segunda-feira, 18 de maio de 2015

É preciso sujar os sapatos

Elas saíram da caixa como duas pepitas de ouro. Eram amareladas, as botas, e me lembravam mel. Seja como for, nada melhor do que ter nos pés os sapatos que escolheu. Não foi presente, não foi prêmio nem doação - foi vontade atendida. A sensação era ótima. Escolher e ser escolhido.

O primeiro dia foi estranho. Eu andei tordo, sem saber como dar as passadas, mas ainda assim sentindo o mundo a admirar meu desfilar. Botas novas que ensinavam a andar, trilhando caminhos desconhecidos, fazendo minha postura se adaptar... endireitava a coluna às custas da rendição dos joelhos. Doía, só que valia a pena. Valia o pesar. Surgiu, então, a chance de estreá-las numa festa - lugar onde somos (só) praticamente aquilo que aparentamos ser. Eu estava seguro quanto minha imagem, o que era raro. Decidi aceitar o convite. Convite esse que veio daquele que, ao te olhar, congelava o tempo e aquecia o coração. Decidi aceitar duas vezes. E as botas já se mostravam ansiosas.

Cada dia era um ano. Demorava, arrastava-se, custava a acabar, mas acabaria em festa. Tomei todo o cuidado para que o par de botinas não sofresse nenhum dano até o fatídico evento. Caminhava - agora acostumado com o gingado própria delas - prestando atenção no chão, sem baixar a cabeça, claro. Era preciso ver onde pisava, literalmente. Tropeçar estava fora de cogitação. Um dia antes, fiz questão de me vestir com a roupa que pretendia usar e pensei: eu me escolheria. A sensação era ótima. Escolher e por mim ser escolhido.

Acredito que seja importante reproduzir não só os detalhes do momento como também todos os sentimentos que nele se resvalavam. Você para na frente da porta, respirando fundo, olha para o teto como se alguém superior lhe observasse e sorrisse de leve, então mira a visão adiante e vê a pessoa que lhe acompanharia até a festa. Ela se aproxima e cresce, cresce demais, vai ficando gigante do lado de fora da sua casa, e maior ainda do ladro de dentro do seu peito. Um beijo no rosto de rachar qualquer expressão sólida, você sorri entregue. Acha que escolheu e foi escolhido. Ele não percebe suas botas, mesmo elas percebendo ele, aproximando-se de seus pés na tentativa de - já no caminho - irem formando pares. Fomos.

Quando pisei no salão, senti-me cheio. As pessoas ali, ocupando todo o espaço, preenchiam-me. A música era animada, convidativa, boa para dançar a dois. Foi então que eu fiquei preocupado com uma coisa: vão pisotear minhas botas e ele ainda nem as viu! Eu queria estar perfeito para quando fosse reparado, apresentasse a imagem que escolhi ter - e que tinha. Fiquei no meu canto, enquanto ele passava de pessoa em pessoa sorrindo e se deixando sorrir. Sentia que a hora da minha dança estava para chegar, então acalmei-me e aguardei. Em poucos segundos, já olhando para os próprios pés sem ver as botas, eu vi pequenos respingos a chovê-las... Caíam timidamente e ainda assim escureciam a superfície dos calçados. Eu estava chorando... Chorava porque já sabia o que estava para acontecer. E aconteceu.

Subi a visão e lá estava ele aos beijos, feliz, completo, com seu novo par a dançar. A imagem era bonita em sua essência, mas triste na minha. As botas estavam manchadas, eu estava machado, manchei-me com o sal do desgosto. Então, já com os sapatos sujos - batizados pela realidade dura, prontos para o mundo -, convidei-me para dançar. Escolhi-me e fui escolhido.

Girava a cabeça, soltava os braços, sincronizava os ombros com a cintura, libertava-me, divertia-me, rodava, aproximava-me dos outros corpos frenéticos, sorria, pisavam-me os pés, esmagavam-me as pernas, colavam-me, pressionavam-me e assim o salão ganhava vida. Doía, só que valia a pena.

Eu queria ele ao mesmo tempo que me mantinha longe. Eu era escolhido por outros enquanto não saía de perto de mim... Assim foi, assim aconteceu. Tristeza e alegria num samba único. Unidas, escolhidas uma pela outra.

