sábado, 11 de outubro de 2014

O álcool nunca foi meu inimigo

Pelo contrário, sem ele eu não seria - de fato - eu. Com a ajuda dele, reaprendi a chorar. Encontrei, forçosamente, o valor em chorar. Tive crises que jamais seriam aceitas pela razão a bom grado. Caí de uma forma vergonhosa e - pasme - levantei. O álcool nunca foi meu inimigo.

Após uma reunião amistosa entre amigos e desconhecidos, pude desfrutar de um mundo atípico. Vi gente triste enchendo a cara para se tornar mais alegre (eu, por exemplo); gente bem resolvida que não reflete sobre a vida, apenas vive; gente que eu desejei nos momentos de loucura; gente que eu quis por querer - e por inteiro; gente.

E nada, absolutamente nada, conectava-se comigo. A luta constante por manter em mim o mínimo de racionalidade (a moeda de troca do respeito), custava - e custa - muito. Muito mesmo. Viver num mundo que não te aceita e que te odeia é como ter um pesadelo. Você vive a ilusão da sua realidade. Sofre, acorda soluçando e continua sem solução. Não há sentido. Há dor. E a dor nunca fará sentido.

O que eu queria hoje?

Não ser. Só ter.

domingo, 28 de setembro de 2014

Busca

Escrevo em busca de silêncio. Silêncio dentro do peito, no canto traseiro dos pensamentos. Silêncio absoluto. Transcrevo a voz muda que fala por mim quando eu canso de brincar de "eu" e não quero ser mais. Tento , então, anular-me a qualquer custo.

Bebo, fumo, escondo-me atrás da cortina da fumaça, mas meus pés sempre ficam visíveis. Escrevo. Frase após frase, palavra não dita seguida de palavra não dita, é difícil perceber que tudo se trata de silêncio? Só me deixe aqui, quieto com minha tristeza que sempre tem a palavra na ponta da língua.

Busco a música quando não ouço "eu te amo". É assim que me preencho com as melhores declarações e as piores conversas francas - daquelas que rasgam o peito com um simples abraço de "obrigado por sua amizade". Escuto o que os outros não aguentaram e cantaram. Absorvo demais (e talvez isso seja ruim) cada verso e cada acorde como se estivesse faminto. Falta na barriga da minha essência um bocado de coisas que não descem pela boca e sequer enfeitam o prato. É uma mordida de desejo que umedece os lábios, mas não traz colherada alguma. É querer por querer e pronto.

São buscas equivalentes a fugas. "Oi, como você está?", "Indo, e você?". Indo em busca de qualquer coisa que me distraia ou que me traga, numa puxada só, algo que queime e gaste. Uma passagem que me force a correr pelas veias do outro livremente. Um mal necessário. Talvez eu também busque ser o mal do outro, aquele drama maravilhoso que faz sofrer, mas tira do cotidiano/trabalho/contas/responsabilidades a relevância roubada. Aquele bom e velho drama que desmarca reuniões, não responde e-mail, sai correndo pra comprar a janta e tira o vinho da merda da geladeira - mania péssima de guardarem vinho na geladeira.

Busca. O anzol que a gente sonha em fisgar.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Valsa perdida



O par faltou. Ausentou-se da dança e do meu corpo. Fugiu da minha mão e a deixou girando sozinha no salão durante toda a valsa. Vagando, percebi só a mim, largado num facho de luz misericordiosa que ria satisfeita da minha solidão desengonçada.

O par de pés não se entendia. Entediavam-se ambos os cascos naquele chão liso de madeira morta. Manchado com o suor dos que haviam se encontrado na melodia. Dois para cá, dois para lá. Eu, ali. Mas me recusava a sair e deixar de ser o dançarino perdido. Eu fiquei sem esperança. Fiquei por teimosia, balançando apenas as poucas moedas que ainda sobravam no bolso e algumas lembranças que guizavam dentro do peito.

