sábado, 6 de dezembro de 2014
Movo
Não sei dizer se é sentimento ou simplesmente desejo. Não sei e não me importo. Eu te olho bem de perto, invado a nuca dos teus olhos atrás do que há nos fundos das ideias. Vejo a mim, sentado no pico de uma montanha, conformado com o fato de não saber mais como descer. Lá fico, e você continua contando histórias sobre mim para seus amigos. Todos no chão, eu lá em cima.
Dentro de você eu fico onde bem não me entendo. Se sou careta ou simplesmente anêmico de vivências, não sei - continuo não me importando. Estou dentro. Daqui não saio, porque daqui você não me tira. Às vezes vem me visitar, com voz macia e desprezo. Na inércia da sua insegurança, vou e volto sem me mexer. Dentro, não preciso me mover. Lá me finco, na zona de conforto alheia.
Toda noite você vem pra apagar a lua e me dizer boa noite. Toda manhã você reaparece pra ver o nascer do só. Boceja comigo, respira minha preguiça e abre as janelas das pernas para que eu tome café. A refeição mais importante do dia. Depois sai, vai cuidar de si e me esquece em cima da mesa, junto das chaves. Tranca-se do lado de fora e depois grita meu nome pra que te deixe entrar mais uma vez. Não me movo. Não preciso me mover.
E assim passamos o tempo. Eu aí, você também. Não saio, sou prisioneiro voluntário. Gosto de pertencer, por isso te deixo não me deixar. Faço questão de ir te encontrar enquanto sonho, já que o corpo desperto não me quer por perto.
Ainda me procuro nas tuas conversas, mas só me encontro no teu olhar. É através dele que eu vejo o mundo sem graça, sem espaço, sem picos, só abismos.
Não me movo. Não morro. Moro no morro. Morro de novo. E você sempre vem me buscar na hora certa, quando o relógio corre pra trás e resgata um passado presente. Retrocede os ponteiros com as pontas dos dedos úmidas e pinta meus lábios com a cor do silêncio. Faltam-me palavras então eu sorrio. Porque assim digo que está bom e que não precisa mudar. Permaneço mudo.
E quando movo, movo apenas um dedo - aquele que desenha teu rosto. Enquanto você não vem, eu também não vou. Espero pacientemente pela ligação que mais uma vez nos une. Esqueço que não estou em mim, você me diz pra à vontade que a casa no seu peito também é minha, que essa cordilheira escondida por debaixo da pele é como se fosse minha. Fico nu nos seus pensamentos, abro a geladeira e vasculho as prateleiras atrás dos medos que você conserva há anos. Escolho qualquer um, lambuzo-me dele e finjo que está tudo bem. Você nem percebe que eu mexi em algo. Diz que não sente falta de nada, só de mim.
Não me comovo. Não preciso me comover.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
Nele
Joshua nasceu por algum motivo. Ou simplesmente pela falta de motivos para não nascer. Nasceu e o primeiro gemido foi seu, apenas seu. No colo morno da mãe, mamou vida e soluçou fartura. Criança forte que aprendeu com o pai a ter medo de não ter coragem. Filho único, pois era ele, Joshua, só dele mesmo. Seus irmãos mais velhos não o alcançavam. Estava ele sempre no topo das próprias ideias, calado enquanto conversava com qualquer voz dentro da cabeça.
Joshua cresceu, e crescer dói tanto quando nascer. Homem, gay, morador de periferia, filho de mãe branca vítima de machismo e falta de amor; filho de pai negro, machista, humilde e alcoólatra. Fruto da falta de carinho conjugal. Educado pelas brigas e salvo pelo travesseiro que abafava os gritos e ofensas. Joshua tinha pra si o que poderia ter de melhor: si mesmo. O que vinha de fora (nem sempre) era bem-vindo, mas não acalantava as muitas dores que insistiam em feri-lo.
