domingo, 17 de novembro de 2024

Carta 1

 Sentei pra te escrever. Acabei de fumar. Voltei, inclusive.

Por esses dias eu revirei uns CDs antigos com pastas mais antigas ainda e achei uma de nós dois. “Time for Heroes” é o nome dela. Estava lá, com algumas fotos nossas, especificamente de um dia em que fomos beber juntos pela primeira vez na Augusta. Foi Original de 600ml. Tocou-me. Senti falta do junto. Era bom. Amortecia a parte dura de mim e parecia que eu era tudo —que não precisava mais de nada.

Tem um vídeo nessa pasta. Primeiro, peço que você fale alguma coisa. “Alguma coisa”, responde você, rindo, e chamando sua fala de “clichê”. Em seguida, eu digo algo como “esta é sua chance de se declarar pra mim”. Você responde “olhe nos meus olhos...”, ri novamente, e o vídeo acaba.

Na noite seguinte sonhei contigo. Encontrávamo-nos em lugar algum e só me lembro do seu rosto e você a me dizer: “sabe em que momento eu comecei a amar você?”. Não houve resposta. Acordei e só.

O eu mora no centro de si. Abraçando-se, eu fica protegido por filetes de vidro cuja flexibilidade de topologia impossível cortina feito soprar morno os desejos todos. Orbitam o eu com as lâminas do medo.

Será que você ainda me lê? Aqui, talvez. Falou, um dia, que ainda passava na frente de minha casa e imaginava se ainda estaria ali. A gente se viu outras tantas vezes depois daquele dia da Original. Só que eu nem faço questão de lembrar delas. Só uma que valeu a pena ter vivido contigo, neste meio tempo: o dia em que ficamos no telhado da sua casa, sob céu estrelado.

Só sentei para te escrever  mesmo. Não terá beleza, estilo, estrutura ou o que mais precisasse ter para fazer disso aqui literatura alguma. Acabei de escrever duas palavras fortes entre metáforas e apagar. Entendeu? Não sai. Eu sei, eu sinto, eu tenho as palavras, mas não sai. Ainda assim eu sentei aqui para te escrever. Fumei e deu uma melhorada. Está tocado Smashing Pumpikins, a versão instrumental de “Tonight, Tonight!”. Sempre me faz lembrar de céu estrelado.

Era isso. Não sei se você ainda me lê. Espero que sim.

Escrevo mais depois.

 

 

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