quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Poeira e sangue

Quando a lua sangrou e nós dois tocamos a palma da mão um do outro, sabíamos que o pacto era maior do que o corpo poderia suportar. Veia com veia, trançados em vermelho - o traje perfeito para virar a esquina que nunca se quebra -, ouvimos um zunido a chamar, bem baixo e agudo, pelos nossos nomes. Era o chão que esquentava feito brasa e a poeira antes seca e sólida, sozinha nas nossas solas, tornou-se sal.

O que ambos os corações queriam era, na verdade, o suspiro da carne que, aliviada, tremia. Juntos, abrimos as pernas forçando os joelhos a se curvarem diante dos três caminhos que convergiam num só lugar: nossas nucas, as quinas do coco. Era por trás que Ele chegava com seu hálito macio de boca que sabe abocanhar e, ao invés de fazer gritar, obriga a gente a morder os lábios.

Da noite pro dia, dia de novo.

Tingia-se o céu de rubro-negro, amanhecia-se a madrugada com o calor matinal, aquele primeiro a pular as janelas pro mormaço abraçar. Sabíamos dos riscos.

Passamos quatro noites trancados no quarto, relendo cada palavra e sentindo o vibrar pelas cordas vocálicas como acordes sufocados de uma viola desafinada. A garganta seca, os olhos ardem, o corpo pela. Assim foi o tempo contido: um pedaço de vida dividindo o útero em quatro paredes cujo parto era anunciado toda vez que abríamos a porta e ela rangia de dor. Como nascer os dois? Como nascer em dois? A dúvida corroía e azedava a comida no prato. Como se lavar se nem nascemos pro mundo ainda? Era o suor que besuntava os pelos todos, fazia coçar, pedia pra arrancarmos na unha aquele tempero forte. Mas chorar ninguém chorava.

Enquanto lambíamos as feridas um do outro, repassávamos cada verso num ritmo diferente daquele que foi imposto pela escrita nas telhas do teto. Lá no alto, tudo corria. Aqui embaixo, tudo escorria. Quente.

Fora daquele cubículo, já sob o olhar da Lua ruge, nós fomos o vermelho no breu. Ritmados, era chegada a hora de mostrar como se faz. Como nós fizemos.

O estalar das mãos faz arder a pá do toque
Deixa vermelha a carne escondida debaixo da unha
Oferecemos o que temos: poeira e sangue
Oferecemos o que temos: poeira e sangue

Ninguém canta a canção do cavalo de brasa
Ninguém cavalga no lombo da noite
Ninguém dança sob a luz do sol azedo
Ninguém dança quando a lua faz sombra no céu vermelho

Só nós.

Trança os panos, amarra o buxo, corta aqui e ali
até ouvir o rachar da cuca
Não adianta correr, não adiantar apressar o passo
Atrás de nós, perde o fôlego o calcanhar
São três caminhos pro mesmo encalço
Ir. Voltar. Ficar. 


A meia volta corrige o relógio que andava com o pé dos outros
Zero horas no par de Ós que juntos não são nada
Eu e você, no marco, na hora marcada, atrasamos o futuro e o passado
Nem mais um segundo presentes, damos ao mundo o que ele merece
Um par de nós.

Amarrados.

domingo, 27 de outubro de 2019

Como eu te achei

Não sei. De verdade, não sei como te achei ou se fui achado. Se eu sentasse na mesa de um boteco e fosse contar pra quem quisesse ouvir como que te conheci, teria de mentir. Não é falta de memória, muito menos pouca importância. A questão é que eu não sei como te achei porque não fui buscar você lá nos confins de qualquer lugar, muito menos esperar sentado pra confirmar o que minhas amigas sempre disseram - "uma hora, quando você menos esperar, ele vai aparecer pra te conquistar". Eu me sentia como uma terra esperando pelo colono, sem maldade... Não era pra ser assim. Nem foi, viu?

Longe de mim pisar em solo distante com essa intenção. Gosto é do perto, aquele ali, logo ali, na esquina, na beira do quarteirão, da rua com nome de número,  que me olha de rabo de olho e parece dizer tudo o que eu quero ouvir, mas quem ouve com os olhos? Eu ouço é com os ouvidos e você, ele, eles, nunca me disseram nada. Ainda que eu tivesse certeza do que escutaria, eles juntos não valem um sozinho - o que dizem por aí, só que o que a gente sente por aqui... é outra fita.