Às vezes, é preciso sujar os sapatos.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Três doses de corpos vazios



Nova

Volta descalça pela estrada de barro, após uma noite de dança no sertão. Ela vem rodando de leve, sorrindo, descabelada, despreocupada. Suave como nunca. Vê-se aos poucos conforme o dia amanhece, rosado. Lembra-se de que não lembra mais o caminho de casa. Que anda pra não ficar parada, mas sem correr, pra não competir com as horas - aquelas também perdidas.

Cada passo adiante é um pulo para longe do passado carcereiro. Um pulo da ponte que a levava a lugar nenhum - justamente para o nada em que gostaria de estar. Um salto dos ponteiros do relógio no pulso alheio - pontualmente a lhe obrigar a levantar e ir fazer café.

Ela, então, sente seu corpo sendo seu novamente e não mais dos outros. Beija os próprios braços, aprecia o perfume de gente impregnado na pele. O corpo dela. O corpo é dela, banhado dos suores de outros senhores no cangote, do cansaço da dança no cangaço da vida seca. Devolve-se num abraço cheio de si. Finalmente, nova em si.

Cheia

Todos tinham ido embora. Quase todos. O próprio bar já não estava mais lá. Ele vagava parado, em torno de si mesmo, cheio de rastros e restos dos muitos e muitas que ali se desfizeram em embriaguez. Chão salgado, do qual nada brota senão a saudade. Mas eles ficaram. Os dois ali, juntos, colados num eterno e perdido espaço entre o "oi" e o adeus".

Ele chegou tropeçando nas próprias vontades. Queria dançar, mas não sabia. Queria olhar, mas não a via. Quando a viu, quis beijá-la, mas não a conhecia. Quando finalmente a conheceu, entre uma dança torta e outra, fechou os olhos, esqueceu de perguntar seu nome, selou seus lábios e colou no seu colo. Ali ficou, fincado no entre braços da garota mais linda que nunca viu na vida.

Ela, por usa vez, vazia permanecia. Dava-se a ele porque não sabia como não ser mulher. Foi doutrinada a servir, mesmo que para isso não servisse a si mesma. Abraçou o jovem de pele incandescente. Mas vazia permanecia. Pois já não acreditava mais na dança dos homens, muito menos em seu toque suplicante, sempre em busca da mãe perdida ou da mão da amante escondida.

Ela era, para ele, santuário e jardim forrado de rosas. Para si, contudo, era refúgio, como um bar vazio e cansado no meio do deserto. Sempre a abraçar os outros, sempre cheia de gente. Sempre cheia de tanta gente.

Minguante

Na calçada, o beiço da rua, ele senta e figura a fossa da própria existência. A cena é típica: cabeça entre as pernas, mãos sobre os joelhos, lágrimas pingando no chão seco, tragadas pela sede do solo.

Esforça-se para erguer a muleira novamente, mas o peso da mágoa não deixa. Carrega em sua nuca o nunca mais, o fim, a separação, a rachadura no melhor dos retratos - aquele que pinta o amor intenso até ontem seu. Homem que foi abandonado pelo seu homem. Lobo abandonado pelo seu próprio lobo - o homem do homem.

Deseja entender como pode o amor acabar repentinamente se, para nascer, custa tanto ao ser.  Grita pra dentro da boca, num murmurar animalesco, toda a dor da ferida recém-aberta e empurra goela abaixo cada palavra não dita. Cada frase maldita. Acaba o querer, vai-se a paixão, resta nada além dele mesmo, meio cheio, meio vazio. Minguado.

 Corpos como botes vazios, navegando à deriva sob os luares.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Nascer do dia



O seu medo de sair e ver o dia nascer era grande demais. Por isso passava a maior parte do tempo escondido na penumbra do quarto. Queria luz, mas que ela viesse do olhar dos outros. Queria arejar o ambiente, mas com a presença de quem um dia foi sua. Foi e não voltou. Só você ficou.

A angústia lhe fazia rolar sobre os lençóis. Pedia para voltar no tempo, resgatar o que a vida transformou em memória e sentir novamente o sabor da alegria a temperar teus lábios. Perdia-se pelos mesmos quereres, sem se perceber. Abandonou-se com facilidade, afinal, difícil mesmo era cuidar de si, sozinho. Um mimo colossal embalou os dias vestidos de noites e as noites vestidas de lua brilhante. Era só soluço sem solução. Ficava paralisado, mirando o céu ainda mais apagado que seu semblante. Olhava para o forro estrelado, mastigava algumas palavras tristes e praguejava contra o presente - que de presente só tinha aquele belo embrulho a esconder frustração. Você queria ganhar o que perdeu, mas presente nenhum lhe daria isso, muito menos lhe traria isso. Era você que se traía ao ansiar por algo que seu estômago embrulhado já havia devolvido para o mundo. Um amor indigesto. Uma úlcera de regalo.

