segunda-feira, 25 de agosto de 2014
Ria & Lia
Minha família estava contente em me ver. O movimento que faziam com os talheres indicava certa empolgação e, ao mesmo tempo, desconforto. Pai girava o garfo vagarosamente como o ponteiro de um relógio prestes a parar. Dois giros para frente, três para trás, uma pausa. Nada. Nada fluía.
Mãe sorria com o canto da boca desocupado de comida. Reservado para a família. Aquele que sempre ri. Ela ria. As mãos cheiravam à comida que comíamos. Prova de amor é deixar seu cheiro na comida dos outros. Já minha irmã fiscalizava-me com seu silêncio. Mastigava o alimento tenro com curiosidade, esperando de mim a primeira frase. Sou convidado dos meus próprios pais. Foi um ano difícil para eles. Para mim, não foi um ano. Uma vida, talvez. Uma vida difícil da qual eu não posso me desligar. Porque sou assim. "Doente", eles dizem para os demais parentes. Sou doente por ser distante.
Ela, a mãe, perguntou como tinha sido a viagem. Expliquei que a maior parte do tempo estive dormindo (mentira) e perdi muito da paisagem linda que contorna os trilhos do trem. Elizabete não se conformou com a resposta. Achou um absurdo alguém dormir tanto como eu e ainda assim ter um trabalho, uma casa e - pasme - um namorado (mentira). Houve um namorado que não amei. Nem quis amar. Apenas fiz o que precisava ser feito. Tudo pelo fim das cobranças - da carne, principalmente.
Meu pai observava o bife morto diante de mim. Eu não o comia. Apenas bebi taças e taças de vinho e eles permitiam com gosto. Havia a ilusão de que a embriaguez invocaria alguma reação da minha parte naquela reunião e então um diálogo mais dinâmico nos validaria como familiares amorosos. O álcool libera o que a razão tenta esconder enquanto a lucidez está acesa. O álcool é quem apaga as luzes. Ele é sempre o primeiro a se despir e deitar. A razão - a se entregar.
Os ponteiros continuavam estagnados. Foi então que ele quis saber sobre meus planos de trabalho e expectativas para os próximos meses. Eu lhe expliquei que escrever era um processo aleatório demais e por isso me encantara tanto. Usei essa palavra, "encantara", no intuito de ser positivo, apenas. Disse que não dependia do tempo dos outros, afinal, se assim fosse, seria a escrita dos outros e não a minha. Elizabebte perguntou como meus chefes suportavam essa pobreza de argumento. Ignorei-a e então prossegui dizendo que cada linha escrita somente com a preocupação em evitar suicídio valia mais do que páginas e mais páginas de um plano falsamente elaborado para direcionar a narrativa rumo ao clímax e condenar o suicídio. Que o "nada", ao meu ver, o oco, o vácuo, era justamente o que as pessoas precisavam conhecer mais. Ele me olhou como quando ergueu meu corpo gelado do chão do banheiro e então abandonou o talher rodopiante. Cruzou os dedos e questionou sobre o que eu estava escrevendo. Mais um gole. Justamente sobre o "nada". Estou escrevendo sobre o nada, pai. Minha mãe ria freneticamente. Elizabete mudara de cor, era rubra agora. De repente senti a mão de meu pai aquecendo a pele do meu rosto tal qual o filete de sangue que pela mesma mão se espalhou pela mesma face. Pelo mesmo pai. O mesmo que salva e condena.
EufoRia
Eles me viam como um farsante patológico. Alguém que jamais dera real valor para tudo o que haviam conquistado. Alguém que matava o sol por não dar bom dia. Aquele que ignorava a beleza da lua, mas gostava da noite porque ela tirava a tudo e a todos ao seu redor. Era finalmente só "seu redor" - e de mais ninguém. Repudiavam a maneira como tratava seus convidados. A indiferença era pior do que sal na ferida - ou na sobremesa. Secava todas as amizades frutíferas de anos. E eu tive que fingir. Eu fingia demais. Porém, bastava uma pausa para ir até o banheiro e tudo voltava à concordância. A sensação de desapego, o zunido no fundo da cabeça, a falta de vontade se espreguiçando... o Sono. Hipnos. Morfeu é para os fracos. Sempre o sono. Nunca sonho.
