domingo, 4 de novembro de 2012

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Esta é a quarta vez que tento iniciar o texto. Escrevo, leio, apago e ainda assim não perco a vontade de escrever. Não sei se é o álcool que começou a fazer efeito... o que sei é que preciso escrever, pois hoje me sinto o homem mais solitário do mundo.

Neste fundo de casa, com paredes velhas e cheiro de antiguidade, exilei-me. A mente se mantém inconstante e os pensamentos ainda insistem em não me respeitar. Sou um estranho dentro de mim mesmo. Tento, com toda a sagacidade que tenho, encontrar saídas para meus devaneios, contudo, permaneço perdido. Percorro minha consciência como se estivesse deslocado. Nada me parece familiar. Nenhum sentimento positivo consegue se manter por muito tempo e, com isso, faz com que tudo pareça apenas mais uma ilusão.

Perdi a vontade de me olhar no espelho. Pouco a pouco destruo meu corpo sem ressentimentos. E a juventude ainda me pertence, mas essa angústia sem nome - tão sem nome quanto o sentimento de amor - retira o semblante do vigor. Sou apenas mais uma criatura. Cheia de ar e não cheia de vida. Cheia de vazio. Cheia de transparência. Sem toque, sem peso, sem cor... Sendo soprado como um balão que há tempos perdeu as mãos de quem lhe dava segurança.

Fora toda essa carga negativa, algumas coisas ainda me fazem pulsar. Sinto como se a batalha não tivesse saído de mim. Olho para a situação do mundo e consigo ter uma ponta de fé. E esta fé não está ligada à religião. É uma crença no próprio homem. Carnal, incompleto, corruptível e carente. Sim, tenho fé nessa criatura imunda e falida, derrotada por si mesma. Acredito que no auge de sua loucura e crueldade será digno o bastante para se anular e fazer de sua espécie mais uma página amarelada no grande livro da vida. Suicídio.

E se a morte não vier pelas minhas mãos...

Vejo alguns casais apaixonados, deixando de lado as chagas do mundo e desenvolvendo a invejável capacidade de negligenciar a decadência do meio social. Individualistas ou egocêntricos, egoístas ou mesquinhos, não sou eu quem vai julgá-los. Afinal, não dizem que só se conhece uma pessoa quando esta tem o poder em suas mãos? O mesmo serve para o amor. Você só vai conhecer a pessoa que está dentro de ti quando o amor envolver sua existência.

Com ele em mãos, o covarde vira valente, o valente chora feito covarde, o orgulhoso implora e o humilde se envaidece. Aquela que sempre nadou na fúria agora levita por entre as nuvens da alegria e o outro que não tinha coragem de explorar as sensações do próprio corpo agora anseia pelas curvas virginais.

O beijo inocente passa a ser quente. O abraço demora tempo o bastante para que as almas se conectem. As mãos fazem o corpo enxergar e os olhos se fecham de prazer. O amor faz você conhecer a si mesmo, como se nunca tivesse se visto antes. Ele muda as funções da mente, corpo e alma. Veja você... somos desconhecidos dentro de nosso próprio "templo sagrado". O tal santuário dado por deus.

É este amor anárquico e destrutivo que me faz ter fé na humanidade. É essa vontade de não ser santo e mesmo assim ser louvado e amado que faz do homem a peça-chave para tudo o que existe no universo. Esses homens e mulheres abençoados pela fênix. Renascem das próprias cinzas e sabem lidar com a finitude do "todo". Destroem para construir. Partem, devastam, morrem, renascem, trazem luz, alegria, calor, vida, para então retornar ao início do ciclo e fazer do fogo o alicerce que sustenta a criação e a aniquilação. Todos filhos de fênix.

Amor que queima, que peca, erra, machuca, carboniza. Amor que reconstrói, que esquenta, que cria. Se o naipe de copas é a verdadeira expressão de tal sentimento - representado pela água - então que o símbolo de paus reivindique sua importância, pois é da tocha da criatividade, imaculada pela chama intensa do saber,   que nasce a vontade dos homens e mulheres. O fogo não foi roubado à toa. Assim como o amor nunca é roubado à toa.

