terça-feira, 18 de agosto de 2015

Ensine-me a nadar



Parecia sintoma de alguma doença séria - e rara. No entanto, de rara não tinha nada. Mas de doença…

Passei muitos anos no mesmo quarto embolorado, cercado de folhas soltas cheias de ideias presas - pensamentos e mais pensamentos, lamentos e confissões que a ninguém interessavam. Eu, escritor, na miséria da minha profissão, tinha não apenas um ofício, como também um vício.

Gostava do meu canto. Pequeno, mas confortável. Subexposto como minhas fotos favoritas. Bastavamo-nos. Contudo, eu sabia que o cigarro envolto naquela atmosfera sufocante com janelas servindo apenas de cinzeiro iria me tragar. A cada dia a mais, menos capacidade de encher os pulmões. Começava a perder o fôlego enquanto pensava. A exaustão desenhou no meu rosto um quadro daqueles bem antigos no qual o verde musgo é, de fato, musgo. Só que essa condição insalubre combinava perfeitamente com a angústia e melancolia que me acompanham desde sempre. Tudo entrava numa harmonia destrutiva e lamento nenhum conseguiria quebrar o pacto entre vida e morte. Pelo menos, foi o que pensei…

Desci para comprar um maço novo e senti que o som, ao poucos, deixava meus ouvidos. Como se algo expirasse de dentro da cabeça, o tempo espreguiçou-se diante dos meus olhos e então a lentidão passou a guiar meus passos. A cada degrau que eu descia, meu sangue parecia perder seu fervor. Foi então que ouvi meu coração suspirar. A cada batida que eu perdia, meu ar parecia perder seu frescor. Foi então que senti meu corpo despencar. A cada sensação que eu pedia, meus pensamentos pareciam perder sua cor. Foi então que não me senti.

O quarto era diferente. Tinha luz, livros ordenados - e não cobertos de poeria numa desordem completa - e uma janela enorme, recortando um pedaço de céu sem fios. O cheiro também era atípico. Espantou-me o fato de eu conseguir ter olfato algum naquele lugar. Porque na minha casa era impossível. A vida era inodora. Sem perfumes. De repente, a porta se abre e eu sinto meu peito pesar como se uma pedra estivesse posta sobre ele. Quando tentei mover minhas mãos na direção da caixa torácica instintivamente, perdi as poucas energias que haviam sido recuperadas nas horas de inconsciência. O pacto entre a vida e a morte estava abalado. Havia guerra. Tormento. E eu estava no meio.

- Oi, você acordou…
- Desculpe, quem é você?
- Sou seu vizinho. Quando você caiu das escadas, eu estava subindo.
- Eu caí? Por isso que estou todo quebrado…
- Sim. Você desmaiou. Mas deu tudo certo, porque sua cabeça bateu no meu ombro e eu consegui segurar seu corpo.
- Obrigado.
- De nada. Descanse. Eu chamei um médico, então fique aí até que ele chegue.
- Eu preciso voltar para casa.
- Quer que eu avise alguém de lá?
- Moro sozinho.
- Então vai ficar aqui. E fim de conversa. Você não está em condições de me contrariar (risos).
- Aproveite, é por pouco tempo.
- Quer alguma coisa?
- Cigarro.

O médico disse que se eu não mudasse minha rotina de fumante, morreria nos próximos dois meses. Parar com o vício estava fora de cogitação. Cair da escada também. Aproveitei que ainda estava debilitado e na cama fiquei. Olhava para o teto, branco feito uma folha de papel, e imaginei minhas palavras manchando a superfície… Formava um texto mental cujo início se resumia a uma pergunta.

- Qual é o seu nome?
- Bruno.
- Felipe.
- Está melhor, Felipe?
- Sim. Obrigado viu, Bruno.
- Tranquilo. Só saia quando estiver bem.
- Então vou ficar aqui pra sempre.
- Pode ficar.
- Estou brincando.
- Eu não. Falo sério, fique o tempo que precisar. Eu também moro sozinho. Na verdade, eu tenho uma companheira.
- Não quero incomodar a privacidade de vocês.
- Minha companheira é uma sucuri filhote (risos).
- Você tem uma cobra em casa?
- Ela foi deixada no meu consultório. Foi resgatada, na verdade. Traficantes de animais, sabe? Sou veterinário.
- Que triste. E que bom.
- Pois é. Bem, vou sair para comprar algumas coisas. Você quer algo.
- Papel, caneta e…
- Cigarros?

