quinta-feira, 28 de março de 2019

Orbito-me

Hoje preciso passar as mãos pela minha cabeça raspada e me sentir. Usar as pontas dos dedos para reforçar os traços sobre meu rosto. Quero despertar e me olhar profundamente nos olhos... Buscar nestas duas pedras escuras o infinito breu que me preencheu todos estes anos e do qual nunca tive medo. Sentir-me. Há tempos não me sinto e o corpo cobra. Nos dias mais escuros, eu permaneço noite sem fim em mim. 

Quero olhar para as minhas mãos e reconhecer minhas mães, bisavós, avós. O torto dos dedos indicando a direção que o tempo tem tomado e para onde tem me levado. Os lábios, o nariz, a altura, o peso, todos eles e elas me compondo como música de letra decorada de coração. Hoje eu preciso de “eu”, mais do que sempre, pra lembrar onde escondo as melhores partes de mim. Preciso daquele encontro marcado pelos passos silenciosos de quem nunca teve dificuldade em andar nas pontas dos pés, como se um salto invisível lhe projetasse para o mundo afora - para outra dimensão. 

Nas baixas criadas pela depressão que muitas vezes lembra à leveza que nem ela está livre da gravidade de sua existência, levantar é uma luta pela sobrevivência. Deixar que a água caia sobre cada parte do estilhaçado espírito vestido de gente deixa de ser algo cotidiano para se tornar uma exceção à regra básica de segurança: não sair do vácuo que “protege” minha vida de si mesma. A caminhada de menos de 6 segundos até o banheiro transforma-se numa estrada cheia de armadilhas prontas para ceifar o pouco de vontade que ainda resta no fundo do poço. Puxo a corda, sobe o balde, vazio, e eu não posso me saciar. Então, é neste momento que eu me lavo pra longe da sujeira que levei um tempo para enxergar. Luta, água... renovação. No escuro, depois de ter me enxugado, volto a sentir o aperto no peito, mas ele já não faz tanta pressão.

Não abro a janela. Não deixo a luz entrar. Não permito que o som quebre o silêncio. Assim fico, em órbita, pairando pela massa negra do espaço entre um querer e outro. Permaneço coberto com a colcha de estrelas que o universo deixou gravadas na memória. Brilham rostos, sorrisos, vozes distantes, cheiros, gostos, toques... As memórias me cobrem e o aconchego da solitude invoca um bocejo de exaustão do espírito. Um sono diferente desperta meus sentidos para outra esfera da não-consciência. É nesta hora que acordo pra vida – aquela que pesa, dói, angustia e só alivia quando eu, encolhido feito um planeta ensimesmado no próprio eixo, sussurro de meu universo particular...

Hoje eu preciso de mim aqui. Só de mim... como poeira no cosmos, dançando sem música. 

segunda-feira, 11 de março de 2019

Procure por mim dentro de nós

Senti você chegando quando as janelas arrebentaram. Invadiu a casa, passou pelos corredores e trombou em minha porta. Batia, batia, sacudia a maçaneta e eu não levantei para de deixar entrar. Tinha medo dos seus trovões, mas desejava, secretamente, enquanto cobria a cabeça com os lençóis, que você conseguisse me alcançar. Era bom quando eu me deitava sobre suas nuvens carregadas. Pequenos raios ouriçavam os pelos do meu corpo enquanto você suspirava em minha nuca seu desejo por mim. Agora, não consigo mais permitir você chover no teto sobre minha cama. Não consigo porque sei que isso te machuca. Toda vez que te deixo ser o vendaval sob meu peito, sinto que nos perdemos um pouco mais. Eu te deixo. Você vai embora resmungando baixinho, pingando aos poucos, sabendo que eu preciso amanhecer mais um dia e me secar ao sol. Eu preciso, sim, do calafrio que me causa seu olhar, não há como negar... Eu preciso dançar contigo na ponta dos pés e te conduzir ao ser conduzido, mas eu também preciso que você precise de mim. E você não precisa. O que você quer, não sou eu, mas o que eu posso te dar - um lugar pra tempestear.  

Eu não posso me dar a você. O que eu te dou é o nós, entende? 

