Não havia mais nada a ser feito. Este era o último dia de vida na Terra e o céu estava em chamas. As pedras começaram a cair. Fazia sentido. Apedrejar os pecadores, coisa de gente que se considera perfeita. Coisa de Deus.
Não queria ficar perto da minha família. Vê-los morrer, não, melhor procurar outro local para o fim. No peito, aquela sensação ruim de que estava partindo cedo e que todas as maravilhas da vida estavam explodindo junto com as rochas gigantes que riscavam o céu. Uma mistura de medo e frustração, de total niilismo e indignação. Por que nós? Somos as criaturas mais incríveis, criamos muitas coisas, superamos muitas doenças. Mas, quando prestei atenção no horizonte e vi que o sol ainda continuava belo no final da tarde entendi o porquê de estar ali, parado, em pleno fim dos tempos.
(...)
O universo. Corpo infinito, repleto de partes, partículas, órgãos, vida e ausência. A constante expansão era como o som que se propaga no ar, mesmo que este não fizesse parte da sua composição. Silêncio e ruído. Cada pedaço daquele infinito parecia se conter dentro das linhas de poeira cósmica e energia sem origem definida.
Um grão de areia estava fora do lugar.
(...)
Eu vivia em um mundo onde a causa de todos os desastres era justamente a existência da minha espécie. Seja qual for a explicação que os religiosos têm sobre os motivos da destruição, uma coisa é fato: o ser humano sempre estará lá como protagonista. A raça incrível, que podia e fazia acontecer, vivia como parasita apenas consumindo e, por motivos óbvios, reconstruia para poder destruir. Comida só remete à fome. Água à sede. Os animais irracionais dão exemplo de vida em harmonia, seguindo apenas as regras da natureza e nós, os evoluídos, somos prisioneiros das dúvidas que criamos e que insistimos em sanar, mesmo depois de descobrir que muitas delas têm respostas irrelevantes.
Nós, os abençoados por diferentes entidades, conseguimos ouvir apenas a uma delas, a que diz: "mate". Não há nascimento que compense a morte dos sofridos, nem mesmo lei que consiga punir ao ponto de retirar do coração a superfície dura do rancor. Uma nação amamentada pelo medo e suas neuroses, escrava da razão que não busca sabedoria, apenas acumula e manipula o conhecimento. Das mãos negras que recolhem ossos e diamantes. Das mãos caucasianas que engatilham a arma. Das mãos negras e caucasianas que julgam mãos que são do mesmo sexo e estão dadas. Mãos que possuem o polegar opositor.
Nesse momento, não tive mais medo. Entendi a beleza e essência daquela cena e percebi que o fim não tem fim. É apenas o recomeço que se manifesta diante dos meus olhos.
segunda-feira, 21 de março de 2011
Should I take a bullet from a gun?
Pegue todos os seus relatos e confissões, organize-os em textos bem escritos, publique tudo e seja infeliz.
Acordei de acordo com o dia e sua cara desanimadora. Não tomei café para amargar a boca, nem molhei os lábios. Seco.
Saí de casa com uma bola de ferro no calcanhar esquerdo e os ouvidos conspirando contra mim. Qualquer ruído era motivo para tirar uma bala da arma.
O Metrô, expressão máxima do "coletivo individual", que consegue acabar com a mágica (se é que existe mágica) da constante arte de (sobre)viver.
O que posso fazer? Não ouço a voz dos santos nem mesmo a de deus. Esqueci como se reza e de tanto cansaço deito e simplesmente durmo. Não sinto culpa pelas porcarias que fiz durante o dia. Sim, o inferno é isso, viver e não se arrepender das merdas que fez. No fundo, você sabe tanto quanto eu que só é culpado aquele que se considera assim. Gaste seu tempo e suas teorias tentando julgar alguém, para no final perceber que a culpa e algo subjetivo e a sentença para os meus pecados só eu posso dar. O conceito de "bem e mal" é tão flexível.
Coloquei "roupa de frio" e o sol faz questão de nascer. A vontade de querer andar e andar e andar... Sem rumo, horários, pessoas me esperando do outro lado da estação. Sabe aquele dia em que meus pensamentos já são o suficiente? Esqueci de esquecer o celular.
O mundo vive , tudo prossegue normal até onde eu sei. Escrever é a chance de burlar tal normalidade. Normatização, mecanização, inibição, reação , revolução, destruição, reconstrução. Se eu fosse deus, escreveria dessa maneira, bem simples e direta.
Saber de tudo, ter lido tudo, ter visto tudo. A língua se torna uma enciclopédia de arrogância e insegurança. A prepotência foi temperada com sal ao invés de pimenta. Tira o sabor verdadeiro do conhecimento e não queima a língua quando esta deve ser queimada.
Ser triste é diferente de ser depressivo e está muito distante de ser humano. Ser feliz é diferente de ser alegre e está a quilômetros de distância de ser apenas humano. Às vezes eu acho felicidade no simples olhar da minha gata, a Vicky. Também encontro alegria na aula que não acontece ou na conversa rápida, na saída da biblioteca. Tristeza e depressão? As entrelinhas tomam conta dessas duas.
A solidão... Como esquecer? Não quero esquecer. Ela está aí para ser vivida também. Na verdade, nem tento explicar, nem sei por que falei dela ou dele, ou deles(as)...Enfim.
