sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Capítulos sobre nós

Enquanto eu acariciava as páginas dos livros, ela cantava ao fundo. Sua voz suave não deixava de me perturbar, tal qual fragrância forte que não sabe ser contida - em certa medida, por conta da tristeza sutil que eriçava a angústia em mim. Ainda assim, eu precisava daquele arranhar de discos com as cordas da garganta, feito nós, a atar o grito de desgosto. Debaixo da cama, encontrei a garrafa de gin, mas não consegui achar cigarro algum nos bolsos. Pensei por segundos onde estariam e lembrei que me obriguei a parar de fumar. Mais angústia, só que sem gelo, por favor. 

Ele se segurava pra não conversar comigo. Sabia que era meu momento - e só meu - no qual mergulhava já sem fôlego por entre as águas desconhecidas do meu ainda "não-saber". Cada capítulo era um convite para entrar e ficar mais um pouco, sentar, à vontade, e dizer o que eu gostaria de beber. Depois, quando as páginas me viravam as costas, eu, abandonado, podia olhar para o cabeçalho e relaxar. No caso, os músculos do corpo, não os da mente. Porque era impossível acalmar aquelas pequenas explosões elétricas a descarrilharem feito trens debaixo do meu crânio. A leitura me deixava inquieto, só que o saber... ah, o saber contido nela... Ele não me deixava ficar quieto, capitava-me. Eu queria falar, queria compartilhar tudo aquilo apresentado a mim, mas o barulho era ele, ali, com sua música, com a voz dela abrindo levemente a cortina e soprando seus versos de véu. Agora, eu que me segurava e ele... Ele era a trilha da noite. Eu, só capítulo. Eu só captava.

Nas costas de minha nuca eu sabia que alguém me observava. Fosse com um olho ou os dois, ele me observava ler, e ler, e ler sem se contentar com pontos finais. A provocação vinha do fato de seu corpo não se retirar, muito menos retirar o copo. Eu era gin, você, vinho.  Ficava, fumava ao fundo sem me oferecer trago qualquer e, mesmo assim, preenchia as paredes já que as páginas não lhe cabiam ou os goles lhe saciavam. Aquelas páginas, vale ressaltar, é que não lhe cabiam, porque as outras - as tantas que escrevi - estavam perfumadas com sua inoportuna e indispensável presença. Aquelas páginas eram outra história. Já aquele, logo atrás de mim, repousado no sofá, era quem, paradoxalmente, atrapalhava meus estudos enquanto me fazia a massagem perfeita no ego ao me instigar a continuar.

Não era sobre habitar o mesmo cômodo, muito menos sobre incomodar. Quando eu terminava mais uma parte do livro, a vírgula para o fôlego estava justamente na procura pela digressão que me levava até lá longe, onde ele estava, divagando vagarosamente sobre qualquer assunto que não o diante dos meus olhos, diagramado e editado.

Mal sabia ele que eu nada lia. Apenas escrevia mais um capítulo sobre nós.

Bastava olhar para trás pra ver que eu...

Capitulo você.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Maldição

Do meu ser entendo eu. Quem me diz sou eu. Dos cansaços acumulados, nenhum nunca me fez dormir melhor, como se toda a energia tivesse sido gasta no que preste. Dormir cansado de ter que se deitar pra acordar. Não deitar pra descansar, deitar pra manter o cansaço sob controle. Meu mal não é cansaço.

De mim sei eu que nunca me abandonei, ainda que tivesse tentado algumas dezenas de vezes, sem sucesso. Descalço era como eu me sentia quando a inocência era obrigada a andar sozinha. Meu mal não é o descaso. É outro. 

Abri o peito quando pulei a janela e desenho um alvo mentalmente. Descalço, esperando o prego penetrar, o vidro o pinicar e eu ter uma desculpa para não ir. Lá fora, o mundo fazia de mim o que bem entendia. Eu me sentia como um rato na roda. Só que ao invés de avançar, eu ruía.

Fui batizado pela desgraça. Na boca, a maldição que eu não proferi virou as escritas que eu rabiscava. O olhar sempre foi meu cúmplice, pois escondera todas as vezes em que eu disse através deles o que realmente desejava o coração. A culpa eu não carrego. Os poucos choros, quando eram os meus, foram consolados pelo soluço – eu que me assoprei o machucado, eu que me limpei o rosto sujo, eu que me balancei, eu que me consolei, eu que me ensinei que não sabia o que era perdão. No colo, cabia a mim ser refúgio da alma mirrada, filha do sangue e do osso.