Só conseguia pensar na cobra. Levantei-me e devagar e fui até o aquário onde ela estava. Ao perceber minha presença, olhou para o vidro dos meus olhos e congelou. Silenciosamente, dissemos juntos a mesma coisa: “estou com fome”. Ela, de mim, eu… Dele.

À noite, resolvi conversar com Bruno e dizer que não precisava mais me hospedar em sua casa. Quando entrei na cozinha, senti um cheiro forte de páprica e pimenta do reino. Ele estava terminando de desligar o fogo da panela e me olhou como se eu tivesse estragado um aniversário surpresa. - Eu ia te levar o jantar no quarto, tudo bem bonito, poxa! Comemos, estava muito bom. Trocamos poucas palavras, pois não havia muito o que dizer mesmo. Mas naquele silêncio todo, uma tensão evidente puxava a cadeira e colocava os cotovelos sobre a mesa. Terminei, prato vazio, boca avermelhada, cheirando à fartura, mas ainda com fome. Fome dele.

- Bom, volte sempre, mas sem cair das escadas!
- Tentarei. Prometo.
- Tentará voltar ou não cair da escada?
- Os dois. E você tente me segurar se acontecer novamente.
- Fique tranquilo, já provei que sou bom nisso.
- (sorriso)
- Olha só, você sorri!
- Às vezes.
- Tente isso também.
- Boa n...

Dentro, novamente. Agora não por baixo, nem sozinho, nem pálido ou indisposto. Dentro. Eu estava vivo, vermelho, pulsando, transpirando pelo hálito quente, suando minha alma pelos poros. O que antes não passava de uma cama magra e preguiçosa, agora se desfazia em dunas de lençóis nos quais os corpos corriam um ao encontro do outro, por entre as capas finas e brancas dançando um balé único. Eu já não tinha mais controle algum e matava a fome ali mesmo, enrolado no corpo de Bruno - como uma serpente vidrando meus olhos em seus movimentos e sibilando em seus ouvidos feitiços, poesias malditas, segredos...

De repente, o peito sobe e eu sinto meu coração tropeçar como se uma pedra estivesse em seu caminho.  A cada gemido que eu continha, meu rosto parecia perder sua cor. Foi então que eu não ouvi meu coração retumbar. A cada trovoada de energia que os corpos soltavam, meus arrepios desapareciam. Foi então que senti meu espírito despencar. Caía do topo do céu a estrela da manhã. A sinfonia de desejos se tornou um barulho no fundo da cabeça - cortante feito navalha. Foi então que ele não mais me sentiu. Só seu ombro.

Quando tentei mover minhas mãos na direção das de Bruno, instintivamente, perdi as poucas energias que haviam sido recuperadas nas horas a dois. O pacto entre a vida e a morte estava rompido. Havia guerra. Tormento. Tempestade. E eu estava no meio - agora com ele. Mais uma vez, caído. Samael ferido.

- Consegue me ouvir?
- Sim… O que aconteceu dessa vez?
- Você caiu, novamente.
- Da escada?
- Não necessariamente (sorri).
- Olha, eu nem sei como me desculpar por todo esse trabalho que estou dando.
- Magina, acontece. E eu gosto. Estamos fazendo companhia um pro outro.
- Eu estou bem. Consigo ir pra casa agora.
- O médico disse para você repousar pelo menos mais três dias.
- Eu estou aqui há quanto tempo?
- Dois.
- Preciso dar um jeito nisso… Viver cansa.
- Já sei o que vou fazer.
- O quê? Por favor, não quero dar mais trabalho.
- Vou te ensinar a nadar.
- Hã?

Sufocamento. Toda minha dificuldade de respirar sendo potencializada. Agonia, desgaste, frustração. Água não era para mim. Mas lá estávamos nós. Bruno me segurava enquanto me debatia feito criança. Não conseguia me acalmar, muito menos confiar no corpo submerso. Mas ele não desistia. Ele, no caso, Bruno. Quando percebeu que eu não estava prestando atenção nas dicas que estava me dando, resolveu ser pontual:

- Olha, apenas escute o que vou dizer… Escute pra valer, ok?
- Que seja.

“Pense que você não irá afundar. Agora vá soltando o corpo levemente e inclíne-o. Isso… Respire…. Mais… Tá indo bem. Mexa os braços e pernas… Imagine que está voando. Agora aproveite… E voe.”