Pouco a pouco foi tomando meu ser aquela paz fúnebre dos que morrem em vida. Seco por fora, encharcado por dentro, ainda em movimento - tal qual os astros na escuridão do universo. Assim fui, embalado pelo doce cheiro de cigarros e perfumes girando em torno da minha órbita melancólica. Ninguém me via, mas de longe sabiam que o brilho ali presente entre meus olhos entreabertos anunciava o funeral distante de algo que um dia cintilou excessivamente. Como estrela, gastou-se em silêncio, estático, o iluminar de um querer sem fim. E que extinguiu-se em si - como tudo.

Era incapaz de lembrar dos nomes de tantos nomes que passaram por minha memória. Entretanto e tantos, ficava o toque como marca na pele. A pressão dos dedos e dos braços entre abraços, o peso do pulso no ombro e um leve desenhar de rosto com as costas da palma.

Durante a valsa perdida dos meus dias, senti - por insistência da vida contrariada - os outros a fundirem-se à minha silhueta.

E naquele salão imenso, era eu, o par de um, a se bastar. Vivendo a música das minhas verdades.

domingo, 7 de setembro de 2014

O primeiro dos últimos



Hoje foi o primeiro dia vivendo juntos. Agora ele dorme ao meu lado, exausto. Foram muitas horas dando cara de "lar" aos cômodos. Há poucas semanas eu não seria capaz de dizer que a mudança fosse acontecer. Nosso primeiro dia morando juntos...


Logo cedo

Dormi demais e cheguei atrasado na estação de trem. Ele não me olhava. Mantinha sua visão presa aos ponteiros do relógio. Sim, eu já havia entendo o recado: "não diga nada, apenas ande e prossiga como se tudo estivesse acontecendo de acordo com o planejado". Mas eu queria falar. Estava morrendo de vontade de conversar com ele. Então não me aguentei e soltei o verbo... Ele sorriu de leve, amanhecendo aos poucos diante de mim e quando reparamos o dia já era meio. Metade para cada um.

Enquanto o mundo passava feito filme pela janela do trem, minhas mãos cochilavam nas dele. Estávamos partindo para um novo lugar afastado de todo o passado. Não se tratava de fuga. Pelo contrário, queríamos encontrar algo verdadeiro. Algo que não tirasse de nós o mais básico dos direitos: o de ser. Depois de algumas boas horas, para o trem e correm as batidas dentro do peito. Chegamos.

Ela era tímida, coberta por folhas secas e pintada de branco. Um branco cansado de ser tão pálido e que tentava a todo custo parecer cinza. Foi paixão instantânea. Eu vi naquela casa um véu de silêncio que cobria de suavemente tudo o que buscamos juntos durante anos. Silêncio para que nossas juras fossem sussurradas.

A tarde chegava com seu laranja inconfundível. Encostei minha cabeça no ombro dele e baixei a guarde. Fiquei totalmente vulnerável. Nada mais me incomodava. Ele desenhava meu rosto com a ponta dos dedos e assoviava "Sea of Love". Olhávamos para o nada -  a utopia de nossas próprias existências - sem esperança alguma. Era tão bom... Era liberdade.

Do alto das sobrancelhas eu via o céu escuro dos seus cabelos a anoitecer minha ansiedade. Ali ficamos, deitados... Sem uma simples palavra... Eu o amo mais do que ele poderia imaginar.

O início do desconhecido. A cama sendo arrumada pelo desejo - cuidadosamente preparada para acordar bagunçada. O carinho tomando conta da sala, deixando as almofadas entre o sofá, já imaginando a chegada do par de corpos friorentos. E o amor. O amor não saiu de nós para ajudar na arrumação. Ele ficou no seu canto e aos poucos tomaria conta dos cheiros, cores, texturas, sons e o que mais estivesse ao seu alcance.

A vida não era nem de longe perfeita. Ela apenas se apresentava bem naquele momento. Como de costume, recebeu-nos de braços abertos dando as boas-vindas aos novos moradores. A vida, nosso lar. A casa que escolhemos e nos acolheu.

O primeiro dia para nós, os dois últimos.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Pés descalços na terra

A barra de seu vestido não chegava ao solo. Mas suas solas sim.

