terça-feira, 27 de outubro de 2020

Tempo da terra

Dias secos. Com a poeira do passado sendo soprada pelas bocas desconhecidas, resta-nos fechar os olhos para tentar nos proteger da aridez da realidade. O ontem não se resolveu, e veio cobrar do hoje a solução. 

Ao seguir o ritmo do tempo imposto, calendário balança feito roupa no varal. Começa se movimentando lentamente por conta do peso da água, depois, com o calor, seca e passa a se mover compulsoriamente, descontroladamente, livremente. Tempo livre feito roupa no varal, presa apenas pelo compromisso de continuar servindo. Cabendo. Dia após dia.

Um após o outro, a folhinha na parede nos recorda: sirva e caiba. 

Quando paro, no instante em que a boca do prendedor afrouxa e posso sentir meus ombros novamente como meus, confiro quantas marcas meu rosto ganhou. Uma aqui, outra ali, vão se encontrando. Se olho para o céu, elas parecem camisa amassada. Se baixo a cabeça triste a ponto de me enrugar mais, deparo-me com o espelho trincado, refletindo as rachaduras do chão  - agora na cara - seco, árido, lembrando que o pisar das solas secas no que pela manhã lavei enquanto rosto não pararia no amanhã. 

Um após o outro, seria assim, dali em diante, todo vez que acordasse, alguém me pisaria a face - fosse pessoa ou o tempo mesmo. 

Trabalhar com a ponta dos dedos dando ordens, com o restante de mim obedecendo, com a cabeça queimando a própria moleira e o coração sentado numa cadeira da cozinha, quieto, sem pegar uma maçã ou banana, apenas olhando a mãe limpar para, depois, conseguir lhe comprar maçã e banana. Pequeno, ele fica lá, esperando ser grande o bastante para trabalhar também. Para poder dar de comer à mãe. Dar amor. 

No fim, antes de a noite esfriar o lombo, mexo um pouco na terra já umedecida pelo suor. Salgada, luta para que não sequem os brotos antes mesmo de saírem em busca do sol. Não é falta de água nem excesso de sal. O que lhe seca são os dias. 

Um após o outro. 

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Coral

Costumo desenhar situações. Literalmente, espalho os lápis coloridos sobre a superfície fina da minha intuição e rabisco todas as possibilidades que podem traçar os dias seguintes. Às vezes isso me toma tempo. Outras, tira-me o espaço para enxergar além do que poderíamos chamar de “expectativas”. Com tempo ou sem espaço, o que sei é que em cada linha desenhada, em cada rastro de cor que se destaca, há um desejo meu, forte, daqueles que marca no peito tudo o que coração tenta sombrear.

Hoje, a situação me levou até alguém distante. Envolto numa densa nuvem escura, ele estava lá, parado, no pico das ideias, observando a cidade mudar da ansiedade do dia para a melancolia da noite. Sua cor era escura, azul profundo que mais parecia me puxar para dentro dele. Índigo. Hipnotizante.

Aquela atmosfera de mistério combinava perfeitamente com o desenho que fiz antes de sair de casa – e que tinha no tom rosa do lápis mais nanico – por ser o mais usado – o desgaste da minha imaginação, aquela que não se cansa de rabiscar o que projeta em segredo. Segredo, não. Mistério.

Pensei em mil frases a serem ditas, mas nos últimos dias acabei calado. Tinha minhas questões para pensar e junto com essa responsabilidade vinha o desânimo em expelir qualquer que fosse a frase que tentasse expressar o que sentia. Ou melhor, o que eu não conseguia sentir. Nestas últimas semanas eu pouco rabisquei. Passei mais tempo tentando apagar. Agora me vejo aqui, no entardecer, com estas cores que eu já havia imaginado antes mesmo de ver. Tudo que ontem só ficava dentro de minha cabeça explodiu naquele infinito cravejado de estrelas e, pela primeira vez, senti como se conseguisse mostrar para o mundo todo, para toda aquela cidade lá embaixo, para aquele rapaz ali em cima, as cores das minhas vontades. Eu entardeci. Nasci no fim de um dia diferente do meu aniversário e ainda assim me fiz aniversariante só porque sabia que o presente estava por vir.

