Foram muitas páginas de um romance trágico e cheio de amor. Um amor que resistiu à balas e explosões, mas que foi sufocado com as cinzas de uma família destruída pelo ódio alheio. Durante tal jornada literária, pude sentir a cicatriz de David queimando no meu rosto. Ela fazia lembrar de todos os sonhos roubados e, principalmente, da crueldade dos seres humanos. As oliveiras ainda estão lá, se recusam a cair. As pedras são como abutres no aguardo do abraço delicado, presente do deserto que ali se forma. Cada palestino morto apagava do céu uma estrela.
Reconstruí as casas e os cheiros, as cores e os rostos dos personagens. Seu jeito de falar e a maneira de agradecer ao seu Deus eram representados na minha mente. Mesmo com tantos detalhes que deveriam me distanciar daquelas pessoas me senti igual. Semelhante, familiar, pois partilhei do elo mais forte: partilhei da sua tristeza. Chorei em silêncio, assim como choravam as mães marcadas pelo terror e sem emitir som - não queriam chamar a atenção dos algozes. O amor me tomou por alguns segundos quando a esperança renascia com uma nova criança na família. Mas a realidade não gosta de passar despercebida. Batia à porta dos alegres e depositava em seus copos uma dose pura de dor. Os sorrisos eram como flores, tinham tempo curto de vida e plenitude.
E o Deus estava surdo e cego. Era tão prisioneiro quanto os refugiados. Deus foi sequestrado há muito tempo e quem está em seu lugar é o irmão gêmeo, o Diabo. No lugar aonde o deixaram o som não entra. Os apelos não são ouvidos e os rostos dos falecidos se apresentam como sonhos, ou melhor, pesadelos. Deus está vencido, pois toda a complexidade que nós humanos aplicamos à sua existência fez dele algo distante e inalcançável, algo superior e egocêntrico. Essas características pertencem ao demônio. O humano erra e paga por isso. Ele está em tudo, menos em nós.
A areia que invade as casas resgatam as perdas. Areia de ossos, de resto de pessoas que um dia deram à terra força e vitalidade. A eterna briga por espaço esconde o fato de que todos já ocupam algum lugar. Linhas e demarcações são obsoletas se comparadas à imensidão do coração do pai que, sem opção, não pode enterrar o filho. O deserto que ali se forma, já tem pedras o bastante.
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"O dinheiro atrapalha o amor"
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Quantos foram os dias de felicidade na sua vida? Consegue se lembrar deles? Ótimo. E hoje você é feliz? Interessante, e por quais motivos se mantém assim? Ok, certo, se te faz feliz, vá em frente!
Você é contra tantas coisas, mas é incapaz de ser contra sua própria intolerância.
Sabe o significado de muitas palavras, mas se faz de analfabeto quando precisa interpretar algo fora do seu vocabulário viciado.
Dá soco, chute, cospe, berra, ameaça. Vai dormir, perde o controle da consciência e sonha que chora como uma criança faminta. Acorda e desconta as inseguranças em quem não tem mais nada a perder.
Marcaram encontro no debate sobre a Palestina e Israel. Apresentaram suas teorias e demonstraram muito conhecimento sobre o assunto. Enquanto isso, duas crianças que atiravam pedras nos escudos dos soldados levaram tiros que atravessaram bocas e narizes.
Estudar a periferia, estudar o pobre, estudar o motoboy. Fazer matéria sobre o boteco com batata em conserva, buscar conversar com pichadores e mães solteiras. É legal usar as cobaias para manter a pose e a social.
Lide perfeito, frases sem erros gramaticais, parágrafos com tamanho ideal. Não me diz nada. Não há diálogo. Não há texto.
Muitas risadas. Piadas bem elaboradas. Sim, engraçadas. Falam alto, pegam no meu braço. Promessas surgem como bolhas que sobem para a superfície do oceano. Não sorri uma vez.
Já disseram que meu sobrenome é de pobre. Minha casa é pobre e meu bairro também. Não acredito em classe média. Proletário, burguês, rico e pobre. Reconheci essas duas realidades ao longo de 23 anos. O resto é pura vaidade. Quem vive no meio não pertence nem a si mesmo.
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"Use sua raiva para construir (sua rebeldia é premeditada)".
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Enquanto eu sentir, vou ser infeliz.
quinta-feira, 28 de abril de 2011
sexta-feira, 22 de abril de 2011
Love will tear us apart
Gosto dos meus sonhos. Eles sempre te trazem até mim.
Feriado prolongado e todos decidem ver o mar. Eu escolho isso todos os dias, mas ainda assim não consigo vê-lo. Ouço seu chamado, mas ignoro e meto a cara numa tela de computador. Não é fuga nem nada, é apenas a realidade como de fato ela é.
Ao menos meu coração continua orgânico. Eu prometo.
E por que ele irá nos separar?
(...)
Não escolho gostar de quem eu gosto. eu simplesmente gosto e sei que isso não vai mudar mesmo que eu tente com todas as minhas forças. A única maneira de não cair nessa ilusão é evitar o contato. Privar-me das longas conversas e dos encontros sem compromisso. Eu queria esse compromisso, no fundo gostaria de dizer que sou seu. Teria que ignorar qualquer chance de escrever minha história do jeito que tanto sonhei.
Sobre meus amores
O primeiro amor marca também a primeira decepção. Intrigava-me, pois era como o fogo. Bastava aparecer e todos prestavam atenção em você. Longos cabelos castanhos e os olhos mais bonitos que já vi. Tinha cheiro de liberdade. Me fez ter frio no estômago e perder os sentidos no primeiro beijo. Me fez sofrer demais e, graças a isso, aprender sobre a indiferença.
O segundo amor me provocava. Sabia me irritar e nunca terminava aquilo que tinha começado. Falava muito e queria me domar de todas as maneiras. Juntos éramos a melhor dupla, separados garantíamos as melhores brigas. Escolheu outra pessoa próxima de mim, mentiu por medo e me perdeu.