Mas, de repente, você me achou no silêncio. Eu era um monte de palavras a desfilarem diante dos seus olhos, travestindo a tristeza com fantasias literárias. Transformando a realidade seca numa chuva de possibilidades. Entrei pela porta do seu canto, respeitei as trevas que lhe envolviam, abri a janela e pedi para que colocasse a cabeça para fora. O mundo, o céu e todos os seus mistérios são bem maiores do que o abismo na alma, meu caro.

Seu sorriso riu pro meu peito. Seu rosto deitou no meu coração. Seus olhos pegaram nas minhas mãos e elas olharam para seus cachos. Desenharam dunas de areia escura com a ponta dos dedos enquanto eu - texto, escrita, letras, frases, começo, meio e fim - sussurrava repetidamente "Agora só falta você" dentro da sua boca. Ambos ouvimos o sangue correndo pelos músculos, irrigando nervos e os pulmões batiam aceleradamente. Corpos babilônicos trocando as funções e se desencontrando no labirinto de novos desejos. Mas corpos iguais. Entropicamente iguais.

Finalmente você aprendeu a querer mais do que queria. A querer o que não conhecia. Na manha - e manso -, despertou-me com um beijo quente, espreguiçando-nos. O sol nos paria sob o ouro matinal e a escuridão, escondida, fugia para dentro das nossas bocarras e seus bocejos recém-nascidos.

Você venceu o medo de ver o dia nascer. Pegou-me pelas manhãs e me levou pra ver o mundo.

Foi e não voltamos.

domingo, 5 de abril de 2015

Retorno à distância

Escrevi algo breve que desse apenas uma dica sobre o que estava sentindo. Mesmo com todos os aparatos tecnológicos de hoje, hoje eu quis ser mais substancial, orgânico, quis colocar o peso da minha mão na caneta e fazê-la dançar pelas linhas. Tudo isso para dizer que te escrevi um bilhete.

A luz era baixa, convite perfeito para os mais diversos tipos de cegueira. Eu tive a sentimental. Enquanto dançava com a música - e não com as pessoas - via pouca coisa. Apenas vultos, meus pés se entendo e as cores do ácido decorando o lugar. Em meio a tantas sombras, um sorriso. Não era pra mim e por isso tive vontade de tê-lo. Os olhos puxados me rasgavam para perto de você. Metade de mim ia, a outra dançava. Comecei a enxergar.

Magnetismo e gravidade. Inércia, insistência e distanciamento estratégico. Corpo a postos, desejo na ponta da língua, sem sair - apenas estando. Pele pedindo toque; toque clamando por aperto, aperto procurando carne; carne exalando suor; suor perfumando as vontades; vontades enrijecendo os músculos; músculos dando peso aos corpos; corpos a postos, apostando - quem vai beijar primeiro? Perdi pra mim mesmo. Ganhei seus lábios. Paguei pela língua.

Quando a música acaba, também acabam os motivos para ser mais do que um. Não há necessidade de se dividir novamente, de compartilhar os quereres ou se doar sem dor. O silêncio coloca todo mundo nos eixos. Ele vem para educar e tirar do rosto o sorriso de final de festa. Mas nós voltamos conversando, rindo, imaginando, sem querer, querendo-se novamente... e novamente... e novamente, até que chega a hora do adeus. E que "adeus" mais "a mim". Só eu ali, pra você, pra ser seu, e fui - sem saber que não voltaria mais.

O dia seguinte não existiu. Nem o outro. Tive que escrever um bilhete pra você. Sei que nunca será entregue. Que você nunca irá lê-lo, mas foi preciso. Nele, uma simples palavra do tamanho das maiores distâncias já percorridas por alguém:

"Volte".

Vela



Quando o filho chega em casa, a mãe apaga a vela.

Toda saída é um mistério quando se vive em terras incertas. Ruas arbitrárias que desenham um mapa torto e tortuoso nas regiões periféricas da cidade. Fios que de concreto só têm o asfalto. O laranja-mercúrio banha as carcaças cansadas e feridas que, em meio à meia noite, caminham de volta para os lares, refúgios, quartinhos de empregada ou qualquer canto que as valha - e as valide.

