segunda-feira, 8 de julho de 2019

Três céus

Clareou o azul. Eu amanheci e fui pra fora procurar o mundo. Olhei para o alto e admirei a imensidão daquela cor que me causava alegria sem motivo. Dominava a língua dos pipas, sabia o que era mandado, na mão, sabia o que era cortar, também sabia o que era buscar, desbicar, aparar. Tudo isso ensinado pelo céu cor de azul. Modelava nuvens também, gostava de redesenhá-las com a ponta da imaginação, vendo o que ninguém via - aquele canto que ninguém vê, mas está ali. Aquela cor azul, perfeita, sem defeito algum, profunda, sem começo nem fim... O teto do infinito tinha tudo para ser uma criança feliz, mas não era - ainda que sorrisse como tal.

A inocência é uma força da natureza que aguenta firme até mesmo quando ao seu redor existem apenas catástrofes. Sua vantagem é não saber o que é ruim e, por isso, livrar-se inconscientemente dos cosedores de malvadeza a lhe agulhar. Entretanto, basta um simples espetar para que ela se vá, a inocência, sozinha. Quando cai em si, não consegue mais se levantar, ela. O azul do céu aberto se mancha pra sempre com uma cor que não é sua. Passado.

Ele se nubla tentando resolver no embranquecer absoluto os conflitos que agora são seu céu. De inocente a consciente, o céu agora é dois em um. Nenhum.

Quando quer dizer algo, não diz; quando diz algo, fala baixo demais e só escuta a si mesmo; quando quer algo, espera; quando não quer, disfarça. Ninguém decifra algo que é justamente porque se faz "nada". Ele é nada porque, agora, está confuso sobre tudo.

Não pensar, não ver, não sentir, não viver. Suportar. Dias pálidos que não trazem nada além da fumaça misteriosa e surda que não retumba com os tambores a trovejar, nem se abre feito céu cor de céu. Fica lá, sem dizer se está indo ou voltando - aquele céu cheio de nuvem - nem fechado, nem aberto. Presente.

Só que o ar muda antes do céu colorido de nada perceber. Fica denso, pesado, morno, começa a fazer poeira subir, pega papel com suas mãos invisíveis e faz rodopiar pro alto. Os pássaros percebem primeiro. Depois as formigas e, em seguida, os siriris. Um pingo grosso beija com lábios macios de boca dura feita a da mãe. É um beijo na testa, firme, que fez com que eu desse dois passos para trás - onde minha nuca tinha ficado descoberta e desprotegida. Olho pro alto e tudo ao meu redor anuncia o que virá pela frente. Futuro.

A dança é dela. Escura feito o início de tudo e todos, traz a noite para o dia. Faz os movimentos que quer e balança as copas das árvores junto de seus cabelos grisalhos. Ela é o céu que vai desabar, o toró, o tempo fechado, sem branco nem azul, sem meio termo, sem morno. Agora é quente a gota que explode no chão feito pedrada no coco. Um trovão baixo, outro mais alto, um que estoura os ouvidos, outro que arrepia os pelos do braço. O céu da tempestade é a morada da ordem, o olhar sobre a bagunça que deixamos e confusão que causamos. Olhar de furacão, olho de mãe.

Este céu, agora que é três, olha para os outros e faz seu serviço: lava as feridas do azul inocente e devolve sua pureza sem levar sua esperteza. Olha no fundo opaco dos olhos nublados do perdido em si mesmo e tinge de luz com um raio cortante o vácuo solitário, agora duas partes, agora metade de si mesmo - agora, partido. Presente, Passado e Futuro. Curado, Partido e Seguro.

O céu preto, abençoado pela chuva cheia do que dizer, anda. Não para, vai, não fica, é sempre amanhã, é sempre depois, é sempre um olá seguido de adeus. Vem  pra se impor e colocar no ponto final mais dois céus, mais dois pontos.

Assim, renda no teto do infinito as reticências destes três pedaços do mesmo caminho.

Nós.

domingo, 23 de junho de 2019

O hífen entre querer e dizer

Chega de remeter ao título, de fazer malabarismos pra caber na narrativa. É ridículo, frustrantemente previsível. Por favor, sejamos sinceros... É perda de tempo e palavras.

