terça-feira, 28 de abril de 2015
Nascer do dia
O seu medo de sair e ver o dia nascer era grande demais. Por isso passava a maior parte do tempo escondido na penumbra do quarto. Queria luz, mas que ela viesse do olhar dos outros. Queria arejar o ambiente, mas com a presença de quem um dia foi sua. Foi e não voltou. Só você ficou.
A angústia lhe fazia rolar sobre os lençóis. Pedia para voltar no tempo, resgatar o que a vida transformou em memória e sentir novamente o sabor da alegria a temperar teus lábios. Perdia-se pelos mesmos quereres, sem se perceber. Abandonou-se com facilidade, afinal, difícil mesmo era cuidar de si, sozinho. Um mimo colossal embalou os dias vestidos de noites e as noites vestidas de lua brilhante. Era só soluço sem solução. Ficava paralisado, mirando o céu ainda mais apagado que seu semblante. Olhava para o forro estrelado, mastigava algumas palavras tristes e praguejava contra o presente - que de presente só tinha aquele belo embrulho a esconder frustração. Você queria ganhar o que perdeu, mas presente nenhum lhe daria isso, muito menos lhe traria isso. Era você que se traía ao ansiar por algo que seu estômago embrulhado já havia devolvido para o mundo. Um amor indigesto. Uma úlcera de regalo.
Mas, de repente, você me achou no silêncio. Eu era um monte de palavras a desfilarem diante dos seus olhos, travestindo a tristeza com fantasias literárias. Transformando a realidade seca numa chuva de possibilidades. Entrei pela porta do seu canto, respeitei as trevas que lhe envolviam, abri a janela e pedi para que colocasse a cabeça para fora. O mundo, o céu e todos os seus mistérios são bem maiores do que o abismo na alma, meu caro.
Seu sorriso riu pro meu peito. Seu rosto deitou no meu coração. Seus olhos pegaram nas minhas mãos e elas olharam para seus cachos. Desenharam dunas de areia escura com a ponta dos dedos enquanto eu - texto, escrita, letras, frases, começo, meio e fim - sussurrava repetidamente "Agora só falta você" dentro da sua boca. Ambos ouvimos o sangue correndo pelos músculos, irrigando nervos e os pulmões batiam aceleradamente. Corpos babilônicos trocando as funções e se desencontrando no labirinto de novos desejos. Mas corpos iguais. Entropicamente iguais.
Finalmente você aprendeu a querer mais do que queria. A querer o que não conhecia. Na manha - e manso -, despertou-me com um beijo quente, espreguiçando-nos. O sol nos paria sob o ouro matinal e a escuridão, escondida, fugia para dentro das nossas bocarras e seus bocejos recém-nascidos.
Você venceu o medo de ver o dia nascer. Pegou-me pelas manhãs e me levou pra ver o mundo.
Foi e não voltamos.
domingo, 5 de abril de 2015
Retorno à distância
Escrevi algo breve que desse apenas uma dica sobre o que estava sentindo. Mesmo com todos os aparatos tecnológicos de hoje, hoje eu quis ser mais substancial, orgânico, quis colocar o peso da minha mão na caneta e fazê-la dançar pelas linhas. Tudo isso para dizer que te escrevi um bilhete.
A luz era baixa, convite perfeito para os mais diversos tipos de cegueira. Eu tive a sentimental. Enquanto dançava com a música - e não com as pessoas - via pouca coisa. Apenas vultos, meus pés se entendo e as cores do ácido decorando o lugar. Em meio a tantas sombras, um sorriso. Não era pra mim e por isso tive vontade de tê-lo. Os olhos puxados me rasgavam para perto de você. Metade de mim ia, a outra dançava. Comecei a enxergar.
Magnetismo e gravidade. Inércia, insistência e distanciamento estratégico. Corpo a postos, desejo na ponta da língua, sem sair - apenas estando. Pele pedindo toque; toque clamando por aperto, aperto procurando carne; carne exalando suor; suor perfumando as vontades; vontades enrijecendo os músculos; músculos dando peso aos corpos; corpos a postos, apostando - quem vai beijar primeiro? Perdi pra mim mesmo. Ganhei seus lábios. Paguei pela língua.
