segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Dos Nadas




"Não tira a terra debaixo dos pés, menino. Continue sua subida até o pico mais alto e lá faça seu voo para bem longe de si. Sozinho, encha os pulmões com a brisa crepuscular, vamos, espreguice estas costelas, engula a própria barriga, brinque-se. Faça o céu sorrir com sua imagem infantil, disfarce toda a tristeza que te corrói por entre as veias, feche os olhos e abandone o cheiro do outro. Tudo acabou quando o abraço se tornou apenas um, solitário, entre braços. Acabou no exato momento em que os laços atados a nós invisíveis já não mais conseguiam manter tempo e espaço como aliados do amor de vocês. Mantenha a terra debaixo dos pés, menino. Você precisa de bases."

- Dizia a serpente com seu jeito único de sibilar.

_________

O nada. O grau absoluto da ausência. O luto da existência. O vácuo. O estado etéreo da angústia. A pressão baixa da líbido que vai até o pé e lá fica, no fundo do osso, beirando o calcanhar, penhasco das pegadas invertidas. Nada, absolutamente nada. O único desejo pleno e verdadeiro. Querer nada e no nada ficar. Passar despercebido pelo tempo e espaço, como uma vírgula na regência cósmica. Permanecer sem ser. 

Lentamente, o corpo inclina rumo à superfície gélida do chão. O ombro se retraí, sustando o peso de seu gêmeo - agora totalmente entregue ao nada. A respiração desacelera, os olhos perdem o ponto focal e transformam cores e formas em fumaça de realidade em pó. E a boca seca. E as mãos se unem, sem força. E os pés se cruzam, sem aperto. E os joelhos... Os joelhos doem, mas o resto do corpo já não sente mais nada. 

Nesta posição, a pressão da vida parece se inverter como ampulheta e ao invés de areia, escorrem os grãos de felicidade. Eles passam, um a um, despedindo-se. Nada pode tirar a criatura ruída dali, afinal, foi o Nada que ali a colocou. O eterno adeus parece fazer todo sentido, afinal, toda despedida não anuncia mais Nada além da partida. 

As vozes no cômodo inferir, o ranger da casa, as árvores que ainda balançam inquietas anunciando a tempestade por vir já não conseguem mais encostar na pele. Nada toca, Nada chega até o chão, Nada incomoda a existência desistente. 

Uma das orelhas beija o chão e como concha reproduz um barulho único - oceânico. Dentro do quarto escuro, parece com o roncar retumbante dos trovões agitando o céu, esse som subterrâneo soa como canção de ninar para a alma exausta e faz daquele piso duro a cama perfeita - fria, dura e lisa. Suavemente, a lua vem desejar "boa noite" e, com seu véu, cobre quem Nada queria além do Nada.

Envolver-se numa dança silenciosa entre o desapego e a melancolia profunda - segurando, sem medo ou arrependimento, a cintura da depressão com as palmas da mão - é algo ritualístico. Momento em que as memórias alegres tornam-se moeda de troca, dinheiro de aposta de quem só quer perder de vez e não ser mais obrigado a encher os bolsos com falsas expectativas. Esse flerte com quem não se flerta, no caso, as três entidades raquíticas - desapego, melancolia e depressão -, assemelha-se às vezes em que mãos conduzem o desejo para lugares impróprios, deixando na pele cinzas e marcas a lembrar que de Nada se lembrava.  

Nos minutos seguintes, as gotas que brotam no vidro da janela sangravam lentamente. Lá fora, alguém precisa chorar. Aqui dentro, sobre o peito precisa chover. Mas quando se está diante do Nada, lágrima pinga no caminho inverso e só o Nada é capaz de tirar do rosto a inexpressão. Ali ficam, intactos, corpo e desalma. Chuva que deságua. 

Ficar. Apenas ficar. Ficar. Desistir. Ficar. Fincar as unhas no braço para tentar sentir algo. Nada. Sente nada. Sente muito por não sentir nada. De repente, algo parece se retorcer no âmago. Algo pulsa com o pouco de força que lhe resta... uma serpente se desenrola e estica sua carcaça para fora do ninho. Ela desliza aos poucos, desenhando horizontes pelas montanhas do corpo, acariciando curvas, caindo em abismos e beijando imperfeições. A serpente sibila e vai em direção à janela. Enrola-se à trinca, abre ambas as abas e deixa os sopros revoltosos da tormenta entrarem. 

O corpo se ergue. 
Caminha sem andar. 
Vê sem olhar. 
Senta-se na beira da janela, ao lado da serpete e de costas para a tempestade. Sente uma leveza incomum, como se finalmente Nada lhe fizesse falta. Nada lhe cobrasse. Nada lhe consumisse e tentasse ter dele mais do que ele mesmo tinha.

- Obrigado pela janela. 
- De Nada.

O Nada. O degrau absoluto da decadência.

