Dezembro de 2013, Paraty - RJ.
Partir
Sair. Permitir-se partir. Ir. E voltar para quê? Para quem? Nunca se sabe. Ainda assim, deseja-se ser.
Ser para crer. A experiência que preenche parte do que chamo de "ter". Só tenho memória, só o que vivi e experienciei. No mais, sempre falta.
Ser vivo pra sair de si e andar por aí. Parte ficar. Parte ir.
Língua
Seu idioma, suas escolhas e a cor azul insistindo em destacar seus olhos transcendem o "não saber o que dizer". Emudecem pela quantidade absurda de palavras que a serem ditas mesmo malditas. Algo como falar a língua da vontade à vontade.
Melhor que cale um canto da boca pra ver se o canto do peito sufoca e se cala.
E se cala?
Sente. Não canta.
Pedaço
A carne pulsa. Sente fome. Busca. Demonstra-se, esparrama-se e, ao anoitecer, dispõe seus pedaços na bandeja de oferenda. Rende-se.
Carne não é fraca, carne não é trêmula. Carne é pedaço duro, rígido e tenro do mais impuro desejo.
Vem com sangue porque não se faz mundana e humana sem antes benzer-se de maculação.
O pecado da carne foi sempre sangrar e nunca morrer.
Tombo
Ele perde o compasso, cai nas ladainhas da razão, mas não desgruda o rosto do sorriso. Diante do penhasco, não sentiu desejo algum. Queda, ascensão? Não.
Lá, prestes a não mais se prestar à coisa alguma, preferiu sorrir e camuflar o nervosismo adolescente de um corpo mal transado.
Só foi até o tal pico para provar que seria capaz de besuntar os lábios gélidos e altos da morte com sua vivacidade leonina. Mas não voltou. Leão das montanhas. Não refez o caminho. Admitiu ter perdido sua principal guia: a vontade de sumir.
Digo
Insisto em acreditar que me faço entender por meio do silêncio.
Entre os possíveis muitos motivos existe um que merece atenção: quando não digo o que tenho para dizer, abro espaço para o "nada" acontecer. E então tudo se torna interessante.
Sou eu que respondo perguntas, invento passados e me divirto ao ditar futuros. Sou eu, tipo Deus.
Mudo para o mundo. Mas mudo acompanhado do meu silêncio.
Despertador
Foi-se o tempo em que para dormir bastava fechar os olhos. Agora, você, eu, nós todos passamos horas tentando reconquistar o desprendimento perdido. O dia acaba, os minutos se esgotam e seguimos atados à rotina incansável. Sempre alertas e vigilantes. Cambaleando exaustos entre garrafas e bitucas.
Nunca de olhos fechados.
Como desligar? Basta nem ligar. Boa n.
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
sábado, 18 de janeiro de 2014
Fim sem fim
As letras subiam lentamente, revelando nomes sobre nomes. Fiquei. O envolvimento com o enredo e seus personagens me prendeu. Na verdade, comoveu. E eu não me movi. Eles contaram sobre nós. Interpretaram uma vida que nunca vivemos ou partilhamos. Aquela história com fim sem fim.
Jurava que não sentiria mais nada. Que o sentimento havia amadurecido e dele não escorreria suco algum pra adocicar lábios e ideias. Muito menos pra lambuzar de desejo o sossego. O que antes era uma eterna manhã de chuva torrencial havia se tornado tarde de brisa suave, risadas que faziam o peito vibrar e um companheirismo fraternal. Meu coração, por sua vez, repetia que tudo não passava de encenação. E então decidiu se calar. Foi procurar algo para assistir e achou a cena que o levaria ao clímax da tristeza: num único frame, um beijo. O seu, não no meu. O seu, não o nosso.