Preciso achar um caminho alternativo. Preciso achar uma preocupação maior. Uma preocupação que seja só minha e não do mundo. Não quero mais resolver os problemas dele. A menos que consiga resolver os meus antes, o resto do peso não cairá mais sobre minhas costas.
O que aconteceria se eu esquecesse o caminho de casa?
Acordei de acordo com o dia e sua cara desanimadora. Não tomei café para amargar a boca, nem molhei os lábios. Seco.
Saí de casa com uma bola de ferro no calcanhar esquerdo e os ouvidos conspirando contra mim. Qualquer ruído era motivo para tirar uma bala da arma.
O Metrô, expressão máxima do "coletivo individual", que consegue acabar com a mágica (se é que existe mágica) da constante arte de (sobre)viver.
O que posso fazer? Não ouço a voz dos santos nem mesmo a de deus. Esqueci como se reza e de tanto cansaço deito e simplesmente durmo. Não sinto culpa pelas porcarias que fiz durante o dia. Sim, o inferno é isso, viver e não se arrepender das merdas que fez. No fundo, você sabe tanto quanto eu que só é culpado aquele que se considera assim. Gaste seu tempo e suas teorias tentando julgar alguém, para no final perceber que a culpa e algo subjetivo e a sentença para os meus pecados só eu posso dar. O conceito de "bem e mal" é tão flexível.
Coloquei "roupa de frio" e o sol faz questão de nascer. A vontade de querer andar e andar e andar... Sem rumo, horários, pessoas me esperando do outro lado da estação. Sabe aquele dia em que meus pensamentos já são o suficiente? Esqueci de esquecer o celular.
O mundo vive , tudo prossegue normal até onde eu sei. Escrever é a chance de burlar tal normalidade. Normatização, mecanização, inibição, reação , revolução, destruição, reconstrução. Se eu fosse deus, escreveria dessa maneira, bem simples e direta.
Saber de tudo, ter lido tudo, ter visto tudo. A língua se torna uma enciclopédia de arrogância e insegurança. A prepotência foi temperada com sal ao invés de pimenta. Tira o sabor verdadeiro do conhecimento e não queima a língua quando esta deve ser queimada.
Ser triste é diferente de ser depressivo e está muito distante de ser humano. Ser feliz é diferente de ser alegre e está a quilômetros de distância de ser apenas humano. Às vezes eu acho felicidade no simples olhar da minha gata, a Vicky. Também encontro alegria na aula que não acontece ou na conversa rápida, na saída da biblioteca. Tristeza e depressão? As entrelinhas tomam conta dessas duas.
A solidão... Como esquecer? Não quero esquecer. Ela está aí para ser vivida também. Na verdade, nem tento explicar, nem sei por que falei dela ou dele, ou deles(as)...Enfim.
Preciso achar um caminho alternativo. Preciso achar uma preocupação maior. Uma preocupação que seja só minha e não do mundo. Não quero mais resolver os problemas dele. A menos que consiga resolver os meus antes, o resto do peso não cairá mais sobre minhas costas.
O que aconteceria se eu esquecesse o caminho de casa?
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Tronco e galhos
Nem eu me conhecia tão bem, quando você disse que já sabia como ia terminar. Ainda assim, caminhamos juntos.
Não queríamos ficar em casa. O frio havia tomado nossos corpos e a única saída era caminhar. Não planejamos um local, apenas paramos em um banco de madeira que ficava de frente para um bosque. Não havia palavras nem frases, nem cartões ou cartas. Sua mão encostou na minha e nesse instante cada um seguiu seu pensamento, livre e independente.
Eu
Pessimista e frio. Desconfiado, difícil e inflexível. Quando me convém, dialético e reflexivo. Quando te convém, amigo, carinhoso, atencioso. Olho para mim, com medo de ter esquecido quem sou por ter passado tanto tempo ao seu lado. Preciso de pelo menos três dias sozinho, com minhas neuras e meus problemas, sem sua voz, sem sua ajuda, mas com sua presença. Nesses dias, amo seu silêncio mais do que qualquer música.
Você
Nunca se satisfaz. Insegurança é seu sobrenome, ainda assim tenta se mostrar firme. Cai nas próprias contradições, mas pouco se importa em me fazer acreditar que tem razão. Se você acredita, ok, não precisa mais de nenhuma aprovação. Me faz pulsar quando te convém. Me pede pra te salvar, quando te convém. Sabe ler meus olhos, e se irrita com o meu silêncio. Ama mais as minhas reclamações do que qualquer canção.
Nós
Abrimos mão do mundo e fugimos sem rumo. Aprendemos que tudo o que é demais faz perder o sabor gostoso que causa prazer. Você me ensinou a apreciar o agridoce. Eu te ensinei a saborear a saudade sem que ela te fizesse perder o paladar. Somos um, porque ainda nos reconhecemos como dois.
Não queríamos ficar em casa. O frio havia tomado nossos corpos e a única saída era caminhar. Não planejamos um local, apenas paramos em um banco de madeira que ficava de frente para um bosque. Não havia palavras nem frases, nem cartões ou cartas. Sua mão encostou na minha e nesse instante cada um seguiu seu pensamento, livre e independente.
