terça-feira, 30 de outubro de 2018

Olhe pro chão

Meus joelhos viviam ralados na infância. Eu corria muito e não capotava. Porém, eu tropeçava demais enquanto andava. Isso porque eu não andava olhando pro chão: eu olhava pra frente, mirando o horizonte. Meu pai, que sempre implicou com tudo o que eu fazia, era quem saía comigo e já nos primeiros segundos de caminhada lançava um: "Olha pro chão, rapaz! Vai tropeçar e cair aí".

Eu abaixava a cabeça e olhava pra porra do chão. Não via muita coisa além do caminho de barro, asfalto, mais um teco de barro, asfalto, esgoto, barro, asfalto, pula a merda do cachorro, esgoto... O que mais me irritava era, primeiro, meu pai, depois o fato de ter que andar de cabeça baixa. Eu queria andar igual minha avó, mãe de meu pai, cabeça erguida, postura intacta, passos compassados. Só que com ele não tinha o que querer. Era andar olhando pro chão pra não levar xingão.

Uma vez, tinha saído com minha avó e falei pra ela que o pai vivia me dando bronca pra andar olhando pro chão porque dizia que eu iria cair se não olhasse e isso me irritava. Ela perguntou o porquê da irritação e eu disse que não queria andar de cabeça baixa porque parecia que os outros iam achar que eu estava com vergonha deles. Daí, minha avó, no auge de sua sabedoria, disse:

- Seu pai pediu pra você baixar os olhos, não a cabeça.

Nesse momento, tudo fez sentido. "Olha pro chão". Hoje, ando exatamente do jeito que - ambos - me ensinaram: cabeça erguida, visão baixa.

Por que resgatei essa lembrança? Porque hoje, enquanto conversava com um amigo querido sobre sentir que nós, enquanto povo, estamos andando para os lados e não para frente, pensei: tudo isso porque estamos mirando o horizonte sem prestar atenção em nossos passos e onde estamos pisando. Porque, ao mirar apenas o além, não conferimos sobre quais caminhos estamos andando. Consequentemente, passamos pela estrada dos outros - uma espécie de labirinto que nos impede de progredir. Gastamos nossas energias tentando resolver o problema que os outros criaram. Andamos de um lado pro outro.

A gente capota, levanta e acha que anda pra frente. Entretanto, na verdade, só estamos limpando os joelhos ralados e não olhando pra onde deveríamos realmente olhar.

Pra nossa caminhada.

sábado, 20 de outubro de 2018

Maria Zilda

A lembrança é o que nos faz sentir o presente e ver o futuro.

Maria Zilda, irmã de minha vó, logo, era minha mãe e tia, porque aqui era assim que a gente se sentia. A mais velha, rígida, ereta, esguia, com as frestas da cara talhadas na incansável força da mulher preta nordestina que quando estava imersa no cotidiano, segurava os cabelos com o turbante sempre perfeitamente amarrado - e quando descascava a manga com a faca cega, deixava o crespo reluzir no sol, mostrando pra ele quem é que raiava de verdade. Primeira vez que viajei para fora do quarteirão da minha vila, fui para Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Eu, minha mãe e meu irmão.

Descemos do ônibus num suposto terminal - que, na verdade, era só um ponto parado na beira de uma rua qualquer - e fomos encontrar tia Zilda no local combinado. Desencontros à parte, quando ela chegou, o alívio veio junto. O vestido florido, o turbante, a altura, os óculos gastos e a visão infalível de quem enxerga os outros pelo movimento - e não pela imagem estática - formavam a matriarca em nossa frente. Pagou-me um suco de goiaba naquele calor que parecia um abraço de saudades que já vem com todo o suor escorrido ao longo do longo caminho.

Em sua casa, o cheiro foi a primeira sensação a me dominar. Era cheiro de de quem não deixava um cômodo sem ser lustrado; um taco sem ser encerado; um móvel sem ser espanado. Tia Zilda, como a maioria das mulheres de minha família, ganhou a vida limpando a casa dos outros. Perdeu muito, só que ganhou comida, então, ganhou a vida. Em seu quarto, eu me encantei com as joias e as bonecas de porcelana extremamente perfumadas. Um Jesus ensanguentado nas paredes e o teto era varado pela luz que encontrava aconchego por entre as telhas. O quarto ela era tipo um universo: tinha começo, meio, alto, baixo, e fim. Fiquei lá por alguns bons minutos até ela me chamar pra tomar banho na bica.

