Calor,
pouca roupa, uma regata, um shortinho, pés descalços. Tudo em tons amarelos,
azuis e verdes. Aqui é assim, a vida no calor perfuma feito azeite na
brasa, escorre lenta como gota de suor e se acaba num mar de lágrimas, de onde vem o sal da terra.
Sobe a
maré, desce o luar sob as ondas, quente, tudo, sola, areia, coqueiro queimado,
cerveja —sol líquido, um copo suado, um corpo ao lado, querendo-se,
sentindo seu peso, pena ou pesado, vai bater asas de qualquer jeito quando
sobrevoar as ideais do outro, os desejos dos outros, igual carcara
faminto.
Quem se quer no verão nunca mata a sede. Continua bebendo de todas as
fontes, ri e dança, a música ganha outro tom, uma época diferente, mais livre,
pelando à flor da pele e no cabelo fazendo arranjo.
É assim quando se olha pra
ela, com os olhos de oliva, com os fios relampejando no mangue dos pelos cujo
douro vem do fogo no topo do céu, a amolecer moleiras. Um cheiro de fruta no
rosto, a boca ainda melada, os dedos brilhando e quando toca, gruda. Aí a gente
não se larga mais.
Precisa rodar, ficar tonto, amortecer os lábios e se sentir dono do mundo.
Por alguns segundos, o delírio saboroso da caminhada pelo deserto sem oásis. A
corrida pelo sertão seco, montado nas carcaças amanhecidas.
Café quente na
mesa, língua mergulhada no amargor perfeito do bom dia sem resposta. Não existe
previsão do tempo. É sempre hora. É sempre calor. É sempre muito. É todo muito, sempre hora.
Se a pele está boa, o coração e tudo de dentro também está. Se o cheiro é de gente, sinal de saúde. Se arrepia, não é de frio, é
de vontade daquelas que torra. Abana, sopra, só aumenta a brasa.
Não tem idade sob o sol. É todo mundo mole de tão maduro.
sexta-feira, 22 de setembro de 2023
Maduro mole
quarta-feira, 5 de abril de 2023
Será que ainda?
Foram as poucas verdades que trocamos capazes de colocar sua presença como o teto das minhas ideias, para onde olho antes de dormir e tento imaginar a quantos anos luz estão os meus quereres dos seus. De longe, sinto sua falta, mas nego. Antes, queria saber se você sente a minha.
O silêncio que nos define, hoje, marca também uma insegurança compartilhada. Tento eu tratá-la como orgulho, como vingança, qualquer outro sentimento que não me coloque de joelhos, novamente, diante da vontade de te ver, conversar contigo, sentir seu cheiro quase indetectável, ouvir a voz suave e cansada de quem, no fundo, gostaria de ter vivido o pleno pico da sua energia vital.
Eu queria conversar e não consigo porque me limito à pequenez do que me resta de brio. Assim os meses se vão. No lugar, um branco absoluto que nada marca para a memória do amanhã. Nós dois estamos escrevendo o tempo perdido e dele só recordaremos, talvez, da vontade oculta de se encontrar mais uma vez.
Falo por mim e por você porque ainda te sinto. Não vir atrás de mim, ficar aí no seu canto, com sua vida, interagindo com outras pessoas como se tudo o que passamos não fosse nada além de uma época fadada a crescer e se tornar chata, entristece-me. É uma tristeza diferente, porque identifico nela a mim mesmo.
Marca-me a pele do espírito como se desse a ele corpo. A tristeza diferente que dói, mas não indigna. Diferente porque é conhecida e atende pelo meu nome, mas estranha quando conto sobre o que machuca. Parece que nunca me viu e desaparece quando eu a vejo. Diferente porque é paradoxal, trata o mais do mesmo como nunca visto antes. Quando escrevo sobre ela, sou descrito.
Tentar definir o amor é fuga para não lidar com a falta de certeza que ele essencialmente carrega. Se ama, treme. Perde base, vive em risco. E eu não sei se amo como tratam por amor as letras das músicas que gosto de ouvir quando estou triste. Defino que é amor porque assim fica mais fácil sofrer. Fica mais comum, diferente da tristeza – aquela estranha.