Sobre a cômoda, a vela acesa, firme e fiel à fé que segura o coração de mãe sempre preocupado. Ao sair, ela despeja sobre sua cria bênçãos ancestrais, como se a cobrisse com seu véu matriarcal, protegendo-a de todos os males e todos os outros por aí vagando.

Os ponteiros do sofrimento começam a correr, a garganta fica seca feito a de uma ampulheta, e cada grão de areia se faz sentir goela abaixo. A mãe reza, acende sua vela e deseja mais um dia de vida. Fora de casa, o mundo se faz mundano e não há mais útero para envolver aquilo que é frágil. Fora de casa, nascemos e o que vem primeiro é o choro - o nosso. O da mãe, ela segura. Guarda junto com a preocupação ao lado da vela, acesa, desfazendo-se em lamento. Gotas e mais gotas de si mesmas, vela e mãe se confundem. Uma chama pela vida do filho, outra chama pela própria morte. Unidas, mantêm-se aquecidas na mesa da cozinha e no pires de porcelana. Encaram-se, trocam brilhos no olhar e lágrimas de sal e cera. Permanecem na vigília.

As tarefas cotidianas são cumpridas. Longas, mas terminadas antes mesmo da memória resgatar o sentimento de aflição. Tudo em seu devido lugar, menos o sossego que demora a deitar no peito. Menos a escuridão que não vem cobrir a luz bucólica oscilando a cada corrente de ar - a cada suspiro da mulher protetora que ora, ora firme, ora, ora soluçando. Será que ele vem hoje? Será que ele vem bem, o meu bem?

Dói ser mãe. Dói ser filho. Dói ser filha. Dói ser. Causa medo, incerteza, tremedeira e febre interna. Entretanto, é o que faz a vida pulsar. É o que a desafia, deixando-a à beira da sorte. Apegada à rotina, torce para que ele chegue sempre no mesmo horário e com ele a tranquilidade. Tudo pronto para recebê-lo, menos o sorriso no rosto. Esse não sai, recusa-se a aparecer para cumprimentar os demais ao redor. A vela, pela metade, começa a desistir. Mas não diz nada. Para que mais sofrimento?

O portão range. Os passos acelerados aumentam de volume e profundidade. Não estão se arrastando, estão marchando em ritmo de manada rumo ao abrigo. A chave gira dentro da fechadura e então morrem os ponteiros da angústia. Para de correr o tempo metálico que não admitia pausas para a velha mãe respirar e conferir se ainda lhe restava alguma força. Eles se olham, ela chora aliviada por trás do abraço titânico. Ele não entendo o porquê de tanta preocupação, afinal já é crescido e sabe se defender. Contudo, compreende que, tratando-se do lugar onde nasceu, das cenas violentas que presenciou e por muitas vezes passou, não há como se defender do desconhecido - e cada dia se faz como uma bala no bulbo da pistola. Cada passo é um tiro às cegas contra a cabeça de alguém na sacada, na calçada ou na sala de casa. Compreende e se entrega aos braços da matriarca. Sente que conforto maior que esse não há. Sob a luz fraca do fogo exausto, ele aquece as mãos, abre as panelas e larga os ombros nas costas da cadeira. Ela some por alguns segundos.

Silenciosa e discreta, celebra consigo mesma a chegada do seu eterno bebê. Canta os parabéns - nessa data tão querida - por mais um dia de vida. Olha para a pobre dama vestida de branco, caída e exausta e então sente que o desejo que fez ao acendê-la se realizou como o prometido. Mais um dia de (re)nascimento. Aniversário diário. Comemoração incessante. Todos os dias, ela, ritualística, pari sua criança e regojiza ao vê-la retornar para o seu aconchego. Agora sim, agora ela pode fazer o que veio fazer ao entrar em seu quarto.

Quando o filho chega em casa, a mãe apaga a vela.

terça-feira, 31 de março de 2015

Qualquer canto

Um canto. Aquele que nunca ninguém olhou. Perdido na poeria que cobre meus dias. Um canto qualquer, mas que possa ser meu. Introspectividade. Se eu rezasse, pediria por isso. Pelo vácuo, útero invisível da mãe cósmica. Um lenda, um mito, um canto qualquer.

Passos para trás, corrida invertida, "desavanço", desavença sentimental e todas as estruturas dentro de mim ruindo. Uma dança lenta rumo ao chão. Mais poeira. Lembranças, alegrias guardadas em porta-retratos, tudo o que um dia me vez ser quem sou, hoje destroça-se livremente. Bela visão. Nasce então o horizonte angustiante que nada me traz, só afasta. No máximo, instiga o desejo de ser tragado ainda em vida.

