domingo, 2 de janeiro de 2011

No control




Ainda tenho aquela mania de beber e ouvir meus discos sozinho, como se o remédio para toda dor fosse isso. Me sinto bem, porque não ouço nada além das músicas que gosto.

Troca de ano, tudo parece o mesmo e acho que isso é normal. Já faz tempo desde que decidi não criar expectativa. O primeiro dia do ano soa como mais um. Uma luta contra a memória que tenta ser eterna e o passado que insiste em ser presente. Mas a presença que até ontem me fazia bem, hoje desaparece como fumaça, poeira. Não ouço mais a voz nem sinto o abraço que protege.

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No peito, a tatuagem servia de rótulo para o coração: "No Control". Dizia tudo, a todos. O humor que oscilava como a luz fraca de seu pequeno quarto parecia guiar as frases dos textos que escrevia. Folhas e mais folhas amareladas, espalhadas pelo chão como se fossem o tapete. Os dedos estavam doendo e a unhas pretas por causa da tinta de caneta. Um cigarro e uma cerveja, o som que tocava servia de estimulante. A janela aberta lhe permitia ouvir melhor.

Quando um de seus amigos ligava para chorar as mágoas, ouvia todas elas com interesse. Queria encontrar ali o "ponto fraco" e provar para o parceiro que ele mesmo possuía a solução para seus problemas. No fundo, era um charlatão, pois ele próprio não resolvia os que tinha debaixo das caixas velhas. As fotos daquele passeio permaneciam no mesmo local, cuidadosamente conservadas. Prova de que não havia superado o passado, assim como não admitia que o presente só seria melhor se as imagens ganhassem vida mais uma vez. Talvez, ele tivesse que ligar para si mesmo e no silêncio da outra linha imaginar quais seriam os "conselhos".

De qualquer forma, uma coisa era de se respeitar: não sentia vergonha dos próprios sentimentos. Se tinha que deixar o orgulho de lado para dizer "sim" o deixava, com a força de quem partiria o mundo em dois para que tivessem um lugar seguro. Mas se fosse para se contradizer no mesmo instante e dizer "não" o faria sem maiores problemas, já que acreditava na intensidade das suas verdades completamente flexíveis e variáveis. Tornar-se alguém imprevisível o ajudava com clichês que tiravam a "graça" das relações.

Sabia conversar sobre qualquer coisa, mas gostava de poucas. Conversar se traduzia em ouvir e dizer algumas palavras enquanto pensava em outras coisas. A mania de olhar profundamente nos olhos do outro, como se o desafiasse. Enquanto palavras entravam em sua mente, os pensamentos modelavam situações diferentes, como se alternassem o espaço e tempo entre realidade e possibilidade. Se a amiga chorava as dores de outro amor, ele a via dançando feliz no meio de uma sala vazia, onde todas as músicas que tocavam eram justamente aquelas que a fazia pulsar. Se o amigo voltava com uma aliança no dedo, cheio de orgulho, buscava na mente aquela velha lembrança de quando o mesmo se dizia niilista e sem esperanças no amor.

Em outras ocasiões, suas projeções eram mais intimistas. Via a si mesmo andando pela rua com a companhia mais improvável. Adorava aquela sensação de que a qualquer momento levaria um tiro pelas costas. Tiro disparado pela arma da moral. Ele via a violência como falta de criatividade e isso só confirmava a visão que tinha de que as pessoas deixaram de ser inteligentes quando abandonaram a imaginação para apostar na reprodução mecânica das ideias. Imaginava como seria se pudesse estar com quem sempre quis estar. O mundo se tornava ainda maior, com lugares para todos os tipos de declarações e demonstrações de afeto.