Quando a música acaba, também acabam os motivos para ser mais do que um. Não há necessidade de se dividir novamente, de compartilhar os quereres ou se doar sem dor. O silêncio coloca todo mundo nos eixos. Ele vem para educar e tirar do rosto o sorriso de final de festa. Mas nós voltamos conversando, rindo, imaginando, sem querer, querendo-se novamente... e novamente... e novamente, até que chega a hora do adeus. E que "adeus" mais "a mim". Só eu ali, pra você, pra ser seu, e fui - sem saber que não voltaria mais.
O dia seguinte não existiu. Nem o outro. Tive que escrever um bilhete pra você. Sei que nunca será entregue. Que você nunca irá lê-lo, mas foi preciso. Nele, uma simples palavra do tamanho das maiores distâncias já percorridas por alguém:
"Volte".
A luz era baixa, convite perfeito para os mais diversos tipos de cegueira. Eu tive a sentimental. Enquanto dançava com a música - e não com as pessoas - via pouca coisa. Apenas vultos, meus pés se entendo e as cores do ácido decorando o lugar. Em meio a tantas sombras, um sorriso. Não era pra mim e por isso tive vontade de tê-lo. Os olhos puxados me rasgavam para perto de você. Metade de mim ia, a outra dançava. Comecei a enxergar.
Magnetismo e gravidade. Inércia, insistência e distanciamento estratégico. Corpo a postos, desejo na ponta da língua, sem sair - apenas estando. Pele pedindo toque; toque clamando por aperto, aperto procurando carne; carne exalando suor; suor perfumando as vontades; vontades enrijecendo os músculos; músculos dando peso aos corpos; corpos a postos, apostando - quem vai beijar primeiro? Perdi pra mim mesmo. Ganhei seus lábios. Paguei pela língua.
Quando a música acaba, também acabam os motivos para ser mais do que um. Não há necessidade de se dividir novamente, de compartilhar os quereres ou se doar sem dor. O silêncio coloca todo mundo nos eixos. Ele vem para educar e tirar do rosto o sorriso de final de festa. Mas nós voltamos conversando, rindo, imaginando, sem querer, querendo-se novamente... e novamente... e novamente, até que chega a hora do adeus. E que "adeus" mais "a mim". Só eu ali, pra você, pra ser seu, e fui - sem saber que não voltaria mais.
O dia seguinte não existiu. Nem o outro. Tive que escrever um bilhete pra você. Sei que nunca será entregue. Que você nunca irá lê-lo, mas foi preciso. Nele, uma simples palavra do tamanho das maiores distâncias já percorridas por alguém:
"Volte".
Vela
Quando o filho chega em casa, a mãe apaga a vela.
Toda saída é um mistério quando se vive em terras incertas. Ruas arbitrárias que desenham um mapa torto e tortuoso nas regiões periféricas da cidade. Fios que de concreto só têm o asfalto. O laranja-mercúrio banha as carcaças cansadas e feridas que, em meio à meia noite, caminham de volta para os lares, refúgios, quartinhos de empregada ou qualquer canto que as valha - e as valide.
Sobre a cômoda, a vela acesa, firme e fiel à fé que segura o coração de mãe sempre preocupado. Ao sair, ela despeja sobre sua cria bênçãos ancestrais, como se a cobrisse com seu véu matriarcal, protegendo-a de todos os males e todos os outros por aí vagando.
Os ponteiros do sofrimento começam a correr, a garganta fica seca feito a de uma ampulheta, e cada grão de areia se faz sentir goela abaixo. A mãe reza, acende sua vela e deseja mais um dia de vida. Fora de casa, o mundo se faz mundano e não há mais útero para envolver aquilo que é frágil. Fora de casa, nascemos e o que vem primeiro é o choro - o nosso. O da mãe, ela segura. Guarda junto com a preocupação ao lado da vela, acesa, desfazendo-se em lamento. Gotas e mais gotas de si mesmas, vela e mãe se confundem. Uma chama pela vida do filho, outra chama pela própria morte. Unidas, mantêm-se aquecidas na mesa da cozinha e no pires de porcelana. Encaram-se, trocam brilhos no olhar e lágrimas de sal e cera. Permanecem na vigília.
As tarefas cotidianas são cumpridas. Longas, mas terminadas antes mesmo da memória resgatar o sentimento de aflição. Tudo em seu devido lugar, menos o sossego que demora a deitar no peito. Menos a escuridão que não vem cobrir a luz bucólica oscilando a cada corrente de ar - a cada suspiro da mulher protetora que ora, ora firme, ora, ora soluçando. Será que ele vem hoje? Será que ele vem bem, o meu bem?