Os males que matam o corpo, alimentam a alma. A fome some, mas continua a me devorar as carnes. A vontade de se limpar, de lavar a pele e o rosto, some. Mas continua a sujeira em mim. Nenhuma luz batizando os olhos, mas a cegueira afetiva continua em mim. Qualquer canto que preencha meus ouvidos e me desprenda da realidade, por favor. Do concreto, do pavor, por favor. Qualquer canto como leito - e eu me deito, sim. Protejo-me, prometo-me.

Sob o ascendente da destruição, sinto a gravidade anulativa me puxando. Seus braços pesados brincam com as batidas debaixo do peito. Pesa toneladas - ao passo em que alivia a mente. Corpo e pensamento dissonantes, repudiando-se numa guerra eterna cujo vencedor levará nada como prêmio. Tempos em que minha existência se fragmenta e espalha-se diante de mim. Dos pedaços, meu todo disfarçado de pouco. Dos pedaços, um canto qualquer ganha status de abrigo.

Por favor, deixe-me morrer. "Gosto pela destruição", "você gosta disso, de desabar", "esse drama todo, é isso que você quer". É sim. O Enforcado. A tristeza transforma um canto qualquer em cama desarrumada. Sempre a espera de quem não devia ter se levantado. Sempre pronta pra receber os corpos que se arrastam - e se gastam.

Na esquina, com cigarros e brisa gelada. No céu, com a noite pessimista e as estrelas penduradas em suas orelhas. Nos sapatos que não me servem mais, com o desejo de ficar que consome os joelhos. Num canto qualquer, com o perfume a me confundir. Achando-me patético por insistir em gostar de quem não se encantou. Mas achando-me, o que é importante.

Achando-me num canto qualquer.


quinta-feira, 26 de março de 2015

Bem-vinda

Toda desgraça é bem-vinda. Recebida de portas e pernas abertas na dor de cada promessa de prazer duradouro. Ouro de tolo, falsa, desgarrada, mas plena, sorridente, neurótica. Toda desgraça é convidada para as festas, pois dela emana o perfume do caos, da desordem e de sua boca escorre o suco da maçã proibida. Toda desgraça dá graça ao monótono. Ela dança com os sentidos, murcha as flores e espreme suas pétalas nos copos alheios. Enfeitiça, sim. E muito.

Toda desgraça é bem-vinda. Só.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Águas em mim




Sempre que o barulho do mundo me coloca à beira do limite, prestes a saltar do trampolim, eu olho para o azul absoluto das águas e busco nas ondas sonoras um silêncio só meu. Desejo, das profundezas do meu querer, algo capaz de tapar meus ouvidos, preenchê-los com o vácuo do nada e, ao mesmo tempo, embalá-los numa frequência musical emitida somente para mim. Eu me afogo em versos, letras, vozes de sereias curiosas e quando percebo, estou submerso no meu próprio universo. Pego os sentimentos e lembranças e os levo para a Atlantis perdida na maré de saudade, onde ninguém além de mim é capaz de chegar.

Do alto, encho os pulmões com a última rajada de ar. Estufo a caixa torácica e pressiono a borda da esteira com a ponta dos dedos. Entro numa vibração única, localiza entre o passado e o futuro. Finco-me no presente e conto os segundos para me desprender. Aos poucos, os pelos do corpo despertam e fazem na nuca um carinho suave. Se a pele esfria, o sangue ferve. Molho os lábios com o que resta de saliva e concentro-me em fechar os olhos sem perder a bela imagem das águas estampando as vistas. Escureceu em mim. Pulei.

A queda me levou ao pico das sensações. Eu, filho dos rios, mares e cachoeiras, escorpiano, nascido da água e batizado na água, voltei ao útero que por tanto tempo me regou. Eu, semente, broto, hoje flor de lótus, banho-me nos braços longos da deusa marinha... O bom filho à água retorna.

No âmago daquele universo aquático encontrei abrigo. Tudo o que vivi foi se tornando silêncio e somente a sinfonia dos corais coloriam meus sentimentos. Da concha cravada no meu centro, amanheceu o coração perolado e então soube, naquele instante, que a joia mais rara sempre esteve em mim, só precisava ser colocada no lugar certo.