Nunca mais caí da escada. Mas desde o último tombo, minha cabeça não abandonou seu ombro. É nele que eu me descanso da existência. É para ele que eu sussurro - sem dizer uma palavra - como foi meu dia. Nele que minha mente se acalma e o coração acha abrigo. Mesmo que ainda haja muitos cigarros no meu maço e tantos outros entre os pulmões, respirar já não é tão difícil assim. Alguém surgiu para abrir as janelas do meu peito. Agora, o ar entra vagarosamente como brisa em fim de tarde. Enfim.

Toda vez que o peso do mundo passa de seus limites, Bruno me leva pra nadar. Com braços abertos e olhos bem apertados, eu voo. Eu vou.

(...)
Parecia sintoma de alguma doença séria - e rara. No entanto, de rara não tinha nada. Mas de doença… Tinha o nome de paixão.

E a cobra, "Esperança".

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Foi quando me encontrei...

A primeira vez que me vi e me senti, existi. Caí da cama e dei com a cara na realidade, marquei o rostro com o estrado amadeirado das estradas percorridos antes sem rumo, agora guiadas pelas vias do tempo. Vi e vivi uma vida que não era a minha, mas a que foi talhada na carne. Da beliche de cima, meus sonhos, expectavas, desejos, minha voz projetada no silêncio de uma oração, o teto de madeira, a lua dentro da lâmpada e as estrelas voando ao seu redor, matando-se incansavelmente. Na de baixo, o peso, o uniforme da escola, os afazeres, as broncas, a rua sempre agitada e cheia de confusão, eu dormindo comigo mesmo. Dois em um. Eu em nenhum.

As vontades eram tantas que sempre me faziam correr em busca do meu pico. Eu subia, subia, e subia em olhar pra trás, na sensação de que estava me aproximando  do alto. Só que nunca chegava. Era como achar que seria possível se cobrir com nuvens ou se amarrar em correntes de ar. Foi aí que me desequilibrei e tombei. Lá de cima  - que não era topo - eu despenquei. Foi difícil reaprender a andar com os pés e não mais com as ideias. Ainda assim, consegui. Ícaro de mim mesmo, não morri, trouxe lembranças de momentos que nem cheguei a viver, mas quis tanto, tanto que até meus olhos se esforçaram para pintar uma bela imagem do que seria se eu fosse só eu. E era a hora de ser mesmo. Eu.

Foi quando me encontrei... Quando a hora mais doída já não feria mais. Quando o que queimava era meu corpo a desejar o dos outros - iguais em formato, diferentes em sentimentos. Sem toque, sem beijo e troca de olhares, tudo se fez no silêncio da minha boca e barulho da mente. Se por fora eu era uma montanha, calada e paciente, por dentro era vulcão, sempre a reclamar, implodir, lambuzando-me do mais puro magma. Mais uma vez, estava eu em dois - na base e no alto. No pé do vulcão e no alto do morro. Subindo pra depois cair. Elevando e me levando só pelo prazer de então escorrer por entre minhas próprias pernas. Morno.

Foi quando eu me encontrei que descobri o que era se perder. O que era existir em lugar nenhum, só em si mesmo. Ser meio termo que não mais teme nem altura nem profundidade. Que não reclama se pegar a cama de baixo ao invés da de cima. Aprender que é possível transitar e não apenas residir. Que a escada na beliche servia tanto para subir quanto para descer. Que só tomba aquilo que voa e só voa aquilo que levantou do tombo. Eu queria flutuar, não ser mais montanha nem vulcão, ou ser os dois ao mesmo tempo. Eu queria aquilo que tinha acabado de encontrar: um garoto com pele de rocha e coração de lava.

Foi quando eu me encontrei no meio da beliche que pude ficar em paz e desfrutar do sono. Foi quando eu me encontrei dentro da montanha, pulsando como vulcão, que adormeci com meu próprio calor.

Meu próprio calor...

sexta-feira, 12 de junho de 2015

No fundo - entre o céu e a terra



No fundo de um táxi estavam os dois garotos. Os dois Vinicius. Um com acento, outro sem assento, espremido entre a timidez e a curiosidade. Envolvidos pela esfera misteriosa e convidativa da noite, trocaram poucas palavras - mas das poucas, muitas viriam a ser sentidas, ainda que mal ditas, entre elas, a "distância", à distância.

