segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Linha do tempo

Sente-se ao meu lado, em silêncio. Sinta o peso dos meus ombros. Saiba que são firmes, podem suportar o fardo que avoluma seu coração. Apenas se mantenha em silêncio e sinta, com eu sinto muito, minha presença. É exatamente assim que iremos compor o melhor dos nossos retratos. Ao meu lado, eu e você somos peso e silêncio, as excelências do amor, duas agulhas a costurar o que chamamos de intimidade.

Pelas sutis vias do tempo, pude aprender mais sobre as linhas todas que emaranham meu senso de mundo. Isso nunca foi segredo. Esta minha desconexão com o barulho lá fora não era por acaso. Nasci sem chorar, calado, como já havia lhe contado antes. Meu recado foi pontual: nada aqui me soa novo. Nada aqui me impressiona. Não me emociono porque esperam que eu me emocione. Não havia intimidade alguma nem mesmo com minha mãe. Fio por fio, embaraço por embaraço, aprendi a amar meus nós – seja lá o que amor signifique neste contexto. Talvez, respeito, cuidado, os dois, trançados. É uma relação muito próxima esta de, silenciosamente, tocar as linhas que desenham nossa cabeça, não? Os erros do passado roubaram as minhas, eu preciso confessar. Porém, quando sonho, as vejo novamente no devido lugar, volumosas e secas feito a poeira em minhas veias. Fio por fio, na cabeça.

O tempo e suas vias sutis... sim. Aquele firmamento de linhas, aquele chumaço que pesa e não faz barulho algum. Quando toquei suas raízes, buscava o fruto quente. Lá, acreditei que seria possível tecer a cesta pra sua abundância e deixar os caroços pra nossa terra fértil no fundo do quintal. De fato, encontrei.

Estamos juntos, envelhecendo juntos, aqui, sentados nesta sacada vendo a promessas do amanhã parecer previsível e desinteressante. Não se trata de beleza nesta constatação, nem romantismo, muito menos angústia ou desgosto. Odeio esta mania morna de precisar sentir tudo sob medida. Há espaço para este tipo de interpretação deste momento nosso, sentados um ao lado do outro? Aqui, não.

Estamos envelhecendo juntos e o tempo, vestido de ampulheta, esvazia a laje pra encher o chão. O que há são as linhas marcando nossas expressões todas e cada uma delas conta, secretamente para mim e para você, nossos momentos de intimidade. Momentos em que você se ateve a mim e eu me atei a você.

Por isso te peço, aqui, que fique em silêncio, ao meu lado, e sinta a presença de quem lhe é abrigo, onde as linhas jamais te prenderam, pelo contrário, ensinaram-lhe o caminho de volta - de volta para a intimidade, onde os ombros inabaláveis te aguardam.

Dentro de minha casa, as linhas do tempo formam um círculo, não uma reta. Você volta porque nós ficamos. 

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

É amor, o próprio

Este caminho desconhecido por onde passo tá me custando mais que saúde mental. É físico também, tipo aquele calor gelado, aquele suor que refresca o fogo sobre e sob a pele. Falei pra você dia desses aí que queria tudo, do começo ao fim, do brega ao sofisticado, do comum ao único. Direito meu, tá ligado? Nunca cheguei tão perto disso que geral sempre chamou de amor e agora que tô, dá licença aqui. Vem você, comigo de leve, mostra como que faz que eu faço, por nós dois, mas por mim, principalmente. Não é egoísmo, não, certo?

É amor, o próprio, o certo.

Aquele papo de se complementar, metade do outro, todo nosso, tudo nosso, um no outro, os dois ali, deitados, deixando o tempo livre pra passar... Aquele papo faz todo sentido memo, porque quando você vem de bicão, eu tô suavinho feito sopro no joelho ralado. Não achei que fosse assim, afinal, nunca fui de chaleirar ninguém, mas se eu te tratar como todo mundo, você não será o lugar onde quero ficar - só mais um pico pra colar, fazer a social, dar um salve e nunca mais responder os "e aí, vamo se reencontrar?"