A luz se encolheu no canto da parede para destacar os dois corpos mesclados. Vermelho e branco. Jogo de sombras pra me confundir. Mas de trevas eu entendo. Com toda a nitidez de um sentimento aguçado, observei o ato. De um lado, a razão rasgava um sorriso de alívio. Do outro, o amor - que só conjuga verbos no imperativo - soltou um bocejo de fome e desânimo que dizia "cale". Achei que não me surpreenderia com um roteiro tão previsível. Achei que fosse a chance de passar por meu batismo de fogo sem dar bênção às emoções de engano. Só que doeu como ontem e como sempre. Como se nunca tivesse deixado de doer. E a trilha sonora - antes tropical e animada - bateu nos meus ouvidos como carnaval decadente cujo primeiro dia de desfile já trazia as cinzas.
Corte.
O mesmo filme. Os mesmos papeis. Um roteiro conhecido por dois desconhecidos. Começou no meio pra nunca chegar ao fim.
Sem final feliz. Eu quis.
Jurava que não sentiria mais nada. Que o sentimento havia amadurecido e dele não escorreria suco algum pra adocicar lábios e ideias. Muito menos pra lambuzar de desejo o sossego. O que antes era uma eterna manhã de chuva torrencial havia se tornado tarde de brisa suave, risadas que faziam o peito vibrar e um companheirismo fraternal. Meu coração, por sua vez, repetia que tudo não passava de encenação. E então decidiu se calar. Foi procurar algo para assistir e achou a cena que o levaria ao clímax da tristeza: num único frame, um beijo. O seu, não no meu. O seu, não o nosso.
A luz se encolheu no canto da parede para destacar os dois corpos mesclados. Vermelho e branco. Jogo de sombras pra me confundir. Mas de trevas eu entendo. Com toda a nitidez de um sentimento aguçado, observei o ato. De um lado, a razão rasgava um sorriso de alívio. Do outro, o amor - que só conjuga verbos no imperativo - soltou um bocejo de fome e desânimo que dizia "cale". Achei que não me surpreenderia com um roteiro tão previsível. Achei que fosse a chance de passar por meu batismo de fogo sem dar bênção às emoções de engano. Só que doeu como ontem e como sempre. Como se nunca tivesse deixado de doer. E a trilha sonora - antes tropical e animada - bateu nos meus ouvidos como carnaval decadente cujo primeiro dia de desfile já trazia as cinzas.
Corte.
O mesmo filme. Os mesmos papeis. Um roteiro conhecido por dois desconhecidos. Começou no meio pra nunca chegar ao fim.
Sem final feliz. Eu quis.
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
Prove
Música alta. Abri mãos dos ouvidos e te segurei com os
olhos. Deslizei suavemente entre as vibrações do seu respirar e as batidas de
ambos os corações. Soei como uma melodia envolvente e te achei. Ali, tentando
acompanhar meus passos perdidos. Todo lugar esconde um ponto interessante a ser
observado. Todo lugar esconde um você e dois de mim. Um que sabe o que quer e
outros dois que camuflam a vontade. Todos ficam. Todos dançam.
Embriaguez. Timidez. Maciez. Ritmo. Respiração. E os corpos
entregues aos copos vazios. Cheios, transpirando sangue de alma – suor - e
calor. O calor. Um hálito de vulcão que estoura junto com a pulsação da
batida sonora. Música, amor em seu estado gasoso. Música e só. Todos cantam
juntos. Só e juntos.
O que meu olhar te disse:
“Pode me conduzir. Pode pegar a minha mão e fazer dela
ponteiro de bússola. Pode mudar a rota do meu navegar e parar em qualquer porto
liberto de mapa. Eu deixo, eu quero, eu me afogo se você prometer me encher de
água até que o magma se torne rocha, até que o quente suspire frio, até que meu
peito engula o pico vulcânico e se faça oceano. Pode me consumir. Antes que eu suma.”
O que o seu olhar me respondeu:
“Olhe pra mim. Isso. Continue, assim, sedento. Agora molhe os lábios, sopre o lado interno de sua bela camisa, mire o teto,
suba, e caia aqui, no meu sorriso rasgado de lado. Vou chegando aos poucos no
canto da sua vontade, pedindo licença ao desconhecido só pra ser recebido
assim, de cara. Agora me encara. E chama. Que eu vou aí soprar.”