Infelizmente, existem casos em que roubamos, mas não somos roubados. Escolhemos e não somos escolhidos. Amamos mesmo sem sermos amados.

Infelizmente, o verdadeiro amor é assim. Desapego, servidão e solidão. O restante é vaidade.



terça-feira, 23 de outubro de 2012

Desprezo

Vem assim, camuflado de silêncio. Você começa a ficar transparente, vai perdendo a cor, o peso, a própria sombra. De início, busca desesperadamente por alguma forma de manter o pouco que ainda lhe resta, mas só com o tempo percebe que não há mais nada.

Percebi que sua postura estava diferente. Minha presença parecia lhe causar sufocamento. As frases eram curtas e secas, mais secas do que o olhar. Do que o descaso. Em mim apenas jorrava a tristeza que, aos poucos, começou a formar poços e mais poços. Encharcado e distante de mim mesmo.

Não sei lidar com o desprezo. Devolvo no mesmo tom. O tom cinza da indiferença. No começo ela é forçada. Depois se desenvolve feito erva-daninha. Suga o que um dia foi fértil. O que um dia floresceu naturalmente. De terra a asfalto. Do solo ao concreto. Do "só" ao mal "adubado".

Despreza seu sentimento. Renega tua vontade. Mata a sede com arrependimento, que desta fonte não sangra mais amor. Nem mesmo dor. Pisa no sentimento que te ofereceram e mostra o quão vil consegue ser. Nem teu sorriso vai mascarar o egoísmo e medo que juntos maquiam sua simpatia.

E que todo o bem querer que para ti eu guardei se transforme em sal. Tire o sabor, tire o gosto, seque minha boca e não permita que mais nada brote aqui.

De agora em diante, há deserto em mim.


sábado, 20 de outubro de 2012

Ligue

O que aconteceu comigo? O que aconteceu conosco?

Essa leitura é para todos aqueles que, como eu, renderam-se ao álcool e seus efeitos alucinógenos. Simples, para todos os que desistiram ou negligenciaram a realidade, pois dela só tiraram o soro com gosto de fel, sem açúcar, sem sal, tal qual o cinza que mistura todas as cores e elimina o conceito de “quentes” ou “frias”. Uma mancha no céu da boca, tal qual a mancha na alma e no nome, que borra o número do RG e te transforma em indigente. Aquela gente que não pode ser mais gente. Aquela gente que existe apenas para figurar em alguma praça ou esquina.

Só fará sentido se o sangue não abandonar seu dever e conduzir as toxinas para que o fígado as filtre e, depois do esforço hercúleo, seja capaz de apagar os pecados da noite passada, contidos no copo e no corpo. Pecados oferecidos em pequenas doses sem gelo. Só assim, caso contrário, o que restará é o arrependimento. A culpa por não ter chegado ao fundo do poço, do copo, e lá ter encontrado uma justificativas para suas ações estúpidas e moralmente imorais.

Corra, ligue, erre o número pela primeira vez, acerte na quarta, fale “Oi, tudo bem?” e depois dê seu endereço. Aguarde a chegada e ignore a partida. Faça dessa noite eterna. Faça dessa noite a última noite dentre as muitas noites que iniciaria se tivesse coragem suficiente.  Vai menino. Corra menina. Que ninguém está aqui para esperar por vocês. Ou por sua “coragem”.

Coração é um só. Assim como o corpo inteiro. Então os gaste. Faça isso por você. Jure para qualquer entidade que tal oferenda será capaz de apagar todos os erros cometidos ao longo do caminho. Os santos só são santos porque você erra. Porque você é incompleto ou imaturo. Em outras palavras, só são santos porque você é pecador. Então, pra que esperar? Pra que se limitar? Faça, erre, e um dia – quem sabe e se quiser – você possa começar a acertar?

Está com vontade de ligar para uma pessoa querida? Ligue. Está com vontade de ter os beijos de um antigo romance mais uma vez grudados aos seus lábios? Ligue. Quer se declarar para quem já disse mil vezes que não te ama? Escreva. Acha que nada aqui vale à pena? Então desligue... Para ligar novamente. Eu sei, você sabe, ele sabe, ela sabe, nós sabemos, vós sabeis, eles sabem, elas sabem que você ligará novamente. 

domingo, 14 de outubro de 2012

Livre

Eu sempre quis ser livre. Quando criança, gastava horas e horas imaginando um mundo em que fosse possível voar, respirar debaixo d'água e andar sobre os rios de lava. Queria sentir como se fosse possível estar em todos os locais, não ao mesmo tempo, mas a qualquer hora.

