terça-feira, 8 de março de 2016
Elos
Do suspiro de desespero ao de alívio. Do choro que não chorou, do corpo que não abraçou, ensanguentado. Um elo se estabelecia enquanto o cordão se rompia. Entre nós, o amor nascia. Do ventre, eu me tornei seu.
Elo 1
Cheiro de café, cigarros e sabão. Lá do lato, eu via seu rosto sempre preocupado. Os lábios vermelhos, os cabelos presos de algum jeito caótico e o olhar distante - buscando algo que eu não era capaz de imaginar. Quando me observava, procurava algo a ser corrigido. Rígida, mas alerta, pronta para me proteger, nem que fosse de si mesma. Aprendi a caminhar pelo mundo ao seu lado, segundando na sua mão. Vi o horizonte do seu colo e me calei para admirar a infinitude. Nosso elo se fez assim, cotidianamente, entre broncas, choros, risos e muito carinho. Entre preocupações e revelações. Sempre com aquela tristeza profunda que nos é característica. Algo que confirma nosso elo. Sem ele, não haveria nós. Muito menos eu.
Elo 2
Eu adorava observar seus anéis e unhas perfeitas sobre a mesa. Adorava seu rosto sério, marcado pelo tempo e pelos sentimentos. Adorava ainda mais sua voz cujo timbre ressoava ancestralidade, sabedoria, raiva, dor, superação e orgulho. Inclusive, aprendi contigo o que era orgulho - e o quanto custa mantê-lo em nossas vidas. Cada passo seu, estalado pelos saltos que lhe davam o devido semblante de superioridade, guiava-me rumo à imagem que jamais esquecerei: a senhora negra de vestido florido, perfumada, cabelos curtos e grisalhos caminhando paralelamente à horta que com tanto empenho cultivou. A mãe das mães e dois pais. Minha matriarca, minha heroína, meu referencial de luta. Minha amazona. Meu elo contigo é atemporal, pois na minha lembrança você vive até hoje. Plena. Linda e plena.
Elo 3
A casa da frente parecia impermeável, assim como todos que nela viviam. Outra realidade, uma realidade que afastava o contato. Muros altos, carros na garagem, quintal florido, dois andares, paredes bonitas - revestidas com tinta de cor agradável - cão de raça. Tudo distanciava. Mas o olhar dela me aproximou. Apaixonei-me sem nem ao menos saber o que isso significava. O que sabia era da repentina nevasca no estômago, erupção facial e terremotos no peito. O que eu sabia é que a queria por perto, sempre. Sempre. Foram anos de um amor misturado à amizade e companheirismo. Sim, com bastante sofrimento também. Nada que não fosse de carne osso - de praxe, melhor dizendo. Quando ela me beijou pela primeira vez, pude experimentar o sabor de escolher e ser escolhido. Esperei muito por tal momento e valeu cada segundo - mesmo sem um segundo beijo. Os lábios selaram nosso elo.
Elo 4
As decepções amorosas fizeram com que nossos caminhos se cruzassem. Trocávamos confissões, bolávamos planos e gastávamos os dias tecendo as linhas de nossa própria utopia sentimental, na qual o futuro não era nada além da confirmação dos nossos desejos. Foi nos ombros dela que eu chorei as primeiras lágrimas - e vice-versa. Juntos, aprendemos a rir da desgraça e levantar um ao outro sempre que os joelhos desistissem de se manter firmes. Todos os dias eram nossos. A rua era nossa. Com ela eu podia me libertar um pouco mais: dançava, ria, trocava de roupa, olhava pro meu corpo sem vergonha de ser quem eu era, sentia que alguém me protegia, sentia que era útil. Parceiros no crime, acabamos como qualquer dupla de criminosos - separados pela vida. Nosso elo durou tempo o bastante para eu me recordar de você, hoje, e sentir o coração aquecer de leve. Um elo que não se rompeu. Apenas desapareceu nas areias do tempo. Obrigado, viu? Por me aliviar o sufoco de não poder ser.
Elo 5
Nos tempos de fúria, ela vinha armada com as melhores lanças e escudos. No meio da guerra, destacava-se pela agressividade. Mas comigo, era carinho e companheirismo. Tomamos muitos golpes. Sangrávamos juntos a cada recreio. Ainda assim, estávamos lá todos os dias, lutando. Ao lado dela, eu não me sentia culpado por ter tanto ódio e revidar na mesma moeda a agressão que sofria. No final do dia, éramos os dois a cuidar das cicatrizes um do outro. Se o seu sorriso me dessa a confirmação de que ela estava bem, apesar de tudo, então eu seguia tranquilo. Aprendi muito a lidar com a cólera que me consumia ao invés de consumir os meus inimigos. Este elo me deu muita força. Este elo salvou minha vida quando eu não sabia que tinha o direito de reivindicá-la.
Elo 6
Ela me encontrou enquanto eu passava por passar. Mentira. Na verdade, eu passava para ela me ver passar. E um dia, pensava eu: espero passarmos juntos. Aconteceu. Alguém decidiu me pegar pelas mãos e pelos sorrisos, mostrar-me o mundo do amor dividido, das tardes na calçada desenhando nuvens e imaginando nossa casa toda pixada, o filho Henrique e uma vida guiada pela música, literatura e arte. Sua maturidade pisciana me fez crescer séculos em segundos. E eu contava cada um deles pra ficar perto dela. Saía do trabalho e carregava comigo uma trufa com sabor de morango. Era assim que eu dizia a ela o quanto a amava. Foram meses de uma presença que regou a terra seca sobre minha pele. Floresceu, assim, o bem-querer. Um jardim cheio de cores e fragrâncias peculiares. Nele, colhíamos nosso elo.
Elo 7
Duas vivências guiadas pela insegurança quanto ao outro. Não confiar, não se doar, para, então, não se doer. Escrever sempre me ajudou a fechar as janelas do mundo e ouvir meus próprios pensamentos Uma fuga planejada. A importância estava no detalhe de que ninguém me lia além de mim. Até que um dia, alguém leu. Desentendimento, provocação, interesse, curiosidade, proximidade, horas ao telefone, dias para se encontrar, meses para se gostar - e assim nos gostamos. Ela era externamente intensa e internamente sensível. Puro paradoxo. Não tive como conter a paixão - que era fruto de uma admiração absurda. Eu via nela a projeção das minhas vontades - que eram essencialmente caóticas. Também ouvia dela palavras libertadoras. Talvez mal soubesse, mas estava tirando - aos poucos - a couraça sobre meu coração. Nestes anos de amizade, o elo tratou de renovar nossa capacidade de "ser" um no outro.
Elo 8
Existem linhas invisíveis que delimitam até onde uma pessoa pode chegar antes de invadir seu espaço. Caso aconteça de não respeitar os limites, as chances de que uma aversão profunda surja são grandes. Mas, há casos em que não são grandes o bastante para subjugar outro sentimento tão poderoso quanto: o carinho. Ela simplesmente cruzou a faixa, saltitante, e me envolveu num abraço tão forte e tão verdadeiro que, repentinamente, arrancou um sorriso há anos guardado no canto de minha boca. Invadir o campo desconhecido com um exército inteiro de boas intenções é algo admirável mesmo. Depois deste dia, os conflitos vieram como em qualquer embate para descobrir se a terra do outro é habitável. Não era, mas se tornou. Agora, habitamos juntos. Aprendi sobre bondade, sobre saber esperar e, mais do que isso, sobre: fazer a alma esperar. Ri, chorei, declarei-me indivíduo, sujeito sem mais se sujeitar, eu me refleti no seu semblante dourado... Este amor é que o ateia a bandeira de paz no eterno embate dentro de minha pessoa. Existem linhas invisíveis que precisam ser cruzadas para que se tornem estas linhas, agora empenhadas em (d)escrever nosso elo.
Elos que, no final das contas, são elas.
quarta-feira, 2 de março de 2016
Des
Deseje-me a cada adeus.