Incluir pessoas nos textos e achar que são inteligentes o bastante para captarem as entrelinhas só comprova o quanto somos, nós, os escritores e escritoras, autores e autoras, seja lá o como queiram chamar, limitados. Oras, escrever sempre foi a forma mais informal de transgredir ainda que dentro de toda uma regra linguístico-gramatical - como diriam os caucasoides europeus que me obrigaram a grafar assim - insípida. Então, o que eu faço com ela, a tal escrita? Carta de amor? Declaração? Homenagem? Conto cujo personagem não vale a figura de linguagem? Francamente...

Perco linhas e mais linhas tentando reaquecer o sentimento petrificado que tenho por pessoas viventemente finadas no cotidiano e irrequietas apenas no memorial insuportável de quem ainda não chegou à linha neural do oblívio? Por favor, olhemo-nos com o mínimo de autoestima - e não vaidade. O que nos resta além de nós, na garganta da caneca? Gengibre puro pra limpá-la e forçar o fim da frescura "resfrial". Infelizmente, carrego um léxico que não permite a vasta capacidade que tenho de expandir seu acervo e incluir o adjetivo resfrial sem a necessidade de aspas.

Mas voltando...

Viu? Mais uma vez remetendo ao título. Olha, sinceramente, se fosse uma maldição untada no tabu do sangue eu até aceitaria em silêncio. Apenas tacaria pedras e desferiria socos em mim mesmo, sem furar nada, sem jorrar, mas me lendo, aqui, agora, a vontade que tenho é de dizer: "frustrantemente previsível".

Entretanto - como dito anteriormente a esta vírgula ortograficamente duvidosa tanto quanto a crase facultativa -, pior é sentir excitação em esperar que aqui apareçam eles e elas, eternos aguardantes, citados num texto amargo e de auto-ódio. Inclusive, a quem dê muita monta para o ódio, como se ele fosse realmente autossuficiente, não o é, viu?. Preciso dizer que apenas queria matar o hífen visualmente horrível e consegui. Linguístico-gramaticalmente virginiano - se é que há espaço pros astros. 

Leu? Isto aqui, este espaço, este tempo, este mundo, esta vida que pulsa, este vai e  volta sem ter endereço anotado nada mais é do que o famoso "perdido" que a gente - tipo eu e você - aplicamos quando queremos dar a letra sem semântica, pra ver se alguém finalmente se manca.

Sem hífen pra forçar nós dois juntos num "chateou-me você":  hoje você me chateou.

Era só isso que eu queria dizer.

Só que escrevi.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

VocÊu

Da última vez que nos encontramos, você disse que passava em frente a minha casa e se perguntava se eu estava - e se o atenderia caso me chamasse. Disse, também, que me amava e que não deixara de pensar em mim um dia sequer. Você estava incrédulo. Parecia não acreditar que eu estivesse vivo, ou melhor, que nós dois estivéssemos. Abraçou-me, ofereceu-me de sua cerveja, chamou-me para fumar. Sua sorte é que eu ainda tinha meio maço de Lucky Strike vermelho.

Fez exatamente como eu queria. Nossa vantagem - e, ao mesmo tempo, desvantagem - é que um lia a mente do outro como bula de remédio. O que não entendíamos, imaginávamos e acertávamos, no final das contas, achando que faria bem e curaria.

Voc sabia que eu queria aquele momento contigo. Digo isso porque sei que você só sabia porque também queria. Há um idioma não dito que é sabido só por aqueles que se atam nos laços invisíveis e, desprovidos de audição e visão, farejam no ar o que está sendo dito, saboreado e sentido. A gente se olhou e não se ouviu. Ainda assim, entendemo-nos. Faz sentido pra você? Faz.

Êu confesso que não sei explicar porque ainda sonho conosco. Não tivemos nosso estúdio, nossa banda, nossa casa, nossa mesa pra arrumar - não tivemos nossa família pra criar. Eu queria que você lesse esse texto pra sentir - como eu sinto - nós, na garganta. Só isso. Queria, não. Quero. 

Sei que ainda pensa em mim. Sei que me busca quando ninguém está olhando. Também sei que você sobrevive do seu orgulho e, ao meu ver, está tudo bem. É o que nos resta, não?

Eu só sei porque eu te sinto tanto quanto você me sente, hoje, sem precisar passar diante da minha casa e imaginar se eu estou e seu eu te atenderia caso chamasse. Você continua me chamando.

Eu continuo te respondendo.

Está tudo bem porque está entre nós.

