quarta-feira, 4 de abril de 2018

Queimando embaixo do peito


Eu tive que deixar o fósforo cair por entre meus dedos e atingir o chão. Observei o fogo se espalhar pela madeira, varrendo tudo o que era vivo e cobrindo de cinzas as suas pegadas. Sentei na beira da janela – como você tanto odiava – e continuei a observar. Eu era o incêndio e a casa, eu era o incêndio e a casa, ao mesmo tempo, sendo assistidos por mim no lugar que você mais odiava. Foi o mais próximo de nós que consegui chegar no momento de dizer adeus.

O ranger de cada canto parecia tentar me convencer a tomar alguma atitude antes que tudo fosse tragado. A cama berrava as frases que você me disse no dia em que me enganou e tratou meu corpo como corpo, um nada que não se encaixava ao seu tudo; as escadas pediam para que eu desistisse da paralisia que me confortava e pisasse nos mesmos degraus que você havia pisado quando me levou em direção ao quarto; mas eu não me mexia.

Pouco a pouco, o calor começou a me envolver. Lábios secos, sem lágrimas pra salvar, eu já não sentia muita coisa além do ar a desaparecer. Acostumado com a fumaça dos cigarros, naquele instante só me restou aproveitar a chance única de fumar o passado. Aquela casa, o passado. Fumar o que havia sobrado de você nos móveis, nas paredes, no banheiro.

Da janela, consegui imaginar seu rosto furioso me mandando descer. Sua raiva vinha do medo de que eu caísse para o lado de fora. Eu achava graça na sua preocupação e, às vezes, desafiava ela justamente para me sentir pego pelo seu olhar. Hoje, por mais que o espectro dele esteja diante do meu, a queda é inevitável. Um pequeno impulso para trás e lá não estava mais eu.

O fogo, a casa, o incêndio, a janela, eu não mais nela, você, pra sempre confinado nos meus pulmões.

O ar que eu não respiro mais.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Páginas Pretas IV

Eu... prefiro cair pelos cantos
do que me render ao ouvido do outro
sempre atento e eu, nunca mudo,
pronto pra me deixar entrar e não sair
da sua mente. Aquela que está bem
que está saudável e que vai me dizer
como arrancar o caroço em minha mente.
O pedaço duro que não serve de semente.
Mesmo com rima simples eu
sei que ele não vai entender.

Chego, entro, sento, olho e fico
parado diante do outro, tentando dizer
mas calado.
Travado, não consigo me mexer,
é estranho, é forçado, mas não faz tremer
nem suar, nem nada.
Tá tudo bem? Tá. Não parece.
E se for falar, vai soltar à mesa o que não
faz sentido algum. No final das contas, quando
fechar o bar, o conselho será: você precisa procurar ajuda.

Sentei por quê? Aceitei por quê? Existem conversas que
só existem porque não são anunciadas.
Elas simplesmente surgem do entendimento a
respeito do que está em jogo e se entregam
à competição de narrativas.
Se eu te contar o que estou sentindo, você vai me dizer
o que eu gostaria de ouvir?
Se sim, então fale logo.
Se não, dá licença.

Lá dentro as frases gritam. Elas berram o
que eu deveria dizer pra gente se entender.
Mas não consigo. Parece que engasgo e
fica tudo preso entre a garganta e a nunca.
Posso bater no peito que não adianta.
Cavuco, acaricio, mas nada, nada sai. E aos poucos
eu o vejo desaparecer de mim. Ele desiste de
tentar me resgatar.
Ele cansa de tentar conversar e
me convencer a me ajudar.
Quer sentimentos leves, quer um toque macio
quer aconchego no sorriso constante da outra
E eu só sei estar vazio.
Ele simplesmente some.
Eu, finalmente,
começo a me sentir

como um peso.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Fruta escura


O medo deles, os pálidos, era o de que o filho da terra escura germinasse mesmo com todo o sal que jogaram em seu berço. Mas ele cresceu. Ele brotou pra fora todo o ódio e, sem pensar duas vezes, aproveitou a primeira chance que teve de cortar seu mal pela raiz. Como erva, começou pelas frestas, pelos cantos. “É dos lugares que ninguém olha que eu vou me espalhar feito daninha no jardim dos salgados”, dizia ele, agora caroço. 