Olhava para baixo apreciando o par de pés descalços na terra, enraizando-se naquela superfície gelada e rígida. Tal qual olhar de mãe. Ambas se observavam, garota e mãe terra. Semente e semeadora. 

Ela não precisava mais correr. Havia alcançado a si mesma na crosta que acalentava as erupções em seu peito. O amor em magma escorria lentamente e não mais se petrificava como as palavras de adeus que nunca jorraram da boca do outro. Ela e a terra se entendiam silenciosamente. Tremiam juntas.  

Nenhum passo. Fincada, ficou. Bateu o pé esquerdo e disse para ninguém: sortuda são as árvores que caminham só em pensamento mesmo.  

Um belo dia

Um belo dia para incendiar a própria casa e ver tudo se desintegrar. Paredes, móveis, roupas, plantas, cadernos do primário, documentos importantes, fotos, fatos e lembranças.

Um belo dia para destruir. Para libertar o desejo pelo fim prematuro. Escutar a madeira estalando e se contorcendo, passiva.

Um belo dia para sentar diante do enorme paquiderme de concreto, indefeso e solitário. Eu, ali, observando tudo ruir, em silêncio absoluto. Captando apenas a essência flamejante do momento único. De longe, um belo dia.

Um belo dia para apreciar o telefone mudo a derreter. E com ele todas as vozes que insistiram durante anos em me tirar o sossego. Suas teclas virando uma massa uniforme de nada. Os números deixando de ter razão, coerência e significado. Sem toques por hoje. Hoje que, diga-se de passagem, não passa de um belo dia.

Um belo dia para espalhar o cheiro de fumaça no bairro. As pessoas saindo de suas respectivas moradias para observar a minha a partir. Choram, berram, tentam me levantar pelos braços, mas eu estou pesando toneladas. O alívio me fez ganhar todo o peso que antes pertencia apenas ao mundo. E meus ombros agora podem doer por conta própria. Encerrei meu papel de Atlas enquanto esse belo dia se recusa a acabar.

Um belo dia para acender o cigarro nas brasas do meu passado. Fumando vagarosamente a despedida forçosa dos anos mais escuros que já tive. E nada pode me abalar, afinal, as estruturas que me mantiveram por aqui agora não são nada mais do que entulho. Sim, um belo dia para aposentar o endereço.

Um belo dia pra perder o refúgio. Abrir mão do lar e do retorno. Mudar-se para o abandono. Rua - que tanto me ensinou e foi, por várias vezes, minha cama, meu sofá e meu quarto. Ela sim estará sempre ali para mim e para o meu par de tênis sujos. Um belo dia para se contentar apenas com a roupa do corpo e a calçada dos outros.

Um belo dia para lançar à fogueira muitas músicas que já não me lembro mais. Versos, refrões, acordes, raiva, ódio, raiva e ódio. As labaredas se tornam azuis. Fogo frio, que arde mais do que gelo seco. Lá estão todas as letras que tanto cantei até irritar os calos das cordas vocálicas. Um belo dia para ficar calado. E só observar.

Um belo dia, serei eu a queimar. Mas por hoje é só.

Basta.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Conversas mudas

Estava fumando e olhando para o nada, aqui da janela do quarto. Aproximei, sem querer, o cigarro dos ouvidos e então escutei aquele som de algo queimando. Mas era baixo, discreto, lento... Confortável e incessante.

Batizei para mim mesmo de "barulho da morte". Pode soar piegas, "barulho da morte", mas assim como as conchas guardam um bocejo do mar, esse som me lembrou o assoviar da finitude. Acabou o barulho quando acabou o cigarro.

Samael amaldiçoou a terra - e toda a vida nela - com o barulho. Ele, que no paraíso era maestro, disse que nunca o humano ia conseguir ficar totalmente em silêncio. Sempre haveria um ruído. Só a morte calaria a vida.

Enfim... O cigarro se cala e nos cala.