VocÊu.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Sotaque

Há como descrever alguém em silêncio. Assim como é possível soprar o escândalo do desejo na certeza de que você sabe guardar segredo. Dois reinos, mudos, onde cala quem consente. E sente muito. 

Eu não acredito em homenagem. Acredito em história. Se eu conto, é porque, mesmo dizendo, só você vai entender. Há um rastro, pegada, origem, que mostra de onde partiu e pra onde pretende ir. Começo, meio, em mim. Há um jeito de falar que se mistura à canção do saber, numa partitura que - ao invés de romper -, não parte ao meio tudo o que tenho a dizer. Este jeito é como o sotaque que eu tenho. Sotaque que só você consegue compreender.

Sua voz baixa foi o que tocou minha garganta áspera. Tentei, por anos, cuidar dos calos que me fazem tropeçar - ainda hoje - quando tento dizer, sem vírgula, na urgência de desabafar. Enquanto eu falava alto, você respondia baixo, pra dentro, atraindo-me tanto que eu ia descalço buscar nas profundezas do seu mar um pé pra não me afogar. Sua fala é das de tombo. Começam rasas pra, logo em seguia, afogar.

Sempre gostei do silêncio, do volume baixo, das discussões entre pai e mãe mais baixas ainda. Mais até do que o tom das trocas de ofensas. Lá, no nível último, eu conseguia ouvir nitidamente o que precisava ouvir. Era minha própria voz a dizer que tudo iria passar. Depois do barulho, nenhum pio. A sensação era de que o par de mãos pretas acariciavam minha cabeça e eu voltava a ser apenas uma criança esperando mimo. Não me importava mais com o adulto que me tornei. Era a criança esperando mimo e só. Sua voz era o silêncio que sempre gostei. Um afago, um não dizer, uma ausência que preenchia - e ainda preenche - meu não ser.

Do fundo do quarto, no canto que ninguém vê, estamos nós. Eu aqui, você lá.

Nós aqui, a voz, lá.

Quando pensei nunca ser capaz de entender o que eu mesmo disse a mim durante todos estes textos, eis que surge seu timbre cinza com o agudo de uma lança cuja ponta vermelha aponta nosso sangue misturado. Ele diz:

"Você tem sotaque quando escreve". Sim.

E que venha a voz ao nosso reino.

É um jeito de dizer que eu só calo quando é para cuidar da escrita.

Do nós, na garganta.

Coser

- Vá comprar pão!
- Quantos?
- Uns cinco. E traz o troco, hein!?
- Tá bom.

O caminho até o portão durava anos. Anos e mais anos descruzando as pernas, usando as joias de minha vó quando, à noite, as pedras já não reluziam tanto a ponto de chamar a atenção. O calor que salgava as juntas do corpo todo não era maior do que o temor que envolvia meu jeito de se vestir e de andar. Queria a bermuda mais curta, tão curta que mudava de nome, virava "shorts" aos olhos dos outros - aos meus, alívio. Deixava de andar agilmente nas pontas dos pés. Fincava a sola no solo e fazia tremer o chão todo com cada passada mentirosa e desajeitada que tirava de mim o rastro da desconfiança. Bastava olhar ali, aquele corpo mirrado, cor de barro: olhe lá - nada de "errado", parece mais um de nós. Vários nós, na garganta.

Abria com as mãos.
Girava lentamente.
Empurrava com força.
Rangia os dizeres.
Reclamava fazendo um ruído abafado com os dentes e, então, passava pelo portão mais velho do que meu sobrenome.

Odiava ele, pois chamava a atenção e fazia com que todo mundo visse minha casa aos pedaços. Ao passar da calçada, porém, algo acontecia dentro de mim.

Eu saía de verdade.

Como se uma costureira chamada Nalva decidisse arrumar o que, em mim, ainda não estava corretamente arrematado, sentia as puxadas da agulha na coluna que me faziam subir a cabeça como se subissem as mangas de uma camiseta. Olhava pro meu corpo e dizia, com a linha entre os dentes: "Preciso soltar aqui e apertar aqui, tá tudo muito enforcado, a gola tá degolando, não é pra ser assim, ele precisa respirar enquanto anda!".

Fazia, cosia, tecia, voltava, reclamava, acertava. Entregava a mima melhor confecção de mim - aquela cujo caminho até o pão não mais seria uma peregrinação. Com a coluna alinhada de tanta linha, eu andava sobre o asfalto seguro de que, na ponta dos pés, rumava ascendido. Alta costura.