Das mãos antigas, ele, o próximo de sua árvore genealógica, foi jogado pro ar para poder respirar entre os cachos dos ventos. Semeou-se nas entranhas da mãe e com a inchada do pai foi plantado para fora do quintal. O mesmo garoto, o mesmo ódio correndo pelas vinhas, os mesmos frutos férteis, quentes e vivos que não apodreceram ainda que arrancados do galho a chicotadas. O ódio que nutriu tanto quanto amor as árvores já crescidas deu forças para carregar as folhas secas do povo da terra. Dos que se foram, dos que não aguentaram e se foram, caindo amarelados pelo tempo. Adubo, cada um deles e delas virou adubo e abraço úmido que curou, fortaleceu e fez florescer quem hoje amedronta os inférteis com suas raízes robustas. “Floresçamos, eu, vocês, nós, sempre, sempre à flor da pele escura”, dizia ele, agora broto. 

Cada marca na casca de madeira anoitecida talhou uma lembrança amarga, mas delas, e somente quando sentavam ao seu redor para ouvir suas memórias, escorria a seiva doce capaz de untar os lábios secos por uma simples palavra de consolo. “Sente debaixo da minha grandeza e aproveite a sombra que eu faço, aproveita que comigo, todo mundo escurece e se reconhece. Todo mundo cresce quando escurece”, dizia ele, agora ramo – o rumo.  

Durante as conversas sob a penumbra ainda havia muito ódio nas frases ditas e mais ainda nas silenciadas.  O olhar dele percorria os outros olhos, buscando nos pares seus semelhantes – aquelas outras metades agora juntas, quietas, e ainda muito lascadas por cada caule à boca que as tentaram emudecer. Naquela noite cujo fogo não passava de um mero convidado a ouvir o que o garoto – já homem – tinha a dizer, a floresta se fez. Toda vastidão do breu retomou para si cada lote, cada pedaço, cada chão tirado à força, arrancado dos pés. Disseram os salgados que tentaram devorar as selvas e savanas: “vocês colhem o que plantam!”. 

“Então, vocês colherão o ódio. Nós, os frutos”, dizia ele, agora mata.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Raio de areia

Nestes dias de noite por dentro, eu viajo sozinho pelas vielas que desenhei com a ponta das unhas. O mundo petrificou meus pelos e cobriu de cinza a pele toda. Deixei por onde passei rastro e marca das palavras que me faltaram à boca, mas nunca à mente. Nublado, senti o cheiro de chuva que se aproximara subitamente e aceitei, a cada trovoada sob o peito, a chegada da tempestade. Cortava o céu o raio em busca das areias que ainda me aqueciam por dentro.

O ritual é o mesmo: apago as velas, abro a garrafa, afogo a garganta, seco os lábios e chamo por quem não vai ouvir minha voz rouca de tanto cantar nossas músicas. Num cômodo pequeno, com espaço suficiente para sufocar meu desejo, fico enjaulado, temperando as vontades com álcool. O corpo é o primeiro a desistir e eu adoro. A sensação de queda sem se estilhaçar é algo raro, tem que saber desistir e se abandonar.

Eu, quando sinto que há chão debaixo dos pés, faço questão de me enganar. Finjo que estou bom, recuperado, sóbrio, firme, levanto e sinto o mundo rodar. Não sou de jogar nada fora, nem comida, nem bebida nem a mim, e acho que nem a você, mas quando as solas se cansam do concreto, do certo, do correto, jogam-se nas areias escuras do Kemet – sempre quente - que confortam e sepulcram aqueles que já morreram demais pra viver. Os pés, quase sempre rachados, afundam.

Volto toda manhã. Eu volto como aquela luz insuportável que corta as pálpebras e faz cada músculo do corpo recuperar suas funções e posições, tipo motor aquecendo pra sair, sem hora pra voltar, mas sempre com hora marcada pra partir. Aquele amanhecer que azeda por mostrar que ainda estamos azedos e o sono de ontem não foi o bastante. Eu sou assim, o despertar sem música, sem sopro, sem voz, só corpo, calor, copo seco, peso, carne, língua, osso, saliva, sangue, suor, dor. Te(n)são.

Há uma roleta de pessoas que se exprimem pra entrar no meu barril e ser a próxima bala a furar minha cabeça pra atingir o coração. Nunca saberão, entretanto, quando vão ser a bala da vez - ou o beijo da vez.

O que sabem é que entre areia e tempestade, vão sempre me encontrar, parado, afundando os pés. Relampejando as ideias.

Trovoando o coração.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Seu maço

Nem todas as minhas histórias foram tristes.