Eu
Pessimista e frio. Desconfiado, difícil e inflexível. Quando me convém, dialético e reflexivo. Quando te convém, amigo, carinhoso, atencioso. Olho para mim, com medo de ter esquecido quem sou por ter passado tanto tempo ao seu lado. Preciso de pelo menos três dias sozinho, com minhas neuras e meus problemas, sem sua voz, sem sua ajuda, mas com sua presença. Nesses dias, amo seu silêncio mais do que qualquer música.
Você
Nunca se satisfaz. Insegurança é seu sobrenome, ainda assim tenta se mostrar firme. Cai nas próprias contradições, mas pouco se importa em me fazer acreditar que tem razão. Se você acredita, ok, não precisa mais de nenhuma aprovação. Me faz pulsar quando te convém. Me pede pra te salvar, quando te convém. Sabe ler meus olhos, e se irrita com o meu silêncio. Ama mais as minhas reclamações do que qualquer canção.
Nós
Abrimos mão do mundo e fugimos sem rumo. Aprendemos que tudo o que é demais faz perder o sabor gostoso que causa prazer. Você me ensinou a apreciar o agridoce. Eu te ensinei a saborear a saudade sem que ela te fizesse perder o paladar. Somos um, porque ainda nos reconhecemos como dois.
domingo, 2 de janeiro de 2011
No control

Ainda tenho aquela mania de beber e ouvir meus discos sozinho, como se o remédio para toda dor fosse isso. Me sinto bem, porque não ouço nada além das músicas que gosto.
Troca de ano, tudo parece o mesmo e acho que isso é normal. Já faz tempo desde que decidi não criar expectativa. O primeiro dia do ano soa como mais um. Uma luta contra a memória que tenta ser eterna e o passado que insiste em ser presente. Mas a presença que até ontem me fazia bem, hoje desaparece como fumaça, poeira. Não ouço mais a voz nem sinto o abraço que protege.
.
.
.
(...)
No peito, a tatuagem servia de rótulo para o coração: "No Control". Dizia tudo, a todos. O humor que oscilava como a luz fraca de seu pequeno quarto parecia guiar as frases dos textos que escrevia. Folhas e mais folhas amareladas, espalhadas pelo chão como se fossem o tapete. Os dedos estavam doendo e a unhas pretas por causa da tinta de caneta. Um cigarro e uma cerveja, o som que tocava servia de estimulante. A janela aberta lhe permitia ouvir melhor.
Quando um de seus amigos ligava para chorar as mágoas, ouvia todas elas com interesse. Queria encontrar ali o "ponto fraco" e provar para o parceiro que ele mesmo possuía a solução para seus problemas. No fundo, era um charlatão, pois ele próprio não resolvia os que tinha debaixo das caixas velhas. As fotos daquele passeio permaneciam no mesmo local, cuidadosamente conservadas. Prova de que não havia superado o passado, assim como não admitia que o presente só seria melhor se as imagens ganhassem vida mais uma vez. Talvez, ele tivesse que ligar para si mesmo e no silêncio da outra linha imaginar quais seriam os "conselhos".
De qualquer forma, uma coisa era de se respeitar: não sentia vergonha dos próprios sentimentos. Se tinha que deixar o orgulho de lado para dizer "sim" o deixava, com a força de quem partiria o mundo em dois para que tivessem um lugar seguro. Mas se fosse para se contradizer no mesmo instante e dizer "não" o faria sem maiores problemas, já que acreditava na intensidade das suas verdades completamente flexíveis e variáveis. Tornar-se alguém imprevisível o ajudava com clichês que tiravam a "graça" das relações.
Sabia conversar sobre qualquer coisa, mas gostava de poucas. Conversar se traduzia em ouvir e dizer algumas palavras enquanto pensava em outras coisas. A mania de olhar profundamente nos olhos do outro, como se o desafiasse. Enquanto palavras entravam em sua mente, os pensamentos modelavam situações diferentes, como se alternassem o espaço e tempo entre realidade e possibilidade. Se a amiga chorava as dores de outro amor, ele a via dançando feliz no meio de uma sala vazia, onde todas as músicas que tocavam eram justamente aquelas que a fazia pulsar. Se o amigo voltava com uma aliança no dedo, cheio de orgulho, buscava na mente aquela velha lembrança de quando o mesmo se dizia niilista e sem esperanças no amor.
Em outras ocasiões, suas projeções eram mais intimistas. Via a si mesmo andando pela rua com a companhia mais improvável. Adorava aquela sensação de que a qualquer momento levaria um tiro pelas costas. Tiro disparado pela arma da moral. Ele via a violência como falta de criatividade e isso só confirmava a visão que tinha de que as pessoas deixaram de ser inteligentes quando abandonaram a imaginação para apostar na reprodução mecânica das ideias. Imaginava como seria se pudesse estar com quem sempre quis estar. O mundo se tornava ainda maior, com lugares para todos os tipos de declarações e demonstrações de afeto.
O único momento em que sua mente parecia apagar ou pelo menos descansar era quando entrava em contato com o álcool. Beber virou sua atividade favorita toda vez que a necessidade de relaxar aparecia. Deixava de enxergar com os olhos e apenas a mente lhe guiava. Alterada pela substância, ela tirava os sentidos para dançar e os fazia girar, rir, suar, cansar e querer muito mais. Como serpente astuta, a mesma decidia partir e dormir repentinamente, daí o corpo deveria se virar para arrumar a bagunça. Quando estava caído no chão, sentindo que ia morrer, disse aos seus: "Eu gosto da sensação". Depois disso desmaiou.