O quintal dos fundos tinha um cano que servia de chuveiro pra gente se livrar do calor. Eu fiquei tímido no começo, mas depois não quis sair mais daquela cachoeira de PVC. Havia uma mangueira gigante aos fundos, com uma copa digna de fazer a maior sombra do terreno. Eu já imaginei o dia seguinte, debaixo dela, tranquilo, largado. Mas o dia seguinte não foi bem assim.

Tia Zilda precisava de frango, farinha e feijão preto. Minha mãe ficou encarregada de ir buscar. Subimos uma ladeira enorme, debaixo do sol e - eis aqui o motivo desse texto - uma música tocava em todos os comércios, sem parar, bem alto: "Beija-flor", do Timbalada. Pra mim, foi a trilha sonora do Rio de Janeiro, da quebrada de Duque de Caxias, onde eu cheguei pela primeira vez e por mais uma vez me senti em casa. Era rua, era calor, era gente falando alto, era bicho correndo entre as pessoas correndo, era subida, ladeira, era pico, lá em cima, era mercadinho, era farinha no saco - não na embalagem -, era galinha que minha mãe escolhia sem olhar nos olhos, era frango quando fosse pro prato, era feijão preto pago com moeda. A música entrou em mim como se dissesse: "você vai estar com 31 e ainda falará de mim". No caso, escrevi.

Tia Zilda fez o melhor pirão de todos e o feijão preto dela era só dela, não tem receita que aprenda a fazer como ela fazia. Tia Zilda, como eu te amo até hoje, a senhora sou eu também. Duque de Caxias sempre será a senhora e quando eu piso no Rio, peço sua bênção, assim como a de sua outra irmã, Josefina.

Ela me trouxe farinha quando veio me visitar aqui, em São Paulo, porque comida sempre foi uma forma da gente se conversar em minha família.

Porque o silêncio da fome era algo que a gente evitava com tudo o que tinha: frango, farinha e feijão.

Quando tinha.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Suco de manga

Rastejando, chego até suas pernas, sinto o sangue pulsando e o calor que sempre desejei ter dentro de mim, pulsando. Viril, venoso e venenoso. A dúvida é: será que subo ou será que mordo? Será que fico ou será que finco minha boca na sua pele? Dúvida nenhuma. Eu sei bem o que quero, só não sei ainda como me convencer a fazer o que quero. 

O cheiro. Sempre tive um problema com cheiro. Não sei se posso chamar de problema, mas é algo que me tira a razão. Eu sinto, eu sinto entrando dentro de mim e vai aquecendo o caminho por onde passa. Vai ficando quente e meu corpo começa a se mexer como se estivesse em ebulição. As pernas se fecham tentando evitar o impulso que faz o corpo ir até o outro – o seu – e tirar um pedaço pra comer com as mãos, sem talher. O cheiro da respiração quente no cangote, fervendo cada pelo invisível da nuca, fazendo escorrer suor pelos cantos sem suar; sobra só a sensação do sal salgando o par, nós dois, e o seu sussurro que me diz tudo sem ser chato e previsível. Eu quero é mais. Põe mais gosto nessa sal. 

Levanta daí, vai. Dança comigo. Faz o calor ser trilha sonora à flor da pele. Conjuga o verbo errado no imperativo do meu querer – e só do meu – a dizer que te quer porque pode. Porque eu mereço. E mereço você só pro meu eu. Não tira o mormaço e só assopre se for pra apagar o que já está no talo do filtro e pegar outro do maço. Eu quero 22 motivos pra continuar envenenando a fonte do meu bafo quente que te faz voltar todos os dias no mesmo horário, pela manhã da noite não dormida. Tô esperando você buscar no crepúsculo cotidiano um motivo pra vir na minha porta filar meus cigarros. 

Essa música maldita que me excita de um jeito que eu não sei explicar, mas é algo parecido com descascar uma manga com as mãos e chupar todo o doce em busca do caroço – que não tem gosto de nada. E quando chego nele, o tal caroço, passo pelos lábios aquele rastro de dureza, rigidez, aquele pedaço impenetrável que num deslizar de mãos lambuzadas vai parar dentro da boca, faz babar, engasgar e, então, cuspir. Suco de manga. 