Lá, onde pela escrita eu desejo chegar, é onde você está. No frio da borda do oceano, com margem de dois dedos, é onde vou te procurar. Pode estar com amigas, amigos, ex-maridos, qualquer coisa que venha a te, momentaneamente, complementar. Não é problema meu - mas eu ajo como se fosse. O que é meu é você e o que é nosso não é à toa. Aqui, contigo, nesse espaço vazio, eu não prego a segurança que não tenho. Óbvio que me incomoda ver teu sorriso dando ritmo pra conversa fiada sem nota(r) que tá tentando achar o tom há tempos perdido. Só que você me sabe, você acha que me conhece por inteiro, mas quando eu me dei por completo nos seus lençóis, você que se dobrou pra me dobrar. Se conseguiu ou não, é essa dúvida que nos move um até o outro. Até hoje.

Não vivo de palavras, não sou traça, e se for parar pra te contar tudo o que bate aqui na nave do meu pensar, porra... Sei lá onde a gente vai parar. É engraçado como eu odeio rimas, mas elas vêm sem eu chamar. Quando eu vejo, tão aqui, de parzinho, desenhando qualquer rabisco tosco, sozinho, que quando destacado pela atenção de quem ainda se presta a acompanhar, mente na cara larga que tá dizendo tudinho. Não diz, guarda parte pra depois, quando finalmente um for dois. A maldita rima, inevitável como dois mais dois ainda são: nós pra depois.

Eu te achei. Peguei pela raiz. Você queria carinho, eu queria acariciar. Cominho com almíscar. Quando teu couro cansado pediu cafuné, era eu que tava ali pra dar, tipo daninho, alastrando - onde der, nóis tá. Com as pontas das unhas, semeei na sua cabeça o carinho que eu sempre tive pra lavrar, mas não achei alguém fértil o bastante pra me mostrar o caminho. Daí eu fui, ali, no meio dos seus grisalhos, até que tudo se emaranhou: meu cuidado com seu descaso; seu descaso com meu apreço; meu apreço com seu relaxo; seu relaxo com meu cuidado; meu cuidado com seu abraço; sei abraço com meu tremor; meu tremor com seu mormaço; seu mormaço com meu sabor; meu sabor com seu desejo; seu desejo com meu receio; meu receio com seu compasso; seu compasso com meu amor.

Quando escrevo sobre nós, o que ponho nas linhas é a arte de se trançar, cruzar, atar, plantar, manter na garganta a única nota capaz de desafinar as cordas vocais. Como se fosse aquela noz difícil de descascar e, em seguida, engolir.

Eu entalo, faço caroço do que é nosso, finjo que concordo com a falsa premissa de que nossa semente não dá frutos. Nós, na garganta, somos o caminho que as palavras não ditas fazem para chegar até o chão do peito. Solo pra se criar, mas a dois, é melhor de cultivar.

Foi assim que eu te achei: quando procurei nós, na garganta.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Linha do tempo

Sente-se ao meu lado, em silêncio. Sinta o peso dos meus ombros. Saiba que são firmes, podem suportar o fardo que avoluma seu coração. Apenas se mantenha em silêncio e sinta, com eu sinto muito, minha presença. É exatamente assim que iremos compor o melhor dos nossos retratos. Ao meu lado, eu e você somos peso e silêncio, as excelências do amor, duas agulhas a costurar o que chamamos de intimidade.

Pelas sutis vias do tempo, pude aprender mais sobre as linhas todas que emaranham meu senso de mundo. Isso nunca foi segredo. Esta minha desconexão com o barulho lá fora não era por acaso. Nasci sem chorar, calado, como já havia lhe contado antes. Meu recado foi pontual: nada aqui me soa novo. Nada aqui me impressiona. Não me emociono porque esperam que eu me emocione. Não havia intimidade alguma nem mesmo com minha mãe. Fio por fio, embaraço por embaraço, aprendi a amar meus nós – seja lá o que amor signifique neste contexto. Talvez, respeito, cuidado, os dois, trançados. É uma relação muito próxima esta de, silenciosamente, tocar as linhas que desenham nossa cabeça, não? Os erros do passado roubaram as minhas, eu preciso confessar. Porém, quando sonho, as vejo novamente no devido lugar, volumosas e secas feito a poeira em minhas veias. Fio por fio, na cabeça.