Dói ser mãe. Dói ser filho. Dói ser filha. Dói ser. Causa medo, incerteza, tremedeira e febre interna. Entretanto, é o que faz a vida pulsar. É o que a desafia, deixando-a à beira da sorte. Apegada à rotina, torce para que ele chegue sempre no mesmo horário e com ele a tranquilidade. Tudo pronto para recebê-lo, menos o sorriso no rosto. Esse não sai, recusa-se a aparecer para cumprimentar os demais ao redor. A vela, pela metade, começa a desistir. Mas não diz nada. Para que mais sofrimento?
O portão range. Os passos acelerados aumentam de volume e profundidade. Não estão se arrastando, estão marchando em ritmo de manada rumo ao abrigo. A chave gira dentro da fechadura e então morrem os ponteiros da angústia. Para de correr o tempo metálico que não admitia pausas para a velha mãe respirar e conferir se ainda lhe restava alguma força. Eles se olham, ela chora aliviada por trás do abraço titânico. Ele não entendo o porquê de tanta preocupação, afinal já é crescido e sabe se defender. Contudo, compreende que, tratando-se do lugar onde nasceu, das cenas violentas que presenciou e por muitas vezes passou, não há como se defender do desconhecido - e cada dia se faz como uma bala no bulbo da pistola. Cada passo é um tiro às cegas contra a cabeça de alguém na sacada, na calçada ou na sala de casa. Compreende e se entrega aos braços da matriarca. Sente que conforto maior que esse não há. Sob a luz fraca do fogo exausto, ele aquece as mãos, abre as panelas e larga os ombros nas costas da cadeira. Ela some por alguns segundos.
Silenciosa e discreta, celebra consigo mesma a chegada do seu eterno bebê. Canta os parabéns - nessa data tão querida - por mais um dia de vida. Olha para a pobre dama vestida de branco, caída e exausta e então sente que o desejo que fez ao acendê-la se realizou como o prometido. Mais um dia de (re)nascimento. Aniversário diário. Comemoração incessante. Todos os dias, ela, ritualística, pari sua criança e regojiza ao vê-la retornar para o seu aconchego. Agora sim, agora ela pode fazer o que veio fazer ao entrar em seu quarto.
Quando o filho chega em casa, a mãe apaga a vela.
terça-feira, 31 de março de 2015
Qualquer canto
Um canto. Aquele que nunca ninguém olhou. Perdido na poeria que cobre meus dias. Um canto qualquer, mas que possa ser meu. Introspectividade. Se eu rezasse, pediria por isso. Pelo vácuo, útero invisível da mãe cósmica. Um lenda, um mito, um canto qualquer.
Passos para trás, corrida invertida, "desavanço", desavença sentimental e todas as estruturas dentro de mim ruindo. Uma dança lenta rumo ao chão. Mais poeira. Lembranças, alegrias guardadas em porta-retratos, tudo o que um dia me vez ser quem sou, hoje destroça-se livremente. Bela visão. Nasce então o horizonte angustiante que nada me traz, só afasta. No máximo, instiga o desejo de ser tragado ainda em vida.
Os males que matam o corpo, alimentam a alma. A fome some, mas continua a me devorar as carnes. A vontade de se limpar, de lavar a pele e o rosto, some. Mas continua a sujeira em mim. Nenhuma luz batizando os olhos, mas a cegueira afetiva continua em mim. Qualquer canto que preencha meus ouvidos e me desprenda da realidade, por favor. Do concreto, do pavor, por favor. Qualquer canto como leito - e eu me deito, sim. Protejo-me, prometo-me.
Sob o ascendente da destruição, sinto a gravidade anulativa me puxando. Seus braços pesados brincam com as batidas debaixo do peito. Pesa toneladas - ao passo em que alivia a mente. Corpo e pensamento dissonantes, repudiando-se numa guerra eterna cujo vencedor levará nada como prêmio. Tempos em que minha existência se fragmenta e espalha-se diante de mim. Dos pedaços, meu todo disfarçado de pouco. Dos pedaços, um canto qualquer ganha status de abrigo.
Por favor, deixe-me morrer. "Gosto pela destruição", "você gosta disso, de desabar", "esse drama todo, é isso que você quer". É sim. O Enforcado. A tristeza transforma um canto qualquer em cama desarrumada. Sempre a espera de quem não devia ter se levantado. Sempre pronta pra receber os corpos que se arrastam - e se gastam.