Tempo o bastante para compor um refrão. Eu repito você. E
você me decora.
domingo, 3 de novembro de 2013
Não há cura para os verdadeiros corações partidos
Débora estava com Rômulo há três semanas. E há três semanas seus lábios eram pintados cuidadosamente de laranja - a cor mais sem graça de todas. Ela preferia assim. Ser simples, modesta e naturalmente maquiada. Ser paradoxo e Débora ao mesmo tempo. Rômulo, por sua vez, só reparou na cor interna da boca de Débora, vermelha, exageradamente adocicada e escura, como quarto de motel. Até então, tudo caminhava bem.
Ambos se distraiam e distraiam a si mesmos. Não havia compromisso timbrado pela moral, logo, traição fugia da tradição. Ela, Débora, precisava de alguém para beijar e, com as cortinas dos olhos fechadas, ser capaz de imaginar diante de si a novela da própria vida. Algo como uma forma eufemística de cumprir as exigências de um desconhecido - não de Rômulo, mas do seu inconsciente: aquele que operava sem as mãos e, até então, nunca errara na operação.
No entanto, Rômulo - que na condição de homem não se rendia ao sexismo do mundo e quebrava o esterótipo animalesco - sentia a presença da garota alaranjada ainda que não lhe causasse calafrios. Débora, para Rômulo, era um fim de tarde que poderia continuar aceso e elusivo, dispensando o sol e atrasando a lua. Estava tudo bem, eram apenas três parcelas de semana oriundas de uma vida pré-datada.
Eles se conheceram porque assim teve de ser. Festas em que a bebida cara não permite maiores desafios e só resta aos corpos dançantes arriscar na dose mais pontual, curta e grossa. Sem gelo, óbvio. Não houve cantada, abordagem na fila do banheiro ou troca de olhares no salão. Houve apenas desejo, tão puro e desprovido de cor quanto o gim no fundo do copo. A timidez, sábia aliada da cautela, fingiu ser charme e tanto Débora quanto Rômulo gozaram de uma cumplicidade silenciosa vulgo embriaguez. A regra era simples e clara como água: queima quando desce pela garganta, mas resplandece com maciez ao evaporar pelos olhos. Não tinha como não ser Débora e Rômulo. Impossível.
Os dias se passaram como ressaca. Ela sentia enjoo e uma forte angústia ao lembrar do rapaz. E ele, bem, tentava tirar o gosto dela da boca - para não confundi-la com um guarda-chuva cor de tangerina. Tomaram muita água e inundaram o coração. Rômulo tinha algo "a mais" com gostos e beijos. Débora parecia não ter temperado bem seus lábios untados de desânimo.
A terapeuta de Rômulo disse que ele deveria encontrar a tal de Débora mais vezes. E ele concordava. Quem discorda do terapeuta? Só aqueles que não pretendem gastar o dinheiro da sessão com outros placebos. Outros tipos de placebo, melhor dizendo. Lá estava ele, ouvindo todas as suas reclamações se voltarem contra seu próprio criador, travestidas de otimismo e franqueza. Otimismo é fraqueza, para ser mais direto. Nada pior, concordam?
Já Débora tinha Tadeu, aquele grande amigo de filme que é capaz de trocar sua roupa sem se quer tocar no seu corpo. Ou que sempre sabe o tempo exato que irão durar seus relacionamentos. Tadeu ama em silêncio, porque gosta de sofrer com razão. E disso nem terapeuta pode discordar: sofrer com razão é uma dádiva. O Mundo inteiro parece estar sob seus pés, não com semblante de servidão, mas como peso incômodo nas costas de Atlas. O Mundo sabe que é complicado e muito cansativo, e precisa se redimir. Trocas justas, argumentos compatíveis, finais infelizes. Eterno retorno etc.