O tempo e suas vias sutis... sim. Aquele firmamento de linhas, aquele chumaço que pesa e não faz barulho algum. Quando toquei suas raízes, buscava o fruto quente. Lá, acreditei que seria possível tecer a cesta pra sua abundância e deixar os caroços pra nossa terra fértil no fundo do quintal. De fato, encontrei.

Estamos juntos, envelhecendo juntos, aqui, sentados nesta sacada vendo a promessas do amanhã parecer previsível e desinteressante. Não se trata de beleza nesta constatação, nem romantismo, muito menos angústia ou desgosto. Odeio esta mania morna de precisar sentir tudo sob medida. Há espaço para este tipo de interpretação deste momento nosso, sentados um ao lado do outro? Aqui, não.

Estamos envelhecendo juntos e o tempo, vestido de ampulheta, esvazia a laje pra encher o chão. O que há são as linhas marcando nossas expressões todas e cada uma delas conta, secretamente para mim e para você, nossos momentos de intimidade. Momentos em que você se ateve a mim e eu me atei a você.

Por isso te peço, aqui, que fique em silêncio, ao meu lado, e sinta a presença de quem lhe é abrigo, onde as linhas jamais te prenderam, pelo contrário, ensinaram-lhe o caminho de volta - de volta para a intimidade, onde os ombros inabaláveis te aguardam.

Dentro de minha casa, as linhas do tempo formam um círculo, não uma reta. Você volta porque nós ficamos. 

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

É amor, o próprio

Este caminho desconhecido por onde passo tá me custando mais que saúde mental. É físico também, tipo aquele calor gelado, aquele suor que refresca o fogo sobre e sob a pele. Falei pra você dia desses aí que queria tudo, do começo ao fim, do brega ao sofisticado, do comum ao único. Direito meu, tá ligado? Nunca cheguei tão perto disso que geral sempre chamou de amor e agora que tô, dá licença aqui. Vem você, comigo de leve, mostra como que faz que eu faço, por nós dois, mas por mim, principalmente. Não é egoísmo, não, certo?

É amor, o próprio, o certo.

Aquele papo de se complementar, metade do outro, todo nosso, tudo nosso, um no outro, os dois ali, deitados, deixando o tempo livre pra passar... Aquele papo faz todo sentido memo, porque quando você vem de bicão, eu tô suavinho feito sopro no joelho ralado. Não achei que fosse assim, afinal, nunca fui de chaleirar ninguém, mas se eu te tratar como todo mundo, você não será o lugar onde quero ficar - só mais um pico pra colar, fazer a social, dar um salve e nunca mais responder os "e aí, vamo se reencontrar?"

Daí eu te trato de um jeito especial, pra você sempre ter vontade de voltar. Tiro aquele teco de papel, passo a língua de leve e deixo no rastro da saliva a letra pra tu retornar. Endereço é fita séria, porque traça o caminho até onde a gente chama de lar e guarda o doce lá, no pote onde tem que ficar na ponte dos pés pra pegar. Difícil, viu? Por isso que pra chegar tem que saber chegar. Então fica de vez, vai... meu eterno retorno.

Quando a conversa cai no mais do mesmo, eu troco o disco e te mando música nova. Tranquilo, ouço você reclamar de tudo, finjo que não tenho o que dizer pra te fazer enxergar que é tudo fase, que o vai e vem do destino só não é mais evidente que a vontade que eu tenho de beijar sua boca e esparramar os lábios pela cara toda enquanto você fica sem saber se desiste e deixa lambuzar ou insiste e continua a lamentar. Finjo, mas é sem maldade. No fundo, eu gosto de te ver desenrolar comigo sobre os problemas que te atormentam. É nessas horas que eu me sinto remédio, carinho, cuidado, solução pro dia de cão, aquele cafuné de virar as ideias feito lata.

Eu te quero bem, meu bem, mesmo quando tá ruim aí, e não forço a mudar o humor, não. Só te mostro que quando tudo melhorar, já sabe onde comemorar. Se ficar mais pesado, corre aqui e desaba. Pega nada, você já ficou caidinho por mim uma vez, agora é só fechar os olhos de mel que eu vou te segurar. Lá de cima a gente brilha mais forte e você fica tão bonito quando tá altinho, pique estelar. Boto fé que logo mais é a gente junto, dançando de testa colada, seguindo o ritmo um do outro, sem medo de se estatelar. 