Nas minhas danças aleatórias pelo quintal de sempre, o universo parecia se bagunçar. Agitava meus braços de um lado para o outro, girava o corpo devagar, subia uma das pernas, jogava a cabeça para trás, tudo estava fora de órbita, um espirro na escuridão cósmica e pronto: na moleira queimava o sol marcando a minha hora. O momento exato em que passei a existir fosse na luz ou na sombra.
O que chamavam de mal, eu chamava de essencial. O que chamavam de mal eu chamava de atração. O que chamavam de mal eu via razão. O que chamavam de mal eu prestava atenção. Quando me chamavam de mal, eu respondia com voz baixa “já vou” – e não ia. O que chamavam de mal era justamente a versão da história em que eu vencia, sozinho, e ganhava a liberdade para ser meu.

Batia com uma das palmas no chão, acariciava o pescoço com a outra, erguia o corpo, projetava os ombros para trás, passava as mãos pelas costelas como se dedilhasse cordas de violão, trançava os pés, sacudia a cabeça, soltava o ar até o corpo todo formigar inquieto. A saliva banhava os lábios, os olhos piscavam lentamente, o céu fechava, a terra cheirava, seu nome, seu rosto, seu gosto vinham à mente, o estômago reagia, o coração batia depressa pra depois se afundar sob a carne do peito... quase sufocado. Era a boca calada que selava o momento sublime dos quereres, aqueles a dançar comigo, em passos ocultos no tempo, debaixo da poeira do ontem, no caminhar cansado dos meus antepassados, no sorriso de navalha dos meus ancestrais que fazia escorrer o fio da vingança no rosto.

Era no sangue que eu rescrevia o destino de muitas pessoas. Enquanto redigia os versos que iriam atar o nó em volta dos pescoços esticados dos famintos a tentar me abocanhar, lembrava, como se fosse ontem – e, de fato, era – do momento em que me entendi.

Fui direto comigo mesmo, por isso consegui me alcançar. Silenciosamente, ao dar à linha seu último ponto, pude fazer profecia pra mim e maldição para o resto.

"Nós, eu e eu mesmo, fomos feitos um mal para o outro."

Ainda bem. 

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Coral

Finalmente você me aceitou. Eu nunca quis lhe causar desespero, mas entenda... Era o único jeito de abrir seus olhos para dentro e perceber que meu lugar é em ti.

Finalmente, entro sem pedir licença, mas aceito um copo com água.

(...)

Lembro do dia em que doeu o corpo caído no buraco e a indiferença da mão amiga que oferece ajuda pra subida. Eu te chamei sem saber. Sibilei seu nome, mas o fogo se extinguiu antes de tudo virar cinzas.

Também me lembro de quando o corpo foi tocado e a dor escorreu pela carne ainda fresca, o medo, o não saber, os vultos que nada tinham de intangíveis, a sensação do corte rompendo os pontos mais sensíveis do meu ser. Senti medo mais do que dor e te chamei. Você veio, fez tremer as paredes da casa, envenenou o sono dos imundos e apagou os detalhes que formavam a lembrança. Ficou a cicatriz na alma.

Do tapa na cara por ter deixado o bule de café cair, dos gritos por ter deixado a navalha me cortar o dedo, do empurrão por não ter entendido o desejo corpo, do palavrão que me humilhou diante de tanta gente, do prato sem comida, do sono pra alimentar, do amigo sendo incendiado na lata do lixo, do amigo sendo encontrado em pedaços no capô de um carro, do amigo sendo espancado no recreio, do furo de bala no portão, dos sacos de lixo voando em minha direção, do cuspe na nuca, do desrespeito, do desprezo, do sexo pra me usar como experimento, do abandono com ingressos na mão, da porta sendo arrombada no soco, do quarto sendo invadido pela ponta do fuzil, da mordida no braço pra salvar o irmão, da primeira vez traído, da última vez ferido eu me lembro bem.