Na esquina, com cigarros e brisa gelada. No céu, com a noite pessimista e as estrelas penduradas em suas orelhas. Nos sapatos que não me servem mais, com o desejo de ficar que consome os joelhos. Num canto qualquer, com o perfume a me confundir. Achando-me patético por insistir em gostar de quem não se encantou. Mas achando-me, o que é importante.
Achando-me num canto qualquer.
Passos para trás, corrida invertida, "desavanço", desavença sentimental e todas as estruturas dentro de mim ruindo. Uma dança lenta rumo ao chão. Mais poeira. Lembranças, alegrias guardadas em porta-retratos, tudo o que um dia me vez ser quem sou, hoje destroça-se livremente. Bela visão. Nasce então o horizonte angustiante que nada me traz, só afasta. No máximo, instiga o desejo de ser tragado ainda em vida.
Os males que matam o corpo, alimentam a alma. A fome some, mas continua a me devorar as carnes. A vontade de se limpar, de lavar a pele e o rosto, some. Mas continua a sujeira em mim. Nenhuma luz batizando os olhos, mas a cegueira afetiva continua em mim. Qualquer canto que preencha meus ouvidos e me desprenda da realidade, por favor. Do concreto, do pavor, por favor. Qualquer canto como leito - e eu me deito, sim. Protejo-me, prometo-me.
Sob o ascendente da destruição, sinto a gravidade anulativa me puxando. Seus braços pesados brincam com as batidas debaixo do peito. Pesa toneladas - ao passo em que alivia a mente. Corpo e pensamento dissonantes, repudiando-se numa guerra eterna cujo vencedor levará nada como prêmio. Tempos em que minha existência se fragmenta e espalha-se diante de mim. Dos pedaços, meu todo disfarçado de pouco. Dos pedaços, um canto qualquer ganha status de abrigo.
Por favor, deixe-me morrer. "Gosto pela destruição", "você gosta disso, de desabar", "esse drama todo, é isso que você quer". É sim. O Enforcado. A tristeza transforma um canto qualquer em cama desarrumada. Sempre a espera de quem não devia ter se levantado. Sempre pronta pra receber os corpos que se arrastam - e se gastam.
Na esquina, com cigarros e brisa gelada. No céu, com a noite pessimista e as estrelas penduradas em suas orelhas. Nos sapatos que não me servem mais, com o desejo de ficar que consome os joelhos. Num canto qualquer, com o perfume a me confundir. Achando-me patético por insistir em gostar de quem não se encantou. Mas achando-me, o que é importante.
Achando-me num canto qualquer.
quinta-feira, 26 de março de 2015
Bem-vinda
Toda desgraça é bem-vinda. Recebida de portas e pernas abertas na dor de cada promessa de prazer duradouro. Ouro de tolo, falsa, desgarrada, mas plena, sorridente, neurótica. Toda desgraça é convidada para as festas, pois dela emana o perfume do caos, da desordem e de sua boca escorre o suco da maçã proibida. Toda desgraça dá graça ao monótono. Ela dança com os sentidos, murcha as flores e espreme suas pétalas nos copos alheios. Enfeitiça, sim. E muito.
Toda desgraça é bem-vinda. Só.
Toda desgraça é bem-vinda. Só.
quinta-feira, 5 de março de 2015
Águas em mim
Do alto, encho os pulmões com a última rajada de ar. Estufo a caixa torácica e pressiono a borda da esteira com a ponta dos dedos. Entro numa vibração única, localiza entre o passado e o futuro. Finco-me no presente e conto os segundos para me desprender. Aos poucos, os pelos do corpo despertam e fazem na nuca um carinho suave. Se a pele esfria, o sangue ferve. Molho os lábios com o que resta de saliva e concentro-me em fechar os olhos sem perder a bela imagem das águas estampando as vistas. Escureceu em mim. Pulei.
A queda me levou ao pico das sensações. Eu, filho dos rios, mares e cachoeiras, escorpiano, nascido da água e batizado na água, voltei ao útero que por tanto tempo me regou. Eu, semente, broto, hoje flor de lótus, banho-me nos braços longos da deusa marinha... O bom filho à água retorna.