São de tragédias e vitórias que se faz o homem. Suas glórias ganharão o valor de deveres monótonos e as derrotas passarão a ser o assunto central de suas conversas. O ensinamento sempre estará nos erros. Ele sabia que caminhava por vias erradas e muitas vezes desafiava o extremo, mas no fundo apenas provava para si e para o mundo que estar certo é apenas uma questão de opinião. Que ser herói sem nunca ter sido vilão é ser incompleto do mesmo jeito. E que ser completo é algo impossível, então nada mais justo do que fazer como a mente: dançar com os sentidos e os deixá-los quando a música acabar.
Ainda tenho aquela mania de beber e ouvir meus discos sozinho, como se o remédio para toda dor fosse isso. Me sinto bem, porque não ouço nada além das músicas que gosto.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
And what is worse, I really do.
O sentimento não se cala, tem voz e vontade própria. Apaga quando quer, ressurge quando eu não quero. Incontrolável, é por isso que eu odeio tanto o amor, e amo tanto odiar aquilo que não controlo.
Sua beleza, seu olhar, seu sorriso e sua voz são como agulhas. Ainda assim, eu te amo. E o pior é que realmente te amo.
Não me interessa. Não tenho você, mas tenho a mim e as palavras que guardei pra te dizer. Quem sabe, num dia desses?
Sua beleza, seu olhar, seu sorriso e sua voz são como agulhas. Ainda assim, eu te amo. E o pior é que realmente te amo.
Não me interessa. Não tenho você, mas tenho a mim e as palavras que guardei pra te dizer. Quem sabe, num dia desses?
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
A caixa de carvalho e o Coração em chamas
Seus pais eram pobres e o único pedaço de terra que lhes restou ficava dentro da densa floresta. Sempre escura e sempre distante. Lá, ele podia ouvir o que ninguém ouvia nas ruas movimentadas do centro da cidade.
A tristeza que cobria seu coração com um fino véu não era resultado da separação. Nunca teve grandes amigos, sempre solitário, brincava com o assovio do vento se no dia fosse chover. Sonhava que um dia seria capaz de colocar seu coração dentro de uma caixa. Achava que a prisão do mesmo pudesse libertar a alma do peso que carregava. Era apenas um garoto que não buscava respostas.
Na primeira noite, sentou-se perto do lago e observou a água correr. Era um dia cinza, o mais belo de todos, e as cores se recolhiam ao mais simples olhar. As folhas secas cantavam baixo e a pequena raposa se aproximou de seu braço. Sem nenhum medo, olhou diretamente para os olhos amarelos e brilhantes. O animal parecia reconhecer aquele menino de pele morta. Disse "desconfie" e então desapareceu.
Nunca contava para a mãe o que acontecia durante o dia. Evitava o pai, pois sabia que ele sabia. Escutou algo bater no vidro de sua janela. Quando afastou a cortina, percebeu que um vulto negro lhe observava. Abriu uma parte e então conheceu o corvo. Agitado e como se estivesse com pressa, disse para o garoto "desafie". Quando abaixou os olhos para pensar, o animal havia desaparecido, assim como a raposa.
Nos caminhos da floresta, seguia a trilha das formigas. Um rio vermelho de passos velozes e inquietos, indiferentes ao gigante que passeava sem rumo. Ele sentia que o peso do coração estava cada vez pior e tentava encontrar madeira para fazer uma caixa. Das mais lindas caixas, ele sempre escolheu as feitas de carvalho. Achou um velho tronco e resolveu arrancar uma lasca para fazer a nova morada do seu amor. Quando tocou a superfície rústica, sentiu que uma criatura delicada e silenciosa saia de dentro da madeira.
Olhos enormes e expressivos, com um brilho maravilhoso. O animal era um cervo. Parecia que rasgava um sorriso no canto de seus lábios negros e não recuou um passo. O menino, paralisado, esperou por uma palavra, algum sinal de que sua presença ali não era em vão. Mas nada foi dito. Com suas longas pernas, o cervo partiu.
Incapaz de construir a caixa, deixou a madeira no local e foi procurar outra coisa para fazer. Percebeu que o coração era a essência de sua expectativa e também o senhor da frustração. Aprendeu que a vida existe para ser contrariada e surpreendida. Mais uma vez, ficou claro que não era dono do futuro, nem de longe. E que como os três animais, estava apenas atuando no enorme teatro do destino, onde não existe diferença entre protagonista e coadjuvante.
Não sei como essa fábula surgiu dentro da minha mente. Mas sei que ela diz tudo o que eu gostaria de ouvir. Se não existe um alguém que me diga tais coisas, faço questão de dizer eu mesmo. Pois ao caminhar por aquela floresta, pude entender o porquê de não ter terminado a caixa de carvalho: ela jamais prenderia um coração que está em chamas.
A tristeza que cobria seu coração com um fino véu não era resultado da separação. Nunca teve grandes amigos, sempre solitário, brincava com o assovio do vento se no dia fosse chover. Sonhava que um dia seria capaz de colocar seu coração dentro de uma caixa. Achava que a prisão do mesmo pudesse libertar a alma do peso que carregava. Era apenas um garoto que não buscava respostas.
