Comece por perder. Esfarele o próprio orgulho sobre a mesa, organize a carreira e inspire. Encha-se dos cacos que ontem compunham o belo espelho a refletir sua soberba e confiança. Aquele mesmo espelho que tanto falou sobre sua beleza. Fragmente-se como nunca antes e então dê o passo seguinte: suporte sua própria falação compulsiva.
Grite se for necessário, desespere os vizinhos ao se libertar às 3h da manhã sem compromisso com o relógio. Atenda apenas à angustia que te corrói e ata suas mãos e pés diariamente. Que te impede de “seguir em frente”, de “superar obstáculos” de “ser alguém forte”. Hoje eu quero que você se derrote. Caia, rasteje, sofra como nunca antes e queime de uma vez por todas as esperanças que sempre lhe enganaram. E não se esqueça das pessoas.
Sim, cada nome que amaldiçoou seu coração e fez do peito um limbo profundo deve ser invocado, lembrado, desejado e merecedor da sua ira. Sei que deve estar sendo difícil e que seu corpo provavelmente está oscilando entre rigidez e desfalecimento. Sei e não me importo.
Sofra. Sofra muito. Sofra tudo. O que sobrar, sem sombra de dúvidas, será lucro. E será só seu, de mais ninguém.
sexta-feira, 28 de março de 2014
Banho de madrugada
Acordei com o soluço das minhas vontades. Acordei, caminhei até a janela e olhei para o céu. Não esperava nada, absolutamente nada. A memória ainda adormecida me impedia de invocar a razão – detentora do meu nome, idade, cor dos olhos, número de celular e tamanho de sapato. Como num nascimento, levantei da cama despido, nu, perdido, sem palavras, só suspiros. Só língua não falada. E como num último anseio antes do pulo rumo ao precipício, deixei que a liberdade me dominasse por completo. De olhos fechados eu vi tudo. Presenciei algo que jamais havia vivido, de fato, nesta existência. Eu finalmente pude descansar.
“A liberdade
Meus olhos percorrem toda a estrada. Sua pele grossa feita de cascavéis conduzia ambos os corpos para o bote inevitável, o fim do caminho jamais anunciado. Estávamos envenenados pela toxina da liberdade e queríamos apenas o que nos foi prometido antes da mordida: a dormência.
Se o corpo pesa, deixe que caia. Se a mente pesa, deixe que se apague. E se o coração torna-se insustentável, deixe que parta. Foi assim que saímos, dispostos a encontrar um motivo que justificasse a ausência de nós mesmos. Algo para compensar os anos de angústia, de vida planejada, de frustrações garantidas e parceladas. Os anos de enganos, de passos e não de caminhadas, de fúria silenciosa. Um convite à anulação de si mesmo. Morrer em vida.
Preso às costas de quem agora me guia, sinto o corpo gelar a cada assovio da noite. E as estrelas que agora forram o céu guiam-nos para qualquer lugar. Madrugada sem lua, só rua, estrada longa que traga cada fumaça fugida do escapamento. Duas rodas, duas pessoas e tantas outras em nossas lembranças.
Hoje eu sou poeira, resto de vivência, rastro de insistência, de gente que passou, voltou, foi, mas nunca ficou. Sou calor que despenca pela avenida como estrela cadente, anjo caído que sinaliza com seu brilho o caminho da queda. Sou pecado original, puro, escuro, profundo, com asas que não servem para voar, apenas pesam nas costas. E me deixo guiar, deixo que você me conduza pelas montanhas, vales e desertos que tingem os dias de cores quentes. Dei-me como presente e maldição a liberdade. Fiz questão de ser livre para pertencer a quem me interessasse. Ser livre para pertencer. É isso. Mas não só isso.
O tempo, quando estamos felizes e plenos, escorre como néctar pelos cantos dos lábios e, quando a garganta seca novamente, deixa um sabor inesquecível. Algo como o gosto da saudade.”
A luz morna do sol recém-nascido despertou-me do sonho. Minha pele foi banhada por um dourado inconfundível: a coroa do astro rei reluzia nos olhos terrosos de quem a encarava. Olhei para o meu corpo, olhei para mim – de verdade – e gostei do que vi. Senti o sangue, o ar, as marcas na pele, o cheiro de gente. Era real. Deixei que os pelos se arrepiassem com o frio, é preciso sentir frio. Não fugi das sensações. Fiquei. Eu, ali parado, morri em vida.
“A liberdade
Meus olhos percorrem toda a estrada. Sua pele grossa feita de cascavéis conduzia ambos os corpos para o bote inevitável, o fim do caminho jamais anunciado. Estávamos envenenados pela toxina da liberdade e queríamos apenas o que nos foi prometido antes da mordida: a dormência.
Se o corpo pesa, deixe que caia. Se a mente pesa, deixe que se apague. E se o coração torna-se insustentável, deixe que parta. Foi assim que saímos, dispostos a encontrar um motivo que justificasse a ausência de nós mesmos. Algo para compensar os anos de angústia, de vida planejada, de frustrações garantidas e parceladas. Os anos de enganos, de passos e não de caminhadas, de fúria silenciosa. Um convite à anulação de si mesmo. Morrer em vida.