Homem, gay, pobre, graduado, situado de várias formas no mundo. Perdido em todos os sentidos quando visto pelos olhos dos outros. Sentido por ter perdido parte de sua juventude numa sexualidade sem referências que fossem compatíveis com os desejos que tiravam o sono e suavam a pele. Por anos sentiu-se desconfortável com o toque, com o querer, com o cheiro das outras - caçando o cheiro dos outros. Mas confortável na consciência da própria existência. Assim ele se debruçava no emaranhado de curvas que fazia seus lençóis solitários. Com tamanho para dois. Joshua e só Joshua.
Joshua nasceu assim. Só dele. Só nele.
Joshua cresceu, e crescer dói tanto quando nascer. Homem, gay, morador de periferia, filho de mãe branca vítima de machismo e falta de amor; filho de pai negro, machista, humilde e alcoólatra. Fruto da falta de carinho conjugal. Educado pelas brigas e salvo pelo travesseiro que abafava os gritos e ofensas. Joshua tinha pra si o que poderia ter de melhor: si mesmo. O que vinha de fora (nem sempre) era bem-vindo, mas não acalantava as muitas dores que insistiam em feri-lo.
Homem, gay, pobre, graduado, situado de várias formas no mundo. Perdido em todos os sentidos quando visto pelos olhos dos outros. Sentido por ter perdido parte de sua juventude numa sexualidade sem referências que fossem compatíveis com os desejos que tiravam o sono e suavam a pele. Por anos sentiu-se desconfortável com o toque, com o querer, com o cheiro das outras - caçando o cheiro dos outros. Mas confortável na consciência da própria existência. Assim ele se debruçava no emaranhado de curvas que fazia seus lençóis solitários. Com tamanho para dois. Joshua e só Joshua.
Joshua nasceu assim. Só dele. Só nele.
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
Em cantos
Esparramou-se pelo breu como farelos no infinito. Preguiçosamente, abriu caminhos nunca antes caminhados - sem rumo, esquinas, curvas ou saídas. Em cantos, deixou acumular-se a poeira luminosa que até hoje brilha atrasada. Um tempo totalmente relativo que vai e volta, roda e dança no vórtex de si mesmo. Foi assim que nasci, parindo-me na escuridão. Com o encanto de quem se criou antes mesmo de se criar e crer na vida.
Arrastou-se no sopro que veio dos confins daquela goela seca, silenciosa, muda devido à anemia de palavras, de confissões, choros, gritos e relatos. Muda por ter acabado de se fazer semente no universo a ser arado. Desta cilindro vocálico nasceu o silêncio. Absoluto, em eterno luto, lutando para não ser notado e sim ouvido. No vácuo dos orifícios que, feito cavernas só ecoam, o silêncio achou refúgio. Anulou-se para então se fazer onipresente - agora, em todos e todas que ainda estão por vir. Por existir.
Do nada surgiu o nada que seria uma partícula daquilo que chamamos de "todo". Dessa enorme colcha de retalhos, os retratos do espaço nunca ficaram pregados nas paredes do infinito. Espelharam-se. Refletiram-se os encantos nos cantos uns dos outros e assim propagaram a si próprios, unicamente idênticos, fazendo dos muitos o nada reconhecível. Eu estava ali, mas não me vi.
Vi-nos nos outros.
___
Reflexão:
E eu penso: não consigo medir o quanto de espaço há dentro de mim, da minha mente, do meu querer, da minha consciência.
Eu tento imaginar paredes, muros, algum tipo de estrutura que me diga "começa aqui e vai até ali", mas nada vejo. É um breu e eu - "brEU".
Percebo então que o universo se faz em mim sempre que me olho e me sinto pequeno diante do que sei que sou, mesmo sem saber até onde sou. Sinto como se existisse o tudo e o nada num mesmo momento no qual ambos anulam-se e criam-se de acordo com as vontades e desejos.
E essas vontades e desejos são como estrelas... Elas nascem de uma explosão, brilham intensamente e, em seguida, morrem. Ainda assim, muitas vezes continuamos a vê-las por anos, achando que ainda estão vivas. Muitos desejos são assim... A gente perde a essência, mas continua acreditando que ainda quer como sempre quis.