O terceiro amor era metade de mim. Estatura baixa, voz de sempre teve tudo o que quis e o melhor perfume de todos. Era uma mistura de vinho com todo o tipo de rebeldia. Tinha os melhores discos, conhecia os melhores sons. O melhor corpo para se abraçar. Nos perdemos no caminho. Queríamos a mesma coisa: conhecer outras pessoas.
O primeiro amor sem nome. Ganhou-me pela coragem. Veio até mim sem medo das coisa terríveis que eu poderia dizer. Disse e arriscou. Sem que soubesse, tinha ganhado meu coração naquele instante. Me fez esperar todos os dias na calçada, para ver seu rosto cansado. Fiquei louco de tristeza quando partiu, mas ganhei vida ao atender o telefone e ouvir sua voz. Era algo incerto, que não se pronunciava. Não me perdeu , porque nunca me teve. Foi o primeiro amor sem nome e sem som.
O segundo amor sem nome veio como flecha. De primeira, teve meu desprezo e sentimento de rivalidade. Ganhou espaço ao tentar apenas ser alguém próximo de mim. Tinha um sorriso leve, mas com o olhar penetrante. Sabia ouvir e queria conhecer. Sabia conhecer depois de ter ouvido. Me tirava a razão e por isso conseguia fazer meu coração pulsar. Nossos caminhos eram desconhecidos e por este motivo é que partíamos todos os dias. Perdeu-me quando se perdeu e não sabia mais quem era diante do espelho.
O terceiro amor sem nome está vivo. Vai além das linhas e além de tudo o que já vi. Não sabe, não vê e se vê prefere a cegueira. É platônico e dói muito, como ferida aberta coberta por sal. Vive num mundo próprio e me convida, sempre que possível, a conhecer seu espaço. Faz-me ficar aqui, escrevendo como um tolo, sobre os amores passados, só para eternizá-lo junto dessas palavras. Ainda não me perdeu, mas vou escrever sobre tal tema quando acontecer.
Mas se acontecer, vou escrever, pela primeira vez, a história que levo comigo todas as noites antes de dormir. Não sei se é sonho, só sei que me faz bem porque me faz pulsar.
Ainda vivo.
Feriado prolongado e todos decidem ver o mar. Eu escolho isso todos os dias, mas ainda assim não consigo vê-lo. Ouço seu chamado, mas ignoro e meto a cara numa tela de computador. Não é fuga nem nada, é apenas a realidade como de fato ela é.
Ao menos meu coração continua orgânico. Eu prometo.
E por que ele irá nos separar?
(...)
Não escolho gostar de quem eu gosto. eu simplesmente gosto e sei que isso não vai mudar mesmo que eu tente com todas as minhas forças. A única maneira de não cair nessa ilusão é evitar o contato. Privar-me das longas conversas e dos encontros sem compromisso. Eu queria esse compromisso, no fundo gostaria de dizer que sou seu. Teria que ignorar qualquer chance de escrever minha história do jeito que tanto sonhei.
Sobre meus amores
O primeiro amor marca também a primeira decepção. Intrigava-me, pois era como o fogo. Bastava aparecer e todos prestavam atenção em você. Longos cabelos castanhos e os olhos mais bonitos que já vi. Tinha cheiro de liberdade. Me fez ter frio no estômago e perder os sentidos no primeiro beijo. Me fez sofrer demais e, graças a isso, aprender sobre a indiferença.
O segundo amor me provocava. Sabia me irritar e nunca terminava aquilo que tinha começado. Falava muito e queria me domar de todas as maneiras. Juntos éramos a melhor dupla, separados garantíamos as melhores brigas. Escolheu outra pessoa próxima de mim, mentiu por medo e me perdeu.
O terceiro amor era metade de mim. Estatura baixa, voz de sempre teve tudo o que quis e o melhor perfume de todos. Era uma mistura de vinho com todo o tipo de rebeldia. Tinha os melhores discos, conhecia os melhores sons. O melhor corpo para se abraçar. Nos perdemos no caminho. Queríamos a mesma coisa: conhecer outras pessoas.
O primeiro amor sem nome. Ganhou-me pela coragem. Veio até mim sem medo das coisa terríveis que eu poderia dizer. Disse e arriscou. Sem que soubesse, tinha ganhado meu coração naquele instante. Me fez esperar todos os dias na calçada, para ver seu rosto cansado. Fiquei louco de tristeza quando partiu, mas ganhei vida ao atender o telefone e ouvir sua voz. Era algo incerto, que não se pronunciava. Não me perdeu , porque nunca me teve. Foi o primeiro amor sem nome e sem som.
O segundo amor sem nome veio como flecha. De primeira, teve meu desprezo e sentimento de rivalidade. Ganhou espaço ao tentar apenas ser alguém próximo de mim. Tinha um sorriso leve, mas com o olhar penetrante. Sabia ouvir e queria conhecer. Sabia conhecer depois de ter ouvido. Me tirava a razão e por isso conseguia fazer meu coração pulsar. Nossos caminhos eram desconhecidos e por este motivo é que partíamos todos os dias. Perdeu-me quando se perdeu e não sabia mais quem era diante do espelho.
O terceiro amor sem nome está vivo. Vai além das linhas e além de tudo o que já vi. Não sabe, não vê e se vê prefere a cegueira. É platônico e dói muito, como ferida aberta coberta por sal. Vive num mundo próprio e me convida, sempre que possível, a conhecer seu espaço. Faz-me ficar aqui, escrevendo como um tolo, sobre os amores passados, só para eternizá-lo junto dessas palavras. Ainda não me perdeu, mas vou escrever sobre tal tema quando acontecer.
Mas se acontecer, vou escrever, pela primeira vez, a história que levo comigo todas as noites antes de dormir. Não sei se é sonho, só sei que me faz bem porque me faz pulsar.
Ainda vivo.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Escrever...
Não conseguia manter a periodicidade da escrita. Era incapaz de preencher um diário. Tudo porque escrever se tornara uma forma de catarse. Eu não queria me libertar todos os dias. Precisava me prender e ficar em silêncio para sentir o abraço invisível dos meus próprios braços.