Preso às costas de quem agora me guia, sinto o corpo gelar a cada assovio da noite. E as estrelas que agora forram o céu guiam-nos para qualquer lugar. Madrugada sem lua, só rua, estrada longa que traga cada fumaça fugida do escapamento. Duas rodas, duas pessoas e tantas outras em nossas lembranças.
Hoje eu sou poeira, resto de vivência, rastro de insistência, de gente que passou, voltou, foi, mas nunca ficou. Sou calor que despenca pela avenida como estrela cadente, anjo caído que sinaliza com seu brilho o caminho da queda. Sou pecado original, puro, escuro, profundo, com asas que não servem para voar, apenas pesam nas costas. E me deixo guiar, deixo que você me conduza pelas montanhas, vales e desertos que tingem os dias de cores quentes. Dei-me como presente e maldição a liberdade. Fiz questão de ser livre para pertencer a quem me interessasse. Ser livre para pertencer. É isso. Mas não só isso.
O tempo, quando estamos felizes e plenos, escorre como néctar pelos cantos dos lábios e, quando a garganta seca novamente, deixa um sabor inesquecível. Algo como o gosto da saudade.”
A luz morna do sol recém-nascido despertou-me do sonho. Minha pele foi banhada por um dourado inconfundível: a coroa do astro rei reluzia nos olhos terrosos de quem a encarava. Olhei para o meu corpo, olhei para mim – de verdade – e gostei do que vi. Senti o sangue, o ar, as marcas na pele, o cheiro de gente. Era real. Deixei que os pelos se arrepiassem com o frio, é preciso sentir frio. Não fugi das sensações. Fiquei. Eu, ali parado, morri em vida.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Agulha
Se todos os laços dentro de nós fossem desatados
o
coração - até então atado seria malha esparramada entre peito, mãos e
joelhos.
Trapo, fiapo, fio.
Portanto, costuro sempre um novo nome com a agulha
na ponta das muitas línguas que costumo coser a esmo.
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Visto
Minha pele só servia para cobrir ossos. Meus cabelos, para proteger a cabeça do sol. O espelho, por sua vez, desenhava-me ao contrário, refletia-me ao inverso. Ao contrário eu me sentia contrariado. Eles haviam me vestido de um “eu” desconhecido. A vida havia. E eu não cabia. Prazer em não conhecê-lo.
Minhas pernas frouxas caem durante o caminhar e cinto nenhum – preso ao que sinto - consegue segurar a frustração de cada passo arrastado. Pesa o caminhar, pesa o contínuo fato de continuar vestido de outro alguém. Dizem-me: teu corpo, teu templo. Mas lugar algum é templo para quem nasceu em berço nômade. Nasci no vento. Sou feito de ar e não posso ser pó nem poeira. Só posso soprar. Não tenho para onde voltar. E sou. Insisto em ser o eterno órfão de vizinho. Nem a mim eu tenho. Meu templo é a Torre de Babel. Falo com a língua do corpo e ainda assim desconheço os gestos, as rugas, os excessos do que banho, enxugo, visto e deito.
Despindo-me, descubro que subcutaneamente que existo. Só não fui eu a me vestir.
Minhas pernas frouxas caem durante o caminhar e cinto nenhum – preso ao que sinto - consegue segurar a frustração de cada passo arrastado. Pesa o caminhar, pesa o contínuo fato de continuar vestido de outro alguém. Dizem-me: teu corpo, teu templo. Mas lugar algum é templo para quem nasceu em berço nômade. Nasci no vento. Sou feito de ar e não posso ser pó nem poeira. Só posso soprar. Não tenho para onde voltar. E sou. Insisto em ser o eterno órfão de vizinho. Nem a mim eu tenho. Meu templo é a Torre de Babel. Falo com a língua do corpo e ainda assim desconheço os gestos, as rugas, os excessos do que banho, enxugo, visto e deito.
Despindo-me, descubro que subcutaneamente que existo. Só não fui eu a me vestir.
domingo, 9 de fevereiro de 2014
Mais vale
Sabia que naquela noite nenhuma migalha de romantismo forraria seu estômago. Por este motivo foi. O convite para o jantar parecia interessante. Mas a fome, na verdade, era de outra coisa. Torcia para que os temperos em ebulição disfarçassem a essência de feromônios que se misturava ao perfume recém-passado. Como convidado, aguardou sentado, reparando nos desenhos da toalha de mesa. Concentrando-se no mosaico sem sentido, seu único ponto de fuga - já que levantar dali estava fora de cogitação.
Eram duas vozes: a de sua boca satisfeita com o pouco e a de seu querer, sempre faminto.
- Venha aqui, experimente um pouco e diga se está bom.
- Está. (De lamber os lábios. Você até merecia um beijo por isso. Um beijo com seu tempero)
- Só isso? Não vai dizer mais nada a respeito?
- Não. (Já sentiu o gosto da fome? O gosto da vontade?)
A simples aproximação de corpos o fazia pulsar. Pele fervia, respiração se cobria de vapor e a língua - que passeava pelos lábios na busca dos respingos de molho - exibia-se timidamente, provocando sem revelar o desejo em sua ponta.
- O quê? Diz algo, faz um esforço!
- Eu... Achei bom, de verdade. Está ótimo. (Essa sua respiração me cala, por isso falo pouco)
- Melhorou. Sabia que tinha alguma frase aí na ponta da sua língua.
- É... sempre tem algo. Posso tomar alguma uma bebida? (Antes que eu engula teu fôlego de uma só vez)
- Fique à vontade. Faz um drink para você e eu tomo um pouco.