Verifiquei se não havia perdido o que eu trazia nos bolsos. Tudo certo. Queria dar algo a ele. Sentia que precisava dar algo a ele. Já havíamos aprendido a nos comunicar pela linguagem dos silêncios, então, era mais do que justo que eu dissesse, sem emitir uma palavra, o que ele necessitava tanto ouvir. Nem a penumbra daquele pico conseguiu me esconder. Aquecido no moletom coral, eu cheguei como quem não quer nada, querendo tudo. Pensei comigo mesmo: “que cor teria essa situação?”. Não tive tempo de me dar a resposta, pois já estava sentando ao lado dele.

- Trouxe algo pra você relaxar

O menino mais leve que o vento

Quando foi a última vez que o ar acariciou o rosto ao invés de bater nele? Quando foi a primeira vez que se sentiu como o vento – livre o bastante para não ir, apenas ocupar o espaço vazio, suavemente, como brisa leve? É tanto pesar dentro da mente onde os pensamentos deveriam apenas flutuar feito nuvens e, leve como elas, apenas deixar chover ideias, que dá vontade de soprar a cabeça como se assopra um machucado. Em que momento o tempo fechou dentro de si e aquilo que chamava de alívio se tornou sufoco? São muitas perguntas para respostas ainda indefinidas, mas querer saber faz sair pelo mundo – de dentro e de fora – em busca de algo que encha novamente os pulmões. Algo que dê fôlego.

O ar, o vento e a necessidade de sentir o sopro da liberdade arrepiar os pelos do braço. Um misto de alívio com risco. Algo parecido com o medo de ser feliz – ou o medo de não aguentar a felicidade. Há quem fale sobre leveza, porém, não é toda hora que os ponteiros da vida permitem relaxar. Cada segundo passado parece uma vida perdida. O peso dos dias corridos, talvez, seja o que faz do ar, do vento, algo angustiante, já que não se pode tocá-los nem sentir, por um instante, que a liberdade está em suas mãos. Livre o bastante para se manter preso nas próprias escolhas – estas que, por sua vez, nunca são livres o bastante.

Do berço cair, pelo chão se arrastar, nos móveis buscar apoio e nos olhares equilíbrio. Erguer-se, desde pequeno, é um ato de coragem. É o primeiro contato com o peso, tamanho, com a densidade de algo que se carregará para o resto da vida: si mesmo. Se mesmo nos primeiros anos já se pode superar a gravidade da situação que é nascer neste mundo, por que se perde na poeira das expectativas não vividas justamente aquilo que se há para viver? Se pequeno se levantou, por que grande não caminha? Por que gigante não alcança? Por que alto não enxerga além do baixo muro da realidade aparentemente intransponível? Mais perguntas, menos respostas. A mesma necessidade de fôlego.

Respirar o ar. O próprio ar. Quando foi a última vez que o fôlego veio do âmago e não do boca-a-boca alheio? Quando...?

Há dias em que as lembranças guardam as verdadeiras respostas para as tantas perguntas que o vento traz.  Nestes dias, há de se encontrar entre as fotos bagunçadas nas gavetas da memória aquilo que, em situações sufocantes, fará toda a diferença: o respiro.

Inspirar e espirar. O subir e descer do peito será a prova que ainda há vida mesmo no corpo cansado; na mente exausta. Trata-se de jamais prender a respiração novamente.

Trata-se de libertá-la. Finalmente.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Índigo




Deixo o azul escorrer pra sentir a espinha gelar. Daqui do alto, eu vejo as luzes da cidade e elas, da outra ponta, também conseguem me enxergar. Brilhamos distantes, como toda beleza deveria ser. Brilhante e distante.

Olho e sinto, como se o tom tivesse mesmo o dom de me tocar. É frio, mas é bom, não corta, mas também não faz carinho. Ao mesmo tempo que me dá vontade de fazer absoluto silêncio, ele, o tom, passa da cor pro som, e me faz ouvir o movimento do sono no ar... É como se fosse uma lenta respiração de todo o planeta adormecido, cujo barulho de “inspira e espira” praticamente soasse tal qual uma canção de ninar.