Castanhos

Ele não era daqui, nem de lá, era de longe mesmo. Magro, pequeno, mas com aparência de ter a carne dura. Olhava para baixo, para os lados e às vezes para mim. Captei por alguns segundos seus olhos escuros, profundos como o universo - uma janela para o que havia debaixo do seu peito. Chamou-me a atenção pela forma silenciosa em que sussurrou qualquer coisa nos meus ouvidos e, aos poucos, ressonou dentre de mim como música boa. Eu sabia que duraria tempo insuficiente para que a vida tomasse qualquer gole de rumo e nos juntasse de vez. Eu sabia que era só detalhe, que era rápido demais, que não deveria funcionar assim. E não funcionou, de fato. Mas os melhores momentos que tivemos foram justamente os que não estivemos. Em locais diferentes, achamos um em comum: o do bem-querer. Do meu me quer, tanto quando bem te quero. Eu virei carta, avião de papel, desejo, sorriso sem som, virei letra e então silêncio. Virei tanto que dei uma volta na minha própria vida e reencontrei ele novamente. Ainda com olhos castanhos. Ainda profundo como no fundo do táxi.

Azuis

Antes mesmo de entrar no carro, havia percebido uma movimentação que fazia vibrar as camadas superficiais da pele. Parecia que Zéfiro soprava meus pelos e os deixava em estado de alerta. Captaram, então, a fonte das ondas atraentes: um garoto. Camiseta com desenho egípcio, pele diamantística, sorriso largo e um par de pedaços de céu ocupando o lugar dos olhos. Não sei se ele me viu, mas eu me vi com ele. Entretanto, sou terra, sou pé no chão e acostumado a caminhar pela realidade sem procurar no alto das ideias alguma abstração - alguma vontade atendida. Desviei meus pensamentos e desejos daquele moço rodeado de amigos. Não foi o bastante. Mesmo o atalho que levava direto à racionalidade não conseguiu me tirar da estrada labiríntica pela qual escorrem os quereres. Lá estava eu, apertado no banco do táxi, ao lado dele, antes longe e impossível, agora trocando perfumes comigo. Depois disso, um laço delicado foi atado. Frágil, mas resistente. Eu quis, dessa vez, abstrair da realidade, sim. Quis esquecer da distância, do outro dia, da volta, da passagem comprada, dos dias que seguiriam nublados, sem dois céus pra me perder nas ideias que mais pareciam roteiros de filme... Quis fingir que a música seria a mesma coisa ouvida no "mono" de mim mesmo. Mas não foi, eu que fui. Voltei, virei letra, lembrança, coração no fundo da caneca... Tentei encurtar o tempo, cultivar o desejo sob controle, mas sou terra. Fico firme, estático e pronto pra não ser nada além do chão de mim mesmo. Onde caio, quebro a cara e recolho os próprios cacos.

No fundo, ficamos. Mas eu volto, prometo que volto, pra mostrar que há muito mais entre o céu e a terra do que uma noite de (des)encontros.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Segundo perdido

Viver é percepção daquilo que se sente. Dos muitos quilos de sentimentos que pesam. Mas o que eu senti? Quanto eu peso?

(...)

A sensação? A sensação é aquela que vem logo depois de você ouvir "quero me separar de você". É o segundo perdido no espaço de tempo entre o "eu te amo" e o "eu não te amo mais". Um lapso existencial que encurta distância entre passado e presente. Entre 3 anos juntos e 1 segundo separados.

O segundo perdido, aquele que fica pra sempre no vácuo das intenções... flutuante... E daí você vira as costas e sai andando sem rumo, tentando flutuar também... Caminha pra qualquer direção, perseguido pelos novos segundos que, agora gigantes feito minutos, tornaram-te único, sozinho, separado, solto, mas não flutuante, solto, mas não leve. Pesado e arrastado.

Andando, andando, andando, com as palavras correndo na cabeça. "Não quero mais... não posso mais", "Não sinto mais, mas sinto muito", e por aí vai - você sozinho, perdido.

Enfim... Andando pra fugir do segundo perdido. Primeiro, você.