E mais uma vez o álcool fez seu papel. Banho frio na boca flamejante. Rapidamente, escondeu-se entre as veias e fez com que o corpo suspirasse de alívio. Agora ele abandonava os detalhes e se voltava para aquela silhueta de estatura mediana, nuca tensa e mãos ágeis. Furtivamente, seus olhos percorriam as costas, a parte traseira das orelhas e fotografavam as pequenas gotículas de suor. Respiração: o golpe mais baixo.
- Vamos comer. Quer que eu te sirva?
- Não precisa. Belo prato... (Quero que você me sirva. Que você tema minha reprovação)
- Obrigado. Coma e me diga o que achou.
- Tem gosto forte. (Gosto de quem queria impressionar. Gosto de quem queria ser notado)
- Errei no sal?
- Não, acertou no sabor. Por isso está forte. Eu gosto assim. (Ninguém cozinha assim para um qualquer. Eu sei que você se esforçou)
- Coma mais então.
A falta de sincronia - e coragem - que atrapalhava o diálogo entre sua mente e seu coração ecoava como trovão a cada pergunta respondida. Queria falar o que lhe vinha à cabeça. Sem perceber que o que faltava mesmo eram os versos do coração. Romantismo para uma noite daquelas seria a pior adição.
Satisfeito, recorreu ao silêncio com a desculpa de que uma forte preguiça havia tomado seu corpo. Álibi mais barato do que esse só aquele que pede mais uma dose de bebida pra ajudar na digestão. Alguns cigarros, alguns bocejos e as luzes se apagam.
O inferno é um quarto em que o primeiro corpo deseja o segundo. E o segundo só deseja dormir.
No silêncio absoluto é possível se escutar o ruído de um calar proposital. Ele controlava as batidas do coração, mas estas insistiam em causar tremores que se espalhavam pelas pernas e paravam no ventre. Tudo pedia sexo. As paredes gritavam furiosas, queriam ser marcadas pelas costas besuntadas de prazer; a cama se sentia inútil; os lençóis - retos como o chão - ansiavam pelo entrelaço de quadris. Nada. Só o ruído do batimento cardíaco.
- Não consegue dormir?
- Não. (Consigo, mas não quero. Não acho justo)
- O que foi?
- Empreste-me sua mão. (Antes que eu peça seu ouvido)
- Para quê?
- Apenas confie e empreste. (Eu não anunciaria assim, com tanta delicadeza, uma ação selvagem)
- Nossa! Você vai ter um ataque cardíaco.
- Eu preciso falar... Eu não consigo... Mas preciso. (Melhor falar do que tentar te agarrar)
- Diga de uma vez.
- Eu quero um beijo. (E depois seu corpo inteiro. Quero sua saliva, seu tempero, seu gosto)
- Não. Boa noite.
- Boa noite. (Dizem que o sono tira a fome. Boa sorte, espero que nem você e nem seu estômago ronquem)
Há alguns anos, sentira uma ira incontrolável. Uma tristeza profunda e insistente. Mas desta vez o que sentiu foi frio. Um gelar instantâneo. O romantismo tinha ficado na cozinha. Ali, no santuário de Morfeu, o sono disputava espaço com o desejo. Porém, um desejo solitário, que não se fez dois. Dormiu. Ele não.
Pela primeira vez naquela noite, seu coração falou livremente, enquanto o outro passou a interiorizar seu conflito mudo.
- Mais vale um coração na mão do que dois pares de lábios beijando.
- O que você disse? Eu estava dormindo já! (Mentira, mas prefiro evitar qualquer chance desse beijo acontecer. Não, não posso, não tem nada a ver)
- Disse "durma bem".
Eram duas vozes: a de sua boca satisfeita com o pouco e a de seu querer, sempre faminto.
- Venha aqui, experimente um pouco e diga se está bom.
- Está. (De lamber os lábios. Você até merecia um beijo por isso. Um beijo com seu tempero)
- Só isso? Não vai dizer mais nada a respeito?
- Não. (Já sentiu o gosto da fome? O gosto da vontade?)
A simples aproximação de corpos o fazia pulsar. Pele fervia, respiração se cobria de vapor e a língua - que passeava pelos lábios na busca dos respingos de molho - exibia-se timidamente, provocando sem revelar o desejo em sua ponta.
- O quê? Diz algo, faz um esforço!
- Eu... Achei bom, de verdade. Está ótimo. (Essa sua respiração me cala, por isso falo pouco)
- Melhorou. Sabia que tinha alguma frase aí na ponta da sua língua.
- É... sempre tem algo. Posso tomar alguma uma bebida? (Antes que eu engula teu fôlego de uma só vez)
- Fique à vontade. Faz um drink para você e eu tomo um pouco.
E mais uma vez o álcool fez seu papel. Banho frio na boca flamejante. Rapidamente, escondeu-se entre as veias e fez com que o corpo suspirasse de alívio. Agora ele abandonava os detalhes e se voltava para aquela silhueta de estatura mediana, nuca tensa e mãos ágeis. Furtivamente, seus olhos percorriam as costas, a parte traseira das orelhas e fotografavam as pequenas gotículas de suor. Respiração: o golpe mais baixo.
- Vamos comer. Quer que eu te sirva?