Ali, em meio àquele azul todo do céu que cobria a cidade, eu lembrei que quando era criança, acreditava que o sonho nada mais era do que ser levado para o topo do universo pela própria cama e se cobrir com as estrelas todas. Sonhar, pra mim, era estar no céu, coberto de azul, brilhando distante. Pensando aqui, agora, como é que a gente se perde tanto ao crescer e não mais crer nestas explicações para os fenômenos mais simples da existência? Sei lá, viu... Sei lá.

Cometi o erro de tentar pensar na vida hoje e hoje mesmo eu desisti. Não da vida, mas de pensar em como ela seria. Tudo frustra, justamente porque exige de mim o que eu mesmo jamais exigiria. Vem de fora, de pessoas que nem conheço, vem de uma voz que não me soa familiar. Por isso que eu vim para cá, bem no pico de sempre, ficar ausente lá embaixo.

Aqui o azul predomina e resfria meu rosto como sopro bom pra tirar o ardor de machucado, o roxo do olho, o vermelho do sangue pisado, e fazer casca no ralado... É bem assim que eu quero ficar, pelo menos no que sobrou do dia. Só que você me mandou mensagem dizendo que estava chegando.

- Trouxe algo pra você relaxar.
- Eu disse que estava nervoso?
- Se não disse antes, acabou de dizer agora.
- O que é?
- Música. “Bad Dream/No Looking Back”.
- Só ela me faria subir até aqui pra ver sentido em todo esse horizonte sem propósito aí na frente.
- A vista aqui é diferente mesmo, né? A gente não consegue ver o tanto de cobrança que há ali por entre as ruas.
- Sim. Aqui, eu consigo ver cores nos sons, ouvir sons quando lembro de rostos, consigo entrar numa relação diferente com o tempo.
- Ele para?
- Não, ele circula. Vai e volta, dá um abraço de “oi” e logo em seguida um de “tchau”. Tô viajando nas ideias, eu sei...
- Até aí, normal, né? Eu sei do que você precisa.
- Sabe, é?
- Não só sei como te darei.
- Você tá ligado que se errar, as chances de eu nunca mais botar uma fé na sua capacidade de saber do que eu preciso são grandes, certo?
- Certíssimo.
- Então vai, diz aí do que eu preciso?
- Esmalte nessas unhas.
- Caralho... Pior que não tem como eu discordar de você.
- Pois muito que bem. Tô com a cor aqui.
- E qual vai ser?


quarta-feira, 4 de março de 2020

Como

Quando me sai o passo, eu não acompanho o que fica ao lado. Parece que vou, indo apenas, já ciente de que o final estarei sozinho. Odeio esperar os outros, mas não tenho pressa. O ódio vem da aversão à sensação de abandono. Coisas que só uma pessoa como eu poderia saber. 

“Uma pessoa como eu...”. Como? 

Quando entrei na casa de Bernardo e Sofia, senti que nada ali bem me recebia. As duas crianças, com uniformes limpos de marinheiro e marinheira, olharam-me com desgosto. Pensaram, acredito eu, que aquela criança que chegaria para brincar com elas não se pareceria com o próprio brinquedo quebrado. Minhas canelas finas e acinzentadas, a cor que destoava do ambiente ebúrneo, a fome tão constante quanto a vergonha, os olhares baixos e a boca seca. Sim, eu era realmente a imagem de algo quebrado. Tão pequeno, tão quebrado. 

Fui ensinado a não aceitar comida na casa dos outros. Mãe tinha aflição de parecer que estava levando os filhos apenas pra comer e também temia dar trabalho para os donos da casa. Ela, empregada desde sempre, sabia que pra fazer um lanche pro menino mirrado alguém teria que deixar de fazer o lanche de Bernardo e Sofia em primeiro lugar. A barriga roncava e eu não conseguia me desenvolver nas brincadeiras que o casal de irmãos propunha. Tudo para mim era sem graça e cansativo, batia aquele sono que vem do bocejo disfarçado de cansaço. Aguentei, calado, até o almoço. Um prato de macarrão com molho que, naquele momento, era a comida mais deliciosa do mundo. Eu comia, eles riam e cochichavam.