Quando você me disse “Procure por mim na tempestade”, pensei que estava brincando. A verdade é que você não estava brincado. Você realmente estava na tempestade. Eu te vi, nu, completamente suspenso no meio do turbilhão, banhado da prata cintilante que escoria dos raios, com os braços acompanhando o descompasso das ventanias... Você, tão lindo, tão pesado sem nem sequer encostar os pés no chão. Eu sabia que jamais conseguiria te alcançar, de fato. Não se pega a tormenta com as mãos muito menos com o coração. Eu te vi e quando você me viu, sumiu. Envolveu-se numa neblina densa. 

Não entendi, afinal, se mandou que eu te procurasse, por que se escondeu quando te achei? 

Enquanto trancava a porta do quarto, já aguardando sua chegada, eu entendi tudo. Eu senti tudo. Eu entendi nós. Você não me pediu para te achar, mas sim para que procurar. Bastava eu seguir a tempestade sem medo dela, pois era você que a condizia. Você queria me ver caminhando, seguindo adiante mesmo quando suas fúrias traziam ruína pras alturas. Você queria me ver mudando, transformando-me a cada passo. Queria me ver mundano, por aí, adiante, andarilho cujos olhos não mais se espantam com o constante desconhecido. Você queria, mas eu ainda não. Não sabia o quanto viria a precisar de forças pra andar sozinho. Por isso eu voltei pra casa, sem você, com nós guardados em algum cômodo. 

Quando eu parei de caminhar e me escondi nesta casa, achando que você simplesmente não me queria mais, veio a chuva forte cair sobre o telhado, avisando-me sobre sua chegada. Nunca pedi para você me procurar neste lugar. Não disse que você deveria vir atrás de mim. Eu quis parar e ficar, eu quis me tornar poça de água. Quis porque precisava me recolher e entender o que tinha para ser sentido. Sentir que eu havia entendido o porquê do seu olhar ter escapado do meu. Tenho medo de te deixar entrar e nunca mais querer que saia. No fundo, nunca deixei de ansiar pela sua brisa firme e cortante que passava pelo meus rosto como um respirar ofegante. Eu sempre te procurei na tempestade, só não imaginei que seria um problema te encontrar. Não entendi, à época, que era sobre a busca e não sobre o encontro. 

Estou aqui, trancado, porque eu não quero viver perseguindo seus rastros, caçando seus redemoinhos em cada esquina. Desta casa para fora, você pode existir e ser como é. Pode continuar sendo a tempestade que lava o chão, que sopra a poeira do ontem e fecha o topo do mundo toda vez que precisa desabafar suas mágoas e raiva. Aqui dentro, não há espaço para tanta força. Sinto saudades de quando você só chovia e me enchia. Hoje, sei que você irá me sacudir e eu não mais poderei evitar o que já evito todos estes anos: segurar meu corpo para que ele não se perca nos ares da liberdade que aprisionou meu espírito num eterno labirinto onde não consigo me apegar a nada e sigo solto, como se eu não tivesse acontecido. Nem você. 

Tenho medo de como você me força a ter força e pisar firme. Como me faz proteger os olhos da forte geada e enxergar para além do branco infinito e frio. O medo... o medo que eu tenho dos seus trovões que ensinam aos meus ouvidos como ouvir o retumbar do coração... Eu tenho medo da tempestade que você causa em minha vida porque ela me obriga a querer sobreviver e sentir, todos os dias... que eu preciso te procurar dentro de mim, onde nem mesmo a porta trancada pode nos separar. 

Você é a tempestade de habita em mim e toda vez que eu te busco, é a mim que eu encontro. Aquele que me ensinou a dançar com os ventos nervosos , descalço, enquanto choviam os raios e caíam sobre meu rosto os pingos grossos, quentes e salgados. 

Agora é você que procure por mim dentro de casa. 

Dentro de nós. 

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Eu te busco | Você me leva


Das coisas bonitas que você faz sem mim, fico imaginando se são todas elas lascas de saudade. O dia não passa, ele se estica até alcançar o auge da minha vontade de te ver. Aos poucos, entardece e o sol se acomoda atrás do longe, lá, distante, onde eu sinto você aquecendo os ombros montanhosos do horizonte. Metade do seu rosto está ensolarado, a outra, coberta pela sombra de si mesmo. Neste momento, eu te vejo por completo. Então me aperte contra seu corpo ainda pelando, ainda distante, crepuscular. Esta é a hora do dia em que a gente se busca depois do trabalho.

