quarta-feira, 27 de abril de 2022

Flume

Não contei as lágrimas. Sei que foram poucas. Antes eu tivesse as deixado chover por fora. Escorri por dentro. Veio a cheia. Inundei. 

Flume. 

São os rios solitários? Profundos eu sei que são. Até os rasos fazem afundar. Queremos mergulhar neles, buscamos seu profundo, seu íntimo, queremos caber dentro do rio para com ele correr. Ao lado, a dois, estreitos entre as terras que morarão debaixo das unhas quando, finalmente, tocarmos seu fundo. Afundar, profundo, fundo. Busquei sempre alguém para correr comigo, em minha intimidade. O tempo que passou, eu permaneci como solo fluvial. Tive-me, enchi-me, fiz divisas para proteger o que era meu, sem proibir que fosse do outro. O tempo que passou, não eu. 

Escrever mais para contar menos. Não são tantos os textos. Quem dera eu tivesse escrito para fora, na fala, na conversa, na terapia, o que seja. Recorri ao de dentro. Plúvio. 

Senti falta por ter sentido vontade. Quero porque sempre quis. Há tempos que quero porque há tempos nunca tive. Ele passou, eu fiquei querendo. Passou e me olhou de leve, com ternura, de uma maneira que nem eu mesmo conseguia me olhar. Espelhado em seus castanho-escuros, vi-me, enchi-me, saí das divisas e transbordei como nunca antes. Nem o tempo conseguiu fazer com que ele passasse. Por isso estou aqui. 

O desejo de ser amado para poder amar. Na base da confiança, na certeza do curso a ser seguido, a incerteza do sentimento que nunca chega é certa. Quem corre por mim além de mim? Quem escorrerá, um dia, ao meu lado, dentro e fora? E sentir que eu posso ser para o outro o fio que rompe com a seca, umedece os lábios, dá de beber e toma para si - a goladas - as correntezas todas que livram o amor de suas próprias amarras? Posso eu sentir? De repente, sinto porque não posso, mas quero porque sempre quis, mesmo sem poder. 

Há sempre alguém, mesmo sem existir o nome, o endereço, o tamanho dos pés e a cor dos pelos. Há sempre alguém dentro de mim. 

Custa muito amar, daí nasce o desejo. Amo porque quero queimar o sentimento. Desejo consome, esfarela e acinzenta todas as cores. Tudo vira cinza depois do beijo carminado. Tudo some. Fica o rastro, só. Amo desde muito novo, e de muitas formas amei. Sozinho, em todas elas. Amo porque não me obrigo a sentir. Sou pego de surpresa, todos os dias, pela minha capacidade de renegar uma força tão genuína e, ainda assim, pulsá-la nas sutilezas e detalhes do cotidiano. Na superfície, reflito o céu. No fundo, aflito, quem passa é o tempo. Eu fluo.

O que eu quero. Ser rio. Pra alguém além de mim. 

 




quarta-feira, 13 de abril de 2022

Amar depende

Passei as férias tentando escrever mais algumas páginas de um livro que não sai da minha cabeça há anos. Nem um ponto sequer. Manteve-se dentro de minhas ideias. Recentemente, inclusive, só consigo pensar em cigarro. Digo “recentemente”, mas na verdade é cotidiano. Persegue-me esta vontade inegociável. Engano a mim mesmo dizendo que “amanhã eu compro um maço ou vou atrás de tabaco orgânico”. Amanhã nunca chega. 

Também me acompanha as tantas angústias. Na verdade, não sei por qual motivo ainda me lembro do que não esqueço. Cigarro, angústia, a necessidade de vir escrever para registrar o que não lerei nos dias futuros. Não leio o que escrevo e isso nada tem a ver com arrogância de escritor. Não leio porque não me desperta curiosidade. Eu já sei o bastante de mim. Quando, às vezes, subitamente, descubro algo novo sobre mim, guardo. Nunca se sabe por quanto tempo durará – se é para sempre ou momentâneo. Nos últimos dias, comecei a pensar mais no futuro. Ansiedade provavelmente é a razão. Não sei pelo que espero, mas sei que é sempre pelo pior. 

Enterrar alguém sem ter que ir ao enterro, não conseguir pagar as contas, ver a casa desmoronar, não sei, mas sei – é o pior, sempre. Pode parecer cruel, mas desejo fumar e me ver sozinho, por completo, sem ninguém dependendo de mim. Talvez porque eu saiba como lidar com meus problemas, porém odeio ter que lidar com o dos outros. Cobro-me demais quando sou requisitado por outro. Se não consigo ajudar, carrego, então, a desgraça alheia junto da minha. Dobro o peso no lombo e não peço ajuda. Meus amigos sempre vão dizer que preciso de tratamento, terapia. Estão certos, mas eu já sei o bastante de mim para entender que não desejo conhecer nada novo ou revirar o velho. Estar como estou não é bom, só é pior quando há pessoas evolvidas. Gente ligada a mim. Eu não quero. Queria gente por perto, mas que não estivesse ligada a mim, dependendo de mim, esperando por mim. Ensaiei uma resposta para meus amigos quando perguntassem “o que você gostaria de ganhar”. Pensei em dizer: amor de quem, por ventura, eu amasse. Nunca perguntaram. Nunca responderia isso também. Amor não é dependência, mas amar é. 

Morre o jovem que nunca nasceu. Ele, também, uma promessa vaga. Vai-se o tempo, a vontade, a gana, fica o que sobrar. A gente come sem sentir sabor, parece até que fumou demais e perdeu o paladar. Não se fuma para sentir gosto, pelo contrário. Ter-me-ias querido ser insípido no beijo, na fala, na cala, no céu cavado da boca. Não fui. Traguei demais, camuflei-me na névoa que perfuma o fim com cara de fim, sem riso, sem abraço, sem gosto de fumante com língua de cinzeiro na do amante. Estourei meu peito.