Não sei se era o jeito que você molhava os lábios ou me olhava. Ambos, secos. Ambos feitos pra se sentir tocando a pele. Eu estava na fase mais perdida da minha vida, onde só enchia o corpo quando enchia o copo todo e torcia dia após dia para que a terra virasse um grande deserto; que na beira da estrada eu te encontrasse pedindo carona com uma garrafa na mão e pronto para abastecer meu tanque cardíaco; que a gente se apagasse pelo horizonte, sem futuro, sem promessas, sem destino, sem planos. Nada mais do que a época da vida em que a embriaguez fazia com que sonhássemos de olhos abertos, enquanto sol estalava no teto do quarto. Era bom, sim, sentir o suor escorrendo e você bebendo do sal que saía da minha alma. Refrescava quando seu cabelo tocava meu peito e se espalhava pelo abismo, buscando abrigo nas profundezas. Você em mim. Era o seu deserto. Era o meu espaço. 

Corríamos contra o tempo, o tempo todo. A gente se dava bem porque não se dava com mais ninguém. 

Eu odiava o mundo, as pessoas, os deveres, eu odiava a música alegre, as cores fortes, os corpos perfeitos, os cabelos sedosos, eu odiava as capas de caderno com fotos de praias, odiava a escola, odiava os homens, odiava os perfumes alheios, odiava as vozes altas dentro de casa, odiava as vozes baixas dentro da cabeça, odiava os olhares, eu odiava as garrafas vazias, odiava a polícia, odiava deus, eu odiava a paz. Em meio à toda essa desgraça, a gente viu graça um no outro. Você odiava o mesmo que eu e daí nasceu o amor, bem bruto, bem grotesco, bem nosso - e o mundo teve que aceitar. Eram dias e noites deitados no chão do meu quarto, no telhado da sua casa, olhando para alto, vendo aquele céu forrado de madeira e estrelas enquanto o álcool corria para alcançar nossas veias. Só ele nos alcançava. Estávamos altos demais pros demais. 

Eu fumava do seu maço e você do meu. Você escrevia no meu caderno e eu no seu. Eu te vestia de mim e você me emprestava suas pulseiras. No outro dia, acordava sem ter você ao lado, fisicamente, mas quando saía da porta do quarto, a sensação era de ter todas as armas presas ao meu cinto: pronto para o abate. Era o cheiro da lembrança misturado ao do cigarro -  eu sei, eu sinto. Era o seu maço. 

Pelas ruas caminhávamos em silêncio, imaginando futuros e mais futuros em que tudo daria certo: nosso estúdio de tatuagens, nossa banda, nossa vingança contra tudo e todos. Queríamos a batida do caos sempre no volume máximo, conduzindo os dois corpos desérticos pelas esquinas; e quando nos sentávamos em alguma calçada para recuperar o fôlego, era nos seus joelhos que eu descansava os pensamentos. Não sabíamos fazer carinho, era pele e osso, pouca maciez, mas quando as mãos se encontravam, toda aridez das nossas palmas virava areia e a ampulheta do desejo deslizava rapidamente. Você acendia o cigarro entre meus lábios, dividia ele comigo, mesmo sendo do seu maço. 

Os dias e anos se passaram. Você mudou. Tornou-se tantos outros no deserto dos meus dias. Escorreu pelos cantos daquela imensidão alaranjada que eu sempre quis alcançar. Hoje você me busca de dentro de mim todas as vezes que as velas se apagam. Some, mas não sai de mim. Volta, faz com que eu me sinta novamente na beira da estrada, pulando de bar em bar, sem cansar, só caçando algum lugar pra ficar. Hoje você me conduz até para fora da luz e se cobre de azul durante a noite toda, tingindo cada parte dos meus cantos. Hoje, abro os olhos e me vejo sobre seu rosto, com o hálito quente, fervendo, escorrendo vontade pra que chova em cada marca que te marcou, em cada fresta aberta na sua cara. Hoje, eu me abro feito um cânion quando seu toque quebra o silêncio e as rochas que me cobrem e espantam os forasteiros. Hoje, eu não fumo mais. 

Mas o último cigarro que fumei foi do seu maço. 