Eu te busco.

Não estou bem, para falar a verdade. Você aqui, ao meu lado, é das coisas mais bonitas que imagino sem ter. Um "querer" porque faz bem imaginar. Quase como passar açúcar nos lábios e deixar que eles sequem. Assim, aos poucos, o doce do veneno unta a boca e enche a garganta de sede. Um "querer" porque é gostoso, mesmo não me fazendo bem, pra falar a verdade.

E se você me perguntar o que estou fazendo de bom enquanto estamos longe, direi sem demora: me preparando para a sua volta. Pra ser sua volta. Pra amanhecer aqui, comigo, amornando de leve minha pele, com um beijo seco perfumado de café. Esta é a hora do dia em que a gente se leva antes do trabalho.

Você me leva.

Eu te anoiteço, você me amanhece. 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Corre

Corre como nunca sem olhar pra trás sem dar tempo pra vírgula separar ele do passado que não estava ali pra perseguir, mas... agora respira.... para seguir as pegadas deixadas na vastidão do futuro incerto. Quem diria que estas pernas tão magras, estas canelas tão secas, durariam tempo o bastante pra fazer do distante o aqui e o agora?

Ele enche o pulmão e acelera novamente...

porque ninguém diria e por isso mesmo ele foi sem pensar no não dito só mirando o horizonte e querendo saber o que teria lá do outro lado onde apenas se enxerga com os olhos da imaginação e imagina só chegar a um lugar onde o começo se deita numa linha eterna e nunca mais se levantar era lá que ele queria estar descansando seus ombros tão tensionados pelo tempo perdido com pessoas com trabalho com barulhos com comidas sem tempero com lugares cheios com conversas vazias com garrafas vazias com briga com barriga dolorida de tanto nervoso com mudança de planos com encontro cancelados com mensagens não respondidas com respostas não enviadas com tudo com todos consigo mesmo com a distância que só lhe fazia... perder.... o fôlego.

Solta o ar, sente o corpo endurecer, finge algumas passadas mais lentas e...

retoma o compasso para não perder o pouco espaço compassado e começar novamente e lembrar de tudo que o deixou angustiado todos os dias desta semana interminável e agora é o momento de gastar energia queimando ela com algo que tire do peito o que estava preso nas ideias e pesou ah se pesou faz uma força continue adiante mais rápido veja só agora ele esvazia a mente como se nada absolutamente nada tivesse acontecido achando que isso é que é deixar pra trás o que não lhe fazia bem e meu bem ainda bem que daqui pra frente

Ele não para mais.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

De novo

Não é que não cabia. Havia espaço. O que não sabia era como encaixar. A forma também não era o problema, mas faltava posição, jeito, manha. Então, recolhia as peças e guardava na gaveta. Deixava lá, pra lembrança engolir e cobrir de poeira. Peça por peça, pedaço por pedaço, mudas, dentro do criado. O problema não era o que eu sentia. Não havia problema em sentir, mas demorei pra entender.

Nós.

A viagem já estava marcada. A decisão de ir pra longe - e sozinho - veio junto com uma velha vontade: aquele de se perder sabendo pra onde vai. Algo como se lançar ao desconhecido, sabendo que, de fato, trata-se do desconhecido. Uma necessidade que é complicada porque nasce simples: sair. Partir. Um parto, natural, que faz brotar toda a complexidade do ser, resumida num pequeno humano. Partir era o plano. Agora, cabia apenas encaixar os dias nos pedaços de tempo e organizar tudo. Nascer em outro lugar era preciso. Já não havia tanto espaço assim aqui, onde mesmo com posição, jeito, manha era difícil achar alguma forma de encaixar. Inclusive, esta nem era mais uma preocupação a berrar no canto das ideias. Havia emudecido esta tal vontade de encaixar. Demorei pra entender.

Eu.

