sexta-feira, 22 de abril de 2016

Oãçaro

Cubra-me com teu manto de prata
Lua das graças
Meu corpo é teu recipiente
Misture treva à alma
Três vezes, três rostos, três desgraças
Oculto, no inverso, o universo
Do peito às ossadas

Penumbra, caminho das folhas secas
Cada passo uma nota dissonante
Barulho, ruído, algazarra
Tira a paz, dê cabo da tranquilidade
Rasga-me os ouvidos e perturbe minha calma
Venda-me os olhos, sela-me a alma

Dobro a maldição, controlo o maldizer
Curve-se a mim palavra ao contrário dita
que teu chamado inflama minha boca
fruto desta língua maldita
Cai em desuso tua esperança, praga de Pantoda
morta, ultrapassada, calada, idioma da farsa

Faz-se do ritual o costume, do costume
o desejo da dança pelo ar, da dança o gosto
dos corpos a flutuar
Arde a fogueira que navalha as carnes
Pro calor da perdição desenhar sob a flor
os rastros da pele, caminho da tentação.

E foram vilões para sempre



Era uma vez, um coração bom. Fim.

O que mais incomodava em mim era o olhar de desprezo, diziam os outros. Como não me vejo, não me desprezo nem me culpo. Finjo um sorriso qualquer para que não façam minha bebida esquentar com tanta explicação furada. Eu não me incomodo. Isso os incomodava.

Sempre ouvi que era uma criança ruim; um jovem ruim; uma pessoa ruim. Os motivos não variavam muito: frieza, rancor, crítica, tendência auto-destrutiva, silêncio, indiferença. Nenhum deles fazia sentido, pelo menos para mim. Digo isso porque eu apenas era. E gostava - ainda gosto - do meu jeito. Ruim sempre foi a capacidade das pessoas de compreender o outro. Mas, há um momento em que cansa ter que lidar com tantas opiniões inúteis sobre quem você é ou como você age. Então, imaginei como seria se eu aceitasse meu devir: nasci para ser vilão. Como eu reagiria se alguém, hoje, dissesse-me: "Você é ruim!"?

Como?

(...)

Meu amor, eu sou tão vazio. Sempre não estive onde não queria estar, mesmo estando. Olhava para o vácuo refletindo a mim mesmo - uma rachadura no espaço que levada a lugar algum. Podiam gritar, tocar meus braços, roubar minha bebida, eu não voltava para prestar atenção. Porque a insignificância alheia me desconecta. Eu julgo, subestimo, construo a pessoa a partir do piche, não do barro. Espero o pior dela sem me surpreender com a maçã mordida. Eu mordo o orgulho, provoco-o até que ele me tire de sintonia e então caio no esquecimento.

Seu rosto, seus gestos, tudo o que você faz não me interessa. Eu tenho a mim. Agora, aquilo que você não faz é que me desperta o desejo. Eu os quero. Mas sou tão vazio. Tão vazio que nunca tenho fim em mim. Fica esse túmulo, essa boca aberta, esse furo... Então, não se trata de você. Não me importo com você. Só com o que tem a me dar - enquanto puder me dar. E acredito que seja o mesmo aí do seu lado. Mentira, você não é tão vazio.

Conspiro, amaldiçoo, desejo o pior, desejo a morte, desejo o fim, desejo a distância, mas isso só quando não puder mais ser desejado. Sou árvore morta cuja casca coberta de musgo aparenta algum vigor. Sou oco. Tão vazio...

E eu aceito essa condição. Não adianta tentar me encher de culpa. Amigo, eu sou tão vazio que nada aqui consegue se acumular. Vaza, escorre. É assim que é - e que sou. Eu demorei tanto para ter essa conversa comigo. Autorreconciliação.

Estamos bem, eu e eu, sem você.

Praga nenhuma me afeta, nem mesmo seu maldizer. Sua mágoa? Alimenta-me por alguns dias. Sua raiva e indignação? Primárias. E o desprezo? A indiferença em seus olhos quando me vê pela rua? Espelho. Você fica bem mais interessante quando finge não ser o que é - no caso, finge ser eu. Sinto vontade de rir diante de tanta pequenez, contudo, não funciono assim. Prefiro olhar sem te ver, com um par de conchas ocas, sem as pérolas nos buracos dos olhos, sem brilho algum. Sem mais água salgada escorrendo. Sem mar.

Eu sou vilão, enfim. Nasci com coração e logo o perdi. Fui invocado desde o berço como desertor, torto, errado, vil etc. Lutei contra minha natureza cruel, achando que assim viveria melhor. E até vivi. Mas o melhor não é para mim. Pois sou tão vazio, meu querido, tão vazio que tudo cai em desuso no próximo segundo. Já é chato, ultrapassado e o pior: previsível. Eu posso ser previsível, pois sou vazio. E ainda assim, você me procura no fundo da gaveta. Lá estou eu.

