sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Por mim


Na sonolência do meu olhar, escondo o desejo imenso de repousar sobre o seu peito. Saio pra rua, caminho meio torto, esperando que a brisa da noite sopre meu rosto e tire esse calor todo. 

Penso em nós. Soa bonito dentro dos ouvidos, tipo sussurro mesmo. De leve, você não diz que me quer. Não diz nada, silencioso, distante, só vem e vai como quem não sabe o que faz – mas sabe com quem faz. É uma mistura de falta com contemplação, aquela visita que se faz apenas com as lembranças. Não tem batida na porta nem sorriso nas mãos. Não tem toque de campainha ou abraço de coração. É só a vontade, mais uma vez, fervendo o sangue.

As luzes despencam do céu pra forrar o asfalto. Pelas vielas, astros espalhados, escondidos, mas reluzentes. Gosto de me perder no jardim de cacos, caçambas, ralos. Parece que os pés se sentem em casa e caminham descalços pelos cômodos. Por isso eu ando. Ando muito, sem nenhum incômodo. 

Gosto de ir pra longe da sua voz... Assim, eu sinto que ecoo. Retumbo aí dentro de você e me espalho tempestuoso pelo céu das ideias, nublando todas as brigas que tivemos. Tem dias que o meu tempo tá fechado, mas ainda assim, quando você ri, eu me abro.

Passo atrás de passo, eu sigo pelo caminho das quebradas, subo no ônibus e escolho qualquer parada. Veja só, eu me vejo só, agora aqui, rimando sem querer, pensando sem querer, sentindo muito, sem querer. A cada sinal que entrega a tiazinha pra sua goma ou o senhor pro seu culto, eu permaneço lá no fundo, oculto, calado, mas com a cabeça a mil – sem dar sinal. 

Com os ouvidos nos fones, a música estabelece um diálogo tranquilo, versando comigo, contando “Quando você vem”. Como você chega e me desestrutura. Tem caos que a gente pede mesmo. Que a gente quer. Tem desordem que alinha nossa espinha, pressiona a nuca, faz a pressão subir e descer sem parar. Aquela muvuca que encaixa na nossa. Mas não pode ser sempre assim, senão vira bagunça.

Com o rosto colado na janela do metrô, vejo a noite cobrindo as casas, apartamentos, avenidas, postes e suas luzes de mercúrio. Sinto o pé no chão de aço se movendo rápido e fico em órbita. Será que tô mesmo na terra ainda essas horas? Eu penso demais, briso demais, sopro demais vários pensamentos no teto da cabeça. Eu me falo – calado – e continuo dizendo frases e mais frases, num eterno cosmos. 

Assim vou me enchendo. Tem horas que cansa. Tem horas que eu lanço uma sacada muito boa e olho pro horizonte como se ele me admirasse. Mas sempre falta caneta pra registrar. Então, só deixo passar. 

Tem horas que a mente atua como ponta de lança e me fura. Sinto aquela dor se espalhar pela carne de um jeito que chega a ser suave. E então eu volto. A realidade me chama cedo e sempre diz: “já acordou?”. Sim, sem hora.

Sou filho da cidade com o concreto. Da mãe pé no chão cujo solo é de asfalto, sem marido, garantida, noturna, mal-humorada à luz do dia. Eu sou filho das esquinas, das vendinhas, das quitandas, das feiras, das pracinhas. Sou filho da quebrada, sempre firme, sempre triste, sempre recuperada. Minha mãe é estilhaço de amor, é xepa de carinho, ela sobra no final de cada hoje e renasce no começo de cada amanhã. Está farta, seja de cansaço, de fome, de tristeza, de problemas, de gente, só sei que ela é - e está - farta. Pontual, sem reclamar pra fora, chorando por dentro na beira da pia, com a barriga molhada no tanque, ela trava a guerra diária contra um exército de chances - escorridas. Quando chove, a cidade-minha-mãe anda cautelosa – e quando ferve a sola, ela desfila como quem já conhecesse os caminhos do inferno. Minha mãe é urbana, é várias em uma só, mas uma só pra vários. Porque ama, insiste em quem ama. Ela é bairro, lar, casa, ela fica, limpa, sempre se desgasta. Minha mãe só se liberta quando faz de si feriado. Quando perde o próprio CEP e joga num terreno baldio o gosto amargo da boca maldita que a maltrata. Quando folga e é folgada. Sou filho da cidade e meu pai, como todo pai, é só saudade - aquele sentimento concreto.

Por isso que hoje eu ando. Porque a cidade me ensinou todos os caminhos pra esquecer de te esquecer. Ela me ensinou como me perder. Vou, vou mesmo, para sentir cada parte do meu corpo reagindo ao veneno nos teus lábios.


É para me curar que eu vou e, agora, nem me pergunto mais “– Quando você não vem?”. Relato, troco interrogação por desabafo, pedido por despedida e dúvida por afirmação. Sento, invento um mapa qualquer, traço algumas rotas imaginárias e começo a vagar.   

Vou pela cidade.

E por mim. 

sábado, 21 de janeiro de 2017

Chorar

A chuva vem. E não se questiona pra quem. Quando? Onde? Como? Pode? Chega e cai. Certa de si, dá a si. Despenca e vai.