Detenha-me como se nunca mais fôssemos no ver novamente.
Desenhe-me nos seus pensamentos.
Destrua-me nas paredes de sua casa, nas cartas, no cheiro das roupas.
Descole-me da sua pele.
Desdenhe-me quando toparmos um com o outro.
Desaponte-me na frente do outros.
Desligue-me dos seus quereres.
Despeça-me dos seus planos.
Despida-me por dentro e encontre-se.
Descubra-me da cama na madrugada.
Desperte-me com seu soluço.
Desafie-me a lhe perdoar, mesmo doendo.
Devolva-me o amor capaz de superar o orgulho.
Desculpe-me pelo inverno que trouxe comigo.
Destranque-me do seu peito.
Desloque-me até o seu quarto.
Desfaça-me inteiro.
E nunca mais desista.
Nunca mais.
Detenha-me como se nunca mais fôssemos no ver novamente.
Desenhe-me nos seus pensamentos.
Destrua-me nas paredes de sua casa, nas cartas, no cheiro das roupas.
Descole-me da sua pele.
Desdenhe-me quando toparmos um com o outro.
Desaponte-me na frente do outros.
Desligue-me dos seus quereres.
Despeça-me dos seus planos.
Despida-me por dentro e encontre-se.
Descubra-me da cama na madrugada.
Desperte-me com seu soluço.
Desafie-me a lhe perdoar, mesmo doendo.
Devolva-me o amor capaz de superar o orgulho.
Desculpe-me pelo inverno que trouxe comigo.
Destranque-me do seu peito.
Desloque-me até o seu quarto.
Desfaça-me inteiro.
E nunca mais desista.
Nunca mais.
segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016
Cinzazul
Naqueles dias frios, minha armadura era um pijama gasto e meu castelo – onde reinava em silêncio – não passava das paredes gélidas de casa, cobertas por uma tinta sempre velha, sempre ranzinza. Observava a queda de temperatura como se fosse possível enxergar suas garras rabiscando o vidro da janela. Gostava tanto desses dias frios... Eu não precisava correr ou me esconder para ficar recolhido. Bastava estar.
Hoje, enquanto trabalho, penso no quão simples era a alegria de simplesmente inexistir para além do cômodo em que habitava. Minha mente era o suficiente, pois dentro dela os relógios rodavam num tempo totalmente diferente; as cores não oscilavam tanto – dançavam entre o azul e o cinza – e sempre havia uma voz na nuca das ideias, alguém para conversar. Alguém, eu. Bastava pensar.
Talvez ninguém conseguisse entender meu silêncio. Aquela criança quieta e tímida parecia frágil e medrosa... Aquela criança ali, que não brincava com outras crianças. Coitada dela. A mãe cobrava interatividade, o pai cobrava postura agressiva, o irmão cobrava atenção. Ninguém aceitava o que a criança tinha a oferecer: a chance de falarem menos e escutarem a si mesmos. Preciosa lição. Bastava calar.
Nos seus pensamentos, o pequeno garoto concebia mundos, destruía outros, enfrentava demônios, aliava-se a demônios, reestruturava a ordem, louvava o caos, invertia as leias da razão, voava sem asas, corria sem chão... A criança era ouvida no seu mundo. Respeitada exatamente como era, aquela criatura em constante ebulição caía no sono após se aventurar pelo universo do seu infinito particular. Não era difícil embarcar em tal viagem. Bastava imaginar.
Esta mesma criança cresceu e teve que se lançar ao mundo. Aprendeu diferentes camuflagens e hoje está aqui, comigo. Ela aparece em nesses dias frios para me dizer que não sumiu de vez. Eu fico feliz, pois sei que juntos somos um. Sei que não abri mão do meu silêncio, do frio, do azul e do cinza. Sei e sinto – que é melhor. Enquanto as guitarras conduzem minha atenção para estas linhas, resolvo olhar para o meu lado direito. Novamente, observava a queda de temperatura como se fosse possível enxergar suas garras rabiscando o vidro da janela. Bastava recordar.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2015
Nostalgias
Corri pela estrada arranhando céu com meus dentes
de braços largos num sorriso aberto
lancei minha alma ao nada
enquanto pensava em tudo
Zéfiro entrava na cara sem bater
acariciava os caminhos do rosto
como se os lesse com a ponta dos ventos
Desfiz a mim no caminho
rastro, gasto, passado e repassado
Fiz de mim lembrança
Trilha
Tiro.
...
Hoje eu não acordei bem. Mas acordei. Os finais de ano me deixam extremamente nostálgico e nada, nem ninguém, consegue abater a sensação de o que tive no passado só se tornou mais importante do que o que tenho no presente quando, de fato, passou. Que na época em que eu olhava pra você fumando na cozinha, não sentia muito além de comodismo e segurança. Mas depois, quando ficamos ambos no cinzeiro, sua ausência ganhou mais peso do que a presença. Teve que doer pra me fazer sentir. Eu até sentia naquela época, só não sabia o quê. Diria, ontem, que era amor. Hoje, nostalgia.
Na infância, passava grande parte dos meus dias só, comigo mesmo, apenas. Eu achava que solidão era uma condição normal. Pelo menos no meu caso. Assim me criei, literalmente, bem. As conversas eram longas. Dois Vinicius a contar sobre suas vontades, sonhos, etc. Por fora, lábios selados, por dentro, algazarra. Daí cresci e fui obrigado a falar mais - bem mais, inclusive. Mas sempre que podia, calava. Comecei a sentir saudades de ficar quieto e solitário. Comecei e continuei. Continuo. Nostalgia, não é mesmo?
As músicas, as roupas, os cheiros, as cores... Cada época tinha suas marcas que serviam de indexamento para a memória. Porém, nada se comparava aos céus. Eu lembro deles e parece que meu coração deixa na grama com a cara pra cima, rabiscando contorno nas nuvens. Havia céus alaranjados e mornos, como um abraço. Outros eram azuis e roxos, misteriosos e profundos, nos quais o coração se escondia. Mas meus favoritos eram os céus "híbridos", aqueles sem definição exata, mesclados, como imagem criada com pincel sujo. Um resto de cor atrelado a outro resto de cor, estes eram os céus estampados após as tempestades. Era o chumbo empoeirando o azul celeste, o rústico e o suave, uma dança entre opostos que se distraem. Céus que deixam saudade. Céus de nostalgia.
Pessoas que compuseram meus dias também ressurgem nos porta-retratos. Sob poeira da saudade, sob nostalgia cristalina.
...
Nosso abraço durou um terço do meu corpo
Girei sentindo anti-horário pra me atrasar alguns minutos
até que seu peito silenciasse o despertador no meu
Cheguei mais cedo pra sentar perto de ti
tímido, assim, fiquei ali, cronometrando os 4 anos de nós,
tendo tiq-ue ou quase a-tac a cada troca de olhares
Vou derreter esse tempo congelado pra, do seu lado,
reaquecer cada segundo em primeiro no seu amor
meu amor
....
O cheiro de quarto velho. De coberta que trocou o perfume do amaciante pela essência de sono. De me sentir no lugar mais "meu" do mundo. Como é bom chegar em casa e saber exatamente onde me encontrar. Cada prateleira tem um pouco de mim. Um pó de mim. Gosto assim, exatamente assim. Sinto como se as posições de detalhes fossem uma espécie de mapa astral a me definir. Ou lembrar quem eu sou. Quando mudo algo, mudo a mim, a minha percepção e tudo mais. Fica evidente o movimento dos astros sob a pilha de livros e roupas.
Também gosto de abafar bem o som. Aumentar o volume e me jogar no oceano e timbres. A cabeça submerge nas águas sonoras. Debaixo do áudio, canto de sereis, serenata de baleias, conchas nos ouvidos sussurrando mares. Então eu me rendo e danço. No espaço apertado do quarto faço, entre quatro paredes, as profundezas para, então, sentir falta de ar. Sentir falta de respirar meu ar. Encher os pulmões do meu próprio cheiro, impregnado por todos os cantos. Faço isso quando sinto falta de mim. Nostalgia de mim.