Ria & Lia



Minha família estava contente em me ver. O movimento que faziam com os talheres indicava certa empolgação e, ao mesmo tempo, desconforto. Pai girava o garfo vagarosamente como o ponteiro de um relógio prestes a parar. Dois giros para frente, três para trás, uma pausa. Nada. Nada fluía.

Mãe sorria com o canto da boca desocupado de comida. Reservado para a família. Aquele que sempre ri. Ela ria. As mãos cheiravam à comida que comíamos. Prova de amor é deixar seu cheiro na comida dos outros. Já minha irmã fiscalizava-me com seu silêncio. Mastigava o alimento tenro com curiosidade, esperando de mim a primeira frase. Sou convidado dos meus próprios pais. Foi um ano difícil para eles. Para mim, não foi um ano. Uma vida, talvez. Uma vida difícil da qual eu não posso me desligar. Porque sou assim. "Doente", eles dizem para os demais parentes. Sou doente por ser distante.

Ela, a mãe, perguntou como tinha sido a viagem. Expliquei que a maior parte do tempo estive dormindo (mentira) e perdi muito da paisagem linda que contorna os trilhos do trem. Elizabete não se conformou com a resposta. Achou um absurdo alguém dormir tanto como eu e ainda assim ter um trabalho, uma casa e - pasme - um namorado (mentira). Houve um namorado que não amei. Nem quis amar. Apenas fiz o que precisava ser feito. Tudo pelo fim das cobranças - da carne, principalmente.

Meu pai observava o bife morto diante de mim. Eu não o comia. Apenas bebi taças e taças de vinho e eles permitiam com gosto. Havia a ilusão de que a embriaguez invocaria alguma reação da minha parte naquela reunião e então um diálogo mais dinâmico nos validaria como familiares amorosos. O álcool libera o que a razão tenta esconder enquanto a lucidez está acesa. O álcool é quem apaga as luzes. Ele é sempre o primeiro a se despir e deitar. A razão - a se entregar.

Os ponteiros continuavam estagnados. Foi então que ele quis saber sobre meus planos de trabalho e expectativas para os próximos meses. Eu lhe expliquei que escrever era um processo aleatório demais e por isso me encantara tanto. Usei essa palavra, "encantara", no intuito de ser positivo, apenas. Disse que não dependia do tempo dos outros, afinal, se assim fosse, seria a escrita dos outros e não a minha. Elizabebte perguntou como meus chefes suportavam essa pobreza de argumento. Ignorei-a e então prossegui dizendo que cada linha escrita somente com a preocupação em evitar suicídio valia mais do que páginas e mais páginas de um plano falsamente elaborado para direcionar a narrativa rumo ao clímax e condenar o suicídio. Que o "nada", ao meu ver, o oco, o vácuo, era justamente o que as pessoas precisavam conhecer mais. Ele me olhou como quando ergueu meu corpo gelado do chão do banheiro e então abandonou o talher rodopiante. Cruzou os dedos e questionou sobre o que eu estava escrevendo. Mais um gole. Justamente sobre o "nada". Estou escrevendo sobre o nada, pai. Minha mãe ria freneticamente. Elizabete mudara de cor, era rubra agora. De repente senti a mão de meu pai aquecendo a pele do meu rosto tal qual o filete de sangue que pela mesma mão se espalhou pela mesma face. Pelo mesmo pai. O mesmo que salva e condena.

EufoRia

Eles me viam como um farsante patológico. Alguém que jamais dera real valor para tudo o que haviam conquistado. Alguém que matava o sol por não dar bom dia. Aquele que ignorava a beleza da lua, mas gostava da noite porque ela tirava a tudo e a todos ao seu redor. Era finalmente só "seu redor" - e de mais ninguém. Repudiavam a maneira como tratava seus convidados. A indiferença era pior do que sal na ferida - ou na sobremesa. Secava todas as amizades frutíferas de anos. E eu tive que fingir. Eu fingia demais. Porém, bastava uma pausa para ir até o banheiro e tudo voltava à concordância. A sensação de desapego, o zunido no fundo da cabeça, a falta de vontade se espreguiçando... o Sono. Hipnos. Morfeu é para os fracos. Sempre o sono. Nunca sonho.