Alguém tira essa música maldita ou aumenta o volume de uma vez por todas?!

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Contato

Há muito tempo, desde as datas em que não cabiam nos dias, evito o contato. Tive pra mim que não posso, de fato, aproximar-me demais das pessoas. Isso porque quando me conecto a elas, um processo de devastação se inicia e aquilo que veio da atração quebra a tração se torna a causa da separação. Meu querer quer demais e eu já não tenho mais forças para negar a ele tudo o que não pôde ter. Então, na falsa esperança de lidar com tal situação, simplesmente evito o contato.

Parei diante do mar e comecei a conversar com ela, dona de vários nomes, mas naquele dia queria ser chamada de Janaína. Estava calma, até, observando-me como quem já sabia exatamente o que eu não ia dizer - e que era exatamente o que lhe interessava. Eu fiquei parado, sem entrar na boca de seu oceano. Era uma mistura de medo e respeito, ou ambos ao mesmo tempo. Reverência. Contei a ela como estava meu coração naquele instante. A paisagem me sugava os pensamentos ruins e sentia como se minha maré estivesse novamente cheia. Entretanto, evitei falar sobre ele - que estava pouco mais à frente, jogado nas mechas de Janaína a acariciar a areia com suas pontas. Sabia que se pronunciasse seu nome à ela, invocaria o pior em mim: a vontade de tê-lo. Não houve consolo. Virei-me, caminhei devagar para fora da orla, deixei meus pertences e voltei correndo para os braços dela. Mergulhei em seu peito na busca aconchego, deitei minha cabeça debaixo de suas águas e, finalmente, deixei de existir na superfície. Não fui tão fundo, mas permiti que meu corpo afundasse. A sensação foi boa e, mesmo submerso, ainda senti ele por perto, quebrando os fios de Janaína com suas braçadas.

Avançar e recuar. Quando recuar, recolher. Depois de recolhido, começar a me secar. Já seco, fico intocável. Eis aí a morte do contato. A pele não quer mais. "Abandônico", li uma vez. Este termo se encaixou bem à imagem que tenho de mim. Ainda assim, pensei: como que é abandonado aquele que nunca foi de ninguém? Toda vez que eu quis, não me quiseram e talvez fosse isso que me atraía.

Tração. Ser do outro sem pertencer a ele ou se perder esquecendo de ser quem se é. Quis, muito, sem abrir mão de mim, desejando que eu outro me dominasse achando, de fato, que estava dominando, mas como numa dança - falando da perspectiva de quem é conduzido - eu deixaria ser levado. Atração. Ir e vir, como o movimento das tranças escuras de Janaína, tão pretas quando sua pele molhada de maresia. No momento em que mergulhei, senti que estava indo na direção dele e, sem vê-lo, imaginei seu corpo deslizando próximo ao meu. Sem contato.

Hoje eu sei bem o que fazer, mas finjo que não. Vou seguindo os dias e distraindo a mente e o coração. Não falo mais em amor, muito menos em paixão. Não sinto mais fogo queimando, muito menos chuva encharcando. O que sinto é o chão debaixo dos meus pés. Muitos anos andando sozinho e aprendendo, passo seguido de passo, como me equilibrar. Daí veio a sensação de que mais importante do que saber para onde quero ir é saber como voltar se o "lá" for pior que aqui.

Pergunto a mim mesmo: se gosto tanto dessa firmeza abaixo dos pés, por que me rendo à leveza das águas em que ela vive? Por que eu preciso tanto falar com ela? Janaína nunca me responde com palavras. Prefere me dizer com seu perfume salgado.

Se olho para cima e vejo as nuvens carregadas, sei que minha mãe me ouve, mas por que insisto em Janaína? Eu estava tão bem enquanto seguia pela terra fresca sem me distrair. Por que, agora, eu tive que ir atrás dela buscar acolhimento, compreensão, carinho, lá na bacia do mundo? Por que eu troquei solo por água? Por que troquei terra pelo mar? Por que nem a tempestade eu consegui levar para agitar aquela tranquilidade que repousava no rosto litorâneo de Janaína?