Tão vazio.

(...)

E fui vilão para sempre.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Dois em um




Dor em um
Direita que chove
Esquerda que seca
Meio que sufoca
Apaga a vela
Pra noite acesa
Fingir que não provoca

E dói. Dói ser dois, ser rachado, não ser direita nem esquerda, ser caminho, ser o meio, ser nada, porque nem completo é. Não olha pros lados. Sempre em frente, olhando pro nada, afinal, nem direito é. Subindo pra cair da escada. Faz porque fazem. Tenta sê-los, só que volta só. E dói.

Parei aqui para pensar. Não consegui me mexer. Pesei. Fiquei. Pensei: eu sei sofrer, o que não sei é chorar. E dói. Parece que a angústia é a razão do meu suposto devir. Um destino traçado, comido, engolido, por traças. Casca de verme nem pra adubo serve. Eu sou inamável. E dói.

Perdi as contas de quantas noites perdi pedindo para ser perdido pelos olhos dos outros. Invisível.

Nunca te disse quantas vezes eu desisti de dizer e "di" ser eu mesmo com medo de ouvir que o que eu decidi ser era indizível.

Tentei explicar e fazer sentido mesmo sentido com tudo o que não aconteceu, tipo eu ser seu, tipo eu, Romeu, agora morto, tipo insensível.

Daí resgato umas memórias e penso no que poderia ter sido, quem eu poderia ter sem ter tido, mas eu fui quem tinha que não ter, quem devia ter sido, mesmo que em si,  insípido.

Ali, calado, ao lado direito esquerdo, doído e largado, no largo, deixei de ser, em alto e ruim som, e passei a ser passado. Para trás, superado como aquele eco inaudível.

Sumi da lembrança. Caí em desuso, como Deus mudo que a gente agradece em prece com pressa da resposta, aquela que nunca vem. Virei retrato na parede deles, um vulto, um rastro. Totalmente intocável.

E dói. Mesmo eu sendo invencível.

terça-feira, 8 de março de 2016

Elos



 Do suspiro de desespero ao de alívio. Do choro que não chorou, do corpo que não abraçou, ensanguentado. Um elo se estabelecia enquanto o cordão se rompia. Entre nós, o amor nascia. Do ventre, eu me tornei seu.

 Elo 1

Cheiro de café, cigarros e sabão. Lá do lato, eu via seu rosto sempre preocupado. Os lábios vermelhos, os cabelos presos de algum jeito caótico e o olhar distante - buscando algo que eu não era capaz de imaginar. Quando me observava, procurava algo a ser corrigido. Rígida, mas alerta, pronta para me proteger, nem que fosse de si mesma. Aprendi a caminhar pelo mundo ao seu lado, segundando na sua mão. Vi o horizonte do seu colo e me calei para admirar a infinitude. Nosso elo se fez assim, cotidianamente, entre broncas, choros, risos e muito carinho. Entre preocupações e revelações. Sempre com aquela tristeza profunda que nos é característica. Algo que confirma nosso elo. Sem ele, não haveria nós. Muito menos eu.

Elo 2

Eu adorava observar seus anéis e unhas perfeitas sobre a mesa. Adorava seu rosto sério, marcado pelo tempo e pelos sentimentos. Adorava ainda mais sua voz cujo timbre ressoava ancestralidade, sabedoria, raiva, dor, superação e orgulho. Inclusive, aprendi contigo o que era orgulho - e o quanto custa mantê-lo em nossas vidas. Cada passo seu, estalado pelos saltos que lhe davam o devido semblante de superioridade, guiava-me rumo à imagem que jamais esquecerei: a senhora negra de vestido florido, perfumada, cabelos curtos e grisalhos caminhando paralelamente à horta que com tanto empenho cultivou. A mãe das mães e dois pais. Minha matriarca, minha heroína, meu referencial de luta. Minha amazona. Meu elo contigo é atemporal, pois na minha lembrança você vive até hoje. Plena. Linda e plena.

Elo 3

A casa da frente parecia impermeável, assim como todos que nela viviam. Outra realidade, uma realidade que afastava o contato. Muros altos, carros na garagem, quintal florido, dois andares, paredes bonitas - revestidas com tinta de cor agradável - cão de raça. Tudo distanciava. Mas o olhar dela me aproximou. Apaixonei-me sem nem ao menos saber o que isso significava. O que sabia era da repentina nevasca no estômago, erupção facial e terremotos no peito. O que eu sabia é que a queria por perto, sempre. Sempre. Foram anos de um amor misturado à amizade e companheirismo. Sim, com bastante sofrimento também. Nada que não fosse de carne osso - de praxe, melhor dizendo. Quando ela me beijou pela primeira vez, pude experimentar o sabor de escolher e ser escolhido. Esperei muito por tal momento e valeu cada segundo - mesmo sem um segundo beijo. Os lábios selaram nosso elo.