- Não precisa. Belo prato... (Quero que você me sirva. Que você tema minha reprovação)
- Obrigado. Coma e me diga o que achou.
- Tem gosto forte. (Gosto de quem queria impressionar. Gosto de quem queria ser notado)
- Errei no sal?
- Não, acertou no sabor. Por isso está forte. Eu gosto assim. (Ninguém cozinha assim para um qualquer. Eu sei que você se esforçou)
- Coma mais então.
A falta de sincronia - e coragem - que atrapalhava o diálogo entre sua mente e seu coração ecoava como trovão a cada pergunta respondida. Queria falar o que lhe vinha à cabeça. Sem perceber que o que faltava mesmo eram os versos do coração. Romantismo para uma noite daquelas seria a pior adição.
Satisfeito, recorreu ao silêncio com a desculpa de que uma forte preguiça havia tomado seu corpo. Álibi mais barato do que esse só aquele que pede mais uma dose de bebida pra ajudar na digestão. Alguns cigarros, alguns bocejos e as luzes se apagam.
O inferno é um quarto em que o primeiro corpo deseja o segundo. E o segundo só deseja dormir.
No silêncio absoluto é possível se escutar o ruído de um calar proposital. Ele controlava as batidas do coração, mas estas insistiam em causar tremores que se espalhavam pelas pernas e paravam no ventre. Tudo pedia sexo. As paredes gritavam furiosas, queriam ser marcadas pelas costas besuntadas de prazer; a cama se sentia inútil; os lençóis - retos como o chão - ansiavam pelo entrelaço de quadris. Nada. Só o ruído do batimento cardíaco.
- Não consegue dormir?
- Não. (Consigo, mas não quero. Não acho justo)
- O que foi?
- Empreste-me sua mão. (Antes que eu peça seu ouvido)
- Para quê?
- Apenas confie e empreste. (Eu não anunciaria assim, com tanta delicadeza, uma ação selvagem)
- Nossa! Você vai ter um ataque cardíaco.
- Eu preciso falar... Eu não consigo... Mas preciso. (Melhor falar do que tentar te agarrar)
- Diga de uma vez.
- Eu quero um beijo. (E depois seu corpo inteiro. Quero sua saliva, seu tempero, seu gosto)
- Não. Boa noite.
- Boa noite. (Dizem que o sono tira a fome. Boa sorte, espero que nem você e nem seu estômago ronquem)
Há alguns anos, sentira uma ira incontrolável. Uma tristeza profunda e insistente. Mas desta vez o que sentiu foi frio. Um gelar instantâneo. O romantismo tinha ficado na cozinha. Ali, no santuário de Morfeu, o sono disputava espaço com o desejo. Porém, um desejo solitário, que não se fez dois. Dormiu. Ele não.
Pela primeira vez naquela noite, seu coração falou livremente, enquanto o outro passou a interiorizar seu conflito mudo.
- Mais vale um coração na mão do que dois pares de lábios beijando.
- O que você disse? Eu estava dormindo já! (Mentira, mas prefiro evitar qualquer chance desse beijo acontecer. Não, não posso, não tem nada a ver)
- Disse "durma bem".
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
Partes
Dezembro de 2013, Paraty - RJ.
Partir
Sair. Permitir-se partir. Ir. E voltar para quê? Para quem? Nunca se sabe. Ainda assim, deseja-se ser.
Ser para crer. A experiência que preenche parte do que chamo de "ter". Só tenho memória, só o que vivi e experienciei. No mais, sempre falta.
Ser vivo pra sair de si e andar por aí. Parte ficar. Parte ir.
Língua
Seu idioma, suas escolhas e a cor azul insistindo em destacar seus olhos transcendem o "não saber o que dizer". Emudecem pela quantidade absurda de palavras que a serem ditas mesmo malditas. Algo como falar a língua da vontade à vontade.
Melhor que cale um canto da boca pra ver se o canto do peito sufoca e se cala.
E se cala?
Sente. Não canta.
Pedaço
A carne pulsa. Sente fome. Busca. Demonstra-se, esparrama-se e, ao anoitecer, dispõe seus pedaços na bandeja de oferenda. Rende-se.
Carne não é fraca, carne não é trêmula. Carne é pedaço duro, rígido e tenro do mais impuro desejo.
Vem com sangue porque não se faz mundana e humana sem antes benzer-se de maculação.
O pecado da carne foi sempre sangrar e nunca morrer.
Tombo
Ele perde o compasso, cai nas ladainhas da razão, mas não desgruda o rosto do sorriso. Diante do penhasco, não sentiu desejo algum. Queda, ascensão? Não.
Lá, prestes a não mais se prestar à coisa alguma, preferiu sorrir e camuflar o nervosismo adolescente de um corpo mal transado.
Só foi até o tal pico para provar que seria capaz de besuntar os lábios gélidos e altos da morte com sua vivacidade leonina. Mas não voltou. Leão das montanhas. Não refez o caminho. Admitiu ter perdido sua principal guia: a vontade de sumir.
Digo
Insisto em acreditar que me faço entender por meio do silêncio.
Entre os possíveis muitos motivos existe um que merece atenção: quando não digo o que tenho para dizer, abro espaço para o "nada" acontecer. E então tudo se torna interessante.
Sou eu que respondo perguntas, invento passados e me divirto ao ditar futuros. Sou eu, tipo Deus.
