quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Sobre sobras e camilas
Injustamente, as sobras recebem sempre um canto, um espaço vago pelo acaso, um saco ou uma vala qualquer para residir. Justamente porque o resto do mundo se esquece de que sobra é excesso, é fruto do que transbordou, é a prova de algo um dia foi abundante e constante.
Das sobras de si mesma nasceu a Fênix. Das sobras de si mesmo estruturou-se o universo. Das sobras sobramos nós, excesso do desconhecido. E dos farelos de quem não cultiva crença nascem sobras e argumentos para justificar a existência autônoma.
Sobra, porque não nos permitimos mais faltar. E fazer falta.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
O complexo vem sem medo
Perdi a conta de quantas calçadas eu precisei me perder para
te achar, assim, numa esquina, fantasiado de fumaça – todo cheio de graça. Completamente
indisponível, como último cigarro do maço, mas pronto pra caber entre os meus
lábios. Indispensável.
Perdi as contas de quantas vezes eu achei que duas pessoas
somadas se tornariam apenas uma. Perdi a conta, mas não perdi o texto. Nem o desespero. Nem você.
Amigos e mais amigos perderam a conta de quantas vezes me
disseram: “Quando você menos esperar, ele vai aparecer”. E eu passava a esperar
mais ainda, com vontade de ter só porque era assim que meu coração dizia que
tinha que ser. Passei por filas, vagões, assentos de ônibus, mesas de bar, por
tudo o que pude. Mas eu passava e olhava, sem ver nada. Quando vi, parei,
pensei e não fiz nada. É assim que funciona: quando eu menos espero, mais me
desespero e palavra nenhuma pega carona na fala. Na ponta da língua não sobrou
frase feita muito menos perfeita. Na ponta da língua só a boca selada. Então o
peito se enche de coragem e pede pra gritar. O berro sai da ponta dos dedos
que, sem educação nenhuma pede pra tocar seu rosto e desenhar as quatro linhas
do seu queixo quadrado.
Quem dera todas as relações começassem assim, no silêncio.
Na simplicidade do olhar que não tem nada de puro e já deixa claro – “ilusão de
ótica, cegueira sentimental, miopia racional, astigmatismo estético“. Eu me dei
de presente a chance de ser enganado, afinal, é mais simples não viver e
interpretar o protagonista da própria vida, decidir - por meio de um falso
roteiro – quem vai beber do mesmo copo que a decepção. E o simples se resume em
ressaca. O complexo vem sem gelo. Sem medo.
Toque
Respiração
Aperto de mão
Perfume forte
Beijo na barba
Atrição
Golpe
Abraço de alma
Duas costelas
Dois Adãos
Sua mão
A minha sobre ela
Porta aberta, cama bagunçada, cinzeiros no lugar de vasos. Você,
eu, minha casa desconhecida - aberta para um conhecido -, no lugar de conversas.
Não fiz sala – não havia sala pra se fazer, apenas um sofá disputando espaço
com as garrafas -, só mantive o silêncio.
Janela aberta pra rua do céu. Nela, a lua mostrava metade do
rosto. A outra metade estava colada no topo da minha boca, de olhos fechados e
mordidas cadentes.
Cedo ou tarde um de nós virará a esquina. E não vale a pena
esperar. Não vale a pena dizer qualquer palavra.
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
Os garotos sempre estarão aqui!
Creio que nunca cedi espaço aqui para que outra pessoa fizesse de suas palavras as minhas.
Contudo, dividi um momento único e valioso que não cabeira apenas nas minhas frases.
Obrigado, Diego Torres. Agora você estará sempre aqui.
Estão abertas as cortinas para o portal. Eis que o ritual para a libertação comum começa. Movimentam-se os corpos sedentos por um pingo verdade.
São rápidos, violentos e amorosos.
Comunitariamente serenos em sua visceralidade. Complacentes. Terapêuticos.
Os gritos, emudecidos pelo real, dilaceram as faringes, laringes e mentiras.
Roupas sujas vestem os corpos das mentes limpas. Há candura em palavras torpes, organizadas de forma a tocar corações. Tocar a alma e lavar o espírito.
Lágrimas que descem por observar o lirismo do entender. Entender o som. Entender o movimento e entender a vida de uma forma nunca antes concebida. Epifania define.