Em todos esses momentos, recorria ao lugar dentro de minha cabeça onde só eu consigo entrar. Lá, fechava as janelas, apagava as velas, sentava sob a cama, nu, passava as mãos no rosto, nos cabelos, umedecia os lábios, arranhava de leve a pele de todo o corpo, abria os olhos, deixava as trevas inundarem eles e estralava os ossos do pescoço. Por debaixo da porta, conseguia ver sua sombra passando. Você não batia.

Nunca tive medo do vermelho do sangue. Nunca tive medo do preto da escuridão. Nunca tive medo do preto e do vermelho dentro e fora de mim, sob e sobre minha pele. Nunca tive medo do escuro. O medo que eu tive não estava em mim. Ele estava no outro. O outro tinha medo e isso que me assustava. Ser medo.

Quando o coração gritou de dor, quando eu caí de joelhos no quintal onde corri tantas vezes, naquele momento, quando a lua brilhava cheia de si no céu morto, eu te chamei. Você chegou, tirou o lixo de minhas costas, secou a saliva em minha nuca, arrancou as marcas de mãos da minha carne, partiu em direção ao prateado que cobria tudo como véu e eu, finalmente, senti-te em mim. Sem medo.

Finalmente, sós.

Nós. Duas vozes em um mesmo corpo.

Coral.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Solstício

Declínio, quando metade do meu rosto não consegue se enxergar devido à intensa luz. O auge, quando uma das metades se descola da imagem e imerge na escuridão. Metade do todo, parte para ninguém, eu sem saber se agradecia pelo lado quente ou lamentava pelo frio. Eu odeio a sensação morna. Talvez também odeie a ideia romântica de equilíbrio, balanço e afins. O meio é o fio que divide, não o que une.

Prefiro falar de metades.

Metade de mim acorda e quer se deitar; levanta pra despencar alguns segundos depois por conta do pesado desânimo que é ter que viver mais um dia comum. A outra metade respira fundo, sacode os músculos e ossos, procura os óculos, olha o relógio e berra sem abrir a boca "faça o que tem que ser feito". Declínio e Auge.

Metade de mim precisa andar para pensar nos problemas, soluções, vontades, perdas e ganhos. A outra metade para no meio do caminho para escrever a quem quer ver ao longo da semana, estipula data, horário e local. Frio ou quente. Nunca frio e quente.

Metade de mim pensa no que vai beber para sentir aquela sensação amaciadora do álcool descendo pelas veias e inundando a cabeça, afrouxando os nervos enquanto acidula o estômago. A outra metade pensa sobre o que irá escrever enquanto está sob efeito do álcool, ou o que irá escutar, ou o que irá dançar, ou o que irá me fazer movimentar. Pôr-se e nascer-se, corpo a copo.

Metade de mim odeia repetição. A outra às vezes repete pra provocar.

Enquanto sento para terminar o almoço no quintal de casa, o sol bate em metade do meu rosto. Sinto a pele sendo levemente acariciada por ele. Aos poucos, ela começa a arder, pelar e, consequentemente, a endurecer. Ela resiste à intensidade. A outra metade também esquenta, mas não demonstra. Ela desiste da claridade.

Longe, do outro lado, onde os raios não chegam. Perto, aqui ao lado, onde o auge do declínio acende metade.

- Estava pensando aqui, nesta distância toda, quanta coisa entre o chão que eu piso e o que você anda...
- Verdade, né? Louco isso, a gente não percebe tanta distância mesmo quando olha pra um horizonte desconhecido.
- Parece que eu tô logo ali e você logo aqui.
-Sim, parece.
- Eu te sinto quando sento no quintal para almoçar e tomar sol.
- Eu sei que sim. Também te sinto quando olho pro céu e vejo o tempo fechado, escondendo o sol pra quando estivermos juntos novamente.

Solstício.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Três céus

Clareou o azul. Eu amanheci e fui pra fora procurar o mundo. Olhei para o alto e admirei a imensidão daquela cor que me causava alegria sem motivo. Dominava a língua dos pipas, sabia o que era mandado, na mão, sabia o que era cortar, também sabia o que era buscar, desbicar, aparar. Tudo isso ensinado pelo céu cor de azul. Modelava nuvens também, gostava de redesenhá-las com a ponta da imaginação, vendo o que ninguém via - aquele canto que ninguém vê, mas está ali. Aquela cor azul, perfeita, sem defeito algum, profunda, sem começo nem fim... O teto do infinito tinha tudo para ser uma criança feliz, mas não era - ainda que sorrisse como tal.