Ela só molha - e olha você reclamar. A chuva, essa Shiva de fora que banha a pele e esfria a alma, só evapora quando o peito acelera a manda pras pernas o impulso pra corrida até onde estiver coberta - a área.

A chuva não se importa. Você que se chova!

Para de pluviar - e de torrente mole - e começa e pensar como se esquivar de quem tem todas as palavras pra te deixar sem um pingo de gota serena - daquele jeito que escorre. Sua raiva evapora. Oras, pouco me importa.

A chuva só vem e molha. Aceita que ensopa - menos.

Sim, nós já tentamos amarrar a cara, trancar a lábia, morder o beiço, pensar num jeito de não chorar. Mas para que todo esse trabalho? Chorar não é o máximo?

Na tela, na peça, no palco, longe do asfalto... Falta. Não ganha prêmio quem esgoela? Não mama quem chora? Vocês dizem assim, toda hora. E agora, justo agora, cala?

E quem chora sozinha na rua, na casa, no quarto, no banheiro, naquela viela? Ué, vi ela ali, sentada, sozinha, perdida nas próprias desgraças - e cadê o guarda para defendê-la da chuva? Ficou sem graça?

A real é que ninguém compartilha lágrima, guarda ou angústia- quem dirá chuva.

Quando se propõe a ser tempestuoso, não tem erro: é tirado de cabuloso, pique rainha da angústia, senhor do drama, choroso, egoísta, "mais do mesmo".

Poucos e poucas estão preparados pro voo das moscas que dura dois dias de esforço e menos de um na boa, saboreando o corpo- já morto.

Assim eu tranço essa conversa, mesclando a linguagem da rua com a erudição das peças. Tudo pra dizer que eu chorei, chovi, escorri e fiquei...

Fiquei bem debaixo do meu guarda-lutas. Protegendo cada vitória da derrota que tenta - mas não inunda.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Melaço

Hoje tentei sair de casa
mas não consegui. 
Sim, tranquei a mim - por mim.
Eu mesmo fiquei parado dentro do quarto procurando um canto pra poder rodar
sem fim. 

Música, bebida, aquela fórmula sem tabela que, periódica (na mente), marca os dias para eu (ou a gente) me encontre em casa, assim, azedo - nada fresco, mas querendo refrescar a cabeça quente.

Gosto de guarda-chuva na boca com uma ressaca que não recua feito mar, pois vou te falar: nem mar eu vi. Não choveu, nem faltou gente. Era uma quarta - ou quinta  - e eu precisava trabalhar. 
Infelizmente, não é a sexta vez que eu desisto de arriscar pra ir ver os entes. 
Quando a pele já estava forrada de cicatriz, insisti e decidi não riscar novamente. 
Fiz o que parecia ser certo pra não sangrar ou abrir ferida no meio da feira.
Ia. Não fui. Mas Queria. 
E nem mais o carrinho de peão era capaz de puxar o que desde o começo do ano eu desistira.
Larguei de mão a alegria.   

Então dancei mesmo. Sozinho. Num espaço pequeno, esbarrando no raque, 
batendo os pés nas quinas... Assim eu fui.
Foda-se. Decidido.  
Era pequeno, mas me servia. 
Suei, suei, suei e não chorei. 
Lágrima agridoce? É o caralho! 
"Ah, mas então você é desses de que homem não chora?"
Que papo é esse, princeso, tá na noia? 
Homem não só chora como implora de joelhos.
Ele(s) fica(m) pequeno(s) e acha(m) que não tá(ão) de escolta,
mas quando olha(m) em volta, vê(eem) que quem não chora não 
(re)clama seu lugar na cama. 
Suplica. plural, porque sozinho não aguenta ser. E volta.  

Óbvio que eu chorei, 
mas meu choro é contido,
pequeno, no quartinho, partido em um parto 
assim... Só no soluço, escondido. 
Chovi por uma estação inteira mesmo. 
Esqueci de desembarcar. Foda-se. O problema é comigo. 
Inundei o vagão porque não dei atenção.Vai saber... 
Aquele coração idiota, cheio de lorota, bem palhaço 
Bem Maria Fumaça que eu, usada - e não ousada, esqueci de desembarcar ao amanhecer...
Perdi. 
  
Assumi na frente de todos e todas que fui feita de otária e vaguei, ensimesmada, pela contramão. 
Nos restos da minha desgraça, veja só - solitários -  os estilhaços que mastiguei.
Aqueles farelos de quem achou que laço não se rompia com a imensidão. 
Dessa vez, não lamentei. 
Na beira pia, esta louça virava riacho e escorria, finalmente, para uma conclusão. 
Já lavou? Já levou? Já secou? Sequei. 
Conduzindo para o mar de maré baixa,
a água turva me abandonava. 
Pelo ralo cheio de areia eu entendia o quanto fui raso.
Cheio de besteira, sem graça. Bem escasso. 
Querendo mais do que a vida me dava. Mais do que o deserto, seco, proporcionava.   
Silencioso, bem no final de tarde, sem sobra, pedi, na dúvida, o que não nego nem passo:
Disse: sobe aqui, grita do terraço que eu abro sem fazer doce. 
Me laço.  