Elo 4

As decepções amorosas fizeram com que nossos caminhos se cruzassem. Trocávamos confissões, bolávamos planos e gastávamos os dias tecendo as linhas de nossa própria utopia sentimental, na qual o futuro não era nada além da confirmação dos nossos desejos. Foi nos ombros dela que eu chorei as primeiras lágrimas - e vice-versa. Juntos, aprendemos a rir da desgraça e levantar um ao outro sempre que os joelhos desistissem de se manter firmes. Todos os dias eram nossos. A rua era nossa. Com ela eu podia me libertar um pouco mais: dançava, ria, trocava de roupa, olhava pro meu corpo sem vergonha de ser quem eu era, sentia que alguém me protegia, sentia que era útil. Parceiros no crime, acabamos como qualquer dupla de criminosos - separados pela vida. Nosso elo durou tempo o bastante para eu me recordar de você, hoje, e sentir o coração aquecer de leve. Um elo que não se rompeu. Apenas desapareceu nas areias do tempo. Obrigado, viu? Por me aliviar o sufoco de não poder ser.

Elo 5

Nos tempos de fúria, ela vinha armada com as melhores lanças e escudos. No meio da guerra, destacava-se pela agressividade. Mas comigo, era carinho e companheirismo. Tomamos muitos golpes. Sangrávamos juntos a cada recreio. Ainda assim, estávamos lá todos os dias, lutando. Ao lado dela, eu não me sentia culpado por ter tanto ódio e revidar na mesma moeda a agressão que sofria. No final do dia, éramos os dois a cuidar das cicatrizes um do outro. Se o seu sorriso me dessa a confirmação de que ela estava bem, apesar de tudo, então eu seguia tranquilo. Aprendi muito a lidar com a cólera que me consumia ao invés de consumir os meus inimigos. Este elo me deu muita força. Este elo salvou minha vida quando eu não sabia que tinha o direito de reivindicá-la.

Elo 6

Ela me encontrou enquanto eu passava por passar. Mentira. Na verdade, eu passava para ela me ver passar. E um dia, pensava eu: espero passarmos juntos. Aconteceu. Alguém decidiu me pegar pelas mãos e pelos sorrisos, mostrar-me o mundo do amor dividido, das tardes na calçada desenhando nuvens e imaginando nossa casa toda pixada, o filho Henrique e uma vida guiada pela música, literatura e arte. Sua maturidade pisciana me fez crescer séculos em segundos. E eu contava cada um deles pra ficar perto dela. Saía do trabalho e carregava comigo uma trufa com sabor de morango. Era assim que eu dizia a ela o quanto a amava. Foram meses de uma presença que regou a terra seca sobre minha pele. Floresceu, assim, o bem-querer. Um jardim cheio de cores e fragrâncias peculiares. Nele, colhíamos nosso elo.

Elo 7

Duas vivências guiadas pela insegurança quanto ao outro. Não confiar, não se doar, para, então, não se doer. Escrever sempre me ajudou a fechar as janelas do mundo e ouvir meus próprios pensamentos Uma fuga planejada. A importância estava no detalhe de que ninguém me lia além de mim. Até que um dia, alguém leu. Desentendimento, provocação, interesse, curiosidade, proximidade, horas ao telefone, dias para se encontrar, meses para se gostar - e assim nos gostamos. Ela era externamente intensa e internamente sensível. Puro paradoxo. Não tive como conter a paixão - que era fruto de uma admiração absurda. Eu via nela a projeção das minhas vontades - que eram essencialmente caóticas. Também ouvia dela palavras libertadoras. Talvez mal soubesse, mas estava tirando - aos poucos - a couraça sobre meu coração. Nestes anos de amizade, o elo tratou de renovar nossa capacidade de "ser" um no outro.