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Não respire fundo

Um rastro de pólvora risca o meio da minha coluna. Desenha o caminho percorrido pela fúria quando, num instante qualquer do dia, sinto a implosão ruir tudo dentro de mim. A raiva, que há anos me acompanha, abre lentamente a caixa e pega um palito. Verifica sua ponta, aprecia aquele tom rosado, cômico, inocente e, então, risca-a com a superfície seca de seus lábios até que a faísca é invocada. Ela se aproxima do meu corpo, deita sobre mim, sussurra em meus ouvidos, “Não respire fundo”, e deixa que caia o fósforo sobre o pó acinzentado.

Cada segundo queima. 

Vão por vão da espinha, sinto a quentura se aproximando da nuca. 

Ah, se eu pudesse descrever a raiva que sinto...

(...)

Sob o olhar do lorde, os corpos ajoelham-se vazios, famintos, confinados na miséria da própria existência. Ele, antes um deles, brilha como sol gelado dos confins do esquecimento, reluzente feito pedaço de universo, escuro na pele, brilhante nos detalhes. Cegado pela raiva, penetra com o par de olhos opacos em meio à legião que o cultua. Percebe que a angustia traz aos seus a impotência da ação e decide que é do seu sangue que precisam provar. Do pó de si mesmos, erguem-se os caídos e seu lorde sopra em seus ouvidos o mandamento apagado: “Não respirem fundo”.

(...)

Pistola. Ferro. Peça. Há dias (quase todos) que ando pelas ruas engatilhado. Ando no gingado do bumbo que gira pelo bairro em busca de buraco pra muquiar as balas - aquelas ideias que não são trocadas. Saio com vários pensamentos ricocheteado na cabeça e, com o pente destravado, olho pros lados na fissura de um algo – ou de não ser alvo – como se algo ou alguém estivesse vindo pro arrebento. É puro tormento. Eu suo, eu soo, mas não corro. Todo dia o corpo endurece com se tivesse sido furado, só que não – ele está sempre preparado. Saio de casa sem dar adeus, porque pode ser que alguém ouça e impeça minha volta. Eu só saio, caminho, caço, deslizo, vou pela sombra porque nela eu sumo, não sou visto, não sou encontrado, fico no rastro de pólvora na estrada das costas dele, preparando o berro pra sussurrar na esquina da sua cabeça: “Não respire fundo”. Um corre, o outro escorre.

(...)


De longe, ele observava o movimento da boca à sua frente. Incrédulo, parecia não reconhecer mais aquele rosto. Era, agora, uma mistura de cinzeiro cheio de água com jornal molhado. Algo indesejável, incompatível com a figura que antes tinha direcionado seus sentimentos. Aos poucos, o estado hipnótico foi passando e então a temperatura crespuscular que misturava tons frios e quentes beijou-lhe a pele. Um arrepio, uma sensação de formigamento no rosto, suor nas mãos, secura na boca. A traição. Sua comida favorita sendo servida fria ou sem sal. Um prato vazio – e você sem vontade de cozinhar. Há fome. Muita. Mas ao invés de dormir para que ela passe, você ferve de raiva. A água quente na panela de seu peito começou a evaporar e ele, possesso pela raiva que ria de sua cara agora em banho-maria, ajeitava a espinha como nunca antes. Totalmente ereto, o outro lhe observa assustado e diz: “Calma! Respire fundo”.

Não.   

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Se tivessem nos dito

Se tivessem me dito que o amor doía, eu teria corrido. Corrido para fora do portão, até a calçada de casa, e esperar você chegar sobre o caminhão de feira, com cheiro de cansaço e fruta, de casca dura e polpa mole, lá do alto, a me olhar te olhar. Sempre, no mesmo horário, eu fugiria do meu dia para cair no nosso: um quadrado no calendário marcado com coração, verde demais pros outros, descascado e maduro para mim.

Se tivessem me dito que o amor corria, eu teria doído, pois o tempo passaria rápido demais e mesmo todos os anos segurando a vontade de te provar não teriam me dado a chance de ao seu lado caminhar. Caminhar e caminhar, sem parar, pelas ruas. Conversar sobre o universo com tamanho daquelas algumas horas em que estivemos separados, sentindo a presença um do outro há anos luz. Nossa rotina secreta - que transcendia as esquinas dos quarteirões - deixava pegadas incansáveis que eu fazia questão de transformar em rastro. Assim, sabia como voltar e te trazer de volta comigo.