"Você não precisa mais de bases".

- Dizia a serpente com seu jeito único de sibilar. 

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Quando molhamos os pés, encolhemos

Antes mesmo de sair da cama, já sabia que a terça-feira não seria fácil. Muita burocracia para resolver, trabalho para entregar e faculdade para comparecer. Saí de casa e segui meu rumo. Percebi que o dia seria de chuva, então optei pelo par de botas. A sola me deixou um dedo maior e ajustou o andar para algo mais imponente. Parece besteira, mas eu vivo minhas vestimentas também.

Já sentado diante do computador, dei início às tarefas cotidianas. Tudo sob controle, como bem gosto. Da janela do escritório era possível ver o céu carregado em chumbo, pesado, pronto pra desabar. Passei alguns segundos contemplando aquela paisagem, sem imaginar que horas depois ela me engoliria e cuspiria de volta.

Eu meio aos muitos textos que leio, surgia tempo para resolver questões pessoais. No meu caso, o que havia de mais "pessoal" era a transferência de dinheiro para uma conta corrente em meu nome. O sistema online estava bloqueado e eu precisava ir até uma agência bancária para solicitar a liberação dos serviços que meu contrato possuía. Sem chances de sair durante o expediente, contive-me e procurei por alguma unidade que ficasse próxima ou no caminho da faculdade. Achei.

As horas faziam seu trabalho e eu ou meu. Focado, conseguia desviar a mente das emoções de engano. Lembrava do ótimo final de semana que havia tido e de o quão triste era o seu término. Na boca, nenhum gosto de beijo - só bebida e cigarro. No corpo, nenhuma marca - só saudade mesmo. Intacto, sobrevivi ao desejo fulminante que devastou apenas aquilo que não se toca: o sentimento. Aos poucos, uma angustia foi me invadindo como névoa e quando percebi já estava perdido dentro da própria consciência. Fui entristecendo, caindo num branco absoluto e denso. Fim de expediente. Hora de ir para a faculdade.

Gosto muito de caminhar. Se pudesse, iria a todos os meus compromissos andando. Enquanto trocava os pés pelas mãos e deixava que carimbassem o chão com passadas, aproveitava para refletir sobre centenas de situações. Este processo é essencial para mim. Converso comigo, pergunto como estou - mesmo sabendo a resposta, respondo - ainda que não saiba o motivo, escuto-me, como sempre fiz, desde os três anos de idade.

Já fora do prédio, pude sentir a força da tempestade. Tudo encharcado, trânsito berrante, pessoas desesperadas com seus guarda-chuvas retaliadores de cabeças e as calçadas idênticas à beira do mar. Destreza é uma de minhas qualidades. Cuidadosamente, garanti que pouco fosse atingido pela água torrencial. Então, quando saí da estação de metrô para me dirigir até o banco, tudo desabou dentro e fora de minha pessoa.

Passei a avaliar como tinha sido minha terça-feira e as últimas energias que me restavam apenas durariam tempo suficiente para sentar na carteira da sala de aula e encarar mais de três horas de teoria pesada. Como se a vida fosse tirando lascas de si mesma, cada pedaço daquele dia se desfazia no asfalto ensopado e o vigor atingira a espessura de um fio de água. Fui percebendo o tamanho das dificuldades que se arrastavam junto aos meus calcanhares e, num pingar de gotas, perdi a motivação dos olhos.

Apressado, andei pelas ruas do centro da cidade na busca da agência. Mesmo com o guarda-chuva em mãos, não consegui evitar o aguaceiro. Mas os pés ainda estavam intactos. A cada esquina, pedia informação para alguém até que avistei o logo do banco na fachada de um prédio e a dose mínima de alívio correu pelas veias. Como toda droga, dura tempo o bastante para gerar dependência - depois some. Diante da porta de entrada, o aviso: aberto somente até às 18h. Diante do relógio, os ponteiros: 18h48.

Precisava correr para a aula. Cansado, com fome, com frio, com a visão embaçada, com a mochila pesada, com o maço quase acabando... Assim eu fui, escorrendo silencioso pelas vias da cidade. Quando cheguei diante do prédio da instituição, pude olhar para meus pés. Eles estavam molhados. Finalmente, eu havia sido derrotado.

Difícil descrever o que senti. Na verdade não é difícil, é cansativo. Sentir os dedos esfriando, as botas grudando desesperadas nos peitos dos pés e o barulho da água se infiltrando cada vez mais pelos cadarços foi como olhar para meu reflexo e me ver sendo humilhado pela vida. Como se ela estivesse mostrando quem manda e não me desse autonomia alguma diante do destino. A sensação de pequenez dominou. Pensei em todo o sacrifício feito ao longo da terça de chuva... Pensei e entendi que ele pouco valeu. Quis chorar, mas já havia chovido demais.