Débora falou de Rômulo para Tadeu. Rômulo falou de Débora para Magnólia - sua terapeuta - e Tadeu, por sua vez, não falou nem de Débora nem de Rômulo. Falou de si mesmo durante os muitos textos soltos pelo chão do quarto. Tadeu era assim, um legítimo coração partido.
Na metade da segunda semana os três se encontraram. Débora queria algo mais do que beijos e suor. Rômulo também, porque sua terapeuta havia exigido isso. Só Tadeu que não queria nada, pois qualquer ganho lhe tiraria o álibi da dor.
Nenhum bar deveria ser descrito em textos. Veja, tal ato materializaria o ápice da redundância, então pulemos essa parte. Pedidos feitos - e vale lembrar que cada pedido, quando se trata de um primeiro encontro com terceiras intenções, define muito da postura que seu mandante irá desempenhar ao longo do ato -, cada um olhou para a mesa como se nela estivessem espalhados papeis preenchidos com todas as frases perfeitas para quem não sabe o que dizer. Franqueza: até sabiam, mas um "preciso ir embora" uníssono marcaria o fracasso tanto quanto os círculos cristalinos tatuavam o espaço ocupado pelos copos deslegantes. Nem queimaduras de cigarro salvariam o momento. Até porque ninguém fumava ali. Ou não havia começado a fumar.
- Bom ter vocês dois aqui.
- Verdade, já estava na hora de conhecer o Rômulo.
- A Débora fala de você a cada minuto.
(Pausa para que o 10º Arcano Maior se manifeste)
Clotho
A bebida fez seu trabalho. Nunca falha. Sempre falta. Sempre parece pouca e fraca. Mas nunca falha. Depois de ter os três afogados em seu porto, arrastou a tríade de corpos juvenis para um cais qualquer. Bastava apenas que o barco estivesse parado - assim náusea alguma quebraria a magia do clima ou copo em cima da cama.
Corpos em cima da cama. Outro caso que não devemos retratar: três jovens bêbados num quarto desconhecido - mas pago, e bem pago, diga-se de passagem. Não, não vamos descrever o cenário. Só os atos. Começou ali, entre lençóis e saliva, a vida. E agora vem o viver.
Lachesis
Débora tinha os braços de Rômulo. Tadeu dividia seu tronco com o de Débora. Os três se desconheciam por debaixo das roupas e nus desenhavam-se como cegos e seus dedos de pincel. Débora gostava da sensação de poder, de controlar o ritmo que não era dela e recuava apenas quando o disco pulava uma faixa e corria para a próxima, feito partido alto. Rômulo assumia o papel de macho alfa pelo prazer prometido ao macho ômega. Queria apenas sentir sem esforço, sem as mãos e as pernas. Só queria sentir. Tadeu era curioso. E curiosidade só se manifesta em silêncio. Ele não tinha preferência. Sabia que era o preferido.
Um arpão perfurava Tadeu; Rômulo sentia o abraço, sem braços, úmido, profundo e quente de Débora; Débora deslisava feito sereia pela proa lisa do abdome faminto de Tadeu; Rômulo sentia o beijo desajeitado de uma moreia a acariciar seus mamilos; Tadeu dava férias às mãos e as conduzia por duas ilhas perdidas no oceano de frenesi; os três se desconheciam o bastante para dizer quem era quem. Incapazes de definir quem queria o quê. Tudo era mar em tempos de maré constantemente cheia.
O presente, tão bem tecido por Lachesis, retumba como trovoada em dia ensolarado: não sabemos de onde vem, para onde vai, mais esperamos chuva - porque parece óbvio. Débora, Rômulo e Tadeu não sabem de onde vem o desejo pluvial, porém, têm plena certeza do resultado: a melhor noite de suas vidas premeditadas. Entretanto, e tanto mesmo - pois o tempo largou mão do trio e os deixou à vontade da vontade -, o amanhã sempre chega com uma cara de quem não foi convidado para a melhor festa de todas.