Corpos enclausurados na necessidade de liberdade que a prisão do cotidiano impõe. São dores transfiguradas em rotinas que ficam pelo chão. Lavam a pista com suas matérias líquidas. Sangram. Não há regras. Não há condutas. Não há entidades. Autônomos.
Sobem para o salto. Jogam-se no rio de gente para limpar a lepra do coração. Sorriem ao cair. Agradecem ao levantar.
A pressão abaixa na baixa pressão. Peles são rasgadas. Cabelos são arrancados. Ossos estralam. Corações aquecem. A felicidade existe.
O caos necessário ao mundo.
Mas há um limite. Um tempo. Logo vão embora e as vidas voltam do banho de sol.
Agora, um pouco mais gratas.
Cortinas fechadas.
Contudo, dividi um momento único e valioso que não cabeira apenas nas minhas frases.
Obrigado, Diego Torres. Agora você estará sempre aqui.
Estão abertas as cortinas para o portal. Eis que o ritual para a libertação comum começa. Movimentam-se os corpos sedentos por um pingo verdade.
São rápidos, violentos e amorosos.
Comunitariamente serenos em sua visceralidade. Complacentes. Terapêuticos.
Os gritos, emudecidos pelo real, dilaceram as faringes, laringes e mentiras.
Roupas sujas vestem os corpos das mentes limpas. Há candura em palavras torpes, organizadas de forma a tocar corações. Tocar a alma e lavar o espírito.
Lágrimas que descem por observar o lirismo do entender. Entender o som. Entender o movimento e entender a vida de uma forma nunca antes concebida. Epifania define.
Corpos enclausurados na necessidade de liberdade que a prisão do cotidiano impõe. São dores transfiguradas em rotinas que ficam pelo chão. Lavam a pista com suas matérias líquidas. Sangram. Não há regras. Não há condutas. Não há entidades. Autônomos.
Sobem para o salto. Jogam-se no rio de gente para limpar a lepra do coração. Sorriem ao cair. Agradecem ao levantar.
A pressão abaixa na baixa pressão. Peles são rasgadas. Cabelos são arrancados. Ossos estralam. Corações aquecem. A felicidade existe.
O caos necessário ao mundo.
Mas há um limite. Um tempo. Logo vão embora e as vidas voltam do banho de sol.
Agora, um pouco mais gratas.
Cortinas fechadas.
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Sangue da alma
Suor, o sangue da alma.
Transpirar e transcender as veias, a pele e os limites do
corpo
Maré alta do desejo, a cheia dos rios de anseios
Suor, o sangue da alma
Que sai salgado
Pra curar as feridas
Pra benzer cicatrizes
E afastar mau agouro
Suor, o sangue da alma
Invisível, mas sensível
Que exala o cheiro da gente
E atrai outras como a gente
Untadas em marcas há pouco marcadas - E nem um pouco
salgadas
Suor, o sangue da alma
A prova de que não se cabe no próprio corpo
A lágrima de cansaço
Que não ri nem chora
Nem triste nem alegre
Salgada, lágrima caída
Ou gota de chuva
Tanto faz
Que fez
Suou
Até deixar no chão
O mar.
Mar de nós.
Mar de nós.
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Anatomia do vazio
Estômago vazio. Sem peso, sem nada, nem vento pra chamar de
alimento. Falta de prazer, carência de gosto, vigor é lenda, é raro, quase
nunca se vê aqui por dentro. O inverso do cheio, mas cheio do mesmo jeito, de
saco cheio que para em pé, cansado de esperar faminto pela colher vazia. Cheio
de fome, estufado de querer, porém anêmico demais pra caminhar até a mesa sem
bambolear as pernas e cair caído, daqueles que não se levanta com ajuda da mão
amiga, pois esta pode rasgar o pulso frágil antes mesmo de estilhaçar a alma
caleidoscópica.
Peito vazio, batidas ocas de um tambor abandonado, que se
toca sozinho pra reconhecer na quebra do silêncio o que ontem foi o “fui”.
Camadas de pele, camadas de ossos, músculos, rigidez, sangue empurrado para
debaixo do tapete cutâneo, resistência, escudo que não defende, mas prende,
aprisiona, cuida de um tesouro há tempos esquecido. Enterrado no peito para ser
esquecido. Mapa nenhum decifra os caminhos até o coração. Enterrado no peito
para ser perdido.