Das tantas voltas que dei pra chegar até aqui
o ponto de partida que me rasgou ao me libertar
a porta que tranquei, agora me deixar entrar
Ir e vir, pra lá e pra cá, a gente só caminha porque sabe voltar
E quando chega novamente, faz as pazes com os céus, o tempo e o espaço
Regresso que descansa os joelhos, como é bom chegar
de (a)onde nunca saímos.
De nós.
de braços largos num sorriso aberto
lancei minha alma ao nada
enquanto pensava em tudo
Zéfiro entrava na cara sem bater
acariciava os caminhos do rosto
como se os lesse com a ponta dos ventos
Desfiz a mim no caminho
rastro, gasto, passado e repassado
Fiz de mim lembrança
Trilha
Tiro.
...
Hoje eu não acordei bem. Mas acordei. Os finais de ano me deixam extremamente nostálgico e nada, nem ninguém, consegue abater a sensação de o que tive no passado só se tornou mais importante do que o que tenho no presente quando, de fato, passou. Que na época em que eu olhava pra você fumando na cozinha, não sentia muito além de comodismo e segurança. Mas depois, quando ficamos ambos no cinzeiro, sua ausência ganhou mais peso do que a presença. Teve que doer pra me fazer sentir. Eu até sentia naquela época, só não sabia o quê. Diria, ontem, que era amor. Hoje, nostalgia.
Na infância, passava grande parte dos meus dias só, comigo mesmo, apenas. Eu achava que solidão era uma condição normal. Pelo menos no meu caso. Assim me criei, literalmente, bem. As conversas eram longas. Dois Vinicius a contar sobre suas vontades, sonhos, etc. Por fora, lábios selados, por dentro, algazarra. Daí cresci e fui obrigado a falar mais - bem mais, inclusive. Mas sempre que podia, calava. Comecei a sentir saudades de ficar quieto e solitário. Comecei e continuei. Continuo. Nostalgia, não é mesmo?
As músicas, as roupas, os cheiros, as cores... Cada época tinha suas marcas que serviam de indexamento para a memória. Porém, nada se comparava aos céus. Eu lembro deles e parece que meu coração deixa na grama com a cara pra cima, rabiscando contorno nas nuvens. Havia céus alaranjados e mornos, como um abraço. Outros eram azuis e roxos, misteriosos e profundos, nos quais o coração se escondia. Mas meus favoritos eram os céus "híbridos", aqueles sem definição exata, mesclados, como imagem criada com pincel sujo. Um resto de cor atrelado a outro resto de cor, estes eram os céus estampados após as tempestades. Era o chumbo empoeirando o azul celeste, o rústico e o suave, uma dança entre opostos que se distraem. Céus que deixam saudade. Céus de nostalgia.
Pessoas que compuseram meus dias também ressurgem nos porta-retratos. Sob poeira da saudade, sob nostalgia cristalina.
...
Nosso abraço durou um terço do meu corpo
Girei sentindo anti-horário pra me atrasar alguns minutos
até que seu peito silenciasse o despertador no meu
Cheguei mais cedo pra sentar perto de ti
tímido, assim, fiquei ali, cronometrando os 4 anos de nós,
tendo tiq-ue ou quase a-tac a cada troca de olhares
Vou derreter esse tempo congelado pra, do seu lado,
reaquecer cada segundo em primeiro no seu amor
meu amor
....
O cheiro de quarto velho. De coberta que trocou o perfume do amaciante pela essência de sono. De me sentir no lugar mais "meu" do mundo. Como é bom chegar em casa e saber exatamente onde me encontrar. Cada prateleira tem um pouco de mim. Um pó de mim. Gosto assim, exatamente assim. Sinto como se as posições de detalhes fossem uma espécie de mapa astral a me definir. Ou lembrar quem eu sou. Quando mudo algo, mudo a mim, a minha percepção e tudo mais. Fica evidente o movimento dos astros sob a pilha de livros e roupas.
Também gosto de abafar bem o som. Aumentar o volume e me jogar no oceano e timbres. A cabeça submerge nas águas sonoras. Debaixo do áudio, canto de sereis, serenata de baleias, conchas nos ouvidos sussurrando mares. Então eu me rendo e danço. No espaço apertado do quarto faço, entre quatro paredes, as profundezas para, então, sentir falta de ar. Sentir falta de respirar meu ar. Encher os pulmões do meu próprio cheiro, impregnado por todos os cantos. Faço isso quando sinto falta de mim. Nostalgia de mim.
Das tantas voltas que dei pra chegar até aqui
o ponto de partida que me rasgou ao me libertar
a porta que tranquei, agora me deixar entrar
Ir e vir, pra lá e pra cá, a gente só caminha porque sabe voltar
E quando chega novamente, faz as pazes com os céus, o tempo e o espaço
Regresso que descansa os joelhos, como é bom chegar
de (a)onde nunca saímos.
De nós.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2015
Quem
Eu sou...
Eu sou aquele que se desconhece em si mesmo,
Pinta a pele de labirinto com as marcas de amores perdidos
Eu sou a voz pra dentro, que cala o peito e ecoa por entre os ossos
Rege as batidas do coração desafinado pelos quereres
Eu sou o fruto caído do galho, machucado demais pra ser doce
Esquecido no chão, esperando ser semente pra se semear
Eu sou a raiva entre nós que distorce o espaço pra que nada caiba certo
Força da minha mãe natureza capaz de devastar a tudo que mais ama
Eu sou o amor que não se concretizou, a promessa sem prometido
Uma lição que ensina a sofrer sorrindo, morrer vivendo, parecer desaparecendo
Eu sou o tempo roubado, ponteiro ímpar a marcar as horas não passadas
Os beijos não dados, as vontades negadas, o desejo não desperto
Eu sou o mal, a nigrosina na ponta da língua, o sabor da traição, o idioma da serpente
Deus da dúvida, deusa da incerteza, maestro da manhã silenciosa, filho sem berço
Eu sou a chave errada na fechadura errada, rachadura na porta rígida
Aquele que entra sem pedir e sai sem se despedir, vulto no corredor, estalo na cozinha, sussurro na janela
Eu sou a montanha intransponível, inacessível, inalcançável, inabitável
Pico da solitude, ponta de rocha a rasgar os céus, segura em si mesma, escondida nas próprias cavernas, abalável
Eu sou o sal despejado em solo fértil, punhado de nada
Aquele que seca a si mesmo e àquilo que toca
Eu sou a ponta da lança entre as costelas que atende à súplica
Instrumento do sacrifício, sou quem perfura e também quem sangra
Eu sou o crepúsculo, sono dos deuses, refúgio do horizonte, vago entre luz e treva
Eterna transição entre céus, a valsa dos opostos, a paz dos odiosos, sou trégua
Eu sou a rua violentada, caída sobre si e coberta pelo véu na noite
Feita para ser pisada, para conduzir os outros aos seus destinos e manter-se parada no seu
Eu sou o beijo na lágrima, o lábio que toca o mar e se salga
Luar que acalma a maré em madrugadas tempestuosas
Eu sou o detalhe que não coube na carta, na fala, na mala, na mesa do bar
Dito não dito, um respiro, um texto lido e não compreendido, uma frase solta
Eu sou o detalhe que você não percebeu.
domingo, 22 de novembro de 2015
Sala para estar
Dez e meia da manhã. Eu havia afastado todos os móveis do centro da sala. No meio do piso gélido, um maço de cigarros fechado, a garrafa inseparável, alguns discos espalhados e o baralho de tarô. Acendi o primeiro, traguei a segunda, toquei o terceiro e li o último. Era um ritual de passagem para me levar de volta ao "eu" perdido no "você". O Enforcado sobre nós.