A inocência é uma força da natureza que aguenta firme até mesmo quando ao seu redor existem apenas catástrofes. Sua vantagem é não saber o que é ruim e, por isso, livrar-se inconscientemente dos cosedores de malvadeza a lhe agulhar. Entretanto, basta um simples espetar para que ela se vá, a inocência, sozinha. Quando cai em si, não consegue mais se levantar, ela. O azul do céu aberto se mancha pra sempre com uma cor que não é sua. Passado.

Ele se nubla tentando resolver no embranquecer absoluto os conflitos que agora são seu céu. De inocente a consciente, o céu agora é dois em um. Nenhum.

Quando quer dizer algo, não diz; quando diz algo, fala baixo demais e só escuta a si mesmo; quando quer algo, espera; quando não quer, disfarça. Ninguém decifra algo que é justamente porque se faz "nada". Ele é nada porque, agora, está confuso sobre tudo.

Não pensar, não ver, não sentir, não viver. Suportar. Dias pálidos que não trazem nada além da fumaça misteriosa e surda que não retumba com os tambores a trovejar, nem se abre feito céu cor de céu. Fica lá, sem dizer se está indo ou voltando - aquele céu cheio de nuvem - nem fechado, nem aberto. Presente.

Só que o ar muda antes do céu colorido de nada perceber. Fica denso, pesado, morno, começa a fazer poeira subir, pega papel com suas mãos invisíveis e faz rodopiar pro alto. Os pássaros percebem primeiro. Depois as formigas e, em seguida, os siriris. Um pingo grosso beija com lábios macios de boca dura feita a da mãe. É um beijo na testa, firme, que fez com que eu desse dois passos para trás - onde minha nuca tinha ficado descoberta e desprotegida. Olho pro alto e tudo ao meu redor anuncia o que virá pela frente. Futuro.

A dança é dela. Escura feito o início de tudo e todos, traz a noite para o dia. Faz os movimentos que quer e balança as copas das árvores junto de seus cabelos grisalhos. Ela é o céu que vai desabar, o toró, o tempo fechado, sem branco nem azul, sem meio termo, sem morno. Agora é quente a gota que explode no chão feito pedrada no coco. Um trovão baixo, outro mais alto, um que estoura os ouvidos, outro que arrepia os pelos do braço. O céu da tempestade é a morada da ordem, o olhar sobre a bagunça que deixamos e confusão que causamos. Olhar de furacão, olho de mãe.

Este céu, agora que é três, olha para os outros e faz seu serviço: lava as feridas do azul inocente e devolve sua pureza sem levar sua esperteza. Olha no fundo opaco dos olhos nublados do perdido em si mesmo e tinge de luz com um raio cortante o vácuo solitário, agora duas partes, agora metade de si mesmo - agora, partido. Presente, Passado e Futuro. Curado, Partido e Seguro.

O céu preto, abençoado pela chuva cheia do que dizer, anda. Não para, vai, não fica, é sempre amanhã, é sempre depois, é sempre um olá seguido de adeus. Vem  pra se impor e colocar no ponto final mais dois céus, mais dois pontos.

Assim, renda no teto do infinito as reticências destes três pedaços do mesmo caminho.

Nós.

domingo, 23 de junho de 2019

O hífen entre querer e dizer

Chega de remeter ao título, de fazer malabarismos pra caber na narrativa. É ridículo, frustrantemente previsível. Por favor, sejamos sinceros... É perda de tempo e palavras.

Incluir pessoas nos textos e achar que são inteligentes o bastante para captarem as entrelinhas só comprova o quanto somos, nós, os escritores e escritoras, autores e autoras, seja lá o como queiram chamar, limitados. Oras, escrever sempre foi a forma mais informal de transgredir ainda que dentro de toda uma regra linguístico-gramatical - como diriam os caucasoides europeus que me obrigaram a grafar assim - insípida. Então, o que eu faço com ela, a tal escrita? Carta de amor? Declaração? Homenagem? Conto cujo personagem não vale a figura de linguagem? Francamente...

