sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Amargo




Cigarro na boca, botas no pé, areia nas solas. Acordei com vontade de cuspir na cara do mundo, neste instante comecei a caminhar. Um calor maldito, muita gente nas ruas, sem uma árvore para descansar. Ainda sobraram algumas moedas no bolso. Ótimo, comprei aquela velha garrafa de vodka, continuei andando.

Sociedade acorrentada, música ruim, carros e olhares. Tudo o que eu não pedi para um dia qualquer, foda-se, eu nem sabia por que estava andando tanto. Pensei na criação dos seres humanos, como deve ter sido decepcionante para Deus olhar suas crias e ver que elas estavam seduzidas por tudo o que ele mais repudiava. Deve ser horrível você modelar um boneco de barro e depois ele olhar na sua cara e dizer " Me deixa andar sozinho, to legal, vai procurar outra coisa para manipular". Sei lá, que assunto ridículo.

Ela não me ligava já tinha 3 dias. Pensei que fosse desistir mais cedo, só que desta vez ela precisava provar que ainda tinha algum amor próprio. Eu? Não me lembro do número dela, mas de qualquer forma resolvi esperar. Calor texano, ar seco que corta a garganta, pedi mais uma garrafa de Jack Daniels. Eu não sei qual foi o motivo que me levou a aceitar o pedido daquele diabo de meio metro. Acho que foi a tentação de ter alguém para brigar , e para beber até cair , para fazer o inferno. Aquele bar já estava terminado, precisava andar mais, sentia uma forte dor nos braços. As veias pediam arrego.

Ela não ligou. Mas mandou um bilhete dizendo: " Desgraçado, você foi a pior maldição que já me jogaram, achei alguém melhor, que não bebe e lembra do meu telefone. Foda-se, te amo, mas acho bem mais fácil te odiar. Se cuida trapo.". Guardei o bilhete, foi a unica declaração de amor que recebi. Pelo menos eu achei que fosse uma declaração. Voltei para o emprego.

Aquele velho nojento e sua maldita "empresa". Fuma mais do que eu e mesmo assim não me deixa ter 10 minutos de autodestruição. Juro que um dia vou colocar pólvora dentro do estômago dele. Com a grana desse mês eu decidi viajar, vou cair na estrada. Perdi 2 quilos.

Conheci umas garotas estranhas, elas eram grossas, cheiravam mal e gostavam das mesmas bandas que eu. Deitavam no chão sem se preocupar com a porra do cabelo , corriam pela rua gritando hinos falidos de movimentos setentistas. Não trocamos nomes, eu era apenas eu e elas, elas. Foi divertido, arrumamos briga em uns 7 bares, olho roxo, boca cortada , sal nas feridas eu nem lembrava mais das feridas na alma. Elas se foram e eu fiquei. Ainda estava "na estrada". Quando sentia vontade de conversar eu ligava para um velho amigo meu, ouvia seus filhos gritando e sua esposa escrota obrigando ele a desligar o telefone para ir botar o lixo para fora. Outro dia liguei e ouvi seu pai mandando ir ao mercado comprar frutas. Certas coisas nunca mudam, sim, ele ainda continua sendo um grande amigo. Quando conto sobre o poço de merda que minha vida estava se tornando ele ficava interessado, deve ser foda você viver uma vida que nem para merda serve.

Recebi uma carta dela. Bebi tanto que usei o papel para limpar o resto de vômito na minha boca. Bom, provavelmente ela escreveu para dizer que estava bem e que eu continuava sendo um lixo. Aquela bruxa. Adotei um gato, batizei-o de "Raposa".

Conheci uns caras durante uma partida de sinuca, eles tocavam em uma banda de punk rock. Me chamaram pra tocar baixo e cantar, eu aceitei. Voltar para aquele trampo escroto não estava nos meus planos mesmo. Fizemos umas músicas, tocamos em alguns bueiros. Tudo muito divertido, eu particularmente liberava toda a raiva que não saia no cotidiano e de quebra ainda ganhava muita bebida de graça. Não vou mentir, eu estava tão longe daqui que nem percebia quantas pessoas se jogavam por cima do meu corpo. Ele agia por conta própria e a mente estava sempre de férias. Nomes, não sei qual a importância dos nomes, eu lembro dos rostos, mas nunca dos nomes.

A banda se chamava Under pocket.