Com a barriga cheia, senti a indigestão me causava aqueles dois. Eu comecei a prestar atenção em seus movimentos. Duas crianças patéticas e limitadas, que pareciam acomodadas à limitação de suas capacidades cognitivas por conta da faixa etária. Em outras palavras, foram educados à base da servidão. Não precisavam se esforçar muito para conseguir as coisas. A pele branca, os cabelos lisos e os nomes sem propósito lhes garantiam a vida de quem teve a luta pela sobrevivência amputada desde o nascimento - de quem não precisa chorar pra mamar. Bernardo e Sofia eram filhos da patroa de minha Tia avó – empregada da família que trabalhou por anos esfregando a imundice dos patrões incapazes de realizar auto-higienização. 

Os dois, então, vieram até mim e começaram a perguntar “Por que seu cabelo é assim? Por que sua roupa é assim? Por que você é tão magro? Por que você é mais escuro?”. Lembro bem que cada pergunta era seguida de um risinho débil. Eu, que desde cedo conheci a malícia e crueldade de outra criança – branca -, já sabia lidar com elas de uma maneira efetiva. O ódio.

Sim.

Crianças negras são forçadas a lidar com este sentimento desde cedo. Muito cedo. E como esse ódio de manifestava? 

“Como esse ódio se manifestava?”. Como? 

Eu os fazia olhar para si mesmos da maneira como os via. Começava, então, a dissertar sobre tudo o que aparentavam pra mim. Os uniformes patéticos de marinheiro, as risadas de rato, as caras rosadas iguais as de porcos, a incapacidade de subir numa árvore, de correr mais do que eu, de dar uma estrelinha, de fazer estilingue com elástico. Eu começava a questionar o que eles, de fato, sabiam fazer de interessante. Praticamente nada. Apenas riam como ratos. 

A fúria vinha e logo a única arma que tinham: o choro e o pedido para que me tirassem da casa. Os adultos, donos do antigo imóvel numa rua de classe média do Rio, olharam-me com nojo. Tia e mãe vieram me questionar e eu só disse que eles estavam me provocando e resolvi responder. Não disse o que, mas nem precisei. As duas sabiam que eu estava me defendendo. Lembro perfeitamente que saí da casa sem me despedir dos dois irmãos, Bernardo e Sofia. Deixei eles com o que, talvez, anos adiante, entenderiam bem do que se tratava. A miséria de si mesmos.

Tão pequeno, uma criança, será que já é possível dizer que a vingança é um prato que se come frio? 

“A vingança é um prato que se come frio”... Você come? 

Como. 

domingo, 1 de dezembro de 2019

Aos meus, que nunca tive

Queria lembrar do exato momento em que fui quebrado. Não vou dizer que "eu me quebrei" porque não é verdade. Veja, consigo me lembrar, ainda que vagamente, do menino alegre e carinhoso que eu fui. Silencioso também, tímido, mas nada disso mudava a forma pura e sutil  de como eu sentia o mundo e as pessoas. A cena - para melhor descrever esse menino todo cheio de benquerer - é aquela em que uma criança dorme toda torta na cama, durante à tarde de sol, e as cortinas sopram ventos frescos pra tirar daquele pequeno corpo o calor de quarta-feira. Quem olha para ele, o menino, entende seu cansaço. É aquele cansaço bom, que só gente boa sente.

Em algum momento isso tudo se lascou. Nunca mais foi o mesmo. Mudou ou foi mudado. Mudou porque fui mudado. Alguma coisa se calou, só que ainda não consigo me recordar do exato momento. Bom, foram tantos. As tentativas de me quebrar começaram cedo. Então, desde manhã eu tive que entender o quão frágil era tudo aquilo que estava dentro de mim e eu sentia como se fosse explodir. Criança é isso... Mesmo sem tamanho, sente-se gigante.

Hoje, eu passei dos trinta anos e ainda não sei quando fui quebrado. O que eu sei mesmo é que a minha cabeça nunca mais foi a mesma. Ela se distanciou demais do corpo. Deitavam na mesma cama, todas as noites, sem se falar ou se tocar. Distantes, nos quilômetros que separam um travesseiro do outro. Ao levantar, diariamente, não conseguem nem se olhar. Quando se esbarram, buscam o desvio. O corpo culpa a mente pelo abandono e constante liberação de desgraças que afetam seu funcionamento. A mente culpa o corpo por dar a ela mais preocupações do que as que já tem. Ela se sente duplamente culpada - por ser quebrada e por quebrar o corpo. Às vezes, quando bebiam, parecia que melhorava a condição dos dois. Exageravam-se, abraçavam-se, tocavam-se, queimavam todas as energias reservas e, quando não sobrava mais nada, capotavam-se na mesma cama que demarcava onde um começava e o outro acabava.