Nós, eu você, eles, todxs, percebemos tarde demais que o brilho se extinguiu há tempos... Que desejo nasce pra morrer, pra ser queimado e não pra permanecer intacto.
Vivemos, internamente, a cosmogonia de nós mesmos.
Arrastou-se no sopro que veio dos confins daquela goela seca, silenciosa, muda devido à anemia de palavras, de confissões, choros, gritos e relatos. Muda por ter acabado de se fazer semente no universo a ser arado. Desta cilindro vocálico nasceu o silêncio. Absoluto, em eterno luto, lutando para não ser notado e sim ouvido. No vácuo dos orifícios que, feito cavernas só ecoam, o silêncio achou refúgio. Anulou-se para então se fazer onipresente - agora, em todos e todas que ainda estão por vir. Por existir.
Do nada surgiu o nada que seria uma partícula daquilo que chamamos de "todo". Dessa enorme colcha de retalhos, os retratos do espaço nunca ficaram pregados nas paredes do infinito. Espelharam-se. Refletiram-se os encantos nos cantos uns dos outros e assim propagaram a si próprios, unicamente idênticos, fazendo dos muitos o nada reconhecível. Eu estava ali, mas não me vi.
Vi-nos nos outros.
___
Reflexão:
E eu penso: não consigo medir o quanto de espaço há dentro de mim, da minha mente, do meu querer, da minha consciência.
Eu tento imaginar paredes, muros, algum tipo de estrutura que me diga "começa aqui e vai até ali", mas nada vejo. É um breu e eu - "brEU".
Percebo então que o universo se faz em mim sempre que me olho e me sinto pequeno diante do que sei que sou, mesmo sem saber até onde sou. Sinto como se existisse o tudo e o nada num mesmo momento no qual ambos anulam-se e criam-se de acordo com as vontades e desejos.
E essas vontades e desejos são como estrelas... Elas nascem de uma explosão, brilham intensamente e, em seguida, morrem. Ainda assim, muitas vezes continuamos a vê-las por anos, achando que ainda estão vivas. Muitos desejos são assim... A gente perde a essência, mas continua acreditando que ainda quer como sempre quis.
Nós, eu você, eles, todxs, percebemos tarde demais que o brilho se extinguiu há tempos... Que desejo nasce pra morrer, pra ser queimado e não pra permanecer intacto.
Vivemos, internamente, a cosmogonia de nós mesmos.
sexta-feira, 14 de novembro de 2014
Grão preto
Aperto bem os olhos e as mãos. Aguardo o impacto no peito, bem onde guardo a mim. Nada acontece. Nenhum som ou pressão. Respiro pela boca num ritmo só meu e tento imaginar, na escuridão da minha mente de janelas fechadas, a ruína dos castelos de areia erguidos para além da visão. Pulo os muros da sobriedade e então enterro os pés nas sobras do mar. Assim finco.
Não adianta um grão.
Esse meio tempo, meio corrido, meio escorrido, parte em vários o homem que sou. Um grão de mim que grita pela liberdade plena e o desejo ácido, outro que se esconde na orla de gente, vagando feito poeira pelos olhos dispersos e aquele que passa por último na goela da ampulheta - sentindo a vida mudar de lado sem nem se quer avisar. O homem construído por outros homens, desconstruído pelo homem que é e reconhecido por outros homens despedaçados. Unidos pela falta de liga, pela vontade de se fazer parte do punhado sem que alguém os separe. Grão de feijão escolhido a dedo para morrer com os seus diferentes no paladar daqueles que os têm.
Continuam apertados os olhos. As quinas do mundo perdem suas linhas, os limites do espaço viram pó também. Tudo se esparrama na mesma mancha amorfa. Acomodo-me no nas prateleiras do todo completamente descolocado - e sem nenhuma palavra, nenhum som. Fico ali, sozinho, numa paz particular, como se fosse um ponto final nas linhas tortas escritas por deus ou quem quer que escreva.