Livrar-se do vício é uma experiência imensurável. Por mais que digam o quão difícil é passar por esse processo, não consigo detalhar o que seria "duro" e o que seria "suave". Sinto como se você uma mistura, algo amorfo que ocupa espaço dentro de nós, escorre, evapora, às vezes fica sólido como um bloco de pedra, mas nunca permanece o mesmo. Os vícios dançam com nossos sentidos - e isso eu sinto. Faz sorrir quando é para chorar e chorar duas vezes quando é para sofrer. Deixa nos lábios um gosto amargo de despedida e nos olhos uma fome diferente que ronca a cada piscada na espera de uma mensagem ou braços abertos num sorriso. Aparentemente, falo como se estivesse descrevendo uma sensação excitante - ou pelo menos sedutora o bastante para valer o risco de desfrutá-la. Mas então por que preparar toda a sala para o período de "desintoxicação"? Sinceramente, não sei. Apenas faço o que tem que ser feito. Às vezes a gente precisa misturar o "sim" e o "não", o "certo" e o "errado", no intuito de promover uma dança entre a razão e o coração.
Dancemos, então...
Dancemos, então...
Depois do primeiro gole, senti confiança. Fechei os olhos, uni as mãos e estralei os dedos. Daí em diante, revirei as fotos na gaveta da memória e fui rasgando uma a uma, mesmo sem querer e sem acreditar que sumiriam para sempre. A tentativa já valia bastante. Todos os pequenos momentos que eu fiz questão de amplificar com minhas lentes começaram a revelar suas falhas e real (in)significância. O primeiro vício, então, revelou-se: meu apreço por detalhes. Aqueles pequenos pontos que atraem a visão por si só. São como palavras minúsculas ditas durante grandes declarações. Por que gostar tanto de criaturas efêmeras e tímidas? De fonemas sussurrados em meio à enxurrada de outros dizeres? Porque quando você percebe um detalhe, ali, escondido, despercebido, ele - por outro lado - só percebe você. Ele só vê você e só tem significado para você. Passa então a ser seu e te adorar como deus. Aquele que, diante do invisível, brilha feito constelação e traça o destino de quem nunca antes integrou história alguma. Os detalhes me fazem sentir único, privilegiado por tê-los encontrado e ter sido encontrado por eles. Sim, isso cria dentro de nós - ou pelo menos de mim - um desejo recorrente de ouvir só o que me parece fora do comum, porém dentro do meu infinito particular. Foi assim que eu criei em sete dias um universo lexical capaz de colocar em ordem os astros debaixo do peito. O primeiro vício estava no céu, no alto, no silêncio e na escuridão do cosmos. Abrir mão dele pedia que eu fosse capaz de tratar tais detalhes como estrelas... Brilham solitárias, já mortas, distantes, numa outra ponta do "para sempre" no qual eu também já não existo mais.
O primeiro cigarro se foi e deixou um pouco de sobriedade. Acredito que esse seja sua principal função. Desta vez, busquei, de olhos fechados, o toque, o beijo e o jeito de falar. Do barro do desejo, modelei aquele que seria, à imagem de mim mesmo, meu amor maior. Meu melhor trabalho. O outro, em contato comigo, fazia-me sentir a vida à flor da pele. Chegava lentamente como a primeira brisa quente de verão e arrepiava meus pelos. Pressionada os braços, encurralava meus ossos e então deixava que o magnetismo fundisse as vontades. Foi assim que mais um vício nasceu: do parto que não nos separava, pelo contrário, paria nosso querer a cada manhã amanhecida sobre a cama de casal sem histórias românticas para contar. Havia apelas aquele calor do "não toque" que me lembrava do quão insone é tentar lutar contra a vontade dormindo ao lado dela. Quase como lamber os lábios pra fingir que não está salivando. E tudo isso a troco de quê? De uma promessa vaga soprada durante a noite... Ou de um despertar, no meio da madrugada, daqueles que buscam saciar a sede nos meus lábios. Eu me viciei na tensão. Na proximidade - ainda que distante - e abri mão de sonhar adormecido para sonhar acorrentado e desperto entre as cobertas. Afundando no colchão até que as profundezas me recebem de mar aberto. O corpo dele naufragava no oceano agitado do meu. Este segundo vício, tão material e real, era fruto das ondas impacientes da minha carne que o puxavam para dentro de mim. Na maré alta, cobriam seu rosto de beijos e na baixa deixavam apenas o rastro de feridas não curadas pelas águas salgadas. Desapegar do que era possível de ser pego trouxe-me a chance de, mais uma vez, entender que não há desejo que resista a outro desejo. Se um quer, dois, ainda assim, não fazem.
Naquele momento, eu já ansiava pelo que achava ter superado. As fotos, o corpo, tudo parecia lutar pra resistir ao esquecimento - ou indiferença. "E se...", "De repente eu posso...", "Será que se eu...", "Lutei o bastante?"... As armadilhas foram postas estrategicamente e parecem não se intimidar com toda a capacidade que minha mente tem de desarmá-las. Há sempre um fator surpresa e é aí que elas me pegam de jeito. Pois bem: eis que começou a tocar aquela música. Aquela música. Olhei em direção à janela e foi como ver uma macieira brotar instantaneamente. Seu tronco entrelaçava as curvas amadeiradas e no topo um volumoso verde preenchia boa parte do espaço. Encarando-me, silenciosa, apenas deixou revelar-se aquele pequeno fruto. Vermelho, lustroso, simples e solitário. Era detalhe e matéria ao mesmo tempo. Era bonito de se ver e desejável de se comer. Enquanto eu permanecia paralisado, a música continuava a tocar sutilmente. Percebi, assim, que ela se apresentava como um sibilo no pé do ouvido. Dizia-me: "permita-se fazer a diferença, quebre suas próprias regras, supere-se e vá ser feliz. Você foi criado para isso.". Os ombros relaxaram e a angústia parecia ter ficado em segundo plano. As folhas da macieira sacudiram um pouco e pude sentir a corrente de ar passando pelo meu rosto, rodopiando em volta da nuca e então apagando as poucas velas que havia acendido para deixar o clima da sala mais intimista. Como se tal espaço fosse o recinto da minha essência, senti que haviam apagado as luzes dentro de mim. Deixe-me levar... Fui até o telefone, disquei o número dele, ensaiei algumas palavras - todas repletas de metáforas e detalhes que - ao meu ver - levariam-o até mim mais uma vez... E quando ouvi sua voz, senti o peso.
No instante perdido entre o encher de pulmões para então preparar o fôlego para a palavra que viria em seguida, tive uma acesso de raiva e ansiedade. Mais uma vez, tudo misturado, tudo impossível de se mensurar. Lembrei de quantas vezes liguei, das muitas vezes em que quis ligar, esperei e não tive a chance de ser a pessoa a dizer "alô". Do quanto me custou aguentar sozinho a solidão e não a solitude. Dias e mais dias arrastado como grilhões nos calcanhares, tudo porque eu simplesmente estava viciado em ter alguém, mesmo que esse alguém não me tivesse. Os nomes, os endereços, os títulos, nada me interessava. Só a presença e a resposta para meus estímulos e desejos. Só. E só eu fiquei. Porque não me entreguei ao outro, de fato, entreguei-me à situação em si. Ele era o caminho a ser percorrido, por isso que não suportava desvios. Muito menos me sentir perdido. Eu sabia onde queria chegar. O problema era descobrir como. E achei, por muitos anos, que a resposta estava fora de mim, nos gestos dele.