Que os dias durem menos - como um maço - quando se há o que entregar de si para o mundo. Durem mais - como o último cigarro - nas vezes em que não somos encontrados. Nos poucos dias em que nos tornamos inalcançáveis, incansáveis. Mão nenhuma nos toca, a polícia não nos pega a troco de nada, ninguém mais nos vê pelo contraste de nossa cor. Somos só nós, eu, você, longe e sem contato, sabendo um do outro mais do que o suficiente. Eu te imagino fumando.

A mim, mais um dia. Depende de como ele for, eu fico mais anestesiado. Olho sempre para meus dedos e vejo o quão tortos são. Lembro de minha vó, de ter sentido, a vida toda, que já nasci com mãos envelhecidas. Mãos de bruxa que, com um cigarro por entre os dedos, ganhavam vida no desgaste. Amarelavam as unhas, pareciam lentes antigas de óculos ou durex de décadas colado em alguma foto, caixa ou controle remoto. Amarelam com o tempo. Fica o medo estampado. Quem fuma tem medo de quê? Se o maior deles é a morte, pode ser que seja dela. É possível ter medo sem se amedrontar. Também é possível amar sem depender. Já vi nas histórias dos outros, só na minha que ainda não.

Este livro será escrito, eu sei. Amanhã eu fumarei, sei disso. 

Amar, depende.   

terça-feira, 22 de março de 2022

Toca pra chamar

O toque calejado não sente muito do topo da gente. Escorrega pela casca esfregando as montanhas secas sem cachoeira, secas e ressacadas, sobre a pele ressentida. Não se sente muito, mas passa a mão mesmo assim. Toca pra chamar, num frio momento em que se tenta soprar a brasa do tempo, uma fagulha de chance, um carinho qualquer pro cansaço próprio. Toque de recolher.

As horas passadas e ultrapassadas do dia sem fim nunca chegam. Nunca bastam. Seguem firmes e fixas no infinito buraco das obrigações. Contas choram mais do que filhos que nem se tem, dívidas cobram mais que rancores muitos tidos, sustento pesa tanto quanto o corpo suspenso no ar, caindo sobre a cama arrumada para a manhã de amanhã. Leva-se, lava-se, alguns segundos a mais, só, como as gotas a cair e acariciar a moleira sempre fervente a benzer os fios crespos do profundo cabelo em quente momento que corta o frio. A geada do esquecimento puxa as datas perdidas e as enrola com a toalha. Demora para sair, merece o atraso, é sua vez de não estar. 

Quando se cuidou por último? Quando teve medo de se perder? De morrer sem um grande final? De embranquecer o olhar e encontrar, no fim do túnel, um retorno indesejado? Precisa voltar, precisa trabalhar e responder às tantas bocarras cheias de notificações. Caninas, molares, sempre impacientes como dor de dente, amolando e pedindo tudo para ontem –que começou desde hoje, já na hora de ser a manhã de amanhã. De um cômodo ao outro, não cabe mais. Esbarra o cotovelo na quina que range a madeira e prensa a mandíbula. Sua língua não desenrola faz tempo. Não encontra outras, não dança, mas cabe inteira no céu acima. Algo tem que caber na boca.

E os dedos, e as pegadas invisíveis sobre a madeira, elas ficam. Quando sair, quem fincará? Seu cheiro vai e se pega contigo e com o outro que chegar. Você não o sente, mas ele sim. Autorreconhece-se como aquele que cobre a mudança para evitar poeira. Um novo lugar para recomeçar o cotidiano. Sobre as caixas, aquele velho manto que esfarela a cada fim de dia. Pó de si e o véu da fragrância original numa dialética imóvel dos móveis que, amanhã, já serão parte da manhã.

O cansaço não muda. As horas também não. Mesmos, conhecidos, manjados. Na nova solidão, cheira a própria carcaça. “Com o que me farejo?”. O que vai nas paredes? Algumas fotos, um quadro. De novo? Nada. São os mesmos também. Há de se ter o gasto como parte da existência custosa. Só de conseguir desempacotar tudo e colocar o melhor de si nas prateleiras já deixa fechado com que chave a porta será aberta para os de fora. Colocou no bolso do outro, mas não trocou pela nova. Espera sua visita tocar a campainha, espera sua visita tocar sua mão e entrar, espera sua visita sorrir e lhe abraçar. Enfia a mão no bolso dele, tira a velha, coloca a nova, senta e assiste, de dentro para a fora, a porta, mais uma vez, ser aberta. Não se despede. Apenas admira quem lhe faz sentir em casa na sua casa.

Os calos seus na pele do outro são como um peso a mais. Um toque a mais. Firme, rígido, de quem chama para ficar. Toca pra chamar.

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

No fundo

Os passos até o centro da cidade não eram largos. Caminhava conforme a música em seus ouvidos. Trilha sonora por entre os tantos carros à margem da sua imaginação. Os rostos, aqueles sem som nos ouvidos, pareciam ranger as rugas de preocupação. Conflitavam com as fotos que iam sendo batidas dentro da cabeça daquele que, sozinho, tentava fugir de tudo e todos. Sozinho, mesmo assim fugitivo. As mensagens chegavam aos montes, mas a regra era ignorá-las. Uma espécie de jogo mental que ele fazia consigo mesmo. Tanto tempo se sentindo solitário fez com que se tornasse parte do à parte todo. Quando procurava pelas pessoas, achava-as. Quando era procurado, desaparecia. Ingratidão, insensibilidade, pouco caso, indiferença. Vão entender sobre tudo, menos sobre depressão. Menos sobre se tornar inacessível por não ser insensível. Trocar o sentir pelo “sinto muito, mas não estou”. Vão entender sobre tudo, menos sobre isso do “consigo mesmo”, sem mais ninguém.

