domingo, 14 de fevereiro de 2010

O sentimento sem nome




Mas como assim? Eu tenho que te explicar mesmo? Não é por que me enfiaram nessa droga de lugar que eu preciso mesmo falar de mim. Quem achou os problemas não fui eu, foram eles. Então pergunte a eles e me deixe em paz.

Quando eu vi aquela enorme "casa" rodeada de árvores já logo pensei: "Porra, vão me mandar acordar cedo para cortar grama e fazer exercícios". Senti tanta raiva que pensei várias vezes em estourar o vidro do carro e fugir. Mas no fundo eu sabia que a cada fuga o lugar ia se tornar pior, de árvores e grama à cela fria e cheiro de cachorro molhado. Foda-se, eu já estava na merda mesmo. O que mais podia acontecer? Tiraram todas as bebidas do meu quarto e os objetos cortantes também. Grande merda, pessoas lutando pela vida de uma pessoa que não faz questão de viver. Não adianta nem mesmo vir mostrar videos e cantar musicas de Paz, cada um sabe do que lhe faz mal. Se não morre de fome, ou frio , morre-se de desgosto, enfim , morre da porra que você quiser. Não to nem aí, apenas queria ficar só.

O lugar por dentro era idêntico a um hospital e claro, as pessoas como sempre fizeram aquela cara de aluno americano quando vê a líder de torcida gostosa passar pelo corredor com os cabelos ao vento... To longe de ser líder, muito mais longe de ser gostoso, mas as caras eu garanto foram iguais as do filme. Oferecer um cigarro ninguém ofereceu. Bando de filhos da puta.

Normas, quarto, roupas, drogas, blah, blah, blah. Já não fizeram 200 filmes mostrando essas coisas? Puta merda, eu não resisti e disse para a velha gorda "Ok Woopi Goldberg, aonde posso dormir sem ser cortado em fatias?". A primeira noite foi um lixo, se eu disser que dormi é mentira. Fiquei olhando para o teto contando todos os passos até o inferno quando de repente uma enfermeira entrou e me presenteou com ótimos comprimidos. Dormi, fato.

Dias vão passando, a irritação cresce. Eu nunca achei que devia estar ali, qual o problema em beber durante a semana? Qual o problema de não saber dizer aquelas coisas de cartão de Dia Dos Namorados para quem se ama? Que inferno! Repouso de cu é rola. Isso aí foi medo de me deixar na rua e depois ter que sair do conforto de casa para reconhecer um corpo mutilado. Droga, acho que estou roubando remédios demais, ai começo a delirar ou quem sabe estou falando a verdade que paira na minha cabeça? Grande bosta, quem vai me ouvir? O cara do lado que repete o dia inteiro "Eu vou ser feliz, ela me ama e vai voltar , eu vou ser feliz, ela me ama e vai voltar". Se eu bater novamente nele, vão me levar para o tratamento de choque. Sortudo do caralho.

Primeiro Mês

Queria saber como funcionava a cabeça do miserável que escreveu esses livros sobre "Mente humana". É de uma arrogância sabe? Ele nem imagina como eu sou, acha que está a par do que acontece no meu mundo, mas não está. Ele fica dando pistas de como as coisas vão acontecer, a hora que elas vão explodir... Caralho velho escroto filho da puta você acha fácil falar dos outros e escrever sobre os problemas deles porque é isso que ocupa sua mente e te impede de ser igual a mim. Se você se rendesse ao extremo do sentir e não passasse a vida dissertando talvez pudesse falar um pouco de mim. Ok cretinos, eu escrevo também, muito, mas não fico aí dizendo quem é perturbado, quem é viciado, quem vai poder ver a mãe nas próximas semanas. Vai se foder, eu não aguento mais, eu penso muito nas outras pessoas e elas me atormentam de longe. Quando se está aqui fica fácil perceber que ninguém nunca viveu por você, que as pessoas estão com as vidas delas e você é apenas aquela lembrança que alguém resgata na hora de rezar, para parecer bom, piedoso e garantir seu lugar no céu. Eu sinto que eu sou o mesmo, mas as pessoas não me dizem as coisas que diziam antes com amor e carinho, elas vêem em mim uma fuga para as suas próprias imperfeições. Falam de mim para evitar falar de si mesmas. Não as culpo, eu fiz isso só que ao contrário, falava de mim para não dizer a elas o quão patéticas pareciam.