Meus cadernos guardavam as melhores frases e pensamentos, sempre nas últimas folhas. Antes, era preciso alimentá-los com conhecimento barato e sem fundamento empírico. Falava-se de guerras e povos dentro das salas de aula, repletas de crianças que não conheciam nem mesmo a língua de seus ancestrais. Falava-se de vida quando, na verdade, se evitava explicar da onde surgiam os bebês. Exigiam dos pequenos os maiores cálculos e, mesmo que sem sentido algum, diziam que tais fórmulas eram essenciais. Foi durante os anos na escola que perdi minha essência e fiquei alheio a tudo.
Meu vocabulário sempre se limitou ao que queria dizer, apenas. Simples, fraco, incompleto, seja lá o que for, eu sabia dizer o que queria dizer e isso era suficiente. A gramática não era problema. Hoje, gera neurose. Um erro e parece que o texto inteiro perdeu seu valor.
Agora, quanto ao valor...
Que letra errada poderia tirar o brilho das palavras cheias de sentimento? Qual vírgula iria se atrever a cortar o pensamento livre que galopa nos campos imaginários? Qual crase irá fazer referência aos corpos e rostos que cito nos meus escritos? Das regras que definem o gênero do sujeito, qual vai ter coragem de dizer quem deve ser o quê? Se neste espaço em branco me foi dada a chance escrever, então que eu aproveite ao máximo. E ser tão completo em linhas a serem escritas é simplesmente deixar o rio correr, que das águas cristalinas tirarei o reflexo desses olhos apaixonados que leem devaneios.
A preocupação excessiva com uma escrita livre de erros sufoca a despreocupação que nos traz estórias interessantes. Eu não sei escrever, então. Prefiro não saber. Assim, reforço a ideia de que aqueles que não sabem são justamente os que têm tempo para aprender cada vez mais. Eles só não sabem como parar o pensamento ou formatá-lo. São sábios, não inteligentes. Inteligência é outra coisa. Máquinas são inteligentes, mesmo que artificialmente. Mas qual o problema nisso? Nós somos solidários mesmo que artificialmente.
Durante muitas tardes de 2006, passei a maior parte do tempo escrevendo no meu quarto. Me perdia em meio à páginas e, quando relia o que tinha escrito, não reconhecia o autor. Mágoas, acertos, felicidades e o coração que insistia em tomar a caneta e silenciar a razão. O coração é de leão, não posso evitar. Até hoje passeio por esses contos e textos que não se decidiam entre a realidade e o sonho. Eu não era jornalista, mas escrevia com amor e vontade. Hoje, estou prestes a me tornar um comunicador e percebo que perdi o dom da conversa comigo mesmo. Já não sei mais falar abertamente com o Vinicius, porque me prendi aos malditos termos e restrições técnicas que um bom redator deve seguir. Então, dispenso o título.
Escrever é como soltar um pássaro que há tempos esteve preso e não sabe mais qual a cor do céu. Ele voa para o alto, por instinto, e quando vê o imenso azul se recorda das tantas viagens que fez. Para não deixar que tais momentos desapareçam no ar, ele canta. Eu escrevo. Acho ali um universo onde a ordem não faz sentido e as frases vão se organizando como bem entendem. Encontro ali os pulmões da criatividade, cheios de ideias e planos. Estas linhas tímidas me convidam a dissertar sobre música e toda a harmonia que puder encontrar. Marcam o momento de uma maneira única, tão única quanto as minhas várias formas de ver cada coisa. Uma rede de ações internas que mudam o batimento cardíaco e fazem a respiração ser parecida com a de uma criança ofegante. Ela corre pelas vielas do bairro atrás de uma pipa. Não quer o brinquedo, quer apenas correr. Faz o que tem que ser feito só porque quer ir além. Quando diz que ama é porque quer o beijo. Quando diz que odeia é porque quer fazer as pazes. Quando me diz que não entende é porque entendeu e não consegue aceitar. Quando fica é porque já pensou muitas vezes em partir. Quando lê é porque sabe que ainda estou aqui, nas linhas que amarram nossos espíritos.
Escrever é não revisar os pensamentos e sim confiar neles.
Meus cadernos guardavam as melhores frases e pensamentos, sempre nas últimas folhas. Antes, era preciso alimentá-los com conhecimento barato e sem fundamento empírico. Falava-se de guerras e povos dentro das salas de aula, repletas de crianças que não conheciam nem mesmo a língua de seus ancestrais. Falava-se de vida quando, na verdade, se evitava explicar da onde surgiam os bebês. Exigiam dos pequenos os maiores cálculos e, mesmo que sem sentido algum, diziam que tais fórmulas eram essenciais. Foi durante os anos na escola que perdi minha essência e fiquei alheio a tudo.
Meu vocabulário sempre se limitou ao que queria dizer, apenas. Simples, fraco, incompleto, seja lá o que for, eu sabia dizer o que queria dizer e isso era suficiente. A gramática não era problema. Hoje, gera neurose. Um erro e parece que o texto inteiro perdeu seu valor.
Agora, quanto ao valor...
Que letra errada poderia tirar o brilho das palavras cheias de sentimento? Qual vírgula iria se atrever a cortar o pensamento livre que galopa nos campos imaginários? Qual crase irá fazer referência aos corpos e rostos que cito nos meus escritos? Das regras que definem o gênero do sujeito, qual vai ter coragem de dizer quem deve ser o quê? Se neste espaço em branco me foi dada a chance escrever, então que eu aproveite ao máximo. E ser tão completo em linhas a serem escritas é simplesmente deixar o rio correr, que das águas cristalinas tirarei o reflexo desses olhos apaixonados que leem devaneios.
A preocupação excessiva com uma escrita livre de erros sufoca a despreocupação que nos traz estórias interessantes. Eu não sei escrever, então. Prefiro não saber. Assim, reforço a ideia de que aqueles que não sabem são justamente os que têm tempo para aprender cada vez mais. Eles só não sabem como parar o pensamento ou formatá-lo. São sábios, não inteligentes. Inteligência é outra coisa. Máquinas são inteligentes, mesmo que artificialmente. Mas qual o problema nisso? Nós somos solidários mesmo que artificialmente.