Perto da adolescência, conheci a liberdade nas ruas asfaltadas. A liberdade nas calçadas cheias de amigos e risadas. A mesma liberdade que fazia com que a bola rolasse para dentro do gol sem nenhum obstáculo. Já na escola, não estava tão solto assim. Porém, conseguia me distrair como pouco de "fuga" que me restava. Eu escrevia e desenhava muito. Tanto quanto estudava. Melhorei minha escrita e os traços. Também me sentia livre quando corria em direção ao gol e, após ter dado os "três passos", saltava com a bola presa pelos finos dedos. Gol. Por alguns segundos voltava a ser criança e voava naquele mundo que tanto envolveu meus sonhos.

Foi então que descobri o amor e a liberdade deixou de existir. Fui pego pelas vinhas do sentimento e amarrado a um emaranhado de sensações até então desconhecidas. Só pensava na mesma pessoa. Acordava e dormia pensando nela. As rezas clamavam apenas por seu carinho. Era assim, esqueci de voar... de respirar submerso... de caminhar pelos lagos em chamas.

Só consegui me libertar depois de ter expelido todo o veneno em lágrimas e noites perdidas. Aos poucos, reconstruí a mim mesmo, mas a partir daí aprendi que tal situação voltaria. Cedo ou tarde ela voltaria. Ou ele, de repente.

Cresci. O dinheiro veio. O trabalho veio. Uma nova vida, vivida à noite. Encontrei outra forma de liberdade. Ela vinha em estado líquido. Nem sempre tinha um gosto bom, entretanto causava um efeito viciante. Relaxava os músculos do corpo e da mente. O coração perdia o compasso assim como os pés. Libertava como nada havia me libertado antes. Eu sorria por qualquer motivo e, nos instantes em que buscava o exílio dentro do quarto, chorava de soluçar. Deixava fluir e, mesmo acordado, eu sentia o corpo flutuando... via tudo lentamente como se estivesse debaixo d'água e meu peito queimava de calor, envolto em uma densa capa de magma.

Mas a liberdade tem asas justamente para poder partir a qualquer instante. E assim ela se foi. Deixou apenas as marcas nos braços e fortes dores. Encheu meu estômago de fome e estourou feridas nos lábios. Voltei a ficar preso. Preso pela saudade de tê-la novamente. De tê-lo aqui novamente, deitado no chão, olhando para o teto. Eu e ele, achando que o mundo era pequeno demais para nos fazer livres.

Após um longo período perdido nos labirintos criados pelos meus próprios desejos, encontrei a estrada que me guiaria até o infinito. De primeira foi difícil aceitar a finitude. Refletir sobre a morte e suas implicações. Ou melhor, as implicações que surgem antes de se alcançar o suposto descanso eterno. Eu estava em uma fase que bastava estar vivo para sentir um gosto amargo na boca. A angústia sem nome me corroía sem piedade. Falar, comer, tomar banho, acordar, andar, assinar, acessar, escrever, estudar, escutar... tudo era um martírio. Templo nenhum seria capaz de me libertar. Foi então que assumi um desejo oculto por muito tempo, mas que precisava ganhar espaço dentro de mim. Decidi que se o sofrimento ganhasse um peso insuportável eu mesmo colocaria fim em tudo. Encontrei aí mais uma parte da liberdade.

Livre. Escolhi as cores mais vivas. Queria que seu olhar fosse profundo e calmo. Verdes. Ela precisava manter aquele "tom" latino que expira emoção sem precisar de movimento algum. Rosas, também precisava de rosas. Sentei na cama e lembrei que há liberdade na morte. Há liberdade na falência e na desistência. Há liberdade na falha, na derrota e na ruína. A agulha rasgou minha pele e, a cada segundo, deixava uma trilha de tinta e sangue. Curvas e mais curvas, até que seu rosto começou a ganhar forma. Doía. A pele morria, o sangue jorrava e, de certa forma, eu deixava para trás a vida e suas regras. Morria ali obrigação, a prestação de contas, a normalidade, a aceitação. Morria para libertar. Livre. Até que a morte me prepare.