Porque no mar eu não toco, eu sou tocado.

É como me sinto quando deito ao lado dele e tento pegar no sono antes que o pegue pelo braço.

Eu não o toco, eu sou tocado.

Contato.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Atração


Era uma noite sem nuvens no céu. Apenas aquele azul escuro e profundo, forrado com pontos cintilantes. Eu estava acompanhado de meu melhor amigo. Caminhávamos pelas ruas do bairro sem motivo específico. Bastava-nos andar. Era o movimento que nos atraía – e a companhia um do outro também. Atraía.

Lembro me de parar por alguns instantes e comentar com ele sobre a imensidão do universo sobre nós. Ele, curiosamente, parecia acender os olhos como se fossem estrelas. Eu explicava sobre qualquer coisa que para mim fazia sentido, mas que não tinha compromisso – ou base – algum com a ciência; com a exatidão do saber.

- Veja como estamos distantes. Como não existe nada perto fora daqui.

- Verdade. A gente tá no meio do universo e ele não tem fim, né?

- É, ele não tem fim.

- E eu achando que a gente que tava longe de tudo morando aqui. Longe é lá fora, no espaço.

- Sim. Aqui não tem muita coisa pra fazer e pra sair daqui é difícil, mas pensa como deve ser lá no vácuo. Sempre silêncio, sempre frio.

- Mas é bonito de olhar daqui. A gente não é o centro do universo, né?

- Não, nem sei se tem centro só sei que nós é que não somos. Tem galáxias e acho que todo mundo que tá dentro delas se acha o centro das coisas, mas não é. Não se um dia conseguir sair do lugar onde está e ver que existem mais lugares.

- Louco isso. Você acredita em vida fora daqui?

- Acho que sim. Porque se a gente pensar que lá fora tudo pode estar “morto” é porque em algum momento teve vida. E não só a nossa. Mas sei lá, não me interessa muito pensar nisso.

- Eu acho que não tem como sermos os únicos, é tudo muito grande e a gente é muito pequeno.

- Sim, pode ser que tenha. Mas o que me interessa mesmo é pensar no tempo lá fora, no espaço.

- Como assim?

- Não sei explicar direito, mas o tempo lá é diferente do daqui e isso influencia em tudo e todos. Fora daqui, passado, presente e futuro tão em tempos diferentes do nosso passo, presente e futuro aqui, entende?

- Acho que sim...

- Daí eu sinto que estamos mais longe de tudo mesmo... Mais afastados... Sozinhos.

- Bom, mas estamos aqui, não? Então é isso.

Após esta conversa, lembro que continuamos a olhar o céu, buscando uma profundidade que encontrávamos em nossas cabeças, um buraco negro, um vácuo que só poderia ser preenchido com os mistérios do conhecimento. Éramos dois adolescentes tentando entender o universo, nossa posição nele e o que ele escondia de nós – ou o que não estávamos enxergando.

Quando fiquei mais velho, costumava dizer em algumas conversas que para mim e meus amigos, durante a infância, o universo era do tamanho do quarteirão em que morávamos e que a qualquer dobra de esquina desconhecida morava o infinito. Hoje, ao recordar deste momento com meu amigo, penso que a sensação de afastamento, isolamento, de estar à deriva no todo é, em muitos aspectos, fruto de uma necessidade “humana” de se autocentrar para não se sentir solto na imensidão. Para ter onde voltar, ir, ficar, partir. Para ter movimento. Era o movimento que nos atraía – e a companhia um do outro também.

Atraía.

Percebi, com esta conversa, que nas palmas de minha mão cabe uma microdimensão capaz de abrir janelas para o além daqui. Foi assim que eu aprendi algo apenas olhando para o céu numa noite sem nuvens:

Que nós nunca estamos longe quando somos o centro de nosso próprio universo. Nem sozinhos. 


quarta-feira, 4 de abril de 2018

Queimando embaixo do peito


Eu tive que deixar o fósforo cair por entre meus dedos e atingir o chão. Observei o fogo se espalhar pela madeira, varrendo tudo o que era vivo e cobrindo de cinzas as suas pegadas. Sentei na beira da janela – como você tanto odiava – e continuei a observar. Eu era o incêndio e a casa, eu era o incêndio e a casa, ao mesmo tempo, sendo assistidos por mim no lugar que você mais odiava. Foi o mais próximo de nós que consegui chegar no momento de dizer adeus.