Diga se ainda pensa em mim, mas não para mim. Diga a você mesmo. Façamos diferente desta última vez.
sexta-feira, 17 de março de 2023
Fruta
O descalço da terra sob os pés amacia a passada. Gira, gira,
cai no calor do entardecer, suado rodopiante, sozinho. Escorrega bastante,
entregue ao tombo, ainda quente, como se tivesse acabado de nascer. Cai de
maduro com mel na casca escorrendo devagar, suando os olhos dos outros, colando
de leve na pele de quem por ele passar. O perfume de fruta, o olhar de fruta, o
peso de fruta, sabor de ninguém. Só dele, só ele se sabe.
Não é festa, é agonia. Queima por dentro e por fora num azeite-desejo sem fim
–cheirando a cara toda. O vizinho olha pela fresta da janela e se arrepia. Sua
boca abre até a goela fazer bico. Nada sai, nada entra, fica lá olhando o outro
semeando.
Queria um dia pegar um vagalume com as mãos e manter sua luz
acesa dentro da mais profunda penumbra. Desejo de criança e de adulto, de velho
também, esse de manter alguma luz. Nada do calor passar, nem a noite esfria. Pra
dormir é mais de um banho. Tem que toda hora se molhar. A pele tá boa, forte,
aprendeu a lidar com o olho do sol. Não descasa, só muda de pele quando precisa
sumir.
A casa é pequena, de longe não dá pra ver. Está rodeada de
bananeiras, uma cerca de madeira capengando no arame banguela, uma mexeriqueira
seca, o que mais couber na vista de desocupado. Ascende a luz alaranjada pra
não esbarrar nas coisas que nem tem. Toma cuidado porque não há mais do que
cuidar. O que cuidar. O dia passa junto da noite, começam e encerram juntos.
Ele fica ali, na sua vida medíocre, achando que o mundo já é grande demais para
ele alargar com suas ideias.
sexta-feira, 3 de março de 2023
Mas só
Você é incisivo. Perfura com o olhar afiado e fatia minha alma sem deixar que sangre. Quando falo contigo, percebo o quanto me observa com interesse - e isso me interessa. Às vezes é duro nas palavras, mas compensa quando decide ser doce, carinhoso. Eu me sinto livre contigo, porque sei que podemos dançar de qualquer jeito, sem se importar com os demais. Você não liga para meu jeito desleixado, nem reclama do fato de eu não usar desodorante. Sei que te incomoda, mas você não reclama. Prefere me observar e colher nos detalhes das minhas tantas falas uma brecha para demonstrar seu amor. Acabei percebendo tarde demais. Quando eu te quis, você já não me olhava.
Eu insisti em nós. A gente nunca chegou a se beijar ou algo do tipo, mas estávamos sempre juntos e para mim era como se fosse um relacionamento a dois. Amizade, no caso, mas eu sentia que de você fluía outro tipo de sentimento. Você nunca tentou nada, mas foi justamente seu recuo, seu silêncio, que sempre me disse tanto. Eu sentia seu calor enquanto o meu tocava a sua pele poucos centímetros de distância entre meu pegar e seu pescoço. Lembro dos cheiros, do tempo abafado, de tudo. Do céu frio à noite, de você me esperando e fingindo que não. Minha mão transpirava quando fazia algo que você pudesse recriminar. Perdi as contas de quantas vezes senti a dureza de suas palavras. Mágoa, sim, só que não era maior do que o prazer de te ter por perto. Perto não, em mim, ainda que sem contato direto. Você, na verdade, sempre me tocou onde ninguém mais chegou a tocar.
Só.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023
Uma vela para a indiferença
As mais sinceras desculpas. Uso-as porque poupa da discussão inútil. Recentemente, senti falta de romper com alguém que amo até doer. Toda aquela faze de angústia que destrói a saúde me faz perder os quilos que não tenho e me sentir morto. Um amargo que não tem gosto. A boca até procura, a língua tenta se lamber, mas nada. Tem a raiva na saliva que espuma, sim, a vontade de ver o outro sofrer ao ter que lidar com sua própria falta de caráter - ou simplesmente falta que faz em mim.
O que sei é que assim vão. Dias, meses, espelho sem meu reflexo, porque não consigo me olhar quando estou desse jeito, em trabalho de parto daqui para nunca mais voltar. Retiro os rastros, passo um pano molhado nos passos dados sobre minha memória vingativa e não quero lembrar o caminho. No fundo, se passa este ciclo de tempestades, eu sei que vou admitir tranquilamente que tudo aconteceu porque eu, ainda hoje, amanhã sempre, tenho dificuldade em acreditar que as pessoas são capazes de permanecer. Não são.