O que comer? Em qual bar parar? Quem eu não quero ver e corro o risco de? Para onde não ir? O mapa se faz pelos caminhos conhecidos ou pelos desconhecidos? Por onde ir ou por onde não ir? Escolher a comida e o que beber ajudava a ter alguma sensação de autonomia. Isso, em partes, também lhe devolvia certa quantidade de serotonina, adrenalina, ou falsa sensação de ter algum controle sobre aquele vazio imenso. Desenhar o horizonte com a ponta do dedo para, em seguida, tentar segurá-lo com as mãos. Sentou-se ao fundo, na última mesa, local íntimo, perto do banheiro e da cozinha, onde se come, é comido, livra-se do que sobrou e reaproveita os restos. Onde tudo cheira forte, igual gente. O atendente de sempre, com aquele olhar cotidiano. Conforta encarar um desconhecido que sente te conhecer pela frequência e não pela intimidade. Tão perto, mas tão longe. Conseguem sentir o cheiro um do outro. Sobra demais, exala demais. No dialeto dos cansados, apenas as frases feitas têm valor, pois facilitam o caminho até o final previsível. É na metade da conversa que eles se encontram, atendido e atendente, perto da cozinha e do banheiro.

O primeiro gole faz a mandíbula repuxar e arder um pouco. Sua mente sempre lhe dá o mesmo diagnóstico: é o estresse ciente de que o álcool irá lhe tomar. A respirada profunda, a garganta mais ainda, desce e vai soprando as feridas. Uma cura que dói, talvez. Escreveu assim numa das páginas, numa das vezes que esteve ali, ele. A cena era aquela, sem nenhuma excepcionalidade. Um cara sentado, sozinho, envolto nas suas questões, envoltas na sua mente, envolta na angústia sem fim que a tudo tempera. Não tinha ele como dar aos outros as razões para seu sofrimento. Só sabia que doía de um jeito não compartilhado com os demais. Era uma dor dele, algo antigo. Um pertence íntimo.

Quando a mordida perdia força e os lábios passavam a pesar mais, olhava ele para o nada. Diante de si, outras mesas, outras bocas, copos, cardápios, cheiros, mas ainda assim distantes. No fundo, o íntimo, a cozinha e o banheiro permaneceram com ele e, de tempos em tempos, com o atendente. Bastidores daquele momento, estão e só. Nada de mais, nada de incrível. Tudo sem novidade. A vida é assim também. Muito mais assim do que pensa a maioria das pessoas. Momentos especiais não fazem sempre história tampouco se tornam. Já os comuns, que são feitos para serem esquecidos enquanto vividos, prematuros, vêm ao mundo para dar adeus e dizer que um simples segundo pode pesar demais. No fundo, pesa mesmo.

Todas as vezes em que foi até o bar carregava na mente algumas tantas questões. Problemas no trabalho, em casa, nas relações diversas, problema com o mundo e com ele mesmo. Esta era a razão para ir sozinho e não responder às mensagens. No fundo, é íntimo. 


terça-feira, 17 de agosto de 2021

Histórias

O toque. Sentia falta do toque. Enquanto ouvia o som a rasgar lentamente meu peito, passei os dedos sobre o telhado das mãos... Estiquei a pele e vi veias. Por conta dos montes de dias comuns, parei de contar os de crise, deixei de contar aos amigos, guardei para mim o que nunca quis, mas aprendi a aceitar. Todos estes anos e eu, hoje, toco minhas próprias mãos para lembrar que escapei de toda a ajuda, todo o tratamento, toda a orientação capaz de me fazer menos eu, mais comum, feito os tais dias. Feitos para serem esquecidos. Ou nunca contados por outrem.

Perguntei-me, “imagine se eu fosse contar a vocês tudo o que já vivi?”. Instantaneamente, as imagens reviraram na cabeça. Estilhaços e mais estilhaços lançados contra meu rosto de dentro, aquele que, mesmo no escuro de pálpebras fechadas, é obrigado a me encarar. Eu vi tantos momentos, preso neles, ou agarrado a eles, às vezes buscando por eles e, ao não tê-los, imaginando-os, eu me vi vendo. Como não consegui me destruir por completo? Não cabia a mim tal tarefa. Ela, que ainda me corrói sem descanso, é quem dará cabo desta tarefa.

A tarefa de angustiar. 

Não deveria eu rememorar o passado e sentir de bom grado o gozo dos que venceram a si mesmos ainda que a miséria da própria mente posasse junto às fotos, sorrindo sem os dentes? O teatro que a melancolia montou não me deixa. Na encenação dos meus fracassos, faz-se a verdade que nunca superarei: sou eu quem fecha as cortinas antes dos aplausos, pois diante dos outros, o que espero são vaias. E se elas vierem, serei capaz de confrontá-las. Construí-me assim, ensaiei as falas todas. Agora, se forem palmas, se por acaso me ovacionarem, aclamarem minha existência frágil e rascunhada, meu ensaio, minha certidão de encerramento, meu final, o que farei? Não saber me mata, seca-me o sangue. Eu não sei o que fazer quando me colocam diante daquilo que os ofereço: o melhor de mim no pior personagem que eu poderia fazer. 

Preparo-me demais para, fatalmente, sabotar a peça. 

O toque ainda me falta. Peço por ele, antes de dormir, no lugar da oração. Há de ser sempre um pedido silencioso, tímido e quente. Quase como colocar as linha da vida sobre a chama da vela. O limite entre dor e prazer se resume à simples necessidade de lembrar a si mesmo, ainda que se arrastem os dias comuns, de que se sente. Dor ou prazer se sente. 