Daí eu te trato de um jeito especial, pra você sempre ter vontade de voltar. Tiro aquele teco de papel, passo a língua de leve e deixo no rastro da saliva a letra pra tu retornar. Endereço é fita séria, porque traça o caminho até onde a gente chama de lar e guarda o doce lá, no pote onde tem que ficar na ponte dos pés pra pegar. Difícil, viu? Por isso que pra chegar tem que saber chegar. Então fica de vez, vai... meu eterno retorno.

Quando a conversa cai no mais do mesmo, eu troco o disco e te mando música nova. Tranquilo, ouço você reclamar de tudo, finjo que não tenho o que dizer pra te fazer enxergar que é tudo fase, que o vai e vem do destino só não é mais evidente que a vontade que eu tenho de beijar sua boca e esparramar os lábios pela cara toda enquanto você fica sem saber se desiste e deixa lambuzar ou insiste e continua a lamentar. Finjo, mas é sem maldade. No fundo, eu gosto de te ver desenrolar comigo sobre os problemas que te atormentam. É nessas horas que eu me sinto remédio, carinho, cuidado, solução pro dia de cão, aquele cafuné de virar as ideias feito lata.

Eu te quero bem, meu bem, mesmo quando tá ruim aí, e não forço a mudar o humor, não. Só te mostro que quando tudo melhorar, já sabe onde comemorar. Se ficar mais pesado, corre aqui e desaba. Pega nada, você já ficou caidinho por mim uma vez, agora é só fechar os olhos de mel que eu vou te segurar. Lá de cima a gente brilha mais forte e você fica tão bonito quando tá altinho, pique estelar. Boto fé que logo mais é a gente junto, dançando de testa colada, seguindo o ritmo um do outro, sem medo de se estatelar. 

"Quem diria, hein? Você tá mudado, hein? Ele mexeu contigo mesmo, hein? Tá pego, hein?

É aquele bonito que tava na foto com você?"

É quente, o próprio, o amor.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Odor

Você me usou. Negou por muito tempo, mas sabe, lá no fundo que me usou. Quando nos aproximamos, eu soprei meu desejo levemente para que não irritasse seu nariz, mas ainda assim se fizesse perceber o que queria. Você havia me farejado de longe, eu sei porque seus olhos me viram de longe, bem longe, num lugar onde meu cheiro nem sequer chegava. De lá, observou-me. Daí não teve mais jeito. Usou-me como fragrância nova que parece vestir a gente com um fino véu, daqueles que se desenham pelo ar, num lento ritual de sedução. Pros outros, borrifava meu nome como se este embalsamasse tuas frases curtas e eufóricas.

Atrás das suas orelhas, no pescoço, um pouco perto do rosto, sobre seu peito, raspando nas axilas, por entre os dedos, laçando os pulsos. Quando você me teve, não economizou uma gota do que eu te ofereci. Passou-me por todo o corpo, quis, com a pele, cheirar à flor da minha, macia, prestes a se esparramar pelo ar que vinha da janela aberta. Exalando calor por entre os poros, quando me prendeu com seus braços, perfumou-se de mim, ali, e deixou minha boca cheia de água e a cama de cheiro.

Umas das principais características desse meu querer com notas de negação é a capacidade de confundir o olfato. No fundo, sabia bem como tudo iria acabar, só que quis pagar o preço. Eu me ofereci ao seu olfato, revelei a essência traiçoeira pelo som do chocalho na ponta da língua. Fiz porque quis mesmo. Porque o desafio vale a frustração. queria você e tive. Pequeno, tão pequeno, acostumado com o mesmo odor do seu quarto decadente, bagunçado, jogado às traças. Apertados, eu e você, ficamos os dois pela madrugada, dividindo a cama de solteiro como casal. Nos menores olfatos estão os piores perfumes - os que têm aroma de essência. Cheiram a si mesmos, mas quando tocam a pele do outro revelam uma olência única. Aquela traiçoeira.

Você me usou e aqui, agora, eu sou só dor. Prevista, conhecida, manjada, já de casa, a dor ainda dói, mesmo assim, mesmo abrindo a geladeira sem pedir licença. Ela dói demais e a lembrança, sua amante, vem junto perguntar o que tem pro almoço. As duas, dentro de mim, da minha casa, sufocando o pouco espaço, inodoras, falando de você. Eu não queria saber de você. Há meses não recebia notícia qualquer, mas elas duas vieram, a dor e a lembrança, atrás de mim por causa de você, ou melhor, por causa de nós.