Intangível. Ninguém consegue me tirar desse coma. Sinto vontade de gargalhar todas as vezes em que aquelas mesmas mãos anêmicas tentam me puxar para a existência e comer minha essência. Resisto. Querem mais de mim do que eu mesmo poderia me dar. Ficam esmolando atenção, acenos e toques. Não me alcançam e isso é incrível.
Não há luz no fim do túnel. Há mais túnel e mais profundidade. Há âmago, ego, fundo do poço onde posso descansar e saber que abaixo de mim não existe nada. Absolutamente nada. Conforto em deitar na única cama em que o sono pode ser pesado. Coberto de pesadelos.
Fim do túnel é sempre o recomeço em mim, uma jornada inconsciente pelo caminho o qual a razão não consegue iluminar e nem o amor alcançar. A estrada dos lobos solitários, sempre famintos, enxergando nas trevas a própria fome a desfilar. Segue adiante, porque voltar não adianta mais.
Não adianta um grão.
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
Nuvem de sono
- O que foi? De repente você ficou sério.
- Nada, eu tenho dessas coisas...
- Não foi bom? Você estava sorrindo tanto, achei que era de prazer.
- Mas era prazer, sim. É só que... Às vezes custo a acreditar que posso me sentir tão bem assim.
- Pois acredite. É real, eu sou real, nós somos. Os beijos, teus olhos perseguindo os meus... Tudo real.
- Bom ouvir isso.
- Mas agora você está distante. Diferente. Tem uma nuvem sobre seu rosto.
- Acho que vai chover.
- O quê? Por que essa lágrima agora? Fale a verdade, o que está acontecendo?
- Nada, é só chuva... Precisa escorrer por mim... Precisa me molhar... É vida, só isso.
- Espero que não esteja chateado mesmo. Sério, encoste a cabeça aqui...
- Posso ficar só em silêncio?
- Sim... Mas por quê?
- Porque eu amo dormir com o barulho da chuva.
- Nada, eu tenho dessas coisas...
- Não foi bom? Você estava sorrindo tanto, achei que era de prazer.
- Mas era prazer, sim. É só que... Às vezes custo a acreditar que posso me sentir tão bem assim.
- Pois acredite. É real, eu sou real, nós somos. Os beijos, teus olhos perseguindo os meus... Tudo real.
- Bom ouvir isso.
- Mas agora você está distante. Diferente. Tem uma nuvem sobre seu rosto.
- Acho que vai chover.
- O quê? Por que essa lágrima agora? Fale a verdade, o que está acontecendo?
- Nada, é só chuva... Precisa escorrer por mim... Precisa me molhar... É vida, só isso.
- Espero que não esteja chateado mesmo. Sério, encoste a cabeça aqui...
- Posso ficar só em silêncio?
- Sim... Mas por quê?
- Porque eu amo dormir com o barulho da chuva.
Corpo meu
Calor da palma da mão sobrevoando a pele, sem tocar o solo coberto pelos pelos do couro. Negaram-me o endereço do meu corpo, mas eu o descobri vagando por outros corpos. Encontrei o caminho até mim e decidi não voltar.
O toque. Trêmulo e inseguro. Suavemente, espalhava por minhas pernas o desejo puro, hidratando cada poro sedento. Garoava no pico dos meus joelhos e o barulho do chuvisco era de enfeitiçar.
Foram anos e mais anos ouvindo péssimas histórias sobre meu corpo. Criaram fábulas covardes e monstruosas para afastar a vontade de me comer - pelo menos uma vez na vida - sem sentir culpa fajuta e passageira. Ela vai. O desejo finca.
Hoje eu me possuo. Invado minhas partes com a intensidade que quiser. Tem dias que sou só saudades e corro para o abraço solitários dos meus próprios braços. Em outros, apenas acaricio a barriga como se algo ali dentro existisse algo além de mim. Esqueço do gênero, esqueço do peso e apenas me deito. Eu me sinto. Deixo que floresçam o mangue de barba, raspo o teto das ideias, desenho sobre os ossos e me perco quando encontro a nascente da pubis, local onde minha consciência morre a cada mergulho. Eu não sei de nadar.