Comigo, arrasta-se ela. Conosco, vamos um com o outro, até que o toque nos separe. Feitos para serem esquecidos. Ou nunca contados por outrem. 


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Caminho contrário

Acordar na casa de alguém, sair antes que ele levante, achar uma padaria, pedir um pão na chapa, suco de laranja, pensar "porra, queria ter dormido na minha cama mesmo", sentir cheiro de álcool e suor amanhecidos, colocar o celular no modo avião para não receber um "Cadê você?". 

Fiz o caminho contrário, e cada pessoa que passava por mim parecia sentir meu odor com o olhar. Estava frio, típico amanhecer sem graça em São Paulo, cidade dos dias úteis. A cara era a de quem levanta com pressa porque, mesmo no horário, sente-se atrasado e inútil. A desgraçada da estação de metrô não chegava nunca. Tudo o que queria era sentir que já estava perto da minha vila. Ontem tinha sido tão ruim assim? Não sei direito, eu me lembro, mas faço questão - e esforço - de esquecer. Começou a funcionar. 

Duas linhas inteiras, uma pela metade, até a estação onde se faz baldeação. A eternidade tentando se vender em vagões, que de vagos só tinham o nome mesmo. Em qualquer horário há sempre gente o suficiente para ocupar todos os bancos, comprar todos os chocolates. Aqueles olhares normais, cotidianos, contados dia após dia útil. Pior era eu que ainda os observava, tentando achar algo ali para me distrair. Inútil. No fundo, inútil era eu, evitando quem fiz questão de não evitar ontem à noite, quando tive a chance. Não queria pegar o celular, a mensagem estaria ali, eu sentia. 

Por que evitar? Foi tão ruim assim? Para mim, foi. Para ele, já não sei - e não quero saber, este é o ponto. Há dois momentos na vida em que sentimos calor insuportável que não deixa dormir: quando estamos com medo de algo sobrenatural e nos cobrimos, ou quando estamos com tesão e, sem poder liberá-lo, ele finca sua boca molhada nas costas da primeira orelha desavisada e lambe devagar, até a gente se retorcer no colchão descoberto deixando a saliva pingar. Nem ventilador ligado, nem brisa que entra pela janela conseguem desimpregnar do corpo aquela sensação de querer queimar. É o querer que faz arder, não o calor do ambiente em si, entende? O ambiente tanto faz, tanto fez. É um calor de dentro para dentro, ao invés de para fora. 

Passei a mão rapidamente pelo rosto e senti aquele cheiro inconfundível de "agora eu que me vire para conseguir lidar daqui em diante" na ponta dos dedos. O caminho corria, eu voltava até o apartamento pequeno, observava ele dormindo como se nada tivesse acontecido. Não aconteceu, mesmo, e este foi o grande evento dentro de mim. Uma festa clandestina onde era celebrado o aniversário da rejeição. De convidada só havia ela, óbvio, ensurdecida por suas próprias reclamações, ciente de que não tinha ninguém além de si - um amor próprio imposto e inevitável. Durou a noite inteira, varou a madrugada, e eu não pude fazer absolutamente nada. Fiquei sentado, contando a gotas a agonia que me preenchia. Era certeza que, quando o sol nascesse, além da insuportável luz fina que anunciava mais um típico amanhecer sem graça em São Paulo, eu ainda teria que recolher a sujeirada da noite anterior. Levaria o pratinho com o último pedaço do bolo que me dei de consolo. Até então, não era isso que me angustiava.

Eu não precisava ter dormido ali. 

Um pão não tinha sido o bastante. Deveria ter comida mais. Bebido mais um copo de suco. Também poderia ter parado em algum lugar e comprado um maço. Voltaria a fumar, assim, depois de ter negado todos os cigarros dele, mentalmente, sem que tivesse me oferecido um. Seria tão bom, mas eu já estava azedo só de ter que lidar com o celular, imagine com caixa de padaria que dá troco de moeda ou cobra 1 conto a mais pra passar um box no débito? Por favor, não estava em condições. Ainda mais com um só pão na barriga. Não. Outro dia. Mais vinte e quatro horas. 

Por que eu fiquei? O horário da condução não tinha se encerrado. Eu poderia até ter pago um carro para voltar, ou, de repente, dormir na casa de alguma amiga, amigo, colega, sei lá. Virado a noite num corujão. Só não podia ficar na rua e correr o risco de ser enquadrado, esfaqueado, quem sabe até roubado. Isso não, sem condições. A gente já se fode de trabalhar pra ser tirado de otário no serviço, não tem como virar comédia na rua. Eu sei, fatalidades, lugar errado, hora errada, enfim. Desculpas não faltavam no meu bolso ou na agenda do celular. Fiquei porque quis, porque achei que finalmente minha racionalidade seria vencida pelo inusitado. Quando tirei os sapatos, enchi meu copo pela quarta vez, e fechei os olhos para ouvir músicas que ambos gostávamos, eu já tinha decidido o que me fez ir até ele. São as mentiras que eu conto a mim mesmo que também me angustiam. 

Quando eu falo de voltar a fumar, eu não minto sobre tal desejo. Minto quando não fumo e adio para outras vinte a quatro horas este reencontro. Eu finjo que me engano e sigo fingindo ser enganado. Eu finjo uma data para o reencontro. Talvez seja eu um completo irresponsável sentimental nesse joguinho todo de negação. Só que é assim que eu consigo fazer com que todo dia não seja o dia, a hora, mais do que vinte e quatro. Eu conto cada cigarro do maço, são 22 ou 20, se não me engano. Mas não fumo, ainda, porque preciso acreditar na minha mentira e preciso me enganar acreditando. Sigo nessa dança solitária que é conviver consigo mesmo quando se pensa demais, planeja demais, estrutura demais, sem admitir que o verdadeiro desejo é o de soprar fumaça no castelo de cartas e ver tudo ruir. 