Tratava-se de aperto. Eu sentia como se estivesse suprimido em mim. Afogado na frustração daquele dia tempestuoso. Meu rosto se distorcia no fundo da poça, mascarando a vergonha na cara. Fluvial era meu peito que transbordava a cada puxada profunda de ar. Tudo o que eu queria era ir para casa recompor o que jorrou de mim.

Minha mãe dizia que tanto as roupas quanto os tênis encolhiam quando eram molhados e depois secavam.  Na verdade, não eram só eles. Eu também. Quando molhei meus pés, senti-me menor. "Parece besteira, mas eu vivo minhas vestimentas também."

Eu que encolhi.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Ensine-me a nadar



Parecia sintoma de alguma doença séria - e rara. No entanto, de rara não tinha nada. Mas de doença…

Passei muitos anos no mesmo quarto embolorado, cercado de folhas soltas cheias de ideias presas - pensamentos e mais pensamentos, lamentos e confissões que a ninguém interessavam. Eu, escritor, na miséria da minha profissão, tinha não apenas um ofício, como também um vício.

Gostava do meu canto. Pequeno, mas confortável. Subexposto como minhas fotos favoritas. Bastavamo-nos. Contudo, eu sabia que o cigarro envolto naquela atmosfera sufocante com janelas servindo apenas de cinzeiro iria me tragar. A cada dia a mais, menos capacidade de encher os pulmões. Começava a perder o fôlego enquanto pensava. A exaustão desenhou no meu rosto um quadro daqueles bem antigos no qual o verde musgo é, de fato, musgo. Só que essa condição insalubre combinava perfeitamente com a angústia e melancolia que me acompanham desde sempre. Tudo entrava numa harmonia destrutiva e lamento nenhum conseguiria quebrar o pacto entre vida e morte. Pelo menos, foi o que pensei…

Desci para comprar um maço novo e senti que o som, ao poucos, deixava meus ouvidos. Como se algo expirasse de dentro da cabeça, o tempo espreguiçou-se diante dos meus olhos e então a lentidão passou a guiar meus passos. A cada degrau que eu descia, meu sangue parecia perder seu fervor. Foi então que ouvi meu coração suspirar. A cada batida que eu perdia, meu ar parecia perder seu frescor. Foi então que senti meu corpo despencar. A cada sensação que eu pedia, meus pensamentos pareciam perder sua cor. Foi então que não me senti.

O quarto era diferente. Tinha luz, livros ordenados - e não cobertos de poeria numa desordem completa - e uma janela enorme, recortando um pedaço de céu sem fios. O cheiro também era atípico. Espantou-me o fato de eu conseguir ter olfato algum naquele lugar. Porque na minha casa era impossível. A vida era inodora. Sem perfumes. De repente, a porta se abre e eu sinto meu peito pesar como se uma pedra estivesse posta sobre ele. Quando tentei mover minhas mãos na direção da caixa torácica instintivamente, perdi as poucas energias que haviam sido recuperadas nas horas de inconsciência. O pacto entre a vida e a morte estava abalado. Havia guerra. Tormento. E eu estava no meio.

- Oi, você acordou…
- Desculpe, quem é você?
- Sou seu vizinho. Quando você caiu das escadas, eu estava subindo.
- Eu caí? Por isso que estou todo quebrado…
- Sim. Você desmaiou. Mas deu tudo certo, porque sua cabeça bateu no meu ombro e eu consegui segurar seu corpo.
- Obrigado.
- De nada. Descanse. Eu chamei um médico, então fique aí até que ele chegue.
- Eu preciso voltar para casa.
- Quer que eu avise alguém de lá?
- Moro sozinho.
- Então vai ficar aqui. E fim de conversa. Você não está em condições de me contrariar (risos).
- Aproveite, é por pouco tempo.
- Quer alguma coisa?
- Cigarro.

O médico disse que se eu não mudasse minha rotina de fumante, morreria nos próximos dois meses. Parar com o vício estava fora de cogitação. Cair da escada também. Aproveitei que ainda estava debilitado e na cama fiquei. Olhava para o teto, branco feito uma folha de papel, e imaginei minhas palavras manchando a superfície… Formava um texto mental cujo início se resumia a uma pergunta.

- Qual é o seu nome?
- Bruno.
- Felipe.
- Está melhor, Felipe?
- Sim. Obrigado viu, Bruno.
- Tranquilo. Só saia quando estiver bem.
- Então vou ficar aqui pra sempre.
- Pode ficar.
- Estou brincando.
- Eu não. Falo sério, fique o tempo que precisar. Eu também moro sozinho. Na verdade, eu tenho uma companheira.
- Não quero incomodar a privacidade de vocês.
- Minha companheira é uma sucuri filhote (risos).
- Você tem uma cobra em casa?
- Ela foi deixada no meu consultório. Foi resgatada, na verdade. Traficantes de animais, sabe? Sou veterinário.
- Que triste. E que bom.
- Pois é. Bem, vou sair para comprar algumas coisas. Você quer algo.
- Papel, caneta e…
- Cigarros?