Durante muitas tardes de 2006, passei a maior parte do tempo escrevendo no meu quarto. Me perdia em meio à páginas e, quando relia o que tinha escrito, não reconhecia o autor. Mágoas, acertos, felicidades e o coração que insistia em tomar a caneta e silenciar a razão. O coração é de leão, não posso evitar. Até hoje passeio por esses contos e textos que não se decidiam entre a realidade e o sonho. Eu não era jornalista, mas escrevia com amor e vontade. Hoje, estou prestes a me tornar um comunicador e percebo que perdi o dom da conversa comigo mesmo. Já não sei mais falar abertamente com o Vinicius, porque me prendi aos malditos termos e restrições técnicas que um bom redator deve seguir. Então, dispenso o título.
Escrever é como soltar um pássaro que há tempos esteve preso e não sabe mais qual a cor do céu. Ele voa para o alto, por instinto, e quando vê o imenso azul se recorda das tantas viagens que fez. Para não deixar que tais momentos desapareçam no ar, ele canta. Eu escrevo. Acho ali um universo onde a ordem não faz sentido e as frases vão se organizando como bem entendem. Encontro ali os pulmões da criatividade, cheios de ideias e planos. Estas linhas tímidas me convidam a dissertar sobre música e toda a harmonia que puder encontrar. Marcam o momento de uma maneira única, tão única quanto as minhas várias formas de ver cada coisa. Uma rede de ações internas que mudam o batimento cardíaco e fazem a respiração ser parecida com a de uma criança ofegante. Ela corre pelas vielas do bairro atrás de uma pipa. Não quer o brinquedo, quer apenas correr. Faz o que tem que ser feito só porque quer ir além. Quando diz que ama é porque quer o beijo. Quando diz que odeia é porque quer fazer as pazes. Quando me diz que não entende é porque entendeu e não consegue aceitar. Quando fica é porque já pensou muitas vezes em partir. Quando lê é porque sabe que ainda estou aqui, nas linhas que amarram nossos espíritos.
Escrever é não revisar os pensamentos e sim confiar neles.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Desenvolver
São muitas as vielas que cruzei e vou cruzar
Se São Paulo me recusa, risco um muro e vou andar sem
dizer que fui ou aonde fui, o dia passa na batida
antes mesmo de eu despertar
Falei que luto a cada dia, evito o luto mas sei aceitar
sem egoísmo, o tempo passa e pra mim ele também vai passar e
deixa a saudade de quem soube representar a amizade, o amor materno bases que vão me sustentar
Não fui bom rapaz todos os dias eu sei! Cada erro acumulado era um amor a mais de lado
jogado, largado, no silêncio da exclusão
Reclamei da solidão mas fiz o mesmo com o coração
deixei ele no frio, sozinho e machucado, coloquei trampo na frente de tudo
e perdi o dom e o compasso
Essas vielas me conhecem, sabem que eu vi ela, sorri sem saber o porquê
agora é tarde eu to na dela, mas se um dia for na dele não erra, não é errado
sentir sem buscar os nomes é amar sem ser controlado
Foi na rua que aprendi o peso que o mundo tem
chama os chegado pro futiba na rua até às 6
Vê irmão brigar com irmão, vê a namorada mudar, vê os colegas trair a
confiança que eu dei, mas se Jah voltasse e me desse a chance de rebubinar
essa fita ia ser a mesma, fortalecer pra recordar.
Se São Paulo me recusa, risco um muro e vou andar sem
dizer que fui ou aonde fui, o dia passa na batida
antes mesmo de eu despertar
Falei que luto a cada dia, evito o luto mas sei aceitar
sem egoísmo, o tempo passa e pra mim ele também vai passar e
deixa a saudade de quem soube representar a amizade, o amor materno bases que vão me sustentar
Não fui bom rapaz todos os dias eu sei! Cada erro acumulado era um amor a mais de lado
jogado, largado, no silêncio da exclusão
Reclamei da solidão mas fiz o mesmo com o coração
deixei ele no frio, sozinho e machucado, coloquei trampo na frente de tudo
e perdi o dom e o compasso
Essas vielas me conhecem, sabem que eu vi ela, sorri sem saber o porquê
agora é tarde eu to na dela, mas se um dia for na dele não erra, não é errado
sentir sem buscar os nomes é amar sem ser controlado
Foi na rua que aprendi o peso que o mundo tem
chama os chegado pro futiba na rua até às 6
Vê irmão brigar com irmão, vê a namorada mudar, vê os colegas trair a
confiança que eu dei, mas se Jah voltasse e me desse a chance de rebubinar
essa fita ia ser a mesma, fortalecer pra recordar.
segunda-feira, 21 de março de 2011
O fim não tem fim
Não havia mais nada a ser feito. Este era o último dia de vida na Terra e o céu estava em chamas. As pedras começaram a cair. Fazia sentido. Apedrejar os pecadores, coisa de gente que se considera perfeita. Coisa de Deus.
Não queria ficar perto da minha família. Vê-los morrer, não, melhor procurar outro local para o fim. No peito, aquela sensação ruim de que estava partindo cedo e que todas as maravilhas da vida estavam explodindo junto com as rochas gigantes que riscavam o céu. Uma mistura de medo e frustração, de total niilismo e indignação. Por que nós? Somos as criaturas mais incríveis, criamos muitas coisas, superamos muitas doenças. Mas, quando prestei atenção no horizonte e vi que o sol ainda continuava belo no final da tarde entendi o porquê de estar ali, parado, em pleno fim dos tempos.
(...)
O universo. Corpo infinito, repleto de partes, partículas, órgãos, vida e ausência. A constante expansão era como o som que se propaga no ar, mesmo que este não fizesse parte da sua composição. Silêncio e ruído. Cada pedaço daquele infinito parecia se conter dentro das linhas de poeira cósmica e energia sem origem definida.
Um grão de areia estava fora do lugar.
(...)
Eu vivia em um mundo onde a causa de todos os desastres era justamente a existência da minha espécie. Seja qual for a explicação que os religiosos têm sobre os motivos da destruição, uma coisa é fato: o ser humano sempre estará lá como protagonista. A raça incrível, que podia e fazia acontecer, vivia como parasita apenas consumindo e, por motivos óbvios, reconstruia para poder destruir. Comida só remete à fome. Água à sede. Os animais irracionais dão exemplo de vida em harmonia, seguindo apenas as regras da natureza e nós, os evoluídos, somos prisioneiros das dúvidas que criamos e que insistimos em sanar, mesmo depois de descobrir que muitas delas têm respostas irrelevantes.