Depois do tapa no rosto, minha mãe finalmente se libertou. Sua gargalhada era ouvida por todos os cantos da casa. Sem entender, meu pai - que esperava ser recriminado - voltou ao seu devido lugar e passou a saborear um vistoso pedaço de bolo com cobertura de goiabada. Elizabete agora se sentia tranquila, vingada e a mais amada. Bem alimentada. Eu não sentia muito além do calor que ainda repousava na bochecha. Não queria estar ali. Eu queria estar perto, mas dormindo. Só assim, longe de verdade.

Mãe perguntou se eu estava bem mesmo. O que estava acontecendo e o que era esse assunto sobre o "nada". Ela temia muito a morte e quando eu disse essa palavra, meu pai se viu obrigado a defender a paz e honra da família. Paladino. Ele fez pelo meu bem, explicou minha mãe. Disse que os anos na terapia e os remédios que tomei deveriam ter feito alguma melhoria no "tratamento", mas que as recaídas faziam parte do processo. Pai pediu desculpas no dia seguinte e mostrou-se interessado em ler sobre o vazio que eu traduzia há meses. Elizabebte não queria mais nada. Retirou-se da mesa fadigada de prazer.

Um dia comum. O vento tímido, as cortinas oferecidas... Sala sombreada e o vasto jardim exibindo sua vigorosidade. Quartos e mais quartos, corredores perdidos e minha janela. Passei horas emoldurado por ela, observando a morte natural de tudo. A finitude das nuvens, o brilho intenso de duvidoso de Spica, os pássaros imortais que estão livres do saber sobre a morte e minha família. Pai tímido e mãe imortal tomando conta da grama e minha irmã tomando sol. A luz branca - e não amarelada - que anuncia a indiferença do astro rei. Secava a pele da irmã oferecida, feliz e extrovertida. Todos morriam da janela pra fora. E só os mortos podem falar sobre o decesso. Resolvi me juntar a eles.

Todos ficaram surpresos. No mesmo instante, o casal correu em minha direção com algumas ferramentas em mãos e Elizabete apenas abaixava as lentes escuras dos óculos para crer no que estava vendo. Ela me lia como ninguém. Ela sabia o que havia dentro de mim e se deliciava com isso.

Cortei algumas rosas (morte), joguei adubo com cascas de frutas no solo (morte) e então enfiei alguns brotos de árvores frutíferas (haverá morte). Pai apoiava as mãos no meu ombro e pitava seu cigarro (morte). Mãe assoviava a 7ª de Beethoven (morto). Tudo parecia conspirar para que aquele momento valesse um retrato (morto) ou confissões entusiasmadas para os amigos tão acostumados com a decadência dos lares de classe média (morta). Tão acostumados com a moral sempre feita de vítima (morta).

Depois de todo o constrangimento, tive a chance de me afastar da casa e passar um tempo sozinho. Solidão. Era o fim da euforia. E o começo da minha...

MelancoLia

Sentei à mesa e olhei para aqueles rostos. Todos marcados por uma falsa expressão de companheirismo. Olhei para meu pai e vi sua ruína, seu fraqueza reluzente que escondia a sombra de melancolia. Mas a deixava escapar enquanto seus dedos dançavam com um talher patético. Era um jogo óbvio de postura na qual a pessoa se firma no movimento repetitivo, encenando ter algum ponto de concentração e propósito. Tentando passar não a imagem dos ponteiros retardados, mas a de um cronômetro a calcular o tempo de explosão da bomba. Ele, sem falar, estourava meus ouvidos com aquele silêncio forçado. Emudecido, cada músculo de seu corpo rangia feito móvel velho. Isso estava me matando. Não suporto que alguém tente fazer uso do silêncio sem nem ao menos saber o que ele de fato é. Silêncio é morte. Luto. Finitude da vontade. E meu pai estava morrendo - não de verdade - mas de vontade de falar. Calou-se apenas para ensaiar a melhor hora de atingir o ápice de sua paternidade: a violência educadora. Ele cedeu à fúria quando me ouviu falar sobre o "nada". A razão é bem clara. Quando alguém não sabe tratar de algum assunto ou situação, perde a capacidade de imaginar, volta ao seu estado bestial e então faz uso da brutalidade - como se esta fosse capaz de expressar sua ideia. E, de fato, transmitiu: euforia.