Perco linhas e mais linhas tentando reaquecer o sentimento petrificado que tenho por pessoas viventemente finadas no cotidiano e irrequietas apenas no memorial insuportável de quem ainda não chegou à linha neural do oblívio? Por favor, olhemo-nos com o mínimo de autoestima - e não vaidade. O que nos resta além de nós, na garganta da caneca? Gengibre puro pra limpá-la e forçar o fim da frescura "resfrial". Infelizmente, carrego um léxico que não permite a vasta capacidade que tenho de expandir seu acervo e incluir o adjetivo resfrial sem a necessidade de aspas.

Mas voltando...

Viu? Mais uma vez remetendo ao título. Olha, sinceramente, se fosse uma maldição untada no tabu do sangue eu até aceitaria em silêncio. Apenas tacaria pedras e desferiria socos em mim mesmo, sem furar nada, sem jorrar, mas me lendo, aqui, agora, a vontade que tenho é de dizer: "frustrantemente previsível".

Entretanto - como dito anteriormente a esta vírgula ortograficamente duvidosa tanto quanto a crase facultativa -, pior é sentir excitação em esperar que aqui apareçam eles e elas, eternos aguardantes, citados num texto amargo e de auto-ódio. Inclusive, a quem dê muita monta para o ódio, como se ele fosse realmente autossuficiente, não o é, viu?. Preciso dizer que apenas queria matar o hífen visualmente horrível e consegui. Linguístico-gramaticalmente virginiano - se é que há espaço pros astros. 

Leu? Isto aqui, este espaço, este tempo, este mundo, esta vida que pulsa, este vai e  volta sem ter endereço anotado nada mais é do que o famoso "perdido" que a gente - tipo eu e você - aplicamos quando queremos dar a letra sem semântica, pra ver se alguém finalmente se manca.

Sem hífen pra forçar nós dois juntos num "chateou-me você":  hoje você me chateou.

Era só isso que eu queria dizer.

Só que escrevi.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

VocÊu

Da última vez que nos encontramos, você disse que passava em frente a minha casa e se perguntava se eu estava - e se o atenderia caso me chamasse. Disse, também, que me amava e que não deixara de pensar em mim um dia sequer. Você estava incrédulo. Parecia não acreditar que eu estivesse vivo, ou melhor, que nós dois estivéssemos. Abraçou-me, ofereceu-me de sua cerveja, chamou-me para fumar. Sua sorte é que eu ainda tinha meio maço de Lucky Strike vermelho.

Fez exatamente como eu queria. Nossa vantagem - e, ao mesmo tempo, desvantagem - é que um lia a mente do outro como bula de remédio. O que não entendíamos, imaginávamos e acertávamos, no final das contas, achando que faria bem e curaria.

Voc sabia que eu queria aquele momento contigo. Digo isso porque sei que você só sabia porque também queria. Há um idioma não dito que é sabido só por aqueles que se atam nos laços invisíveis e, desprovidos de audição e visão, farejam no ar o que está sendo dito, saboreado e sentido. A gente se olhou e não se ouviu. Ainda assim, entendemo-nos. Faz sentido pra você? Faz.

Êu confesso que não sei explicar porque ainda sonho conosco. Não tivemos nosso estúdio, nossa banda, nossa casa, nossa mesa pra arrumar - não tivemos nossa família pra criar. Eu queria que você lesse esse texto pra sentir - como eu sinto - nós, na garganta. Só isso. Queria, não. Quero. 

Sei que ainda pensa em mim. Sei que me busca quando ninguém está olhando. Também sei que você sobrevive do seu orgulho e, ao meu ver, está tudo bem. É o que nos resta, não?

Eu só sei porque eu te sinto tanto quanto você me sente, hoje, sem precisar passar diante da minha casa e imaginar se eu estou e seu eu te atenderia caso chamasse. Você continua me chamando.

Eu continuo te respondendo.

Está tudo bem porque está entre nós.

VocÊu.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Sotaque

Há como descrever alguém em silêncio. Assim como é possível soprar o escândalo do desejo na certeza de que você sabe guardar segredo. Dois reinos, mudos, onde cala quem consente. E sente muito. 