Nós, os abençoados por diferentes entidades, conseguimos ouvir apenas a uma delas, a que diz: "mate". Não há nascimento que compense a morte dos sofridos, nem mesmo lei que consiga punir ao ponto de retirar do coração a superfície dura do rancor. Uma nação amamentada pelo medo e suas neuroses, escrava da razão que não busca sabedoria, apenas acumula e manipula o conhecimento. Das mãos negras que recolhem ossos e diamantes. Das mãos caucasianas que engatilham a arma. Das mãos negras e caucasianas que julgam mãos que são do mesmo sexo e estão dadas. Mãos que possuem o polegar opositor.
Nesse momento, não tive mais medo. Entendi a beleza e essência daquela cena e percebi que o fim não tem fim. É apenas o recomeço que se manifesta diante dos meus olhos.
Não queria ficar perto da minha família. Vê-los morrer, não, melhor procurar outro local para o fim. No peito, aquela sensação ruim de que estava partindo cedo e que todas as maravilhas da vida estavam explodindo junto com as rochas gigantes que riscavam o céu. Uma mistura de medo e frustração, de total niilismo e indignação. Por que nós? Somos as criaturas mais incríveis, criamos muitas coisas, superamos muitas doenças. Mas, quando prestei atenção no horizonte e vi que o sol ainda continuava belo no final da tarde entendi o porquê de estar ali, parado, em pleno fim dos tempos.
(...)
O universo. Corpo infinito, repleto de partes, partículas, órgãos, vida e ausência. A constante expansão era como o som que se propaga no ar, mesmo que este não fizesse parte da sua composição. Silêncio e ruído. Cada pedaço daquele infinito parecia se conter dentro das linhas de poeira cósmica e energia sem origem definida.
Um grão de areia estava fora do lugar.
(...)
Eu vivia em um mundo onde a causa de todos os desastres era justamente a existência da minha espécie. Seja qual for a explicação que os religiosos têm sobre os motivos da destruição, uma coisa é fato: o ser humano sempre estará lá como protagonista. A raça incrível, que podia e fazia acontecer, vivia como parasita apenas consumindo e, por motivos óbvios, reconstruia para poder destruir. Comida só remete à fome. Água à sede. Os animais irracionais dão exemplo de vida em harmonia, seguindo apenas as regras da natureza e nós, os evoluídos, somos prisioneiros das dúvidas que criamos e que insistimos em sanar, mesmo depois de descobrir que muitas delas têm respostas irrelevantes.
Nós, os abençoados por diferentes entidades, conseguimos ouvir apenas a uma delas, a que diz: "mate". Não há nascimento que compense a morte dos sofridos, nem mesmo lei que consiga punir ao ponto de retirar do coração a superfície dura do rancor. Uma nação amamentada pelo medo e suas neuroses, escrava da razão que não busca sabedoria, apenas acumula e manipula o conhecimento. Das mãos negras que recolhem ossos e diamantes. Das mãos caucasianas que engatilham a arma. Das mãos negras e caucasianas que julgam mãos que são do mesmo sexo e estão dadas. Mãos que possuem o polegar opositor.
Nesse momento, não tive mais medo. Entendi a beleza e essência daquela cena e percebi que o fim não tem fim. É apenas o recomeço que se manifesta diante dos meus olhos.
Should I take a bullet from a gun?
Pegue todos os seus relatos e confissões, organize-os em textos bem escritos, publique tudo e seja infeliz.
Acordei de acordo com o dia e sua cara desanimadora. Não tomei café para amargar a boca, nem molhei os lábios. Seco.
Saí de casa com uma bola de ferro no calcanhar esquerdo e os ouvidos conspirando contra mim. Qualquer ruído era motivo para tirar uma bala da arma.
O Metrô, expressão máxima do "coletivo individual", que consegue acabar com a mágica (se é que existe mágica) da constante arte de (sobre)viver.
O que posso fazer? Não ouço a voz dos santos nem mesmo a de deus. Esqueci como se reza e de tanto cansaço deito e simplesmente durmo. Não sinto culpa pelas porcarias que fiz durante o dia. Sim, o inferno é isso, viver e não se arrepender das merdas que fez. No fundo, você sabe tanto quanto eu que só é culpado aquele que se considera assim. Gaste seu tempo e suas teorias tentando julgar alguém, para no final perceber que a culpa e algo subjetivo e a sentença para os meus pecados só eu posso dar. O conceito de "bem e mal" é tão flexível.
Coloquei "roupa de frio" e o sol faz questão de nascer. A vontade de querer andar e andar e andar... Sem rumo, horários, pessoas me esperando do outro lado da estação. Sabe aquele dia em que meus pensamentos já são o suficiente? Esqueci de esquecer o celular.
O mundo vive , tudo prossegue normal até onde eu sei. Escrever é a chance de burlar tal normalidade. Normatização, mecanização, inibição, reação , revolução, destruição, reconstrução. Se eu fosse deus, escreveria dessa maneira, bem simples e direta.
Saber de tudo, ter lido tudo, ter visto tudo. A língua se torna uma enciclopédia de arrogância e insegurança. A prepotência foi temperada com sal ao invés de pimenta. Tira o sabor verdadeiro do conhecimento e não queima a língua quando esta deve ser queimada.
Ser triste é diferente de ser depressivo e está muito distante de ser humano. Ser feliz é diferente de ser alegre e está a quilômetros de distância de ser apenas humano. Às vezes eu acho felicidade no simples olhar da minha gata, a Vicky. Também encontro alegria na aula que não acontece ou na conversa rápida, na saída da biblioteca. Tristeza e depressão? As entrelinhas tomam conta dessas duas.
A solidão... Como esquecer? Não quero esquecer. Ela está aí para ser vivida também. Na verdade, nem tento explicar, nem sei por que falei dela ou dele, ou deles(as)...Enfim.