Assim vou, assim eu fui, assim eu me consumo. E sempre que (im)possível, sumo.
O toque. Trêmulo e inseguro. Suavemente, espalhava por minhas pernas o desejo puro, hidratando cada poro sedento. Garoava no pico dos meus joelhos e o barulho do chuvisco era de enfeitiçar.
Foram anos e mais anos ouvindo péssimas histórias sobre meu corpo. Criaram fábulas covardes e monstruosas para afastar a vontade de me comer - pelo menos uma vez na vida - sem sentir culpa fajuta e passageira. Ela vai. O desejo finca.
Hoje eu me possuo. Invado minhas partes com a intensidade que quiser. Tem dias que sou só saudades e corro para o abraço solitários dos meus próprios braços. Em outros, apenas acaricio a barriga como se algo ali dentro existisse algo além de mim. Esqueço do gênero, esqueço do peso e apenas me deito. Eu me sinto. Deixo que floresçam o mangue de barba, raspo o teto das ideias, desenho sobre os ossos e me perco quando encontro a nascente da pubis, local onde minha consciência morre a cada mergulho. Eu não sei de nadar.
Assim vou, assim eu fui, assim eu me consumo. E sempre que (im)possível, sumo.
sábado, 11 de outubro de 2014
O álcool nunca foi meu inimigo
Pelo contrário, sem ele eu não seria - de fato - eu. Com a ajuda dele, reaprendi a chorar. Encontrei, forçosamente, o valor em chorar. Tive crises que jamais seriam aceitas pela razão a bom grado. Caí de uma forma vergonhosa e - pasme - levantei. O álcool nunca foi meu inimigo.
Após uma reunião amistosa entre amigos e desconhecidos, pude desfrutar de um mundo atípico. Vi gente triste enchendo a cara para se tornar mais alegre (eu, por exemplo); gente bem resolvida que não reflete sobre a vida, apenas vive; gente que eu desejei nos momentos de loucura; gente que eu quis por querer - e por inteiro; gente.
E nada, absolutamente nada, conectava-se comigo. A luta constante por manter em mim o mínimo de racionalidade (a moeda de troca do respeito), custava - e custa - muito. Muito mesmo. Viver num mundo que não te aceita e que te odeia é como ter um pesadelo. Você vive a ilusão da sua realidade. Sofre, acorda soluçando e continua sem solução. Não há sentido. Há dor. E a dor nunca fará sentido.
O que eu queria hoje?
Não ser. Só ter.
Após uma reunião amistosa entre amigos e desconhecidos, pude desfrutar de um mundo atípico. Vi gente triste enchendo a cara para se tornar mais alegre (eu, por exemplo); gente bem resolvida que não reflete sobre a vida, apenas vive; gente que eu desejei nos momentos de loucura; gente que eu quis por querer - e por inteiro; gente.
E nada, absolutamente nada, conectava-se comigo. A luta constante por manter em mim o mínimo de racionalidade (a moeda de troca do respeito), custava - e custa - muito. Muito mesmo. Viver num mundo que não te aceita e que te odeia é como ter um pesadelo. Você vive a ilusão da sua realidade. Sofre, acorda soluçando e continua sem solução. Não há sentido. Há dor. E a dor nunca fará sentido.
O que eu queria hoje?
Não ser. Só ter.
domingo, 28 de setembro de 2014
Busca
Escrevo em busca de silêncio. Silêncio dentro do peito, no canto traseiro dos pensamentos. Silêncio absoluto. Transcrevo a voz muda que fala por mim quando eu canso de brincar de "eu" e não quero ser mais. Tento , então, anular-me a qualquer custo.