Ventre vazio, frio, forrado por grama de jardim abandonado
que cresce anárquico e rebelde dentro de sua própria noção natural de
tranquilidade. Relva sedenta por chuva, por terra mais úmida do que a que lhe
aduba, grama do outro - sempre mais verde, mais viva, mais pronta pra amaciar o
impacto das pernas e a dança muda dos corpos. Cavidade que oferece caminho sem
carinho, túnel que não profetiza luz, mas esconjura a solidão. Une, funde, fode
e foge antes mesmo que o amanhecer quebre todo o encanto dos segredos
espalhados pela cama de ontem à noite.
Boca vazia. Perdida entre os dentes mudos e neuroticamente
brancos. Prisioneira da gengiva acinzentada pelo incenso da cidade, rico em
carbono e tóxicos. Sem argumentos, sem frases feitas, sem resposta na ponta da
língua e brilho celestial no céu da boca. Preta, profunda e cansada. Boca órfã
de beijo e sempre amarga. Fiel ao único que lhe penetra três vezes ao dia: o
cigarro. Boca fechada para não deixar que suas moscas escapem e lhe deixem mais
solitária do que já é. Não se cala a boca calada. Não se cala, a boca calada.
Olhos vazios como duas pedras refugiadas nos sapatos.
Incômodos à cabeça que quer ver, ao rosto que quer ser analisado e aos olhares
que fingem não se cruzar na escuridão. Circulados por boias negras lançadas ao
mar da cara todas as manhãs - a garantia de que não afundem nas cavidades do
crânio e deixem de compor o desgosto diante do espelho. Olhos que têm cor
porque não existe cor sem cor. Pintados à força por qualquer mão que, mesmo com
pincel, não pode ser atribuía a artistas. Mão invisível que só traça o que
quer, quando quer e como quer. A mesma mão que tapa os olhos e ordena: adivinhe
quem é!
Ouvidos vazios como quartos desocupados; como salas que não
suportam mais as vozes estridentes dos entes que salvos de serem abortados em
vida. Porões abandonados, confortáveis na poeira de pele morta e pano ruído. Som
que não se propaga e agrada, ainda que de silêncio não tenha nada. Pois a mente
trabalha, grita, reclama, berra e pragueja, invoca demônios e sussurra juras em
seus chifres. Cavidades que não buscam mais música, apenas barulhos. Apenas
bagulhos intocáveis, intangíveis, porém que tocam em volume alto – numa frequência
chamada “adeus”. Numa ode regida pelo serafim caído – mestre dos ruídos e ruínas
- e oferecida a Deus.
Mãos vazias e separadas. Sobre os joelhos magros, sobre o
que antes mantinha torso erguido e atuante. Sobre o livro sagrado maculado de
fé. Mãos cansadas, divorciadas, sem confiança com marca branca de aliança
lançada pela catapulta do rancor. Sem a falsa maciez trocada no toque. Par de
olhos cegos que deixaram de desenhar pernas e costas com passadas. Mãos que
bateram boca, carteira e bilhetes sem remetente; as mesmas mãos que taparam os
ouvidos pra não se ouvir o “não”, selaram os lábios para não se dizer o “sim” e
taparam os olhos para não se ver aquele alguém digno de “talvez”. Calejadas,
caladas, magras e fiéis. Amor verdadeiro, amor de mão (em mão).
Mente vazia oficina de qualquer um. De quem entrar sem bater
e trouxer um copo de bebida ou cigarros de um maço novo. Labirinto cefálico com
caminhos movediços – comedores de pés e pagadas. Por onde a essência passa e
continua desconhecida, destorcida. Por onde o amor caminha apenas para provocar.
Mente, útero da maldade, útero do humano, força potencial, morada de Deus e sua
legião, espada de Lúcifer, lâmina de Miguel, ferida de Lúcifer, lágrima de
Miguel. Seu quarto, seu mundo, seu lugar, museu das suas vontades, hospital dos
seus desejos, consolo, oficina sim - engenho para a criação do que o físico não
compreende. Fábrica da sensibilidade, bomba implosiva, mente que mente ao dizer
inconscientemente que sente menos do que o coração. Mente para se enturmar com o
resto do corpo e fingir que faz parte do todo tocável. Faz o que faz pra sair e,
mesmo sem pele, ficar à flor de si.
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
Terra e navalha
Decidimos viajar à noite. Abruptamente, reunimos o pouco de
roupa que ainda nos cobria e partimos apressados, necessitados e ansiando por
vias desconhecidas.
