terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Esperar a lança pra por um fim em tudo isso

Parece que quando não temos mais nada a perder é que começamos a ganhar.

Perdi meus pais aos 6 anos. Eram tantas discussões, gritos e ofensas que acabei matando os dois dentro de mim e daí em diante não tive mais ligação nenhuma com eles. Habitávamos o mesmo espaço e, em alguns casos, dividíamos as mesmas necessidades. Apenas o básico pra continuar vivendo.

Ganhei tempo, idade, cigarros e bebidas. O dia só prestava para dormir. Trabalho era uma merda. Escola uma merda. Obrigações de merda. Tudo se resumia numa porcaria de vida repleta de lixo ao meu redor. A comida fedia, a água era turva e minhas unhas viviam sujas.

Nunca fui bonito. Magro, olhos grandes e cansados, cabelo ralo, dedos tortos, pernas finas e orelhas alargadas. Talvez meu sorriso fosse a única coisa "menos feia" a compor o que sou. No começo da adolescência isso foi um problema. Depois de um tempo eu nem me importava mais, estava tão chapado que era impossível me reconhecer diante do espelho.

A lista de motivos que me levaram a usar drogas possui frases universais do tipo: "Problemas familiares, falta de estrutura familiar, ausência de afeto familiar". Família em tudo. E em nada, ao mesmo tempo. Servem para uns, não para mim.

Sim, meus pais sempre brigaram bastante, mas carinho nunca me faltou. Comecei a me drogar porque quis me drogar. Porque não via ligação alguma com a vida e apostava todos os dias comigo mesmo que sucumbiria aos efeitos dos tóxicos em pouco tempo. Pelo visto estou perdendo até hoje.

Não fui influenciado por amigos. Todos eles tinham consciência das desgraçadas trazidas pelo uso de tais substâncias. Eram pessoas muito boas e empenhadas em alcançar o topo da montanha chamada "sucesso". Tinham belas namoradas e namorados, problemas do tipo: "não vou conseguir comprar um novo celular neste mês, mas no próximo...". Viviam, e eu achava isso fantástico de se assistir. Enfatizo: assistir, apenas. Como no cinema. A gente gosta porque sabe que não vai passar da tela. Só vai passar na tela.

Mudei. Parei de me matar com tanta frequência. Agora são só cigarros. E a vida melhorou? Não, mas consigo ficar quieto ao invés de despir as desgraças que assolam minha mente. Deixei de fazer isso em festas, reuniões de família, amigos etc. Infelizmente, tive que me tornar aquilo que sempre odiei: uma pessoa consciente.

Consciente do quê? Diga-me! Que mundo podre é esse em que a vida é imposta como máxima e mesmo na miséria - seja ela física ou mental - você é obrigado a cumprir toda a "agenda da felicidade estereotipada" e sorrir ou abraçar pessoas nos muitos feriados ao longo do ano? Minha pergunta não passa de uma resposta com ponto de interrogação. Fuga literária.

Sou eu quem habita o caos instalado nas bordas do pensamento. Arranho as paredes da minha mente como se fosse possível escalá-las. Deve haver um topo, um teto, algo que me deixe tão alto, mas tão alto que o ar me faltaria não pelos pulmões, mas pelas veias da razão. Faltaria-me razão o bastante para voltar ao solo da consciência e minha cara não mais ficaria afundada na lama.

No âmago do poço que se criou aqui dentro, encharcado seu fundo de lágrimas...
Fez-se assim, da minha alma, um mar morto. Onde os batismos de fogo contemplam a existência com o sono dos desistentes.

Quer mesmo saber qual droga é a minha favorita? A que mais me mata e maltrata o corpo? Sim, ela é bem fácil de se encontrar. Está em cada esquina. Em cada suspiro. Nos finais de ano e começo de semana. Na porta das escolas e universidades. Dentro dos hospitais. No interior das igrejas e templos religiosos. Ela está  no cartório, na lanchonete, no teto da sua casa e no chão do seu quintal...No seio da mãe. Na carteira do pai. Não é vendida. Ela simplesmente mente, é e está.

Essa droga tem nome sim. Esperança.



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