Começa como um fio. Estala a espinha e arrepia a pele. O olhar congela porque não quer perder mais de vista. E tudo o que ele faz parece interessante, principalmente o que não é. Entra nas suas ideias e não se incomoda com a desordem delas. Vai ficando, quando viu já fez um mês, um ano, seis, passaram-se dez e ainda estamos aqui, eu escrevendo e ele nem sabendo. Enrola há tanto tempo que já tenho uma malha de lembranças de molho.
Se existe alguém para quem eu tenha rezado mais nessa vida foi para a indiferença. Não há salvadora maior. Todos os dias eu peço para que se instale em mim. Todos os dias eu peço para sentir menos, para fazer jus ao meu jeito fechado que não compartilha quase nada daquilo que se cria pelos meus cantos. Se é por fora indiferente ao mundo, por dentro por que não? É como se tivesse algo ou alguém que simplesmente se recusasse a me deixar ser tão miserável quanto a vida leva a ser por meio das convenções sociais todas que impõe. Parece que há uma criança que não me deixa esquecer daquilo que impede a indiferença de entrar. Então esqueço eu dela. Fecho as janelas.
Por favor, seque-me. Não deixe nada. Eu prometo que te vendo minha alma se isso existir mesmo. Só leve tudo, ele por completo, e os que virão também. Deixe-me preparado sempre para o pior, faça-me nem duro nem mole, faça-me intocável, alguém que passa, que todo mundo passa e nem percebe. Alguém que já vem para ir, chega para partir, alguém que passa. Por favor, não quero ficar, não quero mais toque e apego, não quero acordar na casa dos outros e voltar para a minha sozinho, todas as vezes, não quero ficar por ficar, isso nunca me fez bem, sempre me tirou do sossego que eu mantenho ao fingir ter controle sobre os caminhos da vida que quebram minhas esquinas. É só tudo isso que te peço, faz-me como você, assim, apática, de pé, inabalável, nêmese inexpressiva. Amanhã eu quero acordar como por vezes já me senti: vazio, comigo mesmo.
Se hoje eu acender uma vela, algo que não faço, será para a indiferença.
Criança quieta
Com as mãos pequenas e egoístas, querendo tudo ao seu alcance, esmagou o mundo. Não sobrou nada, nem ninguém. Só sangue e pedaços de gente de ontem, passada, gente que não mais faria visita. Criança tem desculpa, pra tudo, pode tudo, porque não sabe ainda do tamanho que é o nada do futuro adulto. Criança pode, por isso nunca morre, fica dentro da gente - a que mata e não que morre, por décadas, até se cansar. Criança pode, com as mãos, esmagar o mundo.
Não precisa gritar. Não faz birra. É criança das quietas, aquelas vistas como piores, ruins desde sempre, que vão, fazem e não deixam rastro. Nem as manchas nas palmas conferem culpa. Assim, como quem não quer nada, faz porque é criança. Porque pode. Sabe que será guardada e protegido no melhor lugar dentro da gente. Na morada do egoísmo que sempre quer, faz e não leva culpa.
Quando penso na criança, vejo ela num quarto amadeirado, com uma janela de altura mediana, da qual se pode ver o mundo do pescoço, pendurado, prestes a se enforcar. Não precisa ficar na ponta dos pés, é uma visão confortável. Neste pequeno espaço, uma cama com cobertor de céu estrelado. Para a criança do meu quarto, morrer é se cobrir com o céu e dormir, enquanto flutua a cama para onde não sabemos. Esta criança precisa deste quarto. Um precisa do outro e eu dos dois, em mim, igual gente besta que sozinha não consegue ir além do que limita a camada da pele, a de baixo, não a que pela. A que sangra.
Quieta, não precisa de mãe ali pra lhe mandar calar. Ela é naturalmente quieta. Nasceu sem choro, sufocada pela vida prematuramente custosa. Quando voltou à vida, antes mesmo de ter chagado nela, também não chorou. Chorou pouco essa criança, mas quando chorava, o mundo implorava para ser esmagado por ela. Tão boa, tão solícita, criança pura, daquelas que acredita porque não vê na mentira cor alguma. Acredita em tudo porque a cor é de verdade, verde, azul, vermelha, mas principalmente azul, às vezes a verdade é amarela feito sorriso da gente toda que merece ser esmagada. Nada pior do que ver o mar nos olhos daquela criança rebentando ondas pra fora dos cílios, correndo pelo rosto. Pior ainda era ser a causa de seu silêncio. Pois da sua boca só saía aquela doce palavra de carinho genuíno. O mundo ia dormir torcendo para não acordar.