Mudo para o mundo. Mas mudo acompanhado do meu silêncio.
Despertador
Foi-se o tempo em que para dormir bastava fechar os olhos. Agora, você, eu, nós todos passamos horas tentando reconquistar o desprendimento perdido. O dia acaba, os minutos se esgotam e seguimos atados à rotina incansável. Sempre alertas e vigilantes. Cambaleando exaustos entre garrafas e bitucas.
Nunca de olhos fechados.
Como desligar? Basta nem ligar. Boa n.
Partir
Sair. Permitir-se partir. Ir. E voltar para quê? Para quem? Nunca se sabe. Ainda assim, deseja-se ser.
Ser para crer. A experiência que preenche parte do que chamo de "ter". Só tenho memória, só o que vivi e experienciei. No mais, sempre falta.
Ser vivo pra sair de si e andar por aí. Parte ficar. Parte ir.
Língua
Seu idioma, suas escolhas e a cor azul insistindo em destacar seus olhos transcendem o "não saber o que dizer". Emudecem pela quantidade absurda de palavras que a serem ditas mesmo malditas. Algo como falar a língua da vontade à vontade.
Melhor que cale um canto da boca pra ver se o canto do peito sufoca e se cala.
E se cala?
Sente. Não canta.
Pedaço
A carne pulsa. Sente fome. Busca. Demonstra-se, esparrama-se e, ao anoitecer, dispõe seus pedaços na bandeja de oferenda. Rende-se.
Carne não é fraca, carne não é trêmula. Carne é pedaço duro, rígido e tenro do mais impuro desejo.
Vem com sangue porque não se faz mundana e humana sem antes benzer-se de maculação.
O pecado da carne foi sempre sangrar e nunca morrer.
Tombo
Ele perde o compasso, cai nas ladainhas da razão, mas não desgruda o rosto do sorriso. Diante do penhasco, não sentiu desejo algum. Queda, ascensão? Não.
Lá, prestes a não mais se prestar à coisa alguma, preferiu sorrir e camuflar o nervosismo adolescente de um corpo mal transado.
Só foi até o tal pico para provar que seria capaz de besuntar os lábios gélidos e altos da morte com sua vivacidade leonina. Mas não voltou. Leão das montanhas. Não refez o caminho. Admitiu ter perdido sua principal guia: a vontade de sumir.
Digo
Insisto em acreditar que me faço entender por meio do silêncio.
Entre os possíveis muitos motivos existe um que merece atenção: quando não digo o que tenho para dizer, abro espaço para o "nada" acontecer. E então tudo se torna interessante.
Sou eu que respondo perguntas, invento passados e me divirto ao ditar futuros. Sou eu, tipo Deus.
Mudo para o mundo. Mas mudo acompanhado do meu silêncio.
Despertador
Foi-se o tempo em que para dormir bastava fechar os olhos. Agora, você, eu, nós todos passamos horas tentando reconquistar o desprendimento perdido. O dia acaba, os minutos se esgotam e seguimos atados à rotina incansável. Sempre alertas e vigilantes. Cambaleando exaustos entre garrafas e bitucas.
Nunca de olhos fechados.
Como desligar? Basta nem ligar. Boa n.
sábado, 18 de janeiro de 2014
Fim sem fim
As letras subiam lentamente, revelando nomes sobre nomes. Fiquei. O envolvimento com o enredo e seus personagens me prendeu. Na verdade, comoveu. E eu não me movi. Eles contaram sobre nós. Interpretaram uma vida que nunca vivemos ou partilhamos. Aquela história com fim sem fim.
Jurava que não sentiria mais nada. Que o sentimento havia amadurecido e dele não escorreria suco algum pra adocicar lábios e ideias. Muito menos pra lambuzar de desejo o sossego. O que antes era uma eterna manhã de chuva torrencial havia se tornado tarde de brisa suave, risadas que faziam o peito vibrar e um companheirismo fraternal. Meu coração, por sua vez, repetia que tudo não passava de encenação. E então decidiu se calar. Foi procurar algo para assistir e achou a cena que o levaria ao clímax da tristeza: num único frame, um beijo. O seu, não no meu. O seu, não o nosso.
A luz se encolheu no canto da parede para destacar os dois corpos mesclados. Vermelho e branco. Jogo de sombras pra me confundir. Mas de trevas eu entendo. Com toda a nitidez de um sentimento aguçado, observei o ato. De um lado, a razão rasgava um sorriso de alívio. Do outro, o amor - que só conjuga verbos no imperativo - soltou um bocejo de fome e desânimo que dizia "cale". Achei que não me surpreenderia com um roteiro tão previsível. Achei que fosse a chance de passar por meu batismo de fogo sem dar bênção às emoções de engano. Só que doeu como ontem e como sempre. Como se nunca tivesse deixado de doer. E a trilha sonora - antes tropical e animada - bateu nos meus ouvidos como carnaval decadente cujo primeiro dia de desfile já trazia as cinzas.
Corte.
O mesmo filme. Os mesmos papeis. Um roteiro conhecido por dois desconhecidos. Começou no meio pra nunca chegar ao fim.
Sem final feliz. Eu quis.