Só conseguia pensar na cobra. Levantei-me e devagar e fui até o aquário onde ela estava. Ao perceber minha presença, olhou para o vidro dos meus olhos e congelou. Silenciosamente, dissemos juntos a mesma coisa: “estou com fome”. Ela, de mim, eu… Dele.

À noite, resolvi conversar com Bruno e dizer que não precisava mais me hospedar em sua casa. Quando entrei na cozinha, senti um cheiro forte de páprica e pimenta do reino. Ele estava terminando de desligar o fogo da panela e me olhou como se eu tivesse estragado um aniversário surpresa. - Eu ia te levar o jantar no quarto, tudo bem bonito, poxa! Comemos, estava muito bom. Trocamos poucas palavras, pois não havia muito o que dizer mesmo. Mas naquele silêncio todo, uma tensão evidente puxava a cadeira e colocava os cotovelos sobre a mesa. Terminei, prato vazio, boca avermelhada, cheirando à fartura, mas ainda com fome. Fome dele.

- Bom, volte sempre, mas sem cair das escadas!
- Tentarei. Prometo.
- Tentará voltar ou não cair da escada?
- Os dois. E você tente me segurar se acontecer novamente.
- Fique tranquilo, já provei que sou bom nisso.
- (sorriso)
- Olha só, você sorri!
- Às vezes.
- Tente isso também.
- Boa n...

Dentro, novamente. Agora não por baixo, nem sozinho, nem pálido ou indisposto. Dentro. Eu estava vivo, vermelho, pulsando, transpirando pelo hálito quente, suando minha alma pelos poros. O que antes não passava de uma cama magra e preguiçosa, agora se desfazia em dunas de lençóis nos quais os corpos corriam um ao encontro do outro, por entre as capas finas e brancas dançando um balé único. Eu já não tinha mais controle algum e matava a fome ali mesmo, enrolado no corpo de Bruno - como uma serpente vidrando meus olhos em seus movimentos e sibilando em seus ouvidos feitiços, poesias malditas, segredos...

De repente, o peito sobe e eu sinto meu coração tropeçar como se uma pedra estivesse em seu caminho.  A cada gemido que eu continha, meu rosto parecia perder sua cor. Foi então que eu não ouvi meu coração retumbar. A cada trovoada de energia que os corpos soltavam, meus arrepios desapareciam. Foi então que senti meu espírito despencar. Caía do topo do céu a estrela da manhã. A sinfonia de desejos se tornou um barulho no fundo da cabeça - cortante feito navalha. Foi então que ele não mais me sentiu. Só seu ombro.

Quando tentei mover minhas mãos na direção das de Bruno, instintivamente, perdi as poucas energias que haviam sido recuperadas nas horas a dois. O pacto entre a vida e a morte estava rompido. Havia guerra. Tormento. Tempestade. E eu estava no meio - agora com ele. Mais uma vez, caído. Samael ferido.

- Consegue me ouvir?
- Sim… O que aconteceu dessa vez?
- Você caiu, novamente.
- Da escada?
- Não necessariamente (sorri).
- Olha, eu nem sei como me desculpar por todo esse trabalho que estou dando.
- Magina, acontece. E eu gosto. Estamos fazendo companhia um pro outro.
- Eu estou bem. Consigo ir pra casa agora.
- O médico disse para você repousar pelo menos mais três dias.
- Eu estou aqui há quanto tempo?
- Dois.
- Preciso dar um jeito nisso… Viver cansa.
- Já sei o que vou fazer.
- O quê? Por favor, não quero dar mais trabalho.
- Vou te ensinar a nadar.
- Hã?

Sufocamento. Toda minha dificuldade de respirar sendo potencializada. Agonia, desgaste, frustração. Água não era para mim. Mas lá estávamos nós. Bruno me segurava enquanto me debatia feito criança. Não conseguia me acalmar, muito menos confiar no corpo submerso. Mas ele não desistia. Ele, no caso, Bruno. Quando percebeu que eu não estava prestando atenção nas dicas que estava me dando, resolveu ser pontual:

- Olha, apenas escute o que vou dizer… Escute pra valer, ok?
- Que seja.

“Pense que você não irá afundar. Agora vá soltando o corpo levemente e inclíne-o. Isso… Respire…. Mais… Tá indo bem. Mexa os braços e pernas… Imagine que está voando. Agora aproveite… E voe.”

Nunca mais caí da escada. Mas desde o último tombo, minha cabeça não abandonou seu ombro. É nele que eu me descanso da existência. É para ele que eu sussurro - sem dizer uma palavra - como foi meu dia. Nele que minha mente se acalma e o coração acha abrigo. Mesmo que ainda haja muitos cigarros no meu maço e tantos outros entre os pulmões, respirar já não é tão difícil assim. Alguém surgiu para abrir as janelas do meu peito. Agora, o ar entra vagarosamente como brisa em fim de tarde. Enfim.