Grita que eu abro. 


domingo, 2 de outubro de 2016

Pressão alta

Todas as vezes que o teto ficou mais baixo e minha pele gelou, eu tive certeza que minha maldição seria a pressão baixa. O cair do ritmo, esfriar do sangue, a sensação de ser apenas um detalhes prestes a desaparecer. Comecei a reparar em quais situações eu me sentia assim, baixo, doente e disperso. Eram sempre os momentos em que eu me permitia perder; não mais carregar o fardo de ser vitorioso - ou sobrevivente. Eu me permitia não ser; não fazer; não falar; não caminhar; não olhar; não ouvir; só sentir. Minha pressão caía justamente quando os sentimentos subiam à flor da pele e, num momento de ebulição, evaporavam a vontade de viver. De continuar. De fazer tudo o que não fiz - por fora. Mas vivi por dentro.

A lentidão ao meu redor conduzia a dança que nunca tive. Agora, eu descreverei como é a descida.

Passo a cada passo, eu me firmo. Ando como se nada tivesse acontecido. Finjo não ver o que está estampado diante de mim: um mundo estranho; um ambiente pequeno demais - apertado demais; eu caminho como se nada tivesse acontecido, mas eu sei que aconteceu. Sei porque eu desapareci de mim. Passo a cada passo, eu desço para conferir os ruídos no andar de baixo. Quando chego, vejo rostos cinzas a gritar. Eles ordenam que eu saia. Eu saio, subo um degrau, mas não é o suficiente. Ainda ouço seus berros. Então, este barulho me tira a atenção. Biologicamente falando, este é o momento em que o "zunido" nos ouvidos tem início. Como um cabo de guitarra mal plugado, ele quebra a harmonia. Tira a paz. Aos poucos, eu me deixo hipnotizar e então, dominado, sofro com o resto do corpo. Os gritos, eles me expulsam de dentro. Obrigam-me a ir para fora.

Desespero. Angústia. Medo. Vergonha. E seu eu desmaiar? E se alguém tiver que me socorrer aqui? E se eu tiver que pedir ajuda? Incômodo. Eu não quero incomodar. Não agora. Não aqui. Mas estou tão mal. Tento lutar, eu juro que tento. Respiro fundo e pausadamente - como me ensinaram -, mas não funciona. Enjoo e então vou perdendo as forças. Tudo gela e seca. Deserto frio no meio do dia, no meio da mesa, da risada, da festa, do ensaio da banda, do beijo, da cama. Quantas vezes eu desci para o andar de baixo e fui obrigado a voltar aos berros? Não pertenço a lugar algum e essa caminhada me tira o fôlego. Eu fico sem ar, torcendo para que termine logo este sofrimento. Mas ele não termina. Porque eu sempre continuo. Sou eu que não termino.

Eu venci a queda.

Infelizmente.

Volto, apático, pendendo de um lado para o outro. Reconheço-me e não gosto do que vejo. Esta é a volta. Assim que eu volto. Em luto, depois de tanto ter lutado para não sucumbir aos caprichos da vida. Ela me disse: por que sofrer tanto? Vá. Eu tento ir, mas volto. E, para piorar, volto o mesmo. Nem melhor nem pior: o mesmo. Aquele zero, ponto de "não partida"; o marco fadado ao esquecimento; nulo; persistente desistente. O zero. Eu volto zerado, sim. É assim que me sinto. Começo a me preencher novamente com vazios. Você entende o que é transbordar de tanto se encher de vazios? Isso se chama pressão baixa.

Pressão baixa é se encher de vazios até não aguentar mais. E quando você transborda, você volta. Do zero. Para lugar algum. Não deixa rastro nem saudade. Apenas volta. Esquece as chaves, mas lembra como entrar na casa pelos fundos. Esquece o cheiro do seu quarto, mas lembra como preencher cada cômodo com sua vontade de não voltar. A pressão cai no exato momento em que eu sou forçado a ser material novamente. Em que o universo me dá um lugar na sala, uma almofada para colocar sobre as mãos e esconder as unhas pintadas. A pressão cai quando eu volto a um lugar que me anula. Que me faz sala, mas não me faz estar.

Ainda assim, se agora estou aqui - situado nas letras, deitado nas entrelinhas - é porque de alguma forma eu consegui subir alguns degraus. Poucos, sim, eu sei. Mas subi. Subi para olhar como estão as paredes. Eu sempre quis paredes bem lisas, pintadas, arrumadas daquelas que confortam ao invés de confrontar. Mas nunca tive. Mesmo assim, subo. Olho e vejo a tinta descascando. Vejo farelos, imperfeições, mas vejo memórias também. Aquelas lembranças que nunca chegam ao andar de baixo. Sabe aquelas memórias que nasceram para ficar no topo do tempo? Refletindo o céu e resenhando o universo? Então, são elas que estão marcadas nas paredes antigas. Eu subo e me vejo novamente no lar. Meu lar. Escondido de tudo e todos, apenas se fazendo a cada instante do passado - num eterno retorno. E é isso que o andar de cima me traz. É isso que me faz subir - que faz minha pressão subir. O lar. Este eterno retorno. Onde eu me reencontro cheio de passado, vivido o bastante para saber que a pele aguentou. Endureceu e aguentou.