No âmago daquele universo aquático encontrei abrigo. Tudo o que vivi foi se tornando silêncio e somente a sinfonia dos corais coloriam meus sentimentos. Da concha cravada no meu centro, amanheceu o coração perolado e então soube, naquele instante, que a joia mais rara sempre esteve em mim, só precisava ser colocada no lugar certo.
Só precisava ser colocada no fundo da alma.
Só precisava ser colocada no fundo da alma.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
Fiz-te
No barro da realidade enterrei minhas mãos. Tirei uma lasca do todo e comecei a modelar você. Meus dias se arrastavam vazios, esparramados por um longo campo deitado diante do horizonte labiríntico onde o olhar se perdia a cada piscada. Eu precisava de mais - que não fosse mais de mim mesmo. Por alguns minutos enchi os pulmões de ar, soprei o monte de ideais que se acumulavam na cabeça e embaralhei meus desejos. Pouco a pouco, fui organizando o que viria a ser meu. No caso, você. Fiz-te.
O menino de terra
Tomei cuidado para não deixar que seus braços fossem longos demais. Seu abraço deveria ser curto, firme, envolvente e seguro. Em seguida, trancei as pernas para que no cainhar houvesse ginga, agilidade e graça. Cada passo, um desvio pra mais perto de mim. Ombros largos, pista para meus entrelaços, peito vazio, pro meu querer residir e a pele lisa, banhada pela cor do sol e do solo fértil. Ainda evitava trabalhar seu rosto.
As mãos eram pequenas feito castiçais, próprias para sustentar, à luz de velas, o clarear do meu sorriso ao te ver surgir diariamente. Penumbra nenhuma seria capaz de nos apagar. Assim ficou seu toque: um alicerce indispensável, um "dar de mãos" morno e delicado que em dias de ventania me soltava um beijo no ar. A inspiração estava em seu ápice e me fazia perder horas ganhando anos de dedicação à sua concepção. Seria o parto a me dividir, tão esperado e tão doloroso. Cheio de prazer e medo, de "não saber".
Seu rosto era redondo, com pequenos olhos rasgados. Uma boca sutil, desenhada à ponta fina e que revelava o céu estrelado da boca a cada risada larga. O nariz se curvava em queda livre, despreocupado com a simetria alheia e comprometido apenas com a composição daquele que viria a ser meu novo horizonte - minha nova razão de se perder. As orelhas eram arredondadas como feijões e serviriam de entrada para meu sussurrar chegar até seus pensamentos mais altos.
Nos cabelos, uma tempestade. Redemoinhos, furacões, caracóis, emaranhado de cachos, maré cheia de volume, conchas perdidas entre o mangue de fios... Leveza, maciez, delicadeza, sem começo nem fim. De repente, caos, anarquia, nuvens carregadas... O topo de suas ideias era assim, um olimpo decadente, cada vez mais humano. O chuvaréu que precede bonança s(em) mim.
Pronto. Feito. Fiz-te. E quando abriu os olhos, não me reconheceu nem ao menos esboçou reação. Apenas encarou-me. E mesmo com todo meu esforço em demonstrar o quanto de amor já depositava em sua existência, nada o motivava a me retribuir tal sentimento.
Fiz-te por fora, ao meu modo. Mas por dentro você sempre será mistério. Coração não se modela.
O menino de terra
Tomei cuidado para não deixar que seus braços fossem longos demais. Seu abraço deveria ser curto, firme, envolvente e seguro. Em seguida, trancei as pernas para que no cainhar houvesse ginga, agilidade e graça. Cada passo, um desvio pra mais perto de mim. Ombros largos, pista para meus entrelaços, peito vazio, pro meu querer residir e a pele lisa, banhada pela cor do sol e do solo fértil. Ainda evitava trabalhar seu rosto.
As mãos eram pequenas feito castiçais, próprias para sustentar, à luz de velas, o clarear do meu sorriso ao te ver surgir diariamente. Penumbra nenhuma seria capaz de nos apagar. Assim ficou seu toque: um alicerce indispensável, um "dar de mãos" morno e delicado que em dias de ventania me soltava um beijo no ar. A inspiração estava em seu ápice e me fazia perder horas ganhando anos de dedicação à sua concepção. Seria o parto a me dividir, tão esperado e tão doloroso. Cheio de prazer e medo, de "não saber".