Bebo, fumo, escondo-me atrás da cortina da fumaça, mas meus pés sempre ficam visíveis. Escrevo. Frase após frase, palavra não dita seguida de palavra não dita, é difícil perceber que tudo se trata de silêncio? Só me deixe aqui, quieto com minha tristeza que sempre tem a palavra na ponta da língua.
Busco a música quando não ouço "eu te amo". É assim que me preencho com as melhores declarações e as piores conversas francas - daquelas que rasgam o peito com um simples abraço de "obrigado por sua amizade". Escuto o que os outros não aguentaram e cantaram. Absorvo demais (e talvez isso seja ruim) cada verso e cada acorde como se estivesse faminto. Falta na barriga da minha essência um bocado de coisas que não descem pela boca e sequer enfeitam o prato. É uma mordida de desejo que umedece os lábios, mas não traz colherada alguma. É querer por querer e pronto.
São buscas equivalentes a fugas. "Oi, como você está?", "Indo, e você?". Indo em busca de qualquer coisa que me distraia ou que me traga, numa puxada só, algo que queime e gaste. Uma passagem que me force a correr pelas veias do outro livremente. Um mal necessário. Talvez eu também busque ser o mal do outro, aquele drama maravilhoso que faz sofrer, mas tira do cotidiano/trabalho/contas/responsabilidades a relevância roubada. Aquele bom e velho drama que desmarca reuniões, não responde e-mail, sai correndo pra comprar a janta e tira o vinho da merda da geladeira - mania péssima de guardarem vinho na geladeira.
Busca. O anzol que a gente sonha em fisgar.
Bebo, fumo, escondo-me atrás da cortina da fumaça, mas meus pés sempre ficam visíveis. Escrevo. Frase após frase, palavra não dita seguida de palavra não dita, é difícil perceber que tudo se trata de silêncio? Só me deixe aqui, quieto com minha tristeza que sempre tem a palavra na ponta da língua.
Busco a música quando não ouço "eu te amo". É assim que me preencho com as melhores declarações e as piores conversas francas - daquelas que rasgam o peito com um simples abraço de "obrigado por sua amizade". Escuto o que os outros não aguentaram e cantaram. Absorvo demais (e talvez isso seja ruim) cada verso e cada acorde como se estivesse faminto. Falta na barriga da minha essência um bocado de coisas que não descem pela boca e sequer enfeitam o prato. É uma mordida de desejo que umedece os lábios, mas não traz colherada alguma. É querer por querer e pronto.
São buscas equivalentes a fugas. "Oi, como você está?", "Indo, e você?". Indo em busca de qualquer coisa que me distraia ou que me traga, numa puxada só, algo que queime e gaste. Uma passagem que me force a correr pelas veias do outro livremente. Um mal necessário. Talvez eu também busque ser o mal do outro, aquele drama maravilhoso que faz sofrer, mas tira do cotidiano/trabalho/contas/responsabilidades a relevância roubada. Aquele bom e velho drama que desmarca reuniões, não responde e-mail, sai correndo pra comprar a janta e tira o vinho da merda da geladeira - mania péssima de guardarem vinho na geladeira.
Busca. O anzol que a gente sonha em fisgar.
quinta-feira, 25 de setembro de 2014
Valsa perdida
O par faltou. Ausentou-se da dança e do meu corpo. Fugiu da minha mão e a deixou girando sozinha no salão durante toda a valsa. Vagando, percebi só a mim, largado num facho de luz misericordiosa que ria satisfeita da minha solidão desengonçada.
O par de pés não se entendia. Entediavam-se ambos os cascos naquele chão liso de madeira morta. Manchado com o suor dos que haviam se encontrado na melodia. Dois para cá, dois para lá. Eu, ali. Mas me recusava a sair e deixar de ser o dançarino perdido. Eu fiquei sem esperança. Fiquei por teimosia, balançando apenas as poucas moedas que ainda sobravam no bolso e algumas lembranças que guizavam dentro do peito.
