Eram textos mecanizados. Foram poucas as vezes em que vi o escritor por trás dos parágrafos ou pelo menos parte dele. São linhas e mais linhas de ausência e formalidades. Tão superficial.
O jornalismo e seus textos técnicos, seguindo padrões e mais padrões que resultam apenas no enrijecer da produção criativa. A bola de ferro no calcanhar de quem só queria caminhar por entrelinhas. Não basta informar. É preciso permitir que o leitor seja capaz de reconstituir o ambiente ou contexto ao redor de si próprio. Faz-se necessário chamá-lo para a responsabilidade diante dos fatos ocorridos, não como mero observador inválido e incapaz, mas como ser ativo e inquieto, inconformado e curioso.
As alternativas para o jornalismo são poucas. Quatro anos na faculdade e você é apresentado a um vasto horizonte, rico em conhecimento e possibilidades. A chance de poder refletir sobre a sociedade e seus fatos, suas crenças, sua cultura. A filosofia, a psicologia, a sociologia... Todas elas, abrindo não só nossas mentes, mas também o coração. Nos faz lembrar que somos humanos e que compartilhamos o espaço com outras e outros e mais outros. Aprendemos sobre alienação e ideologia. Sobre religião e submissão. Sobre arte e contestação. Pensamos na cultura brasileira e suas raízes. Falamos de identidade a partir da memória. Reconhecemos a verdadeira geografia: aquela que derruba muros e fronteiras, que compartilha informação e tradição sem apelar para a hegemonia ou globalização capitalista. Percebe? O contato direto com a chance de fazer tudo de uma forma melhor. Mas então, descobrimos que na prática, nada disso será relevante.
As empresas jornalísticas, seus manuais, suas regras e dependência, a diretoria, os grandes chefes e os partidos políticos fazem do comunicador apenas uma máquina de escrever. Na verdade, somos computadores, apenas. Formatamos textos, assinamos matérias para arcar com a responsabilidade de publicar os pensamentos daqueles que se importam apenas com a reprodução compulsiva de seu dinheiro. O que é o jornalista senão uma peça inanimada? E aqueles que conseguiram se livrar deste destino? Eles existem, eu sei.
Nunca esperei tanto pela revolução, em todas as áreas e em todo o universo. As páginas dos jornais nunca foram tão sujas como as de hoje.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
A morte da física

Começou a chover quando estava voltando da escola. Andei mais rápido, mesmo sem querer voltar para casa. Como sempre, sou o único dentro do lar. Minha mãe só chega mais tarde. Meu momento de individualidade. Mais uma vez, agradeço por ele.
No meu quarto, joguei os livros no chão, a mochila sobre a mesa e fui olhar a chuva. Tudo tão azul, tão calmo. Frio e céu nublado. O café estava bom, gosto de café novo, de café velho, de café amanhecido. Apenas gosto, não é difícil de entender. As tintas estavam me aguardando. Sem trocar de roupa, comecei a desenhar e preencher as folhas em branco. Buscava atingir um alto nível de abstração. Cores não mais precisavam casar. Pinceladas não eram escravas de simetria. O barulho das gotas impetuosas era a trilha sonora que escolhi. Não me arrependo de nada, nem da solidão que pedi.
Mas me lembrava dele a cada segundo. De como seriam seus desenhos, como seria a sua tarde chuvosa. Na escola, nos vimos por poucos segundos. Tempo o bastante para ele sorrir e fazer um sinal de "te ligo, mais tarde". Era um amor silencioso, só nosso. Era uma quinta-feira, e eu já estava cansado de pensar no final de semana. Infelizmente, só sou feliz quando as luzes estão apagadas. Mais tintas, menos conversa.
Não posso dizer que "terminei" o que estava fazendo. Odeio colocar um ponto definitivo nas obras que faço (obras, no sentido mais humilde da palavra). Acredito no poder divino das reticências e sua flexibilidade que permite a todos serem felizes. Os finais são sempre iguais. Morte e lágrimas. Não quero isso. Não quero algo que é irreversível. Nem previsível.
Deitei na cama e deixei o tempo correr. Olhava para o teto, sem tentar controlar os pensamentos. Queria liberdade para amar durante a luz do sol. Queria liberdade para trabalhar com o que bem entendesse e não me sentir frustrado ou enjaulado. Mas permanecia sem tentar achar uma solução ou regra para tais vontades. Eram apenas desejos que gritavam e que deveriam ser ouvidos, respeitados. Eu os respeito. São o que são, nunca disseram ser outra coisa. O telefone tocou.
Éramos dois a manter o silêncio. Uma frase solta aqui, outra ali. O que fazia do momento a melhor parte do meu dia era justamente a presença/ausência. Saber que do outro lado da linha alguém também se protegia da chuva, dentro de um cômodo cheio de marcas de tinta e fotos velhas. Era saber que o frio não era tão frio, e a solidão não era tão só. Era apenas uma questão de física. O local, a presença, a matéria, os corpos, os olhares (todos físicos). Não senti falta deles, pois o que tinha ali, naquele momento, era algo a mais. Era cósmico. Era etéreo.
Quando a ligação terminou, fui andar um pouco pela casa. Os móveis velhos de design colonial me faziam lembrar da infância correndo e sempre esbarrando em um deles. As escadas sempre perigosas e enigmáticas. Cada passo poderia ser o último. Quantas vezes eu subi correndo, por felicidade e ansiedade? Quantas vezes eu desci devagar, por medo da bronca ou tristeza em saber que a pessoa na porta não era ele? Escadas que me levaram sempre aonde quis ir, mesmo que por impulso. Minha casa era o registro de mim, que pouco saí, mas muito conheci dali.