Lavei as mãos com bálsamo, respinguei a água  na pia, sem pressa. Virei-me e olhei diretamente para elas. Com seus pratos vazios, sem um farelo pra contar história, a dor e a lembrança me contaram de você. Disseram que estava bem, com uma garota apaixonada, planejando o futuro, sem tocar no meu nome. Perguntei a elas, a dor a e lembrança, se nada de mim havia ficado nele.

- Se nem a dor nem a lembrança estão lá, onde não estou, onde ele está, então, o que restou?

- Odor.

Odor.

sábado, 14 de setembro de 2019

Lar dos Lugares

Senti, quando meus pés tocaram o solo desconhecido, que já não era mais o mesmo. A decisão de ir para outro canto causou angustia, mas, no final das contas, serviu para que me redescobrisse por uma outra perspectiva. Eu me vi de longe. Confesso, não sou muito o tipo que sai por aí e se lança no desconhecido como Louco. Ainda assim, o que eu buscava não estava perto. Na verdade, para ser mais sincero ainda, eu não buscava nada além da chance de não deixar rastro ou ter que seguir pegadas de um outro qualquer. Havia um endereço, sim. Havia para onde ir, quem encontrar.

O que não havia era um nome pro lugar onde eu queria ficar.

Chegar a um ponto em que não havia passado nem haveria futuro. Este foi o primeiro pensamento a tomar as malas de minha mão quando desembarquei. O meio termo cabia perfeitamente. Era ele, o meio, apenas tempo presente - aquele sentido ao longo dos momentos que se findariam em si. Descompromissado, solto - como eu - o tempo.  Era assim que eu interpretava a viagem: como um marco zero. Era o presente. O estar presente.

De volta, enquanto revisito agora as lembranças, consigo observar perfeitamente as nuances dos momentos vividos. Na suavidade da transição entre tons sem bordas, recordo de cada cor sem que uma se misture a outra. Entendo, hoje, que era o lugar. Ainda sem nome, mas era o lugar. Só uma figura permanecia intacta e pendurada em todas as paredes, horizontes, mares, distâncias, lençóis, anoiteceres, amanheceres, olhares meus por através dos dias: a dele.

Lar

Onde eu chego e quero ficar
onde eu finco e insisto em não deixar 
rastro algum, além das marcas em cada curva 
que insiste em me dobrar. 

Duas vezes mais perdido na vastidão 
desse espaço macio sobre o qual largo meu corpo, 
alargo meu gosto e degusto o que há de melhor na região: 
seu rosto que... dentro da minha boca faz abrigo e brinca comigo
sem me deixar outra opção senão parar, admirar e dizer em alto e bom som
lar, doce lábio.

De manhã me aconchega e diz que eu posso ficar mais tempo na cama 
pra só de tarde perguntar se eu saí e vi o mundo lá fora 
Quando escurece, é você que aparece vestido de noite
passa um endereço, define o local e marca a hora 
desse jeito não tenho outra saída senão chegar na calma 
de quem não reconhece as ruas que vê, mas confia no desejo
no desejo de te ter. 




quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Fogo e Vento na moleira do menino

No céu vermelho, quente feito o chão da pele, corta com luz o raio da ordem. Retumbo acha abrigo dentro dos corpos curvados esperando a chuva quente pra limpar. Sobe pro céu suspiro do desespero e o choro engasgado vira grito nos tambores do trovão. Vem à guerra os filhos da terra escura, filhos do sol e do ferro, banhados pelo ouro que adorna a memória dos ancestrais. Saúda o mensageiro que abre os caminhos, povo dos povos, e deixa passar o senhor da justiça. 

O sangue que ferve também escorre e lava o espírito. Banho de vida, legado, enrolado nos panos do destino, paga hoje aquele que ontem se omitiu – e amanhã vai cobrar. Enxague bem a nuca, a moleira, o peito, porque passado, futuro e presente são um só, ao mesmo tempo, como nome e sobrenome. Então revele pra eles, senhor dos raios rubros, do vento quente, quem levará o nome da mãe e do pai.  Quem é a fruta que amadurece no calor, seca o caroço antes de virar semente. Peça à bênção das mães das águas, dos filhos do solo, pra fazer berço às crianças que estão por vir. Aquece os corações, dono das tempestades, pra batucar o soluço das crias pelos tantos cantos do mundo. 