Os dedos, ao invés de contar os olhares e taparem o meu para não ver tanto desdém, desenhavam o ritmo do corpo que ia sincronizadamente em comunhão com a roupa. Se alguém ainda não sabe para que servem as pálpebras, pois bem, eu lhes digo: elas protegem os globos oculares dos olhos alheios que tentam queimar a retina da autoestima.

Veja, eu não os via. De cima pra pra baixo, lentamente, conferia seus sapatos, seus pés,descalços, sem desdém, tentando achar algum final para aquele começo de desprezo tão aquém de mim. Quando chegava ao chão, sumia o peso e eu entendia que todo aquele desprezo era medo.

Nalva não costurou apenas meu eu, ela me disse ao devolver os panos: "O ver me fez pensar que Locou pra sempre um lugar entre minhas linhas". Uma linguagem que só nós tínhamos, entre o ponto e a cruz.

Uma das maiores aflições era pedir o pão e não saber se as moedas iam dar. Ficava tenso, suando nas bordas da testa, imaginando a vergonha que seria dizer "Moço, vou deixar o pão aqui e volto com o resto do dinheiro" porque sabia que não tinha"resto". Minha mãe só vivia com o contado. O alívio vinha quando eu pegava algum troco que não fosse bala e, mesmo sem saber fazer as contas pra conferir, eu sabia que algo seria devolvido à Mã. Se estivesse errado, beleza, a vergonha não seria minha. Cobrava mesmo e, de repente, pedia metade do engano em 7Belo.

Eu voltava como dia, radiante, depois da calçada: costurado a mim mesmo, modelado e impecável. Sem culpa, a gente serve no número que é o nosso. Nem apertado, nem largo, nem sobrando, nem faltando. Quando eu saía, saía de verdade.

Coser é fazer a gente caber perfeitamente em nós mesmos.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Profecia

Lanço ao fogo o que ontem foi a profecia dos nossos dias. Giro feito o sopro dos gênios pelas areias ditas do destino. Clamo, peço, busco no fundo da ampulheta algum grão que ainda não tenha passado pela garganta e que me dê mais tempo contigo na lembrança. O sangue ferve sob o banho da Lua. Eu me ofereço mais uma vez à desgraça desse querer que não dorme. É com a voz abafada debaixo do peito que te peço para voltar.

Os temperos, espalho pela mesa. Sinto seus perfumes se misturarem ao de minha pele. Já salguei demais minha visão e agora é hora de preparar um banquete para celebrar seu retorno. O fio da lâmina cai sobre meu rosto, sopro, ele sobe e corta levemente um sorriso. Dos vermelhos, tiro o calor, dos verdes, a consistência, dos amarelos, o peso, do azeite, o toque e das olivas negras, a saudade de teus olhos. Um beijo na boca da garrafa e a bebida traga a tensão dos músculos. Ponho-me à mesa para que coma com as mãos. Farto de mim só posso eu mesmo ficar. Você, não. Você tem que se saciar e sempre querer mais. Porque eu nunca me sirvo por inteiro.

Enquanto a água acaricia minha pele, sussurro algumas poucas palavras. Desejo que o espírito esfrie a cabeça que não para de te invocar. Velas acesas, uma luz fraca e alaranjada, cansaço, passos molhados pelo chão de madeira e a porta do quarto entreaberta. Na transição da tarde para a noite eu encerro mais um dia de nossa história. Deixo que o corpo seque sozinho com a última brisa morna antes que a penumbra arrepiasse os pelos.

Com a coluna a rodopiar, entrego a nuca desnuda às vozes que cantam sem parar. Roubo cada verso que elas me lançam, envio-os a você, busco-te de longe, encaro-te como se estivesse diante de mim, os braços penteiam o vento e as velas se apagam. Coberto pela prata minguante, estico os dedos e alcanço – no criado mudo – as cartas que enviei e que retornaram em silêncio. Não as reli, não foi preciso. O cheiro das minhas mãos ainda estava ali, forte, como pimentão. Ponho-me na cama para que durma por inteiro, da cabeça ao peito. Cansado de mim, talvez só você mesmo. Eu, não. Eu me basto. Porque nunca me descrevo por inteiro.