O único momento em que sua mente parecia apagar ou pelo menos descansar era quando entrava em contato com o álcool. Beber virou sua atividade favorita toda vez que a necessidade de relaxar aparecia. Deixava de enxergar com os olhos e apenas a mente lhe guiava. Alterada pela substância, ela tirava os sentidos para dançar e os fazia girar, rir, suar, cansar e querer muito mais. Como serpente astuta, a mesma decidia partir e dormir repentinamente, daí o corpo deveria se virar para arrumar a bagunça. Quando estava caído no chão, sentindo que ia morrer, disse aos seus: "Eu gosto da sensação". Depois disso desmaiou.

São de tragédias e vitórias que se faz o homem. Suas glórias ganharão o valor de deveres monótonos e as derrotas passarão a ser o assunto central de suas conversas. O ensinamento sempre estará nos erros. Ele sabia que caminhava por vias erradas e muitas vezes desafiava o extremo, mas no fundo apenas provava para si e para o mundo que estar certo é apenas uma questão de opinião. Que ser herói sem nunca ter sido vilão é ser incompleto do mesmo jeito. E que ser completo é algo impossível, então nada mais justo do que fazer como a mente: dançar com os sentidos e os deixá-los quando a música acabar.

Ainda tenho aquela mania de beber e ouvir meus discos sozinho, como se o remédio para toda dor fosse isso. Me sinto bem, porque não ouço nada além das músicas que gosto.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

And what is worse, I really do.

O sentimento não se cala, tem voz e vontade própria. Apaga quando quer, ressurge quando eu não quero. Incontrolável, é por isso que eu odeio tanto o amor, e amo tanto odiar aquilo que não controlo.

Sua beleza, seu olhar, seu sorriso e sua voz são como agulhas. Ainda assim, eu te amo. E o pior é que realmente te amo.

Não me interessa. Não tenho você, mas tenho a mim e as palavras que guardei pra te dizer. Quem sabe, num dia desses?

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A caixa de carvalho e o Coração em chamas

Seus pais eram pobres e o único pedaço de terra que lhes restou ficava dentro da densa floresta. Sempre escura e sempre distante. Lá, ele podia ouvir o que ninguém ouvia nas ruas movimentadas do centro da cidade.

A tristeza que cobria seu coração com um fino véu não era resultado da separação. Nunca teve grandes amigos, sempre solitário, brincava com o assovio do vento se no dia fosse chover. Sonhava que um dia seria capaz de colocar seu coração dentro de uma caixa. Achava que a prisão do mesmo pudesse libertar a alma do peso que carregava. Era apenas um garoto que não buscava respostas.

Na primeira noite, sentou-se perto do lago e observou a água correr. Era um dia cinza, o mais belo de todos, e as cores se recolhiam ao mais simples olhar. As folhas secas cantavam baixo e a pequena raposa se aproximou de seu braço. Sem nenhum medo, olhou diretamente para os olhos amarelos e brilhantes. O animal parecia reconhecer aquele menino de pele morta. Disse "desconfie" e então desapareceu.

Nunca contava para a mãe o que acontecia durante o dia. Evitava o pai, pois sabia que ele sabia. Escutou algo bater no vidro de sua janela. Quando afastou a cortina, percebeu que um vulto negro lhe observava. Abriu uma parte e então conheceu o corvo. Agitado e como se estivesse com pressa, disse para o garoto "desafie". Quando abaixou os olhos para pensar, o animal havia desaparecido, assim como a raposa.

Nos caminhos da floresta, seguia a trilha das formigas. Um rio vermelho de passos velozes e inquietos, indiferentes ao gigante que passeava sem rumo. Ele sentia que o peso do coração estava cada vez pior e tentava encontrar madeira para fazer uma caixa. Das mais lindas caixas, ele sempre escolheu as feitas de carvalho. Achou um velho tronco e resolveu arrancar uma lasca para fazer a nova morada do seu amor. Quando tocou a superfície rústica, sentiu que uma criatura delicada e silenciosa saia de dentro da madeira.

Olhos enormes e expressivos, com um brilho maravilhoso. O animal era um cervo. Parecia que rasgava um sorriso no canto de seus lábios negros e não recuou um passo. O menino, paralisado, esperou por uma palavra, algum sinal de que sua presença ali não era em vão. Mas nada foi dito. Com suas longas pernas, o cervo partiu.