Voltei a atenção para a sala, joguei o olhar para o canto esquerdo e lá estava a carta do Enforcado, esperando para entrar em cena. Talvez, o principal remédio contra essa pequena recaída. Sua simbologia era rica, mas apenas uma palavra me bastava para compreender a mensagem que queria passar: sacrifício. Dor, abstinência, falta, sofrimento, angústia, tudo isso num nível alto, constante e inevitável. Tudo isso para que, no final das contas, algo de positivo surgisse. Pois sofrimento só consegue massacrar as pequenas felicidades quando não se sabe se o que virá depois dele será mais tempestade ou alguma gota de bonança. Ele nos obriga a pensar apenas no seu fim, quando na verdade o importante é entender o seu presente, o meio, o pesar do agora. Acabei me sacrificando em prol dos meus vícios e da promessa de que eles bastariam pra preencher lacunas ancestrais da minha história. Percebi então que não preciso me livrar deles, dar um fim repentino e pronto, pois novos surgirão. Eu precisava de me recuperar, reabilitar minha capacidade de me destruir e me reconstruir. Eu precisava morrer pra renascer, fechar um círculo e, assim, iniciar outro. Precisava do sacrifício e ele viria com a permanência dos meus vícios e o controle dos mesmos.
Coloquei a corda em volta do pescoço e pulei. O último vício - aquele que me sufoca porque me faz sofrer o que precisa ser sofrido - estava entre o céu e as profundezas do mar. Ele transitava pelos meus dias, pela casa desarrumada, pela saudade que sinto dele, pelos passos na rua, pelos cheiros que me enfeitiçam... Ele existia no hoje e dizia toda vez que me encontrava:
"Permita-se fazer falta".
"Permita-se fazer falta".
terça-feira, 6 de outubro de 2015
Páginas pretas I
Minha boca está seca
Eu sinto como se algo devorasse minhas entranhas
Algo gélido
Apagaram as luzes dentro de mim
Mas eu não posso simplesmente deitar e ficar parado, em silêncio
o mundo me invoca, ele exige minha presença
mas eu não vou, mando qualquer coisa de mim, mas não eu
Só penso em morrer, sumir, qualquer ação que me tire daqui e daí, de lá e de cá
De qualquer lugar
Penso nas pessoas queridas, não as quero mais
Penso nas pessoas que quis - mas não as tive - e sinto ânsia de vômito
Lembro da minha família e vem um vazio que era pra ser sempre preenchido com amor
Eu não consigo me conectar a ninguém, só a mim mesmo
Falar está me custando muito
O carinho de quem sabe da minha situação dói feito espinho de peixe descendo pela garganta
Sou obrigado a engolir esse sentimento bom que só me estraga
Há nigrosina na minha visão, na minha saliva escassa, em tudo que cai para dentro
Eu não quero viver, mas morrer seria ruim também
Estou num ponto de intersecção entre a glória de existir e a vitória de morrer
Nem glória, nem vitória, eu me arrasto pelas linhas do destino
Tudo que contruí não passou de reflexo das expectativas alheias
Eu nunca quis muito, mas alargaram meu desejo
Fizeram de mim um adicto
Não me importo
Queria sentir algo além dessa angústia profunda
Mas não dá, não consigo
Só penso em partir
Romper com vários vínculos
Só penso, porque não consigo me mover
Não assim, com grilhões a me prender
Imagine chegar no trabalho, só que sem ter saído do quarto... Quase isso
Odeio me sentir vulnerável e a bala não vir pra acabar com tudo
É difícil explicar
Digo apenas que é ruim, que consome tudo e que te faz ter aversão às pessoas
Ao mundo, aos sons que não são aqueles que você escolheu ouvir
Os olhos tentam se esconder e só se fixam em objetos mortos, inanimados
A cabeça fica mais baixa
E o principal: evitar olhar diretamente para os olhos dos outros
É pior do que levar uma facada
Há uma imagem constante em minha mente - cidades ruindo
Tudo desmoronando num fim de tarde crepuscular cujo tom alaranjado lembra algo em sépia
Lentamente, tudo rui
Eu não queria sair do meu quarto hoje
Fui obrigado a nascer, então essa vida não é só minha
Ela também é de outros e outras
Isso me tortura lentamente
Não ter a mim mesmo por completo
Se eu tivesse, o que faria?
Não seria.
Eu sinto como se algo devorasse minhas entranhas
Algo gélido
Apagaram as luzes dentro de mim
Mas eu não posso simplesmente deitar e ficar parado, em silêncio
o mundo me invoca, ele exige minha presença
mas eu não vou, mando qualquer coisa de mim, mas não eu
Só penso em morrer, sumir, qualquer ação que me tire daqui e daí, de lá e de cá
De qualquer lugar
Penso nas pessoas queridas, não as quero mais
Penso nas pessoas que quis - mas não as tive - e sinto ânsia de vômito
Lembro da minha família e vem um vazio que era pra ser sempre preenchido com amor
Eu não consigo me conectar a ninguém, só a mim mesmo
Falar está me custando muito
O carinho de quem sabe da minha situação dói feito espinho de peixe descendo pela garganta
Sou obrigado a engolir esse sentimento bom que só me estraga
Há nigrosina na minha visão, na minha saliva escassa, em tudo que cai para dentro
Eu não quero viver, mas morrer seria ruim também
Estou num ponto de intersecção entre a glória de existir e a vitória de morrer
Nem glória, nem vitória, eu me arrasto pelas linhas do destino
Tudo que contruí não passou de reflexo das expectativas alheias
Eu nunca quis muito, mas alargaram meu desejo
Fizeram de mim um adicto
Não me importo
Queria sentir algo além dessa angústia profunda
Mas não dá, não consigo
Só penso em partir
Romper com vários vínculos
Só penso, porque não consigo me mover
Não assim, com grilhões a me prender
Imagine chegar no trabalho, só que sem ter saído do quarto... Quase isso
Odeio me sentir vulnerável e a bala não vir pra acabar com tudo
É difícil explicar
Digo apenas que é ruim, que consome tudo e que te faz ter aversão às pessoas
Ao mundo, aos sons que não são aqueles que você escolheu ouvir
Os olhos tentam se esconder e só se fixam em objetos mortos, inanimados
A cabeça fica mais baixa
E o principal: evitar olhar diretamente para os olhos dos outros
É pior do que levar uma facada
Há uma imagem constante em minha mente - cidades ruindo
Tudo desmoronando num fim de tarde crepuscular cujo tom alaranjado lembra algo em sépia
Lentamente, tudo rui
Eu não queria sair do meu quarto hoje
Fui obrigado a nascer, então essa vida não é só minha
Ela também é de outros e outras
Isso me tortura lentamente
Não ter a mim mesmo por completo
Se eu tivesse, o que faria?
Não seria.
segunda-feira, 28 de setembro de 2015
Dos Nadas
"Não tira a terra debaixo dos pés, menino. Continue sua subida até o pico mais alto e lá faça seu voo para bem longe de si. Sozinho, encha os pulmões com a brisa crepuscular, vamos, espreguice estas costelas, engula a própria barriga, brinque-se. Faça o céu sorrir com sua imagem infantil, disfarce toda a tristeza que te corrói por entre as veias, feche os olhos e abandone o cheiro do outro. Tudo acabou quando o abraço se tornou apenas um, solitário, entre braços. Acabou no exato momento em que os laços atados a nós invisíveis já não mais conseguiam manter tempo e espaço como aliados do amor de vocês. Mantenha a terra debaixo dos pés, menino. Você precisa de bases."
- Dizia a serpente com seu jeito único de sibilar.
_________
O nada. O grau absoluto da ausência. O luto da existência. O vácuo. O estado etéreo da angústia. A pressão baixa da líbido que vai até o pé e lá fica, no fundo do osso, beirando o calcanhar, penhasco das pegadas invertidas. Nada, absolutamente nada. O único desejo pleno e verdadeiro. Querer nada e no nada ficar. Passar despercebido pelo tempo e espaço, como uma vírgula na regência cósmica. Permanecer sem ser.