Eu sempre te escrevi mais. Porque você nunca me serviu por inteiro.

domingo, 5 de maio de 2019

Coisa

O sossego do desapego finalmente encontrou um espaço em minha cama. Dorme ao meu lado, calado, confortável. Assim, consigo sonhar com algo real, de fato. Vejo os rostos para os quais disse "adeus" e não fiz questão alguma de mentir pra mim, pensando que, no fundo, tratava-se de um "até breve". Ainda que eu lembre como era bom ser um em dois, não vejo sentido em acordar para viver o mesmo dia - a dois. Toda manhã é um novo fim em nós. Em mim.

Enquanto conto o tempo nas pontas dos dedos, pergunto-me: "mas você não sente falta?". Oras, como não sentir? Se é falta ou alívio, não sei dizer, mas eu sinto, sim. Algo aqui dentro infiltra as paredes que defendem meu coração do mundo lá fora. Aos poucos, vejo elas descascarem, esfarelarem, virarem areia, novamente, do pó ao pó, no tijolo. É uma sensação sorrateira. Talvez por isso que eu a deixe fluir. Gosto de quem vem silenciosamente e faz barulho mesmo assim. Esta sensação - que rasteja feito a serpente que me habita - vem com o tempo. Assim como você foi, com ele, o tempo.

Estes diálogos silenciosos - que, inclusive, são as conversas que não tivemos, mas estão aqui - basta vir pegá-las - só aconteceram porque eu sabia que você me ouviria daí, de longe. Há sempre uma música de fundo dizendo o que a boca se recusa a dizer, porque ela quer falar e não cantar. Quando ela cala, quem fala são os ouvidos, donos de si, trovejantes como meu espírito. São os ouvidos que falam o que eles mesmos precisam ouvir. Ensimesmados, parecem-se como nós - dois pares de calçados perdidos no caminhar ao longo do longo chão duro, pela estrada seca que só se molha no momento em que o sal cai do céu e finge ser chuva, faz a gente perder a mão e errar no gosto, despencar, virar toró. Corta a cara erodida e nos engana fazendo tropeçar os pés d'água.

Parece chuva, mas não é.

Trata-se de outra... outra... outra... coisa. Odeio essa palavra... "coisa". Só que eu separá-la bem, do jeito que eu separo o que eu sinto do que eu sou e de como eu ajo, bem, parece, então, que há aí um outro convite pra ser sem saber onde se está. Para ser "coisa alguma".

Quando a gente sabe o que quer, mas não consegue se convencer do contrário, ao nos perguntarem "Mas o que você quer?", respondemos: "Qualquer coisa". 

"Coisa" é justamente o que não queremos tanto quanto não queremos explicar o porquê de não querer.

É o sossego do desapego.

Enquanto as teclas do piando competem com meus dedos para ver quem chega primeiro ao topo da razão a envenena no intuito de deixar que meus os músculos dos ombros relaxarem, eu lhe digo:

Você não sabe de coisa alguma.

terça-feira, 2 de abril de 2019

Dhoruba

Quando me calo, faço retumbar o recado no silêncio dos relâmpagos.

Quando falo, elevo o tom do dizer e digo o que tem para ser dito, não recuo, não pisco, de olho fixo, miro o chão e corto o horizonte com meu raio.

Digo uma vez, porque não caio duas vezes no mesmo dizer.

Se eu falo, não é porque sei tudo. É porque carrego muito.

Parto do topo, racho o céu, mostro que nem alto nem baixo vão me dizer como trovejar.

Quem não aprende pelos pés descalços a andar, eu parto o topo e racho o coco até entender que o tempo fecha quando o espírito se deita na birra.

Cheguei não foi à toa! Quero as nucas diante da mim, assim, pedindo um lampejo de bênção, uma quentura pra fechar o corpo quando ele está com ferida aberta e ardida.

De um lado pro outro, os ventos acompanham meu respirar profundo, escuro, sem pressa, que faz tremer até mesmo quem nesta terra não caminha mais.

Poeira não me cega, madeira não me atinge.

Enquanto rodopio, presto atenção nos que enganaram o próprio andar.

Anuncio minha fúria sem nublar o recado:

Hoje eu vou cair. Cair não, despencar.

Endireite seus passos! Ande direito, olhe pro chão, não abaixe a cabeça, abaixe os olhos!

Seus ancestrais estão atrás de você, menino! Ande que nem eles, mas ande hoje, agora – quando chegar, conte a eles o que o amanhã trará.