Até que a liberdade me separe.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Pegadas

Depois de muito tempo, o garoto viu o dia amanhecer. Seu corpo estava cansado e a mente distante. Mas os olhos lhe fizeram prender a atenção no vasto horizonte, tão desconhecido quanto o sentimento que se expandia dentro do peito.

Esqueceu da fome e do frio. Umedeceu os lábios com o pouco de saliva que ainda lhe restava e respirou profundamente. O perfume da terra devolveu aos limitados pulmões a vitalidade que há tempos havia abandonado aquele pequeno corpo. Neste instante, percebeu que o passado nada mais é do que a chance de modelar tudo o que um dia aconteceu, e que hoje pode ser apresentado de uma forma diferente. Mais leve ou mais pesada. Ele não apresentou nada. Escolheu fazer de seu passado apenas passado.

A grandeza do presente tirou de suas costas o peso do mundo. Deu-lhe alguns instantes de paz. Era a desordem em seu coração encontrando o equilíbrio com a organização da mante. Deixava de ser um para integrar o todo. Perdeu o nome. Era apenas ele, "eu" e também "você". Transbordou de si mesmo. E se em algum momento não foi ouvido por quem o rodeava, agora tinha a chance de falar. E falou.

"E que neste caminho encontre o novo dentro do novo. Que cada passo faça valer toda a carga que carreguei. Em silêncio, fiz minha reivindicação. Em silêncio, abaixei minha cabeça não para expressar submissão, mas para que meus ouvidos ganhassem o lugar da boca. Em silêncio, pus-me de joelhos não para implorar, mas para descansar os pés que conheciam mais a leveza do ar. Fiz o que senti que deveria ter feito, com toda a dor que me era de direito.

Olho para esta linha dourada que corta as montanhas e sinto que nada foi em vão. Na busca pela minha utopia, encontrei o que havia de mais valioso no caminho: o caminhar. Andar é escrever com pegadas as muitas linhas desta página em branco, chamada por muitos de "vida". Cada passo, um compasso novo para as batidas do meu coração. As lágrimas imitavam a chuva: lavavam meu rosto seco, enquanto dos céus caía a benção da terra. Mas em dias ensolarados eu também chorava. Eu também chovia. Entretanto, o que se formava era uma mar de alegria sobre a fina areia que tinge minha pele com um tom amarelado. A maré subiu. O rio se formou após o banho pluvial. Havia - e sempre houve - água o suficiente para me ensinar que "transbordar" é necessário. Traz vida para quem já vive e viveu demais.

Cansado, mas satisfeito. Contente por ter negado todos os pedidos de morte que minha mente fez ao restante do corpo. Porém, sei que este desejo fúnebre ainda habita o meu ser. E também sou feliz por isso. Sinto que ele me traz a noção da finitude. Risca o contorno que define até onde vai a existência e até onde deve ir a insistência. Foi assim que aprendi a deixar pelo cominho tudo aquilo que não entendia o fluxo natural do tempo.

É... é bem isso mesmo. A gente vive pra se desgastar ao longo do caminho. Vive para morrer mesmo. Morrer e deixar pegadas. Não para que os vivos as sigam, mas para que contem diferentes histórias sobre quem as deixou ali.

Como uma sábia mulher me disse em tempos de partida: 'A gente só vive pra sempre na mente de quem nos ama'.

Depois de muito tempo, vivi o amanhecer."

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Rejeição

Meu rosto estava queimando, mas as mãos e estômago gelavam. Aproximei meus lábios, fechei os olhos e, quando senti o contato, percebi que minhas pernas tremiam. Envolveu a língua e apresentou um novo sabor. Desceu rasgando pela garganta. Segundos depois, meu coração - que até então batia desesperado - começou a acalmar. Um gole. Apenas um gole tomado com gosto.