Lentamente, o corpo inclina rumo à superfície gélida do chão. O ombro se retraí, sustando o peso de seu gêmeo - agora totalmente entregue ao nada. A respiração desacelera, os olhos perdem o ponto focal e transformam cores e formas em fumaça de realidade em pó. E a boca seca. E as mãos se unem, sem força. E os pés se cruzam, sem aperto. E os joelhos... Os joelhos doem, mas o resto do corpo já não sente mais nada.
Nesta posição, a pressão da vida parece se inverter como ampulheta e ao invés de areia, escorrem os grãos de felicidade. Eles passam, um a um, despedindo-se. Nada pode tirar a criatura ruída dali, afinal, foi o Nada que ali a colocou. O eterno adeus parece fazer todo sentido, afinal, toda despedida não anuncia mais Nada além da partida.
As vozes no cômodo inferir, o ranger da casa, as árvores que ainda balançam inquietas anunciando a tempestade por vir já não conseguem mais encostar na pele. Nada toca, Nada chega até o chão, Nada incomoda a existência desistente.
Uma das orelhas beija o chão e como concha reproduz um barulho único - oceânico. Dentro do quarto escuro, parece com o roncar retumbante dos trovões agitando o céu, esse som subterrâneo soa como canção de ninar para a alma exausta e faz daquele piso duro a cama perfeita - fria, dura e lisa. Suavemente, a lua vem desejar "boa noite" e, com seu véu, cobre quem Nada queria além do Nada.
Envolver-se numa dança silenciosa entre o desapego e a melancolia profunda - segurando, sem medo ou arrependimento, a cintura da depressão com as palmas da mão - é algo ritualístico. Momento em que as memórias alegres tornam-se moeda de troca, dinheiro de aposta de quem só quer perder de vez e não ser mais obrigado a encher os bolsos com falsas expectativas. Esse flerte com quem não se flerta, no caso, as três entidades raquíticas - desapego, melancolia e depressão -, assemelha-se às vezes em que mãos conduzem o desejo para lugares impróprios, deixando na pele cinzas e marcas a lembrar que de Nada se lembrava.
Nos minutos seguintes, as gotas que brotam no vidro da janela sangravam lentamente. Lá fora, alguém precisa chorar. Aqui dentro, sobre o peito precisa chover. Mas quando se está diante do Nada, lágrima pinga no caminho inverso e só o Nada é capaz de tirar do rosto a inexpressão. Ali ficam, intactos, corpo e desalma. Chuva que deságua.
Nos minutos seguintes, as gotas que brotam no vidro da janela sangravam lentamente. Lá fora, alguém precisa chorar. Aqui dentro, sobre o peito precisa chover. Mas quando se está diante do Nada, lágrima pinga no caminho inverso e só o Nada é capaz de tirar do rosto a inexpressão. Ali ficam, intactos, corpo e desalma. Chuva que deságua.
Ficar. Apenas ficar. Ficar. Desistir. Ficar. Fincar as unhas no braço para tentar sentir algo. Nada. Sente nada. Sente muito por não sentir nada. De repente, algo parece se retorcer no âmago. Algo pulsa com o pouco de força que lhe resta... uma serpente se desenrola e estica sua carcaça para fora do ninho. Ela desliza aos poucos, desenhando horizontes pelas montanhas do corpo, acariciando curvas, caindo em abismos e beijando imperfeições. A serpente sibila e vai em direção à janela. Enrola-se à trinca, abre ambas as abas e deixa os sopros revoltosos da tormenta entrarem.
O corpo se ergue.
Caminha sem andar.
Vê sem olhar.
Senta-se na beira da janela, ao lado da serpete e de costas para a tempestade. Sente uma leveza incomum, como se finalmente Nada lhe fizesse falta. Nada lhe cobrasse. Nada lhe consumisse e tentasse ter dele mais do que ele mesmo tinha.
- Obrigado pela janela.
- Obrigado pela janela.
- De Nada.
O Nada. O degrau absoluto da decadência.
"Você não precisa mais de bases".
- Dizia a serpente com seu jeito único de sibilar.
O Nada. O degrau absoluto da decadência.
"Você não precisa mais de bases".
- Dizia a serpente com seu jeito único de sibilar.
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
Quando molhamos os pés, encolhemos
Antes mesmo de sair da cama, já sabia que a terça-feira não seria fácil. Muita burocracia para resolver, trabalho para entregar e faculdade para comparecer. Saí de casa e segui meu rumo. Percebi que o dia seria de chuva, então optei pelo par de botas. A sola me deixou um dedo maior e ajustou o andar para algo mais imponente. Parece besteira, mas eu vivo minhas vestimentas também.
Já sentado diante do computador, dei início às tarefas cotidianas. Tudo sob controle, como bem gosto. Da janela do escritório era possível ver o céu carregado em chumbo, pesado, pronto pra desabar. Passei alguns segundos contemplando aquela paisagem, sem imaginar que horas depois ela me engoliria e cuspiria de volta.
Eu meio aos muitos textos que leio, surgia tempo para resolver questões pessoais. No meu caso, o que havia de mais "pessoal" era a transferência de dinheiro para uma conta corrente em meu nome. O sistema online estava bloqueado e eu precisava ir até uma agência bancária para solicitar a liberação dos serviços que meu contrato possuía. Sem chances de sair durante o expediente, contive-me e procurei por alguma unidade que ficasse próxima ou no caminho da faculdade. Achei.
As horas faziam seu trabalho e eu ou meu. Focado, conseguia desviar a mente das emoções de engano. Lembrava do ótimo final de semana que havia tido e de o quão triste era o seu término. Na boca, nenhum gosto de beijo - só bebida e cigarro. No corpo, nenhuma marca - só saudade mesmo. Intacto, sobrevivi ao desejo fulminante que devastou apenas aquilo que não se toca: o sentimento. Aos poucos, uma angustia foi me invadindo como névoa e quando percebi já estava perdido dentro da própria consciência. Fui entristecendo, caindo num branco absoluto e denso. Fim de expediente. Hora de ir para a faculdade.
Gosto muito de caminhar. Se pudesse, iria a todos os meus compromissos andando. Enquanto trocava os pés pelas mãos e deixava que carimbassem o chão com passadas, aproveitava para refletir sobre centenas de situações. Este processo é essencial para mim. Converso comigo, pergunto como estou - mesmo sabendo a resposta, respondo - ainda que não saiba o motivo, escuto-me, como sempre fiz, desde os três anos de idade.
Já fora do prédio, pude sentir a força da tempestade. Tudo encharcado, trânsito berrante, pessoas desesperadas com seus guarda-chuvas retaliadores de cabeças e as calçadas idênticas à beira do mar. Destreza é uma de minhas qualidades. Cuidadosamente, garanti que pouco fosse atingido pela água torrencial. Então, quando saí da estação de metrô para me dirigir até o banco, tudo desabou dentro e fora de minha pessoa.
Passei a avaliar como tinha sido minha terça-feira e as últimas energias que me restavam apenas durariam tempo suficiente para sentar na carteira da sala de aula e encarar mais de três horas de teoria pesada. Como se a vida fosse tirando lascas de si mesma, cada pedaço daquele dia se desfazia no asfalto ensopado e o vigor atingira a espessura de um fio de água. Fui percebendo o tamanho das dificuldades que se arrastavam junto aos meus calcanhares e, num pingar de gotas, perdi a motivação dos olhos.
Apressado, andei pelas ruas do centro da cidade na busca da agência. Mesmo com o guarda-chuva em mãos, não consegui evitar o aguaceiro. Mas os pés ainda estavam intactos. A cada esquina, pedia informação para alguém até que avistei o logo do banco na fachada de um prédio e a dose mínima de alívio correu pelas veias. Como toda droga, dura tempo o bastante para gerar dependência - depois some. Diante da porta de entrada, o aviso: aberto somente até às 18h. Diante do relógio, os ponteiros: 18h48.
Precisava correr para a aula. Cansado, com fome, com frio, com a visão embaçada, com a mochila pesada, com o maço quase acabando... Assim eu fui, escorrendo silencioso pelas vias da cidade. Quando cheguei diante do prédio da instituição, pude olhar para meus pés. Eles estavam molhados. Finalmente, eu havia sido derrotado.