Na primeira noite, sentou-se perto do lago e observou a água correr. Era um dia cinza, o mais belo de todos, e as cores se recolhiam ao mais simples olhar. As folhas secas cantavam baixo e a pequena raposa se aproximou de seu braço. Sem nenhum medo, olhou diretamente para os olhos amarelos e brilhantes. O animal parecia reconhecer aquele menino de pele morta. Disse "desconfie" e então desapareceu.
Nunca contava para a mãe o que acontecia durante o dia. Evitava o pai, pois sabia que ele sabia. Escutou algo bater no vidro de sua janela. Quando afastou a cortina, percebeu que um vulto negro lhe observava. Abriu uma parte e então conheceu o corvo. Agitado e como se estivesse com pressa, disse para o garoto "desafie". Quando abaixou os olhos para pensar, o animal havia desaparecido, assim como a raposa.
Nos caminhos da floresta, seguia a trilha das formigas. Um rio vermelho de passos velozes e inquietos, indiferentes ao gigante que passeava sem rumo. Ele sentia que o peso do coração estava cada vez pior e tentava encontrar madeira para fazer uma caixa. Das mais lindas caixas, ele sempre escolheu as feitas de carvalho. Achou um velho tronco e resolveu arrancar uma lasca para fazer a nova morada do seu amor. Quando tocou a superfície rústica, sentiu que uma criatura delicada e silenciosa saia de dentro da madeira.
Olhos enormes e expressivos, com um brilho maravilhoso. O animal era um cervo. Parecia que rasgava um sorriso no canto de seus lábios negros e não recuou um passo. O menino, paralisado, esperou por uma palavra, algum sinal de que sua presença ali não era em vão. Mas nada foi dito. Com suas longas pernas, o cervo partiu.
Incapaz de construir a caixa, deixou a madeira no local e foi procurar outra coisa para fazer. Percebeu que o coração era a essência de sua expectativa e também o senhor da frustração. Aprendeu que a vida existe para ser contrariada e surpreendida. Mais uma vez, ficou claro que não era dono do futuro, nem de longe. E que como os três animais, estava apenas atuando no enorme teatro do destino, onde não existe diferença entre protagonista e coadjuvante.
Não sei como essa fábula surgiu dentro da minha mente. Mas sei que ela diz tudo o que eu gostaria de ouvir. Se não existe um alguém que me diga tais coisas, faço questão de dizer eu mesmo. Pois ao caminhar por aquela floresta, pude entender o porquê de não ter terminado a caixa de carvalho: ela jamais prenderia um coração que está em chamas.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
'Cause nothing even matters at all
Se você não tivesse insistido pela terceira vez, jamais teria compartilhado a mesa.
Quinta-feira, sempre o dia mais odioso da semana. Choveu muito, mas agora só sobraram as gotas atrasadas e a brisa refrescante. Por que não sair para tomar uma cerveja? Sou muito sistemático: o mesmo caminho, o mesmo bar, a mesma cerveja. Sim, eu odeio a "mesmisse" e também tudo o que é previsível, mas faço questão de reproduzir os dois. Talvez, assim eu consiga preservar aquela esperança. Sabe? Aquela!
A cada garrafa, o pensamento fica afiado e o olhar procura um ponto de fuga. A profundidade de campo traz sempre as piores visões. O todo não é nada, prefiro sempre o Macro e sua visão penetrante. Mas era uma quinta-feira. Não poderia esperar muita coisa.
Você entrou, olhou para minha mesa (duas cadeiras, uma pessoa) e não foi previsível. Ao invés de pedir para retirar a cadeira, você simplesmente pediu para sentar comigo. Já na terceira garrafa, olhei nos teus olhos como se partisse sua alma em dois pedaços, e fiz "não" com a cabeça. Primeira tentativa.
Quando você entrou no bar e procurou outro local, percebi que já não conseguia mais pensar em outra coisa, senão naquela atitude muito valente da sua parte. Três minutos depois lá estava você, diante de mim, com uma garrafa de cerveja na mão. Mais uma vez, você não foi previsível (mas não foi surpreendente, vale lembrar) e disse que iria beber de pé, na minha frente. Fingi que não escutei e continuei bebendo e fumando meu cigarro. Segunda tentativa.
Quinze minutos e nada. Eu já estava começando a perder a paciência. Gosto de observar, não de ser observado. Você focava em cada movimento meu. Irritante, arrogante, interessante demais. Pedi mais uma bebida, dessa vez, vodca. Parece que isso te surpreendeu, pois vi que um sorriso de constrangimento cortou seu rosto. Agora, resolvi investir com o golpe final: Fui eu quem começou a focar no seu olhar. Parecia que eu buscava qualquer sinal de fraqueza ou resposta que justificasse aquela pessoa parada, de pé. Não escutava mais as pessoas ao redor, nem mesmo as via. Foi então que tomei uma atitude. Ainda olhando fixamente para seus olhos castanhos, disse: Sente-se. Terceira tentativa. Primeira conquista.
Conversamos bastante, eu ouvia, vc me ouvia, nós ouvíamos o casal apaixonado na outra mesa e tudo se encaixava. Só faltou "aquela" música tocar. Sabe? Aquela! É, então. Quando voltei para casa, o veneno já havia me dominado. O cheiro era do seu perfume. As músicas falavam de você e as imagens me faziam rir sem motivo. Não preciso falar dos filmes. De qualquer forma, não cultivei expectativas, sabia que te ver novamente seria outra obra do acaso, cansado de ser apenas mais um caso. Então, resolvi caminhar sem rumo durante a noite. Cansado dos meus discos e filmes, queria ver o imprevisível. Me lembrava de você, mas não com tanta força assim.