Incapaz de construir a caixa, deixou a madeira no local e foi procurar outra coisa para fazer. Percebeu que o coração era a essência de sua expectativa e também o senhor da frustração. Aprendeu que a vida existe para ser contrariada e surpreendida. Mais uma vez, ficou claro que não era dono do futuro, nem de longe. E que como os três animais, estava apenas atuando no enorme teatro do destino, onde não existe diferença entre protagonista e coadjuvante.

Não sei como essa fábula surgiu dentro da minha mente. Mas sei que ela diz tudo o que eu gostaria de ouvir. Se não existe um alguém que me diga tais coisas, faço questão de dizer eu mesmo. Pois ao caminhar por aquela floresta, pude entender o porquê de não ter terminado a caixa de carvalho: ela jamais prenderia um coração que está em chamas.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

'Cause nothing even matters at all

Se você não tivesse insistido pela terceira vez, jamais teria compartilhado a mesa.

Quinta-feira, sempre o dia mais odioso da semana. Choveu muito, mas agora só sobraram as gotas atrasadas e a brisa refrescante. Por que não sair para tomar uma cerveja? Sou muito sistemático: o mesmo caminho, o mesmo bar, a mesma cerveja. Sim, eu odeio a "mesmisse" e também tudo o que é previsível, mas faço questão de reproduzir os dois. Talvez, assim eu consiga preservar aquela esperança. Sabe? Aquela!

A cada garrafa, o pensamento fica afiado e o olhar procura um ponto de fuga. A profundidade de campo traz sempre as piores visões. O todo não é nada, prefiro sempre o Macro e sua visão penetrante. Mas era uma quinta-feira. Não poderia esperar muita coisa.

Você entrou, olhou para minha mesa (duas cadeiras, uma pessoa) e não foi previsível. Ao invés de pedir para retirar a cadeira, você simplesmente pediu para sentar comigo. Já na terceira garrafa, olhei nos teus olhos como se partisse sua alma em dois pedaços, e fiz "não" com a cabeça. Primeira tentativa.

Quando você entrou no bar e procurou outro local, percebi que já não conseguia mais pensar em outra coisa, senão naquela atitude muito valente da sua parte. Três minutos depois lá estava você, diante de mim, com uma garrafa de cerveja na mão. Mais uma vez, você não foi previsível (mas não foi surpreendente, vale lembrar) e disse que iria beber de pé, na minha frente. Fingi que não escutei e continuei bebendo e fumando meu cigarro. Segunda tentativa.

Quinze minutos e nada. Eu já estava começando a perder a paciência. Gosto de observar, não de ser observado. Você focava em cada movimento meu. Irritante, arrogante, interessante demais. Pedi mais uma bebida, dessa vez, vodca. Parece que isso te surpreendeu, pois vi que um sorriso de constrangimento cortou seu rosto. Agora, resolvi investir com o golpe final: Fui eu quem começou a focar no seu olhar. Parecia que eu buscava qualquer sinal de fraqueza ou resposta que justificasse aquela pessoa parada, de pé. Não escutava mais as pessoas ao redor, nem mesmo as via. Foi então que tomei uma atitude. Ainda olhando fixamente para seus olhos castanhos, disse: Sente-se. Terceira tentativa. Primeira conquista.

Conversamos bastante, eu ouvia, vc me ouvia, nós ouvíamos o casal apaixonado na outra mesa e tudo se encaixava. Só faltou "aquela" música tocar. Sabe? Aquela! É, então. Quando voltei para casa, o veneno já havia me dominado. O cheiro era do seu perfume. As músicas falavam de você e as imagens me faziam rir sem motivo. Não preciso falar dos filmes. De qualquer forma, não cultivei expectativas, sabia que te ver novamente seria outra obra do acaso, cansado de ser apenas mais um caso. Então, resolvi caminhar sem rumo durante a noite. Cansado dos meus discos e filmes, queria ver o imprevisível. Me lembrava de você, mas não com tanta força assim.