"Quem diria, hein? Você tá mudado, hein? Ele mexeu contigo mesmo, hein? Tá pego, hein?

É aquele bonito que tava na foto com você?"

É quente, o próprio, o amor.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Odor

Você me usou. Negou por muito tempo, mas sabe, lá no fundo que me usou. Quando nos aproximamos, eu soprei meu desejo levemente para que não irritasse seu nariz, mas ainda assim se fizesse perceber o que queria. Você havia me farejado de longe, eu sei porque seus olhos me viram de longe, bem longe, num lugar onde meu cheiro nem sequer chegava. De lá, observou-me. Daí não teve mais jeito. Usou-me como fragrância nova que parece vestir a gente com um fino véu, daqueles que se desenham pelo ar, num lento ritual de sedução. Pros outros, borrifava meu nome como se este embalsamasse tuas frases curtas e eufóricas.

Atrás das suas orelhas, no pescoço, um pouco perto do rosto, sobre seu peito, raspando nas axilas, por entre os dedos, laçando os pulsos. Quando você me teve, não economizou uma gota do que eu te ofereci. Passou-me por todo o corpo, quis, com a pele, cheirar à flor da minha, macia, prestes a se esparramar pelo ar que vinha da janela aberta. Exalando calor por entre os poros, quando me prendeu com seus braços, perfumou-se de mim, ali, e deixou minha boca cheia de água e a cama de cheiro.

Umas das principais características desse meu querer com notas de negação é a capacidade de confundir o olfato. No fundo, sabia bem como tudo iria acabar, só que quis pagar o preço. Eu me ofereci ao seu olfato, revelei a essência traiçoeira pelo som do chocalho na ponta da língua. Fiz porque quis mesmo. Porque o desafio vale a frustração. queria você e tive. Pequeno, tão pequeno, acostumado com o mesmo odor do seu quarto decadente, bagunçado, jogado às traças. Apertados, eu e você, ficamos os dois pela madrugada, dividindo a cama de solteiro como casal. Nos menores olfatos estão os piores perfumes - os que têm aroma de essência. Cheiram a si mesmos, mas quando tocam a pele do outro revelam uma olência única. Aquela traiçoeira.

Você me usou e aqui, agora, eu sou só dor. Prevista, conhecida, manjada, já de casa, a dor ainda dói, mesmo assim, mesmo abrindo a geladeira sem pedir licença. Ela dói demais e a lembrança, sua amante, vem junto perguntar o que tem pro almoço. As duas, dentro de mim, da minha casa, sufocando o pouco espaço, inodoras, falando de você. Eu não queria saber de você. Há meses não recebia notícia qualquer, mas elas duas vieram, a dor e a lembrança, atrás de mim por causa de você, ou melhor, por causa de nós.

Lavei as mãos com bálsamo, respinguei a água  na pia, sem pressa. Virei-me e olhei diretamente para elas. Com seus pratos vazios, sem um farelo pra contar história, a dor e a lembrança me contaram de você. Disseram que estava bem, com uma garota apaixonada, planejando o futuro, sem tocar no meu nome. Perguntei a elas, a dor a e lembrança, se nada de mim havia ficado nele.

- Se nem a dor nem a lembrança estão lá, onde não estou, onde ele está, então, o que restou?

- Odor.

Odor.

sábado, 14 de setembro de 2019

Lar dos Lugares

Senti, quando meus pés tocaram o solo desconhecido, que já não era mais o mesmo. A decisão de ir para outro canto causou angustia, mas, no final das contas, serviu para que me redescobrisse por uma outra perspectiva. Eu me vi de longe. Confesso, não sou muito o tipo que sai por aí e se lança no desconhecido como Louco. Ainda assim, o que eu buscava não estava perto. Na verdade, para ser mais sincero ainda, eu não buscava nada além da chance de não deixar rastro ou ter que seguir pegadas de um outro qualquer. Havia um endereço, sim. Havia para onde ir, quem encontrar.

O que não havia era um nome pro lugar onde eu queria ficar.

Chegar a um ponto em que não havia passado nem haveria futuro. Este foi o primeiro pensamento a tomar as malas de minha mão quando desembarquei. O meio termo cabia perfeitamente. Era ele, o meio, apenas tempo presente - aquele sentido ao longo dos momentos que se findariam em si. Descompromissado, solto - como eu - o tempo.  Era assim que eu interpretava a viagem: como um marco zero. Era o presente. O estar presente.