Elo 8

Existem linhas invisíveis que delimitam até onde uma pessoa pode chegar antes de invadir seu espaço. Caso aconteça de não respeitar os limites, as chances de que uma aversão profunda surja são grandes. Mas, há casos em que não são grandes o bastante para subjugar outro sentimento tão poderoso quanto: o carinho. Ela simplesmente cruzou a faixa, saltitante, e me envolveu num abraço tão forte e tão verdadeiro que, repentinamente, arrancou um sorriso há anos guardado no canto de minha boca. Invadir o campo desconhecido com um exército inteiro de boas intenções é algo admirável mesmo. Depois deste dia, os conflitos vieram como em qualquer embate para descobrir se a terra do outro é habitável. Não era, mas se tornou. Agora, habitamos juntos. Aprendi sobre bondade, sobre saber esperar e, mais do que isso, sobre: fazer a alma esperar. Ri, chorei, declarei-me indivíduo, sujeito sem mais se sujeitar, eu me refleti no seu semblante dourado... Este amor é que o ateia a bandeira de paz no eterno embate dentro de minha pessoa. Existem linhas invisíveis que precisam ser cruzadas para que se tornem estas linhas, agora empenhadas em (d)escrever nosso elo.

Elos que, no final das contas, são elas.



quarta-feira, 2 de março de 2016

Des

Deseje-me a cada adeus.

Detenha-me como se nunca mais fôssemos no ver novamente.

Desenhe-me nos seus pensamentos.

Destrua-me nas paredes de sua casa, nas cartas, no cheiro das roupas.

Descole-me da sua pele.

Desdenhe-me quando toparmos um com o outro.

Desaponte-me na frente do outros.

Desligue-me dos seus quereres.

Despeça-me dos seus planos.


Despida-me por dentro e encontre-se.


Descubra-me da cama na madrugada.

Desperte-me com seu soluço.

Desafie-me a lhe perdoar, mesmo doendo.

Devolva-me o amor capaz de superar o orgulho.

Desculpe-me pelo inverno que trouxe comigo.

Destranque-me do seu peito.

Desloque-me até o seu quarto.

Desfaça-me inteiro.


E nunca mais desista.

Nunca mais.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Cinzazul




Naqueles dias frios, minha armadura era um pijama gasto e meu castelo – onde reinava em silêncio – não passava das paredes gélidas de casa, cobertas por uma tinta sempre velha, sempre ranzinza. Observava a queda de temperatura como se fosse possível enxergar suas garras rabiscando o vidro da janela. Gostava tanto desses dias frios... Eu não precisava correr ou me esconder para ficar recolhido. Bastava estar.

Hoje, enquanto trabalho, penso no quão simples era a alegria de simplesmente inexistir para além do cômodo em que habitava. Minha mente era o suficiente, pois dentro dela os relógios rodavam num tempo totalmente diferente; as cores não oscilavam tanto – dançavam entre o azul e o cinza – e sempre havia uma voz na nuca das ideias, alguém para conversar. Alguém, eu. Bastava pensar.

Talvez ninguém conseguisse entender meu silêncio. Aquela criança quieta e tímida parecia frágil e medrosa... Aquela criança ali, que não brincava com outras crianças. Coitada dela. A mãe cobrava interatividade, o pai cobrava postura agressiva, o irmão cobrava atenção. Ninguém aceitava o que a criança tinha a oferecer: a chance de falarem menos e escutarem a si mesmos. Preciosa lição. Bastava calar.

Nos seus pensamentos, o pequeno garoto concebia mundos, destruía outros, enfrentava demônios, aliava-se a demônios, reestruturava a ordem, louvava o caos, invertia as leias da razão, voava sem asas, corria sem chão... A criança era ouvida no seu mundo. Respeitada exatamente como era, aquela criatura em constante ebulição caía no sono após se aventurar pelo universo do seu infinito particular. Não era difícil embarcar em tal viagem. Bastava imaginar.

Esta mesma criança cresceu e teve que se lançar ao mundo. Aprendeu diferentes camuflagens e hoje está aqui, comigo. Ela aparece em nesses dias frios para me dizer que não sumiu de vez. Eu fico feliz, pois sei que juntos somos um. Sei que não abri mão do meu silêncio, do frio, do azul e do cinza. Sei e sinto – que é melhor. Enquanto as guitarras conduzem minha atenção para estas linhas, resolvo olhar para o meu lado direito. Novamente, observava a queda de temperatura como se fosse possível enxergar suas garras rabiscando o vidro da janela. Bastava recordar.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Nostalgias

Corri pela estrada arranhando céu com meus dentes
de braços largos num sorriso aberto
lancei minha alma ao nada
enquanto pensava em tudo
Zéfiro entrava na cara sem bater
acariciava os caminhos do rosto
como se os lesse com a ponta dos ventos
Desfiz a mim no caminho
rastro, gasto, passado e repassado
Fiz de mim lembrança
Trilha
Tiro.

...