Preciso achar um caminho alternativo. Preciso achar uma preocupação maior. Uma preocupação que seja só minha e não do mundo. Não quero mais resolver os problemas dele. A menos que consiga resolver os meus antes, o resto do peso não cairá mais sobre minhas costas.
O que aconteceria se eu esquecesse o caminho de casa?
Acordei de acordo com o dia e sua cara desanimadora. Não tomei café para amargar a boca, nem molhei os lábios. Seco.
Saí de casa com uma bola de ferro no calcanhar esquerdo e os ouvidos conspirando contra mim. Qualquer ruído era motivo para tirar uma bala da arma.
O Metrô, expressão máxima do "coletivo individual", que consegue acabar com a mágica (se é que existe mágica) da constante arte de (sobre)viver.
O que posso fazer? Não ouço a voz dos santos nem mesmo a de deus. Esqueci como se reza e de tanto cansaço deito e simplesmente durmo. Não sinto culpa pelas porcarias que fiz durante o dia. Sim, o inferno é isso, viver e não se arrepender das merdas que fez. No fundo, você sabe tanto quanto eu que só é culpado aquele que se considera assim. Gaste seu tempo e suas teorias tentando julgar alguém, para no final perceber que a culpa e algo subjetivo e a sentença para os meus pecados só eu posso dar. O conceito de "bem e mal" é tão flexível.
Coloquei "roupa de frio" e o sol faz questão de nascer. A vontade de querer andar e andar e andar... Sem rumo, horários, pessoas me esperando do outro lado da estação. Sabe aquele dia em que meus pensamentos já são o suficiente? Esqueci de esquecer o celular.
O mundo vive , tudo prossegue normal até onde eu sei. Escrever é a chance de burlar tal normalidade. Normatização, mecanização, inibição, reação , revolução, destruição, reconstrução. Se eu fosse deus, escreveria dessa maneira, bem simples e direta.
Saber de tudo, ter lido tudo, ter visto tudo. A língua se torna uma enciclopédia de arrogância e insegurança. A prepotência foi temperada com sal ao invés de pimenta. Tira o sabor verdadeiro do conhecimento e não queima a língua quando esta deve ser queimada.
Ser triste é diferente de ser depressivo e está muito distante de ser humano. Ser feliz é diferente de ser alegre e está a quilômetros de distância de ser apenas humano. Às vezes eu acho felicidade no simples olhar da minha gata, a Vicky. Também encontro alegria na aula que não acontece ou na conversa rápida, na saída da biblioteca. Tristeza e depressão? As entrelinhas tomam conta dessas duas.
A solidão... Como esquecer? Não quero esquecer. Ela está aí para ser vivida também. Na verdade, nem tento explicar, nem sei por que falei dela ou dele, ou deles(as)...Enfim.
Preciso achar um caminho alternativo. Preciso achar uma preocupação maior. Uma preocupação que seja só minha e não do mundo. Não quero mais resolver os problemas dele. A menos que consiga resolver os meus antes, o resto do peso não cairá mais sobre minhas costas.
O que aconteceria se eu esquecesse o caminho de casa?
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Tronco e galhos
Nem eu me conhecia tão bem, quando você disse que já sabia como ia terminar. Ainda assim, caminhamos juntos.
Não queríamos ficar em casa. O frio havia tomado nossos corpos e a única saída era caminhar. Não planejamos um local, apenas paramos em um banco de madeira que ficava de frente para um bosque. Não havia palavras nem frases, nem cartões ou cartas. Sua mão encostou na minha e nesse instante cada um seguiu seu pensamento, livre e independente.
Eu
Pessimista e frio. Desconfiado, difícil e inflexível. Quando me convém, dialético e reflexivo. Quando te convém, amigo, carinhoso, atencioso. Olho para mim, com medo de ter esquecido quem sou por ter passado tanto tempo ao seu lado. Preciso de pelo menos três dias sozinho, com minhas neuras e meus problemas, sem sua voz, sem sua ajuda, mas com sua presença. Nesses dias, amo seu silêncio mais do que qualquer música.
Você
Nunca se satisfaz. Insegurança é seu sobrenome, ainda assim tenta se mostrar firme. Cai nas próprias contradições, mas pouco se importa em me fazer acreditar que tem razão. Se você acredita, ok, não precisa mais de nenhuma aprovação. Me faz pulsar quando te convém. Me pede pra te salvar, quando te convém. Sabe ler meus olhos, e se irrita com o meu silêncio. Ama mais as minhas reclamações do que qualquer canção.
Nós
Abrimos mão do mundo e fugimos sem rumo. Aprendemos que tudo o que é demais faz perder o sabor gostoso que causa prazer. Você me ensinou a apreciar o agridoce. Eu te ensinei a saborear a saudade sem que ela te fizesse perder o paladar. Somos um, porque ainda nos reconhecemos como dois.
Não queríamos ficar em casa. O frio havia tomado nossos corpos e a única saída era caminhar. Não planejamos um local, apenas paramos em um banco de madeira que ficava de frente para um bosque. Não havia palavras nem frases, nem cartões ou cartas. Sua mão encostou na minha e nesse instante cada um seguiu seu pensamento, livre e independente.
Eu
Pessimista e frio. Desconfiado, difícil e inflexível. Quando me convém, dialético e reflexivo. Quando te convém, amigo, carinhoso, atencioso. Olho para mim, com medo de ter esquecido quem sou por ter passado tanto tempo ao seu lado. Preciso de pelo menos três dias sozinho, com minhas neuras e meus problemas, sem sua voz, sem sua ajuda, mas com sua presença. Nesses dias, amo seu silêncio mais do que qualquer música.
Você
Nunca se satisfaz. Insegurança é seu sobrenome, ainda assim tenta se mostrar firme. Cai nas próprias contradições, mas pouco se importa em me fazer acreditar que tem razão. Se você acredita, ok, não precisa mais de nenhuma aprovação. Me faz pulsar quando te convém. Me pede pra te salvar, quando te convém. Sabe ler meus olhos, e se irrita com o meu silêncio. Ama mais as minhas reclamações do que qualquer canção.