De volta, enquanto revisito agora as lembranças, consigo observar perfeitamente as nuances dos momentos vividos. Na suavidade da transição entre tons sem bordas, recordo de cada cor sem que uma se misture a outra. Entendo, hoje, que era o lugar. Ainda sem nome, mas era o lugar. Só uma figura permanecia intacta e pendurada em todas as paredes, horizontes, mares, distâncias, lençóis, anoiteceres, amanheceres, olhares meus por através dos dias: a dele.

Lar

Onde eu chego e quero ficar
onde eu finco e insisto em não deixar 
rastro algum, além das marcas em cada curva 
que insiste em me dobrar. 

Duas vezes mais perdido na vastidão 
desse espaço macio sobre o qual largo meu corpo, 
alargo meu gosto e degusto o que há de melhor na região: 
seu rosto que... dentro da minha boca faz abrigo e brinca comigo
sem me deixar outra opção senão parar, admirar e dizer em alto e bom som
lar, doce lábio.

De manhã me aconchega e diz que eu posso ficar mais tempo na cama 
pra só de tarde perguntar se eu saí e vi o mundo lá fora 
Quando escurece, é você que aparece vestido de noite
passa um endereço, define o local e marca a hora 
desse jeito não tenho outra saída senão chegar na calma 
de quem não reconhece as ruas que vê, mas confia no desejo
no desejo de te ter. 




quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Fogo e Vento na moleira do menino

No céu vermelho, quente feito o chão da pele, corta com luz o raio da ordem. Retumbo acha abrigo dentro dos corpos curvados esperando a chuva quente pra limpar. Sobe pro céu suspiro do desespero e o choro engasgado vira grito nos tambores do trovão. Vem à guerra os filhos da terra escura, filhos do sol e do ferro, banhados pelo ouro que adorna a memória dos ancestrais. Saúda o mensageiro que abre os caminhos, povo dos povos, e deixa passar o senhor da justiça. 

O sangue que ferve também escorre e lava o espírito. Banho de vida, legado, enrolado nos panos do destino, paga hoje aquele que ontem se omitiu – e amanhã vai cobrar. Enxague bem a nuca, a moleira, o peito, porque passado, futuro e presente são um só, ao mesmo tempo, como nome e sobrenome. Então revele pra eles, senhor dos raios rubros, do vento quente, quem levará o nome da mãe e do pai.  Quem é a fruta que amadurece no calor, seca o caroço antes de virar semente. Peça à bênção das mães das águas, dos filhos do solo, pra fazer berço às crianças que estão por vir. Aquece os corações, dono das tempestades, pra batucar o soluço das crias pelos tantos cantos do mundo. 

Chamo pra cabeça o peso do machado que corta a mentira. Chamo o trançar dos raios que desenham os caminhos pro espírito passar. Chamo o fogo, queimo os ossos, entrego os joelhos, dou-me pra incendiar a dor e, mais uma vez, erguer a cabeça como filho de reis e rainhas. A pedreira não rolará em cima de mim.  

Sou filho da tempestade, parido na madrugada de uma quarta-feira.

Pai e mãe fecharam os braços em volta de mim, como o tempo acima de nós.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Capítulos sobre nós

Enquanto eu acariciava as páginas dos livros, ela cantava ao fundo. Sua voz suave não deixava de me perturbar, tal qual fragrância forte que não sabe ser contida - em certa medida, por conta da tristeza sutil que eriçava a angústia em mim. Ainda assim, eu precisava daquele arranhar de discos com as cordas da garganta, feito nós, a atar o grito de desgosto. Debaixo da cama, encontrei a garrafa de gin, mas não consegui achar cigarro algum nos bolsos. Pensei por segundos onde estariam e lembrei que me obriguei a parar de fumar. Mais angústia, só que sem gelo, por favor. 