Eu já terei passado, mas até lá não há ginga que se esquive do meu soprar.

Eu sou a tempestade!

Sou aquele que se anuncia e fica até se esgotar.

A ordem chama, o caos inflama, o pé de água se torna e com o toró aplico minha didática -

Mude quem tiver que mudar, mude o que tiver que mudar, senão eu sopro pros confins do esquecimento aquele que achou que podia se criar no cimento.

Semente nenhuma brota da casca! Vem de dentro o novo, a essência que não morre, mas renasce transformada.

Eu sou a tempestade!

Vim pra varrer, não pra sujar! Vim pra espalhar, não pra bagunçar! Vim pra semear, não pra colher!

Procure por mim na tempestade e não se assuste...

 Quando me encontrar, eu já terei a tudo limpado.

quinta-feira, 28 de março de 2019

Orbito-me

Hoje preciso passar as mãos pela minha cabeça raspada e me sentir. Usar as pontas dos dedos para reforçar os traços sobre meu rosto. Quero despertar e me olhar profundamente nos olhos... Buscar nestas duas pedras escuras o infinito breu que me preencheu todos estes anos e do qual nunca tive medo. Sentir-me. Há tempos não me sinto e o corpo cobra. Nos dias mais escuros, eu permaneço noite sem fim em mim. 

Quero olhar para as minhas mãos e reconhecer minhas mães, bisavós, avós. O torto dos dedos indicando a direção que o tempo tem tomado e para onde tem me levado. Os lábios, o nariz, a altura, o peso, todos eles e elas me compondo como música de letra decorada de coração. Hoje eu preciso de “eu”, mais do que sempre, pra lembrar onde escondo as melhores partes de mim. Preciso daquele encontro marcado pelos passos silenciosos de quem nunca teve dificuldade em andar nas pontas dos pés, como se um salto invisível lhe projetasse para o mundo afora - para outra dimensão. 

Nas baixas criadas pela depressão que muitas vezes lembra à leveza que nem ela está livre da gravidade de sua existência, levantar é uma luta pela sobrevivência. Deixar que a água caia sobre cada parte do estilhaçado espírito vestido de gente deixa de ser algo cotidiano para se tornar uma exceção à regra básica de segurança: não sair do vácuo que “protege” minha vida de si mesma. A caminhada de menos de 6 segundos até o banheiro transforma-se numa estrada cheia de armadilhas prontas para ceifar o pouco de vontade que ainda resta no fundo do poço. Puxo a corda, sobe o balde, vazio, e eu não posso me saciar. Então, é neste momento que eu me lavo pra longe da sujeira que levei um tempo para enxergar. Luta, água... renovação. No escuro, depois de ter me enxugado, volto a sentir o aperto no peito, mas ele já não faz tanta pressão.

Não abro a janela. Não deixo a luz entrar. Não permito que o som quebre o silêncio. Assim fico, em órbita, pairando pela massa negra do espaço entre um querer e outro. Permaneço coberto com a colcha de estrelas que o universo deixou gravadas na memória. Brilham rostos, sorrisos, vozes distantes, cheiros, gostos, toques... As memórias me cobrem e o aconchego da solitude invoca um bocejo de exaustão do espírito. Um sono diferente desperta meus sentidos para outra esfera da não-consciência. É nesta hora que acordo pra vida – aquela que pesa, dói, angustia e só alivia quando eu, encolhido feito um planeta ensimesmado no próprio eixo, sussurro de meu universo particular...

Hoje eu preciso de mim aqui. Só de mim... como poeira no cosmos, dançando sem música. 

segunda-feira, 11 de março de 2019

Procure por mim dentro de nós

Senti você chegando quando as janelas arrebentaram. Invadiu a casa, passou pelos corredores e trombou em minha porta. Batia, batia, sacudia a maçaneta e eu não levantei para de deixar entrar. Tinha medo dos seus trovões, mas desejava, secretamente, enquanto cobria a cabeça com os lençóis, que você conseguisse me alcançar. Era bom quando eu me deitava sobre suas nuvens carregadas. Pequenos raios ouriçavam os pelos do meu corpo enquanto você suspirava em minha nuca seu desejo por mim. Agora, não consigo mais permitir você chover no teto sobre minha cama. Não consigo porque sei que isso te machuca. Toda vez que te deixo ser o vendaval sob meu peito, sinto que nos perdemos um pouco mais. Eu te deixo. Você vai embora resmungando baixinho, pingando aos poucos, sabendo que eu preciso amanhecer mais um dia e me secar ao sol. Eu preciso, sim, do calafrio que me causa seu olhar, não há como negar... Eu preciso dançar contigo na ponta dos pés e te conduzir ao ser conduzido, mas eu também preciso que você precise de mim. E você não precisa. O que você quer, não sou eu, mas o que eu posso te dar - um lugar pra tempestear.  