Toda vez que o peso do mundo passa de seus limites, Bruno me leva pra nadar. Com braços abertos e olhos bem apertados, eu voo. Eu vou.

(...)
Parecia sintoma de alguma doença séria - e rara. No entanto, de rara não tinha nada. Mas de doença… Tinha o nome de paixão.

E a cobra, "Esperança".

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Foi quando me encontrei...

A primeira vez que me vi e me senti, existi. Caí da cama e dei com a cara na realidade, marquei o rostro com o estrado amadeirado das estradas percorridos antes sem rumo, agora guiadas pelas vias do tempo. Vi e vivi uma vida que não era a minha, mas a que foi talhada na carne. Da beliche de cima, meus sonhos, expectavas, desejos, minha voz projetada no silêncio de uma oração, o teto de madeira, a lua dentro da lâmpada e as estrelas voando ao seu redor, matando-se incansavelmente. Na de baixo, o peso, o uniforme da escola, os afazeres, as broncas, a rua sempre agitada e cheia de confusão, eu dormindo comigo mesmo. Dois em um. Eu em nenhum.

As vontades eram tantas que sempre me faziam correr em busca do meu pico. Eu subia, subia, e subia em olhar pra trás, na sensação de que estava me aproximando  do alto. Só que nunca chegava. Era como achar que seria possível se cobrir com nuvens ou se amarrar em correntes de ar. Foi aí que me desequilibrei e tombei. Lá de cima  - que não era topo - eu despenquei. Foi difícil reaprender a andar com os pés e não mais com as ideias. Ainda assim, consegui. Ícaro de mim mesmo, não morri, trouxe lembranças de momentos que nem cheguei a viver, mas quis tanto, tanto que até meus olhos se esforçaram para pintar uma bela imagem do que seria se eu fosse só eu. E era a hora de ser mesmo. Eu.

Foi quando me encontrei... Quando a hora mais doída já não feria mais. Quando o que queimava era meu corpo a desejar o dos outros - iguais em formato, diferentes em sentimentos. Sem toque, sem beijo e troca de olhares, tudo se fez no silêncio da minha boca e barulho da mente. Se por fora eu era uma montanha, calada e paciente, por dentro era vulcão, sempre a reclamar, implodir, lambuzando-me do mais puro magma. Mais uma vez, estava eu em dois - na base e no alto. No pé do vulcão e no alto do morro. Subindo pra depois cair. Elevando e me levando só pelo prazer de então escorrer por entre minhas próprias pernas. Morno.

Foi quando eu me encontrei que descobri o que era se perder. O que era existir em lugar nenhum, só em si mesmo. Ser meio termo que não mais teme nem altura nem profundidade. Que não reclama se pegar a cama de baixo ao invés da de cima. Aprender que é possível transitar e não apenas residir. Que a escada na beliche servia tanto para subir quanto para descer. Que só tomba aquilo que voa e só voa aquilo que levantou do tombo. Eu queria flutuar, não ser mais montanha nem vulcão, ou ser os dois ao mesmo tempo. Eu queria aquilo que tinha acabado de encontrar: um garoto com pele de rocha e coração de lava.

Foi quando eu me encontrei no meio da beliche que pude ficar em paz e desfrutar do sono. Foi quando eu me encontrei dentro da montanha, pulsando como vulcão, que adormeci com meu próprio calor.

Meu próprio calor...

sexta-feira, 12 de junho de 2015

No fundo - entre o céu e a terra



No fundo de um táxi estavam os dois garotos. Os dois Vinicius. Um com acento, outro sem assento, espremido entre a timidez e a curiosidade. Envolvidos pela esfera misteriosa e convidativa da noite, trocaram poucas palavras - mas das poucas, muitas viriam a ser sentidas, ainda que mal ditas, entre elas, a "distância", à distância.

Castanhos

Ele não era daqui, nem de lá, era de longe mesmo. Magro, pequeno, mas com aparência de ter a carne dura. Olhava para baixo, para os lados e às vezes para mim. Captei por alguns segundos seus olhos escuros, profundos como o universo - uma janela para o que havia debaixo do seu peito. Chamou-me a atenção pela forma silenciosa em que sussurrou qualquer coisa nos meus ouvidos e, aos poucos, ressonou dentre de mim como música boa. Eu sabia que duraria tempo insuficiente para que a vida tomasse qualquer gole de rumo e nos juntasse de vez. Eu sabia que era só detalhe, que era rápido demais, que não deveria funcionar assim. E não funcionou, de fato. Mas os melhores momentos que tivemos foram justamente os que não estivemos. Em locais diferentes, achamos um em comum: o do bem-querer. Do meu me quer, tanto quando bem te quero. Eu virei carta, avião de papel, desejo, sorriso sem som, virei letra e então silêncio. Virei tanto que dei uma volta na minha própria vida e reencontrei ele novamente. Ainda com olhos castanhos. Ainda profundo como no fundo do táxi.