As coisas aqui estão normais, se é que essa palavra entra no contexto. Conforme fui conversando com os parceiros pude perceber que eles também já passaram do ponto, que nada aqui os chama a atenção. Uma clínica para drogados que só os ajuda a substituir as velhas porcarias por novas porcarias, mas estas registradas pelo governo. Meu pau com fritas para o governo. Tem um louco aqui que fica observando meus passos, nunca me disse nada , mas me olha diretamente nos olhos, acho que nem deve ter percebido que eu tenho pernas, braços, orelhas alargadas.

O cara que olha

Para matar as malditas horas de sol eu fingia que estava lendo e que a forte luz atrapalhava. Aí ficava na sombra e os outros se matavam na porcaria do jardim. Eles me davam um cigarro que matava menos. Cheguei a pegar o suco de abacaxi que davam no almoço, guardar debaixo da cama e depois de seduzir uma faxineira misturei álcool de limpeza e bebi. Orra, você não está nem ligado na maravilha que foi, eu olhei para tudo aquilo e comecei a rir, rir, rir, rir, rir... Aí tive uma parada cardíaca devido a uma reação que os medicamentos tiveram com o álcool. Olha, eu pouco me fodi para o caso. A faxineira era uma vadia mesmo. Várias vezes eu a vi dando em cima do louco que me encarava, mas ele sempre dizia algo no ouvido dela que a fazia tremer e ir limpar as merdas no banheiro. Um dia, enquanto eu lia de verdade na sombra, ele se aproximou. Filho da puta veio acabar com minha paz. Dois meses e eu me orgulhava de não ter laço algum ali, já que eu sabia que não era aquele o meu lugar.

Ficou me olhando, depois disse com uma voz de radialista pervertido: - Posso me sentar aqui ou vou ter que te dar álcool também ?. Adoro a ironia, principalmente quando ela me permite responder: - Pode sentar sim, quanto ao álcool fique tranquilo, eu não costumo cobrar de retardados que transam com faxineiras fedendo a merda. Ok, foi nossa maneira de dizer "Olá, tudo bem ?". Nós rimos, e ele perguntou o que eu estava lendo. Bem, ele riu mais ainda quando viu o meu "livro". Era um caderno totalmente vazio, sem nenhuma palavra. Me perguntou como eu fazia aquela cara de quem estava na melhor parte do livro, e ai eu disse "Nessas horas eu estava lembrando dos dias em que eu ficava tentando achar um sentido em não me manter alto". Toda vez que eu pensava nisso fazia uma puta cara de sério, que bosta. De resto foi só silêncio, trocamos alguns comprimidos, pois o diagnóstico dele pressupunha outros remédios. Esse ato foi como trocar um abraço e ir dormir. Daqui em diante eu vou traduzir o que aconteceu.

A tradução do "nós"

No começo eu comparecia a análise com mais frequência, não por vontade, mas por obrigação. Era uma chance de mostrar que eu tinha me tornado um otário e que aceitava o mundo. Mas aí a frequência foi diminuindo, não por falta de vontade minha, mas porque os próprios analistas não queriam perder tempo com meus testes lúdicos. Eu conseguia transformar um texto em uma receita de bolo, e achava pornografias e declarações de assassinatos em bulas de remédios. Sim, era engraçado, mas também aumentava 3 semanas no meu tempo de permanência naquele lugar. Foda-se, agora eu já conseguia me distrair. Ste, o cara que olhava e não dizia nada, na verdade não se chama Ste, mas é assim que eu gosto de chamá-lo, começou a dar sentido nos meus dias. Ele me contou os ocorridos e tal , só que não foi como uma sessão de "viciados anônimos" onde você só melhora quando ouve um problema pior do que o seu. A gente foi falando de maneira satírica, irônica e nossa, eu ria muito. A doença se tornou um laço forte entre a gente, estávamos buscando fugas dentro de um lugar impossível de sair. Diferente dos filmes , aqui não tinha uma saída debaixo da terra nem mesmo portões fáceis de pular. Nós paramos de tomar os remédios. Eu voltei a escrever e ele disse que queria ser cada personagem meu e que em cada dia eu o matasse de uma maneira diferente. Porra, sem nada para fazer eu só podia aceitar né? Ele se encantava com as maneiras sádicas que eu usava para matá-lo, e as vezes nem motivos eu dava. "Acordei , olhei aquela merda de sol e os passarinhos cantando, pensei - Não é um dia para mim- pulei da janela, não morri ... Fui tomar café todo sujo de terra , meu pai bêbado deu um tiro na minha cara". Foda-se, ninguém aqui iria receber um premio de literatura, mesmo que fizesse uma releitura fantástica de "A Bíblia Sagrada". Black humor. Nós rimos muito durante esses textos, e aí um dia ele me disse que pensava em sair dali. Foi quando as coisas saíram dos textos e começamos a viver algo mais real.