Disse a ele que não poderia ficar, podendo; que eu tinha que tomar pelo menos um banho para o dia seguinte - e isso era a mais pura (talvez a única) verdade-; que era meio de semana ainda, sem que isso fizesse diferença qualquer; que eu ia dormir logo - um desejo real, mesmo sabendo que não conseguiria dali para frente. Ele ouviu, acreditou, concordou com tudo, e teve o que queria: eu, ali, contra a minha falsa vontade de não ficar. Menti para mim mesmo achando que não valsaria sozinho esta farsa.  

Falta apenas um ônibus e chego em casa. Dentro dele, já sinto tudo menos decadente. Talvez porque o caminho passasse pelas tantas vielas que adentrei ao longo das minhas três décadas. Era gente abrindo o comércio na garagem de casa, cheiro de produto de cabelo nos salões com tamanho da caixa de fósforo do jornaleiro bicheiro que acendia aquele cigarro matinal, tão ritualístico quanto meu vício de mentir para mim mesmo buscando manter uma saúde que não tenho. Melhor, que não me importo em ter, mas tenho medo de perder. Eles indo, eu voltando. Eles começando, eu torcendo para acabar, torcendo para terminar aquele caminho contrário. 

Precisava dar um sinal de vida. Tirei do modo avião. Não tinha mensagem dele. Havia se passado mais de duas horas desde que saí. Ele já deveria ter levantado. De repente, levantou e não se deu conta de que eu tinha partido. Foda-se, melhor assim. Eu não saberia o que responder se ele me perguntasse por qual motivo saí às escuras. Diria que era meu jeito? Provavelmente. Assim ele desistiria de entender. Eles sempre desistem. 

Desci dois pontos antes do meu. Sem condições de ficar sentado naquele banco a sacolejar. Além do mais, eu gostava de andar a pé. Na verdade, eu preciso, é uma necessidade. Andar me faz pensar que não estou pensando demais. Cada passo busca distração qualquer que tire de mim alguma conclusão do que vejo, ouço, farejo. Volto a ser criança dentro do fusca de meu tio, indo para Itaquera, observando as luzes da cidade refletidas no vidro cheio de gotas esparramadas sobre o cobre dos postes de mercúrio. Lá, naquela lembrança, eu andava sem precisar dos meus pés. Era o mundo fazendo um caminho contrário.

Dona Hermínia enrolava a sacola de feira. A vista cansada ainda conseguiu me alcançar. Deu sua benção e um sorriso largo que redesenhou todas as marcas naquela pele preta vívida e vivida. Benção de dedos tortos, bem vividos também. Era o que eu precisava. Cruzamos nossos destinos e dissemos, um ao outro, qualquer palavra de proteção. Vá e volte, Dona Hermínia. Que o tomate não esteja o roubo de sempre. 

Ali, um quarteirão antes da minha cama, as pessoas não me olhavam. Eu me tornava invisível. Mais um, ali, indo. O que eles não sabiam é que, na verdade, eu fazia o caminho contrário. 

[Mensagem]

Ele: Dormiu comigo ontem para sair assim, sem dizer tchau? 
Eu: Pelo contrário. 



 



 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Banho-maria da solidão

Seu corpo já não era mais o mesmo. A cada final de dia, ele mostrava o desgaste. Rangia os cantos, doía as dobras, ressecavam-se as vigas. Era de se esperar, mas a vida não permitia sentar e aguardar. Pelos cômodos, zanzava de um lado para o outro, cuidando do lar, e não de si. Parecia até que morava fora da própria carcaça. Quando lhe sobrava algum tempo, pegava a faca e tirava as sujeiras debaixo das unhas, imaginando quando teria a chance de pintá-las novamente. Inclusive, imaginar ainda era o que lhe conferia algum alento. Alguma autonomia. Apesar de não ter mais patrão que ordenasse o que fazer, estava sabido de que a maior cobrança viera sempre de si mesmo. Não podia parar. Precisava se sentir útil, nem que custasse o esfarelar das paredes adentro e afora. 

Em tudo o que fazia, depositava um pouco de si. Se varria o pensamento, refletia sobre a vida. Enquanto lavava as mágoas, lembrava de amores passados. Na hora de cozinhar, a escolha dos temperos, dos legumes, da quantidade de água e intensidade do fogo, dividia espaço com o cantarolar de receitas que um dia tiraram da língua a insipidez das palavras não ditas. Enchia a boca de música, era o seu jeito. Ainda assim, mesmo nos instantes de abstração, permanecia em movimento, trabalhando sem parar. Ao seu lado, o cansaço, sem cansar, permanecia. Abstrair, no final das contas, era o banho-maria da solidão.

Certa manhã, enquanto tirava o pano de cima da farinha de milho para preparar o cuscuz, passou as costas da mão na testa e a levou até o meio da cabeça. Quando atingiu a moleira, fez-se um carinho. Neste instante, salgou a massa amarela com lágrimas. Há tempos não sabia o que era afago. Todas as dores que compunham as articulações se comoveram com aquela cena e deram alguns minutos de alívio a ele.

Enquanto seguia o instante, chorou e se deu a si mesmo. Cansou de buscar nos afazeres do dia a dia algo que apenas se adquire quando é o lado de dentro que assume o controle da situação: valor.  O tempo, senhor daqueles que contam com ele, trocou suas roupas leves e brilhantes pelo manto grosso e escuro da noite. Forrou-se, anunciando, assim o fim de suas atividades. Mas ele, o exausto, seguia trabalhando.