Difícil descrever o que senti. Na verdade não é difícil, é cansativo. Sentir os dedos esfriando, as botas grudando desesperadas nos peitos dos pés e o barulho da água se infiltrando cada vez mais pelos cadarços foi como olhar para meu reflexo e me ver sendo humilhado pela vida. Como se ela estivesse mostrando quem manda e não me desse autonomia alguma diante do destino. A sensação de pequenez dominou. Pensei em todo o sacrifício feito ao longo da terça de chuva... Pensei e entendi que ele pouco valeu. Quis chorar, mas já havia chovido demais.
Tratava-se de aperto. Eu sentia como se estivesse suprimido em mim. Afogado na frustração daquele dia tempestuoso. Meu rosto se distorcia no fundo da poça, mascarando a vergonha na cara. Fluvial era meu peito que transbordava a cada puxada profunda de ar. Tudo o que eu queria era ir para casa recompor o que jorrou de mim.
Minha mãe dizia que tanto as roupas quanto os tênis encolhiam quando eram molhados e depois secavam. Na verdade, não eram só eles. Eu também. Quando molhei meus pés, senti-me menor. "Parece besteira, mas eu vivo minhas vestimentas também."
Eu que encolhi.
Já sentado diante do computador, dei início às tarefas cotidianas. Tudo sob controle, como bem gosto. Da janela do escritório era possível ver o céu carregado em chumbo, pesado, pronto pra desabar. Passei alguns segundos contemplando aquela paisagem, sem imaginar que horas depois ela me engoliria e cuspiria de volta.
Eu meio aos muitos textos que leio, surgia tempo para resolver questões pessoais. No meu caso, o que havia de mais "pessoal" era a transferência de dinheiro para uma conta corrente em meu nome. O sistema online estava bloqueado e eu precisava ir até uma agência bancária para solicitar a liberação dos serviços que meu contrato possuía. Sem chances de sair durante o expediente, contive-me e procurei por alguma unidade que ficasse próxima ou no caminho da faculdade. Achei.
As horas faziam seu trabalho e eu ou meu. Focado, conseguia desviar a mente das emoções de engano. Lembrava do ótimo final de semana que havia tido e de o quão triste era o seu término. Na boca, nenhum gosto de beijo - só bebida e cigarro. No corpo, nenhuma marca - só saudade mesmo. Intacto, sobrevivi ao desejo fulminante que devastou apenas aquilo que não se toca: o sentimento. Aos poucos, uma angustia foi me invadindo como névoa e quando percebi já estava perdido dentro da própria consciência. Fui entristecendo, caindo num branco absoluto e denso. Fim de expediente. Hora de ir para a faculdade.
Gosto muito de caminhar. Se pudesse, iria a todos os meus compromissos andando. Enquanto trocava os pés pelas mãos e deixava que carimbassem o chão com passadas, aproveitava para refletir sobre centenas de situações. Este processo é essencial para mim. Converso comigo, pergunto como estou - mesmo sabendo a resposta, respondo - ainda que não saiba o motivo, escuto-me, como sempre fiz, desde os três anos de idade.
Já fora do prédio, pude sentir a força da tempestade. Tudo encharcado, trânsito berrante, pessoas desesperadas com seus guarda-chuvas retaliadores de cabeças e as calçadas idênticas à beira do mar. Destreza é uma de minhas qualidades. Cuidadosamente, garanti que pouco fosse atingido pela água torrencial. Então, quando saí da estação de metrô para me dirigir até o banco, tudo desabou dentro e fora de minha pessoa.
Passei a avaliar como tinha sido minha terça-feira e as últimas energias que me restavam apenas durariam tempo suficiente para sentar na carteira da sala de aula e encarar mais de três horas de teoria pesada. Como se a vida fosse tirando lascas de si mesma, cada pedaço daquele dia se desfazia no asfalto ensopado e o vigor atingira a espessura de um fio de água. Fui percebendo o tamanho das dificuldades que se arrastavam junto aos meus calcanhares e, num pingar de gotas, perdi a motivação dos olhos.
Apressado, andei pelas ruas do centro da cidade na busca da agência. Mesmo com o guarda-chuva em mãos, não consegui evitar o aguaceiro. Mas os pés ainda estavam intactos. A cada esquina, pedia informação para alguém até que avistei o logo do banco na fachada de um prédio e a dose mínima de alívio correu pelas veias. Como toda droga, dura tempo o bastante para gerar dependência - depois some. Diante da porta de entrada, o aviso: aberto somente até às 18h. Diante do relógio, os ponteiros: 18h48.
Precisava correr para a aula. Cansado, com fome, com frio, com a visão embaçada, com a mochila pesada, com o maço quase acabando... Assim eu fui, escorrendo silencioso pelas vias da cidade. Quando cheguei diante do prédio da instituição, pude olhar para meus pés. Eles estavam molhados. Finalmente, eu havia sido derrotado.
Difícil descrever o que senti. Na verdade não é difícil, é cansativo. Sentir os dedos esfriando, as botas grudando desesperadas nos peitos dos pés e o barulho da água se infiltrando cada vez mais pelos cadarços foi como olhar para meu reflexo e me ver sendo humilhado pela vida. Como se ela estivesse mostrando quem manda e não me desse autonomia alguma diante do destino. A sensação de pequenez dominou. Pensei em todo o sacrifício feito ao longo da terça de chuva... Pensei e entendi que ele pouco valeu. Quis chorar, mas já havia chovido demais.
Tratava-se de aperto. Eu sentia como se estivesse suprimido em mim. Afogado na frustração daquele dia tempestuoso. Meu rosto se distorcia no fundo da poça, mascarando a vergonha na cara. Fluvial era meu peito que transbordava a cada puxada profunda de ar. Tudo o que eu queria era ir para casa recompor o que jorrou de mim.
Minha mãe dizia que tanto as roupas quanto os tênis encolhiam quando eram molhados e depois secavam. Na verdade, não eram só eles. Eu também. Quando molhei meus pés, senti-me menor. "Parece besteira, mas eu vivo minhas vestimentas também."
Eu que encolhi.
terça-feira, 18 de agosto de 2015
Ensine-me a nadar
Parecia sintoma de alguma doença séria - e rara. No entanto, de rara não tinha nada. Mas de doença…
Passei muitos anos no mesmo quarto embolorado, cercado de folhas soltas cheias de ideias presas - pensamentos e mais pensamentos, lamentos e confissões que a ninguém interessavam. Eu, escritor, na miséria da minha profissão, tinha não apenas um ofício, como também um vício.
Gostava do meu canto. Pequeno, mas confortável. Subexposto como minhas fotos favoritas. Bastavamo-nos. Contudo, eu sabia que o cigarro envolto naquela atmosfera sufocante com janelas servindo apenas de cinzeiro iria me tragar. A cada dia a mais, menos capacidade de encher os pulmões. Começava a perder o fôlego enquanto pensava. A exaustão desenhou no meu rosto um quadro daqueles bem antigos no qual o verde musgo é, de fato, musgo. Só que essa condição insalubre combinava perfeitamente com a angústia e melancolia que me acompanham desde sempre. Tudo entrava numa harmonia destrutiva e lamento nenhum conseguiria quebrar o pacto entre vida e morte. Pelo menos, foi o que pensei…
Desci para comprar um maço novo e senti que o som, ao poucos, deixava meus ouvidos. Como se algo expirasse de dentro da cabeça, o tempo espreguiçou-se diante dos meus olhos e então a lentidão passou a guiar meus passos. A cada degrau que eu descia, meu sangue parecia perder seu fervor. Foi então que ouvi meu coração suspirar. A cada batida que eu perdia, meu ar parecia perder seu frescor. Foi então que senti meu corpo despencar. A cada sensação que eu pedia, meus pensamentos pareciam perder sua cor. Foi então que não me senti.