Minha mãe era uma mulher já morta. Sua vida não existia sem a do meu pai. Logo, sua vida não era só sua -e assim posso dizer sem menor pêsame que viva ela não estava mais. Há anos, inclusive. Seu corpo sim, este era só problema seu. Meu pai fazia questão de enfatizar isso. A vaidade, maldição que escraviza os frágeis, era o preço que ela deveria pagar por ter se casado. Por ter nascido mulher. A mulher, sempre o outro, nunca ela. Nos meus primeiros anos de vida eu me senti como mulher. Até os 7 eu me sentia mulher - o outro dentro do mundo. Confinado junto de minhas vontades, sempre me achando fraco e incapaz. Foi me sentindo assim que eu finalmente encontrei a única arma contra todas as investidas grotescas do mundo: eu me encontrei. E lá fiquei sozinho comigo. Inalcançável. Mas minha mãe, não. Ela não se cansava de ser perseguida pelos anseios estúpidos do meu pai. Vendeu sua alma à soberba e então assim seguiu. Teve Elizabete para comprovar a fertilidade do corpo e negligenciou a criação da garota.

Minha irmã é apenas mais uma. Não sei o que dizer sobre ela. Elizabete sempre fez isso muito bem. Falou de si mesma até para os insetos que comiam seus vestidos. Ela sempre me odiou pelo fato de eu não prestar atenção em sua existência. Ela não compreendia até que meus pais disseram se tratar da tal doença que "deixa ele sempre triste". Isso só a enfureceu e ao invés de transmitir um pouco de empatia, acendeu uma maldade devoradora. Perseguiu-me, humilhou-me, agrediu-me sem saber que nenhuma de suas ações chegou com tais nomes até minha percepção. Eu apenas a sentia distante. E isso era o melhor que ela poderia fazer. Deveria ter agradecido quando tive chance.

O jardim, a casa inteira... Nada daquilo se conectava comigo. Eu olhava para as filhas de Virgo cintilando no céu e sabia que estavam mortas há séculos. Todo aquele brilho não passava de atraso. Vivas, elas já estavam mortas, bem lá no céu - o recanto dos merecedores. A lua é um pedaço de rocha morto. O sol é uma bola de fogo que se auto-consome. Suicida-se. O vácuo, o silêncio sideral, o espaço atemporal... Morte. Uma vibração constante que se anula no mesmo instante. Aqui, neste planeta onde a vida diz existir, não há fim para a finitude. Onde reside os restos cósmicos de Spíca há um ponto brilhante que também está morto há anos luz. Esse ponto é a Terra. Somos nós.

Para a constelação de Virgem, já estamos mortos. Eu me pergunto: para quem estamos vivos? Meus pais responderiam sem titubear - para nós, menino imbecil!

Eu não responderia nada.

Viver é antinatural.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Valor

Qual é o valor de x?

Pretx, brancx, pardx, gordx, magrx, altx, baixx, desempregadx, suburbanx, abandonadx, excluídx, presidiárix, bandidx, graduadx, drogadx, xsexual.

"X" é igual a mim e você.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Palavra e significado

"Parto" é uma palavra tão rica em significados que poderia ser o melhor termo para definir a vida.

Do parto nasço e me faço assim, do nada que fui ao tudo que não sei se serei.

Parto em direção aos anos futuros, compromissos, relacionamentos, quebras, voltas etc.

Parto o laço com a vida, cansado e desgastado, e simplesmente vou. Morro.

Parto que me dá o primeiro choro. Parto para evitar mais choro. Parto e só deixo choro.

Parto e descubro o ar, o gosto, o frio e o calor. Parto e deixo as chaves, cartas e o perfume no seu lençol. Parto e não olho para trás, finalizo o que comecei sem nem saber.

Parto.