Foi então que a intervenção ocorreu: queda de energia, tudo se apaga. Sobra sobre a mesa uma vela. Ao olhar fixamente para ela, ainda apagada, tentou calcular quanto tempo duraria acesa. Duas, três horas, talvez? Até lá, teria voltado a luz? Não sabia, e não saber lhe atormentava. Foi até a porta da cozinha, olhou para a vastidão do quintal e avistou o jardim. Lá estavam as rosas, a camomila, guinés, abre-caminhos, as respostas todas. Um banho lhe cairia bem - e o levantaria daquele chão terroso. 

Antes, sentou-se à mesa e pegou a carta antiga que havia escrito, mas nunca enviado. Sabia a data de cór: trinta e um de janeiro - o último do primeiro. 

"Oi, sou eu.

Você me abandonou. Todos estes dias aqui foram despedidas. Sete, para ser mais exato. Antes eu não sabia, mas agora sei. Acho que isso me tirou um pouco da angústia. Eu sofri em silêncio. Talvez meu olhar fizesse algum barulho, só que era baixo. Quando eu mirava os pés, os meus e os seus, algo ecoava aqui dentro. Nem seu ouvido colado em meu peito conseguiria captar esse som, mas que algo ali chiava, garanto, chiava.

As distâncias nunca foram novidade, não é sobre isso que me refiro quando falo que fui abandonado. Hoje, escrevo esta carta para retribuir o seu adeus. Sinto que fui abandonado porque percebi que eu não era a chegada, eu não era o retorno, sequer o começo ou recomeço. Eu era a passagem. Um momento que nasce só porque já sabe quando irá se findar. Se pensei que poderia finalmente ser o propósito, acabei por me enganar. Às vezes eu faço isso, eu me engano para conseguir viver uma vida mais humana, com os erros todos, com o sofrimento que nos faz lembrar de que ainda sentimos algo por que nos falta bastante. Se no fundo eu sabia que assim seria, nas bordas, queria dar voltas para achar um caminho diferente até nós dois, sabe? Não consegui. Errei. Sou gente mesmo. 


Você me abandonou quando desdenhou da comida que te preparei. Eu fiz com as mãos, tinha muito de mim ali. Fiz com gosto, com amor, mas não te fiz ficar. Também me abandonou quando olhava ao redor e tudo te irritava, mas não conseguia mirar em mim e achar aquele fim de tarde bom, onde a gente podia se trocar nos toques em nossos rostos mornos como se, ao invés de batê-las, deitássemos o sol nas palmas. Eu escrevo aqui, agora, pra ti, do jeito que sei dizer o que não te disse no momento certo. Eu sei que poderia ter falado tudo isso enquanto esteve aqui, mas o passageiro aqui era eu, não o que eu tinha para te dizer. Isso era para ficar. Você me abandonou quando veio porque sabia que não iria ficar. Meu erro foi duvidar desta certeza tão forte quanto o abraço que te dei em meio às malas.  

Meu coração sofreu demais. Você levou muito de minha felicidade contigo. Não te cobro ou culpo por isso. Eu a dei de bom gosto, sim. Digo que a levou para te lembrar que ainda a tem, caso esta fosse sua vontade. O pedaço de mim, esse não passageiro, mesmo viajando contigo. Não pude ir até onde está. Não sei se consigo ou se quero ir. Enfim...o que sei é que você foi. 

E agora que foi, não volte. Teu lugar em minha mesa é outro."

Com o balde cheio, arrastou o corpo cansado até o banheiro. Abriu a janela, deixou a noite entrar, e o prateado sutil da lua tingir a água. As ervas preparadas. A pele, os pelos, as palmas e solas, tudo em silêncio, esperando pelo fim do encardido. Aos poucos, foi se banhando e sentindo cada bocado daquele emaranhado de quereres calados, por vezes mal ditos, não atendidos, adiados, nervosos, impacientes, firmes. Sempre muito firmes, segurando o todo que ele chamava de "eu". Um nome submerso nas águas agora douradas pela mistura do bronze de sua marca com o argento minguante. 

Pronto, sangrou tudo o que tinha para sangrar. Salgou tudo o que faltava salgar. Mas o doce, este se manteve. Na maciez encontrava aquele pouco de açúcar que ainda lhe fazia sorrir os ânimos. Com o melaço escorrendo da ponta dos dedos, sentou-se nu à mesa e degustou o suor adocicado como se fosse a recompensa pelo dia tão custoso. Parou, olhou e disse, convencido: 

"Fiz com as mãos. Tem muito de mim aqui". 

  


 


segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Lúcido

Quando saí pela culatra e fui atrás de você, eu sabia que era uma corrida sem fim. Um disparado sem rumo, um susto, aquela tentativa de evitar o retiro. Daqui, sei que a gente se pensa. Esta é a única certeza que guardei sobre nós. Vivemos o bastante para que se fizesse o para sempre.

Eu sei que o orgulho queima qualquer carta escrita e não entregue, mas as palavras que grafamos nela, isso não há como destruir. Cada escolha feita no momento de compô-la era mais do que comunicação. O que fazíamos ali era afago um no outro, sem tocar nos respectivos orgulhos. Maneira tola de achar que estamos nos preservando sem abrir mão daquele outro – você aí, eu, aqui – que nos complementa tanto. 

Suas visitas nos meus sonhos são as melhores. Eu, lá, posso me emocionar e chorar enquanto te abraço e digo que senti sua falta mais do que seu desprezo. Fazemos as pazes no meu inconsciente que, neste contexto de rompimento, é mais sensato e consciente do que o eu-acordado. Às vezes é difícil de lidar com o paradoxo de ter você sem precisar abrir mão de uma parte importante de mim.

