada, sempre firme, sempre triste, sempre recuperada. Minha mãe é estilhaço de amor, é xepa de carinho, ela sobra no final de cada hoje e renasce no começo de cada amanhã. Está farta, seja de cansaço, de fome, de tristeza, de problemas, de gente, só sei que ela é - e está - farta. Pontual, sem reclamar pra fora, chorando por dentro na beira da pia, com a barriga molhada no tanque, ela trava a guerra diária contra um exército de chances - escorridas. Quando chove, a cidade-minha-mãe anda cautelosa – e quando ferve a sola, ela desfila como quem já conhecesse os caminhos do inferno. Minha mãe é urbana, é várias em uma só, mas uma só pra vários. Porque ama, insiste em quem ama. Ela é bairro, lar, casa, ela fica, limpa, sempre se desgasta. Minha mãe só se liberta quando faz de si feriado. Quando perde o próprio CEP e joga num terreno baldio o gosto amargo da boca maldita que a maltrata. Quando folga e é folgada. Sou filho da cidade e meu pai, como todo pai, é só saudade - aquele sentimento concreto.

Por isso que hoje eu ando. Porque a cidade me ensinou todos os caminhos pra esquecer de te esquecer. Ela me ensinou como me perder. Vou, vou mesmo, para sentir cada parte do meu corpo reagindo ao veneno nos teus lábios.


É para me curar que eu vou e, agora, nem me pergunto mais “– Quando você não vem?”. Relato, troco interrogação por desabafo, pedido por despedida e dúvida por afirmação. Sento, invento um mapa qualquer, traço algumas rotas imaginárias e começo a vagar.   

Vou pela cidade.

E por mim. 

sábado, 21 de janeiro de 2017

Chorar

A chuva vem. E não se questiona pra quem. Quando? Onde? Como? Pode? Chega e cai. Certa de si, dá a si. Despenca e vai.

Ela só molha - e olha você reclamar. A chuva, essa Shiva de fora que banha a pele e esfria a alma, só evapora quando o peito acelera a manda pras pernas o impulso pra corrida até onde estiver coberta - a área.

A chuva não se importa. Você que se chova!

Para de pluviar - e de torrente mole - e começa e pensar como se esquivar de quem tem todas as palavras pra te deixar sem um pingo de gota serena - daquele jeito que escorre. Sua raiva evapora. Oras, pouco me importa.

A chuva só vem e molha. Aceita que ensopa - menos.

Sim, nós já tentamos amarrar a cara, trancar a lábia, morder o beiço, pensar num jeito de não chorar. Mas para que todo esse trabalho? Chorar não é o máximo?

Na tela, na peça, no palco, longe do asfalto... Falta. Não ganha prêmio quem esgoela? Não mama quem chora? Vocês dizem assim, toda hora. E agora, justo agora, cala?

E quem chora sozinha na rua, na casa, no quarto, no banheiro, naquela viela? Ué, vi ela ali, sentada, sozinha, perdida nas próprias desgraças - e cadê o guarda para defendê-la da chuva? Ficou sem graça?

A real é que ninguém compartilha lágrima, guarda ou angústia- quem dirá chuva.

Quando se propõe a ser tempestuoso, não tem erro: é tirado de cabuloso, pique rainha da angústia, senhor do drama, choroso, egoísta, "mais do mesmo".

Poucos e poucas estão preparados pro voo das moscas que dura dois dias de esforço e menos de um na boa, saboreando o corpo- já morto.

Assim eu tranço essa conversa, mesclando a linguagem da rua com a erudição das peças. Tudo pra dizer que eu chorei, chovi, escorri e fiquei...

Fiquei bem debaixo do meu guarda-lutas. Protegendo cada vitória da derrota que tenta - mas não inunda.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Melaço

Hoje tentei sair de casa
mas não consegui. 
Sim, tranquei a mim - por mim.
Eu mesmo fiquei parado dentro do quarto procurando um canto pra poder rodar
sem fim. 

Música, bebida, aquela fórmula sem tabela que, periódica (na mente), marca os dias para eu (ou a gente) me encontre em casa, assim, azedo - nada fresco, mas querendo refrescar a cabeça quente.

Gosto de guarda-chuva na boca com uma ressaca que não recua feito mar, pois vou te falar: nem mar eu vi. Não choveu, nem faltou gente. Era uma quarta - ou quinta  - e eu precisava trabalhar. 
Infelizmente, não é a sexta vez que eu desisto de arriscar pra ir ver os entes. 
Quando a pele já estava forrada de cicatriz, insisti e decidi não riscar novamente. 
Fiz o que parecia ser certo pra não sangrar ou abrir ferida no meio da feira.
Ia. Não fui. Mas Queria. 
E nem mais o carrinho de peão era capaz de puxar o que desde o começo do ano eu desistira.
Larguei de mão a alegria.   