Depois do tapa no rosto, minha mãe finalmente se libertou. Sua gargalhada era ouvida por todos os cantos da casa. Sem entender, meu pai - que esperava ser recriminado - voltou ao seu devido lugar e passou a saborear um vistoso pedaço de bolo com cobertura de goiabada. Elizabete agora se sentia tranquila, vingada e a mais amada. Bem alimentada. Eu não sentia muito além do calor que ainda repousava na bochecha. Não queria estar ali. Eu queria estar perto, mas dormindo. Só assim, longe de verdade.
Mãe perguntou se eu estava bem mesmo. O que estava acontecendo e o que era esse assunto sobre o "nada". Ela temia muito a morte e quando eu disse essa palavra, meu pai se viu obrigado a defender a paz e honra da família. Paladino. Ele fez pelo meu bem, explicou minha mãe. Disse que os anos na terapia e os remédios que tomei deveriam ter feito alguma melhoria no "tratamento", mas que as recaídas faziam parte do processo. Pai pediu desculpas no dia seguinte e mostrou-se interessado em ler sobre o vazio que eu traduzia há meses. Elizabebte não queria mais nada. Retirou-se da mesa fadigada de prazer.
Um dia comum. O vento tímido, as cortinas oferecidas... Sala sombreada e o vasto jardim exibindo sua vigorosidade. Quartos e mais quartos, corredores perdidos e minha janela. Passei horas emoldurado por ela, observando a morte natural de tudo. A finitude das nuvens, o brilho intenso de duvidoso de Spica, os pássaros imortais que estão livres do saber sobre a morte e minha família. Pai tímido e mãe imortal tomando conta da grama e minha irmã tomando sol. A luz branca - e não amarelada - que anuncia a indiferença do astro rei. Secava a pele da irmã oferecida, feliz e extrovertida. Todos morriam da janela pra fora. E só os mortos podem falar sobre o decesso. Resolvi me juntar a eles.
Todos ficaram surpresos. No mesmo instante, o casal correu em minha direção com algumas ferramentas em mãos e Elizabete apenas abaixava as lentes escuras dos óculos para crer no que estava vendo. Ela me lia como ninguém. Ela sabia o que havia dentro de mim e se deliciava com isso.
Cortei algumas rosas (morte), joguei adubo com cascas de frutas no solo (morte) e então enfiei alguns brotos de árvores frutíferas (haverá morte). Pai apoiava as mãos no meu ombro e pitava seu cigarro (morte). Mãe assoviava a 7ª de Beethoven (morto). Tudo parecia conspirar para que aquele momento valesse um retrato (morto) ou confissões entusiasmadas para os amigos tão acostumados com a decadência dos lares de classe média (morta). Tão acostumados com a moral sempre feita de vítima (morta).
Depois de todo o constrangimento, tive a chance de me afastar da casa e passar um tempo sozinho. Solidão. Era o fim da euforia. E o começo da minha...
MelancoLia
Sentei à mesa e olhei para aqueles rostos. Todos marcados por uma falsa expressão de companheirismo. Olhei para meu pai e vi sua ruína, seu fraqueza reluzente que escondia a sombra de melancolia. Mas a deixava escapar enquanto seus dedos dançavam com um talher patético. Era um jogo óbvio de postura na qual a pessoa se firma no movimento repetitivo, encenando ter algum ponto de concentração e propósito. Tentando passar não a imagem dos ponteiros retardados, mas a de um cronômetro a calcular o tempo de explosão da bomba. Ele, sem falar, estourava meus ouvidos com aquele silêncio forçado. Emudecido, cada músculo de seu corpo rangia feito móvel velho. Isso estava me matando. Não suporto que alguém tente fazer uso do silêncio sem nem ao menos saber o que ele de fato é. Silêncio é morte. Luto. Finitude da vontade. E meu pai estava morrendo - não de verdade - mas de vontade de falar. Calou-se apenas para ensaiar a melhor hora de atingir o ápice de sua paternidade: a violência educadora. Ele cedeu à fúria quando me ouviu falar sobre o "nada". A razão é bem clara. Quando alguém não sabe tratar de algum assunto ou situação, perde a capacidade de imaginar, volta ao seu estado bestial e então faz uso da brutalidade - como se esta fosse capaz de expressar sua ideia. E, de fato, transmitiu: euforia.