Ele se segurava pra não conversar comigo. Sabia que era meu momento - e só meu - no qual mergulhava já sem fôlego por entre as águas desconhecidas do meu ainda "não-saber". Cada capítulo era um convite para entrar e ficar mais um pouco, sentar, à vontade, e dizer o que eu gostaria de beber. Depois, quando as páginas me viravam as costas, eu, abandonado, podia olhar para o cabeçalho e relaxar. No caso, os músculos do corpo, não os da mente. Porque era impossível acalmar aquelas pequenas explosões elétricas a descarrilharem feito trens debaixo do meu crânio. A leitura me deixava inquieto, só que o saber... ah, o saber contido nela... Ele não me deixava ficar quieto, capitava-me. Eu queria falar, queria compartilhar tudo aquilo apresentado a mim, mas o barulho era ele, ali, com sua música, com a voz dela abrindo levemente a cortina e soprando seus versos de véu. Agora, eu que me segurava e ele... Ele era a trilha da noite. Eu, só capítulo. Eu só captava.

Nas costas de minha nuca eu sabia que alguém me observava. Fosse com um olho ou os dois, ele me observava ler, e ler, e ler sem se contentar com pontos finais. A provocação vinha do fato de seu corpo não se retirar, muito menos retirar o copo. Eu era gin, você, vinho.  Ficava, fumava ao fundo sem me oferecer trago qualquer e, mesmo assim, preenchia as paredes já que as páginas não lhe cabiam ou os goles lhe saciavam. Aquelas páginas, vale ressaltar, é que não lhe cabiam, porque as outras - as tantas que escrevi - estavam perfumadas com sua inoportuna e indispensável presença. Aquelas páginas eram outra história. Já aquele, logo atrás de mim, repousado no sofá, era quem, paradoxalmente, atrapalhava meus estudos enquanto me fazia a massagem perfeita no ego ao me instigar a continuar.

Não era sobre habitar o mesmo cômodo, muito menos sobre incomodar. Quando eu terminava mais uma parte do livro, a vírgula para o fôlego estava justamente na procura pela digressão que me levava até lá longe, onde ele estava, divagando vagarosamente sobre qualquer assunto que não o diante dos meus olhos, diagramado e editado.

Mal sabia ele que eu nada lia. Apenas escrevia mais um capítulo sobre nós.

Bastava olhar para trás pra ver que eu...

Capitulo você.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Maldição

Do meu ser entendo eu. Quem me diz sou eu. Dos cansaços acumulados, nenhum nunca me fez dormir melhor, como se toda a energia tivesse sido gasta no que preste. Dormir cansado de ter que se deitar pra acordar. Não deitar pra descansar, deitar pra manter o cansaço sob controle. Meu mal não é cansaço.

De mim sei eu que nunca me abandonei, ainda que tivesse tentado algumas dezenas de vezes, sem sucesso. Descalço era como eu me sentia quando a inocência era obrigada a andar sozinha. Meu mal não é o descaso. É outro. 

Abri o peito quando pulei a janela e desenho um alvo mentalmente. Descalço, esperando o prego penetrar, o vidro o pinicar e eu ter uma desculpa para não ir. Lá fora, o mundo fazia de mim o que bem entendia. Eu me sentia como um rato na roda. Só que ao invés de avançar, eu ruía.

Fui batizado pela desgraça. Na boca, a maldição que eu não proferi virou as escritas que eu rabiscava. O olhar sempre foi meu cúmplice, pois escondera todas as vezes em que eu disse através deles o que realmente desejava o coração. A culpa eu não carrego. Os poucos choros, quando eram os meus, foram consolados pelo soluço – eu que me assoprei o machucado, eu que me limpei o rosto sujo, eu que me balancei, eu que me consolei, eu que me ensinei que não sabia o que era perdão. No colo, cabia a mim ser refúgio da alma mirrada, filha do sangue e do osso.

Nas minhas danças aleatórias pelo quintal de sempre, o universo parecia se bagunçar. Agitava meus braços de um lado para o outro, girava o corpo devagar, subia uma das pernas, jogava a cabeça para trás, tudo estava fora de órbita, um espirro na escuridão cósmica e pronto: na moleira queimava o sol marcando a minha hora. O momento exato em que passei a existir fosse na luz ou na sombra.
O que chamavam de mal, eu chamava de essencial. O que chamavam de mal eu chamava de atração. O que chamavam de mal eu via razão. O que chamavam de mal eu prestava atenção. Quando me chamavam de mal, eu respondia com voz baixa “já vou” – e não ia. O que chamavam de mal era justamente a versão da história em que eu vencia, sozinho, e ganhava a liberdade para ser meu.