Hoje eu não acordei bem. Mas acordei. Os finais de ano me deixam extremamente nostálgico e nada, nem ninguém, consegue abater a sensação de o que tive no passado só se tornou mais importante do que o que tenho no presente quando, de fato, passou. Que na época em que eu olhava pra você fumando na cozinha, não sentia muito além de comodismo e segurança. Mas depois, quando ficamos ambos no cinzeiro, sua ausência ganhou mais peso do que a presença. Teve que doer pra me fazer sentir. Eu até sentia naquela época, só não sabia o quê. Diria, ontem, que era amor. Hoje, nostalgia.

Na infância, passava grande parte dos meus dias só, comigo mesmo, apenas. Eu achava que solidão era uma condição normal. Pelo menos no meu caso. Assim me criei, literalmente, bem. As conversas eram longas. Dois Vinicius a contar sobre suas vontades, sonhos, etc. Por fora, lábios selados, por dentro, algazarra. Daí cresci e fui obrigado a falar mais - bem mais, inclusive. Mas sempre que podia, calava. Comecei a sentir saudades de ficar quieto e solitário. Comecei e continuei. Continuo. Nostalgia, não é mesmo?

As músicas, as roupas, os cheiros, as cores... Cada época tinha suas marcas que serviam de indexamento para a memória. Porém, nada se comparava aos céus. Eu lembro deles e parece que meu coração deixa na grama com a cara pra cima, rabiscando contorno nas nuvens. Havia céus alaranjados e mornos, como um abraço. Outros eram azuis e roxos, misteriosos e profundos, nos quais o coração se escondia. Mas meus favoritos eram os céus "híbridos", aqueles sem definição exata, mesclados, como imagem criada com pincel sujo. Um resto de cor atrelado a outro resto de cor, estes eram os céus estampados após as tempestades. Era o chumbo empoeirando o azul celeste, o rústico e o suave, uma dança entre opostos que se distraem. Céus que deixam saudade. Céus de nostalgia.

Pessoas que compuseram meus dias também ressurgem nos porta-retratos. Sob poeira da saudade, sob nostalgia cristalina.

...

Nosso abraço durou um terço do meu corpo
Girei sentindo anti-horário pra me atrasar alguns minutos
até que seu peito silenciasse o despertador no meu
Cheguei mais cedo pra sentar perto de ti
tímido, assim, fiquei ali, cronometrando os 4 anos de nós,
tendo tiq-ue ou quase a-tac a cada troca de olhares
Vou derreter esse tempo congelado pra, do seu lado,
reaquecer cada segundo em primeiro no seu amor
meu amor

....

O cheiro de quarto velho. De coberta que trocou o perfume do amaciante pela essência de sono. De me sentir no lugar mais "meu" do mundo. Como é bom chegar em casa e saber exatamente onde me encontrar. Cada prateleira tem um pouco de mim. Um pó de mim. Gosto assim, exatamente assim. Sinto como se as posições de detalhes fossem uma espécie de mapa astral a me definir. Ou lembrar quem eu sou. Quando mudo algo, mudo a mim, a minha percepção e tudo mais. Fica evidente o movimento dos astros sob a pilha de livros e roupas.

Também gosto de abafar bem o som. Aumentar o volume e me jogar no oceano e timbres. A cabeça submerge nas águas sonoras. Debaixo do áudio, canto de sereis, serenata de baleias, conchas nos ouvidos sussurrando mares. Então eu me rendo e danço. No espaço apertado do quarto faço, entre quatro paredes, as profundezas para, então, sentir falta de ar. Sentir falta de respirar meu ar. Encher os pulmões do meu próprio cheiro, impregnado por todos os cantos. Faço isso quando sinto falta de mim. Nostalgia de mim.

Das tantas voltas que dei pra chegar até aqui
o ponto de partida que me rasgou ao me libertar
a porta que tranquei, agora me deixar entrar
Ir e vir, pra lá e pra cá, a gente só caminha porque sabe voltar
E quando chega novamente, faz as pazes com os céus, o tempo e o espaço
Regresso que descansa os joelhos, como é bom chegar
de (a)onde nunca saímos.
De nós.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Quem



Eu sou...