Hoje ouvi uma música. Apenas uma, e nela fiquei. Bastava. A sensação preencheu o fundo da gaveta e o criado mudo abriu a boca. Suspirou, não disse nada, mas eu entendi que era pra ficar e fiquei. Parado, ali, olhando pra ele, tentando encaixar aquela letra que passava de um ouvido ao outro, pelo fundo da cabeça, dizendo que "todo carinho do mundo para mim é pouco". Remexi algumas peças escondidas, olhei seus pedaços, cada um mostrava fragmentos da sua foto. Os olhos distantes do rosto, mas perto do coração, como janela; a boca partida em duas, metade sorria, metade morria; as mãos, sem a maciez do toque, formavam um pedaço inteiro da imagem por conta das palmas bem abertas, esperando as minhas preenchê-las. As minhas mãos, do outro lado da moldura, encolhidas e cheias de pedaços que começaram a se encaixar. Senti falta. o problema não era o que eu sentia. Não havia problema em sentir, mas eu demorei pra perceber que o problema "é que eu amo você... e eu nem sei por que". De novo.

Você. 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Tempestade

O tempo fechou. Ele estava no quintal, brincando com terra e plantas, quando percebeu a mudança no ar. Aquele mormaço que preenchia todo o espaço começou a ser cortado por sopros frios e apressados. O pequeno menino, por volta de seus 5 anos, levantou os olhos até o céu e viu que as nuvens estavam inquietas. Pouco a pouco, o manto cinzento cobriu as luzes de sol e a tempestade se fez presente. Ao invés de correr para dentro de casa, o menino correu foi até a rua e lá esperou pelos primeiros pingos que mais pareciam pedradas.

Trovões não o assustava. Gostava daquele retumbar que estremecia a carne e os ossos. De braços abertos, ele recebia os ventos cada vez mais furiosos. Por entre seus braços e pernas, sentia como se estivesse flutuando. Quando já não cabia mais água no alto e chão debaixo dos pés, caiu o mundo e o voou o menino.

As árvores dançavam com ele, conforme a tempestade orquestrava. Como se o corpo se transformasse num tornado, ele rodopiava, pulava na altura dos joelhos, mexia todos os membros de acordo com o ritmo do toró. Ventava mais do que os próprios ventos, aquele pivete, sozinho. A tempestade, surpresa com tamanha calmaria em meio às suas trovoadas, banhava com suas lágrimas de raiva aquele pequeno ser e, com seus raios, dava a ele o brilho prateado que só sua pele escura poderia refletir. 

Foi assim que ele recebeu a tempestade: leve, pequeno, com um sorriso gigante, de espírito aberto. Procurou-se em meio à ela, a tempestade, e, enfim, encontrou-se.

...

O tempo acabou. A rotina parecia nunca se saciar. Consumia todas as horas possíveis – e impossíveis – sem que fôssemos capazes, muitas vezes, de encontrar algum momento sem nenhuma tarefa a ser realizada. As reclamações quanto à falta de espaço dentro do tempo não são novas, pelo contrário: são tão constantes que acabam por consumir mais tempo. Irônico, inclusive. É o trabalho que pega a maior parte do dia pra si, mas é a ida e volta até ele também. Durante o expediente, reuniões, problemas, soluções, reuniões, comunicados, demandas, reuniões, acúmulo de trabalho, corrida contra o relógio, horas-extras, fim do expediente, reunião urgente.

Ao sair daquele local que tenta parecer com sua casa, mas nada tem de lar, ele olhou pra baixo, em direção ao celular. Por mais alguns segundos, forçou-se a responder compromissos de modo curto e objetivo, temendo perder mais tempo. E por que perder? Porque sente como se estivesse no gargalo da ampulheta, nadando contra a corrente de areia que escorre constantemente. Então, percebeu uma mudança de pressão no ar. “É chuva, bem agora que vou voltar pra casa...”. O céu já estava vestindo seu traje mais escuro. Os cabelos grisalhos dela sacodiam imensos e densos. Mirou o par de olhos cansados em direção à velha amiga e conseguiu achar o tempo. Ele estava fechado, mas longe de acabar. Sabia que não seria capaz de se banhar ali, com tantos compromissos gradados em sua pele – escura, mas sem brilho. Decidiu que iria fazer seu percurso de volta caminhando. Andou, andou, andou bastante e, como se ela estivesse contente com a companhia, acompanhou o rapaz até seu destino. Quando ele pisou dentro da estação de trem, a chuva caiu. Durante todo o caminho, ele sentiu o sopro sobre o rosto e até achou graça nas rajadas de vento que ela soltava para assustar as demais pessoas – apressadas e temendo a chuvarada repentina. Lembrou-se de como dançava e mais: lembrou-se com quem dançava. Encontraram-se.