É no andar de cima que recebo visitas. Neste andar superior, eu consigo servir um café ou alguma outra bebida; sou capaz de puxar conversa; rir sem querer chorar; abraçar quem nunca perdoei. É neste andar de cima que eu me sinto alto o bastante para alcançar o sol e deixar que ele aqueça o rosto tão marcado. A cara tão fechada. Janelas abertas para que os olhos enxerguem o resto. Aquele resto que nunca se alcança do andar de baixo. Quando eu subo, eu me sinto alto. E me sinto alto quando a garganta se rende ao doce sabor do álcool. Sim, é aqui que eu mato a poesia e faço dela verdade. Nua, crua, sem ritmo e com frio. Mas ainda assim, alta, superior, na superfície.

Alto, eu consigo finalmente preencher os vazios. Caio nas graças das piores tragédias e me recuso a descer novamente. Assim eu sigo, rumo à porta. Recebo-me, cansado, mas ainda de pé. Ainda alto. E então, a palidez dá lugar ao rubor. Cá estou nós, eu e eu, agora juntos, aquecidos.

A pressão sobe novamente com uma simples gota. Salgada, sutil e ritmada. É o fim do desgosto; o fim do corpo; o fim do copo; e o fim do sono.

É este o começo do choro.

A chuva do lado de fora que me eleva. E me leva novamente para o lugar mais alto em mim.

O coração.






quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Pedreiros do universo

O lugar onde nasci nunca foi, mas sempre esteve. Insistente, de tijolo em tijolo, alaranjados pra cobrir o cinza-cimento fingindo algum sentimento, ergue-se de restos de outros restos - o que sobrou dos entulhos do vizinho. Areia faz da calçada banco e da fossa beira, aquele mar que não se entra, não se pisa, não se sente, apenas se observa e espera desaparecer da frente de casa. Virar parede nova, um quartinho a mais, de repente, até mesmo outra casa, agora com cara de mar, doce mar. Chega de sal.

Espaço, precisei e pouco tive.

Tudo apertado, tudo colado, meu barulho no seu barulho, minha orelha na sua orelha, a fronteira entre minha mesa de almoço e a sua - tão curta, com quatro cadeiras, três sempre vazias. A proximidade que reforça a solidão daquele que come sozinho todos os dias, acompanhado só pela fome. O outro lado, com o outro ao lado, é mistério e - ao mesmo tempo - companhia. A vida que não é a minha interessa quando me faz esquecer de como é difícil ser em si. Ser no outro só é mais suave porque podemos voltar quando a casa, literalmente, cair. Eu fico ali, mesmo com pouco espaço, satisfeito. Caibo dentro dele melhor do que dentro de mim. Ou do outro.

Tinta de cal, misturada com bisnaga, aquela do azul melancólico, falhado, esfarelado, manchando os quatro cantos da sala, envenenando nossos pulmões, mas deixando tudo pronto pras visitas. Elas, mais importantes do que nós, os moradores, deveriam desfrutar do melhor que o pior poderia oferecer. Era assim, sempre foi assim e até hoje se mantém. Mostrar o lar pro outro é como mostrar a si para o outro. Não dizíamos "bem-vindo", dizíamos "não repare". A primeira impressão é a que diz quem fica. Viram as costas, temem o sofá, lavam os copos já lavados, medo, muito medo, desconforto, mas o prato que sujaram, este eles não lavam. Ficávamos em casa com a sensação de derrota e vergonha. O outro nos achou feio. Da porta pra fora, as risadas, comentários maldosos e a sensação de viver num lugar bem melhor do que aquele buraco que há pouco lhes acolhia. Você é feio, você é feio, é educado, carinhoso, aconchegante, mas é feio. Eu não quero ser em você e não quero que você seja em mim. Você é feio, como uma casa velha e decadente. E o pé da geladeira está enferrujado.

Rua, caçamba, pedregulho, galho de árvore, mato, carro abandonado, chinelos nos fios, buracos nos postes, asfalto esburacado, casa feia, casa bonita, casa feia, casa mais feia, casa feia, casa bonita, sequência da vida, nós nas arquiteturas da própria rua, entrópicos, diversos, competitivos, contemplativos, unidos pela diferença, pela vontade de ser diferente daquilo que era inevitável: a condição de periféricos. Garrafa de plástico sobre o relógio de luz, sacola de plástico, lona de plástico, mundo de plástico; arroz seco do cachorro, rabiola enroscada nas antenas, esqueleto de peixinho "mandado" no telhado de zinco, vida que pulsa, vida que segue, vida que não é seguida porque dói muito andar sem rumo, vida que persegue outra vida pra chamar de sua... Vidas. Neste espaço, na rua, na minha casa feia, no eu dentro de mim e fora de si, nas loucuras da minha mente sem paredes, no espaço vago em que me escondo toda vez que o barulho da avenida não me deixava acordar pra dormir mais uma noite, eu fico. Eu finco meus pés na minha terra, no meu lugar, no meu ponto de referência - e não só de busão - que antes não passava de um quarteirão rodeado de rivais, aquelas vidas iguais, e perigos. Eu fico, tento, logo resisto. E ainda desejo a melhoria. Eu, aquele de casa feia e fechada. Sem risada.