No escorrego do rosto corado

Bebo goles com sede
de engordar a desesperadas goladas
essa garganta há tempos vazia
desce quente pela traqueia
enquanto a barriga, fria, cozia

Bebo sem parar
consumo a seco o suco
sem dar paz à boca alheia
quem sente o gosto é o corpo
e a pele que, de repente, arrepia acesa

Bebo sem hesitar
vejo no fundo do copo
meus olhos marejados de saudade
Incapaz de pensar duas vezes
tomo três pra molhar as vontades

Bebo goles sem arrependimento
trançando os pensamentos gingados
Caio pelas ruas entre as pernas
ainda com choradas não lagrimadas
no escorrego do rosto corado, em si mesmo vingado

segunda-feira, 18 de maio de 2015

É preciso sujar os sapatos

Elas saíram da caixa como duas pepitas de ouro. Eram amareladas, as botas, e me lembravam mel. Seja como for, nada melhor do que ter nos pés os sapatos que escolheu. Não foi presente, não foi prêmio nem doação - foi vontade atendida. A sensação era ótima. Escolher e ser escolhido.

O primeiro dia foi estranho. Eu andei tordo, sem saber como dar as passadas, mas ainda assim sentindo o mundo a admirar meu desfilar. Botas novas que ensinavam a andar, trilhando caminhos desconhecidos, fazendo minha postura se adaptar... endireitava a coluna às custas da rendição dos joelhos. Doía, só que valia a pena. Valia o pesar. Surgiu, então, a chance de estreá-las numa festa - lugar onde somos (só) praticamente aquilo que aparentamos ser. Eu estava seguro quanto minha imagem, o que era raro. Decidi aceitar o convite. Convite esse que veio daquele que, ao te olhar, congelava o tempo e aquecia o coração. Decidi aceitar duas vezes. E as botas já se mostravam ansiosas.

Cada dia era um ano. Demorava, arrastava-se, custava a acabar, mas acabaria em festa. Tomei todo o cuidado para que o par de botinas não sofresse nenhum dano até o fatídico evento. Caminhava - agora acostumado com o gingado própria delas - prestando atenção no chão, sem baixar a cabeça, claro. Era preciso ver onde pisava, literalmente. Tropeçar estava fora de cogitação. Um dia antes, fiz questão de me vestir com a roupa que pretendia usar e pensei: eu me escolheria. A sensação era ótima. Escolher e por mim ser escolhido.

Acredito que seja importante reproduzir não só os detalhes do momento como também todos os sentimentos que nele se resvalavam. Você para na frente da porta, respirando fundo, olha para o teto como se alguém superior lhe observasse e sorrisse de leve, então mira a visão adiante e vê a pessoa que lhe acompanharia até a festa. Ela se aproxima e cresce, cresce demais, vai ficando gigante do lado de fora da sua casa, e maior ainda do ladro de dentro do seu peito. Um beijo no rosto de rachar qualquer expressão sólida, você sorri entregue. Acha que escolheu e foi escolhido. Ele não percebe suas botas, mesmo elas percebendo ele, aproximando-se de seus pés na tentativa de - já no caminho - irem formando pares. Fomos.

Quando pisei no salão, senti-me cheio. As pessoas ali, ocupando todo o espaço, preenchiam-me. A música era animada, convidativa, boa para dançar a dois. Foi então que eu fiquei preocupado com uma coisa: vão pisotear minhas botas e ele ainda nem as viu! Eu queria estar perfeito para quando fosse reparado, apresentasse a imagem que escolhi ter - e que tinha. Fiquei no meu canto, enquanto ele passava de pessoa em pessoa sorrindo e se deixando sorrir. Sentia que a hora da minha dança estava para chegar, então acalmei-me e aguardei. Em poucos segundos, já olhando para os próprios pés sem ver as botas, eu vi pequenos respingos a chovê-las... Caíam timidamente e ainda assim escureciam a superfície dos calçados. Eu estava chorando... Chorava porque já sabia o que estava para acontecer. E aconteceu.

Subi a visão e lá estava ele aos beijos, feliz, completo, com seu novo par a dançar. A imagem era bonita em sua essência, mas triste na minha. As botas estavam manchadas, eu estava machado, manchei-me com o sal do desgosto. Então, já com os sapatos sujos - batizados pela realidade dura, prontos para o mundo -, convidei-me para dançar. Escolhi-me e fui escolhido.

Girava a cabeça, soltava os braços, sincronizava os ombros com a cintura, libertava-me, divertia-me, rodava, aproximava-me dos outros corpos frenéticos, sorria, pisavam-me os pés, esmagavam-me as pernas, colavam-me, pressionavam-me e assim o salão ganhava vida. Doía, só que valia a pena.