...

O tempo mudou. Finalmente, um importante ciclo havia se concluído. Foram anos de estudos, pesquisas, aprendizados e relações pessoais. A graduação exigiu muito dele, mas como se portasse um cinismo crônico, parecia que nada lhe atingia a ponto de causar insegurança. Fez o que tinha que ser feito e terminou aquele compromisso. Não só aquele, inclusive. Terminou também o amor que havia cultivado. Esgotava-se ali algo que havia lhe preenchido. A terra voltava a secar e a ele só restavam as lembranças pra lançar ao ar. O cigarro o acompanhava. Cobrava muito de sua saúde, mas era a fonte de distração que o ajudava a descansar a mente. Pela janela do seu quarto, olhou o horizonte e viu, distante, porém crescendo com rapidez, a nuvem escura e gigantesca. Não se lembra da última vez que reparou na tempestade. Enquanto se formava, ela anunciava sua presença com os raios impacientes e ele, como de costume, apenas aceitou sua vinda. Era uma velha visita que chegava em boa hora. Sentado, com as pernas para fora e a fumaça para dentro, arrepiou quando a pele – escura e marcada – foi acariciada pelas pontas geladas dos dedos dela. Era aquele retorno repleto de saudade que faz chegar com frieza, cautela, mas com vontade. Pela primeira vez, ele decidiu conversar com ela. Um trago...

Chova, chova em mim, mais uma vez, minha amiga, minha mãe, minha parceira. Você que sempre me acompanhou... Que sempre soprou minhas feridas sem deixar de punir meus pensamentos tortuosos com seus trovões...Você que me ensinou a ser bravo e, mesmo assim, amável.  Sei que estou em dívida contigo. Ando sem tempo para prestar atenção em ti quando chega. Eu já não danço mais na rua, você percebeu, né? Pois é, tempos difíceis. Eu falo muito de tempo, reparou? Ele foi embora, sabia? Acabou. Senti um peso no peito, uma vontade de nada, apenas de desaparecer. Mas desaparecer de que jeito? Não tem como, não agora. Aí eu tento me esconder em meio à essa fumaça aqui, entende? Eu sei que você odeia ela, mas sei que me entende... Quando eu fecho os olhos, ainda te sinto me olhando, vendo eu dançar. Quando você rasga o céu com suas reclamações eu também sinto a vibração debaixo do peito. É nos detalhes que eu te encontro. Quando minha pele brilha, também. Desculpe pela distância.

É só uma questão de tempo.

Os cantos


Mantenha-me. Guarde um lugar para mim onde só você consiga chegar. Estarei no canto que ninguém nunca olhou. Um lugar perdido na realidade que, sem se mover, consegue te levar até mim.

Eu estarei lá, no detalhe que consegue chamar sua atenção. Assim, poderá me encontrar, sempre que quiser, e recordar as cores que tingiram a trilha sonora pros nossos sentimentos. Azul, rosa e laranja, borrados no céu entardecido, como se tivessem sido pintadas a dedo no céu. No canto do seu peito eu alcanço o teto onde brilham as lembranças que jamais desaparecerão. Eu moro em você porque você me fez abrigo, simples assim.

Um canto pra mim.

Quero que continue me sentindo. Toda vez que o calor suave do amanhecer tocar seu rosto, lembre-se do meu toque. A cada som que fizer seu sangue vibrar ritmado e devolver ao corpo sua eletricidade, feche os olhos e imagine nossas cores. Deixe-me tocar, dia e noite.

Azul rosa e laranja. Somos nós, dançando, misturados, tom sobre tom, escorrendo pelos cantos da tela, para sempre. Eu jamais te esquecerei. Você é música. É a cor pras minhas músicas favoritas.

Estarei nos cantos que nunca ninguém cantou. Só você.

Eu jamais te esquecerei.

Um canto pra nós.

(Em memória àquele cujo silêncio se fazia canção). 