Azuis

Antes mesmo de entrar no carro, havia percebido uma movimentação que fazia vibrar as camadas superficiais da pele. Parecia que Zéfiro soprava meus pelos e os deixava em estado de alerta. Captaram, então, a fonte das ondas atraentes: um garoto. Camiseta com desenho egípcio, pele diamantística, sorriso largo e um par de pedaços de céu ocupando o lugar dos olhos. Não sei se ele me viu, mas eu me vi com ele. Entretanto, sou terra, sou pé no chão e acostumado a caminhar pela realidade sem procurar no alto das ideias alguma abstração - alguma vontade atendida. Desviei meus pensamentos e desejos daquele moço rodeado de amigos. Não foi o bastante. Mesmo o atalho que levava direto à racionalidade não conseguiu me tirar da estrada labiríntica pela qual escorrem os quereres. Lá estava eu, apertado no banco do táxi, ao lado dele, antes longe e impossível, agora trocando perfumes comigo. Depois disso, um laço delicado foi atado. Frágil, mas resistente. Eu quis, dessa vez, abstrair da realidade, sim. Quis esquecer da distância, do outro dia, da volta, da passagem comprada, dos dias que seguiriam nublados, sem dois céus pra me perder nas ideias que mais pareciam roteiros de filme... Quis fingir que a música seria a mesma coisa ouvida no "mono" de mim mesmo. Mas não foi, eu que fui. Voltei, virei letra, lembrança, coração no fundo da caneca... Tentei encurtar o tempo, cultivar o desejo sob controle, mas sou terra. Fico firme, estático e pronto pra não ser nada além do chão de mim mesmo. Onde caio, quebro a cara e recolho os próprios cacos.

No fundo, ficamos. Mas eu volto, prometo que volto, pra mostrar que há muito mais entre o céu e a terra do que uma noite de (des)encontros.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Segundo perdido

Viver é percepção daquilo que se sente. Dos muitos quilos de sentimentos que pesam. Mas o que eu senti? Quanto eu peso?

(...)

A sensação? A sensação é aquela que vem logo depois de você ouvir "quero me separar de você". É o segundo perdido no espaço de tempo entre o "eu te amo" e o "eu não te amo mais". Um lapso existencial que encurta distância entre passado e presente. Entre 3 anos juntos e 1 segundo separados.

O segundo perdido, aquele que fica pra sempre no vácuo das intenções... flutuante... E daí você vira as costas e sai andando sem rumo, tentando flutuar também... Caminha pra qualquer direção, perseguido pelos novos segundos que, agora gigantes feito minutos, tornaram-te único, sozinho, separado, solto, mas não flutuante, solto, mas não leve. Pesado e arrastado.

Andando, andando, andando, com as palavras correndo na cabeça. "Não quero mais... não posso mais", "Não sinto mais, mas sinto muito", e por aí vai - você sozinho, perdido.

Enfim... Andando pra fugir do segundo perdido. Primeiro, você.

No escorrego do rosto corado

Bebo goles com sede
de engordar a desesperadas goladas
essa garganta há tempos vazia
desce quente pela traqueia
enquanto a barriga, fria, cozia

Bebo sem parar
consumo a seco o suco
sem dar paz à boca alheia
quem sente o gosto é o corpo
e a pele que, de repente, arrepia acesa

Bebo sem hesitar
vejo no fundo do copo
meus olhos marejados de saudade
Incapaz de pensar duas vezes
tomo três pra molhar as vontades

Bebo goles sem arrependimento
trançando os pensamentos gingados
Caio pelas ruas entre as pernas
ainda com choradas não lagrimadas
no escorrego do rosto corado, em si mesmo vingado

segunda-feira, 18 de maio de 2015

É preciso sujar os sapatos

Elas saíram da caixa como duas pepitas de ouro. Eram amareladas, as botas, e me lembravam mel. Seja como for, nada melhor do que ter nos pés os sapatos que escolheu. Não foi presente, não foi prêmio nem doação - foi vontade atendida. A sensação era ótima. Escolher e ser escolhido.

O primeiro dia foi estranho. Eu andei tordo, sem saber como dar as passadas, mas ainda assim sentindo o mundo a admirar meu desfilar. Botas novas que ensinavam a andar, trilhando caminhos desconhecidos, fazendo minha postura se adaptar... endireitava a coluna às custas da rendição dos joelhos. Doía, só que valia a pena. Valia o pesar. Surgiu, então, a chance de estreá-las numa festa - lugar onde somos (só) praticamente aquilo que aparentamos ser. Eu estava seguro quanto minha imagem, o que era raro. Decidi aceitar o convite. Convite esse que veio daquele que, ao te olhar, congelava o tempo e aquecia o coração. Decidi aceitar duas vezes. E as botas já se mostravam ansiosas.