Eu queria ele ao mesmo tempo que me mantinha longe. Eu era escolhido por outros enquanto não saía de perto de mim... Assim foi, assim aconteceu. Tristeza e alegria num samba único. Unidas, escolhidas uma pela outra.

Às vezes, é preciso sujar os sapatos.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Três doses de corpos vazios



Nova

Volta descalça pela estrada de barro, após uma noite de dança no sertão. Ela vem rodando de leve, sorrindo, descabelada, despreocupada. Suave como nunca. Vê-se aos poucos conforme o dia amanhece, rosado. Lembra-se de que não lembra mais o caminho de casa. Que anda pra não ficar parada, mas sem correr, pra não competir com as horas - aquelas também perdidas.

Cada passo adiante é um pulo para longe do passado carcereiro. Um pulo da ponte que a levava a lugar nenhum - justamente para o nada em que gostaria de estar. Um salto dos ponteiros do relógio no pulso alheio - pontualmente a lhe obrigar a levantar e ir fazer café.

Ela, então, sente seu corpo sendo seu novamente e não mais dos outros. Beija os próprios braços, aprecia o perfume de gente impregnado na pele. O corpo dela. O corpo é dela, banhado dos suores de outros senhores no cangote, do cansaço da dança no cangaço da vida seca. Devolve-se num abraço cheio de si. Finalmente, nova em si.

Cheia

Todos tinham ido embora. Quase todos. O próprio bar já não estava mais lá. Ele vagava parado, em torno de si mesmo, cheio de rastros e restos dos muitos e muitas que ali se desfizeram em embriaguez. Chão salgado, do qual nada brota senão a saudade. Mas eles ficaram. Os dois ali, juntos, colados num eterno e perdido espaço entre o "oi" e o adeus".

Ele chegou tropeçando nas próprias vontades. Queria dançar, mas não sabia. Queria olhar, mas não a via. Quando a viu, quis beijá-la, mas não a conhecia. Quando finalmente a conheceu, entre uma dança torta e outra, fechou os olhos, esqueceu de perguntar seu nome, selou seus lábios e colou no seu colo. Ali ficou, fincado no entre braços da garota mais linda que nunca viu na vida.

Ela, por usa vez, vazia permanecia. Dava-se a ele porque não sabia como não ser mulher. Foi doutrinada a servir, mesmo que para isso não servisse a si mesma. Abraçou o jovem de pele incandescente. Mas vazia permanecia. Pois já não acreditava mais na dança dos homens, muito menos em seu toque suplicante, sempre em busca da mãe perdida ou da mão da amante escondida.

Ela era, para ele, santuário e jardim forrado de rosas. Para si, contudo, era refúgio, como um bar vazio e cansado no meio do deserto. Sempre a abraçar os outros, sempre cheia de gente. Sempre cheia de tanta gente.

Minguante

Na calçada, o beiço da rua, ele senta e figura a fossa da própria existência. A cena é típica: cabeça entre as pernas, mãos sobre os joelhos, lágrimas pingando no chão seco, tragadas pela sede do solo.

Esforça-se para erguer a muleira novamente, mas o peso da mágoa não deixa. Carrega em sua nuca o nunca mais, o fim, a separação, a rachadura no melhor dos retratos - aquele que pinta o amor intenso até ontem seu. Homem que foi abandonado pelo seu homem. Lobo abandonado pelo seu próprio lobo - o homem do homem.

Deseja entender como pode o amor acabar repentinamente se, para nascer, custa tanto ao ser.  Grita pra dentro da boca, num murmurar animalesco, toda a dor da ferida recém-aberta e empurra goela abaixo cada palavra não dita. Cada frase maldita. Acaba o querer, vai-se a paixão, resta nada além dele mesmo, meio cheio, meio vazio. Minguado.

 Corpos como botes vazios, navegando à deriva sob os luares.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Nascer do dia



O seu medo de sair e ver o dia nascer era grande demais. Por isso passava a maior parte do tempo escondido na penumbra do quarto. Queria luz, mas que ela viesse do olhar dos outros. Queria arejar o ambiente, mas com a presença de quem um dia foi sua. Foi e não voltou. Só você ficou.