Atrópos
Só restou Rômulo. Morto de cansaço. Com todas as partes do seu corpo lhe cobrando satisfações. Um ranger muscular de fazer qualquer madeira se roer de inveja. Lamentavam os tendões, os ligamentos, as juntas, tudo. E era tão bom. Porque a dor também tem seus limites e quando os alcança, para. Para e contempla a sensação de ausência e anulação. Nos lençóis, só Rômulo e a adoração. A dor da ação de ontem.
Ele queria saber de quem era o gosto de cigarro em sua boca. Praticamente impossível. Nem Débora, nem Tadeu fumavam. Mas ele tinha certeza que apenas uma boca passou pela sua. O gingado do beijo tinha sido o mesmo durante toda a valsa. Uma língua incansável que não secava de jeito nenhum. Rastro? Algum rastro deixado para trás? A razão fez força, muita força, até detectar a bituca no alto do criado-mudo. Débora era a garota com os lábios alaranjados - bem insossos - e Tadeu, oras, não fumava nem se pintava com batom. Era mesmo importante descobrir quem o havia beijado durante toda a penumbra passada? Era, claro que era. A priori, o tom veraneio na ponta final do cigarro lembrava Débora. Contudo, ao conferir de perto, Rômulo percebeu que aquela era a cor de fabricação do filete cancerígeno. Débora e Tadeu eram a mesma pessoa no cigarro fumado. E que diferença fazia? Toda. Coração se marca com beijo, não com queimadura de bituca. O criado sabia de quem era o rastro, mas continuou mudo.
Moiras
Há três semanas, o destino, mão invisível que teatraliza a vida, escalou três pessoas para a cena final. Não cabia mais chorar pelo par, por Romeu e Julieta, por Eros e Psiquê. O drama exigia bem mais do que isso. Dessa vez, três.
O destino calou os lábios de Débora e tirou deles a cor patética.
O destino surrou Tadeu por dentro e lhe ensinou a gritar tão alto quanto o tesão, quanto seus pulmões virgens de nicotina - já não tão puros assim -, pudessem.
O destino partiu o coração de Rômulo que agora não era nem alfa nem ômega. Era épsilon Era sentença vazia. Era meio. Era cinco. Rodeado por uma dupla de extremos que não se permitia revelar-se nem mesmo num mísero fumo largado.
O destino surrou Tadeu por dentro e lhe ensinou a gritar tão alto quanto o tesão, quanto seus pulmões virgens de nicotina - já não tão puros assim -, pudessem.
O destino partiu o coração de Rômulo que agora não era nem alfa nem ômega. Era épsilon Era sentença vazia. Era meio. Era cinco. Rodeado por uma dupla de extremos que não se permitia revelar-se nem mesmo num mísero fumo largado.
Faz seis semanas que nenhum deles se falam.
Os verdadeiros corações partidos jamais se curam. Jamais se recuperam. Jamais se encontram novamente.
Batidos. Abatidos. Perdidos.
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Quando o diabo sussurra
Você nunca chafurdou no mal. Não, claro que não. Você teme e
treme, esfria e para, congela diante da porta – possibilidade e oportunidade.
Confunde ódio com raiva, da mesma forma que chama paixão de amor. Aquece só com
a patada na cara que disfarça e animosidade dividindo a palma em cinco dedos. Esquenta a cara, a face, a pele, o sangue, mas não toca o âmago. Ele
continua frio, temendo e tremendo. Ainda não estamos falando de “mal”, muito
menos de “eu”.
Violência, agressão, ferida exposta, ossos quebrados. Ainda
não estamos falando de “mal”, mas do fim da criatividade. Ele, o mal, é mais
astuto que isso – que as ações descaradamente humanas. Sorrateiro, filia-se ao silêncio
e maquia a própria cara com o pó do descaramento. Retrata em si mesmo um rosto
dócil e consciente, daqueles que têm o lábio umedecido com retórica. Tão
sedutor que dispensa o beijo. Vale só pela contemplação e pelo desejo. Mal não é medo. Causa medo.