Das mãos do criador, espero o paraíso. Aguardo por ele, pago por ele, mesmo tendo tão pouco. Aguardo sua chegada, suas mãos gigantescas, calejadas e habilidosas. O criador, o messias, o verdadeiro responsável pela concepção do mundo. Sim, aquele que faz da massa matéria-prima, corrida pra durar 7 dias. Do barro, cria para o homem as condições para criar sua família. Limpa o terreno, nivela o chão, ergue, pouco a pouco, a moradia. Traz luz, traz água, traz terra, traz as condições para existir. O pedreiro, aquele que tem o dom da criação, inquestionável, sabedor do conhecimento (sobre o) concreto, que compreende o pó, a poeira, a areia, o tempo envelhecido nas pilastras, na garganta das ampulhetas, o espaço medido à palma; que domina a alquimia dura do material de construção. Mestre de obras. O verdadeiro mestre de obras. Ele, tão necessário, cria mundos para poder manter o seu. Todas as noites, rezo para ele, na expectativa de que um dia me ouça.

Desejo a parede lisa com massa corrida. Eu desejo a caixa d'água limpa, de plástico azul-sorriso e não de cinza-concreto, para cobrir o veneno que enche o copo e ferve a comida que alimenta o corpo. Quero um portão e não uma porta, quero chuva sem goteira, quero umidade sem infiltração. Quantas coisas eu quis, pedi, vi minha mãe pedir, meu pai tentar fazer. Mas que homem é capaz de reproduzir com exatidão a obra do Criador? No máximo, tapa buracos, faz algumas gambiarras e sobrevive aos dias. Eu não abro mão do meu espaço. Estou tão empregando nele quanto ele em mim. Eu saio dele - todo dias às 7h da manhã - mas ele não sai de mim - há 29 anos.

A esquina é volta para casa. A chave no portão dá volta para casa. Aquele cheiro de costume, indetectável, mostra-me o caminho da de volta pra casa. Eterno retorno. Órbita. Meu lugar, o carma, meu espaço, mais carma, meu refúgio, pra cama. Eu e meu lugar. Ficamos os dois, deitados no carma do quarto, olhando para o céu destelhado, construindo outros mundos como pedreiros do universo.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

O horizonte, da sacada

Eu só quero te ver novamente quando estiver despido dessa porcaria de vida. Até lá, sou mais um amigo sem nome que serve de exemplo para os seus amores.

Não me importa se alguma vez falou com amor sobre mim. Nunca foi capaz de ir a fundo e penetrar minha pele. Superficial, a fuga de si mesmo não veio como opção, era a ordem máxima.

O que estou fazendo comigo mesmo? Drogas resolvem? Não. Ou melhor, até conseguem amenizar a pressão, mas por poucas horas. E eu não preciso de horas. O que eu quero são anos e mais anos de paz. Que paz tão cara é essa?

Esse vazio. Essa frustração que precede a conquista. A insatisfação crônica. Não sei mais o que fazer. Sinceramente, perdi a mão de mim mesmo. Sou a receita do que não pode dar certo, mas que ainda assim existe e ganha espaço.

A lista das coisas que não posso fazer é quase tão grande quanto aquela que elenca tudo o que não quero ser. Paralelas, dançam no ar e invadem minha mente na busca por um espaço seguro. Quando conseguem chegar ao âmago da minha essência, percebem que o vazio se comporta como um buraco negro. Suga, absorve e se apropria de tudo o que tem vida. É daí que nasce a eterna fome por algo indefinido.

Onipresença é minha inimiga. Querer falar, querer me fazer presente e sempre ter algo escrito para ser enviado, sim, tudo isso me mata. Mas é uma necessidade que grita tão alto a ponto de me ensurdecer. Quando percebo, já estou encaminhando toneladas de lamúrias.

Essas lamentações são como argila, sem forma, que ajuda a construir um muro em torno da razão. Presa, faz-me abandonar o foco e optar pela escuridão do inconsciente. Neste instante, acendi o cigarro do outro e olhei pela sacada, o mundo era mais complexo do que imaginava.

(...)
Era uma sexta-feira. Voltar para casa seria uma boa opção. Frio, fome e pouco dinheiro. Aceitei o convite. Eu queria mesmo era deixar a minha mente tão vazia quanto o estômago e os bolsos. A entrada do prédio estava cheia de vampiros. Seus olhos vidrados em mim deixavam claro que a vitalidade ainda me pertencia. Talvez, os olhos brilhantes entregavam meu estado “sóbrio”. Alguns andares e chego ao apartamento. Lugar legal com pessoas legais. Mas a geladeira era o que mais me interessava.

Aquela garrafa que parecia abrigar um fantasma me chamou a atenção. Transparente e convidativa foi censurada pela minha sede e seu lacre deixou de existir. Três goles e três copos vazios. O mundo perdeu parte de seu peso e eu ganhei o dom de respirar com calma. A pressão do sangue, a coordenação motora e o olhar ágil deram boa noite e então tive a certeza de que estava no lugar (in)certo.