Seu rosto era redondo, com pequenos olhos rasgados. Uma boca sutil, desenhada à ponta fina e que revelava o céu estrelado da boca a cada risada larga. O nariz se curvava em queda livre, despreocupado com a simetria alheia e comprometido apenas com a composição daquele que viria a ser meu novo horizonte - minha nova razão de se perder. As orelhas eram arredondadas como feijões e serviriam de entrada para meu sussurrar chegar até seus pensamentos mais altos.
Nos cabelos, uma tempestade. Redemoinhos, furacões, caracóis, emaranhado de cachos, maré cheia de volume, conchas perdidas entre o mangue de fios... Leveza, maciez, delicadeza, sem começo nem fim. De repente, caos, anarquia, nuvens carregadas... O topo de suas ideias era assim, um olimpo decadente, cada vez mais humano. O chuvaréu que precede bonança s(em) mim.
Pronto. Feito. Fiz-te. E quando abriu os olhos, não me reconheceu nem ao menos esboçou reação. Apenas encarou-me. E mesmo com todo meu esforço em demonstrar o quanto de amor já depositava em sua existência, nada o motivava a me retribuir tal sentimento.
Fiz-te por fora, ao meu modo. Mas por dentro você sempre será mistério. Coração não se modela.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
Toque de areia
Das mãos secas, o toque de areia corria pela pele feito rio de um passado esquecido, deixando nas dunas curvilíneas do corpo deitado um rastro de ontem interminável. Afundavam-se os dedos confortáveis naquele desejo movediço e lento, morno e suave que me fazia erosão nos lábios. Deixava o sol queimar a cama amarelada, invejar nossos dias mais longos e ser rei somente quando, cansados, cochilávamos sob seus coléricos raios ultra violentos.
Quantas vezes você me deixou escorrer pela garganta da sua ampulheta? Quantas vezes eu fui muito no começo e quase nada no final? Quantas vezes repetimos o tempo em grãos, contanto cada primeiro dos nossos segundos beijos? Recontando as sensações numa tentativa humana - demasiada humana - de viver o que foi bom como se fosse, de fato, pra sempre? Sempre assim. Todas as vezes. Muitas, inclusive.
Esfarelados no sofá da sala alheia, correndo pra não pegar chuva demais ou se cobrindo de maré cheia, amávamos-nos assim, por todos os cantos onde poeira fosse aceita. Deixávamos para o mundo um (pó)uco de ambos. E quando os dias difíceis vinham fiscalizar nossa bonança, você me sacudia da sua pele, tentando se libertar daquele rastro gasto de vontade incessantemente latente. Mas numa próxima brisa, lá estava eu novamente, dissolvendo-me em você. Cobrindo meu homem de outro homem.
Toque-me, sinta minha tempestade de areia dançar com seu corpo, feche os olhos, evite-me aos poucos, mas envolva-se como nunca antes. (A)Funda-se a mim.
Pois da areia viemos, e na areia nos amaremos enquanto houver deserto à flor da pele.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
Alcateia
A fome nunca passa. Desde pequenos, a fome sempre esteve com eles.
Chegam os três silenciosamente no local repleto de presas. Os olhos estão opacos, o que lhes permite transitar pelos corpos despercebidamente. Eles reconhecem cada um presente pelo cheiro, pelos movimentos distraídos e aquela fragilidade característica de quem nasceu pra ser devorado. Andam em círculos, separados, mas conectados pela fome. Sempre fome. Três lobos famintos, prontos para caçar, cada um ao seu modo, mas todos com o mesmo objetivo. Comer.
O primeiro desliza entre as vítimas com seu pelo vistoso e rosto manso. Pede carinho, pede mão no pescoço, envolve o corpo ao do alvo e dança livremente. Seus olhos vão se acendendo como chama de vela e causam hipnose imediata. Ele ri sem mostrar as presas - sem assustar a presa. Ela, por sua vez, sente um perfume diferente e treme, deixa ser conduzida, acredita na segurança que aquela criatura bela transmite por meio da respiração calma e paciente. Quem tem pressa come cru. E a fome sabe esperar a hora certa de cobrar seu dízimo. Ele prepara o ataque como se executasse tal prática há séculos. O chamado ancestral não falha e quando o corpo franzino menos percebe, está dentro da bocarra escancarada do lobo. Sangrando de desejo e morrendo de vida. Ele não se farta, busca mais, sempre dançando, sempre usando seu gingado como armadilha. Sempre conseguindo mais do que pode devorar.