Doeu cedo. Sem entender, a criança foi. Acreditou. Sem saber, confiou. Sem saber, soube depois. A inocência é, antes de tudo, um escudo. Uma malha de aço impenetrável, mas com aparência de vidro. Vê-se através dela o que a criança não sabe esconder - porque nunca precisou. Sua fé nos outros e de que os outros ali estão para lhe proteger. Fé e transparência, é disso que são feitas as crianças caladas demais. As mais fáceis de serem esmagadas por gente.
Esta, em especial, vive no quarto, protegida do afora. Sente falta de ter com quem conversar, mas às vezes eu consigo ter um tempo para ir visitá-la. Conta-me dos seus pensamentos, de como organizou as constelações todas por tamanho, de como as manchas no universo são tão coloridas, que ali há verdade pura e transparente, que o universo é independentemente da gente. E ele se finda também independentemente da gente. A criança observa tudo isso e suas mãos já pouco importam. Sangue não é sujeira. Sangue é gente pra escorrer. Esmagou todas elas antes que elas mesmas se esmagassem e, antes, fizessem da criança um mundo todo para explorar. Gente não esmaga criança porque prefere destruí-la ao longo da vida. Cabe a nós protegê-las no mais seguro de todos os lugares: aquele que não contamos o endereço.
Dentro, bem nos confins de quem já não suporta mais ter que viver do outro lado da janela média, a criança redesenha o tempo e se conta de traz para frente. Esperando que, finalmente, o dia do seu não nascimento seja parido. Quem sabe assim a gente deixa a criança em paz.
Hoje, ela só quer ficar quieta.
sexta-feira, 16 de dezembro de 2022
Fundo dos olhos
Antes de estilhaçar seu crânio, a explosão havia esfarelado outras montanhas. Corria lenta, de longe, enquanto nas beiras da completa destruição sequer deixava um segundo para se tentar fugir, esconder, viver. Como não dizer que estava viva a obliteração completa da vida? Chamá-la de morte, então? De fim? Como, se havia apenas começado a alguns instantes? Fotografava em sua última memória - ou talvez a primeira próxima - algo que, de fato, ninguém veria.
Não era apenas fogo alaranjado como o de forja. Misturava-se também com terra escura. Comparou com as vezes em que usou os próprios dedos para fazer caminhos no barro, intervindo na paisagem natural. Comparou com vulcões sangrando também. Enquanto se expandia a devora do tudo, percebia que a morte era menos assustadora do que a vida contou. O que mais se sobressaía à sua chegada era uma profunda curiosidade. Magnetizava-o. Puxava-o para o não saber, por querer saber. Morte que chama.
De repente, chuva quente. Um vento de despedida que rodava feito abraço da partida. Sopro no rosto acalma. Inevitavelmente, tudo remetia ao adeus. Talvez por conveniência, mas ele não se importava. Estático, apenas aguardava o momento em que seria engolido pelas fúrias da terra vivida. Nada poderia paralisá-lo mais do que o desprendimento absoluto de uma história a qual foi obrigado a escrever. Mesmo sem saber, preferia acreditar que depois de alguns minutos, passados, lembranças, nomes, antigas dores, os desejos não vividos, tudo isso nada seria além de um eterno presente engasgado na garganta do vácuo existencial. Não haveria mais ele para dar ao pó memórias. Seria apenas pó, sem ida nem volta. Sem móvel, estante ou cômoda.
O calor deitou sobre sua pele. Olhos viraram duas supernovas e o branco absoluto prevaleceu. Conseguiu seu objetivo. O branco foi o último a ser visto. Do outro lado, observou ele se render ao seu constante desejo de aniquilação. O branco absoluto conseguiu.
A pequena esfera, há alguns metros de distância, correu mais do que o tempo e foi crescendo conforme se achegava no alvo. Ele percebeu que a rigidez do ferro sumira e em líquida partícula transmutava-se a devastação. Ali, precedia o olho o olhar, parecia o de um bicho dos que era caçado, não dos que caçava. Olhar de presa, de abate, do tipo que é grande, negro, profundo, inocente e em constante pedido de misericórdia. Quem destruiria a quem, no final do estouro? Negro, profundo e destruído.