Gosto de conversar com as pessoas. Porém, naquele estado de “metamorfose” tudo o que me atraia era ouvir cada palavra dita pela boca jovial e inconseqüente. Como se fosse da minha natureza, e de fato é, colhia detalhes e mais detalhes escondidos naqueles dentes brancos. Detalhes que, para os mais entendidos, são batizados de palavras. Os cigarros apareciam e sumiam. Acho que estava fumando a si mesmos. Eu era apenas o espectador daquele momento intimista. Fumar a si mesmo, nada mais intimista.

Toca a campainha e o coração passa a bater na porta do peito. Conto até três e respiro fundo. Pessoa errada, hora errada, respiração certa. Ao virar as costas, voltei os olhos para o horizonte. Noite fria e cheia de neblina, chuvisco e gosto de guarda-chuva na boca. Fome e falta de dinheiro? Não, não esta noite.

Depois de horas fui perceber que alguma coisa tocava no som. Bandas chatas e ritmos inapropriados para o momento. De qualquer forma, eu jamais perceberia tal afronta aos ouvidos no estado em que me encontrava. E posso afirmar, encontrei-me de verdade. Várias vezes. Tentei colocar outras coisas, mas a destreza estava limitada. Desisti e comecei a cantarolar qualquer coisa.

Aquela voz me despertou de longe. Entretanto, não estava atrás dela. O que eu queria veio em seguida. O sorriso que recortava meus olhos e os prendia num outro plano. Aquele rosto que se transformava sem medo e abria os braços para me dar o abraço prometido. Larguei o corpo e um pouco da alma, mas o peso do coração não caiu pela metade. Depois o frio voltou e tudo mais. Distância. Paciência. Desisti e fui fumar qualquer coisa.

Neste instante, bebi do copo do outro e olhei o horizonte pela sacada. Realmente, o mundo é bem mais bonito do que parece. Mas meus olhos ardiam e o estômago berrava. Voltei para dentro do apartamento e recolhi meus excessos. Boa noite.

E agora?

Eu me perguntei. E ainda me pergunto: e agora?

E agora que saí sem as chaves de casa
Para não dar meia volta em minha vida
e abrir as portas do peito?

E agora que caminhei sobre pregos
até o emprego, contanto os passos
pra que as horas passassem logo, em largas passadas?

E agora que lembrei do seu cheiro na hora do almoço
um perfume de mágoas passadas, que me trouxe água aos olhos
com mais sal do que saudade?

E agora que olhei para meu corpo e me senti à vontade
para andar pelas nuas curvas, à noite, e sentar nas ossadas frente a minha casa
aquela cujo endereço está sobre a pele?

E agora que eu sou justamente aquilo que, no passado, torci para ser,
com tanta vontade que quando me vejo, vejo-me no ontem, provando que ainda
sou capaz de me enxergar - mesmo de longe?

E agora que eu cresci, mas não deixei de escrever, de me esconder nas palavras,
de me revelar nas entrelinhas, só, e sempre só, deixando pontas soltas para você me encontrar?

E agora que estamos aqui, um diante do outro, sorrindo de leve, conversando a sós
voltando a reconhecer o cheiro de nós, cheio de nós, nesta falta que não nos permite fazer falta?

E agora?

É agora.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Beijo das serpentes

Antes mesmo de nascer, já haviam me condenado. Bom, pelo menos é o que ouvi dizer por aí. Estes lances de religião é tal, há um pecado natural em mim. Eu não tenho fé alguma, ainda mais quando diz que eu sou "condenado" só por existir. Como vou saber? Só sendo. Então eu fui.

(...)

A vida é uma eterna correria para lugar algum. Desdobro-me em 7 para conseguir criar uma rotina minimamente controlável. Não queria, mas precisou ser assim. Viver é um gasto sem fim, uma morte a cada amanhecer, uma queda a cada minuto - mil questionamentos, nenhuma resposta. Silêncio. Você reza para manter a (in)sanidade, veja só que incoerente. Pois é, prazer, vida.

Então, acabei me acostumando com esse caos. Trabalho - nunca fixo, relacionamentos - nunca fixos, - dinheiro - mais líquido impossível, eu - condenado. Prezo a todos estes pecados. Sim, trabalho é pecado porque te rouba o bem mais precioso: o tempo. Será que é tão precioso assim? Sei lá, deve ser, porque me falta (e, geralmente, o que falta é o que completa). Eu corro demais, só que não me lembro da última vez que olhei para os meus pés. Eu ainda tenho pés? Ué, sem eles, pra me locomover só se me dessem asas. Minha vó diria, "Deus não dá asas à cobra". Saudades, vó. Quanto tempo, minha preciosa.

Hoje eu chego em casa e, quando deito de cara pro teto, fico tentando remontar meu dia. Não consigo. Mas a tentativa é válida. Infelizmente, a maior parte das referências estão ligadas aos meus muitos empregos. Vejo formas, traços, cores, sombreados, linhas, tudo numa simetria irritante  que me salva as vistas. Não suporto nada assimétrico. Só a vida, porque vida a gente não escolhe, né? Bem, prefiro acreditar que não. O corpo cobra bem mais do que antes. Dores que vão desenhando novos mapas no meu mundi. Reviro na cama como a terra revirou durante o fim da pangeia, só que entre lençóis brancos e não oceânicos. Trocaria pangeia por panaceia - a deusa da cura. Sobrevivo à noite sem precisar de pesadelos, afinal. a realidade insone já me assusta o bastante. Meus pensamentos não calam e o coração reclama. Por quanto tempo mais? Não sei.