Batia com uma das palmas no chão, acariciava o pescoço com a outra, erguia o corpo, projetava os ombros para trás, passava as mãos pelas costelas como se dedilhasse cordas de violão, trançava os pés, sacudia a cabeça, soltava o ar até o corpo todo formigar inquieto. A saliva banhava os lábios, os olhos piscavam lentamente, o céu fechava, a terra cheirava, seu nome, seu rosto, seu gosto vinham à mente, o estômago reagia, o coração batia depressa pra depois se afundar sob a carne do peito... quase sufocado. Era a boca calada que selava o momento sublime dos quereres, aqueles a dançar comigo, em passos ocultos no tempo, debaixo da poeira do ontem, no caminhar cansado dos meus antepassados, no sorriso de navalha dos meus ancestrais que fazia escorrer o fio da vingança no rosto.

Era no sangue que eu rescrevia o destino de muitas pessoas. Enquanto redigia os versos que iriam atar o nó em volta dos pescoços esticados dos famintos a tentar me abocanhar, lembrava, como se fosse ontem – e, de fato, era – do momento em que me entendi.

Fui direto comigo mesmo, por isso consegui me alcançar. Silenciosamente, ao dar à linha seu último ponto, pude fazer profecia pra mim e maldição para o resto.

"Nós, eu e eu mesmo, fomos feitos um mal para o outro."

Ainda bem. 

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Coral

Finalmente você me aceitou. Eu nunca quis lhe causar desespero, mas entenda... Era o único jeito de abrir seus olhos para dentro e perceber que meu lugar é em ti.

Finalmente, entro sem pedir licença, mas aceito um copo com água.

(...)

Lembro do dia em que doeu o corpo caído no buraco e a indiferença da mão amiga que oferece ajuda pra subida. Eu te chamei sem saber. Sibilei seu nome, mas o fogo se extinguiu antes de tudo virar cinzas.

Também me lembro de quando o corpo foi tocado e a dor escorreu pela carne ainda fresca, o medo, o não saber, os vultos que nada tinham de intangíveis, a sensação do corte rompendo os pontos mais sensíveis do meu ser. Senti medo mais do que dor e te chamei. Você veio, fez tremer as paredes da casa, envenenou o sono dos imundos e apagou os detalhes que formavam a lembrança. Ficou a cicatriz na alma.

Do tapa na cara por ter deixado o bule de café cair, dos gritos por ter deixado a navalha me cortar o dedo, do empurrão por não ter entendido o desejo corpo, do palavrão que me humilhou diante de tanta gente, do prato sem comida, do sono pra alimentar, do amigo sendo incendiado na lata do lixo, do amigo sendo encontrado em pedaços no capô de um carro, do amigo sendo espancado no recreio, do furo de bala no portão, dos sacos de lixo voando em minha direção, do cuspe na nuca, do desrespeito, do desprezo, do sexo pra me usar como experimento, do abandono com ingressos na mão, da porta sendo arrombada no soco, do quarto sendo invadido pela ponta do fuzil, da mordida no braço pra salvar o irmão, da primeira vez traído, da última vez ferido eu me lembro bem.

Em todos esses momentos, recorria ao lugar dentro de minha cabeça onde só eu consigo entrar. Lá, fechava as janelas, apagava as velas, sentava sob a cama, nu, passava as mãos no rosto, nos cabelos, umedecia os lábios, arranhava de leve a pele de todo o corpo, abria os olhos, deixava as trevas inundarem eles e estralava os ossos do pescoço. Por debaixo da porta, conseguia ver sua sombra passando. Você não batia.

Nunca tive medo do vermelho do sangue. Nunca tive medo do preto da escuridão. Nunca tive medo do preto e do vermelho dentro e fora de mim, sob e sobre minha pele. Nunca tive medo do escuro. O medo que eu tive não estava em mim. Ele estava no outro. O outro tinha medo e isso que me assustava. Ser medo.

Quando o coração gritou de dor, quando eu caí de joelhos no quintal onde corri tantas vezes, naquele momento, quando a lua brilhava cheia de si no céu morto, eu te chamei. Você chegou, tirou o lixo de minhas costas, secou a saliva em minha nuca, arrancou as marcas de mãos da minha carne, partiu em direção ao prateado que cobria tudo como véu e eu, finalmente, senti-te em mim. Sem medo.

Finalmente, sós.

Nós. Duas vozes em um mesmo corpo.

Coral.