Não se toca o mal, nem se mensura, nem se deseja. Só se
veste sem se ver. Tolice acreditar numa essência “má” ou “boa”. Essência é
ausência - necessidade de espaço vazio para ser pano branco e intocável. Pano de enxugar louça e não pra lustrar chão.
Pano feito pra ser pano e não trapo. Ele está ali, existe, faz seu papel – tão alvo quanto - de figuração, dita as regras, mas não se mistura. Não limpa
mancha de sangue nem dá contorno à cadáver esquecido. Entende? O mal só está. Nós é que fazemos. E
somos. Não maus, mas humanos. O mal, quanto não está, faz-se.
Calar vontade invoca o mal. Realizar vontade faz mal.
Mal nasci
Já desci
Para ver o que me esperava
na sola da pureza
nada
estrada
vida
placa errada
caminho imposto
desgosto
mal cresci
já sumi
para esquecer o que me chamava
tudo
família
vida
passada marcada
rua inóspita
esboços
mal escolhi
já perdi
pra aprender
que autonomia
não cabia
nem nunca coube
na alegria
verdadeira agonia
que anuncia o fim
de mim
mal acabado.
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
Bem antes, já era mal agora
No fundo, eu deveria ter te agradecido. Dito “obrigado por
ter me feito sentir assim, tão profundamente” e ter abandonado, de uma vez por
todas – ou pelo menos dessa vez – o conceito de “bom” e “ruim”, de “realização” e “decepção”.
Mas eu me calei. Foi o que sobrou. Na verdade, eu sempre te disse que o
silêncio era a melhor parte de mim. Por isso que eu fui sem dizer adeus, mas
juro que lembrei do seu rosto antes de fechar os olhos e dormir o nosso último
sono juntos.
O dia seguinte não seguiu. Parou e recomeçou. E renovado eu
me vi, ali, diante de mim, vestindo aquele velho vazio. Despido de motivos.
Respirar. Lavar o rosto. Não dizer “bom dia”, mas no fundo
saber que não se trata de um dia tão ruim assim. É ruim por natureza, então só
me resta aceitar. Saudades? Pode ser. Mas não é só isso. Num dia você é motivo
de sorriso. Num dia, sem mover um músculo, você é capaz de erguer o coração de
alguém até que arranhe o céu e respire livremente fora do peito. No outro você
é apenas você. Um.
E as lembranças são chatas. Bem chatas, para ser franco.
Porque eu lembro e lamento, claro, sem medo de parecer clichê. Só que lá no
fundo da mente, onde razão e emoção podem andar de mãos dadas sem medo de
julgamentos, posso ouvir algo a me dizer: “a falta também faz falta”. E eu
senti sua falta sim. Bastante. Porque você cobria alguns bons abismos. Enfim,
não é tão doloroso. Apenas me faz escrever.
E mesmo que você já não tenha mais nome ou rosto e eu
desconheça o formato dos seus pés, gostaria de lhe dizer algumas palavras que
alteram o passado e o transformam em algo bonito. Pelo menos eu acho bonito...
“Antes de fazer as malas, olhe para o zíper, veja se ele não
irá se prender em nada e então o feche. Confira a lista que eu deixei sobre sua
cama. Nela estão todos os itens que você não pode esquecer. Isso me ajudará a
te esquecer.
Antes de erguer sua mala, sinta o peso dela e tenha plena
certeza de que aguentará carregá-la até a porta – onde mora a saída. Se os seus
braços doerem, não me peça para lhe ajudar, afinal, os meus estão exaustos e já
sentem falta do seu abraço. Tenha força, pois eu também serei obrigado a ter.
Pelo menos daqui para frente.
Antes de abrir a porta, confira o molho e separe aquela chave
que abriu nosso mundo durante todo esse tempo. Destaque-a das demais, já que
ela também destrancava o caminho até a felicidade. E por muitas vezes me
impediu de entrar no seu peito ou te deixar sair dos meus lábios. Estamos fechados
para sempre. E esse Sempre tem que durar tempo o bastante para que eu troque as
fechaduras.