Na manhã seguinte, não se tocava no assunto.

Talvez meu corpo proteja a mente ao não deixar que ela tenha recursos o bastante pra lembrar quando foi quebrada. Só que isso também é a causa de sua angustia. Olha, não é fácil a vida a dois, não. A mente também castiga o corpo quando o impede de sair de casa, do quarto, de si mesma. É como se tivesse o poder de transformar ele numa máquina que apenas repete movimentos. Um tira do outro si mesmo. Assim não dá. Fica impossível.

Pergunto eu para mim: será que foi naquela situação? Não, não foi tudo isso, não me abalaria tanto assim... E aquele outro dia? Aquela frase? A reação dele pode ter desencadeado isso, não? Acredito que não. O que eu não tive? O que me faltou? Será que foi isso que me quebrou? De repente, tiraram algo de mim muito cedo... Mas não lembro... O que me causava mais medo? Bom, eu tinha tantos... Medo de decepcionar as pessoas que eu admirava. Minha mãe, minha vó, meu pai, a primeira professora... Vivia tenso, tentando fazer tudo "certo". Eu me quebrei no momento que errei? Não. E quando eu acertei? Bom, eu ficava feliz, só não sei se era felicidade mesmo ou alívio. Nunca soube a diferença de um para o outro. Alívio só faz a gente trocar uma tensão por outra. Já a felicidade, não sei. Parando pra pensar aqui... Eu não sei o que é felicidade  porque toda vez que acredito saber, encontro outro nome pra ela que faz mais sentido. Alívio ao invés de felicidade. Mas o que me quebrou? Será que o que foi quebrado era justamente a felicidade que eu nunca soube que tinha?

Aquilo de tentar rememorar os momentos bons pra combater a tristeza deve funcionar, sim. Não comigo, mas com outras pessoas. Das vezes que tentei, fiz apenas porque calculei ser uma forma de reagir às fissuras que me arranham por dentro. Tática. Racional demais eu - ou minha mente. Nunca deu certo porque quando eu recordava de algum momento "bom", sorria de leve e me dizia de prontidão: mas você vai morrer muito em breve. Esta frase retumbava - e ainda retumba - por todo o corpo, como notícia de separação. Divórcio da mente e do corpo. Cada canto meu se cala e encolhe como os filhos no quarto ao lado, recebendo a notícia pelas paredes. Nenhum criança gigante, nenhum sono tranquilo. As cortinas ainda dançam por causa da ventania da tempestade e parece que ela é a única que me entende mesmo. Acho que ela deve saber quando me quebrei. Quando me quebraram.

Há pouco conversava com um amigo. Parece que minha mente consegue dialogar com a dele. Questionei se existira alguma pessoa no mundo que entendesse o que é deitar ao lado de alguém, na escuridão, que pede apenas presença e silêncio - no máximo, a cabeça sobre o peito pra ouvir o coração batendo. Ele disse que talvez haja. Eu respondi que sinto a certeza de que não. Comecei essa conversa como uma despedida, mas terminei ela dizendo que iria escrever.

Escrever aos meus, que nunca tive.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Poeira e sangue

Quando a lua sangrou e nós dois tocamos a palma da mão um do outro, sabíamos que o pacto era maior do que o corpo poderia suportar. Veia com veia, trançados em vermelho - o traje perfeito para virar a esquina que nunca se quebra -, ouvimos um zunido a chamar, bem baixo e agudo, pelos nossos nomes. Era o chão que esquentava feito brasa e a poeira antes seca e sólida, sozinha nas nossas solas, tornou-se sal.

O que ambos os corações queriam era, na verdade, o suspiro da carne que, aliviada, tremia. Juntos, abrimos as pernas forçando os joelhos a se curvarem diante dos três caminhos que convergiam num só lugar: nossas nucas, as quinas do coco. Era por trás que Ele chegava com seu hálito macio de boca que sabe abocanhar e, ao invés de fazer gritar, obriga a gente a morder os lábios.