Nós
Abrimos mão do mundo e fugimos sem rumo. Aprendemos que tudo o que é demais faz perder o sabor gostoso que causa prazer. Você me ensinou a apreciar o agridoce. Eu te ensinei a saborear a saudade sem que ela te fizesse perder o paladar. Somos um, porque ainda nos reconhecemos como dois.
domingo, 2 de janeiro de 2011
No control

Ainda tenho aquela mania de beber e ouvir meus discos sozinho, como se o remédio para toda dor fosse isso. Me sinto bem, porque não ouço nada além das músicas que gosto.
Troca de ano, tudo parece o mesmo e acho que isso é normal. Já faz tempo desde que decidi não criar expectativa. O primeiro dia do ano soa como mais um. Uma luta contra a memória que tenta ser eterna e o passado que insiste em ser presente. Mas a presença que até ontem me fazia bem, hoje desaparece como fumaça, poeira. Não ouço mais a voz nem sinto o abraço que protege.
.
.
.
(...)
No peito, a tatuagem servia de rótulo para o coração: "No Control". Dizia tudo, a todos. O humor que oscilava como a luz fraca de seu pequeno quarto parecia guiar as frases dos textos que escrevia. Folhas e mais folhas amareladas, espalhadas pelo chão como se fossem o tapete. Os dedos estavam doendo e a unhas pretas por causa da tinta de caneta. Um cigarro e uma cerveja, o som que tocava servia de estimulante. A janela aberta lhe permitia ouvir melhor.
Quando um de seus amigos ligava para chorar as mágoas, ouvia todas elas com interesse. Queria encontrar ali o "ponto fraco" e provar para o parceiro que ele mesmo possuía a solução para seus problemas. No fundo, era um charlatão, pois ele próprio não resolvia os que tinha debaixo das caixas velhas. As fotos daquele passeio permaneciam no mesmo local, cuidadosamente conservadas. Prova de que não havia superado o passado, assim como não admitia que o presente só seria melhor se as imagens ganhassem vida mais uma vez. Talvez, ele tivesse que ligar para si mesmo e no silêncio da outra linha imaginar quais seriam os "conselhos".
De qualquer forma, uma coisa era de se respeitar: não sentia vergonha dos próprios sentimentos. Se tinha que deixar o orgulho de lado para dizer "sim" o deixava, com a força de quem partiria o mundo em dois para que tivessem um lugar seguro. Mas se fosse para se contradizer no mesmo instante e dizer "não" o faria sem maiores problemas, já que acreditava na intensidade das suas verdades completamente flexíveis e variáveis. Tornar-se alguém imprevisível o ajudava com clichês que tiravam a "graça" das relações.
Sabia conversar sobre qualquer coisa, mas gostava de poucas. Conversar se traduzia em ouvir e dizer algumas palavras enquanto pensava em outras coisas. A mania de olhar profundamente nos olhos do outro, como se o desafiasse. Enquanto palavras entravam em sua mente, os pensamentos modelavam situações diferentes, como se alternassem o espaço e tempo entre realidade e possibilidade. Se a amiga chorava as dores de outro amor, ele a via dançando feliz no meio de uma sala vazia, onde todas as músicas que tocavam eram justamente aquelas que a fazia pulsar. Se o amigo voltava com uma aliança no dedo, cheio de orgulho, buscava na mente aquela velha lembrança de quando o mesmo se dizia niilista e sem esperanças no amor.
Em outras ocasiões, suas projeções eram mais intimistas. Via a si mesmo andando pela rua com a companhia mais improvável. Adorava aquela sensação de que a qualquer momento levaria um tiro pelas costas. Tiro disparado pela arma da moral. Ele via a violência como falta de criatividade e isso só confirmava a visão que tinha de que as pessoas deixaram de ser inteligentes quando abandonaram a imaginação para apostar na reprodução mecânica das ideias. Imaginava como seria se pudesse estar com quem sempre quis estar. O mundo se tornava ainda maior, com lugares para todos os tipos de declarações e demonstrações de afeto.
O único momento em que sua mente parecia apagar ou pelo menos descansar era quando entrava em contato com o álcool. Beber virou sua atividade favorita toda vez que a necessidade de relaxar aparecia. Deixava de enxergar com os olhos e apenas a mente lhe guiava. Alterada pela substância, ela tirava os sentidos para dançar e os fazia girar, rir, suar, cansar e querer muito mais. Como serpente astuta, a mesma decidia partir e dormir repentinamente, daí o corpo deveria se virar para arrumar a bagunça. Quando estava caído no chão, sentindo que ia morrer, disse aos seus: "Eu gosto da sensação". Depois disso desmaiou.
São de tragédias e vitórias que se faz o homem. Suas glórias ganharão o valor de deveres monótonos e as derrotas passarão a ser o assunto central de suas conversas. O ensinamento sempre estará nos erros. Ele sabia que caminhava por vias erradas e muitas vezes desafiava o extremo, mas no fundo apenas provava para si e para o mundo que estar certo é apenas uma questão de opinião. Que ser herói sem nunca ter sido vilão é ser incompleto do mesmo jeito. E que ser completo é algo impossível, então nada mais justo do que fazer como a mente: dançar com os sentidos e os deixá-los quando a música acabar.
Ainda tenho aquela mania de beber e ouvir meus discos sozinho, como se o remédio para toda dor fosse isso. Me sinto bem, porque não ouço nada além das músicas que gosto.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
And what is worse, I really do.
O sentimento não se cala, tem voz e vontade própria. Apaga quando quer, ressurge quando eu não quero. Incontrolável, é por isso que eu odeio tanto o amor, e amo tanto odiar aquilo que não controlo.
Sua beleza, seu olhar, seu sorriso e sua voz são como agulhas. Ainda assim, eu te amo. E o pior é que realmente te amo.
Não me interessa. Não tenho você, mas tenho a mim e as palavras que guardei pra te dizer. Quem sabe, num dia desses?
Sua beleza, seu olhar, seu sorriso e sua voz são como agulhas. Ainda assim, eu te amo. E o pior é que realmente te amo.
Não me interessa. Não tenho você, mas tenho a mim e as palavras que guardei pra te dizer. Quem sabe, num dia desses?