Jurava que não sentiria mais nada. Que o sentimento havia amadurecido e dele não escorreria suco algum pra adocicar lábios e ideias. Muito menos pra lambuzar de desejo o sossego. O que antes era uma eterna manhã de chuva torrencial havia se tornado tarde de brisa suave, risadas que faziam o peito vibrar e um companheirismo fraternal. Meu coração, por sua vez, repetia que tudo não passava de encenação. E então decidiu se calar. Foi procurar algo para assistir e achou a cena que o levaria ao clímax da tristeza: num único frame, um beijo. O seu, não no meu. O seu, não o nosso.
A luz se encolheu no canto da parede para destacar os dois corpos mesclados. Vermelho e branco. Jogo de sombras pra me confundir. Mas de trevas eu entendo. Com toda a nitidez de um sentimento aguçado, observei o ato. De um lado, a razão rasgava um sorriso de alívio. Do outro, o amor - que só conjuga verbos no imperativo - soltou um bocejo de fome e desânimo que dizia "cale". Achei que não me surpreenderia com um roteiro tão previsível. Achei que fosse a chance de passar por meu batismo de fogo sem dar bênção às emoções de engano. Só que doeu como ontem e como sempre. Como se nunca tivesse deixado de doer. E a trilha sonora - antes tropical e animada - bateu nos meus ouvidos como carnaval decadente cujo primeiro dia de desfile já trazia as cinzas.
Corte.
O mesmo filme. Os mesmos papeis. Um roteiro conhecido por dois desconhecidos. Começou no meio pra nunca chegar ao fim.
Sem final feliz. Eu quis.
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
Prove
Música alta. Abri mãos dos ouvidos e te segurei com os
olhos. Deslizei suavemente entre as vibrações do seu respirar e as batidas de
ambos os corações. Soei como uma melodia envolvente e te achei. Ali, tentando
acompanhar meus passos perdidos. Todo lugar esconde um ponto interessante a ser
observado. Todo lugar esconde um você e dois de mim. Um que sabe o que quer e
outros dois que camuflam a vontade. Todos ficam. Todos dançam.
Embriaguez. Timidez. Maciez. Ritmo. Respiração. E os corpos
entregues aos copos vazios. Cheios, transpirando sangue de alma – suor - e
calor. O calor. Um hálito de vulcão que estoura junto com a pulsação da
batida sonora. Música, amor em seu estado gasoso. Música e só. Todos cantam
juntos. Só e juntos.
O que meu olhar te disse:
“Pode me conduzir. Pode pegar a minha mão e fazer dela
ponteiro de bússola. Pode mudar a rota do meu navegar e parar em qualquer porto
liberto de mapa. Eu deixo, eu quero, eu me afogo se você prometer me encher de
água até que o magma se torne rocha, até que o quente suspire frio, até que meu
peito engula o pico vulcânico e se faça oceano. Pode me consumir. Antes que eu suma.”
O que o seu olhar me respondeu:
“Olhe pra mim. Isso. Continue, assim, sedento. Agora molhe os lábios, sopre o lado interno de sua bela camisa, mire o teto,
suba, e caia aqui, no meu sorriso rasgado de lado. Vou chegando aos poucos no
canto da sua vontade, pedindo licença ao desconhecido só pra ser recebido
assim, de cara. Agora me encara. E chama. Que eu vou aí soprar.”
Tempo o bastante para compor um refrão. Eu repito você. E
você me decora.
domingo, 3 de novembro de 2013
Não há cura para os verdadeiros corações partidos
Débora estava com Rômulo há três semanas. E há três semanas seus lábios eram pintados cuidadosamente de laranja - a cor mais sem graça de todas. Ela preferia assim. Ser simples, modesta e naturalmente maquiada. Ser paradoxo e Débora ao mesmo tempo. Rômulo, por sua vez, só reparou na cor interna da boca de Débora, vermelha, exageradamente adocicada e escura, como quarto de motel. Até então, tudo caminhava bem.
Ambos se distraiam e distraiam a si mesmos. Não havia compromisso timbrado pela moral, logo, traição fugia da tradição. Ela, Débora, precisava de alguém para beijar e, com as cortinas dos olhos fechadas, ser capaz de imaginar diante de si a novela da própria vida. Algo como uma forma eufemística de cumprir as exigências de um desconhecido - não de Rômulo, mas do seu inconsciente: aquele que operava sem as mãos e, até então, nunca errara na operação.
No entanto, Rômulo - que na condição de homem não se rendia ao sexismo do mundo e quebrava o esterótipo animalesco - sentia a presença da garota alaranjada ainda que não lhe causasse calafrios. Débora, para Rômulo, era um fim de tarde que poderia continuar aceso e elusivo, dispensando o sol e atrasando a lua. Estava tudo bem, eram apenas três parcelas de semana oriundas de uma vida pré-datada.
Eles se conheceram porque assim teve de ser. Festas em que a bebida cara não permite maiores desafios e só resta aos corpos dançantes arriscar na dose mais pontual, curta e grossa. Sem gelo, óbvio. Não houve cantada, abordagem na fila do banheiro ou troca de olhares no salão. Houve apenas desejo, tão puro e desprovido de cor quanto o gim no fundo do copo. A timidez, sábia aliada da cautela, fingiu ser charme e tanto Débora quanto Rômulo gozaram de uma cumplicidade silenciosa vulgo embriaguez. A regra era simples e clara como água: queima quando desce pela garganta, mas resplandece com maciez ao evaporar pelos olhos. Não tinha como não ser Débora e Rômulo. Impossível.