Então dancei mesmo. Sozinho. Num espaço pequeno, esbarrando no raque, 
batendo os pés nas quinas... Assim eu fui.
Foda-se. Decidido.  
Era pequeno, mas me servia. 
Suei, suei, suei e não chorei. 
Lágrima agridoce? É o caralho! 
"Ah, mas então você é desses de que homem não chora?"
Que papo é esse, princeso, tá na noia? 
Homem não só chora como implora de joelhos.
Ele(s) fica(m) pequeno(s) e acha(m) que não tá(ão) de escolta,
mas quando olha(m) em volta, vê(eem) que quem não chora não 
(re)clama seu lugar na cama. 
Suplica. plural, porque sozinho não aguenta ser. E volta.  

Óbvio que eu chorei, 
mas meu choro é contido,
pequeno, no quartinho, partido em um parto 
assim... Só no soluço, escondido. 
Chovi por uma estação inteira mesmo. 
Esqueci de desembarcar. Foda-se. O problema é comigo. 
Inundei o vagão porque não dei atenção.Vai saber... 
Aquele coração idiota, cheio de lorota, bem palhaço 
Bem Maria Fumaça que eu, usada - e não ousada, esqueci de desembarcar ao amanhecer...
Perdi. 
  
Assumi na frente de todos e todas que fui feita de otária e vaguei, ensimesmada, pela contramão. 
Nos restos da minha desgraça, veja só - solitários -  os estilhaços que mastiguei.
Aqueles farelos de quem achou que laço não se rompia com a imensidão. 
Dessa vez, não lamentei. 
Na beira pia, esta louça virava riacho e escorria, finalmente, para uma conclusão. 
Já lavou? Já levou? Já secou? Sequei. 
Conduzindo para o mar de maré baixa,
a água turva me abandonava. 
Pelo ralo cheio de areia eu entendia o quanto fui raso.
Cheio de besteira, sem graça. Bem escasso. 
Querendo mais do que a vida me dava. Mais do que o deserto, seco, proporcionava.   
Silencioso, bem no final de tarde, sem sobra, pedi, na dúvida, o que não nego nem passo:
Disse: sobe aqui, grita do terraço que eu abro sem fazer doce. 
Me laço.  

Grita que eu abro. 


domingo, 2 de outubro de 2016

Pressão alta

Todas as vezes que o teto ficou mais baixo e minha pele gelou, eu tive certeza que minha maldição seria a pressão baixa. O cair do ritmo, esfriar do sangue, a sensação de ser apenas um detalhes prestes a desaparecer. Comecei a reparar em quais situações eu me sentia assim, baixo, doente e disperso. Eram sempre os momentos em que eu me permitia perder; não mais carregar o fardo de ser vitorioso - ou sobrevivente. Eu me permitia não ser; não fazer; não falar; não caminhar; não olhar; não ouvir; só sentir. Minha pressão caía justamente quando os sentimentos subiam à flor da pele e, num momento de ebulição, evaporavam a vontade de viver. De continuar. De fazer tudo o que não fiz - por fora. Mas vivi por dentro.

A lentidão ao meu redor conduzia a dança que nunca tive. Agora, eu descreverei como é a descida.

Passo a cada passo, eu me firmo. Ando como se nada tivesse acontecido. Finjo não ver o que está estampado diante de mim: um mundo estranho; um ambiente pequeno demais - apertado demais; eu caminho como se nada tivesse acontecido, mas eu sei que aconteceu. Sei porque eu desapareci de mim. Passo a cada passo, eu desço para conferir os ruídos no andar de baixo. Quando chego, vejo rostos cinzas a gritar. Eles ordenam que eu saia. Eu saio, subo um degrau, mas não é o suficiente. Ainda ouço seus berros. Então, este barulho me tira a atenção. Biologicamente falando, este é o momento em que o "zunido" nos ouvidos tem início. Como um cabo de guitarra mal plugado, ele quebra a harmonia. Tira a paz. Aos poucos, eu me deixo hipnotizar e então, dominado, sofro com o resto do corpo. Os gritos, eles me expulsam de dentro. Obrigam-me a ir para fora.