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Olhe pro chão

Meus joelhos viviam ralados na infância. Eu corria muito e não capotava. Porém, eu tropeçava demais enquanto andava. Isso porque eu não andava olhando pro chão: eu olhava pra frente, mirando o horizonte. Meu pai, que sempre implicou com tudo o que eu fazia, era quem saía comigo e já nos primeiros segundos de caminhada lançava um: "Olha pro chão, rapaz! Vai tropeçar e cair aí".

Eu abaixava a cabeça e olhava pra porra do chão. Não via muita coisa além do caminho de barro, asfalto, mais um teco de barro, asfalto, esgoto, barro, asfalto, pula a merda do cachorro, esgoto... O que mais me irritava era, primeiro, meu pai, depois o fato de ter que andar de cabeça baixa. Eu queria andar igual minha avó, mãe de meu pai, cabeça erguida, postura intacta, passos compassados. Só que com ele não tinha o que querer. Era andar olhando pro chão pra não levar xingão.

Uma vez, tinha saído com minha avó e falei pra ela que o pai vivia me dando bronca pra andar olhando pro chão porque dizia que eu iria cair se não olhasse e isso me irritava. Ela perguntou o porquê da irritação e eu disse que não queria andar de cabeça baixa porque parecia que os outros iam achar que eu estava com vergonha deles. Daí, minha avó, no auge de sua sabedoria, disse:

- Seu pai pediu pra você baixar os olhos, não a cabeça.

Nesse momento, tudo fez sentido. "Olha pro chão". Hoje, ando exatamente do jeito que - ambos - me ensinaram: cabeça erguida, visão baixa.

Por que resgatei essa lembrança? Porque hoje, enquanto conversava com um amigo querido sobre sentir que nós, enquanto povo, estamos andando para os lados e não para frente, pensei: tudo isso porque estamos mirando o horizonte sem prestar atenção em nossos passos e onde estamos pisando. Porque, ao mirar apenas o além, não conferimos sobre quais caminhos estamos andando. Consequentemente, passamos pela estrada dos outros - uma espécie de labirinto que nos impede de progredir. Gastamos nossas energias tentando resolver o problema que os outros criaram. Andamos de um lado pro outro.

A gente capota, levanta e acha que anda pra frente. Entretanto, na verdade, só estamos limpando os joelhos ralados e não olhando pra onde deveríamos realmente olhar.

Pra nossa caminhada.

sábado, 20 de outubro de 2018

Maria Zilda

A lembrança é o que nos faz sentir o presente e ver o futuro.

Maria Zilda, irmã de minha vó, logo, era minha mãe e tia, porque aqui era assim que a gente se sentia. A mais velha, rígida, ereta, esguia, com as frestas da cara talhadas na incansável força da mulher preta nordestina que quando estava imersa no cotidiano, segurava os cabelos com o turbante sempre perfeitamente amarrado - e quando descascava a manga com a faca cega, deixava o crespo reluzir no sol, mostrando pra ele quem é que raiava de verdade. Primeira vez que viajei para fora do quarteirão da minha vila, fui para Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Eu, minha mãe e meu irmão.

Descemos do ônibus num suposto terminal - que, na verdade, era só um ponto parado na beira de uma rua qualquer - e fomos encontrar tia Zilda no local combinado. Desencontros à parte, quando ela chegou, o alívio veio junto. O vestido florido, o turbante, a altura, os óculos gastos e a visão infalível de quem enxerga os outros pelo movimento - e não pela imagem estática - formavam a matriarca em nossa frente. Pagou-me um suco de goiaba naquele calor que parecia um abraço de saudades que já vem com todo o suor escorrido ao longo do longo caminho.

Em sua casa, o cheiro foi a primeira sensação a me dominar. Era cheiro de de quem não deixava um cômodo sem ser lustrado; um taco sem ser encerado; um móvel sem ser espanado. Tia Zilda, como a maioria das mulheres de minha família, ganhou a vida limpando a casa dos outros. Perdeu muito, só que ganhou comida, então, ganhou a vida. Em seu quarto, eu me encantei com as joias e as bonecas de porcelana extremamente perfumadas. Um Jesus ensanguentado nas paredes e o teto era varado pela luz que encontrava aconchego por entre as telhas. O quarto ela era tipo um universo: tinha começo, meio, alto, baixo, e fim. Fiquei lá por alguns bons minutos até ela me chamar pra tomar banho na bica.