Eu quero tantas coisas, mas tantas coisas, que às vezes não encontro mais espaço para pedidos. Peço para qualquer um que consiga ouvir meus pensamentos. Peço pra mim mesmo, na verdade. Só que sempre são coisas impossíveis de serem compradas numa loja ou em qualquer outro lugar. Essas coisas são intocáveis e, por isso, vejo-as como as mais belas.

Recentemente conheci a rejeição. A priori, parecia apenas uma distração. Transição do "não" para o "sim". Mas com o passar dos dias entendi que não se tratava de outra fase. Ela se fez insistente, tal qual a tristeza. Não consigo aceitá-la. Muito menos compreendê-la. Só que, por incrível que pareça, sinto-me incapaz de eliminá-la. No máximo, deixo que se dilua nas entrelinhas.

Quando alguém devolve o seu amor, o corpo se nega a aceitar tal sentimento de volta. Imagine que uma rosa foi retirada do jardim e colocada num arranjo para então ser entregue à pessoa amada. No instante em que ela (ou ele) avista a flor, não esboça nenhuma reação e simplesmente recusa o agrado. Como esse delicado ser iria voltar para seu local de origem? Como se prenderia novamente à essência que lhe concebera? Impossível. Utópico.

Cada palavra que li parecia ultrapassar a alma. Letra por letra, fui absorvendo os impactos sem emitir som algum. Sem gritar ou morder os lábios. Tudo porque fui incapaz de me mover. Moviam-se apenas os olhos. Nem lágrimas fluíram. Descia pela garganta cada rosa que entreguei. Descia uma a uma, com seus espinhos.

E como colocá-las novamente no coração? Como dizer a mim mesmo que o sentimento não foi bom o bastante e era preciso encaixar novamente cada fragmento dele? Impossível. Utópico. Mas real. Real porque doía. Porque ainda dói.

Entreguei-me aos beijos de minha própria boca. Fiz dela a entrada para a saliva aditivada, densa e licorosa proveniente do álcool. Matei a sede da tristeza, não a minha. Deixei que o corpo fosse hipnotizado pela falsa - porém maravilhosa - sensação de que o peso do mundo não se hospedava em minhas costas. Principalmente no meu âmago.

Vivia por questão de sobrevivência. Reneguei qualquer tentativa de evolução. Nem mesmo lembrava de quem fez pouco caso do meu bem-querer. Voltava a guerrear comigo mesmo sem esperança alguma de que tal batalha chegasse ao fim. Fim para quê? Se o que mais precisava era uma chance de começar. Construir, entende? Não. E se entende, nega-se a admitir.

Rejeição... a ruína de si mesmo tecida em palavras que nunca abandonarão sua memória. Rejeição, a rosa que perdeu a glória ao sair de seu jardim. O amor cujo perfume se tornou inodoro.

Rejeição.


domingo, 30 de setembro de 2012

Sem paz

Não há paz para as almas que nasceram contra a própria vontade. O martírio da concepção não passa do primeiro castigo, ao invés do primeiro pecado. A placenta é mais pura e limpa do que a alma coberta por carne. Bem mais pura e limpa.

Chegar a este mundo e, com o passar do tempo, absorver a massa cinzenta que paira pelo céu. Diariamente, pílulas e mais pílulas de placebo para evitar o suicídio. Algumas poucas razões para continuar vivo e a família, o alicerce. A base. O chão frio que estará sempre ali para receber seu corpo caído. Morto ou vivo, terá o chão, nada além do chão. Nada além da família. Sempre rígida. Pronta para te parar e reparar os cacos que se espalharam depois de ter saltado do 7º andar. O andar da criação.

Minhas veias são parte da cidade. Estão por todos os lados. Nos esgotos, nas paredes pintadas, nos parques infectados e nas aves cinzentas, manchadas com a cor enferma da metrópole. Confundem-se com as nuvens carregadas de ácido e carbono. Não poderia ser outra ave para esta cidade senão a pomba. Desgraçada, humilhada, compara aos vermes invisíveis. Paz nenhuma se faz em suas penas, mesmo que estas - por pena e piedade de deus - se tinjam de branco. Nem a sua morte causa comoção. Salta todos os dias do 8º andar, entretanto, nunca morre. A covardia lhe faz voar. O 8º andar... sim, o andar sem fim.