O quarto era diferente. Tinha luz, livros ordenados - e não cobertos de poeria numa desordem completa - e uma janela enorme, recortando um pedaço de céu sem fios. O cheiro também era atípico. Espantou-me o fato de eu conseguir ter olfato algum naquele lugar. Porque na minha casa era impossível. A vida era inodora. Sem perfumes. De repente, a porta se abre e eu sinto meu peito pesar como se uma pedra estivesse posta sobre ele. Quando tentei mover minhas mãos na direção da caixa torácica instintivamente, perdi as poucas energias que haviam sido recuperadas nas horas de inconsciência. O pacto entre a vida e a morte estava abalado. Havia guerra. Tormento. E eu estava no meio.
- Oi, você acordou…
- Desculpe, quem é você?
- Sou seu vizinho. Quando você caiu das escadas, eu estava subindo.
- Eu caí? Por isso que estou todo quebrado…
- Sim. Você desmaiou. Mas deu tudo certo, porque sua cabeça bateu no meu ombro e eu consegui segurar seu corpo.
- Obrigado.
- De nada. Descanse. Eu chamei um médico, então fique aí até que ele chegue.
- Eu preciso voltar para casa.
- Quer que eu avise alguém de lá?
- Moro sozinho.
- Então vai ficar aqui. E fim de conversa. Você não está em condições de me contrariar (risos).
- Aproveite, é por pouco tempo.
- Quer alguma coisa?
- Cigarro.
O médico disse que se eu não mudasse minha rotina de fumante, morreria nos próximos dois meses. Parar com o vício estava fora de cogitação. Cair da escada também. Aproveitei que ainda estava debilitado e na cama fiquei. Olhava para o teto, branco feito uma folha de papel, e imaginei minhas palavras manchando a superfície… Formava um texto mental cujo início se resumia a uma pergunta.
- Qual é o seu nome?
- Bruno.
- Felipe.
- Está melhor, Felipe?
- Sim. Obrigado viu, Bruno.
- Tranquilo. Só saia quando estiver bem.
- Então vou ficar aqui pra sempre.
- Pode ficar.
- Estou brincando.
- Eu não. Falo sério, fique o tempo que precisar. Eu também moro sozinho. Na verdade, eu tenho uma companheira.
- Não quero incomodar a privacidade de vocês.
- Minha companheira é uma sucuri filhote (risos).
- Você tem uma cobra em casa?
- Ela foi deixada no meu consultório. Foi resgatada, na verdade. Traficantes de animais, sabe? Sou veterinário.
- Que triste. E que bom.
- Pois é. Bem, vou sair para comprar algumas coisas. Você quer algo.
- Papel, caneta e…
- Cigarros?
Só conseguia pensar na cobra. Levantei-me e devagar e fui até o aquário onde ela estava. Ao perceber minha presença, olhou para o vidro dos meus olhos e congelou. Silenciosamente, dissemos juntos a mesma coisa: “estou com fome”. Ela, de mim, eu… Dele.
À noite, resolvi conversar com Bruno e dizer que não precisava mais me hospedar em sua casa. Quando entrei na cozinha, senti um cheiro forte de páprica e pimenta do reino. Ele estava terminando de desligar o fogo da panela e me olhou como se eu tivesse estragado um aniversário surpresa. - Eu ia te levar o jantar no quarto, tudo bem bonito, poxa! Comemos, estava muito bom. Trocamos poucas palavras, pois não havia muito o que dizer mesmo. Mas naquele silêncio todo, uma tensão evidente puxava a cadeira e colocava os cotovelos sobre a mesa. Terminei, prato vazio, boca avermelhada, cheirando à fartura, mas ainda com fome. Fome dele.
- Bom, volte sempre, mas sem cair das escadas!
- Tentarei. Prometo.
- Tentará voltar ou não cair da escada?
- Os dois. E você tente me segurar se acontecer novamente.
- Fique tranquilo, já provei que sou bom nisso.
- (sorriso)
- Olha só, você sorri!
- Às vezes.
- Tente isso também.
- Boa n...
Dentro, novamente. Agora não por baixo, nem sozinho, nem pálido ou indisposto. Dentro. Eu estava vivo, vermelho, pulsando, transpirando pelo hálito quente, suando minha alma pelos poros. O que antes não passava de uma cama magra e preguiçosa, agora se desfazia em dunas de lençóis nos quais os corpos corriam um ao encontro do outro, por entre as capas finas e brancas dançando um balé único. Eu já não tinha mais controle algum e matava a fome ali mesmo, enrolado no corpo de Bruno - como uma serpente vidrando meus olhos em seus movimentos e sibilando em seus ouvidos feitiços, poesias malditas, segredos...
De repente, o peito sobe e eu sinto meu coração tropeçar como se uma pedra estivesse em seu caminho. A cada gemido que eu continha, meu rosto parecia perder sua cor. Foi então que eu não ouvi meu coração retumbar. A cada trovoada de energia que os corpos soltavam, meus arrepios desapareciam. Foi então que senti meu espírito despencar. Caía do topo do céu a estrela da manhã. A sinfonia de desejos se tornou um barulho no fundo da cabeça - cortante feito navalha. Foi então que ele não mais me sentiu. Só seu ombro.
Quando tentei mover minhas mãos na direção das de Bruno, instintivamente, perdi as poucas energias que haviam sido recuperadas nas horas a dois. O pacto entre a vida e a morte estava rompido. Havia guerra. Tormento. Tempestade. E eu estava no meio - agora com ele. Mais uma vez, caído. Samael ferido.
- Consegue me ouvir?
- Sim… O que aconteceu dessa vez?
- Você caiu, novamente.
- Da escada?
- Não necessariamente (sorri).
- Olha, eu nem sei como me desculpar por todo esse trabalho que estou dando.
- Magina, acontece. E eu gosto. Estamos fazendo companhia um pro outro.
- Eu estou bem. Consigo ir pra casa agora.
- O médico disse para você repousar pelo menos mais três dias.
- Eu estou aqui há quanto tempo?
- Dois.
- Preciso dar um jeito nisso… Viver cansa.
- Já sei o que vou fazer.
- O quê? Por favor, não quero dar mais trabalho.
- Vou te ensinar a nadar.
- Hã?
Sufocamento. Toda minha dificuldade de respirar sendo potencializada. Agonia, desgaste, frustração. Água não era para mim. Mas lá estávamos nós. Bruno me segurava enquanto me debatia feito criança. Não conseguia me acalmar, muito menos confiar no corpo submerso. Mas ele não desistia. Ele, no caso, Bruno. Quando percebeu que eu não estava prestando atenção nas dicas que estava me dando, resolveu ser pontual:
- Olha, apenas escute o que vou dizer… Escute pra valer, ok?
- Que seja.
“Pense que você não irá afundar. Agora vá soltando o corpo levemente e inclíne-o. Isso… Respire…. Mais… Tá indo bem. Mexa os braços e pernas… Imagine que está voando. Agora aproveite… E voe.”
Nunca mais caí da escada. Mas desde o último tombo, minha cabeça não abandonou seu ombro. É nele que eu me descanso da existência. É para ele que eu sussurro - sem dizer uma palavra - como foi meu dia. Nele que minha mente se acalma e o coração acha abrigo. Mesmo que ainda haja muitos cigarros no meu maço e tantos outros entre os pulmões, respirar já não é tão difícil assim. Alguém surgiu para abrir as janelas do meu peito. Agora, o ar entra vagarosamente como brisa em fim de tarde. Enfim.
Toda vez que o peso do mundo passa de seus limites, Bruno me leva pra nadar. Com braços abertos e olhos bem apertados, eu voo. Eu vou.
(...)
Parecia sintoma de alguma doença séria - e rara. No entanto, de rara não tinha nada. Mas de doença… Tinha o nome de paixão.
E a cobra, "Esperança".
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