Chamo pra cabeça o peso do machado que corta a mentira. Chamo o trançar dos raios que desenham os caminhos pro espírito passar. Chamo o fogo, queimo os ossos, entrego os joelhos, dou-me pra incendiar a dor e, mais uma vez, erguer a cabeça como filho de reis e rainhas. A pedreira não rolará em cima de mim.  

Sou filho da tempestade, parido na madrugada de uma quarta-feira.

Pai e mãe fecharam os braços em volta de mim, como o tempo acima de nós.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Capítulos sobre nós

Enquanto eu acariciava as páginas dos livros, ela cantava ao fundo. Sua voz suave não deixava de me perturbar, tal qual fragrância forte que não sabe ser contida - em certa medida, por conta da tristeza sutil que eriçava a angústia em mim. Ainda assim, eu precisava daquele arranhar de discos com as cordas da garganta, feito nós, a atar o grito de desgosto. Debaixo da cama, encontrei a garrafa de gin, mas não consegui achar cigarro algum nos bolsos. Pensei por segundos onde estariam e lembrei que me obriguei a parar de fumar. Mais angústia, só que sem gelo, por favor. 

Ele se segurava pra não conversar comigo. Sabia que era meu momento - e só meu - no qual mergulhava já sem fôlego por entre as águas desconhecidas do meu ainda "não-saber". Cada capítulo era um convite para entrar e ficar mais um pouco, sentar, à vontade, e dizer o que eu gostaria de beber. Depois, quando as páginas me viravam as costas, eu, abandonado, podia olhar para o cabeçalho e relaxar. No caso, os músculos do corpo, não os da mente. Porque era impossível acalmar aquelas pequenas explosões elétricas a descarrilharem feito trens debaixo do meu crânio. A leitura me deixava inquieto, só que o saber... ah, o saber contido nela... Ele não me deixava ficar quieto, capitava-me. Eu queria falar, queria compartilhar tudo aquilo apresentado a mim, mas o barulho era ele, ali, com sua música, com a voz dela abrindo levemente a cortina e soprando seus versos de véu. Agora, eu que me segurava e ele... Ele era a trilha da noite. Eu, só capítulo. Eu só captava.

Nas costas de minha nuca eu sabia que alguém me observava. Fosse com um olho ou os dois, ele me observava ler, e ler, e ler sem se contentar com pontos finais. A provocação vinha do fato de seu corpo não se retirar, muito menos retirar o copo. Eu era gin, você, vinho.  Ficava, fumava ao fundo sem me oferecer trago qualquer e, mesmo assim, preenchia as paredes já que as páginas não lhe cabiam ou os goles lhe saciavam. Aquelas páginas, vale ressaltar, é que não lhe cabiam, porque as outras - as tantas que escrevi - estavam perfumadas com sua inoportuna e indispensável presença. Aquelas páginas eram outra história. Já aquele, logo atrás de mim, repousado no sofá, era quem, paradoxalmente, atrapalhava meus estudos enquanto me fazia a massagem perfeita no ego ao me instigar a continuar.

Não era sobre habitar o mesmo cômodo, muito menos sobre incomodar. Quando eu terminava mais uma parte do livro, a vírgula para o fôlego estava justamente na procura pela digressão que me levava até lá longe, onde ele estava, divagando vagarosamente sobre qualquer assunto que não o diante dos meus olhos, diagramado e editado.

Mal sabia ele que eu nada lia. Apenas escrevia mais um capítulo sobre nós.

Bastava olhar para trás pra ver que eu...

Capitulo você.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Maldição

Do meu ser entendo eu. Quem me diz sou eu. Dos cansaços acumulados, nenhum nunca me fez dormir melhor, como se toda a energia tivesse sido gasta no que preste. Dormir cansado de ter que se deitar pra acordar. Não deitar pra descansar, deitar pra manter o cansaço sob controle. Meu mal não é cansaço.