Olhava a chuva molhando o quintal. As plantas dançavam conforme o vento ordenava. Maestro daquele dia, sabia conduzir a banda com exímia destreza. Li os livros que deveria ler, fiz os textos que deveria fazer e as exigências foram atendidas. Almoço pronto, casa limpa, roupas trocadas. Agora eu voltava para o quarto sabendo que não mais seria incomodado. Minha mãe chegou, cansada, e foi deitar. Um "oi" do pé da escada foi emitido. Suficiente, por hora. Sussurrei um "eu te amo" e confiei em Zéfiro para levá-lo até ela. Recado dado.
Eu sou assim, continuo dizendo (e sentindo) que não caibo dentro de mim. Ele está do outro lado ainda, mas amanhã vamos nos ver. Dois dias em que esqueço de tudo, e só lembro de nós.
A chuva se foi.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Etion
(...)
Escureceu, agora sim posso abrir os olhos.
O trabalho é mecânico, quase nunca me traz animação ou estímulo. Mas eu continuo, talvez seja pela insatisfação. São tantos papeis, tantas palavras e textos sem valor. É isso que faz o mundo girar, porque é isso que gera dinheiro. As horas passaram - Going Home.
Moro sozinho (comentário irrelevante, eu sei). O que mais gosto? A janela. Fiz questão de escolher o apartamento com a maior. Pouco me importo com portas ou vários quartos. Durmo na sala, assim, posso olhar por ela. Ver a noite, minha companheira. Jantamos juntos e brindamos à solidão. Você consegue reparar na beleza da noite? Os sons diferentes e ousados? Os passos apressados? O céu, a falta de estrelas, a lua...
Não é algo material. Eu encontro abrigo e motivação quando o sol decide dormir. Os livros parecem mais interessantes e os filmes conseguem prender minha atenção. Deixo o telefone de lado, não quero mais ouvir pessoas, quero simplesmente ouvir meus pensamentos. Já basta de outras vozes me dizendo o que fazer ou como fazer. É o momento de individualidade que tanto esperei. Mas quando me canso, resolvo andar pelas ruas misteriosas. Pouca luz, muita desconfiança, insegurança e adrenalina. Não saber como andar pelo deserto faz com que você tenha esperança de estar no caminho certo. Entende? Rasgar os mapas, esquecer de carregar o GPS, o celular. Anular-se.À noite, os passos que dou são só meus, alguns seguem, outros não.
O coração solitário já não se importa mais com a caixa de mensagens vazia. O coração apaixonado resolve distrair o sentimento e ir se divertir. O coração que ama opta pela companhia. O coração selvagem encanta mais de mil corações na mesma noite. O coração doente sai para beber ou fumar alguns cigarros, sem olhar para o relógio. O coração vazio... Esse foi dormir antes mesmo de escurecer. Precisa do dia e da luz do sol intensa para se aquecer e encontrar algum motivo para não se suicidar.
Olho para meus pés, o tênis velho me lembra que já andei demais. Disse a um amigo que odeio ver o dia amanhecer. Ele achou estranho, já que tantos calendários e cartões postais usam tal momento como pano de fundo. É simples, não gosto de presenciar a noite partindo diante dos meus olhos. Preciso terminar este momento com reticências... Resistência.
Durante a noite, eu resgato uma das frases que carrego na alma: Qualquer lugar é o meu lar. Rasguei meus mapas(lembra?). Qualquer lugar é o meu lar se você estiver comigo. E caso não esteja, esse lugar será meu lar, pois tem janelas, as maiores,
e através delas vejo a noite. Vejo você. Vejo nós.
Eu poderia fazer certo com as luzes acesas, mas nem por isso seria melhor. Apague-as.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
O seu perfume de canela...

O que esperar do concreto? Do profetizado? Do escrito? Nada. Escuto os pássaros em meio das longas árvores de eucaliptos. Minha fé já não acompanhava os passos perdidos na estrada sem placas.
Um mergulho dentro da própria mente. Arriscado. Todas as coisas que estavam guardadas no inconsciente assumem seu posto na parte mais racional do cérebro humano. Os contos de fadas encaixam perfeitamente em sua vida miserável. Os amigos que você gostaria de guardar no bolso esquerdo ou as cartas de amor que você queria ter entregado. São fragmentos da sujeira que o moralismo colocou debaixo do tapete. Você tem vergonha? No fundo, nunca teve. O problema foi o medo de prejudicar os outros ao respeitar seus desejos. Não é o dono dos adjetivos, nem mesmo de sua retina partida no meio. Tudo que vê são pescoços quebrados e cansados, costas curvadas e cotovelos invertidos.
A respiração muda de ritmo, nada de correr. Apenas caminhar. Escravos do tempo agora olham para os pulsos e não encontram relógios. É desesperador. Eles gritam e o tempo não passa. Os mesmos braços magros. As pernas magras. O rosto magro. Os joelhos magros. Sentei diante da capela e pedi de volta o genes que faltou. Perguntei qual era o problema, qual defeito eu tinha. E nada. As velas se acenderam e as velhas senhoras cantavam em voz baixa aquele hino dos arrependidos. Arrependeram-se de ter nascido. O perfume de rosas me dava náuseas e todas as estátuas de gesso pareciam me olhar com ódio. Se não é aqui que encontrarei respostas então me retiro, e tiro de vocês a fé que depositei.