O segundo se mantém nas sombras. Observa a movimentação, fixa o olhar penetrante e rosna de leve como se advertisse a todos sobre sua raiva animalesca. Ele deixa claro que está ali pra atacar e sabe que a melhor caça é aquela que se permite ser pega. Como se estivesse farto e bem alimentado, caminha soturnamente entre os pés alheios, sem encostar neles. Quer ser vulto, sombra, mistério e rondar a comida até que ela não aguente de curiosidade e salte em sua direção. Seu ossos são evidentes, um lobo velho e enrijecido pelo tempo. Os olhos refletem uma luz prateada e fúnebre. Olhos de quem promete descanso eterno. De repente, altera-se o ar e o som. Alguém se aproxima dele, rouba de suas costelas arrepios e então puxa suas patas para o próprio quadril. Ele não mira sua visão diretamente para o rosto da vítima. Espera ela suplicar. Quando torna-se insuportável resistir ao "eu-oculto" daquela besta, a presa se oferece. Ele come silenciosamente, sem dividir com os outros dois, só com a fome. E então some.
O último lobo define seu alvo desde o primeiro contato com a multidão. Inseguro quanto a força de sua mandíbula, absorve dos outros dois o "modo de caçar" e se torna completo. Seu pelo espesso e visível impressiona a todos. Seus movimentos leves e repetitivos servem de convite - anunciam a vontade de ser tocado. Nem manso, nem raivoso. Ele é centrado. Aproxima-se da caça, imita seus passos, compreende sua intenção, toca e deixa ser tocado, cai no encanto e esquece da fome. Este é seu diferencial. Dos três, é o único que consegue esquecer da fome e querer da vítima apenas o apego. Quer pertencer, ser de estimação, ser levado pra longe, pra uma casa distante e então permitir-se ser domesticado. Quer abandonar a alcateia para então conviver com aquela criatura fraca e de sorriso duvidoso. Sua barriga estremece, ele uiva de desespero e então morde. Uma única mordida. Sente o sangue escorrendo. O seu. Foi mordido também, Mordido pela própria presa; pelo próprio alimento; por uma criatura diferente de si, mas tão cheia de fome quanto. Percebe então que seu tempo ali acabou. Uiva, avisando para os demais que está partindo.
Vai e leva consigo a fome que não (o) matou.
Chegam os três silenciosamente no local repleto de presas. Os olhos estão opacos, o que lhes permite transitar pelos corpos despercebidamente. Eles reconhecem cada um presente pelo cheiro, pelos movimentos distraídos e aquela fragilidade característica de quem nasceu pra ser devorado. Andam em círculos, separados, mas conectados pela fome. Sempre fome. Três lobos famintos, prontos para caçar, cada um ao seu modo, mas todos com o mesmo objetivo. Comer.
O primeiro desliza entre as vítimas com seu pelo vistoso e rosto manso. Pede carinho, pede mão no pescoço, envolve o corpo ao do alvo e dança livremente. Seus olhos vão se acendendo como chama de vela e causam hipnose imediata. Ele ri sem mostrar as presas - sem assustar a presa. Ela, por sua vez, sente um perfume diferente e treme, deixa ser conduzida, acredita na segurança que aquela criatura bela transmite por meio da respiração calma e paciente. Quem tem pressa come cru. E a fome sabe esperar a hora certa de cobrar seu dízimo. Ele prepara o ataque como se executasse tal prática há séculos. O chamado ancestral não falha e quando o corpo franzino menos percebe, está dentro da bocarra escancarada do lobo. Sangrando de desejo e morrendo de vida. Ele não se farta, busca mais, sempre dançando, sempre usando seu gingado como armadilha. Sempre conseguindo mais do que pode devorar.
O segundo se mantém nas sombras. Observa a movimentação, fixa o olhar penetrante e rosna de leve como se advertisse a todos sobre sua raiva animalesca. Ele deixa claro que está ali pra atacar e sabe que a melhor caça é aquela que se permite ser pega. Como se estivesse farto e bem alimentado, caminha soturnamente entre os pés alheios, sem encostar neles. Quer ser vulto, sombra, mistério e rondar a comida até que ela não aguente de curiosidade e salte em sua direção. Seu ossos são evidentes, um lobo velho e enrijecido pelo tempo. Os olhos refletem uma luz prateada e fúnebre. Olhos de quem promete descanso eterno. De repente, altera-se o ar e o som. Alguém se aproxima dele, rouba de suas costelas arrepios e então puxa suas patas para o próprio quadril. Ele não mira sua visão diretamente para o rosto da vítima. Espera ela suplicar. Quando torna-se insuportável resistir ao "eu-oculto" daquela besta, a presa se oferece. Ele come silenciosamente, sem dividir com os outros dois, só com a fome. E então some.