Eu sou aquele que se desconhece em si mesmo,
Pinta a pele de labirinto com as marcas de amores perdidos
Eu sou a voz pra dentro, que cala o peito e ecoa por entre os ossos
Rege as batidas do coração desafinado pelos quereres
Eu sou o fruto caído do galho, machucado demais pra ser doce
Esquecido no chão, esperando ser semente pra se semear
Eu sou a raiva entre nós que distorce o espaço pra que nada caiba certo
Força da minha mãe natureza capaz de devastar a tudo que mais ama
Eu sou o amor que não se concretizou, a promessa sem prometido
Uma lição que ensina a sofrer sorrindo, morrer vivendo, parecer desaparecendo
Eu sou o tempo roubado, ponteiro ímpar a marcar as horas não passadas
Os beijos não dados, as vontades negadas, o desejo não desperto
Eu sou o mal, a nigrosina na ponta da língua, o sabor da traição, o idioma da serpente
Deus da dúvida, deusa da incerteza, maestro da manhã silenciosa, filho sem berço
Eu sou a chave errada na fechadura errada, rachadura na porta rígida
Aquele que entra sem pedir e sai sem se despedir, vulto no corredor, estalo na cozinha, sussurro na janela
Eu sou a montanha intransponível, inacessível, inalcançável, inabitável
Pico da solitude, ponta de rocha a rasgar os céus, segura em si mesma, escondida nas próprias cavernas, abalável
Eu sou o sal despejado em solo fértil, punhado de nada
Aquele que seca a si mesmo e àquilo que toca
Eu sou a ponta da lança entre as costelas que atende à súplica
Instrumento do sacrifício, sou quem perfura e também quem sangra
Eu sou o crepúsculo, sono dos deuses, refúgio do horizonte, vago entre luz e treva
Eterna transição entre céus, a valsa dos opostos, a paz dos odiosos, sou trégua
Eu sou a rua violentada, caída sobre si e coberta pelo véu na noite
Feita para ser pisada, para conduzir os outros aos seus destinos e manter-se parada no seu
Eu sou o beijo na lágrima, o lábio que toca o mar e se salga
Luar que acalma a maré em madrugadas tempestuosas
Eu sou o detalhe que não coube na carta, na fala, na mala, na mesa do bar
Dito não dito, um respiro, um texto lido e não compreendido, uma frase solta

Eu sou o detalhe que você não percebeu.

domingo, 22 de novembro de 2015

Sala para estar



Dez e meia da manhã. Eu havia afastado todos os móveis do centro da sala. No meio do piso gélido, um maço de cigarros fechado, a garrafa inseparável, alguns discos espalhados e o baralho de tarô. Acendi o primeiro, traguei a segunda, toquei o terceiro e li o último. Era um ritual de passagem para me levar de volta ao "eu" perdido no "você". O Enforcado sobre nós.

Livrar-se do vício é uma experiência imensurável. Por mais que digam o quão difícil é passar por esse processo, não consigo detalhar o que seria "duro" e o que seria "suave". Sinto como se você uma mistura, algo amorfo que ocupa espaço dentro de nós, escorre, evapora, às vezes fica sólido como um bloco de pedra, mas nunca permanece o mesmo. Os vícios dançam com nossos sentidos - e isso eu sinto. Faz sorrir quando é para chorar e chorar duas vezes quando é para sofrer. Deixa nos lábios um gosto amargo de despedida e nos olhos uma fome diferente que ronca a cada piscada na espera de uma mensagem ou braços abertos num sorriso. Aparentemente, falo como se estivesse descrevendo uma sensação excitante - ou pelo menos sedutora o bastante para valer o risco de desfrutá-la. Mas então por que preparar toda a sala para o período de "desintoxicação"? Sinceramente, não sei. Apenas faço o que tem que ser feito. Às vezes a gente precisa misturar o "sim" e o "não", o "certo" e o "errado", no intuito de promover uma dança entre a razão e o coração.

Dancemos, então...

Depois do primeiro gole, senti confiança. Fechei os olhos, uni as mãos e estralei os dedos. Daí em diante, revirei as fotos na gaveta da memória e fui rasgando uma a uma, mesmo sem querer e sem acreditar que sumiriam para sempre. A tentativa já valia bastante. Todos os pequenos momentos que eu fiz questão de amplificar com minhas lentes começaram a revelar suas falhas e real (in)significância. O primeiro vício, então, revelou-se: meu apreço por detalhes. Aqueles pequenos pontos que atraem a visão por si só. São como palavras minúsculas ditas durante grandes declarações. Por que gostar tanto de criaturas efêmeras e tímidas? De fonemas sussurrados em meio à enxurrada de outros dizeres? Porque quando você percebe um detalhe, ali, escondido, despercebido, ele - por outro lado - só percebe você. Ele só vê você e só tem significado para você. Passa então a ser seu e te adorar como deus. Aquele que, diante do invisível, brilha feito constelação e traça o destino de quem nunca antes integrou história alguma. Os detalhes me fazem sentir único, privilegiado por tê-los encontrado e ter sido encontrado por eles. Sim, isso cria dentro de nós - ou pelo menos de mim - um desejo recorrente de ouvir só o que me parece fora do comum, porém dentro do meu infinito particular. Foi assim que eu criei em sete dias um universo lexical capaz de colocar em ordem os astros debaixo do peito. O primeiro vício estava no céu, no alto, no silêncio e na escuridão do cosmos. Abrir mão dele pedia que eu fosse capaz de tratar tais detalhes como estrelas... Brilham solitárias, já mortas, distantes, numa outra ponta do "para sempre" no qual eu também já não existo mais. 