A estrada era branca, lisa, macia e pouco incomodava os
nossos corpos com solavancos. Erguida por hastes firmes, sustentava nossa
pressa sem cobrar destreza. Ambos corríamos para não perder nem um segundo de curva.
Primeiro observei aquela paisagem terrosa, banhada por um
marrom digno de outono. Cortei caminho, abandonei a sobriedade do caminho insosso,
seguro e previsível e deslizei suavemente pelos rumos duvidosos das ruas gêmeas
que disputavam minhas passadas. Subi despido de euforia. Cada solavanco desenhava
em minha mente o formato imperfeito do chão com cor de pele. Sem perceber,
deixei que minha mente confiasse demais na guia e transformasse trajeto em
tragédia.
O peso se inverteu. Aquilo que antes suportava minha carga
agora pressionava cada osso do corpo contra os meus. O teto do céu virou chão.
E o chão fui eu. Invertido, porém divertido. Ri sem parar, ainda que a compressão
me cobrasse mais ar do que os pulmões geralmente costumam cobrar. A sensação súbita
de ter o meu torso invadido por forças externas misturou ao sangue uma dose bem
servida de adrenalina. Senti que algo rasgava por entre minhas pernas, mas
estava preso e imóvel, entregue à morte, desavergonhado e livre do sentimento
de culpa. Algo me consumia e causava prazer imenso. Cortava-me e me dividia em
prazer e aflição. Era o desapego, a falta de segurança, falta de base, moral,
roteiro, frases de ordem e abraços fraternos. Era a liberdade mostrando sua
real face: a da anulação.
Perdi a noção do tempo e direção. Parado ali, só podia olhar
o restante da paisagem: montanhas crespas de vegetação escura e seca reforçando
ainda mais aquela meia-estação transitória que não aceita a chuva, mas usa suas
nuvens para esconder o sol. Virgem encobrindo Leão, por timidez, raiva,
incompatibilidade ou extremo magnetismo ascendente.
Minhas mãos rabiscavam a superfície bruta em busca de
sangue, como quem escava o solo à procura de petróleo. Era a promessa de uma
vida melhor, de uma vida capaz de superar o momento sublime de morte, um sinal
qualquer de calor, de cor, de gosto de ferro, de firmeza, de foco, de “sou” e
de “fui”. A contradição inverteu a ampulheta e escorria pela minha garganta
grãos de razão que fingiam calcular o quanto de mim estava vazio o bastante
para receber camadas de coerência. Areia movediça que tinha como única função
sufocar a ausência. Era chegado o momento de fingir reação. Fingir necessidade
de sobrevivência.
Tentei me livrar dos galhos que seguravam meus braços, mas
ainda tremia. A navalha que me cortava ao meio
transmutava-se em serrote. Carne por carne, perdi parte de mim no instante em
que aceitei a dor como redenção. Aceitei na falsa expectativa de que, com isso,
doeria menos. Funcionou. A fumaça do combustível se fundiu com a do cigarro - o
último que restava- e uma chuva morna de suor afastou do meu corpo o gelado
mortífero do Ceifador.
E você? E o assento ao meu lado? Cadê você?
Você foi a melhor viagem que fiz. E o seu corpo, melhor
acidente que sofri.
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
Ainda sobre águas
Não sabe garoar, só sabe ser temporal.
Não sabe chover, só sabe despencar.
Quem dirá fluir, no final só sabe transbordar.
E ele se segura, faz represa da própria vida
e preza por uma tranquilidade que
presa se transforma em rio de si mesmo
Parado.
Inundado de vontades
e impossibilidades.
Não sabe escorrer, mas aprendeu a arriscar
riscando na parede do peito
cada dia a mais afogado.
Fez-se mar por amar
Fez oceano por engano
Grande demais para se caber
Sem cabimento subiu na maré do destino
molhando os lábios arenosos
Com o gosto salgado das lágrimas
Aprendeu a ser temporal
Por bem ou por mal
Aprendeu a despencar
De tanto confiar
Mas não deixou de transbordar
Quiçá navegar. Quiçá ancorar.
domingo, 18 de agosto de 2013
Chuva-íris
Há diferentes cores de chuva. As comuns são acinzentadas. Existem aquelas com cor de mel que geralmente despencam nos dias de calor. Algumas quebram a secura do inverno e caem azuladas, tremendo de frio antes mesmo de tocarem o chão. Rosadas ou arroxeadas, chuvas raras de final de tarde - crepúsculo. Prateadas, as que refletem o luar na madrugada. Mas de todas as chuvas que vi apenas uma me molhou: a esverdeada.