Antes de dormir, evito pensar, mas penso. Nem os remédios ajudam mais. Basta fechar o olhos que surge aquele enxame de coisas que não vivi no dia incompleto. E as vontades começam a devorar meu corpo. Se senti frio, agora queimo de calor. Se estava envolto por ar quente, agora gelo só de imaginar quanta vida há lá fora, e quanta morte se hospeda dentro de mim. O 2º andar da minha casa guarda dois quartos. Ambos repletos de negatividade, pessimismo, depressão, angústia, falta de vontade e ânsia por um "querer maior". O 2º andar... morada da tristeza.

Contudo, se a música não parar, paro eu de tentar saltar. Fecho minhas asas antes mesmo de projetar o corpo para fora. Porque preciso ouvir cada nota, cada palavra e cada toque do piano ecoar dentro do que sou. Mesmo sem conseguir uma definição, busco me explorar. Parto todos os dias sem intenção de retornar. É uma viagem sem volta que me fará apagar o passado.

Em cada esquina contarei uma nova história sobre o que sou. Pouco importará o que serei num futuro próximo. Sem paradeiro não somos nada além de borrões num mapa. Somos trechos não interpretados. O ruído na comunicação de rádio. Na verdade, não somos absolutamente nada.

Enquanto ela canta, meu corpo consome-se em chamas. A eletricidade estimula o coração pela última vez. Sangue e mais placenta. Ela chora. Eu não faço um barulho se quer. Nasci. O médico se frustra. Todos se frustram. Em silêncio, eu anunciei o porquê de ter nascido: vim para anular-me diante de todos.

Na verdade, não sou nada.




segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Morar um dia para o resto de todos



Era o segundo dia naquela casa. Ainda não havia me acostumado com o novo cheiro de madeira velha. Mas as cores me eram familiares. Cinza, azul e marrom... Delicadamente espalhadas pelos móveis antiquados e duros. Pareciam estar vestidos em um terno de corte perfeito. Com a palma da mão, senti a poeira anunciar que houve vida naquele local, pois só há fragmentos se onde algo tiver queimado até a última chama. Mais cinzas. 

Era tudo o que meu coração precisava. Um local para repousar e deixar que o passado se confundisse com as fantasias do presente. Naquele instante, a vida renascia como uma fênix. Mas os cômodos não se iluminaram e ainda era cedo para anunciar um novo dia. Você estava em tudo. Absolutamente tudo. Encobria a luminosidade. Era a saudade em forma de neblina. 

Com o passar dos meses, fundi-me com aquele ambiente. Mais rígido do que nunca, viva em constante estado de hipnose, levado por músicas que nunca se cansavam de tocar. A espera pelo inevitável. Deixei de viver. Mas vivia. Se hoje escrevo é porque ontem senti algo que me fez continuar... acordar... levantar...  
Demorei até receber as primeiras visitas. A porta sempre esteve trancada, mas era hora de ver os poucos amores que ainda me restavam. Minha mãe tinha as mãos cansadas e cheias de marcas concebidas pelo seu carinho infinito. Queimou-se ao cozinhar nossas refeições, furou-se enquanto costurava nossas roupas, cortou-se diversas vezes para que o choro fosse dela e não nosso. Como não destrancar as portas do coração? Como impedir que uma criatura dessas entrasse em minha casa? O único referencial de amor verdadeiro. 

Meu irmão continuava forte e vivo. Mas seu signo tinha sido batizado pelo vento. Percebia a leveza em seu olhar e a vontade absurda de viver livremente. Evitava endereços como um gatuno que evita a prisão. Observou cada parede e, assim como minha mãe, viu toda a tristeza estampada pelos corredores.
 
Conversamos pelo olhar. Calados, apreciamos o almoço sem gosto e deixamos as palavras de lado. Estavam frias demais para se deglutir. Eu queria oferecer muito mais a eles. Contudo, o peito me cobrava toda e qualquer chama de vida. Qualquer fonte de energia. Se não atendesse às suas exigências, morreria. E sei que isso seria pesar demais para os dois. Vivo por eles, literalmente. Um cordão umbilical invertido. 