O quintal dos fundos tinha um cano que servia de chuveiro pra gente se livrar do calor. Eu fiquei tímido no começo, mas depois não quis sair mais daquela cachoeira de PVC. Havia uma mangueira gigante aos fundos, com uma copa digna de fazer a maior sombra do terreno. Eu já imaginei o dia seguinte, debaixo dela, tranquilo, largado. Mas o dia seguinte não foi bem assim.

Tia Zilda precisava de frango, farinha e feijão preto. Minha mãe ficou encarregada de ir buscar. Subimos uma ladeira enorme, debaixo do sol e - eis aqui o motivo desse texto - uma música tocava em todos os comércios, sem parar, bem alto: "Beija-flor", do Timbalada. Pra mim, foi a trilha sonora do Rio de Janeiro, da quebrada de Duque de Caxias, onde eu cheguei pela primeira vez e por mais uma vez me senti em casa. Era rua, era calor, era gente falando alto, era bicho correndo entre as pessoas correndo, era subida, ladeira, era pico, lá em cima, era mercadinho, era farinha no saco - não na embalagem -, era galinha que minha mãe escolhia sem olhar nos olhos, era frango quando fosse pro prato, era feijão preto pago com moeda. A música entrou em mim como se dissesse: "você vai estar com 31 e ainda falará de mim". No caso, escrevi.

Tia Zilda fez o melhor pirão de todos e o feijão preto dela era só dela, não tem receita que aprenda a fazer como ela fazia. Tia Zilda, como eu te amo até hoje, a senhora sou eu também. Duque de Caxias sempre será a senhora e quando eu piso no Rio, peço sua bênção, assim como a de sua outra irmã, Josefina.

Ela me trouxe farinha quando veio me visitar aqui, em São Paulo, porque comida sempre foi uma forma da gente se conversar em minha família.

Porque o silêncio da fome era algo que a gente evitava com tudo o que tinha: frango, farinha e feijão.

Quando tinha.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Suco de manga

Rastejando, chego até suas pernas, sinto o sangue pulsando e o calor que sempre desejei ter dentro de mim, pulsando. Viril, venoso e venenoso. A dúvida é: será que subo ou será que mordo? Será que fico ou será que finco minha boca na sua pele? Dúvida nenhuma. Eu sei bem o que quero, só não sei ainda como me convencer a fazer o que quero. 

O cheiro. Sempre tive um problema com cheiro. Não sei se posso chamar de problema, mas é algo que me tira a razão. Eu sinto, eu sinto entrando dentro de mim e vai aquecendo o caminho por onde passa. Vai ficando quente e meu corpo começa a se mexer como se estivesse em ebulição. As pernas se fecham tentando evitar o impulso que faz o corpo ir até o outro – o seu – e tirar um pedaço pra comer com as mãos, sem talher. O cheiro da respiração quente no cangote, fervendo cada pelo invisível da nuca, fazendo escorrer suor pelos cantos sem suar; sobra só a sensação do sal salgando o par, nós dois, e o seu sussurro que me diz tudo sem ser chato e previsível. Eu quero é mais. Põe mais gosto nessa sal. 

Levanta daí, vai. Dança comigo. Faz o calor ser trilha sonora à flor da pele. Conjuga o verbo errado no imperativo do meu querer – e só do meu – a dizer que te quer porque pode. Porque eu mereço. E mereço você só pro meu eu. Não tira o mormaço e só assopre se for pra apagar o que já está no talo do filtro e pegar outro do maço. Eu quero 22 motivos pra continuar envenenando a fonte do meu bafo quente que te faz voltar todos os dias no mesmo horário, pela manhã da noite não dormida. Tô esperando você buscar no crepúsculo cotidiano um motivo pra vir na minha porta filar meus cigarros. 

Essa música maldita que me excita de um jeito que eu não sei explicar, mas é algo parecido com descascar uma manga com as mãos e chupar todo o doce em busca do caroço – que não tem gosto de nada. E quando chego nele, o tal caroço, passo pelos lábios aquele rastro de dureza, rigidez, aquele pedaço impenetrável que num deslizar de mãos lambuzadas vai parar dentro da boca, faz babar, engasgar e, então, cuspir. Suco de manga. 

Alguém tira essa música maldita ou aumenta o volume de uma vez por todas?!