Pouco a pouco foi tomando meu ser aquela paz fúnebre dos que morrem em vida. Seco por fora, encharcado por dentro, ainda em movimento - tal qual os astros na escuridão do universo. Assim fui, embalado pelo doce cheiro de cigarros e perfumes girando em torno da minha órbita melancólica. Ninguém me via, mas de longe sabiam que o brilho ali presente entre meus olhos entreabertos anunciava o funeral distante de algo que um dia cintilou excessivamente. Como estrela, gastou-se em silêncio, estático, o iluminar de um querer sem fim. E que extinguiu-se em si - como tudo.
Era incapaz de lembrar dos nomes de tantos nomes que passaram por minha memória. Entretanto e tantos, ficava o toque como marca na pele. A pressão dos dedos e dos braços entre abraços, o peso do pulso no ombro e um leve desenhar de rosto com as costas da palma.
Durante a valsa perdida dos meus dias, senti - por insistência da vida contrariada - os outros a fundirem-se à minha silhueta.
E naquele salão imenso, era eu, o par de um, a se bastar. Vivendo a música das minhas verdades.
domingo, 7 de setembro de 2014
O primeiro dos últimos
Hoje foi o primeiro dia vivendo juntos. Agora ele dorme ao meu lado, exausto. Foram muitas horas dando cara de "lar" aos cômodos. Há poucas semanas eu não seria capaz de dizer que a mudança fosse acontecer. Nosso primeiro dia morando juntos...
Logo cedo
Dormi demais e cheguei atrasado na estação de trem. Ele não me olhava. Mantinha sua visão presa aos ponteiros do relógio. Sim, eu já havia entendo o recado: "não diga nada, apenas ande e prossiga como se tudo estivesse acontecendo de acordo com o planejado". Mas eu queria falar. Estava morrendo de vontade de conversar com ele. Então não me aguentei e soltei o verbo... Ele sorriu de leve, amanhecendo aos poucos diante de mim e quando reparamos o dia já era meio. Metade para cada um.
Enquanto o mundo passava feito filme pela janela do trem, minhas mãos cochilavam nas dele. Estávamos partindo para um novo lugar afastado de todo o passado. Não se tratava de fuga. Pelo contrário, queríamos encontrar algo verdadeiro. Algo que não tirasse de nós o mais básico dos direitos: o de ser. Depois de algumas boas horas, para o trem e correm as batidas dentro do peito. Chegamos.
Ela era tímida, coberta por folhas secas e pintada de branco. Um branco cansado de ser tão pálido e que tentava a todo custo parecer cinza. Foi paixão instantânea. Eu vi naquela casa um véu de silêncio que cobria de suavemente tudo o que buscamos juntos durante anos. Silêncio para que nossas juras fossem sussurradas.
A tarde chegava com seu laranja inconfundível. Encostei minha cabeça no ombro dele e baixei a guarde. Fiquei totalmente vulnerável. Nada mais me incomodava. Ele desenhava meu rosto com a ponta dos dedos e assoviava "Sea of Love". Olhávamos para o nada - a utopia de nossas próprias existências - sem esperança alguma. Era tão bom... Era liberdade.
Do alto das sobrancelhas eu via o céu escuro dos seus cabelos a anoitecer minha ansiedade. Ali ficamos, deitados... Sem uma simples palavra... Eu o amo mais do que ele poderia imaginar.
O início do desconhecido. A cama sendo arrumada pelo desejo - cuidadosamente preparada para acordar bagunçada. O carinho tomando conta da sala, deixando as almofadas entre o sofá, já imaginando a chegada do par de corpos friorentos. E o amor. O amor não saiu de nós para ajudar na arrumação. Ele ficou no seu canto e aos poucos tomaria conta dos cheiros, cores, texturas, sons e o que mais estivesse ao seu alcance.
A vida não era nem de longe perfeita. Ela apenas se apresentava bem naquele momento. Como de costume, recebeu-nos de braços abertos dando as boas-vindas aos novos moradores. A vida, nosso lar. A casa que escolhemos e nos acolheu.
O primeiro dia para nós, os dois últimos.
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