O ranger de cada canto parecia tentar me convencer a tomar alguma atitude antes que tudo fosse tragado. A cama berrava as frases que você me disse no dia em que me enganou e tratou meu corpo como corpo, um nada que não se encaixava ao seu tudo; as escadas pediam para que eu desistisse da paralisia que me confortava e pisasse nos mesmos degraus que você havia pisado quando me levou em direção ao quarto; mas eu não me mexia.

Pouco a pouco, o calor começou a me envolver. Lábios secos, sem lágrimas pra salvar, eu já não sentia muita coisa além do ar a desaparecer. Acostumado com a fumaça dos cigarros, naquele instante só me restou aproveitar a chance única de fumar o passado. Aquela casa, o passado. Fumar o que havia sobrado de você nos móveis, nas paredes, no banheiro.

Da janela, consegui imaginar seu rosto furioso me mandando descer. Sua raiva vinha do medo de que eu caísse para o lado de fora. Eu achava graça na sua preocupação e, às vezes, desafiava ela justamente para me sentir pego pelo seu olhar. Hoje, por mais que o espectro dele esteja diante do meu, a queda é inevitável. Um pequeno impulso para trás e lá não estava mais eu.

O fogo, a casa, o incêndio, a janela, eu não mais nela, você, pra sempre confinado nos meus pulmões.

O ar que eu não respiro mais.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Páginas Pretas IV

Eu... prefiro cair pelos cantos
do que me render ao ouvido do outro
sempre atento e eu, nunca mudo,
pronto pra me deixar entrar e não sair
da sua mente. Aquela que está bem
que está saudável e que vai me dizer
como arrancar o caroço em minha mente.
O pedaço duro que não serve de semente.
Mesmo com rima simples eu
sei que ele não vai entender.

Chego, entro, sento, olho e fico
parado diante do outro, tentando dizer
mas calado.
Travado, não consigo me mexer,
é estranho, é forçado, mas não faz tremer
nem suar, nem nada.
Tá tudo bem? Tá. Não parece.
E se for falar, vai soltar à mesa o que não
faz sentido algum. No final das contas, quando
fechar o bar, o conselho será: você precisa procurar ajuda.

Sentei por quê? Aceitei por quê? Existem conversas que
só existem porque não são anunciadas.
Elas simplesmente surgem do entendimento a
respeito do que está em jogo e se entregam
à competição de narrativas.
Se eu te contar o que estou sentindo, você vai me dizer
o que eu gostaria de ouvir?
Se sim, então fale logo.
Se não, dá licença.

Lá dentro as frases gritam. Elas berram o
que eu deveria dizer pra gente se entender.
Mas não consigo. Parece que engasgo e
fica tudo preso entre a garganta e a nunca.
Posso bater no peito que não adianta.
Cavuco, acaricio, mas nada, nada sai. E aos poucos
eu o vejo desaparecer de mim. Ele desiste de
tentar me resgatar.
Ele cansa de tentar conversar e
me convencer a me ajudar.
Quer sentimentos leves, quer um toque macio
quer aconchego no sorriso constante da outra
E eu só sei estar vazio.
Ele simplesmente some.
Eu, finalmente,
começo a me sentir

como um peso.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Fruta escura


O medo deles, os pálidos, era o de que o filho da terra escura germinasse mesmo com todo o sal que jogaram em seu berço. Mas ele cresceu. Ele brotou pra fora todo o ódio e, sem pensar duas vezes, aproveitou a primeira chance que teve de cortar seu mal pela raiz. Como erva, começou pelas frestas, pelos cantos. “É dos lugares que ninguém olha que eu vou me espalhar feito daninha no jardim dos salgados”, dizia ele, agora caroço. 