Se tivessem me dito que o amor nunca morreria, eu teria amado. Mas dei outro nome, chamei de amizade, de amigo, de querido, irmão, de meu aliado. Tudo para não admitir que nascia dentro de mim um pedaço do sempre. Tive medo, pavor, receio, quando engoli o choro, mas não o amor, quando chorei de escorrer, mas sem escorrer o amor, quando gritei de angústia no travesseiro, mas não gritei que queria te amar, quando vi outros lábios nos seus, mas os meus, com amor, aos teus não consegui selar. Era pra sempre, aquele amor era pra sempre, mesmo doendo, correndo, morrendo, era pra sempre.

Se tivessem me dito que o amor intimidaria, eu teria encolhido – e não escondido - o meu pra te mostrar, aos poucos, que a grandeza dele não estava no tamanho, mas sim no peso. Que era pra ser pesado, mesmo, pra fazer seu corpo se curvar, sentir o meu e não ver mais graça na leveza dos dias longe de mim. Separados, leves, juntos, pesados, na terra branca, fincando as silhuetas nos lençóis, regando os lotes de cama com o suor, mistura de amor com pavor. Era pra temer apenas a pequenez dos outros amores que, pelas beiradas, tentavam acessar seu peito para nele encontrarem algum conforto. O meu, você podia encarar.

Se tivessem me dito que o amor crescia, eu teria cabido. Com joelhos esticando; braços desengonçados caindo em torno dos seus ombros; olhos abrindo as cortinas de cada amanhecer; com a voz oscilando entre o grave da discussão, o agudo da aflição e o sussurro da rendição; com todas as dimensões se expandindo, eu caberia. Teria tamanho o suficiente para alcançar o topo das suas ideias e me alojar lá, no pico, usando o seu amor para me esquentar. Mas eu não cresci com ele. Fiquei pequeno demais pra que você se sentisse gigante. Lá do alto do seu caminhão de feira, você me olhou, minúsculo, e não percebeu que...

Se tivessem te dito que o amor é detalhe, você teria me amado. 

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Cobra criada

Na caçada, a presa vira o jogo, revira o corpo e trança o pescoço, inverte a corrida, quando vê já tomou o ferro e o berro agora aponta pra ponta contrária.

E agora quem caça? Qual nuca é mirada? Quem sua agora soa o estalar do gatilho. Quem nunca é caça? Com atraso, chega a hora, sem bater na porta, escorrendo pelos pulsos e economizando ponteiro de quem calculava a morte a cada segundo. Questão de tempo.

Vem buscar, vem pro arrebento do seu peito estilhaçado na bala de sal. A ferida ainda queima, salpicada de pólvora, sem anestesia, sem amortecer, sem massagem. Deixa a sorte ser morte. Questão de veneno.

Respira fundo e busca lá no teu túmulo um suspiro de paz. Agoniza que agora é o momento. Hoje não é dia da caça, é dia de quem caça dor. Grita, chora, implora, pé na sua cara, agora a gente cobra. Pica seu calcanhar até o barril esvaziar. Saraivada de mágoa pro seu peito envenenado. Olha bem pra essas escamas aqui, grava na lápide da sua memória cada palavra sibilada. Quebrei sua casca, caiu seu véu. O revide é remédio pique antídoto pra quem só destilou fel.

Eu não tenho pena, não me deram asas. Já me viu voar? Sou rasteiro, não faço barulho, sinto seu cheiro de longe, armo a mente, armo os dentes, preparo o bote, quero seu calcanhar. Sou sorrateiro.
Vem me caçar, mas vem sem pressa de voltar. Primeiro senta, depois chora, primeiro sente, depois ora, depois espere pra provar se Deus sabe o que faz. Se ele existe e se consegue te escutar. Teotoxina, coaguloArrogante, cosmoAgonia. Com todo esse arsenal na ponta de minha língua, eu jamais me esconderia num pomar.  

Aqui, a serpente não tenta. Ela consegue.  

Aqui não tem gênesis e maçã. Aqui tem gênero lachesis.

Páginas Pretas III

Há exceções.
Há momentos em que não somos.
Nestes momentos, eu me encontro, novamente, angustiado.
Todos estes anos e tudo o que desejei era o que ninguém mais queria:
uma vida normal, uma vida simples, rotina.
Cada dia, um drama, um tiro, um grito, uma panela batendo.
A mãe gritando, irritada, sempre pronta pra partir pra cima.
Batendo.
As marcas ficam, não na pele, mas no espírito.
A alma fica roxa, machucada, assim, cismada. Não confia.
Vazia. Confina. 