Caminhar é a melhor opção agora. A pele marcada por agulhas. Desenhos sem sentido e um sono patológico. O solo banhado pelo sangue de índios inocentes. Terra amaldiçoada por aqueles que a fertilizaram. O preço pela prata, ouro e virgens está sendo cobrado agora. Nada mais justo. Sujaram meu sangue com cobiça e narcisismo. Sou aquele fruto que despencou da árvore genealógica. Sou a maçã. A pior dentre as piores. Qual cromossomo está ausente? Os gigantes já não são mais soberanos. Tudo o que tocam, se desfaz. Um brinde à geração Midas, da riqueza à miséria.
Ela prende os cabelos negros com a fita mais bonita. Arruma toda a casa, toma o banho demorado e prepara o "arroz e feijão" mais gostoso do planeta. A música toca e seus quadris acompanham o ritmo sedutor. Toma mais um gole da boa Tequila e pinta os lábios com o vermelho mais intenso. Está linda e pronta. Passa o perfume de canela e agradece pelo alimento. Na outra ponta da mesa está seu parceiro: O assento vazio. Ela sorri tranquila, pois sabe que não é escrava de ninguém. Cozinhava, dançava, ficava bela para si mesma. Coração selvagem e capaz de ir além da maldita rotina. Não era Dona de Casa, era Dona de Si. Tão linda.
Pluguei os cabos e pedais nas veias. Liguei as guitarras e os contrabaixos, no intuito de fazer música. Te chamei para ficar do meu lado. A minha cruz é carregar palavras e mais palavras na mente, sem ter um segundo de paz. Enquanto a sua é descobrir a melhor trilha sonora para conduzir minhas explosões. Sem sua presença nem a ausência do "nós" faria sentido. Fui eu quem lavou seus olhos quando não via mais nada. Foi você quem beijou minhas lágrimas quando nem mesmo os santos souberam o que fazer. Podemos chorar.
Eu e minhas balas de canela.
sábado, 2 de outubro de 2010
Nunca disse que ia ser fácil
Quando reconheci o rosto do outro lado do espelho, percebi que o caminho seria difícil.
Ando pelas ruas de São Paulo e vejo pessoas caladas, com medo ou com receio de se expressar. Percebo olhares de desconfiança e aversão. Imagino a maldita dor de viver anos e anos sem poder correr atrás da felicidade. Eles, elas, não levantam a voz para gritar por direitos básicos, simples. São ridicularizados e por muitas vezes, causadores da própria dor. Há um silêncio tortuoso.
Certa vez, um amigo me disse: "Queria abraçá-los e dizer: 'Calma, vai ficar tudo bem...'". O que eu queria era levantar seus rostos, olhar em seus olhos e dizer: "Eu nunca disse que ia ser fácil. Lute, apenas".
Mas até eu estou cansado, vencido pela falta de esperança. Ainda assim ela renasce a cada filme, a cada música, a cada manifestação. Eu acredito, apesar de tudo.
A voz da igualdade.
Ando pelas ruas de São Paulo e vejo pessoas caladas, com medo ou com receio de se expressar. Percebo olhares de desconfiança e aversão. Imagino a maldita dor de viver anos e anos sem poder correr atrás da felicidade. Eles, elas, não levantam a voz para gritar por direitos básicos, simples. São ridicularizados e por muitas vezes, causadores da própria dor. Há um silêncio tortuoso.
Certa vez, um amigo me disse: "Queria abraçá-los e dizer: 'Calma, vai ficar tudo bem...'". O que eu queria era levantar seus rostos, olhar em seus olhos e dizer: "Eu nunca disse que ia ser fácil. Lute, apenas".
Mas até eu estou cansado, vencido pela falta de esperança. Ainda assim ela renasce a cada filme, a cada música, a cada manifestação. Eu acredito, apesar de tudo.
A voz da igualdade.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
The Sorrow
Não tenho mais nada a dizer. Apenas escrever.
Aos que ficam, minhas últimas palavras:
"Hoje, com o corpo desistindo de lutar contra o tempo e doença, resolvi escrever a todos que me conheceram e fizeram parte desta longa estrada. Saibam que não esquecerei de ninguém, por isso evitarei nomes, cabe a cada um que ler esta carta se encontrar nas minhas palavras. são parte de mim, mas não partirão comigo.
Aos que conheci quando pequeno e não estão mais entre nós, digo que estou chegando e que logo menos poderei cobrar todas as noites sem o abraço do pai, o beijo da mãe, as histórias do irmão mais velho e as confissões da irmã mais nova. A vocês, que já fizeram a passagem, peço que aguardem só mais um pouco. Quero que saibam que, durante toda minha vida, mantive em minhas lembranças o rosto de cada um. Que respeitei o nome de vocês, que fui fraco muitas vezes em pensar que não estivessem mais olhando por mim. Logo estarei aí. Logo...
Aos que viveram comigo durante os anos e com eles, desapareceram eu peço desculpas. Não fui o rei que muitos esperaram, o salvador da prece de outros. Não fui o senhor das palavras, nem mesmo o pai que salvava vidas e voava com uma capa. Não fui o coração mais digno de amor, nem o marido mais atencioso nos primeiros anos. Como filho, tive minhas faltas. Tapei os ouvidos e a mente para a sabedoria. Só ouvi a voz dos meus pais quando estes estavam em silêncio, caminhando rumo ao lugar onde em breve estarei. Quero pedir perdão aos que atingi direta ou indiretamente. Hoje entendo meus erros, mesmo sem ser capaz de apagá-los de suas lembranças.