Os dias se passaram como ressaca. Ela sentia enjoo e uma forte angústia ao lembrar do rapaz. E ele, bem, tentava tirar o gosto dela da boca - para não confundi-la com um guarda-chuva cor de tangerina. Tomaram muita água e inundaram o coração. Rômulo tinha algo "a mais" com gostos e beijos. Débora parecia não ter temperado bem seus lábios untados de desânimo.
A terapeuta de Rômulo disse que ele deveria encontrar a tal de Débora mais vezes. E ele concordava. Quem discorda do terapeuta? Só aqueles que não pretendem gastar o dinheiro da sessão com outros placebos. Outros tipos de placebo, melhor dizendo. Lá estava ele, ouvindo todas as suas reclamações se voltarem contra seu próprio criador, travestidas de otimismo e franqueza. Otimismo é fraqueza, para ser mais direto. Nada pior, concordam?
Já Débora tinha Tadeu, aquele grande amigo de filme que é capaz de trocar sua roupa sem se quer tocar no seu corpo. Ou que sempre sabe o tempo exato que irão durar seus relacionamentos. Tadeu ama em silêncio, porque gosta de sofrer com razão. E disso nem terapeuta pode discordar: sofrer com razão é uma dádiva. O Mundo inteiro parece estar sob seus pés, não com semblante de servidão, mas como peso incômodo nas costas de Atlas. O Mundo sabe que é complicado e muito cansativo, e precisa se redimir. Trocas justas, argumentos compatíveis, finais infelizes. Eterno retorno etc.
Débora falou de Rômulo para Tadeu. Rômulo falou de Débora para Magnólia - sua terapeuta - e Tadeu, por sua vez, não falou nem de Débora nem de Rômulo. Falou de si mesmo durante os muitos textos soltos pelo chão do quarto. Tadeu era assim, um legítimo coração partido.
Na metade da segunda semana os três se encontraram. Débora queria algo mais do que beijos e suor. Rômulo também, porque sua terapeuta havia exigido isso. Só Tadeu que não queria nada, pois qualquer ganho lhe tiraria o álibi da dor.
Nenhum bar deveria ser descrito em textos. Veja, tal ato materializaria o ápice da redundância, então pulemos essa parte. Pedidos feitos - e vale lembrar que cada pedido, quando se trata de um primeiro encontro com terceiras intenções, define muito da postura que seu mandante irá desempenhar ao longo do ato -, cada um olhou para a mesa como se nela estivessem espalhados papeis preenchidos com todas as frases perfeitas para quem não sabe o que dizer. Franqueza: até sabiam, mas um "preciso ir embora" uníssono marcaria o fracasso tanto quanto os círculos cristalinos tatuavam o espaço ocupado pelos copos deslegantes. Nem queimaduras de cigarro salvariam o momento. Até porque ninguém fumava ali. Ou não havia começado a fumar.
- Bom ter vocês dois aqui.
- Verdade, já estava na hora de conhecer o Rômulo.
- A Débora fala de você a cada minuto.
(Pausa para que o 10º Arcano Maior se manifeste)
Clotho
A bebida fez seu trabalho. Nunca falha. Sempre falta. Sempre parece pouca e fraca. Mas nunca falha. Depois de ter os três afogados em seu porto, arrastou a tríade de corpos juvenis para um cais qualquer. Bastava apenas que o barco estivesse parado - assim náusea alguma quebraria a magia do clima ou copo em cima da cama.
Corpos em cima da cama. Outro caso que não devemos retratar: três jovens bêbados num quarto desconhecido - mas pago, e bem pago, diga-se de passagem. Não, não vamos descrever o cenário. Só os atos. Começou ali, entre lençóis e saliva, a vida. E agora vem o viver.
Lachesis
Débora tinha os braços de Rômulo. Tadeu dividia seu tronco com o de Débora. Os três se desconheciam por debaixo das roupas e nus desenhavam-se como cegos e seus dedos de pincel. Débora gostava da sensação de poder, de controlar o ritmo que não era dela e recuava apenas quando o disco pulava uma faixa e corria para a próxima, feito partido alto. Rômulo assumia o papel de macho alfa pelo prazer prometido ao macho ômega. Queria apenas sentir sem esforço, sem as mãos e as pernas. Só queria sentir. Tadeu era curioso. E curiosidade só se manifesta em silêncio. Ele não tinha preferência. Sabia que era o preferido.
Um arpão perfurava Tadeu; Rômulo sentia o abraço, sem braços, úmido, profundo e quente de Débora; Débora deslisava feito sereia pela proa lisa do abdome faminto de Tadeu; Rômulo sentia o beijo desajeitado de uma moreia a acariciar seus mamilos; Tadeu dava férias às mãos e as conduzia por duas ilhas perdidas no oceano de frenesi; os três se desconheciam o bastante para dizer quem era quem. Incapazes de definir quem queria o quê. Tudo era mar em tempos de maré constantemente cheia.
O presente, tão bem tecido por Lachesis, retumba como trovoada em dia ensolarado: não sabemos de onde vem, para onde vai, mais esperamos chuva - porque parece óbvio. Débora, Rômulo e Tadeu não sabem de onde vem o desejo pluvial, porém, têm plena certeza do resultado: a melhor noite de suas vidas premeditadas. Entretanto, e tanto mesmo - pois o tempo largou mão do trio e os deixou à vontade da vontade -, o amanhã sempre chega com uma cara de quem não foi convidado para a melhor festa de todas.