Cheguei naquele mesmo boteco. Como era um pouco mais tarde, eu fiquei sem opções de mesa. Justamente aquela em que sempre fico estava ocupada. Eu já preparava o olhar de ódio, quando percebi que quem estava lá, no meu lugar, no meu pequeno mundo, era você. Não pedi para sentar, apenas me acomodei. Lembro que você não disse nada. Ficou me olhando e aos poucos foi aproximando sua mão da minha. Meu rosto pegou fogo e o estômago congelou. Não consegui dizer nada, assim como não me movi. Estava na teia da aranha, amarrado e feliz, pois não sabia o que aconteceria. Quando sua pele tocou a minha sorrimos juntos. Eu, que odeio demonstrações de afeto em público, levantei, fui até você e dei um beijo na sua testa. Sei lá, sabe aquela maneira de dizer "sim", meio desajeitada? Sabe? Aquela! Isso, foi o que fiz.

Depois disso, nada mais importou, nem o tempo e nem os locais. O meu lugar é o seu e vice-versa. Agora, temos uma mesa só para nós.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Vejo muitas coisas, olho para poucas

Lá fora, a chuva. Aqui dentro, um calor infernal.

Não sei mais o que te dizer. Perdi as palavras. Talvez, tenha que esperar o frio voltar. Pode ser apenas uma "coisa" de tempo. Clima, de repente.

Até penso que tenho certos assuntos a serem tratados com você. Só que o silêncio parece mais cômodo. Para ambas as partes, isso está claro. Perdemos a criatividade. E eu ainda não sei o que fiz para você. Assim como também não sei o que fiz comigo. Só deixei acontecer. Queria ver no que ia dar.

Olho para mim! Ainda vejo aquela parcela da existência com grandes dificuldades em se expressar. Sempre inserida em suas metáforas e palavras ambíguas, sentindo que a insatisfação vem da falta de cobiça por algo que está no cotidiano. A falta de fé aliada ao cansaço mental e solidão compõem as notas dessa música. Trilha sonora de um coração que existe porque é assim que tem que ser. Não há uma opção ou melhor, até existe, mas o preço é alto.

Meus sonhos estão fragmentados como se o espelho que refletisse o rosto tivesse levado um tiro. Vejo pedaços da infância silenciados pelo tempo. Também vejo o presente correndo livre, sem que eu possa controlá-lo. Na verdade, não quero controle. O que eu estou buscando, então? O que eu quero? O que me falta? Não sei. Se soubesse, também continuaria agindo como se me fosse desconhecido. Não mais ouço aquelas vozes que diziam "Ah, você tem que seguir adiante, tem que continuar. Bola pra frente!". Palavras vazias. Quem disse que eu parei com minha vida? É difícil perceber que eu não vivo no mesmo ritmo que as outras pessoas? Às vezes, eu preciso me sentir triste.

E quando a necessidade de alegria surge, acabo ficando irritado. Ir em festas, reuniões de amigos, idas ao parque, não. Não existe fórmula exata e permanente que faça com que a alegria sempre chegue na hora que você mais precisa. Não são apenas essas coisas que me farão sorrir. A minha alegria é aleatória. Se hoje ela vem da fotografia, amanhã pode surgir de um cigarro num banco de madeira.

Já não falo mais em simplicidade. Admito que a complexidade em que fui construído faz tudo soar familiar. Com isso, olho todas as ideias e afirmações como se não passassem de elementos óbvios para compor a felicidade de qualquer humano. Vivi muitos anos dentro do meu mundo. Agora, me sinto um forasteiro no seu. E no de todo mundo.

Barulho, muitas pessoas que não param de falar e os problemas alheios. Contribuição indispensável para o desgosto. Não me interessa se filósofos, religiosos ou psicólogos disseram algo sobre tudo o que já senti e falei. O peso que o mundo tem é algo que varia de pessoa para pessoa. Nunca saberão. No máximo, vão tentar adivinhar e ganhar dinheiro e reconhecimento com isso. Uma forma de alcançar a alegria.