(Em algum lugar do que fui...)
- Filho, não fique muito tempo no quintal! A chuva está vindo.
- Tudo bem, eu entro quando começar a tempestade.
Ele havia arrumado todos os seus bonecos de acordo com a relevância de cada um. Os que voavam tinham lugar privilegiado no topo do muro que separava o quintal da horta. A parede rústica, que para os pequenos brinquedos era simplesmente insuperável, tinha superfície igual pele de elefante. Com as pontas dos dedos ele sentiu cada dobra imperfeita que se disfarçava de abrigo para ervas-daninhas e calculou o trajeto do boneco sem asas - aquele que salvaria o companheiro apenas com os braços de aço. Das nuvens carregadas era possível vê-lo esparramado no chão, tão confortável que parecia mais um dos brinquedos que ali fingiam ter algum destino. Alguma vontade.
A densidade do ar mudava a cada quebrante das correntes de vento. O que antes amaciava os pulmões agora encrostava-os com poeira de rua, de cansaço dos outros, de sola gasta das outras. Mas ele não se importava. Sua missão, assim como a de seus guerreiros de plástico, precisava ser finalizada. Que mundo seria o seu sem um capítulo a mais pra escrever no livro de conquistas? A voz da mãe trovejou novamente, porém nenhuma reação. O céu rosnou impaciente - já não podia mais segurar a água entre as coxas nubladas - e estalou-se num relâmpago ligeiro. Despertou um arrepio na espinha dele e o fez olhar diretamente para o oposto de si.
Ao encarar o alto, percebeu seu tom esverdeado, como se a velha muralha tivesse crescido até o pico do mundo e suas ervas-daninhas agora estivessem digerindo, lentamente, a vitalidade das nuvens fartas de si mesmas. Agora ele era o boneco. Pequeno, a mercê das trovoadas, na base de sua própria existência. No chão daquele muro gigante.
Filtrada pela tempestade celeste, a luz do sol camuflou-se de musgo, tingida pelos vãos da terra com um tom esverdeado que não era sublime como o esmeralda, mas imponente e tempestuoso como Júpiter. Ele se deu conta daquele cenário incrível que lhe envolvia e um chamado ancestral lhe fez perder os sentidos. Por alguns segundos viajou sem destino nas estradas da imaginação.
(Em algum lugar que fui...)
Peço licença nesse instante para todos os planos criados antes mesmo da minha consciência. Que desta terra fizeram história e marcaram sob a pele dos homens o símbolo do caos e o signo da ordem. Faço deste meu corpo templo do desconhecido.
Aqui, envolto neste chuva de jade, vejo como sou vulnerável. Corpo e mente não encontram harmonia, são incapazes de interpretar as gotas que agora lubrificam meus pensamentos e lábios. Enquanto a razão diz para correr e procurar um local seco para continuar mais seco do que já está, o outro - que pode ser interpretado como "coração" - encena surdez, pois acredita que tal sensação lhe trará prazer inenarrável.
Nesta chuva eu me perco. Fico divido em tantas partes que cada uma delas se afoga no mar de gotas despencadas das alturas. Apenas me deixo molhar, com ou sem razão, sem ou com coração, eu me deixo ser a anulação. Encharco-me com um silêncio humilde de quem não sabe nada da vida, esteja ela em terra, no ar ou no molhar.
(Em algum lugar antes de fugir)
Eu devia ter levado o guarda-chuva. Mas a memória penas finge que pode ser domada e, quiçá, melhorada. Esqueci.
Mais dois cigarros e o maço estará condenado à lata do lixo. Preciso racionar o vício. Bom, apesar que isso soa bem patético, afinal, se fosse controlável não seria vício, mas sim hábito. E eu acho esse termo "hábito de fumar" tão ridículo. Suaviza algo que nem na própria fumaça se faz delicado. Descaracteriza, sabe? Parece até que diz: "Você trocaria o hábito de beijar seu irmão no rosto pelo hábito de fumar?" com total facilidade. Não. Um é apego no que vive. O outro, falso desapego no que se vive. Um é hábito, o outro é vício.