Eu não posso me dar a você. O que eu te dou é o nós, entende? 

Quando você me disse “Procure por mim na tempestade”, pensei que estava brincando. A verdade é que você não estava brincado. Você realmente estava na tempestade. Eu te vi, nu, completamente suspenso no meio do turbilhão, banhado da prata cintilante que escoria dos raios, com os braços acompanhando o descompasso das ventanias... Você, tão lindo, tão pesado sem nem sequer encostar os pés no chão. Eu sabia que jamais conseguiria te alcançar, de fato. Não se pega a tormenta com as mãos muito menos com o coração. Eu te vi e quando você me viu, sumiu. Envolveu-se numa neblina densa. 

Não entendi, afinal, se mandou que eu te procurasse, por que se escondeu quando te achei? 

Enquanto trancava a porta do quarto, já aguardando sua chegada, eu entendi tudo. Eu senti tudo. Eu entendi nós. Você não me pediu para te achar, mas sim para que procurar. Bastava eu seguir a tempestade sem medo dela, pois era você que a condizia. Você queria me ver caminhando, seguindo adiante mesmo quando suas fúrias traziam ruína pras alturas. Você queria me ver mudando, transformando-me a cada passo. Queria me ver mundano, por aí, adiante, andarilho cujos olhos não mais se espantam com o constante desconhecido. Você queria, mas eu ainda não. Não sabia o quanto viria a precisar de forças pra andar sozinho. Por isso eu voltei pra casa, sem você, com nós guardados em algum cômodo. 

Quando eu parei de caminhar e me escondi nesta casa, achando que você simplesmente não me queria mais, veio a chuva forte cair sobre o telhado, avisando-me sobre sua chegada. Nunca pedi para você me procurar neste lugar. Não disse que você deveria vir atrás de mim. Eu quis parar e ficar, eu quis me tornar poça de água. Quis porque precisava me recolher e entender o que tinha para ser sentido. Sentir que eu havia entendido o porquê do seu olhar ter escapado do meu. Tenho medo de te deixar entrar e nunca mais querer que saia. No fundo, nunca deixei de ansiar pela sua brisa firme e cortante que passava pelo meus rosto como um respirar ofegante. Eu sempre te procurei na tempestade, só não imaginei que seria um problema te encontrar. Não entendi, à época, que era sobre a busca e não sobre o encontro. 

Estou aqui, trancado, porque eu não quero viver perseguindo seus rastros, caçando seus redemoinhos em cada esquina. Desta casa para fora, você pode existir e ser como é. Pode continuar sendo a tempestade que lava o chão, que sopra a poeira do ontem e fecha o topo do mundo toda vez que precisa desabafar suas mágoas e raiva. Aqui dentro, não há espaço para tanta força. Sinto saudades de quando você só chovia e me enchia. Hoje, sei que você irá me sacudir e eu não mais poderei evitar o que já evito todos estes anos: segurar meu corpo para que ele não se perca nos ares da liberdade que aprisionou meu espírito num eterno labirinto onde não consigo me apegar a nada e sigo solto, como se eu não tivesse acontecido. Nem você. 

Tenho medo de como você me força a ter força e pisar firme. Como me faz proteger os olhos da forte geada e enxergar para além do branco infinito e frio. O medo... o medo que eu tenho dos seus trovões que ensinam aos meus ouvidos como ouvir o retumbar do coração... Eu tenho medo da tempestade que você causa em minha vida porque ela me obriga a querer sobreviver e sentir, todos os dias... que eu preciso te procurar dentro de mim, onde nem mesmo a porta trancada pode nos separar. 

Você é a tempestade de habita em mim e toda vez que eu te busco, é a mim que eu encontro. Aquele que me ensinou a dançar com os ventos nervosos , descalço, enquanto choviam os raios e caíam sobre meu rosto os pingos grossos, quentes e salgados. 

Agora é você que procure por mim dentro de casa. 

Dentro de nós.