Das mãos antigas, ele, o próximo de sua árvore genealógica, foi jogado pro ar para poder respirar entre os cachos dos ventos. Semeou-se nas entranhas da mãe e com a inchada do pai foi plantado para fora do quintal. O mesmo garoto, o mesmo ódio correndo pelas vinhas, os mesmos frutos férteis, quentes e vivos que não apodreceram ainda que arrancados do galho a chicotadas. O ódio que nutriu tanto quanto amor as árvores já crescidas deu forças para carregar as folhas secas do povo da terra. Dos que se foram, dos que não aguentaram e se foram, caindo amarelados pelo tempo. Adubo, cada um deles e delas virou adubo e abraço úmido que curou, fortaleceu e fez florescer quem hoje amedronta os inférteis com suas raízes robustas. “Floresçamos, eu, vocês, nós, sempre, sempre à flor da pele escura”, dizia ele, agora broto. 

Cada marca na casca de madeira anoitecida talhou uma lembrança amarga, mas delas, e somente quando sentavam ao seu redor para ouvir suas memórias, escorria a seiva doce capaz de untar os lábios secos por uma simples palavra de consolo. “Sente debaixo da minha grandeza e aproveite a sombra que eu faço, aproveita que comigo, todo mundo escurece e se reconhece. Todo mundo cresce quando escurece”, dizia ele, agora ramo – o rumo.  

Durante as conversas sob a penumbra ainda havia muito ódio nas frases ditas e mais ainda nas silenciadas.  O olhar dele percorria os outros olhos, buscando nos pares seus semelhantes – aquelas outras metades agora juntas, quietas, e ainda muito lascadas por cada caule à boca que as tentaram emudecer. Naquela noite cujo fogo não passava de um mero convidado a ouvir o que o garoto – já homem – tinha a dizer, a floresta se fez. Toda vastidão do breu retomou para si cada lote, cada pedaço, cada chão tirado à força, arrancado dos pés. Disseram os salgados que tentaram devorar as selvas e savanas: “vocês colhem o que plantam!”. 

“Então, vocês colherão o ódio. Nós, os frutos”, dizia ele, agora mata.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Raio de areia

Nestes dias de noite por dentro, eu viajo sozinho pelas vielas que desenhei com a ponta das unhas. O mundo petrificou meus pelos e cobriu de cinza a pele toda. Deixei por onde passei rastro e marca das palavras que me faltaram à boca, mas nunca à mente. Nublado, senti o cheiro de chuva que se aproximara subitamente e aceitei, a cada trovoada sob o peito, a chegada da tempestade. Cortava o céu o raio em busca das areias que ainda me aqueciam por dentro.

O ritual é o mesmo: apago as velas, abro a garrafa, afogo a garganta, seco os lábios e chamo por quem não vai ouvir minha voz rouca de tanto cantar nossas músicas. Num cômodo pequeno, com espaço suficiente para sufocar meu desejo, fico enjaulado, temperando as vontades com álcool. O corpo é o primeiro a desistir e eu adoro. A sensação de queda sem se estilhaçar é algo raro, tem que saber desistir e se abandonar.

Eu, quando sinto que há chão debaixo dos pés, faço questão de me enganar. Finjo que estou bom, recuperado, sóbrio, firme, levanto e sinto o mundo rodar. Não sou de jogar nada fora, nem comida, nem bebida nem a mim, e acho que nem a você, mas quando as solas se cansam do concreto, do certo, do correto, jogam-se nas areias escuras do Kemet – sempre quente - que confortam e sepulcram aqueles que já morreram demais pra viver. Os pés, quase sempre rachados, afundam.

Volto toda manhã. Eu volto como aquela luz insuportável que corta as pálpebras e faz cada músculo do corpo recuperar suas funções e posições, tipo motor aquecendo pra sair, sem hora pra voltar, mas sempre com hora marcada pra partir. Aquele amanhecer que azeda por mostrar que ainda estamos azedos e o sono de ontem não foi o bastante. Eu sou assim, o despertar sem música, sem sopro, sem voz, só corpo, calor, copo seco, peso, carne, língua, osso, saliva, sangue, suor, dor. Te(n)são.

Há uma roleta de pessoas que se exprimem pra entrar no meu barril e ser a próxima bala a furar minha cabeça pra atingir o coração. Nunca saberão, entretanto, quando vão ser a bala da vez - ou o beijo da vez.

O que sabem é que entre areia e tempestade, vão sempre me encontrar, parado, afundando os pés. Relampejando as ideias.