Explodiu seu rosto.
quarta-feira, 16 de novembro de 2022
Alguém o tempo todo
Escrevi umas três cartas porque sabia que não seriam entregues. Desde a adolescência faço isso. Escrevo para que não seja lido por mais ninguém além de mim. Nada de novo ou extraordinário. São apenas as limitações do ser.
Nestas escritas, consigo formular a descrição dos sentimentos mais turbulentos que carrego. Tento, ao menos, ler-me para crer que ainda estou ali. Mesmo com toda a angústia que me desmotiva, estou ali, talvez registrando pela última vez o quanto dói. Recentemente, grafei aqui que escrever é algo característico de pessoas doloridas. Se repito é porque acredito.
Há dor de diversas formas. As que ardem de tanto aproveitarmos bons momentos cuja conta chega depois. O corpo cobra - e por corpo eu me refiro a tudo, carne, osso, sangue, pelos, mente, imaginário, ansiedade, melancolia, desejo, suor, feromônio, vontade de fumar. Aqui me dói quase tudo. Parece, ao meu ver e sentir, que se tornou meu eu o da dor tal qual fosse, assim, seu habitat natural. De certo, quando me pego volta e meia ligado por completo à realidade, sinto um incômodo que rasga a garganta e pressiona o peito, ajoelha os joelhos e me obriga a deitar. Em queda lenta, recolho-me rápido como roupa no varal. Também escrevi isso recentemente, repito porque acredito na velocidade com a qual me retiro daqui, daí, dele, dela, do corpo todo. Quando escrevo "aqui me dói quase tudo", cito quase porque, na verdade, falta-me a dor por fumar e provocar meus calos vocálicos. Dói não doer por isso, confesso.
Admito, nesta toada, que assim, enquanto doer, sinto-me menos distraído. Há um ponto de concentração - ou pontos. Mais jovem, costumava ficar trancado em meu quarto escrevendo por horas enquanto ouvia a tempestade fazer seu espetáculo janela afora. Quando ela retumbava em trovão, eu terminava um parágrafo respirando sutilmente, quase que sem ar para puxar. A pressão caía porque - a ciência explica, mas eu, aqui, faço do meu jeito - o coração parecia achar que era sua hora de descansar. Por que doía tanto? Acabei de me perguntar isso enquanto terminava a frase anterior. Talvez por não ter algo ou por terem tirado de mim o pouco que tive. Quase todo mundo me levou algo. Escrevo "quase" porque houve aqueles que apenas deixaram dor. Um novo hábito para que meu corpo vestisse e se acostumasse.
Sumo, mudo, quero, porém não consigo conversar. Espero que conversem comigo mesmo eu não respondendo. Que me busquem, que me irritem por insistir em falar com alguém que, evidentemente, não está em bons tempos mercurianos para vigorar comunicação. Dói não responder, também dói não ser perguntado. Escrever é a prova disso.
Nas épocas em que rio demais, também há dor. Se sentir feliz demais, completo, amado, querido, respeitado, visto, admirado, útil, dói. Dói porque acaba no próximo amanhecer. No exato instante em que se olha para o lado e não se sente mais paralelo às alegrias frívolas da vida que não é a concreta, apenas a ideal. Crescer dói, nascer dói, ficar dói, partir também, parir dói tanto quanto partir, é chegar e saber que se deve sair, é amanhecer porque o anoitecer precisa acontecer. A dor é o tempo. O tempo todo.
Aqui, onde não me encontro, despenco frases e mais frases que só fazem sentido para este meu jeito de ser que se empurra pelos anos, fingindo que aqui segue porque tem de atender às demandas de pessoas que precisam das minhas capacidades. Já estou morto, só falta morrerem antes de mim. Enquanto estão vivas as pessoas da minha vida, doo-me por elas. Por mim. Minto quando digo que é por elas. Menti também ao escrever que o texto anterior, aqui publicado, seria o último do ano. Geralmente, quando preciso mentir, faço enquanto digo, não enquanto escrevo. Aqui não tem outra saída senão a da verdade. A que angustia.