De mim sei eu que nunca me abandonei, ainda que tivesse tentado algumas dezenas de vezes, sem sucesso. Descalço era como eu me sentia quando a inocência era obrigada a andar sozinha. Meu mal não é o descaso. É outro. 

Abri o peito quando pulei a janela e desenho um alvo mentalmente. Descalço, esperando o prego penetrar, o vidro o pinicar e eu ter uma desculpa para não ir. Lá fora, o mundo fazia de mim o que bem entendia. Eu me sentia como um rato na roda. Só que ao invés de avançar, eu ruía.

Fui batizado pela desgraça. Na boca, a maldição que eu não proferi virou as escritas que eu rabiscava. O olhar sempre foi meu cúmplice, pois escondera todas as vezes em que eu disse através deles o que realmente desejava o coração. A culpa eu não carrego. Os poucos choros, quando eram os meus, foram consolados pelo soluço – eu que me assoprei o machucado, eu que me limpei o rosto sujo, eu que me balancei, eu que me consolei, eu que me ensinei que não sabia o que era perdão. No colo, cabia a mim ser refúgio da alma mirrada, filha do sangue e do osso.

Nas minhas danças aleatórias pelo quintal de sempre, o universo parecia se bagunçar. Agitava meus braços de um lado para o outro, girava o corpo devagar, subia uma das pernas, jogava a cabeça para trás, tudo estava fora de órbita, um espirro na escuridão cósmica e pronto: na moleira queimava o sol marcando a minha hora. O momento exato em que passei a existir fosse na luz ou na sombra.
O que chamavam de mal, eu chamava de essencial. O que chamavam de mal eu chamava de atração. O que chamavam de mal eu via razão. O que chamavam de mal eu prestava atenção. Quando me chamavam de mal, eu respondia com voz baixa “já vou” – e não ia. O que chamavam de mal era justamente a versão da história em que eu vencia, sozinho, e ganhava a liberdade para ser meu.

Batia com uma das palmas no chão, acariciava o pescoço com a outra, erguia o corpo, projetava os ombros para trás, passava as mãos pelas costelas como se dedilhasse cordas de violão, trançava os pés, sacudia a cabeça, soltava o ar até o corpo todo formigar inquieto. A saliva banhava os lábios, os olhos piscavam lentamente, o céu fechava, a terra cheirava, seu nome, seu rosto, seu gosto vinham à mente, o estômago reagia, o coração batia depressa pra depois se afundar sob a carne do peito... quase sufocado. Era a boca calada que selava o momento sublime dos quereres, aqueles a dançar comigo, em passos ocultos no tempo, debaixo da poeira do ontem, no caminhar cansado dos meus antepassados, no sorriso de navalha dos meus ancestrais que fazia escorrer o fio da vingança no rosto.

Era no sangue que eu rescrevia o destino de muitas pessoas. Enquanto redigia os versos que iriam atar o nó em volta dos pescoços esticados dos famintos a tentar me abocanhar, lembrava, como se fosse ontem – e, de fato, era – do momento em que me entendi.

Fui direto comigo mesmo, por isso consegui me alcançar. Silenciosamente, ao dar à linha seu último ponto, pude fazer profecia pra mim e maldição para o resto.

"Nós, eu e eu mesmo, fomos feitos um mal para o outro."

Ainda bem. 

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Coral

Finalmente você me aceitou. Eu nunca quis lhe causar desespero, mas entenda... Era o único jeito de abrir seus olhos para dentro e perceber que meu lugar é em ti.

Finalmente, entro sem pedir licença, mas aceito um copo com água.

(...)

Lembro do dia em que doeu o corpo caído no buraco e a indiferença da mão amiga que oferece ajuda pra subida. Eu te chamei sem saber. Sibilei seu nome, mas o fogo se extinguiu antes de tudo virar cinzas.

Também me lembro de quando o corpo foi tocado e a dor escorreu pela carne ainda fresca, o medo, o não saber, os vultos que nada tinham de intangíveis, a sensação do corte rompendo os pontos mais sensíveis do meu ser. Senti medo mais do que dor e te chamei. Você veio, fez tremer as paredes da casa, envenenou o sono dos imundos e apagou os detalhes que formavam a lembrança. Ficou a cicatriz na alma.