Trovoando o coração.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Seu maço

Nem todas as minhas histórias foram tristes.

Não sei se era o jeito que você molhava os lábios ou me olhava. Ambos, secos. Ambos feitos pra se sentir tocando a pele. Eu estava na fase mais perdida da minha vida, onde só enchia o corpo quando enchia o copo todo e torcia dia após dia para que a terra virasse um grande deserto; que na beira da estrada eu te encontrasse pedindo carona com uma garrafa na mão e pronto para abastecer meu tanque cardíaco; que a gente se apagasse pelo horizonte, sem futuro, sem promessas, sem destino, sem planos. Nada mais do que a época da vida em que a embriaguez fazia com que sonhássemos de olhos abertos, enquanto sol estalava no teto do quarto. Era bom, sim, sentir o suor escorrendo e você bebendo do sal que saía da minha alma. Refrescava quando seu cabelo tocava meu peito e se espalhava pelo abismo, buscando abrigo nas profundezas. Você em mim. Era o seu deserto. Era o meu espaço. 

Corríamos contra o tempo, o tempo todo. A gente se dava bem porque não se dava com mais ninguém. 

Eu odiava o mundo, as pessoas, os deveres, eu odiava a música alegre, as cores fortes, os corpos perfeitos, os cabelos sedosos, eu odiava as capas de caderno com fotos de praias, odiava a escola, odiava os homens, odiava os perfumes alheios, odiava as vozes altas dentro de casa, odiava as vozes baixas dentro da cabeça, odiava os olhares, eu odiava as garrafas vazias, odiava a polícia, odiava deus, eu odiava a paz. Em meio à toda essa desgraça, a gente viu graça um no outro. Você odiava o mesmo que eu e daí nasceu o amor, bem bruto, bem grotesco, bem nosso - e o mundo teve que aceitar. Eram dias e noites deitados no chão do meu quarto, no telhado da sua casa, olhando para alto, vendo aquele céu forrado de madeira e estrelas enquanto o álcool corria para alcançar nossas veias. Só ele nos alcançava. Estávamos altos demais pros demais. 

Eu fumava do seu maço e você do meu. Você escrevia no meu caderno e eu no seu. Eu te vestia de mim e você me emprestava suas pulseiras. No outro dia, acordava sem ter você ao lado, fisicamente, mas quando saía da porta do quarto, a sensação era de ter todas as armas presas ao meu cinto: pronto para o abate. Era o cheiro da lembrança misturado ao do cigarro -  eu sei, eu sinto. Era o seu maço. 

Pelas ruas caminhávamos em silêncio, imaginando futuros e mais futuros em que tudo daria certo: nosso estúdio de tatuagens, nossa banda, nossa vingança contra tudo e todos. Queríamos a batida do caos sempre no volume máximo, conduzindo os dois corpos desérticos pelas esquinas; e quando nos sentávamos em alguma calçada para recuperar o fôlego, era nos seus joelhos que eu descansava os pensamentos. Não sabíamos fazer carinho, era pele e osso, pouca maciez, mas quando as mãos se encontravam, toda aridez das nossas palmas virava areia e a ampulheta do desejo deslizava rapidamente. Você acendia o cigarro entre meus lábios, dividia ele comigo, mesmo sendo do seu maço. 

Os dias e anos se passaram. Você mudou. Tornou-se tantos outros no deserto dos meus dias. Escorreu pelos cantos daquela imensidão alaranjada que eu sempre quis alcançar. Hoje você me busca de dentro de mim todas as vezes que as velas se apagam. Some, mas não sai de mim. Volta, faz com que eu me sinta novamente na beira da estrada, pulando de bar em bar, sem cansar, só caçando algum lugar pra ficar. Hoje você me conduz até para fora da luz e se cobre de azul durante a noite toda, tingindo cada parte dos meus cantos. Hoje, abro os olhos e me vejo sobre seu rosto, com o hálito quente, fervendo, escorrendo vontade pra que chova em cada marca que te marcou, em cada fresta aberta na sua cara. Hoje, eu me abro feito um cânion quando seu toque quebra o silêncio e as rochas que me cobrem e espantam os forasteiros. Hoje, eu não fumo mais. 

Mas o último cigarro que fumei foi do seu maço.