Toda vez que estou no Metrô e alguém me pergunta sobre alguma estação, eu me embaralho. Parece que tudo some da minha mente, mesmo que eu esteja indo para o mesmo local que a pessoa. A mesma coisa acontece com as horas. Não entendo o idioma deles, nem seu jeito invasivo de perguntar as coisas, mesmo com placas e relógios por todos os lados. Como se a confirmação de um ser humano fosse mais confiável do que a precisão mecânica das máquinas. Humano, demasiado humano.


Vejo muitas coisas, mas olho para poucas.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Just hold on to me






Desde o início todos foram contra. Família, a(ini)migos, o mundo. A Ordem perdeu seu valor quando decidimos traçar um destino diferente daquele que Deus especificou em seu Masterplan. Eu nunca disse que seria fácil. Os primeiros dias serão os mais felizes e também os mais difíceis. Mas confie em mim.

O que mais incomoda A Ordem é saber que nem todos vivem o mesmo estilo de vida que seus integrantes. Irrita saber que existem diversas vias para se alcançar a felicidade e nem sempre será simples de compreender. A partir daí, passam a sufocar qualquer tipo de sentimento revolucionário, que na verdade não passa de mais uma forma de dizer o que todo mundo já sabe. Se amor tivesse uma tradução, eu faria questão de nunca procurá-la e principalmente, de entendê-la.

Eles destroem, condenam, amaldiçoam, agridem, matam, ridicularizam etc. Incapaz de sentir empatia, a maioria reivindica os direitos que já tem. O direito de ser branco, de ser católico, de ser heterossexual, de ser norte-americano. Não percebem que eles já tem TUDO. Não percebem que as minorias vivem a mercê de suas decisões e, principalmente, do egoísmo. É como se a maioria se sentisse ofendida por não ser absoluta.

Mas não interessa, pois existe aquele momento de individualidade em que você pode berrar até estourar as cordas vocais. Momento em que você pode entrar em um circle pit e girar até cansar. Pular, dançar, lutar, sempre haverá um lugar para você ser o que é. Independente das normas e condições. Talvez, a moradia da esperança seja aquele espaço que você escolheu como seu. Ou como nosso.

Ninguém percebe que olhamos sempre para o mesmo céu e somos banhados pelos mesmos raios de sol. Aliás, até percebem, mas deixaram de valorizar as coisas simples para criar questões complexas, na intenção de enaltecer a capacidade cognitiva. É uma pena. Conhecimento não é nada sem sabedoria.

Sei que nada vai mudar, pelo menos não enquanto viver. Sei também que é preciso não aceitar, ir de encontro mesmo que o medo seja maior. Também sei que, como já disse em outros textos, eu partiria o mundo em dois por nós. Mesmo que essa metáfora pareça exagerada, acredite, você vai poder segurar e mim quando estivermos destruídos, sujos de sangue e cheio de hematomas. Vou olhar nos seus olhos, dar um sorriso e dizer: "Um dia, haverá um lugar para nós".

Eu sei que haverá. Confie em mim.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

To||Day






Quanto tempo faz que não escrevo sobre o Hoje. Parece que meus últimos textos apenas retratavam a constante fuga da realidade. Talvez eu esteja escutando música demais. Talvez não o bastante.

O ano está prestes a acabar, mas não foi isso que me trouxe aqui. De fato, foram 365 dias de muitas descobertas. Ambíguas, claro. Mas foi bom, apesar de tudo ainda me reconheço diante do espelho. O que mais pesa é o coração, pra variar. Mas agora ele está em silêncio, acho que resolveu dormir... Cansado, sabe?

Os estudos continuam. A vida continua. O emprego me permite ter espaço para escrever e isso vale muito. Muito mais que o próprio salário, tenho que confessar. Pouco me importo, pois me sinto vivo quando decido transcrever meus pensamentos. É algo que me faz pulsar.