Só precisava ser colocada no fundo da alma. 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Fiz-te

No barro da realidade enterrei minhas mãos. Tirei uma lasca do todo e comecei a modelar você. Meus dias se arrastavam vazios, esparramados por um longo campo deitado diante do horizonte labiríntico onde o olhar se perdia a cada piscada. Eu precisava de mais - que não fosse mais de mim mesmo. Por alguns minutos enchi os pulmões de ar, soprei o monte de ideais que se acumulavam na cabeça e embaralhei meus desejos. Pouco a pouco, fui organizando o que viria a ser meu. No caso, você. Fiz-te.

O menino de terra

Tomei cuidado para não deixar que seus braços fossem longos demais. Seu abraço deveria ser curto, firme, envolvente e seguro. Em seguida, trancei as pernas para que no cainhar houvesse ginga, agilidade e graça. Cada passo, um desvio pra mais perto de mim. Ombros largos, pista para meus entrelaços, peito vazio, pro meu querer residir e a pele lisa, banhada pela cor do sol e do solo fértil. Ainda evitava trabalhar seu rosto.

As mãos eram pequenas feito castiçais, próprias para sustentar, à luz de velas, o clarear do meu sorriso ao te ver surgir diariamente. Penumbra nenhuma seria capaz de nos apagar. Assim ficou seu toque: um alicerce indispensável, um "dar de mãos" morno e delicado que em dias de ventania me soltava um beijo no ar. A inspiração estava em seu ápice e me fazia perder horas ganhando anos de dedicação à sua concepção. Seria o parto a me dividir, tão esperado e tão doloroso. Cheio de prazer e medo, de "não saber".

Seu rosto era redondo, com pequenos olhos rasgados. Uma boca sutil, desenhada à ponta fina e que revelava o céu estrelado da boca a cada risada larga. O nariz se curvava em queda livre, despreocupado com a simetria alheia e comprometido apenas com a composição daquele que viria a ser meu novo horizonte - minha nova razão de se perder. As orelhas eram arredondadas como feijões e serviriam de entrada para meu sussurrar chegar até seus pensamentos mais altos.

Nos cabelos, uma tempestade. Redemoinhos, furacões, caracóis, emaranhado de cachos, maré cheia de volume, conchas perdidas entre o mangue de fios... Leveza, maciez, delicadeza, sem começo nem fim. De repente, caos, anarquia, nuvens carregadas... O topo de suas ideias era assim, um olimpo decadente, cada vez mais humano. O chuvaréu que precede bonança s(em) mim.

Pronto. Feito. Fiz-te. E quando abriu os olhos, não me reconheceu nem ao menos esboçou reação. Apenas encarou-me. E mesmo com todo meu esforço em demonstrar o quanto de amor já depositava em sua existência, nada o motivava a me retribuir tal sentimento.

Fiz-te por fora, ao meu modo. Mas por dentro você sempre será mistério. Coração não se modela.



terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Toque de areia


Das mãos secas, o toque de areia corria pela pele feito rio de um passado esquecido, deixando nas dunas curvilíneas do corpo deitado um rastro de ontem interminável. Afundavam-se os dedos confortáveis naquele desejo  movediço e lento, morno e suave que me fazia erosão nos lábios. Deixava o sol queimar a cama amarelada, invejar nossos dias mais longos e ser rei somente quando, cansados, cochilávamos sob seus coléricos raios ultra violentos.

Quantas vezes você me deixou escorrer pela garganta da sua ampulheta? Quantas vezes eu fui muito no começo e quase nada no final? Quantas vezes repetimos o tempo em grãos, contanto cada primeiro dos nossos segundos beijos? Recontando as sensações numa tentativa humana - demasiada humana - de viver o que foi bom como se fosse, de fato, pra sempre? Sempre assim. Todas as vezes. Muitas, inclusive.

Esfarelados no sofá da sala alheia, correndo pra não pegar chuva demais ou se cobrindo de maré cheia, amávamos-nos assim, por todos os cantos onde poeira fosse aceita. Deixávamos para o mundo um (pó)uco de ambos. E quando os dias difíceis vinham fiscalizar nossa bonança, você me sacudia da sua pele, tentando se libertar daquele rastro gasto de vontade incessantemente latente. Mas numa próxima brisa, lá estava eu novamente, dissolvendo-me em você. Cobrindo meu homem de outro homem.

Toque-me, sinta minha tempestade de areia dançar com seu corpo, feche os olhos, evite-me aos poucos, mas envolva-se como nunca antes. (A)Funda-se a mim.

Pois da areia viemos, e na areia nos amaremos enquanto houver deserto à flor da pele.