Cada dia era um ano. Demorava, arrastava-se, custava a acabar, mas acabaria em festa. Tomei todo o cuidado para que o par de botinas não sofresse nenhum dano até o fatídico evento. Caminhava - agora acostumado com o gingado própria delas - prestando atenção no chão, sem baixar a cabeça, claro. Era preciso ver onde pisava, literalmente. Tropeçar estava fora de cogitação. Um dia antes, fiz questão de me vestir com a roupa que pretendia usar e pensei: eu me escolheria. A sensação era ótima. Escolher e por mim ser escolhido.

Acredito que seja importante reproduzir não só os detalhes do momento como também todos os sentimentos que nele se resvalavam. Você para na frente da porta, respirando fundo, olha para o teto como se alguém superior lhe observasse e sorrisse de leve, então mira a visão adiante e vê a pessoa que lhe acompanharia até a festa. Ela se aproxima e cresce, cresce demais, vai ficando gigante do lado de fora da sua casa, e maior ainda do ladro de dentro do seu peito. Um beijo no rosto de rachar qualquer expressão sólida, você sorri entregue. Acha que escolheu e foi escolhido. Ele não percebe suas botas, mesmo elas percebendo ele, aproximando-se de seus pés na tentativa de - já no caminho - irem formando pares. Fomos.

Quando pisei no salão, senti-me cheio. As pessoas ali, ocupando todo o espaço, preenchiam-me. A música era animada, convidativa, boa para dançar a dois. Foi então que eu fiquei preocupado com uma coisa: vão pisotear minhas botas e ele ainda nem as viu! Eu queria estar perfeito para quando fosse reparado, apresentasse a imagem que escolhi ter - e que tinha. Fiquei no meu canto, enquanto ele passava de pessoa em pessoa sorrindo e se deixando sorrir. Sentia que a hora da minha dança estava para chegar, então acalmei-me e aguardei. Em poucos segundos, já olhando para os próprios pés sem ver as botas, eu vi pequenos respingos a chovê-las... Caíam timidamente e ainda assim escureciam a superfície dos calçados. Eu estava chorando... Chorava porque já sabia o que estava para acontecer. E aconteceu.

Subi a visão e lá estava ele aos beijos, feliz, completo, com seu novo par a dançar. A imagem era bonita em sua essência, mas triste na minha. As botas estavam manchadas, eu estava machado, manchei-me com o sal do desgosto. Então, já com os sapatos sujos - batizados pela realidade dura, prontos para o mundo -, convidei-me para dançar. Escolhi-me e fui escolhido.

Girava a cabeça, soltava os braços, sincronizava os ombros com a cintura, libertava-me, divertia-me, rodava, aproximava-me dos outros corpos frenéticos, sorria, pisavam-me os pés, esmagavam-me as pernas, colavam-me, pressionavam-me e assim o salão ganhava vida. Doía, só que valia a pena.

Eu queria ele ao mesmo tempo que me mantinha longe. Eu era escolhido por outros enquanto não saía de perto de mim... Assim foi, assim aconteceu. Tristeza e alegria num samba único. Unidas, escolhidas uma pela outra.

Às vezes, é preciso sujar os sapatos.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Três doses de corpos vazios



Nova

Volta descalça pela estrada de barro, após uma noite de dança no sertão. Ela vem rodando de leve, sorrindo, descabelada, despreocupada. Suave como nunca. Vê-se aos poucos conforme o dia amanhece, rosado. Lembra-se de que não lembra mais o caminho de casa. Que anda pra não ficar parada, mas sem correr, pra não competir com as horas - aquelas também perdidas.

Cada passo adiante é um pulo para longe do passado carcereiro. Um pulo da ponte que a levava a lugar nenhum - justamente para o nada em que gostaria de estar. Um salto dos ponteiros do relógio no pulso alheio - pontualmente a lhe obrigar a levantar e ir fazer café.

Ela, então, sente seu corpo sendo seu novamente e não mais dos outros. Beija os próprios braços, aprecia o perfume de gente impregnado na pele. O corpo dela. O corpo é dela, banhado dos suores de outros senhores no cangote, do cansaço da dança no cangaço da vida seca. Devolve-se num abraço cheio de si. Finalmente, nova em si.

Cheia

Todos tinham ido embora. Quase todos. O próprio bar já não estava mais lá. Ele vagava parado, em torno de si mesmo, cheio de rastros e restos dos muitos e muitas que ali se desfizeram em embriaguez. Chão salgado, do qual nada brota senão a saudade. Mas eles ficaram. Os dois ali, juntos, colados num eterno e perdido espaço entre o "oi" e o adeus".