Agora estou de saída. Muita dor de garganta por causa do cigarro - meu melhor amigo multiplicado por vinte numa caixinha bonita que, quando lacrada, traz-me felicidade imensa. Um amigo meu recomendou maçã. Ele disse que ela limpa a garganta, os dentes, o estômago e ainda te deixa com cara de saudável. A maçã engana, diz ele: "por que você acha que ela é o tal fruto proibido? Maçã é conhecimento, é saber, é questionamento, é vontade de ir além do que foi dito como verdade, ela subverte o acomodado, excita o conformado e, no final das contas, finge ser apenas mais um fruto.". Ele escreve contos, então dá pra perceber o porquê de tanta viagem sobre uma simples fruta. Seja como for, comprei uma por 50 centavos na quitanda aqui perto. Ela é pequeno. A moça disse que o tamanho é verdadeiro, pois está sem fertilizantes. Não sei.

Há quanto tempo não saía. Não saía de mim, da minha rotina, dos meus ossos pesados e músculos cansados. Os olhos já não eram mais os mesmos - rebatiam a luz com uma timidez infantil. Onde já se viu uma criança fechar os olhos pra festa? Bem, eu preciso de mais alguns goles para comemorar a retomada do meu tempo. Precioso. Na pista, eu sentia tudo e todos, girava com os copos nas mãos e derramava bebida nos corpos em ação. O calor esquentava as pernas e gelava a barriga, eu estava no olho do furacão, rodando, entregando-me à natureza furiosa, destruindo-me aos poucos, caindo do pomar como uma folha verde - logo mais a secar. A garganta queimava, eu pagava pela língua, mas pagava com gosto. Chega de insipidez. Como era bom morrer - porque pra vida só a rotina servia. Morri sete vezes, troquei de pele, troquei de voz, troquei de eu, fui cobra, sem os pés - voei. Escorri pelos galhos feliz, conformado com minha incompatibilidade mundana e, já expulso do paraíso, lembrei que tinha uma maçã na bolsa. Sem mais nem menos, senti uma fome enorme. Não de comida, mas de saber.

É tão louco parar no meio do rolê para comer uma maçã. Eu não conseguia deixar de pensar no que o meu amigo disse. Acho que ele tinha algo de serpente também. Provavelmente a língua. Ou as ideias. E por que eu estava comendo escondido? Qual é minha culpa por querer uma maçã? Oras, o que há de errado em ser eu mesmo, atender aos meus desejos e ser feliz? Condenado eu sou desde que nasci, não é mesmo? Então pra que me segurar? Justo agora? Não. Não mesmo. Hoje eu amanheci durante a noite.

Abre-se o mar de gente, passa o falso messias, eu, maravilhoso, andando com passos milimetricamente calculados, flutuando, sem pés, a muitos pés de altura, a tantos outros aos meus não-pés, olho para aquelas pobres almas e mordo o fruto.

A eles, só resta viver com desejo.

Páginas pretas II

Falo sobre a falência do ser
quando falo comigo, falo sobre isso
Ecoo por entre os vácuos do corpo
como recado mal dado
daqueles que os outros aumentam
para esconder  insignificância
sinto ânsia sem ansiar
sinto gana de nada, quero
e quero para poder me distanciar
chego no intuito de dizer adeus, veja sou um segundo
pros terceiros abandonar
Olho na tua cara e não te vejo
quero te mostrar que neste vazio tu não farás moradia
Aqui, quem jaz sou eu

Quando, mais uma vez, as luzes se apagam
dentro de mim começa a aparecer toda a sujeira escura
que debaixo do tapete fez volume
montanhas e mais montanhas de restos
que não fui capaz de me desfazer
não fui capaz
Nem sala eu fiz, estava tudo lá, exposto
no meu rosto, na minha boca, no meu gosto
nigrosina para as visitas não voltarem mais
eu, introvertido? Não, incapaz

Há dois dias não tomava banho
não me olhava no espelho, não ouvia minha própria voz
confinado no quarto, morri e esqueci de me enterrar
a luz incomodava os olhos já sem brilho e nas trevas
pude cobrir a mim mesmo com o manto do não-ser
Recolhi-me, voltei a ser feto, protegido pela incerteza da vida
do nascimento, ali, contido, sem nome ainda, uma incógnita
longe, mas dentro de mim, carregando um frio sem pai, na barriga, por 28 anos
Eu não queria acordar e ter outra vida, não
eu queria acordar e ter a mesma vida que tenho
mas que ela fosse menos dura
ou, pelo menos, mais tragável
Que não fosse um parto
Porque eu parto

Quando era pequeno, lembro que pedi a todas as forças
que me fizessem um favor, eu implorei, sim
Pedi para que me tornassem invisível
eu não queria ser visto, pois minha imagem, meu jeito, eu
atraiam dor
Todas as noites, com a reza decorada, eu pedia, por favor
ouça meu clamor, senhor, faça-me sumir, não deixe que me percebam
quando mais um dia nascer, Samael descer, e iluminar a terra seca
Eu ainda quero ser seu filho, não faça eu me morrer, pinte-me da sua cor
transparente, invisível, que eu seja apenas nome, não homem
Por favor, senhor