Da noite pro dia, dia de novo.

Tingia-se o céu de rubro-negro, amanhecia-se a madrugada com o calor matinal, aquele primeiro a pular as janelas pro mormaço abraçar. Sabíamos dos riscos.

Passamos quatro noites trancados no quarto, relendo cada palavra e sentindo o vibrar pelas cordas vocálicas como acordes sufocados de uma viola desafinada. A garganta seca, os olhos ardem, o corpo pela. Assim foi o tempo contido: um pedaço de vida dividindo o útero em quatro paredes cujo parto era anunciado toda vez que abríamos a porta e ela rangia de dor. Como nascer os dois? Como nascer em dois? A dúvida corroía e azedava a comida no prato. Como se lavar se nem nascemos pro mundo ainda? Era o suor que besuntava os pelos todos, fazia coçar, pedia pra arrancarmos na unha aquele tempero forte. Mas chorar ninguém chorava.

Enquanto lambíamos as feridas um do outro, repassávamos cada verso num ritmo diferente daquele que foi imposto pela escrita nas telhas do teto. Lá no alto, tudo corria. Aqui embaixo, tudo escorria. Quente.

Fora daquele cubículo, já sob o olhar da Lua ruge, nós fomos o vermelho no breu. Ritmados, era chegada a hora de mostrar como se faz. Como nós fizemos.

O estalar das mãos faz arder a pá do toque
Deixa vermelha a carne escondida debaixo da unha
Oferecemos o que temos: poeira e sangue
Oferecemos o que temos: poeira e sangue

Ninguém canta a canção do cavalo de brasa
Ninguém cavalga no lombo da noite
Ninguém dança sob a luz do sol azedo
Ninguém dança quando a lua faz sombra no céu vermelho

Só nós.

Trança os panos, amarra o buxo, corta aqui e ali
até ouvir o rachar da cuca
Não adianta correr, não adiantar apressar o passo
Atrás de nós, perde o fôlego o calcanhar
São três caminhos pro mesmo encalço
Ir. Voltar. Ficar. 


A meia volta corrige o relógio que andava com o pé dos outros
Zero horas no par de Ós que juntos não são nada
Eu e você, no marco, na hora marcada, atrasamos o futuro e o passado
Nem mais um segundo presentes, damos ao mundo o que ele merece
Um par de nós.

Amarrados.

domingo, 27 de outubro de 2019

Como eu te achei

Não sei. De verdade, não sei como te achei ou se fui achado. Se eu sentasse na mesa de um boteco e fosse contar pra quem quisesse ouvir como que te conheci, teria de mentir. Não é falta de memória, muito menos pouca importância. A questão é que eu não sei como te achei porque não fui buscar você lá nos confins de qualquer lugar, muito menos esperar sentado pra confirmar o que minhas amigas sempre disseram - "uma hora, quando você menos esperar, ele vai aparecer pra te conquistar". Eu me sentia como uma terra esperando pelo colono, sem maldade... Não era pra ser assim. Nem foi, viu?

Longe de mim pisar em solo distante com essa intenção. Gosto é do perto, aquele ali, logo ali, na esquina, na beira do quarteirão, da rua com nome de número,  que me olha de rabo de olho e parece dizer tudo o que eu quero ouvir, mas quem ouve com os olhos? Eu ouço é com os ouvidos e você, ele, eles, nunca me disseram nada. Ainda que eu tivesse certeza do que escutaria, eles juntos não valem um sozinho - o que dizem por aí, só que o que a gente sente por aqui... é outra fita.

Lá, onde pela escrita eu desejo chegar, é onde você está. No frio da borda do oceano, com margem de dois dedos, é onde vou te procurar. Pode estar com amigas, amigos, ex-maridos, qualquer coisa que venha a te, momentaneamente, complementar. Não é problema meu - mas eu ajo como se fosse. O que é meu é você e o que é nosso não é à toa. Aqui, contigo, nesse espaço vazio, eu não prego a segurança que não tenho. Óbvio que me incomoda ver teu sorriso dando ritmo pra conversa fiada sem nota(r) que tá tentando achar o tom há tempos perdido. Só que você me sabe, você acha que me conhece por inteiro, mas quando eu me dei por completo nos seus lençóis, você que se dobrou pra me dobrar. Se conseguiu ou não, é essa dúvida que nos move um até o outro. Até hoje.