Para nossa infelicidade, fui criado num contexto de despedidas, partidas, de abandono e solitude. Acabei me tornando bom em partir e péssimo em voltar. Mas será que nunca tentarei melhorar? Deveria, eu sei. Admito. 

Queria saber como está. Porém, não consigo te procurar. Ao menos eu sei de algo: você está sem mim. 

E isso, tenho certeza, ainda te faz pensar em nós. Então, pelo menos aí, sei que estamos juntos, nem que por alguns poucos segundos do seu dia.

Do seu consciente.

sábado, 5 de dezembro de 2020

Do que é feita a gentileza

Se eu não suporto o toque de desconhecidos, com certeza é porque existe uma boa razão para isso. Não é algo que explico, ainda mais se for para alguém qualquer a esbarrar em minha vida. Odeio que toquem em mim e ponto. 

(...)

Quando sentei para escrever a história de Antônio, busquei reunir apenas os brinquedos espalhados de sua infância. Pelo chão de barro batido encerado com pasta vermelha, era preciso tomar cuidado para não furar os pés com os bois feitos de galhos secos, ou os cangaceiros cujas armas eram facas cegas de outras épocas. Queria contar para quem quer que lesse que Antônio não era uma pobre criança largada na caatinga da minha imaginação. Não, pelo contrário. O menino era tão rico, mas tão rico, que podia se dar ao luxo de viver sem o mesmo nos momentos de descontração. Antônio era filho de coronel, rosado, nada ágil, uma criança feita para ficar parada, esparramada no chão igual aos seus passatempos. Foi então que se aproximou de mim alguém sem nome e, como se não bastasse, tocou-me o ombro direito. 

Reagi com rapidez e tirei sua mão com a minha, colocando-a sobre a mesa. O pedido de desculpas dele veio, mas não a minha simpatia. Enquanto os olhos ferviam, a boca se matava para não deixar o fogo escapar. Nesta luta incessante contra o forte desejo de mandar um "vai tomar no seu cu", resumi tudo em: "o que foi?". 

- Desculpe te interromper. Queria saber se você tem isqueiro. 
- Não. 
- "Não" me desculpa ou "não" tem isqueiro? 
- Não e não. 
- Poxa, já que o pedido de desculpas não adianta... posso te pagar uma dose do que você está bebendo para compensar o incômodo. 
- Não precisa. Basta me deixar aqui com minha ocupação. 
- E sobre o que é sua ocupação? 
- Olha... eu estou tentando não perder a educação...
- Gente, para que tudo isso? Só estava tentando ser gentil... 
- Sente-se, então. 
- O quê? 
- Sente-se, e vou lhe dizer do que é feita a gentileza. 

Ele sentou. Eu olhei para Antônio e pedi que me esperasse ali mesmo onde estava, envolto por seu folguedo sádico. Ele me ignorou - o que é sinal de que entendeu meu recado. Agora, livre, pude voltar a atenção para o desconhecido candidato a gentil. Dei-me sete segundos de silêncio para analisá-lo. Depois, comecei. 

- Eu tenho isqueiro. Parei de fumar, mas mantenho ele sempre comigo porque sei que a qualquer momento posso voltar a tragar cada um dos 22 cigarros que um maço tem. Então, além de mentir para você, também minto para mim. Você ainda quer o isqueiro? 
- Sim, por favor. 
- Aqui está. 
- Você quer um cigarro. 
- Não. 
- Está mentindo agora...
- E você aprendendo. Quero. 
- Tome. 
- Acende para mim? 
- De repente, parece que estou diante de outra pessoa. Primeiro, arrancou minha mão do próprio ombro, agora quer que eu acenda o cigarro em sua boca...
- São toques diferentes. No primeiro, você me invade. Neste segundo, sou eu que invado você. 
- Não entendi. Como assim me invade?
- Deixe pra lá. Eu estava escrevendo sobre Antônio. 
- E quem é esse? 
- Ele é muitos. Um conjunto de pessoas que conheci ao longo da vida e que, aos pedaços, foram me parindo Antônio, mesmo ele não sendo meu. Despois de costurado, tive que assumi-lo. Sempre quis ser pai, então, apeguei-me a isso. 
- Antônio ainda é uma criança? 
- Sim, saudável e quieta. Vive em seu mundo. Não me dá muito trabalho. 
- E você decidiu escrever sobre ele  por quê? É alguma carta para alguém? Para a mãe dele, ou pai (sorri com o canto daquele traço fino e sem graça que lhe parece ser a boca). 
- Escrevo sobre Antônio porque precisa sempre me lembrar de como mantê-lo vivo. 
- Não sei se entendi bem, mas, enfim... Não queria ter atrapalhado de qualquer forma. 
- Já que atrapalhou, diga-me, por que acha que lhe pedi para sentar aqui? 
- Por que te deu vontade de fumar acompanhado? 
- Realmente você está aprendendo. 
- Então, está me ensinando algo, é? 
- Acredito que sim. Uma lição diferente, talvez um pouco dura. Estou lhe ensinando sobre a mediocridade. 
- Com assim? Não ia me dizer sobre do que era feita a gentileza? 
- Antônio é uma criança que tem tudo porque seu sangue enriqueceu com o dos outros. Seu sangue é a herança mais valiosa que ele poderia ter. O moleque é filho de coronel. 
- Pensei que você fosse pai dele.
- Pensou errado, mas como está em processo de aprendizagem, tudo bem. O que tenho por Antônio é a vontade de ser pai, sem sê-lo. Mas a questão se volta para a gentileza e a mediocridade. 
- Acho que a conversa está estranha demais, você me desculpe, mas preciso voltar para minha mesa. 
- Antes, queria lhe agradecer pelo cigarro. Nunca mais toque em uma pessoa desconhecida sem o consentimento dela. 
- Ok, já pedi desculpa. 
- Meu isqueiro. 
- Aqui está. Valeu. 