Aos que me deram amor incondicional, fico agradecido e levo comigo este grande aprendizado. Agradeço por terem feito me lembrar o que de fato sou. Agradeço por todas as noites ouvindo minhas reclamações, por suportarem meu mau humor e por me ensinarem a levantar sozinho, sem depender da pena dos outros que mais parece um par de muletas. Obrigado, obrigado e obrigado.
Já estou distante. Desliguem todos os aparelhos eletrônicos. Não quero jornais perto de mim. Apenas o silêncio. Sim, este é meu último desejo.
Obrigado. "
Aos que ficam, minhas últimas palavras:
"Hoje, com o corpo desistindo de lutar contra o tempo e doença, resolvi escrever a todos que me conheceram e fizeram parte desta longa estrada. Saibam que não esquecerei de ninguém, por isso evitarei nomes, cabe a cada um que ler esta carta se encontrar nas minhas palavras. são parte de mim, mas não partirão comigo.
Aos que conheci quando pequeno e não estão mais entre nós, digo que estou chegando e que logo menos poderei cobrar todas as noites sem o abraço do pai, o beijo da mãe, as histórias do irmão mais velho e as confissões da irmã mais nova. A vocês, que já fizeram a passagem, peço que aguardem só mais um pouco. Quero que saibam que, durante toda minha vida, mantive em minhas lembranças o rosto de cada um. Que respeitei o nome de vocês, que fui fraco muitas vezes em pensar que não estivessem mais olhando por mim. Logo estarei aí. Logo...
Aos que viveram comigo durante os anos e com eles, desapareceram eu peço desculpas. Não fui o rei que muitos esperaram, o salvador da prece de outros. Não fui o senhor das palavras, nem mesmo o pai que salvava vidas e voava com uma capa. Não fui o coração mais digno de amor, nem o marido mais atencioso nos primeiros anos. Como filho, tive minhas faltas. Tapei os ouvidos e a mente para a sabedoria. Só ouvi a voz dos meus pais quando estes estavam em silêncio, caminhando rumo ao lugar onde em breve estarei. Quero pedir perdão aos que atingi direta ou indiretamente. Hoje entendo meus erros, mesmo sem ser capaz de apagá-los de suas lembranças.
Aos que me deram amor incondicional, fico agradecido e levo comigo este grande aprendizado. Agradeço por terem feito me lembrar o que de fato sou. Agradeço por todas as noites ouvindo minhas reclamações, por suportarem meu mau humor e por me ensinarem a levantar sozinho, sem depender da pena dos outros que mais parece um par de muletas. Obrigado, obrigado e obrigado.
Já estou distante. Desliguem todos os aparelhos eletrônicos. Não quero jornais perto de mim. Apenas o silêncio. Sim, este é meu último desejo.
Obrigado. "
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Lótus...

Deu o primeiro passo, imergindo dentro da própria existência. Todos os dias, conversava com uma voz distante, que lhe auxiliava e sempre tinha uma palavra amiga a dizer. Isso não se perdeu com o passar do tempo.
Ao entrar em estado de meditação, ele se isolava dos pensamentos ligados ao mundo físico. Era como embarcar em uma viagem importante e também cansativa. Elevar-se ao nível de alguém que já não caminha mais sobre este solo. Não ter que se esforçar para adquirir o ponto máximo de concentração. Era apenas um garoto, mas dedicava-se à mente e à luz como sábio.
Servir... Servir...
Todo o sofrimento do mundo acumulado em lágrimas. Seu sangue escorria por entre os dedos e desaguava como rio pelo chão do templo. Não abria os olhos. Era hora de se projetar para o outro plano. Não buscava o nirvana, ainda, mas tentava encontrar um rumo nos Samsaras.
Chegou a um vasto jardim. Verde como esmeralda e ao olhar para o alto avistou o céu azul como nunca. Nuvens passavam suavemente por cima do infinito pano turquesa. Olhou para si, procurando braços, pernas, um corpo familiar. Nada viu. Apenas a sensação de que sua presença bastava para preencher o espaço. Enxergava muito além, ultrapassava quilômetros. Ouvia uma música sutil de fundo, ela não incomodava, era quase como a brisa leve da tarde. A luz estava em tudo, e em todos. Percebia a existência de outras consciências no local. Ele não existia mais como indivíduo, era parte do Todo. Era o cosmos.
A voz que sempre o fez companhia estava lá. Se pronunciava de tempos em tempos, dando atenção a todos. Nem frio, nem calor, melancolia ou alegria sem fim. Os sentimentos, bons ou ruins, pesam. Ali, não existia peso. O conhecimento era divido igualmente, não havia mais ou menos. Mesmo assim, as lembranças da terra o intrigavam e faziam com que qualquer equilíbrio fosse eliminado. Era hora de atingir o nirvana. Olhou para dentro de si mesmo, transparente feito água e guiou-se pelos labirintos criados ao longo dos anos no mundo. Recobrou os sentimentos, agora potencializados. Chorou quando se viu. Sorriu quando encontrou o caminho da luz. Teve raiva daqueles que causavam o sofrimento alheio, teve pena dos miseráveis e piedade daqueles que o atingiu. Não alcançou o nirvana.
Era difícil entender o que de fato lhe traria tal estado de espírito, até que resolveu silenciar até a própria voz mental, e então tudo fez sentido.
Lhes digo qual o caminho percorrido:
"Anulei-me. Abandonei minha existência não como mãe desesperada que deixa o filho no vale dos perdidos. Abandonei a mim mesmo como a mão que solta o filho para que este caminhe sozinho, firme e forte. Deixei meu ego, partilhei-o com o infinito como luz que deveria ser desde o início. Dos sentimentos fiz apenas uma enorme rede, uma malha de metáforas e cores. Eles estavam ali apenas para me lembrar das cores que o mundo tinha , e não para me prender aos seus caprichos e exigências. O que eu sentia já não podia mais ser dividido. Amor, e suas formas faziam sentido agora.