Ele chegou tropeçando nas próprias vontades. Queria dançar, mas não sabia. Queria olhar, mas não a via. Quando a viu, quis beijá-la, mas não a conhecia. Quando finalmente a conheceu, entre uma dança torta e outra, fechou os olhos, esqueceu de perguntar seu nome, selou seus lábios e colou no seu colo. Ali ficou, fincado no entre braços da garota mais linda que nunca viu na vida.

Ela, por usa vez, vazia permanecia. Dava-se a ele porque não sabia como não ser mulher. Foi doutrinada a servir, mesmo que para isso não servisse a si mesma. Abraçou o jovem de pele incandescente. Mas vazia permanecia. Pois já não acreditava mais na dança dos homens, muito menos em seu toque suplicante, sempre em busca da mãe perdida ou da mão da amante escondida.

Ela era, para ele, santuário e jardim forrado de rosas. Para si, contudo, era refúgio, como um bar vazio e cansado no meio do deserto. Sempre a abraçar os outros, sempre cheia de gente. Sempre cheia de tanta gente.

Minguante

Na calçada, o beiço da rua, ele senta e figura a fossa da própria existência. A cena é típica: cabeça entre as pernas, mãos sobre os joelhos, lágrimas pingando no chão seco, tragadas pela sede do solo.

Esforça-se para erguer a muleira novamente, mas o peso da mágoa não deixa. Carrega em sua nuca o nunca mais, o fim, a separação, a rachadura no melhor dos retratos - aquele que pinta o amor intenso até ontem seu. Homem que foi abandonado pelo seu homem. Lobo abandonado pelo seu próprio lobo - o homem do homem.

Deseja entender como pode o amor acabar repentinamente se, para nascer, custa tanto ao ser.  Grita pra dentro da boca, num murmurar animalesco, toda a dor da ferida recém-aberta e empurra goela abaixo cada palavra não dita. Cada frase maldita. Acaba o querer, vai-se a paixão, resta nada além dele mesmo, meio cheio, meio vazio. Minguado.

 Corpos como botes vazios, navegando à deriva sob os luares.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Nascer do dia



O seu medo de sair e ver o dia nascer era grande demais. Por isso passava a maior parte do tempo escondido na penumbra do quarto. Queria luz, mas que ela viesse do olhar dos outros. Queria arejar o ambiente, mas com a presença de quem um dia foi sua. Foi e não voltou. Só você ficou.

A angústia lhe fazia rolar sobre os lençóis. Pedia para voltar no tempo, resgatar o que a vida transformou em memória e sentir novamente o sabor da alegria a temperar teus lábios. Perdia-se pelos mesmos quereres, sem se perceber. Abandonou-se com facilidade, afinal, difícil mesmo era cuidar de si, sozinho. Um mimo colossal embalou os dias vestidos de noites e as noites vestidas de lua brilhante. Era só soluço sem solução. Ficava paralisado, mirando o céu ainda mais apagado que seu semblante. Olhava para o forro estrelado, mastigava algumas palavras tristes e praguejava contra o presente - que de presente só tinha aquele belo embrulho a esconder frustração. Você queria ganhar o que perdeu, mas presente nenhum lhe daria isso, muito menos lhe traria isso. Era você que se traía ao ansiar por algo que seu estômago embrulhado já havia devolvido para o mundo. Um amor indigesto. Uma úlcera de regalo.

Mas, de repente, você me achou no silêncio. Eu era um monte de palavras a desfilarem diante dos seus olhos, travestindo a tristeza com fantasias literárias. Transformando a realidade seca numa chuva de possibilidades. Entrei pela porta do seu canto, respeitei as trevas que lhe envolviam, abri a janela e pedi para que colocasse a cabeça para fora. O mundo, o céu e todos os seus mistérios são bem maiores do que o abismo na alma, meu caro.

Seu sorriso riu pro meu peito. Seu rosto deitou no meu coração. Seus olhos pegaram nas minhas mãos e elas olharam para seus cachos. Desenharam dunas de areia escura com a ponta dos dedos enquanto eu - texto, escrita, letras, frases, começo, meio e fim - sussurrava repetidamente "Agora só falta você" dentro da sua boca. Ambos ouvimos o sangue correndo pelos músculos, irrigando nervos e os pulmões batiam aceleradamente. Corpos babilônicos trocando as funções e se desencontrando no labirinto de novos desejos. Mas corpos iguais. Entropicamente iguais.

Finalmente você aprendeu a querer mais do que queria. A querer o que não conhecia. Na manha - e manso -, despertou-me com um beijo quente, espreguiçando-nos. O sol nos paria sob o ouro matinal e a escuridão, escondida, fugia para dentro das nossas bocarras e seus bocejos recém-nascidos.

Você venceu o medo de ver o dia nascer. Pegou-me pelas manhãs e me levou pra ver o mundo.

Foi e não voltamos.