O que há de real na loucura

Eu não sei se queria mesmo sair, mas sei que faria um bem para o meu orgulho, que havia virado um monte de vômito na minha cama. Não pensava em beber, até pensava só que me fazia ouvir um leão dentro de mim pedindo por mais seis doses. Ste corria contra o tempo. Ele era viciado em cocaína e não se recuperava tão facilmente , porra, não há um "facilmente" em nenhum caso de recuperação de drogados, mas ele tentava. Eu havia feito uma espécie de guia para ele, lá estavam todas as possíveis coisas físicas que ele poderia fazer nos momentos de crise, e todas as outras coisas impossíveis que ele poderia pensar e controlar o corpo. Ele descartou as coisas reais, e preferiu ficar com as impossíveis. O engraçado foi que ele riscou metade delas e no lugar escreveu meu nome. Achei estranho, mas ao mesmo tempo bonito. Sempre achei um pouco de beleza na bizarrice. Na verdade o que me deixava encantado era a capacidade de me surpreender, e isso ele tinha.

A capacidade de me surpreender

Minha família veio me ver. A igreja disse que era o certo a fazer. Dei um beijo na mãe que não parava de chorar, dei um abraço no irmão que falava sem parar e pedi a assinatura do meu pai para provar que ele passou a visita toda sem sofrer agressões físicas ou psicológicas. Foram embora, a família do Ste também, Um pai feio pra caralho e um irmão com cara de canalha. Eu descobri o que o Ste dizia para a faxineira e que a fazia sair com cara de bunda. Ele dizia que o irmão dele a viria visitar em breve e que com ele viriam gramas consideráveis de cocaína. Aí perguntei para ele: Tá e daí , o que isso tem a ver com a cara de idiota que ela faz ?. E ele respondeu: - Cara, ela é tão viciada em cocaína quanto eu e quanto você no seu suco de cana, daí ela morre de inveja e saí. Achei ridículo, esperava bem mais, sinceramente fui até dormir depois disso, mas o tonto fui eu de achar que estava num filme e que iria ouviu ele dizer "Ela faz aquela cara porque sabe que eu vi seus três peitos e que é um travesti". Relatos "fail". Nós achamos um lugar no jardim muito bom, com umas árvores bem altas, lá ficavamos madrugadas inteiras conversando , teorizando, criticando e claro, tomando remédios para manter aquela névoa roxa, meio verde e com forma de cavalos. Até que um dia a vadia da dona do bordel arrancou a árvore para construir um estacionamento maior. Eu e Ste aceitamos o desafio dela, e devolvemos o golpe. Pegamos caixas de remédios vencidos, litros de produtos de limpeza inflamáveis (cortesia da nossa mais nova amiga de infância junkie, Débora) e caixas com velhos relatórios de pacientes mortos ou irrecuperáveis, juntamos tudo, colocamos no carro da desgraçado e aí você pode imaginar o que aconteceu. O carro se fodeu e nós também, um idiota que tinha medo de fogo começou a gritar , a velha olhou pela janela e nos viu. Separaram eu e Ste e a faxineira foi demitida. Ele me mandava bilhetes todos os dias, disse que estava sentindo falta de morrer pelas minhas palavras. Comecei a matá-lo novamente , matando o tempo também.