Antes de me olhar pela última vez, certifique-se de que não
está levando meu nome contigo. Por favor, preciso que você o esqueça antes
mesmo da mala ou da chave. Digo isso porque não há mais nada a ser preservado,
o que inclui minha existência na sua insistência. Se puder, volte a usar o “eu”
nas suas frases e deixe o “nós” para outro dia... Ou ano, não sei. E se eu te
pedir para me chamar, seja firme e me responda com o que há de mais sincero no
último “nós” que nos resta: o silêncio.
Boa viagem. Vá ser feliz.”
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Finca
“O que acontece com você, garoto?”, perguntou a senhora. “Nada”,
respondeu-a sem erguer os olhos.
O que acontece aqui dentro? Por que simplesmente não
consigo...? Não consigo... Fico e finco lentamente uma adaga abaixo da terceira
costela à esquerda do tronco. Finco cada vez mais. Cai o fruto, o fruto
pulsante e avermelhado do galho seco no qual pendurei minhas dúvidas. Cai o
fruto da incerteza, suculento de saber. Mas é minha boca que desconhece o
gosto. Ela não foi educada pra degustar, assim como eu desaprendi a gostar dos
outros. Gosto do que os outros me oferecem. Seja fruta ou adaga, o que me
importa é a textura, o toque, o ruído da mordida doída, os olhos se semeando e
as raízes se entrelaçando numa dança milenar que não tira os pés do chão.
Finca-os. Aqui dentro. Porque simplesmente eu insisto... Sim, insisto... Afundo
e fundo minha pele a de outros, rapidamente, feito veneno no sangue, misturado,
confortável e silencioso. Afundo e fundo cada vez mais as palmas das mãos no
peito terroso e rachado de cicatrizes. Fundo-me. Sou dois. Sou solo, chão para
o par de pés. Sou solo em dois, fundo, tão fundo que me sinto assim, distante
de todos. Inclusive de mim.
Não consigo menos.
(...)
Eu pulso como um vulcão. Pulso mais do que muitos que gritam e que choram ou fazem declarações aos quatro ventos. Eu juro que eu pulso. Mas pulsação é silêncio. É um querer subcutâneo que só se faz na transpiração da alma. Na sutileza de uma ou duas palavras pontuais...
Esse meu silêncio é vulcão adormecido. É erupção paciente... Mas eu pulso. Eu juro.
Abaixo da crosta que faz berço no meu peito existe um coração de magma... Quente demais... Inquieto. Mas quieto. Dormindo o sono dos pacientes.Porque inocente ninguém é. E se fosse, jamais dormiria tanto tempo.
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
Dentro do mundo
As paredes eram estreitas, mas confortáveis. Eu sentia ela
respirando, vagarosamente, num ninar suave que me tranquilizava. Ainda não
tinha palavras para definir nada, nem a mim, mas o coração já batia e grafava
no sangue meu nome, meu sobrenome e minhas futuras broncas. Estava no centro do
mundo, cercado pelas bordas de algo maior, bem maior do que os meus olhos
fechados podiam imaginar. Às vezes algo me pressionava de leve, como se tocasse delicadamente. Nesse instante, o corpo transparente se enchia de vida e
o recém-nascido carinho justificava minha existência. O tal mundo era desconhecido para
mim, mas já sabia que sem ele eu não teria lugar nos muitos lugares que viria a
conhecer.
Desconhecia frio, fome e luz. Nas trevas do tempo, aprendi a
esperar pelo inesperado, como promessa feita à base de amor que, mesmo sem se
realizar, já garantia a dose vitamínica de expectativa. Dose esta que nos faz nascer,
crescer e morrer. Nem poderia explicar como esses pensamentos cabiam numa
cabeça ainda tão pequena e vazia. Mas como medir o tamanho do vácuo que se
encontra em nossas mentes? Na minha, eu era gigante, um titã adormecido no
ventre da Terra.