Desespero. Angústia. Medo. Vergonha. E seu eu desmaiar? E se alguém tiver que me socorrer aqui? E se eu tiver que pedir ajuda? Incômodo. Eu não quero incomodar. Não agora. Não aqui. Mas estou tão mal. Tento lutar, eu juro que tento. Respiro fundo e pausadamente - como me ensinaram -, mas não funciona. Enjoo e então vou perdendo as forças. Tudo gela e seca. Deserto frio no meio do dia, no meio da mesa, da risada, da festa, do ensaio da banda, do beijo, da cama. Quantas vezes eu desci para o andar de baixo e fui obrigado a voltar aos berros? Não pertenço a lugar algum e essa caminhada me tira o fôlego. Eu fico sem ar, torcendo para que termine logo este sofrimento. Mas ele não termina. Porque eu sempre continuo. Sou eu que não termino.

Eu venci a queda.

Infelizmente.

Volto, apático, pendendo de um lado para o outro. Reconheço-me e não gosto do que vejo. Esta é a volta. Assim que eu volto. Em luto, depois de tanto ter lutado para não sucumbir aos caprichos da vida. Ela me disse: por que sofrer tanto? Vá. Eu tento ir, mas volto. E, para piorar, volto o mesmo. Nem melhor nem pior: o mesmo. Aquele zero, ponto de "não partida"; o marco fadado ao esquecimento; nulo; persistente desistente. O zero. Eu volto zerado, sim. É assim que me sinto. Começo a me preencher novamente com vazios. Você entende o que é transbordar de tanto se encher de vazios? Isso se chama pressão baixa.

Pressão baixa é se encher de vazios até não aguentar mais. E quando você transborda, você volta. Do zero. Para lugar algum. Não deixa rastro nem saudade. Apenas volta. Esquece as chaves, mas lembra como entrar na casa pelos fundos. Esquece o cheiro do seu quarto, mas lembra como preencher cada cômodo com sua vontade de não voltar. A pressão cai no exato momento em que eu sou forçado a ser material novamente. Em que o universo me dá um lugar na sala, uma almofada para colocar sobre as mãos e esconder as unhas pintadas. A pressão cai quando eu volto a um lugar que me anula. Que me faz sala, mas não me faz estar.

Ainda assim, se agora estou aqui - situado nas letras, deitado nas entrelinhas - é porque de alguma forma eu consegui subir alguns degraus. Poucos, sim, eu sei. Mas subi. Subi para olhar como estão as paredes. Eu sempre quis paredes bem lisas, pintadas, arrumadas daquelas que confortam ao invés de confrontar. Mas nunca tive. Mesmo assim, subo. Olho e vejo a tinta descascando. Vejo farelos, imperfeições, mas vejo memórias também. Aquelas lembranças que nunca chegam ao andar de baixo. Sabe aquelas memórias que nasceram para ficar no topo do tempo? Refletindo o céu e resenhando o universo? Então, são elas que estão marcadas nas paredes antigas. Eu subo e me vejo novamente no lar. Meu lar. Escondido de tudo e todos, apenas se fazendo a cada instante do passado - num eterno retorno. E é isso que o andar de cima me traz. É isso que me faz subir - que faz minha pressão subir. O lar. Este eterno retorno. Onde eu me reencontro cheio de passado, vivido o bastante para saber que a pele aguentou. Endureceu e aguentou.

É no andar de cima que recebo visitas. Neste andar superior, eu consigo servir um café ou alguma outra bebida; sou capaz de puxar conversa; rir sem querer chorar; abraçar quem nunca perdoei. É neste andar de cima que eu me sinto alto o bastante para alcançar o sol e deixar que ele aqueça o rosto tão marcado. A cara tão fechada. Janelas abertas para que os olhos enxerguem o resto. Aquele resto que nunca se alcança do andar de baixo. Quando eu subo, eu me sinto alto. E me sinto alto quando a garganta se rende ao doce sabor do álcool. Sim, é aqui que eu mato a poesia e faço dela verdade. Nua, crua, sem ritmo e com frio. Mas ainda assim, alta, superior, na superfície.

Alto, eu consigo finalmente preencher os vazios. Caio nas graças das piores tragédias e me recuso a descer novamente. Assim eu sigo, rumo à porta. Recebo-me, cansado, mas ainda de pé. Ainda alto. E então, a palidez dá lugar ao rubor. Cá estou nós, eu e eu, agora juntos, aquecidos.

A pressão sobe novamente com uma simples gota. Salgada, sutil e ritmada. É o fim do desgosto; o fim do corpo; o fim do copo; e o fim do sono.

É este o começo do choro.

A chuva do lado de fora que me eleva. E me leva novamente para o lugar mais alto em mim.

O coração.