Madalena deixou a rosa avermelhada na mesa - uma vela envolva por trevas. Vitor partiu e esquentou meu corpo gélido com um abraço sincero - a batida de seu coração fez com que o meu recobrasse o passo. Dançou algumas vezes, mas logo se cansou. Fechava-se a porta, mais uma vez. E o amor é quem me dizia “adeus”. Nada a mim. Só a deus.

Naquela mesma noite, cai de joelhos, diante da janela do meu quarto. Olhava fixamente para o céu e deixava que minha pele fosse banhada pelo véu prateado da lua. Aos poucos, percebi que as estrelas destacavam-se não por sua luz. O que as destacava era justamente a escuridão do universo. A imensidão é escura, negra como os seus olhos costumavam ser. E nós, aqui presos, somos pequenas faíscas. Pela primeira vez me senti parte do todo. Senti que não era apenas cinza, azul e marrom. Não era faísca, era preto também. No meu peito, profundo feito uma cova, nada restava na forma de um coração. Jazia ali o universo. 

Sobre o móvel antiquado, depositei as folhas em branco e, em seguida, entrelacei os dedos numa caneta. Palavra por palavra, preenchi aquela vastidão com pequenas penas de fênix, futuras cinzas, tudo o que ainda queimava em meu sangue. A porta continuava fechada, mas se alguém batesse, não seria mais a angústia que atenderia ao chamado. Ou melhor, não seria só a angústia.  

Nego-me a dizer que se trata apenas de voltar à vida cotidiana. Trata-se de não ter medo de morrer. Afinal, foi para isso que nascemos. 

Logo mais estarei aí com você, meu eterno amor. Esta casa é apenas o primeiro degrau para te alcançar. Serei eu a imensidão que dará destaque à sua luz. 

(...)

De tempos em tempos sinto vontade de ter minha própria casa. Um espaço recluso onde sou e deixo de ser sem avisar ou pedir aprovação. Reprovo-me e, de fato, esta sim é a única reprovação de levo a sério. Preciso da solidão tanto quanto necessito do abraço. 

Construo nos textos os cômodos, cheiros, cores e espaços que supostamente irão compor minha morada. Meu compromisso se firma apenas com a vontade de “me morar”. Habitar meu âmago. Controlar o pequeno “microverso” e ser deus das minhas próprias conquistas e desgraças. 

Lembro- me que ainda quando crianças, por volta dos 7 ou 8 anos, eu dizia à minha mãe: “Meu sonho e ter um apartamento e morar sozinho”. Ela achava que eu dizia isso por não gostar deles ou rejeitar o pouco – porém essencial – que podiam me oferecer. Não era nada disso. Eu os levaria no meu coração. Queria apenas espaço para desaparecer todos os dias. 

Enquanto essa hora não chega, faço deste texto o primeiro degrau para me alcançar. Serei eu a imensidão que dará os tons daqueles móveis antiquados e rígidos.

domingo, 23 de setembro de 2012

O contorno do nunca

Aos poucos, conformei-me com o inevitável. Jamais viveria o amor que tanto sonhei. Ele permaneceria para sempre como o contorno do nunca, aquele que dá forma à frustração.

Acordar e ver seu rosto sereno. Deitar e imaginar como seria bom entrelaçar meus braços nos seus. A distância física de alguns metros contra as milhas que separam nossos sentimentos. Sinto como se uma ampulheta sussurrasse nos meus ouvidos: "O tempo está escorrendo e vocês continuam esperando que a areia trague o amor que lhes é de direito". Corto-me, mas a carne já não é capaz de chamar a atenção da dor. Dói muito, mas num local onde não se pode alcançar.

Quando se é rejeitado, nada mais pode ser feito. As melhores frases não soarão como as melhores. Todas as declarações serão chatas e vergonhosas. E se demonstrar carência, não expressará nada além de cobrança. Como se para dar certo qualquer relacionamento necessitasse de valer a pena logo no primeiro instante. Mas uma vez o contorno do nunca me desperta dos sonhos que insistem em embalar com música e angústia o berço do coração natimorto.