Abandonei a própria luz que de tão pura me cegava, não olhava mais em sua direção, pois ela já estava dentro de mim. Eu era luz. Todo o barulho se foi. Já não estava mais ali como parte. Havia me dissolvido. Agora, eu era milhares. Então, pude alcançar o nirvana. Digo a todos que, a descrição seguinte não os fará e momento algum sentir o que de fato senti, até que também alcancem o mesmo estado.
Paz e Compaixão.
O santuário se fazia dentro do Todo. O cosmos dançava como água viva pelas correntes de energia pura. Nada se excluía, a beleza era plena. Em tal estado Todos lembramos de vocês que ainda não chegaram ao nível infinito. Todos sentimos compaixão, o amor que se baseia em servir, a capacidade de não ser algo para que vocês possam ser como nós, e um dia serem capazes de deixar este "algo" e também ser Todo. Todos percebemos que o nirvana trazia em si o último grande ensinamento: Não serão O Todo enquanto Todos não estiverem aqui.
Renunciei ao estado maior de espírito e decidi caminhar pela terra novamente. Fiz isto com uma felicidade sem nome, com um amor tão grande. Voltei e aceitei a fome, a doença e a morte como condições. Desci do plano mais alto para ajoelhar-me diante de ti e dizer: Você também alcançará os jardins da calmaria.
Como flor de lótus, nasci mais uma vez em meio à escuridão. Trouxe luz e amor como sementes fiéis. Não sou o caminho, não sou a luz que os aquecerá, sou apenas a prova de que sozinhos, com o próprio esforço, alcançarão a paz. Sou como vocês, uma flor de lótus".
Om.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Só eles sabem
Era cedo, me olhei no espelho e percebi que já não queria mais mudar de nome.
(...)
Sempre quieto, com os olhos bem abertos. Minha mãe costumava dizer que eu tinha olhos gigantes. Nada escapava deles. Ouvia bastante também. Os sons pareciam interessantes, estimulavam minha imaginação. O mundo sempre pareceu grande demais, mesmo não sabendo ao certo o que ele era. Eu estava ali, era só isso.
As outras crianças eram energéticas, barulhentas e não sabiam brincar sozinhas. Às vezes até me interessava por seus movimentos e berros, mas na maior parte do tempo deixava tudo de lado e imergia num oceano de imaginação e fantasia. Sereias feitas com galhos de árvores, peixes feios de papel, barcos que na verdade não passavam de palitos de sorvete. Não sabia quanto tempo durava o tempo. Sabia que o dia começava quando o sol deixava de ser tímido, que a tarde era a hora em que o estômago roncava e que a noite era o momento de jogar a última rodada de "Rouba Bandeira".
Não precisava ser craque para jogar futebol. Mas era necessário saber a linguagem certa a ser usada. O adversário chegou perto de você, silencioso? Ladrão! E quando o seu companheiro de time estava bloqueado por outro jogador, como passar a bola? Fura, fura! Enfim, não tinha protetor solar, nem caneleiras, nada de chuteiras luxuosas ou médico particular. Mangueiras esguichavam água e as gotas escorriam salgadas para os nossos lábios. Éramos irmãos de verdade. E eu, ainda quieto, observava e participava ao mesmo tempo.
Não entendia a revolta de algumas pessoas, não entendia a maneira agressiva com que me tratavam durante um tempo. Mas ainda assim, mantive a mesma calma que os irritavam. Eles nunca entenderiam. Grandes amigos, grandes amores. Sempre haverá aquela garota linda e simpática que parece ter o melhor perfume de todos. Perfume este que marca vários anos da sua vida e quando você o sente novamente, lembra de toda aquela sensação, daquele ano, daquele aniversário em que você ganhou o melhor beijo. Eles ainda não entendem.
A revolta veio como novidade incrível. O mundo já tinha limites, os amigos deixaram de ser como irmãos, ela deixou de ser linda e simpática para se tornar arrogante e insegura. Eu ainda optava pelo silêncio, mas meus olhos queimavam como brasa ao ver alguma chance de explodir e descarregar toda aquela vontade de destruir. O dia inteiro na rua, sempre com o amigo braço direito. Destruindo muros, destruindo caminhões, destruindo sonhos, colecionando brigas e mediando intrigas. A adrenalina era nosso vício. Sair de skate sem saber se íamos sobreviver. Sair para os shows sem saber se íamos voltar inteiros. O Punk Rock o Hard core, que maravilha!
Você deixar o corpo solto durante o bate-cabeça ou nadar no mar de gente ao pular de mosh são coisas que limpam a mente, só que estragam o corpo. Elas agora são mais agressivas, não têm mais perfume de flor. Agora têm cheiro de cereja, olhos bem pintados e curvas quase perfeitas. Dançávamos errado, experimentávamos novos sabores, novos efeitos. O álcool, os cigarros, o ácido, as balas de canela. No final de semana, tempo para jogar bola na rua com os poucos camaradas que permaneceram. Falar de música era algo incrível. Eu ainda optava por escutar mais do que falar ... Novas conversas, novas bandas, arte e liberdade, igualdade e respeito. O Punk evoluiu dentro de mim e então percebi que já era hora de partir para algo além dele.
A fúria se transforma em Street Art, banda, porres, boxe, distorção e poucos amigos. Surge o Reggae, surge o Hip-Hop, surgem os filmes. Tudo o que observei me fez abandonar a necessidade de nomear as coisas e sentimentos. Ele também surgiu, e de cereja passamos para hortelã. Eu, quieto, prestava atenção em seus movimentos e na sua forma de se esconder atrás de discursos sobre si mesmo. Percebi que o amor muitas vezes morre com o silêncio. Eu era assassino do meu próprio amor. Ele nunca soube ler meus olhos, apenas prestava atenção na minha boca, muda. São várias as maneiras de demonstrar que gosta de alguém, e às vezes escolhemos uma forma que não funciona com certa pessoa. Do copo o que mais conheço é o fundo. Bem vinda: Pura, transparente e relaxante. Fiél.
Política, cultura, jornalismo, trabalho, sociedade, revolução, involução. Tudo caminha ao contrário e as pessoas estão cada vez mais vazias. A realidade é a jaula que prende aquele monstro dentro de você. Aquele ser que poderia dar sentido a sua vida. Alienação voluntária, síndrome de gado, abaixar a cabeça e chorar. Apertar a cabeça do filho próximo aos seios e não ter leite para alimentá-lo. Voltei a ficar quieto como no início da minha vida, agora por conhecer uma parte maior do mundo. Religião, não ser religioso, fé, esperança que pressupõe força. Força que é fruto de poder e poder que escraviza as relações humanas. Conhecimento, tão necessário, tão raro.
É, muita coisa, não? Mas eu sei. Você não? Eu sei. Só os loucos sabem.
(...)
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Várias maneiras de dizer ...
Aperta o "Play" e leia o texto.
Nunca menti para você, sempre deixei bem evidente a minha timidez. Certo, você também nunca mentiu, fez questão de jogar sobre mim todas as suas intenções. Quando te via de longe, achava a garota mais pequena, frágil. Até que você chegou perto o bastante para mostrar que o pequeno na verdade era eu. Cabia na sua mão, assim como dentro do seu coraçãozinho selvagem.
Foram dias, semanas, meses de uma felicidade anestesiante. O tédio era ficar longe de você. A solidão estava casada com o maldito silêncio, intacto, que só desaparecia com sua voz. Estávamos felizes, isso é fato. Saber com quem contar, quando contar e não contar quando não quisesse dizer uma só palavra. Sentir-se completo, necessário, enfim.
Nunca segurava sua mão, achava estranho. E, por mais que você aceitasse eu sabia que no fundo torcia para que meus dedos entrelaçassem os seus. Resisti durante um bom tempo, até que fui eu a sentir vontade de segurá-la como se nunca fosse deixar você partir. Talvez agora meu coração estivesse apertado, nele só cabia você. Quase não tinha mais espaço para mim.
Te ouvia com atenção. Não tanto nas suas palavras, mas no seu jeito de dizer as coisas. Um olhar profundo, direcionado à alma, os lábios sempre mais lentos do que o som do que era produzido a cada frase, sim, tinha o dom de prender a atenção. Às vezes parava, ficava em silêncio por alguns segundos, arrumava o cabelo atrás das orelhas e me dava um beijo próximo do local onde as lágrimas escorriam. Eu me perdia nos seus braços, mais uma vez, pequeno.
Não sei aonde nos perdemos, não sei quem separou nossas mãos ou se fomos nós a privá-las da companhia uma da outra. Não sei, e nem procurei saber porque o amor de verdade transcende até mesmo o fim da convivência. Você está tão longe quanto eu, e ainda assim gasto linhas e linhas contigo, não porque te quero novamente ao meu lado, mas porque agora consegui recuperar o espaço que antes não tinha. Já não sou mais tão pequeno assim e você será sempre a lembrança de uma época em que um significava dois.
Te deixar tão livre foi a maneira mais bonita que encontrei de dizer que não te amava mais.
Várias maneiras de dizer "te amo".
Nunca menti para você, sempre deixei bem evidente a minha timidez. Certo, você também nunca mentiu, fez questão de jogar sobre mim todas as suas intenções. Quando te via de longe, achava a garota mais pequena, frágil. Até que você chegou perto o bastante para mostrar que o pequeno na verdade era eu. Cabia na sua mão, assim como dentro do seu coraçãozinho selvagem.
Foram dias, semanas, meses de uma felicidade anestesiante. O tédio era ficar longe de você. A solidão estava casada com o maldito silêncio, intacto, que só desaparecia com sua voz. Estávamos felizes, isso é fato. Saber com quem contar, quando contar e não contar quando não quisesse dizer uma só palavra. Sentir-se completo, necessário, enfim.
Nunca segurava sua mão, achava estranho. E, por mais que você aceitasse eu sabia que no fundo torcia para que meus dedos entrelaçassem os seus. Resisti durante um bom tempo, até que fui eu a sentir vontade de segurá-la como se nunca fosse deixar você partir. Talvez agora meu coração estivesse apertado, nele só cabia você. Quase não tinha mais espaço para mim.
Te ouvia com atenção. Não tanto nas suas palavras, mas no seu jeito de dizer as coisas. Um olhar profundo, direcionado à alma, os lábios sempre mais lentos do que o som do que era produzido a cada frase, sim, tinha o dom de prender a atenção. Às vezes parava, ficava em silêncio por alguns segundos, arrumava o cabelo atrás das orelhas e me dava um beijo próximo do local onde as lágrimas escorriam. Eu me perdia nos seus braços, mais uma vez, pequeno.
Não sei aonde nos perdemos, não sei quem separou nossas mãos ou se fomos nós a privá-las da companhia uma da outra. Não sei, e nem procurei saber porque o amor de verdade transcende até mesmo o fim da convivência. Você está tão longe quanto eu, e ainda assim gasto linhas e linhas contigo, não porque te quero novamente ao meu lado, mas porque agora consegui recuperar o espaço que antes não tinha. Já não sou mais tão pequeno assim e você será sempre a lembrança de uma época em que um significava dois.
Te deixar tão livre foi a maneira mais bonita que encontrei de dizer que não te amava mais.
Várias maneiras de dizer "te amo".
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
A concepção da Consciência
Concentrado, focado num único ponto. Sua existência se igualava a de um grão de areia no extenso litoral. Olhava para as próprias mãos, sujas de sangue. Tão pequeno, parecia vencido por si mesmo.
Muito antigamente, o universo não passava de uma voz suave, pairando pelo branco infinito. A ausência era a única presença existente. Contudo, um ponto de consciência lutava para ganhar espaço. Sem forma, sem cheiro, sem cor, o pequeno pensamento se concebeu como semente rústica e minúscula.
Nos primeiros momentos foi muito difícil encontrar um ponto de fixação. A mente em expansão tentava desesperadamente reunir qualquer detalhe para que dele fosse dado o primeiro passo. No entanto, o branco absoluto era implacável, frio, e o silêncio submisso se fazia de trilha sonora.
Percebe-se que, os primeiros sentimentos que existiram foram os de tristeza, solidão e desespero. E graças a eles, o grão de areia achou o início daquilo que nunca havia começado. Essas três sensações eram na verdade os primeiros traços coloridos. Uma pincelada no preto acabou com o branco absoluto. Essa cor era fruto da tristeza, sempre rígida. A imensidão tinha profundidade e aumentava-se ali a necessidade de alguém. No mesmo instante, a consciência era agora um ponto de luz, talvez o que havia restado do branco, da claridade. Era preciso destacar-se para existir naquele mar bucólico.
A próxima cor foi o cinza. Pigmentação que cobria a pele da solidão. Era muito complicado para o pequeno “criador” não ter com quem conversar ou com quem dividir suas idéias fulminantes. O tom metálico viajava por anos e anos como uma poeira cósmica que visitava os cantos do universo sem ter um lugar exato para ficar. A solidão era só. Sem perceber, novos elementos surgiam ao redor da consciência, que agora circular. Foi então que aquele branco antes senhor do infinito, voltou para reivindicar sua própria existência.
O desespero tomou conta do broto de luz. Lembrou-se da eternidade que passou rodeado por um deserto de nada. Não era possível descansar, não era possível se concentrar, não havia profundidade, não havia um espaço menor, tudo era baseado na superexposição. Foi então que optou por não se deixar vencer. Estilhaçou todo o branco, levando-o do imenso ao fragmentado. Pequenos pontos cobriam o infinito negro sem substituí-lo. O círculo, já com cabeça, baços, tronco e pernas, percebeu que após a agonia surgia a beleza, uma de suas criações e mãe das estrelas. Estrelas essas que nasceram da explosão desesperada de uma mente que não queria viver o passado.
O garoto, sentado num trono invisível, nem ao menos sabia o que era ser rei. Estava deslumbrado com tudo o que havia criado sem a presença do tempo. Foi então que sentiu um calor tomando conta do peito. Curioso, olhou dentro de si mesmo e então algo magnífico banhou seus olhos: a cor vermelha. Algo pulsava constantemente num ritmo sedutor, que pressupunha vida e principalmente, felicidade. O rosto, antes composto apenas por dois globos que lhe permitiam ver, agora rasgava uma linha bem fina e discreta, batizada de sorriso. Toda aquela euforia já não era bem vinda. As outras três cores, os outros três sentimentos, resolveram se unir para acabar com o tom recém nascido.
Tristeza, solidão e desespero envolviam o vermelho tímido que agora ocupava as bochechas do pequeno artista. O espaço torcia para que a luta não fosse em vão e que o desenvolvimento voltasse a fazer parte de sua rotina. O vermelho agora tentava se defender. Cobria todo o rosto do garoto e alimentava sua pele, dava a ela um tom rosado. A tristeza o fazia lembrar que suas visitas seriam constantes, a solidão sussurrava em seus ouvidos as lamúrias de quem não tem semelhantes e o desespero praguejava contra tudo o que havia sido feito, dizendo que a união de todas as cores sempre resultaria nele.
Ao elevar a consciência a um nível inimaginável, o garoto, evoluído na forma de uma menina com longos cabelos negros, descobriu o amor. O sentimento que tinha por todas as suas criações, até mesmo por aquelas que tentavam se rebelar. A garota aceitou a tristeza, respeitou a solidão e superou o desespero. Ergueu suas pequenas mãos até boca e com uma mordida suave retirou uma gota de sangue. Dali saíram partículas que se tornariam a moradia de seus filhos. A mulher, agora mãe, percebeu que no amor estava a barreira contra o ataque violento dos sentimentos primários. Contudo, sabia que era necessário senti-los de tempos em tempos, para que o tom vermelho não perdesse toda a sua plenitude.
Os filhos do pequeno grão de areia, da mulher de cabelos longos e da grande consciência cósmica nasceram do simples ato da destruição. Uma mordida sutil que arrancou a essência do que era essencial. Uma mordida que mostrou a vulnerabilidade da mulher. Uma mordida que, mesmo causando dor, era compensada pela alegria de não sentir mais tristeza, solidão e desespero. Uma mordida que conceberia a raça mais suicida que já existiu.