Eu não acredito em homenagem. Acredito em história. Se eu conto, é porque, mesmo dizendo, só você vai entender. Há um rastro, pegada, origem, que mostra de onde partiu e pra onde pretende ir. Começo, meio, em mim. Há um jeito de falar que se mistura à canção do saber, numa partitura que - ao invés de romper -, não parte ao meio tudo o que tenho a dizer. Este jeito é como o sotaque que eu tenho. Sotaque que só você consegue compreender.

Sua voz baixa foi o que tocou minha garganta áspera. Tentei, por anos, cuidar dos calos que me fazem tropeçar - ainda hoje - quando tento dizer, sem vírgula, na urgência de desabafar. Enquanto eu falava alto, você respondia baixo, pra dentro, atraindo-me tanto que eu ia descalço buscar nas profundezas do seu mar um pé pra não me afogar. Sua fala é das de tombo. Começam rasas pra, logo em seguia, afogar.

Sempre gostei do silêncio, do volume baixo, das discussões entre pai e mãe mais baixas ainda. Mais até do que o tom das trocas de ofensas. Lá, no nível último, eu conseguia ouvir nitidamente o que precisava ouvir. Era minha própria voz a dizer que tudo iria passar. Depois do barulho, nenhum pio. A sensação era de que o par de mãos pretas acariciavam minha cabeça e eu voltava a ser apenas uma criança esperando mimo. Não me importava mais com o adulto que me tornei. Era a criança esperando mimo e só. Sua voz era o silêncio que sempre gostei. Um afago, um não dizer, uma ausência que preenchia - e ainda preenche - meu não ser.

Do fundo do quarto, no canto que ninguém vê, estamos nós. Eu aqui, você lá.

Nós aqui, a voz, lá.

Quando pensei nunca ser capaz de entender o que eu mesmo disse a mim durante todos estes textos, eis que surge seu timbre cinza com o agudo de uma lança cuja ponta vermelha aponta nosso sangue misturado. Ele diz:

"Você tem sotaque quando escreve". Sim.

E que venha a voz ao nosso reino.

É um jeito de dizer que eu só calo quando é para cuidar da escrita.

Do nós, na garganta.

Coser

- Vá comprar pão!
- Quantos?
- Uns cinco. E traz o troco, hein!?
- Tá bom.

O caminho até o portão durava anos. Anos e mais anos descruzando as pernas, usando as joias de minha vó quando, à noite, as pedras já não reluziam tanto a ponto de chamar a atenção. O calor que salgava as juntas do corpo todo não era maior do que o temor que envolvia meu jeito de se vestir e de andar. Queria a bermuda mais curta, tão curta que mudava de nome, virava "shorts" aos olhos dos outros - aos meus, alívio. Deixava de andar agilmente nas pontas dos pés. Fincava a sola no solo e fazia tremer o chão todo com cada passada mentirosa e desajeitada que tirava de mim o rastro da desconfiança. Bastava olhar ali, aquele corpo mirrado, cor de barro: olhe lá - nada de "errado", parece mais um de nós. Vários nós, na garganta.

Abria com as mãos.
Girava lentamente.
Empurrava com força.
Rangia os dizeres.
Reclamava fazendo um ruído abafado com os dentes e, então, passava pelo portão mais velho do que meu sobrenome.

Odiava ele, pois chamava a atenção e fazia com que todo mundo visse minha casa aos pedaços. Ao passar da calçada, porém, algo acontecia dentro de mim.

Eu saía de verdade.

Como se uma costureira chamada Nalva decidisse arrumar o que, em mim, ainda não estava corretamente arrematado, sentia as puxadas da agulha na coluna que me faziam subir a cabeça como se subissem as mangas de uma camiseta. Olhava pro meu corpo e dizia, com a linha entre os dentes: "Preciso soltar aqui e apertar aqui, tá tudo muito enforcado, a gola tá degolando, não é pra ser assim, ele precisa respirar enquanto anda!".

Fazia, cosia, tecia, voltava, reclamava, acertava. Entregava a mima melhor confecção de mim - aquela cujo caminho até o pão não mais seria uma peregrinação. Com a coluna alinhada de tanta linha, eu andava sobre o asfalto seguro de que, na ponta dos pés, rumava ascendido. Alta costura.

