segunda-feira, 18 de julho de 2016

Páginas pretas II

Falo sobre a falência do ser
quando falo comigo, falo sobre isso
Ecoo por entre os vácuos do corpo
como recado mal dado
daqueles que os outros aumentam
para esconder  insignificância
sinto ânsia sem ansiar
sinto gana de nada, quero
e quero para poder me distanciar
chego no intuito de dizer adeus, veja sou um segundo
pros terceiros abandonar
Olho na tua cara e não te vejo
quero te mostrar que neste vazio tu não farás moradia
Aqui, quem jaz sou eu

Quando, mais uma vez, as luzes se apagam
dentro de mim começa a aparecer toda a sujeira escura
que debaixo do tapete fez volume
montanhas e mais montanhas de restos
que não fui capaz de me desfazer
não fui capaz
Nem sala eu fiz, estava tudo lá, exposto
no meu rosto, na minha boca, no meu gosto
nigrosina para as visitas não voltarem mais
eu, introvertido? Não, incapaz

Há dois dias não tomava banho
não me olhava no espelho, não ouvia minha própria voz
confinado no quarto, morri e esqueci de me enterrar
a luz incomodava os olhos já sem brilho e nas trevas
pude cobrir a mim mesmo com o manto do não-ser
Recolhi-me, voltei a ser feto, protegido pela incerteza da vida
do nascimento, ali, contido, sem nome ainda, uma incógnita
longe, mas dentro de mim, carregando um frio sem pai, na barriga, por 28 anos
Eu não queria acordar e ter outra vida, não
eu queria acordar e ter a mesma vida que tenho
mas que ela fosse menos dura
ou, pelo menos, mais tragável
Que não fosse um parto
Porque eu parto

Quando era pequeno, lembro que pedi a todas as forças
que me fizessem um favor, eu implorei, sim
Pedi para que me tornassem invisível
eu não queria ser visto, pois minha imagem, meu jeito, eu
atraiam dor
Todas as noites, com a reza decorada, eu pedia, por favor
ouça meu clamor, senhor, faça-me sumir, não deixe que me percebam
quando mais um dia nascer, Samael descer, e iluminar a terra seca
Eu ainda quero ser seu filho, não faça eu me morrer, pinte-me da sua cor
transparente, invisível, que eu seja apenas nome, não homem
Por favor, senhor

Depois de perder a esperança no fundo da caixa de Pandora
Percebi, então, que alguém me ouviu na nuca do universo
na curva do infinito, ele, ela, eles, todos, tudo, alguém me ouviu
e me apagou de vez
Ninguém me vê, ninguém consegue me ver, coberto de poeira do passado
ancestral de mim mesmo, caminho por esta terra sendo vulto, um eterno vulgo
que quando se pronuncia, renuncia, não fala alto, jamais grita,
anda por aí, mas nunca por aqui e segue aquele velho ditado
Quem não é visto
Não é lembrado.



Um comentário:

Eduardo Affinito disse...

O poder ancestral e místico que a poesia tem. Catarse e profecia... O xamanismo em sua ritualística. O desabafo sob o crivo da arte. Ou... Simplesmente lindo.