Atrópos
Só restou Rômulo. Morto de cansaço. Com todas as partes do seu corpo lhe cobrando satisfações. Um ranger muscular de fazer qualquer madeira se roer de inveja. Lamentavam os tendões, os ligamentos, as juntas, tudo. E era tão bom. Porque a dor também tem seus limites e quando os alcança, para. Para e contempla a sensação de ausência e anulação. Nos lençóis, só Rômulo e a adoração. A dor da ação de ontem.
Ele queria saber de quem era o gosto de cigarro em sua boca. Praticamente impossível. Nem Débora, nem Tadeu fumavam. Mas ele tinha certeza que apenas uma boca passou pela sua. O gingado do beijo tinha sido o mesmo durante toda a valsa. Uma língua incansável que não secava de jeito nenhum. Rastro? Algum rastro deixado para trás? A razão fez força, muita força, até detectar a bituca no alto do criado-mudo. Débora era a garota com os lábios alaranjados - bem insossos - e Tadeu, oras, não fumava nem se pintava com batom. Era mesmo importante descobrir quem o havia beijado durante toda a penumbra passada? Era, claro que era. A priori, o tom veraneio na ponta final do cigarro lembrava Débora. Contudo, ao conferir de perto, Rômulo percebeu que aquela era a cor de fabricação do filete cancerígeno. Débora e Tadeu eram a mesma pessoa no cigarro fumado. E que diferença fazia? Toda. Coração se marca com beijo, não com queimadura de bituca. O criado sabia de quem era o rastro, mas continuou mudo.
Moiras
Há três semanas, o destino, mão invisível que teatraliza a vida, escalou três pessoas para a cena final. Não cabia mais chorar pelo par, por Romeu e Julieta, por Eros e Psiquê. O drama exigia bem mais do que isso. Dessa vez, três.
O destino calou os lábios de Débora e tirou deles a cor patética.
O destino surrou Tadeu por dentro e lhe ensinou a gritar tão alto quanto o tesão, quanto seus pulmões virgens de nicotina - já não tão puros assim -, pudessem.
O destino partiu o coração de Rômulo que agora não era nem alfa nem ômega. Era épsilon Era sentença vazia. Era meio. Era cinco. Rodeado por uma dupla de extremos que não se permitia revelar-se nem mesmo num mísero fumo largado.
O destino surrou Tadeu por dentro e lhe ensinou a gritar tão alto quanto o tesão, quanto seus pulmões virgens de nicotina - já não tão puros assim -, pudessem.
O destino partiu o coração de Rômulo que agora não era nem alfa nem ômega. Era épsilon Era sentença vazia. Era meio. Era cinco. Rodeado por uma dupla de extremos que não se permitia revelar-se nem mesmo num mísero fumo largado.
Faz seis semanas que nenhum deles se falam.
Os verdadeiros corações partidos jamais se curam. Jamais se recuperam. Jamais se encontram novamente.
Batidos. Abatidos. Perdidos.
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Quando o diabo sussurra
Você nunca chafurdou no mal. Não, claro que não. Você teme e
treme, esfria e para, congela diante da porta – possibilidade e oportunidade.
Confunde ódio com raiva, da mesma forma que chama paixão de amor. Aquece só com
a patada na cara que disfarça e animosidade dividindo a palma em cinco dedos. Esquenta a cara, a face, a pele, o sangue, mas não toca o âmago. Ele
continua frio, temendo e tremendo. Ainda não estamos falando de “mal”, muito
menos de “eu”.
Violência, agressão, ferida exposta, ossos quebrados. Ainda
não estamos falando de “mal”, mas do fim da criatividade. Ele, o mal, é mais
astuto que isso – que as ações descaradamente humanas. Sorrateiro, filia-se ao silêncio
e maquia a própria cara com o pó do descaramento. Retrata em si mesmo um rosto
dócil e consciente, daqueles que têm o lábio umedecido com retórica. Tão
sedutor que dispensa o beijo. Vale só pela contemplação e pelo desejo. Mal não é medo. Causa medo.
Não se toca o mal, nem se mensura, nem se deseja. Só se
veste sem se ver. Tolice acreditar numa essência “má” ou “boa”. Essência é
ausência - necessidade de espaço vazio para ser pano branco e intocável. Pano de enxugar louça e não pra lustrar chão.
Pano feito pra ser pano e não trapo. Ele está ali, existe, faz seu papel – tão alvo quanto - de figuração, dita as regras, mas não se mistura. Não limpa
mancha de sangue nem dá contorno à cadáver esquecido. Entende? O mal só está. Nós é que fazemos. E
somos. Não maus, mas humanos. O mal, quanto não está, faz-se.
Calar vontade invoca o mal. Realizar vontade faz mal.
Mal nasci
Já desci
Para ver o que me esperava
na sola da pureza
nada
estrada
vida
placa errada
caminho imposto
desgosto
mal cresci
já sumi
para esquecer o que me chamava
tudo
família
vida
passada marcada
rua inóspita
esboços
mal escolhi
já perdi
pra aprender
que autonomia
não cabia
nem nunca coube
na alegria
verdadeira agonia
que anuncia o fim
de mim
mal acabado.
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