Não vivo de palavras, não sou traça, e se for parar pra te contar tudo o que bate aqui na nave do meu pensar, porra... Sei lá onde a gente vai parar. É engraçado como eu odeio rimas, mas elas vêm sem eu chamar. Quando eu vejo, tão aqui, de parzinho, desenhando qualquer rabisco tosco, sozinho, que quando destacado pela atenção de quem ainda se presta a acompanhar, mente na cara larga que tá dizendo tudinho. Não diz, guarda parte pra depois, quando finalmente um for dois. A maldita rima, inevitável como dois mais dois ainda são: nós pra depois.

Eu te achei. Peguei pela raiz. Você queria carinho, eu queria acariciar. Cominho com almíscar. Quando teu couro cansado pediu cafuné, era eu que tava ali pra dar, tipo daninho, alastrando - onde der, nóis tá. Com as pontas das unhas, semeei na sua cabeça o carinho que eu sempre tive pra lavrar, mas não achei alguém fértil o bastante pra me mostrar o caminho. Daí eu fui, ali, no meio dos seus grisalhos, até que tudo se emaranhou: meu cuidado com seu descaso; seu descaso com meu apreço; meu apreço com seu relaxo; seu relaxo com meu cuidado; meu cuidado com seu abraço; sei abraço com meu tremor; meu tremor com seu mormaço; seu mormaço com meu sabor; meu sabor com seu desejo; seu desejo com meu receio; meu receio com seu compasso; seu compasso com meu amor.

Quando escrevo sobre nós, o que ponho nas linhas é a arte de se trançar, cruzar, atar, plantar, manter na garganta a única nota capaz de desafinar as cordas vocais. Como se fosse aquela noz difícil de descascar e, em seguida, engolir.

Eu entalo, faço caroço do que é nosso, finjo que concordo com a falsa premissa de que nossa semente não dá frutos. Nós, na garganta, somos o caminho que as palavras não ditas fazem para chegar até o chão do peito. Solo pra se criar, mas a dois, é melhor de cultivar.

Foi assim que eu te achei: quando procurei nós, na garganta.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Linha do tempo

Sente-se ao meu lado, em silêncio. Sinta o peso dos meus ombros. Saiba que são firmes, podem suportar o fardo que avoluma seu coração. Apenas se mantenha em silêncio e sinta, com eu sinto muito, minha presença. É exatamente assim que iremos compor o melhor dos nossos retratos. Ao meu lado, eu e você somos peso e silêncio, as excelências do amor, duas agulhas a costurar o que chamamos de intimidade.

Pelas sutis vias do tempo, pude aprender mais sobre as linhas todas que emaranham meu senso de mundo. Isso nunca foi segredo. Esta minha desconexão com o barulho lá fora não era por acaso. Nasci sem chorar, calado, como já havia lhe contado antes. Meu recado foi pontual: nada aqui me soa novo. Nada aqui me impressiona. Não me emociono porque esperam que eu me emocione. Não havia intimidade alguma nem mesmo com minha mãe. Fio por fio, embaraço por embaraço, aprendi a amar meus nós – seja lá o que amor signifique neste contexto. Talvez, respeito, cuidado, os dois, trançados. É uma relação muito próxima esta de, silenciosamente, tocar as linhas que desenham nossa cabeça, não? Os erros do passado roubaram as minhas, eu preciso confessar. Porém, quando sonho, as vejo novamente no devido lugar, volumosas e secas feito a poeira em minhas veias. Fio por fio, na cabeça.

O tempo e suas vias sutis... sim. Aquele firmamento de linhas, aquele chumaço que pesa e não faz barulho algum. Quando toquei suas raízes, buscava o fruto quente. Lá, acreditei que seria possível tecer a cesta pra sua abundância e deixar os caroços pra nossa terra fértil no fundo do quintal. De fato, encontrei.