A chuva não traz nada de novo. Cai, molha tudo, borra os planos bem traçados horas antes e faz com que cada frase ensaiada escorra pela valeta. Eu queria encontrá-lo, mas desse jeito será impossível. Perco a paciência quando sinto meus pés molhados e sei que qualquer coisa que ele me diga soará como provocação. Vamos nos poupar então. Mas por enquanto eu fico aqui mesmo, esperando ela passar e ele chegar.
Já que tempo é o que me sobra - e tempo é o que não melhora -, vou fingir que este velho muro enrugado pelo tempo tem lá suas histórias pra contar e imaginarei quem foram os muitos que, assim como eu, encostaram em sua pele labiríntica.
- Moço, você está bem, quer ajuda?
- Não, obrigado. Só estou esperando um amigo...
- Mas moço, você está na chuva, sem sapatos, o que aconteceu?
- Nada, oras! Já disse, estou esperando um amigo... Ele vem, eu tenho certeza!
- Olha, ainda é cedo, está escuro por conta da chuva, mas é melhor você se levantar tem muita...
- Não! Eu quero ficar aqui, este muro é meu! Eu preciso subir para resgatar meu amigo lá do topo.
- Rapaz, você bebeu? Tão jovem... Bem, olha, esse muro aí é alto demais, só tendo braços de aço pra escalar isso...
- Você já reparou que a chuva tem várias cores?
- Não, água pra mim não tem cor. Moço, eu preciso ir, tente não ficar muito tempo neste local.
- Tudo bem, eu entro quando terminar a tempestade.
(Em algum lugar do que fui...)
- Filho, não fique muito tempo no quintal! A chuva está vindo.
- Tudo bem, eu entro quando começar a tempestade.
Ele havia arrumado todos os seus bonecos de acordo com a relevância de cada um. Os que voavam tinham lugar privilegiado no topo do muro que separava o quintal da horta. A parede rústica, que para os pequenos brinquedos era simplesmente insuperável, tinha superfície igual pele de elefante. Com as pontas dos dedos ele sentiu cada dobra imperfeita que se disfarçava de abrigo para ervas-daninhas e calculou o trajeto do boneco sem asas - aquele que salvaria o companheiro apenas com os braços de aço. Das nuvens carregadas era possível vê-lo esparramado no chão, tão confortável que parecia mais um dos brinquedos que ali fingiam ter algum destino. Alguma vontade.
A densidade do ar mudava a cada quebrante das correntes de vento. O que antes amaciava os pulmões agora encrostava-os com poeira de rua, de cansaço dos outros, de sola gasta das outras. Mas ele não se importava. Sua missão, assim como a de seus guerreiros de plástico, precisava ser finalizada. Que mundo seria o seu sem um capítulo a mais pra escrever no livro de conquistas? A voz da mãe trovejou novamente, porém nenhuma reação. O céu rosnou impaciente - já não podia mais segurar a água entre as coxas nubladas - e estalou-se num relâmpago ligeiro. Despertou um arrepio na espinha dele e o fez olhar diretamente para o oposto de si.
Ao encarar o alto, percebeu seu tom esverdeado, como se a velha muralha tivesse crescido até o pico do mundo e suas ervas-daninhas agora estivessem digerindo, lentamente, a vitalidade das nuvens fartas de si mesmas. Agora ele era o boneco. Pequeno, a mercê das trovoadas, na base de sua própria existência. No chão daquele muro gigante.
Filtrada pela tempestade celeste, a luz do sol camuflou-se de musgo, tingida pelos vãos da terra com um tom esverdeado que não era sublime como o esmeralda, mas imponente e tempestuoso como Júpiter. Ele se deu conta daquele cenário incrível que lhe envolvia e um chamado ancestral lhe fez perder os sentidos. Por alguns segundos viajou sem destino nas estradas da imaginação.
(Em algum lugar que fui...)
Peço licença nesse instante para todos os planos criados antes mesmo da minha consciência. Que desta terra fizeram história e marcaram sob a pele dos homens o símbolo do caos e o signo da ordem. Faço deste meu corpo templo do desconhecido.
Aqui, envolto neste chuva de jade, vejo como sou vulnerável. Corpo e mente não encontram harmonia, são incapazes de interpretar as gotas que agora lubrificam meus pensamentos e lábios. Enquanto a razão diz para correr e procurar um local seco para continuar mais seco do que já está, o outro - que pode ser interpretado como "coração" - encena surdez, pois acredita que tal sensação lhe trará prazer inenarrável.