Acredito que não tenho mais tanto a dizer sobre 2010. E quanto a mim? Bem, resolvi viver à deriva. Posso falar do agora, mas do futuro pouco sei. Pouco sei, mesmo. Só sinto o que tem para se sentir hoje. Se é para ficar triste, então ficarei até o sentimento passar, afinal, não é assim quando estamos felizes? Sempre passa, sempre.

Good times are like bullets. They come, they go and let us a scar.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Moonspell







Ao anoitecer, resolvi sair e caminhar um pouco. O céu estava bem azul, repleto de estrelas e a Lua envolvida por nuvens. Me senti tão confortável quanto ela. Os pensamentos negativos desapareceram. Foi aí que deitei sobre a grama e dei voz aos meus pensamentos.

Ela sempre esteve ali. Silenciosa e imponente. Na verdade, nunca disse se era ela ou ele. Apenas existia sem se importar com seus admiradores. Quantos corações ela/ele partiu? E quantos outros ela/ele encheu de amor e esperança? Não sei, não procurei saber. Banhava minha pele de um prateado único. Esfriava o solo como se cantasse o sono em notas suaves. Misticismo por trás de três faces.

As cores frias predominavam. Os olhos, cansados da iluminação exagerada, agradeciam pelo "silêncio". Os lábios beijavam o rosto, bem no local onde as lágrimas costumavam escorrer. Neste instante, as folhas das árvores balançavam como se batessem palmas e seus galhos dançavam, livremente. Eu ainda estava parado na grama, sentindo e não mais pensando.

Se tapei os ouvidos, foi para poder ouvir a música. Se os olhos foram selados, é porque queria sonhar, apenas. Se a boca ficou calada, é porque aprender se fez mais necessário do que dizer tudo aquilo que no fundo nunca soube. Talvez, o passo mais próximo do abismo da morte que dei. A ausência preencheu meu ser.

E ela sorria, entre abraços e o sopro do Zéfiro. Eu também sorri. Aquele azul profundo e misterioso alimentava minhas veias como se o universo inteiro precisasse se refugiar dentro de mim. No peito, o calor de um sol aprisionado, incompreendido. Nos olhos, o brilho da Lua.

Nos lábios, a canção que só nós sabemos a letra. Quantas letras para dizer apenas uma única palavra: Silêncio.

E então, todos os problemas se transformaram em poeira.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Seus lábios têm gosto de veneno







Fiz tudo errado e agora estou aqui, sem nenhum ressentimento. Sei que é isso que mais irrita a todos. Foda-se.

Milhões de pessoas espalhadas pelo mundo lutam para fazer parte da maioria. Criam padrões, regras, leis, dogmas, monstros e vários salvadores. Definem valor como dinheiro, honra como genocídio e paz como pretexto para guerra. Excluem as minorias e estas apenas esperam a chance de virar o jogo. No fundo, serão tão assassinas quanto seus algozes. E eu assisto a tudo enquanto sobrevivo aos dias comuns e ridículos. A perfeita reprodução da falta de criatividade pregada por uma estrutura social mecânica e pseudo-democrática.

Os mestres são covardes, os alunos arrogantes. Os governantes desconhecem a ética e os religiosos ainda lutam contra os próprios demônios, sem deixar o moralismo de lado. O que é O Bem? O que é O Mal? Aprovação e reprovação. Yin e Yang. O contraste fundamental entre as cores.

Não há fórmula definida. Ainda bem.

No fundo, o medo é quem condiciona as ações humanas. Até o mais valente tem medo. Medo de demonstrar suas fraquezas. Tão inseguro, tão frágil. Tsc Tsc Tsc. Nem Deus, nem masterplan vão te salvar, acredite.

O veneno. Substância tóxica que resulta em diversos efeitos negativos no corpo. Paralisa, sufoca, queima, corrói, faz sangrar sem parar, explode o coração e esfaqueia o estômago. Uma gota e está feito. Admiro.