Do tapa na cara por ter deixado o bule de café cair, dos gritos por ter deixado a navalha me cortar o dedo, do empurrão por não ter entendido o desejo corpo, do palavrão que me humilhou diante de tanta gente, do prato sem comida, do sono pra alimentar, do amigo sendo incendiado na lata do lixo, do amigo sendo encontrado em pedaços no capô de um carro, do amigo sendo espancado no recreio, do furo de bala no portão, dos sacos de lixo voando em minha direção, do cuspe na nuca, do desrespeito, do desprezo, do sexo pra me usar como experimento, do abandono com ingressos na mão, da porta sendo arrombada no soco, do quarto sendo invadido pela ponta do fuzil, da mordida no braço pra salvar o irmão, da primeira vez traído, da última vez ferido eu me lembro bem.

Em todos esses momentos, recorria ao lugar dentro de minha cabeça onde só eu consigo entrar. Lá, fechava as janelas, apagava as velas, sentava sob a cama, nu, passava as mãos no rosto, nos cabelos, umedecia os lábios, arranhava de leve a pele de todo o corpo, abria os olhos, deixava as trevas inundarem eles e estralava os ossos do pescoço. Por debaixo da porta, conseguia ver sua sombra passando. Você não batia.

Nunca tive medo do vermelho do sangue. Nunca tive medo do preto da escuridão. Nunca tive medo do preto e do vermelho dentro e fora de mim, sob e sobre minha pele. Nunca tive medo do escuro. O medo que eu tive não estava em mim. Ele estava no outro. O outro tinha medo e isso que me assustava. Ser medo.

Quando o coração gritou de dor, quando eu caí de joelhos no quintal onde corri tantas vezes, naquele momento, quando a lua brilhava cheia de si no céu morto, eu te chamei. Você chegou, tirou o lixo de minhas costas, secou a saliva em minha nuca, arrancou as marcas de mãos da minha carne, partiu em direção ao prateado que cobria tudo como véu e eu, finalmente, senti-te em mim. Sem medo.

Finalmente, sós.

Nós. Duas vozes em um mesmo corpo.

Coral.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Solstício

Declínio, quando metade do meu rosto não consegue se enxergar devido à intensa luz. O auge, quando uma das metades se descola da imagem e imerge na escuridão. Metade do todo, parte para ninguém, eu sem saber se agradecia pelo lado quente ou lamentava pelo frio. Eu odeio a sensação morna. Talvez também odeie a ideia romântica de equilíbrio, balanço e afins. O meio é o fio que divide, não o que une.

Prefiro falar de metades.

Metade de mim acorda e quer se deitar; levanta pra despencar alguns segundos depois por conta do pesado desânimo que é ter que viver mais um dia comum. A outra metade respira fundo, sacode os músculos e ossos, procura os óculos, olha o relógio e berra sem abrir a boca "faça o que tem que ser feito". Declínio e Auge.

Metade de mim precisa andar para pensar nos problemas, soluções, vontades, perdas e ganhos. A outra metade para no meio do caminho para escrever a quem quer ver ao longo da semana, estipula data, horário e local. Frio ou quente. Nunca frio e quente.

Metade de mim pensa no que vai beber para sentir aquela sensação amaciadora do álcool descendo pelas veias e inundando a cabeça, afrouxando os nervos enquanto acidula o estômago. A outra metade pensa sobre o que irá escrever enquanto está sob efeito do álcool, ou o que irá escutar, ou o que irá dançar, ou o que irá me fazer movimentar. Pôr-se e nascer-se, corpo a copo.

Metade de mim odeia repetição. A outra às vezes repete pra provocar.

Enquanto sento para terminar o almoço no quintal de casa, o sol bate em metade do meu rosto. Sinto a pele sendo levemente acariciada por ele. Aos poucos, ela começa a arder, pelar e, consequentemente, a endurecer. Ela resiste à intensidade. A outra metade também esquenta, mas não demonstra. Ela desiste da claridade.

Longe, do outro lado, onde os raios não chegam. Perto, aqui ao lado, onde o auge do declínio acende metade.