Os dedos, ao invés de contar os olhares e taparem o meu para não ver tanto desdém, desenhavam o ritmo do corpo que ia sincronizadamente em comunhão com a roupa. Se alguém ainda não sabe para que servem as pálpebras, pois bem, eu lhes digo: elas protegem os globos oculares dos olhos alheios que tentam queimar a retina da autoestima.

Veja, eu não os via. De cima pra pra baixo, lentamente, conferia seus sapatos, seus pés,descalços, sem desdém, tentando achar algum final para aquele começo de desprezo tão aquém de mim. Quando chegava ao chão, sumia o peso e eu entendia que todo aquele desprezo era medo.

Nalva não costurou apenas meu eu, ela me disse ao devolver os panos: "O ver me fez pensar que Locou pra sempre um lugar entre minhas linhas". Uma linguagem que só nós tínhamos, entre o ponto e a cruz.

Uma das maiores aflições era pedir o pão e não saber se as moedas iam dar. Ficava tenso, suando nas bordas da testa, imaginando a vergonha que seria dizer "Moço, vou deixar o pão aqui e volto com o resto do dinheiro" porque sabia que não tinha"resto". Minha mãe só vivia com o contado. O alívio vinha quando eu pegava algum troco que não fosse bala e, mesmo sem saber fazer as contas pra conferir, eu sabia que algo seria devolvido à Mã. Se estivesse errado, beleza, a vergonha não seria minha. Cobrava mesmo e, de repente, pedia metade do engano em 7Belo.

Eu voltava como dia, radiante, depois da calçada: costurado a mim mesmo, modelado e impecável. Sem culpa, a gente serve no número que é o nosso. Nem apertado, nem largo, nem sobrando, nem faltando. Quando eu saía, saía de verdade.

Coser é fazer a gente caber perfeitamente em nós mesmos.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Profecia

Lanço ao fogo o que ontem foi a profecia dos nossos dias. Giro feito o sopro dos gênios pelas areias ditas do destino. Clamo, peço, busco no fundo da ampulheta algum grão que ainda não tenha passado pela garganta e que me dê mais tempo contigo na lembrança. O sangue ferve sob o banho da Lua. Eu me ofereço mais uma vez à desgraça desse querer que não dorme. É com a voz abafada debaixo do peito que te peço para voltar.

Os temperos, espalho pela mesa. Sinto seus perfumes se misturarem ao de minha pele. Já salguei demais minha visão e agora é hora de preparar um banquete para celebrar seu retorno. O fio da lâmina cai sobre meu rosto, sopro, ele sobe e corta levemente um sorriso. Dos vermelhos, tiro o calor, dos verdes, a consistência, dos amarelos, o peso, do azeite, o toque e das olivas negras, a saudade de teus olhos. Um beijo na boca da garrafa e a bebida traga a tensão dos músculos. Ponho-me à mesa para que coma com as mãos. Farto de mim só posso eu mesmo ficar. Você, não. Você tem que se saciar e sempre querer mais. Porque eu nunca me sirvo por inteiro.

Enquanto a água acaricia minha pele, sussurro algumas poucas palavras. Desejo que o espírito esfrie a cabeça que não para de te invocar. Velas acesas, uma luz fraca e alaranjada, cansaço, passos molhados pelo chão de madeira e a porta do quarto entreaberta. Na transição da tarde para a noite eu encerro mais um dia de nossa história. Deixo que o corpo seque sozinho com a última brisa morna antes que a penumbra arrepiasse os pelos.

Com a coluna a rodopiar, entrego a nuca desnuda às vozes que cantam sem parar. Roubo cada verso que elas me lançam, envio-os a você, busco-te de longe, encaro-te como se estivesse diante de mim, os braços penteiam o vento e as velas se apagam. Coberto pela prata minguante, estico os dedos e alcanço – no criado mudo – as cartas que enviei e que retornaram em silêncio. Não as reli, não foi preciso. O cheiro das minhas mãos ainda estava ali, forte, como pimentão. Ponho-me na cama para que durma por inteiro, da cabeça ao peito. Cansado de mim, talvez só você mesmo. Eu, não. Eu me basto. Porque nunca me descrevo por inteiro.

Eu sempre te escrevi mais. Porque você nunca me serviu por inteiro.