sábado, 18 de janeiro de 2014

Fim sem fim

As letras subiam lentamente, revelando nomes sobre nomes. Fiquei. O envolvimento com o enredo e seus personagens me prendeu. Na verdade, comoveu. E eu não me movi. Eles contaram sobre nós. Interpretaram uma vida que nunca vivemos ou partilhamos. Aquela história com fim sem fim.

Jurava que não sentiria mais nada. Que o sentimento havia amadurecido e dele não escorreria suco algum pra adocicar lábios e ideias. Muito menos pra lambuzar de desejo o sossego. O que antes era uma eterna manhã de chuva torrencial havia se tornado tarde de brisa suave, risadas que faziam o peito vibrar e um companheirismo fraternal. Meu coração, por sua vez, repetia que tudo não passava de encenação. E então decidiu se calar. Foi procurar algo para assistir e achou a cena que o levaria ao clímax da tristeza: num único frame, um beijo. O seu, não no meu. O seu, não o nosso.

A luz se encolheu no canto da parede para destacar os dois corpos mesclados. Vermelho e branco. Jogo de sombras pra me confundir. Mas de trevas eu entendo. Com toda a nitidez de um sentimento aguçado, observei o ato. De um lado, a razão rasgava um sorriso de alívio. Do outro, o amor - que só conjuga verbos no imperativo - soltou um bocejo de fome e desânimo que dizia "cale". Achei que não me surpreenderia com um roteiro tão previsível. Achei que fosse a chance de passar por meu batismo de fogo sem dar bênção às emoções de engano. Só que doeu como ontem e como sempre. Como se nunca tivesse deixado de doer. E a trilha sonora - antes tropical e animada - bateu nos meus ouvidos como carnaval decadente cujo primeiro dia de desfile já trazia as cinzas.

Corte.

O mesmo filme. Os mesmos papeis. Um roteiro conhecido por dois desconhecidos. Começou no meio pra nunca chegar ao fim.

Sem final feliz. Eu quis.

Nenhum comentário: