Não tenho mais nada a dizer. Apenas escrever.
Aos que ficam, minhas últimas palavras:
"Hoje, com o corpo desistindo de lutar contra o tempo e doença, resolvi escrever a todos que me conheceram e fizeram parte desta longa estrada. Saibam que não esquecerei de ninguém, por isso evitarei nomes, cabe a cada um que ler esta carta se encontrar nas minhas palavras. são parte de mim, mas não partirão comigo.
Aos que conheci quando pequeno e não estão mais entre nós, digo que estou chegando e que logo menos poderei cobrar todas as noites sem o abraço do pai, o beijo da mãe, as histórias do irmão mais velho e as confissões da irmã mais nova. A vocês, que já fizeram a passagem, peço que aguardem só mais um pouco. Quero que saibam que, durante toda minha vida, mantive em minhas lembranças o rosto de cada um. Que respeitei o nome de vocês, que fui fraco muitas vezes em pensar que não estivessem mais olhando por mim. Logo estarei aí. Logo...
Aos que viveram comigo durante os anos e com eles, desapareceram eu peço desculpas. Não fui o rei que muitos esperaram, o salvador da prece de outros. Não fui o senhor das palavras, nem mesmo o pai que salvava vidas e voava com uma capa. Não fui o coração mais digno de amor, nem o marido mais atencioso nos primeiros anos. Como filho, tive minhas faltas. Tapei os ouvidos e a mente para a sabedoria. Só ouvi a voz dos meus pais quando estes estavam em silêncio, caminhando rumo ao lugar onde em breve estarei. Quero pedir perdão aos que atingi direta ou indiretamente. Hoje entendo meus erros, mesmo sem ser capaz de apagá-los de suas lembranças.
Aos que me deram amor incondicional, fico agradecido e levo comigo este grande aprendizado. Agradeço por terem feito me lembrar o que de fato sou. Agradeço por todas as noites ouvindo minhas reclamações, por suportarem meu mau humor e por me ensinarem a levantar sozinho, sem depender da pena dos outros que mais parece um par de muletas. Obrigado, obrigado e obrigado.
Já estou distante. Desliguem todos os aparelhos eletrônicos. Não quero jornais perto de mim. Apenas o silêncio. Sim, este é meu último desejo.
Obrigado. "
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Lótus...

Deu o primeiro passo, imergindo dentro da própria existência. Todos os dias, conversava com uma voz distante, que lhe auxiliava e sempre tinha uma palavra amiga a dizer. Isso não se perdeu com o passar do tempo.
Ao entrar em estado de meditação, ele se isolava dos pensamentos ligados ao mundo físico. Era como embarcar em uma viagem importante e também cansativa. Elevar-se ao nível de alguém que já não caminha mais sobre este solo. Não ter que se esforçar para adquirir o ponto máximo de concentração. Era apenas um garoto, mas dedicava-se à mente e à luz como sábio.
Servir... Servir...
Todo o sofrimento do mundo acumulado em lágrimas. Seu sangue escorria por entre os dedos e desaguava como rio pelo chão do templo. Não abria os olhos. Era hora de se projetar para o outro plano. Não buscava o nirvana, ainda, mas tentava encontrar um rumo nos Samsaras.
Chegou a um vasto jardim. Verde como esmeralda e ao olhar para o alto avistou o céu azul como nunca. Nuvens passavam suavemente por cima do infinito pano turquesa. Olhou para si, procurando braços, pernas, um corpo familiar. Nada viu. Apenas a sensação de que sua presença bastava para preencher o espaço. Enxergava muito além, ultrapassava quilômetros. Ouvia uma música sutil de fundo, ela não incomodava, era quase como a brisa leve da tarde. A luz estava em tudo, e em todos. Percebia a existência de outras consciências no local. Ele não existia mais como indivíduo, era parte do Todo. Era o cosmos.
A voz que sempre o fez companhia estava lá. Se pronunciava de tempos em tempos, dando atenção a todos. Nem frio, nem calor, melancolia ou alegria sem fim. Os sentimentos, bons ou ruins, pesam. Ali, não existia peso. O conhecimento era divido igualmente, não havia mais ou menos. Mesmo assim, as lembranças da terra o intrigavam e faziam com que qualquer equilíbrio fosse eliminado. Era hora de atingir o nirvana. Olhou para dentro de si mesmo, transparente feito água e guiou-se pelos labirintos criados ao longo dos anos no mundo. Recobrou os sentimentos, agora potencializados. Chorou quando se viu. Sorriu quando encontrou o caminho da luz. Teve raiva daqueles que causavam o sofrimento alheio, teve pena dos miseráveis e piedade daqueles que o atingiu. Não alcançou o nirvana.
Era difícil entender o que de fato lhe traria tal estado de espírito, até que resolveu silenciar até a própria voz mental, e então tudo fez sentido.
Lhes digo qual o caminho percorrido:
"Anulei-me. Abandonei minha existência não como mãe desesperada que deixa o filho no vale dos perdidos. Abandonei a mim mesmo como a mão que solta o filho para que este caminhe sozinho, firme e forte. Deixei meu ego, partilhei-o com o infinito como luz que deveria ser desde o início. Dos sentimentos fiz apenas uma enorme rede, uma malha de metáforas e cores. Eles estavam ali apenas para me lembrar das cores que o mundo tinha , e não para me prender aos seus caprichos e exigências. O que eu sentia já não podia mais ser dividido. Amor, e suas formas faziam sentido agora.
Abandonei a própria luz que de tão pura me cegava, não olhava mais em sua direção, pois ela já estava dentro de mim. Eu era luz. Todo o barulho se foi. Já não estava mais ali como parte. Havia me dissolvido. Agora, eu era milhares. Então, pude alcançar o nirvana. Digo a todos que, a descrição seguinte não os fará e momento algum sentir o que de fato senti, até que também alcancem o mesmo estado.
Paz e Compaixão.
O santuário se fazia dentro do Todo. O cosmos dançava como água viva pelas correntes de energia pura. Nada se excluía, a beleza era plena. Em tal estado Todos lembramos de vocês que ainda não chegaram ao nível infinito. Todos sentimos compaixão, o amor que se baseia em servir, a capacidade de não ser algo para que vocês possam ser como nós, e um dia serem capazes de deixar este "algo" e também ser Todo. Todos percebemos que o nirvana trazia em si o último grande ensinamento: Não serão O Todo enquanto Todos não estiverem aqui.
Renunciei ao estado maior de espírito e decidi caminhar pela terra novamente. Fiz isto com uma felicidade sem nome, com um amor tão grande. Voltei e aceitei a fome, a doença e a morte como condições. Desci do plano mais alto para ajoelhar-me diante de ti e dizer: Você também alcançará os jardins da calmaria.
Como flor de lótus, nasci mais uma vez em meio à escuridão. Trouxe luz e amor como sementes fiéis. Não sou o caminho, não sou a luz que os aquecerá, sou apenas a prova de que sozinhos, com o próprio esforço, alcançarão a paz. Sou como vocês, uma flor de lótus".
Om.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Só eles sabem
Era cedo, me olhei no espelho e percebi que já não queria mais mudar de nome.
(...)
Sempre quieto, com os olhos bem abertos. Minha mãe costumava dizer que eu tinha olhos gigantes. Nada escapava deles. Ouvia bastante também. Os sons pareciam interessantes, estimulavam minha imaginação. O mundo sempre pareceu grande demais, mesmo não sabendo ao certo o que ele era. Eu estava ali, era só isso.
As outras crianças eram energéticas, barulhentas e não sabiam brincar sozinhas. Às vezes até me interessava por seus movimentos e berros, mas na maior parte do tempo deixava tudo de lado e imergia num oceano de imaginação e fantasia. Sereias feitas com galhos de árvores, peixes feios de papel, barcos que na verdade não passavam de palitos de sorvete. Não sabia quanto tempo durava o tempo. Sabia que o dia começava quando o sol deixava de ser tímido, que a tarde era a hora em que o estômago roncava e que a noite era o momento de jogar a última rodada de "Rouba Bandeira".
Não precisava ser craque para jogar futebol. Mas era necessário saber a linguagem certa a ser usada. O adversário chegou perto de você, silencioso? Ladrão! E quando o seu companheiro de time estava bloqueado por outro jogador, como passar a bola? Fura, fura! Enfim, não tinha protetor solar, nem caneleiras, nada de chuteiras luxuosas ou médico particular. Mangueiras esguichavam água e as gotas escorriam salgadas para os nossos lábios. Éramos irmãos de verdade. E eu, ainda quieto, observava e participava ao mesmo tempo.
Não entendia a revolta de algumas pessoas, não entendia a maneira agressiva com que me tratavam durante um tempo. Mas ainda assim, mantive a mesma calma que os irritavam. Eles nunca entenderiam. Grandes amigos, grandes amores. Sempre haverá aquela garota linda e simpática que parece ter o melhor perfume de todos. Perfume este que marca vários anos da sua vida e quando você o sente novamente, lembra de toda aquela sensação, daquele ano, daquele aniversário em que você ganhou o melhor beijo. Eles ainda não entendem.
A revolta veio como novidade incrível. O mundo já tinha limites, os amigos deixaram de ser como irmãos, ela deixou de ser linda e simpática para se tornar arrogante e insegura. Eu ainda optava pelo silêncio, mas meus olhos queimavam como brasa ao ver alguma chance de explodir e descarregar toda aquela vontade de destruir. O dia inteiro na rua, sempre com o amigo braço direito. Destruindo muros, destruindo caminhões, destruindo sonhos, colecionando brigas e mediando intrigas. A adrenalina era nosso vício. Sair de skate sem saber se íamos sobreviver. Sair para os shows sem saber se íamos voltar inteiros. O Punk Rock o Hard core, que maravilha!
Você deixar o corpo solto durante o bate-cabeça ou nadar no mar de gente ao pular de mosh são coisas que limpam a mente, só que estragam o corpo. Elas agora são mais agressivas, não têm mais perfume de flor. Agora têm cheiro de cereja, olhos bem pintados e curvas quase perfeitas. Dançávamos errado, experimentávamos novos sabores, novos efeitos. O álcool, os cigarros, o ácido, as balas de canela. No final de semana, tempo para jogar bola na rua com os poucos camaradas que permaneceram. Falar de música era algo incrível. Eu ainda optava por escutar mais do que falar ... Novas conversas, novas bandas, arte e liberdade, igualdade e respeito. O Punk evoluiu dentro de mim e então percebi que já era hora de partir para algo além dele.
A fúria se transforma em Street Art, banda, porres, boxe, distorção e poucos amigos. Surge o Reggae, surge o Hip-Hop, surgem os filmes. Tudo o que observei me fez abandonar a necessidade de nomear as coisas e sentimentos. Ele também surgiu, e de cereja passamos para hortelã. Eu, quieto, prestava atenção em seus movimentos e na sua forma de se esconder atrás de discursos sobre si mesmo. Percebi que o amor muitas vezes morre com o silêncio. Eu era assassino do meu próprio amor. Ele nunca soube ler meus olhos, apenas prestava atenção na minha boca, muda. São várias as maneiras de demonstrar que gosta de alguém, e às vezes escolhemos uma forma que não funciona com certa pessoa. Do copo o que mais conheço é o fundo. Bem vinda: Pura, transparente e relaxante. Fiél.
Política, cultura, jornalismo, trabalho, sociedade, revolução, involução. Tudo caminha ao contrário e as pessoas estão cada vez mais vazias. A realidade é a jaula que prende aquele monstro dentro de você. Aquele ser que poderia dar sentido a sua vida. Alienação voluntária, síndrome de gado, abaixar a cabeça e chorar. Apertar a cabeça do filho próximo aos seios e não ter leite para alimentá-lo. Voltei a ficar quieto como no início da minha vida, agora por conhecer uma parte maior do mundo. Religião, não ser religioso, fé, esperança que pressupõe força. Força que é fruto de poder e poder que escraviza as relações humanas. Conhecimento, tão necessário, tão raro.
É, muita coisa, não? Mas eu sei. Você não? Eu sei. Só os loucos sabem.
(...)
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Várias maneiras de dizer ...
Aperta o "Play" e leia o texto.
Nunca menti para você, sempre deixei bem evidente a minha timidez. Certo, você também nunca mentiu, fez questão de jogar sobre mim todas as suas intenções. Quando te via de longe, achava a garota mais pequena, frágil. Até que você chegou perto o bastante para mostrar que o pequeno na verdade era eu. Cabia na sua mão, assim como dentro do seu coraçãozinho selvagem.
Foram dias, semanas, meses de uma felicidade anestesiante. O tédio era ficar longe de você. A solidão estava casada com o maldito silêncio, intacto, que só desaparecia com sua voz. Estávamos felizes, isso é fato. Saber com quem contar, quando contar e não contar quando não quisesse dizer uma só palavra. Sentir-se completo, necessário, enfim.
Nunca segurava sua mão, achava estranho. E, por mais que você aceitasse eu sabia que no fundo torcia para que meus dedos entrelaçassem os seus. Resisti durante um bom tempo, até que fui eu a sentir vontade de segurá-la como se nunca fosse deixar você partir. Talvez agora meu coração estivesse apertado, nele só cabia você. Quase não tinha mais espaço para mim.
Te ouvia com atenção. Não tanto nas suas palavras, mas no seu jeito de dizer as coisas. Um olhar profundo, direcionado à alma, os lábios sempre mais lentos do que o som do que era produzido a cada frase, sim, tinha o dom de prender a atenção. Às vezes parava, ficava em silêncio por alguns segundos, arrumava o cabelo atrás das orelhas e me dava um beijo próximo do local onde as lágrimas escorriam. Eu me perdia nos seus braços, mais uma vez, pequeno.
Não sei aonde nos perdemos, não sei quem separou nossas mãos ou se fomos nós a privá-las da companhia uma da outra. Não sei, e nem procurei saber porque o amor de verdade transcende até mesmo o fim da convivência. Você está tão longe quanto eu, e ainda assim gasto linhas e linhas contigo, não porque te quero novamente ao meu lado, mas porque agora consegui recuperar o espaço que antes não tinha. Já não sou mais tão pequeno assim e você será sempre a lembrança de uma época em que um significava dois.
Te deixar tão livre foi a maneira mais bonita que encontrei de dizer que não te amava mais.
Várias maneiras de dizer "te amo".
Nunca menti para você, sempre deixei bem evidente a minha timidez. Certo, você também nunca mentiu, fez questão de jogar sobre mim todas as suas intenções. Quando te via de longe, achava a garota mais pequena, frágil. Até que você chegou perto o bastante para mostrar que o pequeno na verdade era eu. Cabia na sua mão, assim como dentro do seu coraçãozinho selvagem.
Foram dias, semanas, meses de uma felicidade anestesiante. O tédio era ficar longe de você. A solidão estava casada com o maldito silêncio, intacto, que só desaparecia com sua voz. Estávamos felizes, isso é fato. Saber com quem contar, quando contar e não contar quando não quisesse dizer uma só palavra. Sentir-se completo, necessário, enfim.
Nunca segurava sua mão, achava estranho. E, por mais que você aceitasse eu sabia que no fundo torcia para que meus dedos entrelaçassem os seus. Resisti durante um bom tempo, até que fui eu a sentir vontade de segurá-la como se nunca fosse deixar você partir. Talvez agora meu coração estivesse apertado, nele só cabia você. Quase não tinha mais espaço para mim.
Te ouvia com atenção. Não tanto nas suas palavras, mas no seu jeito de dizer as coisas. Um olhar profundo, direcionado à alma, os lábios sempre mais lentos do que o som do que era produzido a cada frase, sim, tinha o dom de prender a atenção. Às vezes parava, ficava em silêncio por alguns segundos, arrumava o cabelo atrás das orelhas e me dava um beijo próximo do local onde as lágrimas escorriam. Eu me perdia nos seus braços, mais uma vez, pequeno.
Não sei aonde nos perdemos, não sei quem separou nossas mãos ou se fomos nós a privá-las da companhia uma da outra. Não sei, e nem procurei saber porque o amor de verdade transcende até mesmo o fim da convivência. Você está tão longe quanto eu, e ainda assim gasto linhas e linhas contigo, não porque te quero novamente ao meu lado, mas porque agora consegui recuperar o espaço que antes não tinha. Já não sou mais tão pequeno assim e você será sempre a lembrança de uma época em que um significava dois.
Te deixar tão livre foi a maneira mais bonita que encontrei de dizer que não te amava mais.
Várias maneiras de dizer "te amo".
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
A concepção da Consciência
Concentrado, focado num único ponto. Sua existência se igualava a de um grão de areia no extenso litoral. Olhava para as próprias mãos, sujas de sangue. Tão pequeno, parecia vencido por si mesmo.
Muito antigamente, o universo não passava de uma voz suave, pairando pelo branco infinito. A ausência era a única presença existente. Contudo, um ponto de consciência lutava para ganhar espaço. Sem forma, sem cheiro, sem cor, o pequeno pensamento se concebeu como semente rústica e minúscula.
Nos primeiros momentos foi muito difícil encontrar um ponto de fixação. A mente em expansão tentava desesperadamente reunir qualquer detalhe para que dele fosse dado o primeiro passo. No entanto, o branco absoluto era implacável, frio, e o silêncio submisso se fazia de trilha sonora.
Percebe-se que, os primeiros sentimentos que existiram foram os de tristeza, solidão e desespero. E graças a eles, o grão de areia achou o início daquilo que nunca havia começado. Essas três sensações eram na verdade os primeiros traços coloridos. Uma pincelada no preto acabou com o branco absoluto. Essa cor era fruto da tristeza, sempre rígida. A imensidão tinha profundidade e aumentava-se ali a necessidade de alguém. No mesmo instante, a consciência era agora um ponto de luz, talvez o que havia restado do branco, da claridade. Era preciso destacar-se para existir naquele mar bucólico.
A próxima cor foi o cinza. Pigmentação que cobria a pele da solidão. Era muito complicado para o pequeno “criador” não ter com quem conversar ou com quem dividir suas idéias fulminantes. O tom metálico viajava por anos e anos como uma poeira cósmica que visitava os cantos do universo sem ter um lugar exato para ficar. A solidão era só. Sem perceber, novos elementos surgiam ao redor da consciência, que agora circular. Foi então que aquele branco antes senhor do infinito, voltou para reivindicar sua própria existência.
O desespero tomou conta do broto de luz. Lembrou-se da eternidade que passou rodeado por um deserto de nada. Não era possível descansar, não era possível se concentrar, não havia profundidade, não havia um espaço menor, tudo era baseado na superexposição. Foi então que optou por não se deixar vencer. Estilhaçou todo o branco, levando-o do imenso ao fragmentado. Pequenos pontos cobriam o infinito negro sem substituí-lo. O círculo, já com cabeça, baços, tronco e pernas, percebeu que após a agonia surgia a beleza, uma de suas criações e mãe das estrelas. Estrelas essas que nasceram da explosão desesperada de uma mente que não queria viver o passado.
O garoto, sentado num trono invisível, nem ao menos sabia o que era ser rei. Estava deslumbrado com tudo o que havia criado sem a presença do tempo. Foi então que sentiu um calor tomando conta do peito. Curioso, olhou dentro de si mesmo e então algo magnífico banhou seus olhos: a cor vermelha. Algo pulsava constantemente num ritmo sedutor, que pressupunha vida e principalmente, felicidade. O rosto, antes composto apenas por dois globos que lhe permitiam ver, agora rasgava uma linha bem fina e discreta, batizada de sorriso. Toda aquela euforia já não era bem vinda. As outras três cores, os outros três sentimentos, resolveram se unir para acabar com o tom recém nascido.
Tristeza, solidão e desespero envolviam o vermelho tímido que agora ocupava as bochechas do pequeno artista. O espaço torcia para que a luta não fosse em vão e que o desenvolvimento voltasse a fazer parte de sua rotina. O vermelho agora tentava se defender. Cobria todo o rosto do garoto e alimentava sua pele, dava a ela um tom rosado. A tristeza o fazia lembrar que suas visitas seriam constantes, a solidão sussurrava em seus ouvidos as lamúrias de quem não tem semelhantes e o desespero praguejava contra tudo o que havia sido feito, dizendo que a união de todas as cores sempre resultaria nele.
Ao elevar a consciência a um nível inimaginável, o garoto, evoluído na forma de uma menina com longos cabelos negros, descobriu o amor. O sentimento que tinha por todas as suas criações, até mesmo por aquelas que tentavam se rebelar. A garota aceitou a tristeza, respeitou a solidão e superou o desespero. Ergueu suas pequenas mãos até boca e com uma mordida suave retirou uma gota de sangue. Dali saíram partículas que se tornariam a moradia de seus filhos. A mulher, agora mãe, percebeu que no amor estava a barreira contra o ataque violento dos sentimentos primários. Contudo, sabia que era necessário senti-los de tempos em tempos, para que o tom vermelho não perdesse toda a sua plenitude.
Os filhos do pequeno grão de areia, da mulher de cabelos longos e da grande consciência cósmica nasceram do simples ato da destruição. Uma mordida sutil que arrancou a essência do que era essencial. Uma mordida que mostrou a vulnerabilidade da mulher. Uma mordida que, mesmo causando dor, era compensada pela alegria de não sentir mais tristeza, solidão e desespero. Uma mordida que conceberia a raça mais suicida que já existiu.
Concentrado, focado num único ponto. Sua existência se igualava a de um grão de areia no extenso litoral. Olhava para as próprias mãos, sujas de sangue. Tão pequeno, parecia vencido por si mesmo. Levantou-se, sorriu, admirou sua obra de arte pela última vez e então se espalhou como as ondas. Decidiu que não precisava mais ser a única consciência, mas sim a consciência de todos. A minha, a sua, a de todos.
Muito antigamente, o universo não passava de uma voz suave, pairando pelo branco infinito. A ausência era a única presença existente. Contudo, um ponto de consciência lutava para ganhar espaço. Sem forma, sem cheiro, sem cor, o pequeno pensamento se concebeu como semente rústica e minúscula.
Nos primeiros momentos foi muito difícil encontrar um ponto de fixação. A mente em expansão tentava desesperadamente reunir qualquer detalhe para que dele fosse dado o primeiro passo. No entanto, o branco absoluto era implacável, frio, e o silêncio submisso se fazia de trilha sonora.
Percebe-se que, os primeiros sentimentos que existiram foram os de tristeza, solidão e desespero. E graças a eles, o grão de areia achou o início daquilo que nunca havia começado. Essas três sensações eram na verdade os primeiros traços coloridos. Uma pincelada no preto acabou com o branco absoluto. Essa cor era fruto da tristeza, sempre rígida. A imensidão tinha profundidade e aumentava-se ali a necessidade de alguém. No mesmo instante, a consciência era agora um ponto de luz, talvez o que havia restado do branco, da claridade. Era preciso destacar-se para existir naquele mar bucólico.
A próxima cor foi o cinza. Pigmentação que cobria a pele da solidão. Era muito complicado para o pequeno “criador” não ter com quem conversar ou com quem dividir suas idéias fulminantes. O tom metálico viajava por anos e anos como uma poeira cósmica que visitava os cantos do universo sem ter um lugar exato para ficar. A solidão era só. Sem perceber, novos elementos surgiam ao redor da consciência, que agora circular. Foi então que aquele branco antes senhor do infinito, voltou para reivindicar sua própria existência.
O desespero tomou conta do broto de luz. Lembrou-se da eternidade que passou rodeado por um deserto de nada. Não era possível descansar, não era possível se concentrar, não havia profundidade, não havia um espaço menor, tudo era baseado na superexposição. Foi então que optou por não se deixar vencer. Estilhaçou todo o branco, levando-o do imenso ao fragmentado. Pequenos pontos cobriam o infinito negro sem substituí-lo. O círculo, já com cabeça, baços, tronco e pernas, percebeu que após a agonia surgia a beleza, uma de suas criações e mãe das estrelas. Estrelas essas que nasceram da explosão desesperada de uma mente que não queria viver o passado.
O garoto, sentado num trono invisível, nem ao menos sabia o que era ser rei. Estava deslumbrado com tudo o que havia criado sem a presença do tempo. Foi então que sentiu um calor tomando conta do peito. Curioso, olhou dentro de si mesmo e então algo magnífico banhou seus olhos: a cor vermelha. Algo pulsava constantemente num ritmo sedutor, que pressupunha vida e principalmente, felicidade. O rosto, antes composto apenas por dois globos que lhe permitiam ver, agora rasgava uma linha bem fina e discreta, batizada de sorriso. Toda aquela euforia já não era bem vinda. As outras três cores, os outros três sentimentos, resolveram se unir para acabar com o tom recém nascido.
Tristeza, solidão e desespero envolviam o vermelho tímido que agora ocupava as bochechas do pequeno artista. O espaço torcia para que a luta não fosse em vão e que o desenvolvimento voltasse a fazer parte de sua rotina. O vermelho agora tentava se defender. Cobria todo o rosto do garoto e alimentava sua pele, dava a ela um tom rosado. A tristeza o fazia lembrar que suas visitas seriam constantes, a solidão sussurrava em seus ouvidos as lamúrias de quem não tem semelhantes e o desespero praguejava contra tudo o que havia sido feito, dizendo que a união de todas as cores sempre resultaria nele.
Ao elevar a consciência a um nível inimaginável, o garoto, evoluído na forma de uma menina com longos cabelos negros, descobriu o amor. O sentimento que tinha por todas as suas criações, até mesmo por aquelas que tentavam se rebelar. A garota aceitou a tristeza, respeitou a solidão e superou o desespero. Ergueu suas pequenas mãos até boca e com uma mordida suave retirou uma gota de sangue. Dali saíram partículas que se tornariam a moradia de seus filhos. A mulher, agora mãe, percebeu que no amor estava a barreira contra o ataque violento dos sentimentos primários. Contudo, sabia que era necessário senti-los de tempos em tempos, para que o tom vermelho não perdesse toda a sua plenitude.
Os filhos do pequeno grão de areia, da mulher de cabelos longos e da grande consciência cósmica nasceram do simples ato da destruição. Uma mordida sutil que arrancou a essência do que era essencial. Uma mordida que mostrou a vulnerabilidade da mulher. Uma mordida que, mesmo causando dor, era compensada pela alegria de não sentir mais tristeza, solidão e desespero. Uma mordida que conceberia a raça mais suicida que já existiu.
Concentrado, focado num único ponto. Sua existência se igualava a de um grão de areia no extenso litoral. Olhava para as próprias mãos, sujas de sangue. Tão pequeno, parecia vencido por si mesmo. Levantou-se, sorriu, admirou sua obra de arte pela última vez e então se espalhou como as ondas. Decidiu que não precisava mais ser a única consciência, mas sim a consciência de todos. A minha, a sua, a de todos.
sexta-feira, 30 de julho de 2010
A casa das Marias
A casa das Marias
Paredes brancas, a escada é branca, os bancos na sacada são brancos. O portão, bem velho e enferrujado, ainda conserva um pouco da tinta branca que há anos cobria as tiras de metal. Era um dia de sol, céu azul e fadiga. Aquela casa me parecia tão misteriosa e quando olhei no relógio já eram 15h da tarde.
Sobe as escadas em passos lentos, mas ainda assim mantém o ar de animação em ver que alguém espera na frente de sua casa. Recebe-me com um forte abraço. Seu nome é Maria. Negra, corpulenta, de mãos firmes e braços aconchegantes, cheirando a maracujá e toda vestida de branco. As unhas estão impecáveis e percebi que ela tinha todo um trabalho especial de manicure. O terreno possuía uma espécie de jardim, com muitas árvores, todas frutíferas. Pés de laranja, limão, manga, maracujá (talvez daí venha o cheiro de Maria), melões pelo chão, mamão, carambola. Um jardim dourado, um mar de diferentes tons de amarelo. No caminho encontrei outra figura, alta, magra de olhar penetrante. Chamava-se Maria.
Olhou-me de cima a baixo, prendeu o cabelo com um grampo que segurava com os lábios e então abriu os braços. No primeiro momento achei que aquela era a "líder" da casa. Depois percebi que estava errado, como quase sempre. Maria perguntou se eu estava com fome. Não costumo aceitar comida quando me oferecem, sei lá, desde pequeno me sentia desconfortável. Mas não recusei desta vez. Maria me deu um doce de maçã, amarelo, delicioso. O relógio no meu pulso não funcionava, ainda estava parado nas 15h.
Ao sentar-me à mesa, duas mulheres pequenas chegaram e se apresentaram: Maria e Maria. Falavam bastante, perguntavam sobre o mundo lá fora como se nunca saíssem de casa. Suas roupas eram mais ousadas. "Shorts bem curtos", camiseta amarrada mostrando a barriga impecável, pernas que brilhavam ao sol como o mais puro petróleo. Lindas, cabelos com dreads e longas argolas como ornamento para suas orelhas pequenas. Riam, infestavam o lugar com uma alegria juvenil. As outras duas Marias riam sem parar. Me levaram para conhecer o dormitório.
No quarto gigante estava sentada uma senhora muito velha. Cabelos brancos como algodão e olhos negros. Não sei por que, mas quando me aproximei dela a primeira coisa que fiz foi beijar sua mão. Senti como se a conhecesse de muitas vidas e ela não disse uma palavra, ficou olhando para o meu rosto, acariciando-o, sorrindo de leve. As outras Marias mantinham um silêncio que refletia o respeito por aquela que, ao meu ver, era a matriarca. Fiquei preocupado com as horas, pois já fazia um tempo que estava entre as Marias e precisava voltar para casa. Meu relógio não funcionava, olhei para o relógio na parede do quarto de Maria e ele marcava 15h.
A primeira Maria que me recebeu queria mostrar o "cantinho" que fizeram no meio das árvores. Era um lugar mágico, onde a brisa tinha perfume de fruta e mesmo com o sol forte não se sentia calor nem frio, não se sentia nem alegria nem tristeza. Era um local onde as Marias se reuniam para ficar em silêncio. Olhei para o topo da mangueira e vi uma pessoa deitada sobre um galho. Ela me encarou e sua expressão mudou bruscamente. Gritou com as outras Marias querendo saber por qual motivo me levaram lá. As Marias explicaram à Maria que eu era apenas um visitante. Maria ainda assim ficou desconfiada de mim e seus olhos puxados como os de um lince me fitavam. Cruzou os braços, resistiu por alguns minutos e depois jogou na minha direção uma manga suculenta. Piscou o olho e saiu andando, descalça.
Tudo estava tão bom e melhorou ainda mais quando ouvi um som de fundo. Uma melodia que me hipnotizou, paralisou meus músculos. Procurei seguir as notas músicas até encontrar o responsável por tal melodia. Na última das árvores estava sentada uma mulher linda. Nem jovem demais, nem velha demais. Ela tinha uma flor amarela no cabelo negro e volumoso. Tocava uma flauta doce, mais doce do que o mel. E mel era justamente a cor de seus olhos. Nunca tinha visto uma pessoa tão linda, dentro de um vestido branco que confortava não só o seu corpo como também meus olhos. Sentei ao seu lado e ela segurou minha mão. Seu nome era Maria. A deusa da música, que tinha perfume de laranja. Fiquei escutando sua flauta até perceber que o sol não ia embora, mas eu precisava ir. Todas as Marias me abraçaram e disseram adeus. Ao sair pelo portão velho e enferrujado olhei no relógio, que agora marcava 15h01.
Sete Marias, negras, lindas, carinhosas, humildes, silenciosas, vivendo num jardim dourado com vários perfumes, com música com fé e com força. Sete formas de amar e de se expressar. Sete caminhos para o coração. Sete mães. Sete pedaços de Deus. Deus, em sete mulheres incríveis. A casa branca de móveis brancos era na verdade o abraço de mãe. O abraço vindo da casa das Marias.
Paredes brancas, a escada é branca, os bancos na sacada são brancos. O portão, bem velho e enferrujado, ainda conserva um pouco da tinta branca que há anos cobria as tiras de metal. Era um dia de sol, céu azul e fadiga. Aquela casa me parecia tão misteriosa e quando olhei no relógio já eram 15h da tarde.
Sobe as escadas em passos lentos, mas ainda assim mantém o ar de animação em ver que alguém espera na frente de sua casa. Recebe-me com um forte abraço. Seu nome é Maria. Negra, corpulenta, de mãos firmes e braços aconchegantes, cheirando a maracujá e toda vestida de branco. As unhas estão impecáveis e percebi que ela tinha todo um trabalho especial de manicure. O terreno possuía uma espécie de jardim, com muitas árvores, todas frutíferas. Pés de laranja, limão, manga, maracujá (talvez daí venha o cheiro de Maria), melões pelo chão, mamão, carambola. Um jardim dourado, um mar de diferentes tons de amarelo. No caminho encontrei outra figura, alta, magra de olhar penetrante. Chamava-se Maria.
Olhou-me de cima a baixo, prendeu o cabelo com um grampo que segurava com os lábios e então abriu os braços. No primeiro momento achei que aquela era a "líder" da casa. Depois percebi que estava errado, como quase sempre. Maria perguntou se eu estava com fome. Não costumo aceitar comida quando me oferecem, sei lá, desde pequeno me sentia desconfortável. Mas não recusei desta vez. Maria me deu um doce de maçã, amarelo, delicioso. O relógio no meu pulso não funcionava, ainda estava parado nas 15h.
Ao sentar-me à mesa, duas mulheres pequenas chegaram e se apresentaram: Maria e Maria. Falavam bastante, perguntavam sobre o mundo lá fora como se nunca saíssem de casa. Suas roupas eram mais ousadas. "Shorts bem curtos", camiseta amarrada mostrando a barriga impecável, pernas que brilhavam ao sol como o mais puro petróleo. Lindas, cabelos com dreads e longas argolas como ornamento para suas orelhas pequenas. Riam, infestavam o lugar com uma alegria juvenil. As outras duas Marias riam sem parar. Me levaram para conhecer o dormitório.
No quarto gigante estava sentada uma senhora muito velha. Cabelos brancos como algodão e olhos negros. Não sei por que, mas quando me aproximei dela a primeira coisa que fiz foi beijar sua mão. Senti como se a conhecesse de muitas vidas e ela não disse uma palavra, ficou olhando para o meu rosto, acariciando-o, sorrindo de leve. As outras Marias mantinham um silêncio que refletia o respeito por aquela que, ao meu ver, era a matriarca. Fiquei preocupado com as horas, pois já fazia um tempo que estava entre as Marias e precisava voltar para casa. Meu relógio não funcionava, olhei para o relógio na parede do quarto de Maria e ele marcava 15h.
A primeira Maria que me recebeu queria mostrar o "cantinho" que fizeram no meio das árvores. Era um lugar mágico, onde a brisa tinha perfume de fruta e mesmo com o sol forte não se sentia calor nem frio, não se sentia nem alegria nem tristeza. Era um local onde as Marias se reuniam para ficar em silêncio. Olhei para o topo da mangueira e vi uma pessoa deitada sobre um galho. Ela me encarou e sua expressão mudou bruscamente. Gritou com as outras Marias querendo saber por qual motivo me levaram lá. As Marias explicaram à Maria que eu era apenas um visitante. Maria ainda assim ficou desconfiada de mim e seus olhos puxados como os de um lince me fitavam. Cruzou os braços, resistiu por alguns minutos e depois jogou na minha direção uma manga suculenta. Piscou o olho e saiu andando, descalça.
Tudo estava tão bom e melhorou ainda mais quando ouvi um som de fundo. Uma melodia que me hipnotizou, paralisou meus músculos. Procurei seguir as notas músicas até encontrar o responsável por tal melodia. Na última das árvores estava sentada uma mulher linda. Nem jovem demais, nem velha demais. Ela tinha uma flor amarela no cabelo negro e volumoso. Tocava uma flauta doce, mais doce do que o mel. E mel era justamente a cor de seus olhos. Nunca tinha visto uma pessoa tão linda, dentro de um vestido branco que confortava não só o seu corpo como também meus olhos. Sentei ao seu lado e ela segurou minha mão. Seu nome era Maria. A deusa da música, que tinha perfume de laranja. Fiquei escutando sua flauta até perceber que o sol não ia embora, mas eu precisava ir. Todas as Marias me abraçaram e disseram adeus. Ao sair pelo portão velho e enferrujado olhei no relógio, que agora marcava 15h01.
Sete Marias, negras, lindas, carinhosas, humildes, silenciosas, vivendo num jardim dourado com vários perfumes, com música com fé e com força. Sete formas de amar e de se expressar. Sete caminhos para o coração. Sete mães. Sete pedaços de Deus. Deus, em sete mulheres incríveis. A casa branca de móveis brancos era na verdade o abraço de mãe. O abraço vindo da casa das Marias.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Smoking myself
Dentro do meu carro, com as janelas fechadas e com os pulmões ardendo. Trinta cigarros para 24 horas de esquizofrenia, no banco do motorista, no banco da praça sem ter o que comer, no banco que rouba meu dinheiro todos os meses, no banco que contrabandeia meu sangue. Estralei todos os dedos e mesmo assim continuo mordendo os lábios.
Tive um dia de merda, todos estavam contra mim. Isso não é novidade, nem mania de perseguição. Isso não está definido no seu manual. A rotina reúne em seu útero todas as coisas estúpidas que sou obrigado a fazer, para que estas, num instante mágico, criem algo que nascerá já como herói: O desgosto. Foda-se se você adora ir cumprir suas tarefas diárias. Foda-se mais ainda se você odeia meu olhar vazio ao entrar no matadouro. Não vou te dar o gosto de foder com meu humor, faço isso só de lembrar da sua cara.
Tudo te pressiona. Relógio, transito, filas, escadas, semáforos, faixas, sinalizações, alarmes, travas, senhas, metas, papeis, canetas assinaturas. Corre, pula, explode, esmurra alguém sem motivo, grita, berra, arranca um pedaço da mesa com uma mordida, tira os sapatos, quebra o vidro da janela do escritório, incendeio o refeitório, rasgue seus documentos ... Viva/Morra! Seja seu próprio juiz, se condene, considere-se inocente, mande cortar a própria cabeça. É tanta informação que você atinge a plenitude do Zero. Silêncio.
As cores estão extremamente saturadas, tudo é em exagero, uma porcaria total. Não se pode ficar triste em paz, nem engordar com felicidade, nem se manter magro comendo compulsivamente. Não pode falar palavrão, nem rezar na mesma noite, ninguém pode se sentir bem com finais trágicos ou criar uma bela família sozinho. Não se pode casar com quem sem ama, a menos que este/esta esteja na lista de pessoas respeitáveis. Não se pode deixar de viver, não é permitido conhecer o próprio corpo e os seus limites. Não se pode fazer porra nenhuma nessa desgraça. A unica coisa que é permitida, é a eterna condição de servo, de cordeiro, de massa guiada por alguém/algo/alguma coisa que se auto denominou Superior.
Se a vida é um presente que me foi dado, então que eu a use como bem entender. Se eu tenho livre arbítrio, então que este me liberte e permita que eu tenha a opção de não ser rei ou vencedor. Que eu possa ficar triste, chorar, sem ter que ouvir alguém me dizer "Melhore!". Eu não tenho fé no que o homem diz. Quero amar incondicionalmente quem escolhi, mesmo que não seja recíproco. Prefiro a solidão do que viver numa farsa. Prefiro não me relacionar com outras pessoas até que o amor que sinto torne-se combustível para o meu tipo de humor auto destrutivo. É neste momento que você atinge a plenitude do Zero.
Falto no casamento do melhor amigo, esqueço do aniversário da melhor amiga, deixo de ir visitar os familiares para beber no fundo de casa sozinho. Tiro o telefone da tomada para não receber uma ligação de "Feliz Natal", guardo as cartas de amor que ganhei só para lembrar de como fui patético. Evito os melhores amigos durante horas, converso na Internet mais preocupado com o jogo em que me inseri. Aposto alto, sigo sozinho, tenho momentos de caos e nunca estou só. Isso irrita e conforta ao mesmo tempo. Ah, claro e principalmente, sou um ótimo filho, aparentemente.
Odeio que me toquem sem que eu permita. Que isso fique bem anotado. Ainda sonho com acidentes no Metrô e que esqueci de calçar os sapatos para ir à escola. Dependendo da pessoa e seus argumentos, sou positivo e até um pouco esperançoso. Mas quando converso comigo mesmo, vejo o quão niilista me tornei. Esta é a minha zona de conforto. O garoto que pintava fora das linhas que a professora definia e era humilhado por isso. Aquele pequeno pedaço de desordem que, aos olhos da Laura, deveria ter nascido sabendo. Desenhos em que as casas, pessoas, animais flutuavam e o chão era a coisa mais chata de se fazer. Os detalhes que faziam toda a diferença. Resistiu, engoliu a seco toda a cocaína que acelerava o ritmo daquelas crianças malditas. Foi esquecido no dia da festa pelo próprio par, dançou com um pedaço de madeira e não viu seu pai na platéia. Cresceu sozinho, dentro de uma casa com 3 pessoas. Foram nestes anos que atingi a plenitude do Zero.
O universo foi criados por nós, Deus foi criado por nós, o amor, o ódio. Nós somos tudo. E por este simples motivo, não suportamos nós dentro de nós mesmos. Criamos regras e censuras para que o espírito de fogo não consuma toda a droga de razão que achamos ter. Se nos demos o direito de viver, se criamos o nosso criador, nada mais justo do que preparamos também nossa própria morte. A única espécie suicida do mundo apenas cumpre aquilo que se propôs a fazer. E você não precisa entender um final que já foi escrito antes mesmo do início. Talvez, a chave seja se permitir mais.
Enfim, foda-se.
Tive um dia de merda, todos estavam contra mim. Isso não é novidade, nem mania de perseguição. Isso não está definido no seu manual. A rotina reúne em seu útero todas as coisas estúpidas que sou obrigado a fazer, para que estas, num instante mágico, criem algo que nascerá já como herói: O desgosto. Foda-se se você adora ir cumprir suas tarefas diárias. Foda-se mais ainda se você odeia meu olhar vazio ao entrar no matadouro. Não vou te dar o gosto de foder com meu humor, faço isso só de lembrar da sua cara.
Tudo te pressiona. Relógio, transito, filas, escadas, semáforos, faixas, sinalizações, alarmes, travas, senhas, metas, papeis, canetas assinaturas. Corre, pula, explode, esmurra alguém sem motivo, grita, berra, arranca um pedaço da mesa com uma mordida, tira os sapatos, quebra o vidro da janela do escritório, incendeio o refeitório, rasgue seus documentos ... Viva/Morra! Seja seu próprio juiz, se condene, considere-se inocente, mande cortar a própria cabeça. É tanta informação que você atinge a plenitude do Zero. Silêncio.
As cores estão extremamente saturadas, tudo é em exagero, uma porcaria total. Não se pode ficar triste em paz, nem engordar com felicidade, nem se manter magro comendo compulsivamente. Não pode falar palavrão, nem rezar na mesma noite, ninguém pode se sentir bem com finais trágicos ou criar uma bela família sozinho. Não se pode casar com quem sem ama, a menos que este/esta esteja na lista de pessoas respeitáveis. Não se pode deixar de viver, não é permitido conhecer o próprio corpo e os seus limites. Não se pode fazer porra nenhuma nessa desgraça. A unica coisa que é permitida, é a eterna condição de servo, de cordeiro, de massa guiada por alguém/algo/alguma coisa que se auto denominou Superior.
Se a vida é um presente que me foi dado, então que eu a use como bem entender. Se eu tenho livre arbítrio, então que este me liberte e permita que eu tenha a opção de não ser rei ou vencedor. Que eu possa ficar triste, chorar, sem ter que ouvir alguém me dizer "Melhore!". Eu não tenho fé no que o homem diz. Quero amar incondicionalmente quem escolhi, mesmo que não seja recíproco. Prefiro a solidão do que viver numa farsa. Prefiro não me relacionar com outras pessoas até que o amor que sinto torne-se combustível para o meu tipo de humor auto destrutivo. É neste momento que você atinge a plenitude do Zero.
Falto no casamento do melhor amigo, esqueço do aniversário da melhor amiga, deixo de ir visitar os familiares para beber no fundo de casa sozinho. Tiro o telefone da tomada para não receber uma ligação de "Feliz Natal", guardo as cartas de amor que ganhei só para lembrar de como fui patético. Evito os melhores amigos durante horas, converso na Internet mais preocupado com o jogo em que me inseri. Aposto alto, sigo sozinho, tenho momentos de caos e nunca estou só. Isso irrita e conforta ao mesmo tempo. Ah, claro e principalmente, sou um ótimo filho, aparentemente.
Odeio que me toquem sem que eu permita. Que isso fique bem anotado. Ainda sonho com acidentes no Metrô e que esqueci de calçar os sapatos para ir à escola. Dependendo da pessoa e seus argumentos, sou positivo e até um pouco esperançoso. Mas quando converso comigo mesmo, vejo o quão niilista me tornei. Esta é a minha zona de conforto. O garoto que pintava fora das linhas que a professora definia e era humilhado por isso. Aquele pequeno pedaço de desordem que, aos olhos da Laura, deveria ter nascido sabendo. Desenhos em que as casas, pessoas, animais flutuavam e o chão era a coisa mais chata de se fazer. Os detalhes que faziam toda a diferença. Resistiu, engoliu a seco toda a cocaína que acelerava o ritmo daquelas crianças malditas. Foi esquecido no dia da festa pelo próprio par, dançou com um pedaço de madeira e não viu seu pai na platéia. Cresceu sozinho, dentro de uma casa com 3 pessoas. Foram nestes anos que atingi a plenitude do Zero.
O universo foi criados por nós, Deus foi criado por nós, o amor, o ódio. Nós somos tudo. E por este simples motivo, não suportamos nós dentro de nós mesmos. Criamos regras e censuras para que o espírito de fogo não consuma toda a droga de razão que achamos ter. Se nos demos o direito de viver, se criamos o nosso criador, nada mais justo do que preparamos também nossa própria morte. A única espécie suicida do mundo apenas cumpre aquilo que se propôs a fazer. E você não precisa entender um final que já foi escrito antes mesmo do início. Talvez, a chave seja se permitir mais.
Enfim, foda-se.
terça-feira, 27 de julho de 2010
Who's Veny?
Noite agradável, uma boa dose de vodka pura, apenas um cubo de gelo. Hoje vejo que a melhor coisa que fiz foi escolher uma janela bem grande para a sala. Vejo a Lua nua, completa, e as estrelas tentam driblar a fumaça cinza da cidade. é uma batalha justa. Depois de um dia cansativo tudo o que mais quero é poder saborear a noite.
Na cozinha, muita coisa para ser lavada. Resolvi que me daria um jantar de classe. Fiz as coisas que mais gosto e comprei outras que não sabia preparar. Um dos maiores prazeres da vida é comer. As pessoas evitam isso simplesmente porque não sabem aproveitar o momento, comem feito criaturas doentes. Trilha sonora: Jill Scott. Perfeita. Foi então que o destino me pegou assim que a música You Got Me começou a tocar. O tempo ficou lento, de repente o som foi diminuindo e eu não conseguia me mexer. Perdi a noção de espaço. Acho que neste momento ganhei uma percepção ampliada que me fez ter a noção do que não tem explicação.
..............>
Corre, existe um exército atrás de você. Eu me vejo dividido, me alerto, me salvo, me resguardo e participo da corrida psicótica por um segundo de respiração profunda. As ruas se tornam verdes e as casas estão pegando fogo. Olho para as janelas e percebo que são todas pequenas, sufocantes. A voz está distante, mas ainda assim me guia. Perco meus sapatos e isso me desespera. Vejo vagões de trem despencando de pontes. Tudo completamente vazio de gente, só existem pessoas correndo atrás de mim, de você.
Quando as pernas já não respondem mais, eu paro com a corrida. Tapo os ouvidos e grito com toda a força. Todo o cenário começa a mudar e as pessoas tornam-se falcões. Sobem imediatamente para o céu roxo e lá ficam me observando, esperando que o sangue dos meus joelhos criasse um rio onde matariam a sede. Foi então que deixei a minha mente recriar o ambiente. Casas de madeira, flechas nas árvores, rios prateados, muitas árvores, uma estátua gigante, cega e sem um dos braços. Uma fúria crescia dentro do meu peito, e então o céu que era roxo transformou-se em uma massa densa e cinza. Os falcões morriam a cada raio lançado sobre suas asas. Todos no chão, se uniram e formaram Ícaro. Velho, acabado, com asas postiças, implorando pelo meu perdão. Queimei-o vivo.
Todos me temiam, eu criava e recriava. Ninguém mais me perseguia, ninguém mais olhava diretamente nos meus olhos. Acabava de ser nomeado Rei do Caos. Construí um castelo com os ossos de Ícaro. Sentei em meu trono e tirei das cinzas a matéria prima para criar meus filhos. Nasceram sem olhos, sem ouvidos, sem dentes, com os cotovelos invertidos. Eu odiava a beleza, ela me excluiu uma vez, hoje sou eu que a excluo.
No segundo dia, destruí todas as criaturas. As sementes que plantei não cresciam. Puxei para fora do meu braço uma de minhas veias, esperando coletar meu sangue e dali me duplicar. Mas só consegui areia. Eu estava cheio de areia e no lugar do coração crescia um cactos. Eu podia tudo, mover montanhas, secar rios, inverter céu e mar. E nada conseguia matar minha insatisfação. Cansado de tudo aquilo, eu criei a melhor das minhas invenções: A morte. E para arcar com a responsabilidade de me guiar pelo desconhecido criei Deus. Tirei o peso das minhas costas. Ele me pegou nos braços e me apagou, fez de mim sua consciência censurada e perigosa. Tornou-se perfeito no exato momento em que transferiu minha existência para o vácuo do universo, me condenando a permanecer em constante expansão. Jamais caberei dentro de mim mesmo.
.............................>
Passaram-se 5 horas. O relógio havia despertado e no momento em que cai ainda tocava You Got Me. Voltei para a janela e olhei para a Lua que já despedia. Pela primeira vez, prestei atenção no espaço e seu vazio infinito. Fui dormir.
Na cozinha, muita coisa para ser lavada. Resolvi que me daria um jantar de classe. Fiz as coisas que mais gosto e comprei outras que não sabia preparar. Um dos maiores prazeres da vida é comer. As pessoas evitam isso simplesmente porque não sabem aproveitar o momento, comem feito criaturas doentes. Trilha sonora: Jill Scott. Perfeita. Foi então que o destino me pegou assim que a música You Got Me começou a tocar. O tempo ficou lento, de repente o som foi diminuindo e eu não conseguia me mexer. Perdi a noção de espaço. Acho que neste momento ganhei uma percepção ampliada que me fez ter a noção do que não tem explicação.
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Corre, existe um exército atrás de você. Eu me vejo dividido, me alerto, me salvo, me resguardo e participo da corrida psicótica por um segundo de respiração profunda. As ruas se tornam verdes e as casas estão pegando fogo. Olho para as janelas e percebo que são todas pequenas, sufocantes. A voz está distante, mas ainda assim me guia. Perco meus sapatos e isso me desespera. Vejo vagões de trem despencando de pontes. Tudo completamente vazio de gente, só existem pessoas correndo atrás de mim, de você.
Quando as pernas já não respondem mais, eu paro com a corrida. Tapo os ouvidos e grito com toda a força. Todo o cenário começa a mudar e as pessoas tornam-se falcões. Sobem imediatamente para o céu roxo e lá ficam me observando, esperando que o sangue dos meus joelhos criasse um rio onde matariam a sede. Foi então que deixei a minha mente recriar o ambiente. Casas de madeira, flechas nas árvores, rios prateados, muitas árvores, uma estátua gigante, cega e sem um dos braços. Uma fúria crescia dentro do meu peito, e então o céu que era roxo transformou-se em uma massa densa e cinza. Os falcões morriam a cada raio lançado sobre suas asas. Todos no chão, se uniram e formaram Ícaro. Velho, acabado, com asas postiças, implorando pelo meu perdão. Queimei-o vivo.
Todos me temiam, eu criava e recriava. Ninguém mais me perseguia, ninguém mais olhava diretamente nos meus olhos. Acabava de ser nomeado Rei do Caos. Construí um castelo com os ossos de Ícaro. Sentei em meu trono e tirei das cinzas a matéria prima para criar meus filhos. Nasceram sem olhos, sem ouvidos, sem dentes, com os cotovelos invertidos. Eu odiava a beleza, ela me excluiu uma vez, hoje sou eu que a excluo.
No segundo dia, destruí todas as criaturas. As sementes que plantei não cresciam. Puxei para fora do meu braço uma de minhas veias, esperando coletar meu sangue e dali me duplicar. Mas só consegui areia. Eu estava cheio de areia e no lugar do coração crescia um cactos. Eu podia tudo, mover montanhas, secar rios, inverter céu e mar. E nada conseguia matar minha insatisfação. Cansado de tudo aquilo, eu criei a melhor das minhas invenções: A morte. E para arcar com a responsabilidade de me guiar pelo desconhecido criei Deus. Tirei o peso das minhas costas. Ele me pegou nos braços e me apagou, fez de mim sua consciência censurada e perigosa. Tornou-se perfeito no exato momento em que transferiu minha existência para o vácuo do universo, me condenando a permanecer em constante expansão. Jamais caberei dentro de mim mesmo.
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Passaram-se 5 horas. O relógio havia despertado e no momento em que cai ainda tocava You Got Me. Voltei para a janela e olhei para a Lua que já despedia. Pela primeira vez, prestei atenção no espaço e seu vazio infinito. Fui dormir.
terça-feira, 20 de julho de 2010
Interesse desproposital
Simplesmente sonhei com os olhos verdes e assim as coisas ficaram. No fundo eu já nem busco mais explicação/solução para as vontades que me surgem subitamente. Faz um bom tempo desde a última vez que estive por aqui. Optei por refletir um pouco mais, tentar compreender coisas que já foram compreendidas. No fundo, era a tentativa de criar uma "releitura" do que me foi apresentado como "verdade".
Muitos filmes, muita música, bebida suficiente pra não me deixar impaciente. Inconstante durante as obrigações e rotina, permanente quanto ao que é invisível e incontrolável. Talvez esteja me referindo ao destino. Mesmo sem acreditar muito nele eu o respeito, não por medo de suas decisões, mas por admiração. Admiro a capacidade que ele tem de me contrariar, e dias depois mostrar que eu estava realmente me enganando, não sendo enganado. Complexo, tenso, irritante...
Cansei de ficar sozinho. Mas tenho preguiça de procurar. Bastava seus olhos verdes saírem do sonho e virem aqui me buscar. Simples, não?
( x ) Sim ( x ) Não ( x ) ...
Muitos filmes, muita música, bebida suficiente pra não me deixar impaciente. Inconstante durante as obrigações e rotina, permanente quanto ao que é invisível e incontrolável. Talvez esteja me referindo ao destino. Mesmo sem acreditar muito nele eu o respeito, não por medo de suas decisões, mas por admiração. Admiro a capacidade que ele tem de me contrariar, e dias depois mostrar que eu estava realmente me enganando, não sendo enganado. Complexo, tenso, irritante...
Cansei de ficar sozinho. Mas tenho preguiça de procurar. Bastava seus olhos verdes saírem do sonho e virem aqui me buscar. Simples, não?
( x ) Sim ( x ) Não ( x ) ...
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Parte de mim corre para qualquer direção.
Estava concentrado nos meus livros. O terceiro cigarro já é tão familiar que parece durar muito mais tempo que os anteriores. Depois de tanto tempo esperando você aparecer resolvi deixar as lembranças para trás, desviando o pensamento para outra direção que não aquela que me levava direto aos seus olhos.
Tinha começado a escrever um conto. Era uma das formas que encontrei para descarregar a angústia ou culpar alguém pela sua ausência. Na verdade, eu sabia que a culpa era minha também. Os últimos meses serviram para que eu ocupasse toda a minha agenda. Coisa que eu odiava fazer. Mas parece que esta era a única forma de levantar todos os dias mesmo que estes já não tivessem cor alguma. Era sobreviver a mais um dia comum, estúpido repleto de pessoas que me atormentavam justamente por tentar me ajudar. Ajuda essa que eu nunca pedi. O mundo custa a entender que nem todos querem ser salvos, nem todos querem superar. Existem histórias que acabam mal, e deixam uma tristeza crônica somente pelo fato de que o final é como é. Nem todos os contos acabam em felicidade. Talvez nem tenha percebido quantos olhares e sorrisos recebi. Estava vazio.
Confesso que o meu lado criativo se sentiu muito contente com tudo isso. Eu criava na compulsão, não via mais arte, não via mais estética ou aura. Criava apenas para evitar me destruir. A vodka já não era mais tão relaxante. Criar tinha se tornado a razão de viver. Imagine, você ser feliz por longos anos e um dia a felicidade desaparece. E você tem que acordar para trabalhar, você tem que fazer tudo o que fazia, mas agora sem sentir vontade alguma. Você olha para o lado e vê casais felizes brigando, traindo uns aos outros, enquanto tudo o que mais desejava era ter de volta a outra metade do seu coração. Imagina, que droga deveria ser viver assim. Pois é.
Um dia, quando fui até a cozinha pegar mais café o telefone tocou. A voz demorou a responder, mas quando o timbre meio rouco tocou meus tímpanos não tive dúvida. Era você. Por te conhecer bem sei que não ia dizer o que estava acontecendo logo de primeira. Então, resolvi jogar qualquer assunto idiota para dar espaço a sua pessoa. Pois bem, quando percebi já estávamos falando de suas angustias, de suas decepções com o mundo. Adorei ouvir você admitir que eu "tinha razão", mas nem por isso me senti vitorioso. Não, a minha vitória foi não ter tirado de você o direito de errar, se decepcionar e se levantar com as próprias pernas. Nunca estivesse ao seu lado para viver sua vida como vivi a minha. Estava do seu lado para garantir que você não ia correr e se esconder. Apenas isso, mais nada. Ah, também estava lá porque te amo, e acima de qualquer outra coisa, te admiro.
Tem coisas que são simples, outras que são complexas mas breves. Algumas vezes não queremos parecer sentimentais ou admitir que o calor da paixão nos pegou. Mas no fundo, nunca tivemos dúvida daquilo que buscávamos, mesmo que não houvesse nomes ou cartões de Dia dos Namorados.
Não larguei os livros nem os cigarros e muito menos os filmes por sua causa. Não parei a minha vida ou deixei de criar dentro do meu mundo que se auto consome. Apenas deixei que você sentasse ao meu lado novamente, me abraçasse e desse cor às pinturas que fiz desde então.
Tinha começado a escrever um conto. Era uma das formas que encontrei para descarregar a angústia ou culpar alguém pela sua ausência. Na verdade, eu sabia que a culpa era minha também. Os últimos meses serviram para que eu ocupasse toda a minha agenda. Coisa que eu odiava fazer. Mas parece que esta era a única forma de levantar todos os dias mesmo que estes já não tivessem cor alguma. Era sobreviver a mais um dia comum, estúpido repleto de pessoas que me atormentavam justamente por tentar me ajudar. Ajuda essa que eu nunca pedi. O mundo custa a entender que nem todos querem ser salvos, nem todos querem superar. Existem histórias que acabam mal, e deixam uma tristeza crônica somente pelo fato de que o final é como é. Nem todos os contos acabam em felicidade. Talvez nem tenha percebido quantos olhares e sorrisos recebi. Estava vazio.
Confesso que o meu lado criativo se sentiu muito contente com tudo isso. Eu criava na compulsão, não via mais arte, não via mais estética ou aura. Criava apenas para evitar me destruir. A vodka já não era mais tão relaxante. Criar tinha se tornado a razão de viver. Imagine, você ser feliz por longos anos e um dia a felicidade desaparece. E você tem que acordar para trabalhar, você tem que fazer tudo o que fazia, mas agora sem sentir vontade alguma. Você olha para o lado e vê casais felizes brigando, traindo uns aos outros, enquanto tudo o que mais desejava era ter de volta a outra metade do seu coração. Imagina, que droga deveria ser viver assim. Pois é.
Um dia, quando fui até a cozinha pegar mais café o telefone tocou. A voz demorou a responder, mas quando o timbre meio rouco tocou meus tímpanos não tive dúvida. Era você. Por te conhecer bem sei que não ia dizer o que estava acontecendo logo de primeira. Então, resolvi jogar qualquer assunto idiota para dar espaço a sua pessoa. Pois bem, quando percebi já estávamos falando de suas angustias, de suas decepções com o mundo. Adorei ouvir você admitir que eu "tinha razão", mas nem por isso me senti vitorioso. Não, a minha vitória foi não ter tirado de você o direito de errar, se decepcionar e se levantar com as próprias pernas. Nunca estivesse ao seu lado para viver sua vida como vivi a minha. Estava do seu lado para garantir que você não ia correr e se esconder. Apenas isso, mais nada. Ah, também estava lá porque te amo, e acima de qualquer outra coisa, te admiro.
Tem coisas que são simples, outras que são complexas mas breves. Algumas vezes não queremos parecer sentimentais ou admitir que o calor da paixão nos pegou. Mas no fundo, nunca tivemos dúvida daquilo que buscávamos, mesmo que não houvesse nomes ou cartões de Dia dos Namorados.
Não larguei os livros nem os cigarros e muito menos os filmes por sua causa. Não parei a minha vida ou deixei de criar dentro do meu mundo que se auto consome. Apenas deixei que você sentasse ao meu lado novamente, me abraçasse e desse cor às pinturas que fiz desde então.
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