Nesta chuva eu me perco. Fico divido em tantas partes que cada uma delas se afoga no mar de gotas despencadas das alturas. Apenas me deixo molhar, com ou sem razão, sem ou com coração, eu me deixo ser a anulação. Encharco-me com um silêncio humilde de quem não sabe nada da vida, esteja ela em terra, no ar ou no molhar.
(Em algum lugar antes de fugir)
Eu devia ter levado o guarda-chuva. Mas a memória penas finge que pode ser domada e, quiçá, melhorada. Esqueci.
Mais dois cigarros e o maço estará condenado à lata do lixo. Preciso racionar o vício. Bom, apesar que isso soa bem patético, afinal, se fosse controlável não seria vício, mas sim hábito. E eu acho esse termo "hábito de fumar" tão ridículo. Suaviza algo que nem na própria fumaça se faz delicado. Descaracteriza, sabe? Parece até que diz: "Você trocaria o hábito de beijar seu irmão no rosto pelo hábito de fumar?" com total facilidade. Não. Um é apego no que vive. O outro, falso desapego no que se vive. Um é hábito, o outro é vício.
A chuva não traz nada de novo. Cai, molha tudo, borra os planos bem traçados horas antes e faz com que cada frase ensaiada escorra pela valeta. Eu queria encontrá-lo, mas desse jeito será impossível. Perco a paciência quando sinto meus pés molhados e sei que qualquer coisa que ele me diga soará como provocação. Vamos nos poupar então. Mas por enquanto eu fico aqui mesmo, esperando ela passar e ele chegar.
Já que tempo é o que me sobra - e tempo é o que não melhora -, vou fingir que este velho muro enrugado pelo tempo tem lá suas histórias pra contar e imaginarei quem foram os muitos que, assim como eu, encostaram em sua pele labiríntica.
- Moço, você está bem, quer ajuda?
- Não, obrigado. Só estou esperando um amigo...
- Mas moço, você está na chuva, sem sapatos, o que aconteceu?
- Nada, oras! Já disse, estou esperando um amigo... Ele vem, eu tenho certeza!
- Olha, ainda é cedo, está escuro por conta da chuva, mas é melhor você se levantar tem muita...
- Não! Eu quero ficar aqui, este muro é meu! Eu preciso subir para resgatar meu amigo lá do topo.
- Rapaz, você bebeu? Tão jovem... Bem, olha, esse muro aí é alto demais, só tendo braços de aço pra escalar isso...
- Você já reparou que a chuva tem várias cores?
- Não, água pra mim não tem cor. Moço, eu preciso ir, tente não ficar muito tempo neste local.
- Tudo bem, eu entro quando terminar a tempestade.
terça-feira, 13 de agosto de 2013
Maria cheia
Foi batizada de “Maria” porque sua mãe amava o mar. E ela também amaria.
Já não tinha mais casa pra limpar nem fogão pra alimentar. O
passado tragou sua vida num gole de chuva sem começo nem fim que assim, desavisada
de aviso, enxurrou o endereço e escorreu cada canto salinizado da sala para a
vala. No litoral, basta ter casa pra acabar na rua, sem paredes, sem panelas, com abandono de cama e céu de teto.
Maria cansou de lutar pela chance de ser alguém. Esqueceu-se
de resgatar dos escombros aquele documento que lhe atribuía nome, pai, mãe e
uma pegada de polegar. Na verdade, fez questão de deixar de ser. Só não abriu
mão do “Maria”, afinal, era a única herança que lhe restava. Decidiu que era
hora de atender ao chamado ancestral de sua matriarca.
Leve de bagagens e pesada de lembranças, a mulher arrastou
as chinelas pelos paralelepípedos pulando a amarelinha do próprio desgosto,
desviando da sola dos pés o bloco do inferno... Percebeu que era mais fácil
jogar adiante a pedra do desconhecido e deixar que os números guiassem seu
caminhar gingado.
Como na transição da tarde para a noite, o chão duro de
terra se desfez em areia. Mudou de cor, deixou de ser bronzeado, vermelho,
caboclo, para então mostrar seus cachos dourados e finos. O terreno lambido
virou beira de mar e o horizonte agora era só promessa velada pela noite. Maria
sentiu uma forte vontade de banhar a pele negra com o breu das águas noturnas,
mas a espinha gelada paralisou seus joelhos. Bastava observar a dança das ondas
e ouvir suas saias zunindo num rodar infinito. Bastava ser Maria para amar o
que via – o mar.
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