A angústia lhe fazia rolar sobre os lençóis. Pedia para voltar no tempo, resgatar o que a vida transformou em memória e sentir novamente o sabor da alegria a temperar teus lábios. Perdia-se pelos mesmos quereres, sem se perceber. Abandonou-se com facilidade, afinal, difícil mesmo era cuidar de si, sozinho. Um mimo colossal embalou os dias vestidos de noites e as noites vestidas de lua brilhante. Era só soluço sem solução. Ficava paralisado, mirando o céu ainda mais apagado que seu semblante. Olhava para o forro estrelado, mastigava algumas palavras tristes e praguejava contra o presente - que de presente só tinha aquele belo embrulho a esconder frustração. Você queria ganhar o que perdeu, mas presente nenhum lhe daria isso, muito menos lhe traria isso. Era você que se traía ao ansiar por algo que seu estômago embrulhado já havia devolvido para o mundo. Um amor indigesto. Uma úlcera de regalo.

Mas, de repente, você me achou no silêncio. Eu era um monte de palavras a desfilarem diante dos seus olhos, travestindo a tristeza com fantasias literárias. Transformando a realidade seca numa chuva de possibilidades. Entrei pela porta do seu canto, respeitei as trevas que lhe envolviam, abri a janela e pedi para que colocasse a cabeça para fora. O mundo, o céu e todos os seus mistérios são bem maiores do que o abismo na alma, meu caro.

Seu sorriso riu pro meu peito. Seu rosto deitou no meu coração. Seus olhos pegaram nas minhas mãos e elas olharam para seus cachos. Desenharam dunas de areia escura com a ponta dos dedos enquanto eu - texto, escrita, letras, frases, começo, meio e fim - sussurrava repetidamente "Agora só falta você" dentro da sua boca. Ambos ouvimos o sangue correndo pelos músculos, irrigando nervos e os pulmões batiam aceleradamente. Corpos babilônicos trocando as funções e se desencontrando no labirinto de novos desejos. Mas corpos iguais. Entropicamente iguais.

Finalmente você aprendeu a querer mais do que queria. A querer o que não conhecia. Na manha - e manso -, despertou-me com um beijo quente, espreguiçando-nos. O sol nos paria sob o ouro matinal e a escuridão, escondida, fugia para dentro das nossas bocarras e seus bocejos recém-nascidos.

Você venceu o medo de ver o dia nascer. Pegou-me pelas manhãs e me levou pra ver o mundo.

Foi e não voltamos.

domingo, 5 de abril de 2015

Retorno à distância

Escrevi algo breve que desse apenas uma dica sobre o que estava sentindo. Mesmo com todos os aparatos tecnológicos de hoje, hoje eu quis ser mais substancial, orgânico, quis colocar o peso da minha mão na caneta e fazê-la dançar pelas linhas. Tudo isso para dizer que te escrevi um bilhete.

A luz era baixa, convite perfeito para os mais diversos tipos de cegueira. Eu tive a sentimental. Enquanto dançava com a música - e não com as pessoas - via pouca coisa. Apenas vultos, meus pés se entendo e as cores do ácido decorando o lugar. Em meio a tantas sombras, um sorriso. Não era pra mim e por isso tive vontade de tê-lo. Os olhos puxados me rasgavam para perto de você. Metade de mim ia, a outra dançava. Comecei a enxergar.

Magnetismo e gravidade. Inércia, insistência e distanciamento estratégico. Corpo a postos, desejo na ponta da língua, sem sair - apenas estando. Pele pedindo toque; toque clamando por aperto, aperto procurando carne; carne exalando suor; suor perfumando as vontades; vontades enrijecendo os músculos; músculos dando peso aos corpos; corpos a postos, apostando - quem vai beijar primeiro? Perdi pra mim mesmo. Ganhei seus lábios. Paguei pela língua.

Quando a música acaba, também acabam os motivos para ser mais do que um. Não há necessidade de se dividir novamente, de compartilhar os quereres ou se doar sem dor. O silêncio coloca todo mundo nos eixos. Ele vem para educar e tirar do rosto o sorriso de final de festa. Mas nós voltamos conversando, rindo, imaginando, sem querer, querendo-se novamente... e novamente... e novamente, até que chega a hora do adeus. E que "adeus" mais "a mim". Só eu ali, pra você, pra ser seu, e fui - sem saber que não voltaria mais.

O dia seguinte não existiu. Nem o outro. Tive que escrever um bilhete pra você. Sei que nunca será entregue. Que você nunca irá lê-lo, mas foi preciso. Nele, uma simples palavra do tamanho das maiores distâncias já percorridas por alguém:

"Volte".