Doo-me de dor, não de doar. Raramente compartilho-me. Doo-me por tê-las amado, as pessoas todas. Vivo apenas pelo medo, simples medo, de não me doer mais. E nada sentir além do grande vazio que sempre me habitou, em tempos ancestrais ao da dor.
Cada carta que não entrego, mas escrevo, é uma dor que mantenho minha, para me manter meu. Por que me quero assim, tão próximo de mim? Porque quando me repito, é sinal de que ainda acredito no que sou.
Alguém com suas limitações. Alguém que sabe ser. Sabe se doer, mas não se doar.
Alguém o tempo todo.
quarta-feira, 9 de novembro de 2022
Dolorida
Na minha pequenez, eu me encantei por seu sorriso largo que fazia linha-fina para os olhos atentos, curiosos, em busca de alguma novidade. Eu me libertava quando imaginava que ela me via dançar. Seu jeito de conduzir os versos enfeitiçava o corpo todo. Não havia julgamentos, apenas liberdade. Dançava sem medo de ser visto, de ser estranho, de ser muito como ela: uma fruta de gogoia.
terça-feira, 8 de novembro de 2022
Todos vão embora na hora certa
Meia volta da partida. O chegar e se despedir. Começando a terminar. Um sistema imunológico de gramática reativa na qual não se faz nariz de cera nem flor à pele, tudo é pontual, conciso, marcado para já estampar o pano de fundo e proteger o cenário. Se veio é porque vai. Se apareceu é porque desaparecerá. Se acolheu, abandono é.
Bastou um silêncio.
Quando diziam "o tempo vai virar", era necessário conjunto de sinais. Cheiro de terra evaporando do chão seco suado de si, vento morno, vento frio, agitação das árvores, os bichos se recolhendo junto das roupas no varal, a gente esperando o que já sabia. Depois de muito barulho, o silêncio que precedia a tormenta. Só que era diferente de tudo o que já se podia ter sentido. O um silêncio que basta é aquele que não se deixa perceber porque de barulho não foi feito. Não teve que calar nada. O silêncio que basta é aquele que dá início ao silêncio que muito dirá. É um calado que fala demais.
A mente sonha com respostas. Ela sabe que o consciente precisa de um apoio qualquer. Reúne, então, em seu salão de festas e tragédias o antagonista. Caberá ao inconsciente rabiscar explicações tal qual se costura o discurso de um rei a beira da loucura. Tenta lhe passar racionalidade por meio das palavras, mas sabe que a própria ação de escrever para insanos é, também, atestado de insanidade. A quem se quer enganar? Ao louco que deveria ser são? Ou ao louco que acredita ser possível gozar de qualquer sanidade? E dá para gozar com sanidade? Loucura. Barulho. Sonho. Algumas respostas.
Veio, mas por que foi? Precisava mesmo? Sempre precisam. Há justificativa. Crianças são preparadas para o mundo. Aprendem desde cedo a lidar com diferentes faltas que irão lhes preencher. Uma delas é o abandono. Existem as que aprendem a manter as companhias sempre por perto. Outras conseguem ser autossuficientes e, por isso, atraem quem deseja se aquecer junto de calorosa confiança. Abandonar antes evita de ser abandonado, concluem aquelas que não se assemelhavam às mais sociáveis. No meio do jardim, um botão não abria nem fechava. Já tinha cor, mas escondia as pétalas. Estava no meio entre crescer e se manter muda. Bastou um silêncio. Há crianças que vivem as companhias, que se conectam, que sorriem, florescem, mesmo sabendo que tudo irá acabar em abandono. Seu pavor não vem do fim, mas de não aceitar que ele virá.
Quando se aproxima demais, sente o cheiro. E o cheiro sentido também sente quem o sentiu. Perfumam-se. Quando a essência é nova, marca mais. A todo segundo ela reaparece nas narinas e traz memória. Depois se torna banal, some, vira cotidiana. O cheiro sentido não desaparece, mas quem o sentiu sim.
Se vai, por que não foi logo? É confuso entender os ponteiros do relógio quando se é novo na arte das horas. Falam que passa rápido o tempo bom, demora o da ansiedade. Se ele faz tão bem, se com ele os segundos são, de fato, aqueles depois dele, como aproveitar o presente que, despido do embrulho, dá-se ao regalo do abandono? Foi um silêncio só que anunciou um adeus sabido. O medo é de não aceitá-lo. Por isso sonhamos.
Todos vão embora na hora certa.