Fiquei sozinho te esperando não chegar. Há exceções, menos para o esquecimento.
Fui jogado no limbo do descaso, na noite em que tínhamos algo marcado.
Marcou, mais uma vez, a alma.
Passo sobre o viaduto, olho para a longa linha de carros a rabiscarem de luz o asfalto.
Paro, logo, penso: além de mim, quantas pessoas passaram aqui hoje pensando em pular?
Sanidade, cidade, noite, abandono, eu por eu mesmo, no caminhar, voltei pra casa
Pelo menos o caminho eu ainda sei.

A transição da sensação me muda. Desloca, muta. Perco o endereço, o CEP, não sei.
Só sei que é fúria. Três faces da mesma moeda, sem cara, nem coroa, três irmãs.
Furiosas.
Não tem grito. Não tem briga. Não tem soco. Não tem tiro. Silenciosa, a fúria se faz assim.
Corrói o vácuo, arranha as paredes do vácuo, estilhaça as vidraças do vácuo.
Ela ocupa, toma conta, sem dizer nada. Ela se espalha.
Há exceções. Menos pro excesso de nada.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Os silêncios

São as vezes que me calei que ainda ecoam aqui dentro. O maldito não dito, a conversa muda, o falar pelos cotovelos impossibilitados de tocarem a boca. Tantas vezes que hoje contam à mente história não vividas, mentiras prontas, farsas. É isso que resta quando deixo de falar. Ainda bem que nunca deixo de escrever.
(...)

Naquele dia, eu já tinha o discurso pronto. Chegaria até você e, sem rodeios, anunciaria o fim. Chegando no café, sentei-me diante de você e calei. Não disse absolutamente nada. A conversa seguia, as frases mornas, as perguntas vagas, o desinteresse posto à mesa. E eu não disse absolutamente nada. Tudo o que saía pela minha boca era apenas o som mecânico das ações programadas para manter a falsa ordem dentro de mim. O ronco do motor que antes foi batida cardíaca. O cheiro de fumaça do que antes foi o perfume de minhas palavras. Eu calei porque não queria te deixar, mesmo já dento feito isso. Era puro egoísmo. Duas horas de conversa e eu não te disse nada além de: fica.
(...)
O sinal tocou. As mãos começavam a gelar. Busco a todo custo uma maneira de conseguir ficar dentro da sala. Não era permitido. Intervalo era intervalo. Todos para fora da cela. Descia como se estivesse indo para a pena de morte. No pátio, mais correria, mais gritaria, sol para poucos, sombra para mim – que não queria ser visto. As rodas se formam, os amigos se encontram, inimigos se confrontam e nós, os excluídos, tentamos a todo custo elevar nosso nível de camuflagem. Inútil. Somos alvo. Hoje eu decidi ser firme e enfrentar o inevitável. Não pare me sentir vencedor, mas para testar meus limites. Tudo armado: eu na parede, eles do outro lado. Eu de mãos vazias, eles munidos de comida. Eu firme e calado, eles rindo e preparados. Atiram a primeira esfirra. Eu não me movo e continuo olhando para eles. Atiram a segunda. Acertam a parede próxima à minha cabeça. Permaneço. O silêncio toma conta de todo o pátio. Cai sobre os tantos ombros o véu da tensão. Juntos, decidem me acertar de vez. Sozinho, continuo a apostar em mim mesmo. Toca o sinal, quebra-se o silêncio, todos sobem, eu também. Mas meu corpo, esse fica.
(...)
A rotina me trazia segurança. Já me bastava toda a oscilação de sentimentos. No meu quarto, com a porta sempre trancada, podia mergulhar num universo à parte. Bem clichê mesmo – fuga dentro de si. Aumentava o volume do som ao ponto de fazer com que a janela tremesse. Esta era minha forma de ficar em silêncio. Os ouvidos, amortecidos pelo vibrar incessante, desistiam de resistir. Rendidos, apenas captavam as sonoridades de modo homogêneo. Era bom se desprender. Deitado no chão, com as costas doloridas tentando se alinhar, eu flutuava. Nem peso do corpo, nem peso da vida, muito menos peso nas orelhas. Eu ouvia, lá no fundo, aquele ruído sutil do suspiro de alívio. Como uma ampulheta, inverti a ordem do tempo e espaço. O caos de fora trazia a tranquilidade para dentro. Grão por grão fui me desfazendo e no barulho fiquei, assim, em silêncio. Eu não mais escutava. Eu ressoava. Disse a mim mesmo: só por hoje, ninguém vai me atrasar.
(...)
Às 22h, eu e meu irmão já esperávamos o barulho das chaves. Era um tilintar muito forte, anunciando a chegada da tempestade. As nuvens cinza abriam a porta de casa e começavam a se espalhar pela cozinha. Derrubavam as panelas, furiosas, e apagavam as luzes. Trovões retumbavam pelos cômodos como se nos procurassem – ou melhor, perseguissem. Tremíamos, torcendo para que Morfeu ouvisse nossas preces e jogasse sobre nós seu sopro sonífero. Não adiantava. A tormenta continuava sua caçada, agora na sala, soltando raios contra minha mãe. Ela, silenciosa, aguentava. Cada gota pesada, cada vento cortante, cada relâmpago atordoante... A tempestade parecia não ter fim. Só ela esbravejava e fazia barulho. A casa parecia ruir. Até que finalmente adormecíamos. No outro dia, o raiar do sol. Céu azul demais, como se estivesse se redimindo pela culpa da noite passada. Meu pai estava de barba feita, sem aquelas nuvens cinzas a cobrir seu rosto. Parecia outro homem – agora não tempestuoso. 