Concentrado, focado num único ponto. Sua existência se igualava a de um grão de areia no extenso litoral. Olhava para as próprias mãos, sujas de sangue. Tão pequeno, parecia vencido por si mesmo. Levantou-se, sorriu, admirou sua obra de arte pela última vez e então se espalhou como as ondas. Decidiu que não precisava mais ser a única consciência, mas sim a consciência de todos. A minha, a sua, a de todos.
Muito antigamente, o universo não passava de uma voz suave, pairando pelo branco infinito. A ausência era a única presença existente. Contudo, um ponto de consciência lutava para ganhar espaço. Sem forma, sem cheiro, sem cor, o pequeno pensamento se concebeu como semente rústica e minúscula.
Nos primeiros momentos foi muito difícil encontrar um ponto de fixação. A mente em expansão tentava desesperadamente reunir qualquer detalhe para que dele fosse dado o primeiro passo. No entanto, o branco absoluto era implacável, frio, e o silêncio submisso se fazia de trilha sonora.
Percebe-se que, os primeiros sentimentos que existiram foram os de tristeza, solidão e desespero. E graças a eles, o grão de areia achou o início daquilo que nunca havia começado. Essas três sensações eram na verdade os primeiros traços coloridos. Uma pincelada no preto acabou com o branco absoluto. Essa cor era fruto da tristeza, sempre rígida. A imensidão tinha profundidade e aumentava-se ali a necessidade de alguém. No mesmo instante, a consciência era agora um ponto de luz, talvez o que havia restado do branco, da claridade. Era preciso destacar-se para existir naquele mar bucólico.
A próxima cor foi o cinza. Pigmentação que cobria a pele da solidão. Era muito complicado para o pequeno “criador” não ter com quem conversar ou com quem dividir suas idéias fulminantes. O tom metálico viajava por anos e anos como uma poeira cósmica que visitava os cantos do universo sem ter um lugar exato para ficar. A solidão era só. Sem perceber, novos elementos surgiam ao redor da consciência, que agora circular. Foi então que aquele branco antes senhor do infinito, voltou para reivindicar sua própria existência.
O desespero tomou conta do broto de luz. Lembrou-se da eternidade que passou rodeado por um deserto de nada. Não era possível descansar, não era possível se concentrar, não havia profundidade, não havia um espaço menor, tudo era baseado na superexposição. Foi então que optou por não se deixar vencer. Estilhaçou todo o branco, levando-o do imenso ao fragmentado. Pequenos pontos cobriam o infinito negro sem substituí-lo. O círculo, já com cabeça, baços, tronco e pernas, percebeu que após a agonia surgia a beleza, uma de suas criações e mãe das estrelas. Estrelas essas que nasceram da explosão desesperada de uma mente que não queria viver o passado.
O garoto, sentado num trono invisível, nem ao menos sabia o que era ser rei. Estava deslumbrado com tudo o que havia criado sem a presença do tempo. Foi então que sentiu um calor tomando conta do peito. Curioso, olhou dentro de si mesmo e então algo magnífico banhou seus olhos: a cor vermelha. Algo pulsava constantemente num ritmo sedutor, que pressupunha vida e principalmente, felicidade. O rosto, antes composto apenas por dois globos que lhe permitiam ver, agora rasgava uma linha bem fina e discreta, batizada de sorriso. Toda aquela euforia já não era bem vinda. As outras três cores, os outros três sentimentos, resolveram se unir para acabar com o tom recém nascido.
Tristeza, solidão e desespero envolviam o vermelho tímido que agora ocupava as bochechas do pequeno artista. O espaço torcia para que a luta não fosse em vão e que o desenvolvimento voltasse a fazer parte de sua rotina. O vermelho agora tentava se defender. Cobria todo o rosto do garoto e alimentava sua pele, dava a ela um tom rosado. A tristeza o fazia lembrar que suas visitas seriam constantes, a solidão sussurrava em seus ouvidos as lamúrias de quem não tem semelhantes e o desespero praguejava contra tudo o que havia sido feito, dizendo que a união de todas as cores sempre resultaria nele.
Ao elevar a consciência a um nível inimaginável, o garoto, evoluído na forma de uma menina com longos cabelos negros, descobriu o amor. O sentimento que tinha por todas as suas criações, até mesmo por aquelas que tentavam se rebelar. A garota aceitou a tristeza, respeitou a solidão e superou o desespero. Ergueu suas pequenas mãos até boca e com uma mordida suave retirou uma gota de sangue. Dali saíram partículas que se tornariam a moradia de seus filhos. A mulher, agora mãe, percebeu que no amor estava a barreira contra o ataque violento dos sentimentos primários. Contudo, sabia que era necessário senti-los de tempos em tempos, para que o tom vermelho não perdesse toda a sua plenitude.
Os filhos do pequeno grão de areia, da mulher de cabelos longos e da grande consciência cósmica nasceram do simples ato da destruição. Uma mordida sutil que arrancou a essência do que era essencial. Uma mordida que mostrou a vulnerabilidade da mulher. Uma mordida que, mesmo causando dor, era compensada pela alegria de não sentir mais tristeza, solidão e desespero. Uma mordida que conceberia a raça mais suicida que já existiu.
Concentrado, focado num único ponto. Sua existência se igualava a de um grão de areia no extenso litoral. Olhava para as próprias mãos, sujas de sangue. Tão pequeno, parecia vencido por si mesmo. Levantou-se, sorriu, admirou sua obra de arte pela última vez e então se espalhou como as ondas. Decidiu que não precisava mais ser a única consciência, mas sim a consciência de todos. A minha, a sua, a de todos.
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