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
A caixa de carvalho e o Coração em chamas
Seus pais eram pobres e o único pedaço de terra que lhes restou ficava dentro da densa floresta. Sempre escura e sempre distante. Lá, ele podia ouvir o que ninguém ouvia nas ruas movimentadas do centro da cidade.
A tristeza que cobria seu coração com um fino véu não era resultado da separação. Nunca teve grandes amigos, sempre solitário, brincava com o assovio do vento se no dia fosse chover. Sonhava que um dia seria capaz de colocar seu coração dentro de uma caixa. Achava que a prisão do mesmo pudesse libertar a alma do peso que carregava. Era apenas um garoto que não buscava respostas.
Na primeira noite, sentou-se perto do lago e observou a água correr. Era um dia cinza, o mais belo de todos, e as cores se recolhiam ao mais simples olhar. As folhas secas cantavam baixo e a pequena raposa se aproximou de seu braço. Sem nenhum medo, olhou diretamente para os olhos amarelos e brilhantes. O animal parecia reconhecer aquele menino de pele morta. Disse "desconfie" e então desapareceu.
Nunca contava para a mãe o que acontecia durante o dia. Evitava o pai, pois sabia que ele sabia. Escutou algo bater no vidro de sua janela. Quando afastou a cortina, percebeu que um vulto negro lhe observava. Abriu uma parte e então conheceu o corvo. Agitado e como se estivesse com pressa, disse para o garoto "desafie". Quando abaixou os olhos para pensar, o animal havia desaparecido, assim como a raposa.
Nos caminhos da floresta, seguia a trilha das formigas. Um rio vermelho de passos velozes e inquietos, indiferentes ao gigante que passeava sem rumo. Ele sentia que o peso do coração estava cada vez pior e tentava encontrar madeira para fazer uma caixa. Das mais lindas caixas, ele sempre escolheu as feitas de carvalho. Achou um velho tronco e resolveu arrancar uma lasca para fazer a nova morada do seu amor. Quando tocou a superfície rústica, sentiu que uma criatura delicada e silenciosa saia de dentro da madeira.
Olhos enormes e expressivos, com um brilho maravilhoso. O animal era um cervo. Parecia que rasgava um sorriso no canto de seus lábios negros e não recuou um passo. O menino, paralisado, esperou por uma palavra, algum sinal de que sua presença ali não era em vão. Mas nada foi dito. Com suas longas pernas, o cervo partiu.
Incapaz de construir a caixa, deixou a madeira no local e foi procurar outra coisa para fazer. Percebeu que o coração era a essência de sua expectativa e também o senhor da frustração. Aprendeu que a vida existe para ser contrariada e surpreendida. Mais uma vez, ficou claro que não era dono do futuro, nem de longe. E que como os três animais, estava apenas atuando no enorme teatro do destino, onde não existe diferença entre protagonista e coadjuvante.
Não sei como essa fábula surgiu dentro da minha mente. Mas sei que ela diz tudo o que eu gostaria de ouvir. Se não existe um alguém que me diga tais coisas, faço questão de dizer eu mesmo. Pois ao caminhar por aquela floresta, pude entender o porquê de não ter terminado a caixa de carvalho: ela jamais prenderia um coração que está em chamas.
A tristeza que cobria seu coração com um fino véu não era resultado da separação. Nunca teve grandes amigos, sempre solitário, brincava com o assovio do vento se no dia fosse chover. Sonhava que um dia seria capaz de colocar seu coração dentro de uma caixa. Achava que a prisão do mesmo pudesse libertar a alma do peso que carregava. Era apenas um garoto que não buscava respostas.
Na primeira noite, sentou-se perto do lago e observou a água correr. Era um dia cinza, o mais belo de todos, e as cores se recolhiam ao mais simples olhar. As folhas secas cantavam baixo e a pequena raposa se aproximou de seu braço. Sem nenhum medo, olhou diretamente para os olhos amarelos e brilhantes. O animal parecia reconhecer aquele menino de pele morta. Disse "desconfie" e então desapareceu.
Nunca contava para a mãe o que acontecia durante o dia. Evitava o pai, pois sabia que ele sabia. Escutou algo bater no vidro de sua janela. Quando afastou a cortina, percebeu que um vulto negro lhe observava. Abriu uma parte e então conheceu o corvo. Agitado e como se estivesse com pressa, disse para o garoto "desafie". Quando abaixou os olhos para pensar, o animal havia desaparecido, assim como a raposa.
Nos caminhos da floresta, seguia a trilha das formigas. Um rio vermelho de passos velozes e inquietos, indiferentes ao gigante que passeava sem rumo. Ele sentia que o peso do coração estava cada vez pior e tentava encontrar madeira para fazer uma caixa. Das mais lindas caixas, ele sempre escolheu as feitas de carvalho. Achou um velho tronco e resolveu arrancar uma lasca para fazer a nova morada do seu amor. Quando tocou a superfície rústica, sentiu que uma criatura delicada e silenciosa saia de dentro da madeira.
Olhos enormes e expressivos, com um brilho maravilhoso. O animal era um cervo. Parecia que rasgava um sorriso no canto de seus lábios negros e não recuou um passo. O menino, paralisado, esperou por uma palavra, algum sinal de que sua presença ali não era em vão. Mas nada foi dito. Com suas longas pernas, o cervo partiu.
Incapaz de construir a caixa, deixou a madeira no local e foi procurar outra coisa para fazer. Percebeu que o coração era a essência de sua expectativa e também o senhor da frustração. Aprendeu que a vida existe para ser contrariada e surpreendida. Mais uma vez, ficou claro que não era dono do futuro, nem de longe. E que como os três animais, estava apenas atuando no enorme teatro do destino, onde não existe diferença entre protagonista e coadjuvante.
Não sei como essa fábula surgiu dentro da minha mente. Mas sei que ela diz tudo o que eu gostaria de ouvir. Se não existe um alguém que me diga tais coisas, faço questão de dizer eu mesmo. Pois ao caminhar por aquela floresta, pude entender o porquê de não ter terminado a caixa de carvalho: ela jamais prenderia um coração que está em chamas.
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