O primeiro cigarro se foi e deixou um pouco de sobriedade. Acredito que esse seja sua principal função. Desta vez, busquei, de olhos fechados, o toque, o beijo e o jeito de falar. Do barro do desejo, modelei aquele que seria, à imagem de mim mesmo, meu amor maior. Meu melhor trabalho. O outro, em contato comigo, fazia-me sentir a vida à flor da pele. Chegava lentamente como a primeira brisa quente de verão e arrepiava meus pelos. Pressionada os braços, encurralava meus ossos e então deixava que o magnetismo fundisse as vontades. Foi assim que mais um vício nasceu: do parto que não nos separava, pelo contrário, paria nosso querer a cada manhã amanhecida sobre a cama de casal sem histórias românticas para contar. Havia apelas aquele calor do "não toque" que me lembrava do quão insone é tentar lutar contra a vontade dormindo ao lado dela. Quase como lamber os lábios pra fingir que não está salivando. E tudo isso a troco de quê? De uma promessa vaga soprada durante a noite... Ou de um despertar, no meio da madrugada, daqueles que buscam saciar a sede nos meus lábios. Eu me viciei na tensão. Na proximidade - ainda que distante - e abri mão de sonhar adormecido para sonhar acorrentado e desperto entre as cobertas. Afundando no colchão até que as profundezas me recebem de mar aberto. O corpo dele naufragava no oceano agitado do meu. Este segundo vício, tão material e real, era fruto das ondas impacientes da minha carne que o puxavam para dentro de mim. Na maré alta, cobriam seu rosto de beijos e na baixa deixavam apenas o rastro de feridas não curadas pelas águas salgadas. Desapegar do que era possível de ser pego trouxe-me a chance de, mais uma vez, entender que não há desejo que resista a outro desejo. Se um quer, dois, ainda assim, não fazem.

Naquele momento, eu já ansiava pelo que achava ter superado. As fotos, o corpo, tudo parecia lutar pra resistir ao esquecimento - ou indiferença. "E se...", "De repente eu posso...", "Será que se eu...", "Lutei o bastante?"... As armadilhas foram postas estrategicamente e parecem não se intimidar com toda a capacidade que minha mente tem de desarmá-las. Há sempre um fator surpresa e é aí que elas me pegam de jeito. Pois bem: eis que começou a tocar aquela música. Aquela música. Olhei em direção à janela e foi como ver uma macieira brotar instantaneamente. Seu tronco entrelaçava as curvas amadeiradas e no topo um volumoso verde preenchia boa parte do espaço. Encarando-me, silenciosa, apenas deixou revelar-se aquele pequeno fruto. Vermelho, lustroso, simples e solitário. Era detalhe e matéria ao mesmo tempo. Era bonito de se ver e desejável de se comer. Enquanto eu permanecia paralisado, a música continuava a tocar sutilmente. Percebi, assim, que ela se apresentava como um sibilo no pé do ouvido. Dizia-me: "permita-se fazer a diferença, quebre suas próprias regras, supere-se e vá ser feliz. Você foi criado para isso.". Os ombros relaxaram e a angústia parecia ter ficado em segundo plano. As folhas da macieira sacudiram um pouco e pude sentir a corrente de ar passando pelo meu rosto, rodopiando em volta da nuca e então apagando as poucas velas que havia acendido para deixar o clima da sala mais intimista. Como se tal espaço fosse o recinto da minha essência, senti que haviam apagado as luzes dentro de mim. Deixe-me levar... Fui até o telefone, disquei o número dele, ensaiei algumas palavras - todas repletas de metáforas e detalhes que - ao meu ver - levariam-o até mim mais uma vez... E quando ouvi sua voz, senti o peso. 

No instante perdido entre o encher de pulmões para então preparar o fôlego para a palavra que viria em seguida, tive uma acesso de raiva e ansiedade. Mais uma vez, tudo misturado, tudo impossível de se mensurar. Lembrei de quantas vezes liguei, das muitas vezes em que quis ligar, esperei e não tive a chance de ser a pessoa a dizer "alô". Do quanto me custou aguentar sozinho a solidão e não a solitude. Dias e mais dias arrastado como grilhões nos calcanhares, tudo porque eu simplesmente estava viciado em ter alguém, mesmo que esse alguém não me tivesse. Os nomes, os endereços, os títulos, nada me interessava. Só a presença e a resposta para meus estímulos e desejos. Só. E só eu fiquei. Porque não me entreguei ao outro, de fato, entreguei-me à situação em si. Ele era o caminho a ser percorrido, por isso que não suportava desvios. Muito menos me sentir perdido. Eu sabia onde queria chegar. O problema era descobrir como. E achei, por muitos anos, que a resposta estava fora de mim, nos gestos dele. 