Vela



Quando o filho chega em casa, a mãe apaga a vela.

Toda saída é um mistério quando se vive em terras incertas. Ruas arbitrárias que desenham um mapa torto e tortuoso nas regiões periféricas da cidade. Fios que de concreto só têm o asfalto. O laranja-mercúrio banha as carcaças cansadas e feridas que, em meio à meia noite, caminham de volta para os lares, refúgios, quartinhos de empregada ou qualquer canto que as valha - e as valide.

Sobre a cômoda, a vela acesa, firme e fiel à fé que segura o coração de mãe sempre preocupado. Ao sair, ela despeja sobre sua cria bênçãos ancestrais, como se a cobrisse com seu véu matriarcal, protegendo-a de todos os males e todos os outros por aí vagando.

Os ponteiros do sofrimento começam a correr, a garganta fica seca feito a de uma ampulheta, e cada grão de areia se faz sentir goela abaixo. A mãe reza, acende sua vela e deseja mais um dia de vida. Fora de casa, o mundo se faz mundano e não há mais útero para envolver aquilo que é frágil. Fora de casa, nascemos e o que vem primeiro é o choro - o nosso. O da mãe, ela segura. Guarda junto com a preocupação ao lado da vela, acesa, desfazendo-se em lamento. Gotas e mais gotas de si mesmas, vela e mãe se confundem. Uma chama pela vida do filho, outra chama pela própria morte. Unidas, mantêm-se aquecidas na mesa da cozinha e no pires de porcelana. Encaram-se, trocam brilhos no olhar e lágrimas de sal e cera. Permanecem na vigília.

As tarefas cotidianas são cumpridas. Longas, mas terminadas antes mesmo da memória resgatar o sentimento de aflição. Tudo em seu devido lugar, menos o sossego que demora a deitar no peito. Menos a escuridão que não vem cobrir a luz bucólica oscilando a cada corrente de ar - a cada suspiro da mulher protetora que ora, ora firme, ora, ora soluçando. Será que ele vem hoje? Será que ele vem bem, o meu bem?

Dói ser mãe. Dói ser filho. Dói ser filha. Dói ser. Causa medo, incerteza, tremedeira e febre interna. Entretanto, é o que faz a vida pulsar. É o que a desafia, deixando-a à beira da sorte. Apegada à rotina, torce para que ele chegue sempre no mesmo horário e com ele a tranquilidade. Tudo pronto para recebê-lo, menos o sorriso no rosto. Esse não sai, recusa-se a aparecer para cumprimentar os demais ao redor. A vela, pela metade, começa a desistir. Mas não diz nada. Para que mais sofrimento?

O portão range. Os passos acelerados aumentam de volume e profundidade. Não estão se arrastando, estão marchando em ritmo de manada rumo ao abrigo. A chave gira dentro da fechadura e então morrem os ponteiros da angústia. Para de correr o tempo metálico que não admitia pausas para a velha mãe respirar e conferir se ainda lhe restava alguma força. Eles se olham, ela chora aliviada por trás do abraço titânico. Ele não entendo o porquê de tanta preocupação, afinal já é crescido e sabe se defender. Contudo, compreende que, tratando-se do lugar onde nasceu, das cenas violentas que presenciou e por muitas vezes passou, não há como se defender do desconhecido - e cada dia se faz como uma bala no bulbo da pistola. Cada passo é um tiro às cegas contra a cabeça de alguém na sacada, na calçada ou na sala de casa. Compreende e se entrega aos braços da matriarca. Sente que conforto maior que esse não há. Sob a luz fraca do fogo exausto, ele aquece as mãos, abre as panelas e larga os ombros nas costas da cadeira. Ela some por alguns segundos.

Silenciosa e discreta, celebra consigo mesma a chegada do seu eterno bebê. Canta os parabéns - nessa data tão querida - por mais um dia de vida. Olha para a pobre dama vestida de branco, caída e exausta e então sente que o desejo que fez ao acendê-la se realizou como o prometido. Mais um dia de (re)nascimento. Aniversário diário. Comemoração incessante. Todos os dias, ela, ritualística, pari sua criança e regojiza ao vê-la retornar para o seu aconchego. Agora sim, agora ela pode fazer o que veio fazer ao entrar em seu quarto.

Quando o filho chega em casa, a mãe apaga a vela.