Dizer olá é equivalente a dizer adeus

Depois de 1 mês nos encontramos novamente. Ele estava com cor, não parecia um pano sujo. Confesso que achei uma porcaria, gostava de ver ele como um vulto, pois me sentia vivo ainda. Conversamos o dia todo, e ele me disse que queria muito sair dali. Eu me lembrei de quando nos falamos pela primeira vez, a vida ali seria simples para nós, mas fora dali o mundo era grande demais e com certeza nos separaria. Porra, aí você começa a ser gente novamente e a cair nas utopias de sempre, achando que tudo vai dar certo mesmo saindo da zona de segurança. Era como dizer "olá mundo, adeus Ste". Eu não ia querer nenhuma lembrança dali, e ele seria uma delas. A namorada dele havia se casado e ele me disse que nem lembrava direito do rosto dela. Bem, isso é compreensível já que a vagabunda era viciada também, em estética, vulgo plástica. Pensamos em arranjar um trampo no começo e alugar um lugar simples para ficar, depois com o tempo íamos nos ajustando e aí cada um seguia seu rumo. Mas eu não era mais tão tolo assim, tudo o que eu conseguia ver eram garrafas no chão , cocaína no lugar de pães e queijo e a porra da porta aberta, como se fosse as pernas da ex namorada dele. Só que não queria mais dizer "adeus" simplesmente. Eu sei que se ele voltasse para a vida suja e viciante eu seria o único a entendê-lo. Nunca achei ele fraco, como todos diziam o tempo todo, nunca achei ele inseguro, como todos diziam e aquele livro de bicha também, só achava ele disperso e que precisava de uma âncora. Eu adorava âncoras, tenho uma no braço, comentário cretiníssimo. Decidimos fazer tudo certo para sair, com a mente livre de remédios pesados era mais fácil fingir ser gente comum. É isso que te ensinam lá dentro, a fingir ser alguém normal com sonhos cadastrados no banco de dados do "Sistema de Pessoas Politicamente Corretas". Meu pau com sal para esse sistema.

Mordi os lábios, tapeis os ouvidos, soquei a parede até as mãos sangrarem e consegui. Isso! Estava fora, livre, "curado" e rindo. Caralho, como eu ri. Quer mais ? O Ste também. Foi considerado " Capaz de conviver em sociedade sem praticar atos destrutivos ou auto destrutivos". Acredito nisso também.

De volta ao mundo sem dono

Vivemos bem por dois meses. Trabalho, estudo, eu escrevendo muito, ele desenhando compulsivamente. Sem bebida, sem cocaína. Muito café, muito cigarro e muita, mas muita bala de canela. Eu particularmente vou começar um tratamento para parar com elas, tá foda. A família fazia questão da nossa presença em festas, quase como colocar um babador na gente e dizer " olha que lindinhos, saíram da U.T.I., foi Deus". A família do Ste (o pai feio e o irmão imprestável) não apareceu mais. Ele também nem fez questão de vê-los. Ao invés disso ele fez novos amigos, dessa vez optou por pessoas que não traficavam. Achei justo. Eu também conheci gente nova, mas ainda estava num ritmo bem diferente do deles. Eu gostava de filosofar com os amigos, por horas e horas. Beber estava fora de cogitação, mas eu levava café gelado na mochila, era como um vampiro bebendo sangue de mula. Adorei a analogia. Cinema, shows, botecos... Sim, eu sabia que não podia beber nada de álcool , mas consegui ir a botecos, sem maiores problemas. Era só ter uma bala de canela no bolso e pronto, os filhos da puta paravam de me oferecer pinga.