Voltei a atenção para a sala, joguei o olhar para o canto esquerdo e lá estava a carta do Enforcado, esperando para entrar em cena. Talvez, o principal remédio contra essa pequena recaída. Sua simbologia era rica, mas apenas uma palavra me bastava para compreender a mensagem que queria passar: sacrifício. Dor, abstinência, falta, sofrimento, angústia, tudo isso num nível alto, constante e inevitável. Tudo isso para que, no final das contas, algo de positivo surgisse. Pois sofrimento só consegue massacrar as pequenas felicidades quando não se sabe se o que virá depois dele será mais tempestade ou alguma gota de bonança. Ele nos obriga a pensar apenas no seu fim, quando na verdade o importante é entender o seu presente, o meio, o pesar do agora. Acabei me sacrificando em prol dos meus vícios e da promessa de que eles bastariam pra preencher lacunas ancestrais da minha história. Percebi então que não preciso me livrar deles, dar um fim repentino e pronto, pois novos surgirão. Eu precisava de me recuperar, reabilitar minha capacidade de me destruir e me reconstruir. Eu precisava morrer pra renascer, fechar um círculo e, assim, iniciar outro. Precisava do sacrifício e ele viria com a permanência dos meus vícios e o controle dos mesmos. 

Coloquei a corda em volta do pescoço e pulei. O último vício - aquele que me sufoca porque me faz sofrer o que precisa ser sofrido - estava entre o céu e as profundezas do mar. Ele transitava pelos meus dias, pela casa desarrumada, pela saudade que sinto dele, pelos passos na rua, pelos cheiros que me enfeitiçam... Ele existia no hoje e dizia toda vez que me encontrava:

"Permita-se fazer falta".     


terça-feira, 6 de outubro de 2015

Páginas pretas I

Minha boca está seca
Eu sinto como se algo devorasse minhas entranhas
Algo gélido
Apagaram as luzes dentro de mim
Mas eu não posso simplesmente deitar e ficar parado, em silêncio
o mundo me invoca, ele exige minha presença
mas eu não vou, mando qualquer coisa de mim, mas não eu
Só penso em morrer, sumir, qualquer ação que me tire daqui e daí, de lá e de cá
De qualquer lugar
Penso nas pessoas queridas, não as quero mais
Penso nas pessoas que quis - mas não as tive - e sinto ânsia de vômito
Lembro da minha família e vem um vazio que era pra ser sempre preenchido com amor
Eu não consigo me conectar a ninguém, só a mim mesmo
Falar está me custando muito
O carinho de quem sabe da minha situação dói feito espinho de peixe descendo pela garganta
Sou obrigado a engolir esse sentimento bom que só me estraga
Há nigrosina na minha visão, na minha saliva escassa, em tudo que cai para dentro
Eu não quero viver, mas morrer seria ruim também
Estou num ponto de intersecção entre a glória de existir e a vitória de morrer
Nem glória, nem vitória, eu me arrasto pelas linhas do destino
Tudo que contruí não passou de reflexo das expectativas alheias
Eu nunca quis muito, mas alargaram meu desejo
Fizeram de mim um adicto
Não me importo
Queria sentir algo além dessa angústia profunda
Mas não dá, não consigo
Só penso em partir
Romper com vários vínculos
Só penso, porque não consigo me mover
Não assim, com grilhões a me prender
Imagine chegar no trabalho, só que sem ter saído do quarto... Quase isso
Odeio me sentir vulnerável e a bala não vir pra acabar com tudo
É difícil explicar
Digo apenas que é ruim, que consome tudo e que te faz ter aversão às pessoas
Ao mundo, aos sons que não são aqueles que você escolheu ouvir
Os olhos tentam se esconder e só se fixam em objetos mortos, inanimados
A cabeça fica mais baixa
E o principal: evitar olhar diretamente para os olhos dos outros
É pior do que levar uma facada
Há uma imagem constante em minha mente - cidades ruindo
Tudo desmoronando num fim de tarde crepuscular cujo tom alaranjado lembra algo em sépia
Lentamente, tudo rui
Eu não queria sair do meu quarto hoje
Fui obrigado a nascer, então essa vida não é só minha
Ela também é de outros e outras
Isso me tortura lentamente
Não ter a mim mesmo por completo
Se eu tivesse, o que faria?

Não seria.