Ele nada mais é do que o sangue humano. Vermelho, pode causar todos esses males e ir além: é capaz de se reproduzir em larga escala. Ele carrega os registros de todas as nossas impurezas. Todos os pecados. Lamento, mas ninguém está livre do próprio veneno.

O amor é o mais poderoso deles. Sem uma receita precisa, ele domina a alma e controla o corpo. Você passa a gaguejar, seu coração bate mais rápido, fica ofegante, o estômago gela, os olhos não conseguem manter o foco, a boca fica seca e a pele queima. Viu? Sempre falamos de veneno. No final, sabemos que ele prejudica. Causa ilusões, delírios vindos da febre maldita, conhecida nos cartões de Dia dos Namorados como "paixão". Febre, é isso que é. I've Got to say.

E o antídoto? Sempre partirá do próprio veneno. A cura sempre estará em si mesmo. Eu sou a cura para o meu próprio veneno e você é a do seu. Quando seus lábios envenenados tocam os meus, ambas as toxinas se encontram. Qual a saída? Aproveitar os últimos momentos de vida. E quando você sussurrar nos meus ouvidos? Todos os pensamentos vão morrer como flores secas.

Um dia, tem que acabar.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Sobre machados e pincéis




Sempre atento. Olha tudo a sua volta, como se esperasse o movimento mais sutil. Ação e reação. Mantém o foco sem deixar que os pés sejam acorrentados na superfície fria da realidade.

"Você é maior do que eu" (desapontado). Eu acho que não, sinceramente.

O que mais me chama a atenção é aquilo que me surpreende, uma vez que espero sempre o pior de qualquer criatura desconhecida. Talvez seja a natureza humana tomando conta de mim, talvez não. E de fato, me surpreendi bastante. Positivamente, vale ressaltar.

De tempos em tempos encontro pelo caminho aquele universo paralelo ao meu, que se mantém em constante explosão/expansão. Fico parado, muitas vezes observando as histórias e imagens que me proporciona. São cores e mais cores, pinceladas sutis que casam tons e sensações. Consigo visualizar as bordas do infinito quando as ideias nascem feito planetas, prontos para serem habitados. Há uma troca de energias tão poderosa que é capaz de gerar vida, ou de manter a minha, que por muitas vezes fica por um fio.

São pincéis que falam mais do que qualquer texto.

"Os artistas são eternos solitários". Eu acho que não, sinceramente. Mas me conforta, mesmo assim.

O que seriam dos corações se não fossem selvagens e indomáveis? Apenas um órgão vital, coisa que de fato é. O real sentido deles está na sua simbologia, no que ele não é, mas representa. Deixá-lo assim tão solto faz com que as emoções de engano ganhem espaço. Lutar, às vezes, se torna inútil. Você pode ter olhos verdes, castanhos, pode morar perto, pode ter feito as melhores promessas, que ainda assim não vai conseguir o que realmente quer. E será que quer? E o que você quer? Nessas horas, a pequena célula revolucionária se torna dura como rocha, e a mente, dona da razão, se transforma em machado, afiado, pronto para cortar o que for preciso. Ainda assim, como já foi dito antes, a semente faz nascer a árvore. Contudo, é preciso tomar cuidado, pois o machado (razão) pode matar o broto (coração). É preciso mantê-los selvagens e indomáveis, para que vivam o que tiver para ser vivido. é isso que aguardo.

"Não quero ser o 'novo problema'". Eu acho que não, sinceramente. Não será.

Enquanto eu escrevo compulsivamente, alguém tira do branco a condição de absoluto. Mancha com cores aquele plano morto. E cada letra que digito insere o preto que contrasta com a sensação de ausência. Estamos próximos, mesmo tão distantes. Assim deixo fluir o que está dentro de mim, sem a censura de quem um dia teve medo de respeitar o que sentia. Nem todo mundo precisa se pronunciar, só quando chegar a hora. E que horas são?

Entre machados e pincéis eu deixo a minha humilde contribuição: as ...