Cheguei naquele mesmo boteco. Como era um pouco mais tarde, eu fiquei sem opções de mesa. Justamente aquela em que sempre fico estava ocupada. Eu já preparava o olhar de ódio, quando percebi que quem estava lá, no meu lugar, no meu pequeno mundo, era você. Não pedi para sentar, apenas me acomodei. Lembro que você não disse nada. Ficou me olhando e aos poucos foi aproximando sua mão da minha. Meu rosto pegou fogo e o estômago congelou. Não consegui dizer nada, assim como não me movi. Estava na teia da aranha, amarrado e feliz, pois não sabia o que aconteceria. Quando sua pele tocou a minha sorrimos juntos. Eu, que odeio demonstrações de afeto em público, levantei, fui até você e dei um beijo na sua testa. Sei lá, sabe aquela maneira de dizer "sim", meio desajeitada? Sabe? Aquela! Isso, foi o que fiz.
Depois disso, nada mais importou, nem o tempo e nem os locais. O meu lugar é o seu e vice-versa. Agora, temos uma mesa só para nós.
Quinta-feira, sempre o dia mais odioso da semana. Choveu muito, mas agora só sobraram as gotas atrasadas e a brisa refrescante. Por que não sair para tomar uma cerveja? Sou muito sistemático: o mesmo caminho, o mesmo bar, a mesma cerveja. Sim, eu odeio a "mesmisse" e também tudo o que é previsível, mas faço questão de reproduzir os dois. Talvez, assim eu consiga preservar aquela esperança. Sabe? Aquela!
A cada garrafa, o pensamento fica afiado e o olhar procura um ponto de fuga. A profundidade de campo traz sempre as piores visões. O todo não é nada, prefiro sempre o Macro e sua visão penetrante. Mas era uma quinta-feira. Não poderia esperar muita coisa.
Você entrou, olhou para minha mesa (duas cadeiras, uma pessoa) e não foi previsível. Ao invés de pedir para retirar a cadeira, você simplesmente pediu para sentar comigo. Já na terceira garrafa, olhei nos teus olhos como se partisse sua alma em dois pedaços, e fiz "não" com a cabeça. Primeira tentativa.
Quando você entrou no bar e procurou outro local, percebi que já não conseguia mais pensar em outra coisa, senão naquela atitude muito valente da sua parte. Três minutos depois lá estava você, diante de mim, com uma garrafa de cerveja na mão. Mais uma vez, você não foi previsível (mas não foi surpreendente, vale lembrar) e disse que iria beber de pé, na minha frente. Fingi que não escutei e continuei bebendo e fumando meu cigarro. Segunda tentativa.
Quinze minutos e nada. Eu já estava começando a perder a paciência. Gosto de observar, não de ser observado. Você focava em cada movimento meu. Irritante, arrogante, interessante demais. Pedi mais uma bebida, dessa vez, vodca. Parece que isso te surpreendeu, pois vi que um sorriso de constrangimento cortou seu rosto. Agora, resolvi investir com o golpe final: Fui eu quem começou a focar no seu olhar. Parecia que eu buscava qualquer sinal de fraqueza ou resposta que justificasse aquela pessoa parada, de pé. Não escutava mais as pessoas ao redor, nem mesmo as via. Foi então que tomei uma atitude. Ainda olhando fixamente para seus olhos castanhos, disse: Sente-se. Terceira tentativa. Primeira conquista.
Conversamos bastante, eu ouvia, vc me ouvia, nós ouvíamos o casal apaixonado na outra mesa e tudo se encaixava. Só faltou "aquela" música tocar. Sabe? Aquela! É, então. Quando voltei para casa, o veneno já havia me dominado. O cheiro era do seu perfume. As músicas falavam de você e as imagens me faziam rir sem motivo. Não preciso falar dos filmes. De qualquer forma, não cultivei expectativas, sabia que te ver novamente seria outra obra do acaso, cansado de ser apenas mais um caso. Então, resolvi caminhar sem rumo durante a noite. Cansado dos meus discos e filmes, queria ver o imprevisível. Me lembrava de você, mas não com tanta força assim.
Cheguei naquele mesmo boteco. Como era um pouco mais tarde, eu fiquei sem opções de mesa. Justamente aquela em que sempre fico estava ocupada. Eu já preparava o olhar de ódio, quando percebi que quem estava lá, no meu lugar, no meu pequeno mundo, era você. Não pedi para sentar, apenas me acomodei. Lembro que você não disse nada. Ficou me olhando e aos poucos foi aproximando sua mão da minha. Meu rosto pegou fogo e o estômago congelou. Não consegui dizer nada, assim como não me movi. Estava na teia da aranha, amarrado e feliz, pois não sabia o que aconteceria. Quando sua pele tocou a minha sorrimos juntos. Eu, que odeio demonstrações de afeto em público, levantei, fui até você e dei um beijo na sua testa. Sei lá, sabe aquela maneira de dizer "sim", meio desajeitada? Sabe? Aquela! Isso, foi o que fiz.