Estamos juntos, envelhecendo juntos, aqui, sentados nesta sacada vendo a promessas do amanhã parecer previsível e desinteressante. Não se trata de beleza nesta constatação, nem romantismo, muito menos angústia ou desgosto. Odeio esta mania morna de precisar sentir tudo sob medida. Há espaço para este tipo de interpretação deste momento nosso, sentados um ao lado do outro? Aqui, não.

Estamos envelhecendo juntos e o tempo, vestido de ampulheta, esvazia a laje pra encher o chão. O que há são as linhas marcando nossas expressões todas e cada uma delas conta, secretamente para mim e para você, nossos momentos de intimidade. Momentos em que você se ateve a mim e eu me atei a você.

Por isso te peço, aqui, que fique em silêncio, ao meu lado, e sinta a presença de quem lhe é abrigo, onde as linhas jamais te prenderam, pelo contrário, ensinaram-lhe o caminho de volta - de volta para a intimidade, onde os ombros inabaláveis te aguardam.

Dentro de minha casa, as linhas do tempo formam um círculo, não uma reta. Você volta porque nós ficamos. 

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

É amor, o próprio

Este caminho desconhecido por onde passo tá me custando mais que saúde mental. É físico também, tipo aquele calor gelado, aquele suor que refresca o fogo sobre e sob a pele. Falei pra você dia desses aí que queria tudo, do começo ao fim, do brega ao sofisticado, do comum ao único. Direito meu, tá ligado? Nunca cheguei tão perto disso que geral sempre chamou de amor e agora que tô, dá licença aqui. Vem você, comigo de leve, mostra como que faz que eu faço, por nós dois, mas por mim, principalmente. Não é egoísmo, não, certo?

É amor, o próprio, o certo.

Aquele papo de se complementar, metade do outro, todo nosso, tudo nosso, um no outro, os dois ali, deitados, deixando o tempo livre pra passar... Aquele papo faz todo sentido memo, porque quando você vem de bicão, eu tô suavinho feito sopro no joelho ralado. Não achei que fosse assim, afinal, nunca fui de chaleirar ninguém, mas se eu te tratar como todo mundo, você não será o lugar onde quero ficar - só mais um pico pra colar, fazer a social, dar um salve e nunca mais responder os "e aí, vamo se reencontrar?"

Daí eu te trato de um jeito especial, pra você sempre ter vontade de voltar. Tiro aquele teco de papel, passo a língua de leve e deixo no rastro da saliva a letra pra tu retornar. Endereço é fita séria, porque traça o caminho até onde a gente chama de lar e guarda o doce lá, no pote onde tem que ficar na ponte dos pés pra pegar. Difícil, viu? Por isso que pra chegar tem que saber chegar. Então fica de vez, vai... meu eterno retorno.

Quando a conversa cai no mais do mesmo, eu troco o disco e te mando música nova. Tranquilo, ouço você reclamar de tudo, finjo que não tenho o que dizer pra te fazer enxergar que é tudo fase, que o vai e vem do destino só não é mais evidente que a vontade que eu tenho de beijar sua boca e esparramar os lábios pela cara toda enquanto você fica sem saber se desiste e deixa lambuzar ou insiste e continua a lamentar. Finjo, mas é sem maldade. No fundo, eu gosto de te ver desenrolar comigo sobre os problemas que te atormentam. É nessas horas que eu me sinto remédio, carinho, cuidado, solução pro dia de cão, aquele cafuné de virar as ideias feito lata.

Eu te quero bem, meu bem, mesmo quando tá ruim aí, e não forço a mudar o humor, não. Só te mostro que quando tudo melhorar, já sabe onde comemorar. Se ficar mais pesado, corre aqui e desaba. Pega nada, você já ficou caidinho por mim uma vez, agora é só fechar os olhos de mel que eu vou te segurar. Lá de cima a gente brilha mais forte e você fica tão bonito quando tá altinho, pique estelar. Boto fé que logo mais é a gente junto, dançando de testa colada, seguindo o ritmo um do outro, sem medo de se estatelar. 

"Quem diria, hein? Você tá mudado, hein? Ele mexeu contigo mesmo, hein? Tá pego, hein?

É aquele bonito que tava na foto com você?"

É quente, o próprio, o amor.