O mais difícil foi reencontrar aqueles que se diziam meus "verdadeiros amigos". No começo eu os evitei muito, sempre pedia para o Ste dizer que eu não tinha chegado da rua. Mas era óbvio que um dia isso tinha que acabar. Os recebi em casa, num típico domingo de pau no cu, sol , cheiro de comida boa ( o Ste arrebentava na cozinha, cuzão dos infernos) e casais apaixonados. Vomitei duas vezes, era muito para mim. Entretanto segui com o almoço. Eles me contavam de sua vida saudável, de suas carreiras promissoras, as namoradas falavam de como eles eram incríveis, de como eles haviam superado enormes diferenças, e eu olhava, pensava: "Eles são tão vazios, reprimidos, bebem pouco e acham que com isso estão soltos para se expressarem de verdade ... Talvez se eu transar com todas vocês e provar para eles que vocês são umas vadias então quem sabe eles não se mostrem pessoas capazes de superar enormes diferenças". Ai nessa de pensar eu deixei uma garrafa de vinho cair e a bebida respingou nos meus lábios. Neste momento o Ste se levantou rapidamente e antes mesmo que eu passasse a língua nos respingos ele limpou o que havia ali. Ele me surpreendeu. Meus amigos ficaram em silêncio, e aí quem começou a falar fui eu. Não, eu não fiz ninguém passar vergonha, afinal eu não consegui beber gotas de álcool. Eles ficaram tão tensos que só pude perceber o quão falsos eram. Estavam ali por caridade, não porque queriam ver o velho amigo deles. Estavam ali porque era socialmente louvável, na verdade eles queriam mesmo era estar em casa transando com suas namoradas maravilhosas. Namoradas do tempo de escola. Acho bonito o amor, mentira. Mas acho legal ver os amigos felizes, mas ainda assim existem "casais" que nem mesmo o Cupido gastaria flecha. E namorada de amigo é algo difícil de lidar, porque elas esfregam na minha cara um fato duro de aceitar: Em um mês eu consegui conquistá-lo dez vezes mais do que você em 6 anos. Aí eu penso: - Ok, vadia. Pode me passar o macarrão e ir embora da minha casa?. O Ste percebeu que eu estava começando a ficar tenso, então decidiu me descontrair. Criou histórias incríveis sobre nós lá no hospital velho. Eu ri tanto, meus amigos ficaram fascinados e suas namoradas foram esquecidas como se fossem vassouras velhas. No final das contas eu nem percebia mais os outros, só o Ste e seu sorriso de diabo.

Não sei como terminar

Ste namorou algumas vezes, eu obviamente nem quis opinar sobre. Mas depois me acostumei, ele que não se acostumou. Quando eu fui namorar ele ficou descontrolado, porque achou que eu ia trazer a pessoa para dentro de casa. Aí eu falei para ele: Quer fazer um teste? Fizemos o teste e ele é quem ficou consolando a pessoa durante os meus ataques de nervos. Eu ri tanto da cara dele, aquele filho da puta era muito sentimental, vai se foder. Já nem pensávamos mais em drogas, mas uma inquietação sempre batia na nossa porta e o gosto ou a coceira no nariz voltavam. Encontramos um jeito de evitar isso, saíamos para caminhar , sem rumo, sem dinheiro (pois corríamos o risco de parar em algum lugar e fazer merda), era uma caminhada compulsiva e de certo modo destrutiva. Andávamos até perder o ar, até cairmos no chão com as pernas imóveis. Mas dividíamos um sentimento sem nome. Era assim que nos mantivemos durante as férias, durante os feriados, durante as brigas que não eram poucas. Demorou para ele aprender que brigar é uma prova concreta de que se gosta, mas que precisa ser dosado como tudo na vida. Ta aí, uma coisa que nunca pensei que ia dizer, eu que nunca dosei nada e vivi o extremo do que tinha no dia, hoje vejo que me surpreendi comigo mesmo. Depois disso eu comecei a gostar mais ainda de mim, mais ainda do Ste. Não existiu um final , porque ainda estou aqui escrevendo. Ele não está por perto hoje, teve suas coisas para fazer, mas nos resolvemos e hoje existe um mundo nosso onde as luzes de fora não alcançam e a musica que toca é sempre a nossa.

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Veny Santos

Um comentário:

Karina disse...

Nossa, vc conseguiu me fazer arrepiar... e olha que nem o filme de terror mais assustador conseguiu essa proeza, e nem o romance mais profundo!

Parabéns, adorei seu conto!