Depois disso, nada mais importou, nem o tempo e nem os locais. O meu lugar é o seu e vice-versa. Agora, temos uma mesa só para nós.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Vejo muitas coisas, olho para poucas
Lá fora, a chuva. Aqui dentro, um calor infernal.
Não sei mais o que te dizer. Perdi as palavras. Talvez, tenha que esperar o frio voltar. Pode ser apenas uma "coisa" de tempo. Clima, de repente.
Até penso que tenho certos assuntos a serem tratados com você. Só que o silêncio parece mais cômodo. Para ambas as partes, isso está claro. Perdemos a criatividade. E eu ainda não sei o que fiz para você. Assim como também não sei o que fiz comigo. Só deixei acontecer. Queria ver no que ia dar.
Olho para mim! Ainda vejo aquela parcela da existência com grandes dificuldades em se expressar. Sempre inserida em suas metáforas e palavras ambíguas, sentindo que a insatisfação vem da falta de cobiça por algo que está no cotidiano. A falta de fé aliada ao cansaço mental e solidão compõem as notas dessa música. Trilha sonora de um coração que existe porque é assim que tem que ser. Não há uma opção ou melhor, até existe, mas o preço é alto.
Meus sonhos estão fragmentados como se o espelho que refletisse o rosto tivesse levado um tiro. Vejo pedaços da infância silenciados pelo tempo. Também vejo o presente correndo livre, sem que eu possa controlá-lo. Na verdade, não quero controle. O que eu estou buscando, então? O que eu quero? O que me falta? Não sei. Se soubesse, também continuaria agindo como se me fosse desconhecido. Não mais ouço aquelas vozes que diziam "Ah, você tem que seguir adiante, tem que continuar. Bola pra frente!". Palavras vazias. Quem disse que eu parei com minha vida? É difícil perceber que eu não vivo no mesmo ritmo que as outras pessoas? Às vezes, eu preciso me sentir triste.
E quando a necessidade de alegria surge, acabo ficando irritado. Ir em festas, reuniões de amigos, idas ao parque, não. Não existe fórmula exata e permanente que faça com que a alegria sempre chegue na hora que você mais precisa. Não são apenas essas coisas que me farão sorrir. A minha alegria é aleatória. Se hoje ela vem da fotografia, amanhã pode surgir de um cigarro num banco de madeira.
Já não falo mais em simplicidade. Admito que a complexidade em que fui construído faz tudo soar familiar. Com isso, olho todas as ideias e afirmações como se não passassem de elementos óbvios para compor a felicidade de qualquer humano. Vivi muitos anos dentro do meu mundo. Agora, me sinto um forasteiro no seu. E no de todo mundo.
Barulho, muitas pessoas que não param de falar e os problemas alheios. Contribuição indispensável para o desgosto. Não me interessa se filósofos, religiosos ou psicólogos disseram algo sobre tudo o que já senti e falei. O peso que o mundo tem é algo que varia de pessoa para pessoa. Nunca saberão. No máximo, vão tentar adivinhar e ganhar dinheiro e reconhecimento com isso. Uma forma de alcançar a alegria.
Toda vez que estou no Metrô e alguém me pergunta sobre alguma estação, eu me embaralho. Parece que tudo some da minha mente, mesmo que eu esteja indo para o mesmo local que a pessoa. A mesma coisa acontece com as horas. Não entendo o idioma deles, nem seu jeito invasivo de perguntar as coisas, mesmo com placas e relógios por todos os lados. Como se a confirmação de um ser humano fosse mais confiável do que a precisão mecânica das máquinas. Humano, demasiado humano.
Vejo muitas coisas, mas olho para poucas.
Não sei mais o que te dizer. Perdi as palavras. Talvez, tenha que esperar o frio voltar. Pode ser apenas uma "coisa" de tempo. Clima, de repente.
Até penso que tenho certos assuntos a serem tratados com você. Só que o silêncio parece mais cômodo. Para ambas as partes, isso está claro. Perdemos a criatividade. E eu ainda não sei o que fiz para você. Assim como também não sei o que fiz comigo. Só deixei acontecer. Queria ver no que ia dar.
Olho para mim! Ainda vejo aquela parcela da existência com grandes dificuldades em se expressar. Sempre inserida em suas metáforas e palavras ambíguas, sentindo que a insatisfação vem da falta de cobiça por algo que está no cotidiano. A falta de fé aliada ao cansaço mental e solidão compõem as notas dessa música. Trilha sonora de um coração que existe porque é assim que tem que ser. Não há uma opção ou melhor, até existe, mas o preço é alto.
Meus sonhos estão fragmentados como se o espelho que refletisse o rosto tivesse levado um tiro. Vejo pedaços da infância silenciados pelo tempo. Também vejo o presente correndo livre, sem que eu possa controlá-lo. Na verdade, não quero controle. O que eu estou buscando, então? O que eu quero? O que me falta? Não sei. Se soubesse, também continuaria agindo como se me fosse desconhecido. Não mais ouço aquelas vozes que diziam "Ah, você tem que seguir adiante, tem que continuar. Bola pra frente!". Palavras vazias. Quem disse que eu parei com minha vida? É difícil perceber que eu não vivo no mesmo ritmo que as outras pessoas? Às vezes, eu preciso me sentir triste.