Terra. Já havia um nome. Não se tratava mais de “mundo”. Era
Terra. Base, chão, força, concreto, material, era tocável. Possível. Essa Terra
me carregava com dores nos joelhos e costelas, e prazer no rosto e nas
palavras. Suspirava por dois, com medo de que me faltasse ar. Admirava meu
rosto e chorava sempre... Eu sei porque seu soluço agitava minha cabeça como
terremoto. Era bonito e bom.
E esse mesmo choro também desabava como chuva. Meu espírito,
ou aquilo que dentro de mim é intangível, atingia um estado letárgico no qual
bastava estar vivo para se sentir ser. E eu era dela, da Terra.
Sem mundo. Sem terra. Só com minha mãe a me criar.
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Sobre sobras e camilas
Injustamente, as sobras recebem sempre um canto, um espaço vago pelo acaso, um saco ou uma vala qualquer para residir. Justamente porque o resto do mundo se esquece de que sobra é excesso, é fruto do que transbordou, é a prova de algo um dia foi abundante e constante.
Das sobras de si mesma nasceu a Fênix. Das sobras de si mesmo estruturou-se o universo. Das sobras sobramos nós, excesso do desconhecido. E dos farelos de quem não cultiva crença nascem sobras e argumentos para justificar a existência autônoma.
Sobra, porque não nos permitimos mais faltar. E fazer falta.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
O complexo vem sem medo
Perdi a conta de quantas calçadas eu precisei me perder para
te achar, assim, numa esquina, fantasiado de fumaça – todo cheio de graça. Completamente
indisponível, como último cigarro do maço, mas pronto pra caber entre os meus
lábios. Indispensável.
Perdi as contas de quantas vezes eu achei que duas pessoas
somadas se tornariam apenas uma. Perdi a conta, mas não perdi o texto. Nem o desespero. Nem você.
Amigos e mais amigos perderam a conta de quantas vezes me
disseram: “Quando você menos esperar, ele vai aparecer”. E eu passava a esperar
mais ainda, com vontade de ter só porque era assim que meu coração dizia que
tinha que ser. Passei por filas, vagões, assentos de ônibus, mesas de bar, por
tudo o que pude. Mas eu passava e olhava, sem ver nada. Quando vi, parei,
pensei e não fiz nada. É assim que funciona: quando eu menos espero, mais me
desespero e palavra nenhuma pega carona na fala. Na ponta da língua não sobrou
frase feita muito menos perfeita. Na ponta da língua só a boca selada. Então o
peito se enche de coragem e pede pra gritar. O berro sai da ponta dos dedos
que, sem educação nenhuma pede pra tocar seu rosto e desenhar as quatro linhas
do seu queixo quadrado.
Quem dera todas as relações começassem assim, no silêncio.
Na simplicidade do olhar que não tem nada de puro e já deixa claro – “ilusão de
ótica, cegueira sentimental, miopia racional, astigmatismo estético“. Eu me dei
de presente a chance de ser enganado, afinal, é mais simples não viver e
interpretar o protagonista da própria vida, decidir - por meio de um falso
roteiro – quem vai beber do mesmo copo que a decepção. E o simples se resume em
ressaca. O complexo vem sem gelo. Sem medo.
Toque
Respiração
Aperto de mão
Perfume forte
Beijo na barba
Atrição
Golpe
Abraço de alma
Duas costelas
Dois Adãos
Sua mão
A minha sobre ela
Porta aberta, cama bagunçada, cinzeiros no lugar de vasos. Você,
eu, minha casa desconhecida - aberta para um conhecido -, no lugar de conversas.
Não fiz sala – não havia sala pra se fazer, apenas um sofá disputando espaço
com as garrafas -, só mantive o silêncio.
Janela aberta pra rua do céu. Nela, a lua mostrava metade do
rosto. A outra metade estava colada no topo da minha boca, de olhos fechados e
mordidas cadentes.
Cedo ou tarde um de nós virará a esquina. E não vale a pena
esperar. Não vale a pena dizer qualquer palavra.
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