E por que manter este sentimento vivo dentro de mim? Por que cultivar esse buraco negro? Por que permitir que cada brecha, cada olhar seu, cada palavra e contato apaguem os traços do impossível? A resposta é uma e é simples: porque eu tenho certeza de que é amor.

E por que é amor? Porque me faz abrir mão do orgulho que sustentei por anos. Faz-me acordar com um gosto amargo dado pelo tom platônico que ilude meus olhos e ainda assim sorrir. E ainda assim permitir que eu lute com ambos os punhos. Vê? Lutar mesmo com a sensação permanente de derrota. Lutar sem perspectiva de vitória. Lutar para se manter erguido. Para ser capaz de escrever todas estas palavras aqui e, outra vez, marcar no peito a frase que melhor rotula minha essência: "sem controle".

Pois se é para desapegar tem que antes deixar fluir. Tem que sentir o que há no âmago, faminto por conhecer a si mesmo. Só assim se encontra o pó, a borra e todo o restante que temperou a alma com isso que chamo de amor. Precisa cair, queimar as asas no sol, trocar os dentes por moedas e com elas descer até o submundo, tudo isso pra sentir que acabou. Para se enganar mais uma vez.

Reuni aqui minha contestação fantasiada de conformidade. Tentei fazer o que há pouco classifiquei como "inútil". Cá estão todas essas frases recheadas de carinho e melancolia, perdidas no vácuo de uma leitura abandonada. E, como um texto que foi escrito para "nunca" ser lido por quem o inspirou, contorno de lápis o "nunca" em nós, pois sei que um dia o apagarei.

Enquanto isso, que o "nunca" continue sendo a única certeza. Só assim a vida valerá mais do que a falsa promessa do "Felizes para sempre".

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Negócios da alma

De tanto tocá-lo, o velho piano de papai já não precisava mais dos meus dedos para soar. Foi com música que conversamos sobre tudo e todos. Nunca nos demos bem com as palavras.

Ele se foi subitamente. Sem prefácio. Em seguida, mamãe se afogou na tristeza e, mesmo viva, definhava a cada dia. Era devorada aos poucos. E eu... bem... Precisávamos de dinheiro. Ainda havia algo que poderia ser vendido. Meu estômago doía menos do que os olhos ao verem aquela mulher ser consumida pela desistência. Venderia minha alma.

Ele veio até mim com uma fina capa preta. Suas mãos era delicadas e brancas. Pareciam peças de porcelana. Um único anel segurava a pedra vermelha. Não conseguia enxergar seus olhos, mas os sentia sobre mim. Sentados, saboreávamos a comida na mesa. Tentei controlar o nervosismo, entretanto só deixei mais evidente o meu pavor. E o desespero, claro.

Antes que eu tocasse no assunto, ele disse que precisava me contar algo. Um segredo capaz de me fazer mudar de ideia. Sem opção, concordei em ouvi-lo.

"Seu sangue não é puro. Nunca sentiu o perfume que ele tem? Algo como rosas... como macieiras. Seus pais não o queriam vivo. Ofereceram-me o que está a me ofertar antes mesmo que saísse do útero. O problema era o que corria em suas veias. Que ainda corre.

Quando jovens, os dois apaixonados vieram até mim. Cansaram das orações que não resultariam na solução imediata e escolheram as trevas. Tolice, pois sou eu feito de pura luz, ainda que não me caia mais sobre os ombros a responsabilidade de anunciar o nascer do dia. Fiz. E eles lhe fizeram. Aguardavam pelo preço que estipulara, contudo se decepcionaram. Não queria almas. Não queria a deles. Muito menos a sua. Eu precisava de um novo corpo. Era a minha alma a ser doada. Metade dela, pelo menos.

Eles entraram em pânico. Sabiam que minha presença arruinaria suas vidas. Seu pai deixou de falar, porém, assim como eu, amava a música. Sua mãe procurou aquela "luz" que considerava pura e divina. Não obteve retorno. Morreu.

E cá estamos nós."

Eu nunca existi. Nunca fui filho deles. Jamais me colocaram em primeiro lugar. Ou melhor, colocaram no momento em que precisam se livrar de um pacto.

Realmente, mudei o pensamento. Não venderia mais minha alma. Aceitaria a dele.