Depois de perder a esperança no fundo da caixa de Pandora
Percebi, então, que alguém me ouviu na nuca do universo
na curva do infinito, ele, ela, eles, todos, tudo, alguém me ouviu
e me apagou de vez
Ninguém me vê, ninguém consegue me ver, coberto de poeira do passado
ancestral de mim mesmo, caminho por esta terra sendo vulto, um eterno vulgo
que quando se pronuncia, renuncia, não fala alto, jamais grita,
anda por aí, mas nunca por aqui e segue aquele velho ditado
Quem não é visto
Não é lembrado.



sexta-feira, 17 de junho de 2016

Quero falar com você, amigo [parte 1]



Diretamente com você, meu amigo. Meu amigo gay, meu amigo que já passou por tantos momentos difíceis desde que se entendeu por gente. Hoje, eu só quero falar com você.

Lembra de quando se sentiu rejeitado pela primeira vez e, ainda aos poucos anos de vida, sabia que não seria a última? Lembra, sim. E o quanto doeu, disso você também se lembra, certo? Certo. Era uma dor diferente de todas as outras que queimaram seus joelhos e cotovelos. Essa dor queimava por dentro, mas era como gelo seco. Um ardor. Tanta dor.

Você não tinha com quem conversar a respeito, porque notou que evitavam tocar no assunto se fosse para esclarecê-lo. As falas eram sempre pontuais e pontiagudas. Perfuravam o peito até chegar naquele pequeno receptáculo onde você escondia o que tinha de mais precioso. Lá, cada palavra escavava um pouco mais em direção a este tesouro escondido. Então, dia após dia, um pouco de si foi roubado.

Lembra de quando socorreu outro amigo seu, gay, depois da aula de Educação Física? Os outros meninos queriam bater nele - e em você - e ambos correram até sua rua. Lá, pegaram os carrinhos de rolemã e brincaram com segurança. Sua mãe fez um lanche para ambos e, na hora da despedida, ele lhe agradeceu por aquele momento. Devolveu uma joia roubada do seu tesouro. Nunca mais você o viu, e o esqueceu.

Lembra de quando ninguém olhava para você, gostava de você, queria você? Então, até o dia que uma garota maravilhosa conseguiu ver beleza em toda sua sensibilidade e silêncio. Ela era forte, muito forte, e um amor. De repente, o primeiro amor que te amou. E que você teve coragem de dar um beijo - no rosto. Ela também devolveu mais uma joia para o tesouro.

Meu amigo, meu querido amigo, como você cresceu rápido. Teve que correr da morte correndo na vida. Acelerou os ponteiros do relógio com as pontas dos dedos e queimou as folhas do calendário com as chamas nos olhos. Havia uma vontade inflamada de viver, de queimar energia, mas não podia. Concentrou a labareda na vela que residia solitário no âmago. Como foi difícil olhar para o mundo e não se ver nem encontrar um lugar para ser. Mas você sempre se teve, conversou tanto consigo mesmo. Isso ajudou muito, não? Sim, eu sei. Tudo por dentro, seguro do mundo, guardado no seu tesouro, entre outras relíquias. Solitude e solidão, juntas.

Rostos para os quais quis sorrir e não sorriu. Mãos as quais quis segurar e não segurou. Cartas que escreveu e não entregou. Beijos que desejou, mas nunca beijou. A realidade era sua cela e os sonhos lhe concediam alguma liberdade. Lá, podia viver sua própria vida, sem omissões, sem repressão. Optou pelas sombras quando o sol nascia. Escondido nos cantos, eu via você meu amigo, tentando não ser percebido, lutando para ser invisível. E conseguiu. Camuflou-se, tentou parecer com o todo e assim garantiu a sobrevivência da carne e a morte contínua de sua alma. A vela se apagara cedo demais.

Andou tanto pelo pelas ruas sem referência alguma. Vagando, apenas. Indo. Sua vida não era de verdade, eu sei, amigo. Sua vida não era sua. Só você era seu, no baú da própria existência, como recordação de momentos nunca presenciados. Passageiro. Mas então, a paixão, aquela primeira, nasceu.

Quantas vezes eu te ouvi chorar por dentro,, amigo, por pensar nele, no sorriso dele, no cheiro dele, no jeito dele, no carinho que ele tinha por você? Várias noites em escuro, debaixo das cobertas, abafando o soluço, embrutecendo o coração. Transformou bem-querer em mal-me-quer, não é? Foi assim que se defendeu do sofrimento. A raiva ao invés da mão dada. E como você gostou dele, hein? Controlar o amor foi um dos maiores desafios que enfrentou, mais até do que os xingamentos e agressões físicas; mais do que a rejeição do pai; mais do que o silêncio da mãe e a gritaria do irmão. Anos, não dias, anos sufocando o que tinha de melhor, com medo de oferecer a joia mais preciosa de seu tesouro e ela ser jogada no lixo. Ou vista como falsa. Calou a boca pra não deixar falar o coração. Amigo, meu querido, eu te entendo perfeitamente. Venha cá, deite a cabeça no meu colo. Vamos continuar...