Fito seu semblante arrastado saindo e desaparecendo entre os desinteressantes. Eu ainda queimava pelas vistas. Não adiantou muito tentar trucidá-lo ali na mesa. Quando eu estava terminando de colocar pressão na arapuca para, depois, lambuzar a ponta dos espetos com veneno, ele fugiu. 

Voltei para Antônio. Continuava lá, agora com um carcará das penas de palha e bico de semente. Suas mãos elevavam o pássaro que sobrevoava o cercadinho com a boiada. Parecia farto, não patrulhava em busca de caça. Talvez, apenas estivesse se planejando para a janta.

Perguntei a Antônio se ele não estava com fome. Ficou quieto por uns segundos e mordeu o porco de batata doce. Aquela criança era realmente simples, pura e simples como toda a criança. Pronta para ser corrompida pelos arredores. 

Foi o tempo de pular de um parágrafo pelo outro que, de longe, sentindo a pressão do ar mudar, novamente chega o boca de jabuti. 

- Eu já estou indo, não encostei em você, mas quero saber por que disse que estava me ensinando sobre do que é feita a gentileza e a mediocridade? 
- Tem mais um cigarro? 
- Tenho. O último. 
- Não quero. Não fumo o último do maço dos outros. 
- Por quê? 
- Porque não gostaria que pedissem o meu. E não daria também. 
- Gentil da sua parte. Só um minuto...

(Afasta-se, vai até outra mesa com uma garota fumante, pede um cigarro, ganha, retorna e me entrega o mesmo). 

- Então, você ia me falar sobre gentileza e mediocridade... 
- Antônio é uma criança que, de longe, segue observada por mim - alguém que não é seu pai, mas que o cria, assume sua existência, responde por e para ela. Naquele gigante quarto, o pequeno corpo se fixa como um ponto no meio da frase, uma quebra brusca que obriga a narrativa a abrir a porta e perguntar se está tudo bem. Ele não responde e segue naquele mundo, um mundo dentro do meu, que o olha a distância. O pivete brinca com seus artefatos rústicos, desafiando o conceito que temos de tempo. Ali, Antônio prova que nada além de sua atenção miúda é o que importa, o que conta e o que passa. O mundo, para ele, é uma batata doce com quatro palitos de madeira que formam as patas do "porco". Eu, mesmo vendo Antônio naquela situação agonizante de inércia no vácuo do quarto-universo, ainda assim não encosto nele. Não me sinto à vontade para interromper aquele marasmo em meio ao silêncio castigador da caatinga. Quem sou eu para achar que minha vontade de chacoalhar aquele projeto de pessoa e dizer - "Antônio, menino, você viu meu isqueiro?" podia ser importante o bastante se filho - ou algo do tipo - a gente cria para o mundo? Ponho-me no meu lugar de observador e faço jus a ele. Às vezes, o que me resta é ficar no meu canto, em meio à opulência do herdeiro de coronel e a pobreza da minha narrativa. Antônio permanece lá, consigo mesmo, sabendo pelo calor do meu hálito raivoso que, de longe, eu ainda zelo por sua segurança. O que ele precisa, eu, como seu provedor, dou: atenção. Sem sentir meu toque, ele sabe que nem eu nem ele somos tão importantes assim para valer a interrupção das entrelinhas em que fomos escritos. 
- E o que isso tem a ver com mediocridade? 

(pego sua mão e a coloco no meu ombro direito). 

- Eu sou Antônio.  

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Tempo da terra

Dias secos. Com a poeira do passado sendo soprada pelas bocas desconhecidas, resta-nos fechar os olhos para tentar nos proteger da aridez da realidade. O ontem não se resolveu, e veio cobrar do hoje a solução. 

Ao seguir o ritmo do tempo imposto, calendário balança feito roupa no varal. Começa se movimentando lentamente por conta do peso da água, depois, com o calor, seca e passa a se mover compulsoriamente, descontroladamente, livremente. Tempo livre feito roupa no varal, presa apenas pelo compromisso de continuar servindo. Cabendo. Dia após dia.

Um após o outro, a folhinha na parede nos recorda: sirva e caiba. 

Quando paro, no instante em que a boca do prendedor afrouxa e posso sentir meus ombros novamente como meus, confiro quantas marcas meu rosto ganhou. Uma aqui, outra ali, vão se encontrando. Se olho para o céu, elas parecem camisa amassada. Se baixo a cabeça triste a ponto de me enrugar mais, deparo-me com o espelho trincado, refletindo as rachaduras do chão  - agora na cara - seco, árido, lembrando que o pisar das solas secas no que pela manhã lavei enquanto rosto não pararia no amanhã. 

Um após o outro, seria assim, dali em diante, todo vez que acordasse, alguém me pisaria a face - fosse pessoa ou o tempo mesmo. 

Trabalhar com a ponta dos dedos dando ordens, com o restante de mim obedecendo, com a cabeça queimando a própria moleira e o coração sentado numa cadeira da cozinha, quieto, sem pegar uma maçã ou banana, apenas olhando a mãe limpar para, depois, conseguir lhe comprar maçã e banana. Pequeno, ele fica lá, esperando ser grande o bastante para trabalhar também. Para poder dar de comer à mãe. Dar amor. 

No fim, antes de a noite esfriar o lombo, mexo um pouco na terra já umedecida pelo suor. Salgada, luta para que não sequem os brotos antes mesmo de saírem em busca do sol. Não é falta de água nem excesso de sal. O que lhe seca são os dias. 

Um após o outro.