O último lobo define seu alvo desde o primeiro contato com a multidão. Inseguro quanto a força de sua mandíbula, absorve dos outros dois o "modo de caçar" e se torna completo. Seu pelo espesso e visível impressiona a todos. Seus movimentos leves e repetitivos servem de convite - anunciam a vontade de ser tocado. Nem manso, nem raivoso. Ele é centrado. Aproxima-se da caça, imita seus passos, compreende sua intenção, toca e deixa ser tocado, cai no encanto e esquece da fome. Este é seu diferencial. Dos três, é o único que consegue esquecer da fome e querer da vítima apenas o apego. Quer pertencer, ser de estimação, ser levado pra longe, pra uma casa distante e então permitir-se ser domesticado. Quer abandonar a alcateia para então conviver com aquela criatura fraca e de sorriso duvidoso. Sua barriga estremece, ele uiva de desespero e então morde. Uma única mordida. Sente o sangue escorrendo. O seu. Foi mordido também, Mordido pela própria presa; pelo próprio alimento; por uma criatura diferente de si, mas tão cheia de fome quanto. Percebe então que seu tempo ali acabou. Uiva, avisando para os demais que está partindo.
Vai e leva consigo a fome que não (o) matou.
sábado, 6 de dezembro de 2014
Movo
Não sei dizer se é sentimento ou simplesmente desejo. Não sei e não me importo. Eu te olho bem de perto, invado a nuca dos teus olhos atrás do que há nos fundos das ideias. Vejo a mim, sentado no pico de uma montanha, conformado com o fato de não saber mais como descer. Lá fico, e você continua contando histórias sobre mim para seus amigos. Todos no chão, eu lá em cima.
Dentro de você eu fico onde bem não me entendo. Se sou careta ou simplesmente anêmico de vivências, não sei - continuo não me importando. Estou dentro. Daqui não saio, porque daqui você não me tira. Às vezes vem me visitar, com voz macia e desprezo. Na inércia da sua insegurança, vou e volto sem me mexer. Dentro, não preciso me mover. Lá me finco, na zona de conforto alheia.
Toda noite você vem pra apagar a lua e me dizer boa noite. Toda manhã você reaparece pra ver o nascer do só. Boceja comigo, respira minha preguiça e abre as janelas das pernas para que eu tome café. A refeição mais importante do dia. Depois sai, vai cuidar de si e me esquece em cima da mesa, junto das chaves. Tranca-se do lado de fora e depois grita meu nome pra que te deixe entrar mais uma vez. Não me movo. Não preciso me mover.
E assim passamos o tempo. Eu aí, você também. Não saio, sou prisioneiro voluntário. Gosto de pertencer, por isso te deixo não me deixar. Faço questão de ir te encontrar enquanto sonho, já que o corpo desperto não me quer por perto.
Ainda me procuro nas tuas conversas, mas só me encontro no teu olhar. É através dele que eu vejo o mundo sem graça, sem espaço, sem picos, só abismos.
Não me movo. Não morro. Moro no morro. Morro de novo. E você sempre vem me buscar na hora certa, quando o relógio corre pra trás e resgata um passado presente. Retrocede os ponteiros com as pontas dos dedos úmidas e pinta meus lábios com a cor do silêncio. Faltam-me palavras então eu sorrio. Porque assim digo que está bom e que não precisa mudar. Permaneço mudo.
E quando movo, movo apenas um dedo - aquele que desenha teu rosto. Enquanto você não vem, eu também não vou. Espero pacientemente pela ligação que mais uma vez nos une. Esqueço que não estou em mim, você me diz pra à vontade que a casa no seu peito também é minha, que essa cordilheira escondida por debaixo da pele é como se fosse minha. Fico nu nos seus pensamentos, abro a geladeira e vasculho as prateleiras atrás dos medos que você conserva há anos. Escolho qualquer um, lambuzo-me dele e finjo que está tudo bem. Você nem percebe que eu mexi em algo. Diz que não sente falta de nada, só de mim.
Não me comovo. Não preciso me comover.
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