(...)

"Que voz de menina". "Que voz fina, hein?". "Engrossa essa voz!". "Fale direito, rapaz". "Fale igual homem". "Fale, mas fale com firmeza". "Fale!". E quando eu falava, só tinha vontade de me calar. Falava baixo, quase que sem emitir som. Escondia-me no silêncio, já que a voz era a culpada por tantos xingamentos. Responder a chamada na escola? Não era com "presente", era com o braço levantado, apenas. Quanto menos me ouvissem, menos iriam me agredir. Mutei-me. Muito cedo, inclusive. Só que a mente não para de gritar. Ela estava em estado de histeria, lutando contra os demônios que (me) tentavam conduzir até o abismo. Até o sono sem fim. Até os braços do maestro da manhã. Às 7h, estava novamente no meu lugar, calado, esperando por mais uma chamada. - Vinicius!? Ausente.
(...)
Dobro a esquina de casa e ouço o choro. Fino, tímido e sofrido. Pesado. Era desespero. Reconheci na hora. Alguém luta pela sobrevivência pedindo socorro. Procuro, tento fazer algum som para que demonstre minha presença e, então, ele surge das sombras – tão escuro quanto elas. A pequena criatura caminha até mim, agora em silêncio e se acomoda sobre meus pés. Exausta, parece relaxar em paz. Pego com as mãos, olho em seu rosto e sinto o amor se espalhar por meu corpo até se espelhar nos meus olhos. Com a ponta dos dedos, sinto seu coração batendo acelerado. A vida pulsa. Ele é lindo. Kali, seu nome é Kali. Silenciosamente, subimos para casa, seguros de que, a partir daquele momento, um protegeria o outro. Sem dizer uma palavra, agradeci por tê-lo encontrado. Obrigado.
(...)
Antes que conseguisse emitir qualquer som, selou minha boca com um beijo. Ainda que estivesse nervoso, decidi me deixar levar. Era a chance de ser conduzido. De dançar para descansar. O desejo pelava e tudo escorria pelas mãos. A boca que caçava a outra boca, as línguas que se trançavam, as pernas que se lambiam, braços para o alto, quadris para baixo. Miscelânea. Babel. Quarto. Mil palavras se espalharam dentro de minha cabeça – outras mil debaixo do peito – mas só uma escapava no sussurrar incessante: silêncio. Ele sabia me tocar. Conhecia cada verso, cada acorde. – Você está muito quieto! Você que não está ouvindo meu corpo cantar.
(...)
Calaram meu desejo, calaram meu querem, calaram meu sexo, calaram meu amor, calaram minha paixão, calaram meus relacionamentos, calaram minha expressão, calaram vontade, calaram meu coração. No mundo, eu não voz nem vez. Fui silenciado. Condenado à boca fechada. Mas não perceberam que sou filho do barulho. Não entenderam que eu sou a desordem durante a sinfonia, que eu sou a cãibra do maestro, a corda que estoura, o sopro que falha, que eu sou o acorde que não existe, o refrão que nunca se repete. Esqueceram que não se cala os dissonantes. Um dia, abrirei a pandora em minha caixa torácica e a última a sair dela, dirá: 

"Em silêncio, eu sempre me disse tudo".