- Estava pensando aqui, nesta distância toda, quanta coisa entre o chão que eu piso e o que você anda...
- Verdade, né? Louco isso, a gente não percebe tanta distância mesmo quando olha pra um horizonte desconhecido.
- Parece que eu tô logo ali e você logo aqui.
-Sim, parece.
- Eu te sinto quando sento no quintal para almoçar e tomar sol.
- Eu sei que sim. Também te sinto quando olho pro céu e vejo o tempo fechado, escondendo o sol pra quando estivermos juntos novamente.

Solstício.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Três céus

Clareou o azul. Eu amanheci e fui pra fora procurar o mundo. Olhei para o alto e admirei a imensidão daquela cor que me causava alegria sem motivo. Dominava a língua dos pipas, sabia o que era mandado, na mão, sabia o que era cortar, também sabia o que era buscar, desbicar, aparar. Tudo isso ensinado pelo céu cor de azul. Modelava nuvens também, gostava de redesenhá-las com a ponta da imaginação, vendo o que ninguém via - aquele canto que ninguém vê, mas está ali. Aquela cor azul, perfeita, sem defeito algum, profunda, sem começo nem fim... O teto do infinito tinha tudo para ser uma criança feliz, mas não era - ainda que sorrisse como tal.

A inocência é uma força da natureza que aguenta firme até mesmo quando ao seu redor existem apenas catástrofes. Sua vantagem é não saber o que é ruim e, por isso, livrar-se inconscientemente dos cosedores de malvadeza a lhe agulhar. Entretanto, basta um simples espetar para que ela se vá, a inocência, sozinha. Quando cai em si, não consegue mais se levantar, ela. O azul do céu aberto se mancha pra sempre com uma cor que não é sua. Passado.

Ele se nubla tentando resolver no embranquecer absoluto os conflitos que agora são seu céu. De inocente a consciente, o céu agora é dois em um. Nenhum.

Quando quer dizer algo, não diz; quando diz algo, fala baixo demais e só escuta a si mesmo; quando quer algo, espera; quando não quer, disfarça. Ninguém decifra algo que é justamente porque se faz "nada". Ele é nada porque, agora, está confuso sobre tudo.

Não pensar, não ver, não sentir, não viver. Suportar. Dias pálidos que não trazem nada além da fumaça misteriosa e surda que não retumba com os tambores a trovejar, nem se abre feito céu cor de céu. Fica lá, sem dizer se está indo ou voltando - aquele céu cheio de nuvem - nem fechado, nem aberto. Presente.

Só que o ar muda antes do céu colorido de nada perceber. Fica denso, pesado, morno, começa a fazer poeira subir, pega papel com suas mãos invisíveis e faz rodopiar pro alto. Os pássaros percebem primeiro. Depois as formigas e, em seguida, os siriris. Um pingo grosso beija com lábios macios de boca dura feita a da mãe. É um beijo na testa, firme, que fez com que eu desse dois passos para trás - onde minha nuca tinha ficado descoberta e desprotegida. Olho pro alto e tudo ao meu redor anuncia o que virá pela frente. Futuro.

A dança é dela. Escura feito o início de tudo e todos, traz a noite para o dia. Faz os movimentos que quer e balança as copas das árvores junto de seus cabelos grisalhos. Ela é o céu que vai desabar, o toró, o tempo fechado, sem branco nem azul, sem meio termo, sem morno. Agora é quente a gota que explode no chão feito pedrada no coco. Um trovão baixo, outro mais alto, um que estoura os ouvidos, outro que arrepia os pelos do braço. O céu da tempestade é a morada da ordem, o olhar sobre a bagunça que deixamos e confusão que causamos. Olhar de furacão, olho de mãe.

Este céu, agora que é três, olha para os outros e faz seu serviço: lava as feridas do azul inocente e devolve sua pureza sem levar sua esperteza. Olha no fundo opaco dos olhos nublados do perdido em si mesmo e tinge de luz com um raio cortante o vácuo solitário, agora duas partes, agora metade de si mesmo - agora, partido. Presente, Passado e Futuro. Curado, Partido e Seguro.

O céu preto, abençoado pela chuva cheia do que dizer, anda. Não para, vai, não fica, é sempre amanhã, é sempre depois, é sempre um olá seguido de adeus. Vem  pra se impor e colocar no ponto final mais dois céus, mais dois pontos.

Assim, renda no teto do infinito as reticências destes três pedaços do mesmo caminho.

Nós.