E quando a necessidade de alegria surge, acabo ficando irritado. Ir em festas, reuniões de amigos, idas ao parque, não. Não existe fórmula exata e permanente que faça com que a alegria sempre chegue na hora que você mais precisa. Não são apenas essas coisas que me farão sorrir. A minha alegria é aleatória. Se hoje ela vem da fotografia, amanhã pode surgir de um cigarro num banco de madeira.
Já não falo mais em simplicidade. Admito que a complexidade em que fui construído faz tudo soar familiar. Com isso, olho todas as ideias e afirmações como se não passassem de elementos óbvios para compor a felicidade de qualquer humano. Vivi muitos anos dentro do meu mundo. Agora, me sinto um forasteiro no seu. E no de todo mundo.
Barulho, muitas pessoas que não param de falar e os problemas alheios. Contribuição indispensável para o desgosto. Não me interessa se filósofos, religiosos ou psicólogos disseram algo sobre tudo o que já senti e falei. O peso que o mundo tem é algo que varia de pessoa para pessoa. Nunca saberão. No máximo, vão tentar adivinhar e ganhar dinheiro e reconhecimento com isso. Uma forma de alcançar a alegria.
Toda vez que estou no Metrô e alguém me pergunta sobre alguma estação, eu me embaralho. Parece que tudo some da minha mente, mesmo que eu esteja indo para o mesmo local que a pessoa. A mesma coisa acontece com as horas. Não entendo o idioma deles, nem seu jeito invasivo de perguntar as coisas, mesmo com placas e relógios por todos os lados. Como se a confirmação de um ser humano fosse mais confiável do que a precisão mecânica das máquinas. Humano, demasiado humano.
Vejo muitas coisas, mas olho para poucas.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Just hold on to me

Desde o início todos foram contra. Família, a(ini)migos, o mundo. A Ordem perdeu seu valor quando decidimos traçar um destino diferente daquele que Deus especificou em seu Masterplan. Eu nunca disse que seria fácil. Os primeiros dias serão os mais felizes e também os mais difíceis. Mas confie em mim.
O que mais incomoda A Ordem é saber que nem todos vivem o mesmo estilo de vida que seus integrantes. Irrita saber que existem diversas vias para se alcançar a felicidade e nem sempre será simples de compreender. A partir daí, passam a sufocar qualquer tipo de sentimento revolucionário, que na verdade não passa de mais uma forma de dizer o que todo mundo já sabe. Se amor tivesse uma tradução, eu faria questão de nunca procurá-la e principalmente, de entendê-la.
Eles destroem, condenam, amaldiçoam, agridem, matam, ridicularizam etc. Incapaz de sentir empatia, a maioria reivindica os direitos que já tem. O direito de ser branco, de ser católico, de ser heterossexual, de ser norte-americano. Não percebem que eles já tem TUDO. Não percebem que as minorias vivem a mercê de suas decisões e, principalmente, do egoísmo. É como se a maioria se sentisse ofendida por não ser absoluta.
Mas não interessa, pois existe aquele momento de individualidade em que você pode berrar até estourar as cordas vocais. Momento em que você pode entrar em um circle pit e girar até cansar. Pular, dançar, lutar, sempre haverá um lugar para você ser o que é. Independente das normas e condições. Talvez, a moradia da esperança seja aquele espaço que você escolheu como seu. Ou como nosso.
Ninguém percebe que olhamos sempre para o mesmo céu e somos banhados pelos mesmos raios de sol. Aliás, até percebem, mas deixaram de valorizar as coisas simples para criar questões complexas, na intenção de enaltecer a capacidade cognitiva. É uma pena. Conhecimento não é nada sem sabedoria.
Sei que nada vai mudar, pelo menos não enquanto viver. Sei também que é preciso não aceitar, ir de encontro mesmo que o medo seja maior. Também sei que, como já disse em outros textos, eu partiria o mundo em dois por nós. Mesmo que essa metáfora pareça exagerada, acredite, você vai poder segurar e mim quando estivermos destruídos, sujos de sangue e cheio de hematomas. Vou olhar nos seus olhos, dar um sorriso e dizer: "Um dia, haverá um lugar para nós".
Eu sei que haverá. Confie em mim.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
To||Day

Quanto tempo faz que não escrevo sobre o Hoje. Parece que meus últimos textos apenas retratavam a constante fuga da realidade. Talvez eu esteja escutando música demais. Talvez não o bastante.
O ano está prestes a acabar, mas não foi isso que me trouxe aqui. De fato, foram 365 dias de muitas descobertas. Ambíguas, claro. Mas foi bom, apesar de tudo ainda me reconheço diante do espelho. O que mais pesa é o coração, pra variar. Mas agora ele está em silêncio, acho que resolveu dormir... Cansado, sabe?
Os estudos continuam. A vida continua. O emprego me permite ter espaço para escrever e isso vale muito. Muito mais que o próprio salário, tenho que confessar. Pouco me importo, pois me sinto vivo quando decido transcrever meus pensamentos. É algo que me faz pulsar.
Acredito que não tenho mais tanto a dizer sobre 2010. E quanto a mim? Bem, resolvi viver à deriva. Posso falar do agora, mas do futuro pouco sei. Pouco sei, mesmo. Só sinto o que tem para se sentir hoje. Se é para ficar triste, então ficarei até o sentimento passar, afinal, não é assim quando estamos felizes? Sempre passa, sempre.
Good times are like bullets. They come, they go and let us a scar.
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