Minha mãe era uma mulher já morta. Sua vida não existia sem a do meu pai. Logo, sua vida não era só sua -e assim posso dizer sem menor pêsame que viva ela não estava mais. Há anos, inclusive. Seu corpo sim, este era só problema seu. Meu pai fazia questão de enfatizar isso. A vaidade, maldição que escraviza os frágeis, era o preço que ela deveria pagar por ter se casado. Por ter nascido mulher. A mulher, sempre o outro, nunca ela. Nos meus primeiros anos de vida eu me senti como mulher. Até os 7 eu me sentia mulher - o outro dentro do mundo. Confinado junto de minhas vontades, sempre me achando fraco e incapaz. Foi me sentindo assim que eu finalmente encontrei a única arma contra todas as investidas grotescas do mundo: eu me encontrei. E lá fiquei sozinho comigo. Inalcançável. Mas minha mãe, não. Ela não se cansava de ser perseguida pelos anseios estúpidos do meu pai. Vendeu sua alma à soberba e então assim seguiu. Teve Elizabete para comprovar a fertilidade do corpo e negligenciou a criação da garota.
Minha irmã é apenas mais uma. Não sei o que dizer sobre ela. Elizabete sempre fez isso muito bem. Falou de si mesma até para os insetos que comiam seus vestidos. Ela sempre me odiou pelo fato de eu não prestar atenção em sua existência. Ela não compreendia até que meus pais disseram se tratar da tal doença que "deixa ele sempre triste". Isso só a enfureceu e ao invés de transmitir um pouco de empatia, acendeu uma maldade devoradora. Perseguiu-me, humilhou-me, agrediu-me sem saber que nenhuma de suas ações chegou com tais nomes até minha percepção. Eu apenas a sentia distante. E isso era o melhor que ela poderia fazer. Deveria ter agradecido quando tive chance.
O jardim, a casa inteira... Nada daquilo se conectava comigo. Eu olhava para as filhas de Virgo cintilando no céu e sabia que estavam mortas há séculos. Todo aquele brilho não passava de atraso. Vivas, elas já estavam mortas, bem lá no céu - o recanto dos merecedores. A lua é um pedaço de rocha morto. O sol é uma bola de fogo que se auto-consome. Suicida-se. O vácuo, o silêncio sideral, o espaço atemporal... Morte. Uma vibração constante que se anula no mesmo instante. Aqui, neste planeta onde a vida diz existir, não há fim para a finitude. Onde reside os restos cósmicos de Spíca há um ponto brilhante que também está morto há anos luz. Esse ponto é a Terra. Somos nós.
Para a constelação de Virgem, já estamos mortos. Eu me pergunto: para quem estamos vivos? Meus pais responderiam sem titubear - para nós, menino imbecil!
Eu não responderia nada.
Viver é antinatural.
terça-feira, 19 de agosto de 2014
Valor
Qual é o valor de x?
Pretx, brancx, pardx, gordx, magrx, altx, baixx, desempregadx, suburbanx, abandonadx, excluídx, presidiárix, bandidx, graduadx, drogadx, xsexual.
"X" é igual a mim e você.
Pretx, brancx, pardx, gordx, magrx, altx, baixx, desempregadx, suburbanx, abandonadx, excluídx, presidiárix, bandidx, graduadx, drogadx, xsexual.
"X" é igual a mim e você.
segunda-feira, 11 de agosto de 2014
Palavra e significado
"Parto" é uma palavra tão rica em significados que poderia ser o melhor termo para definir a vida.
Do parto nasço e me faço assim, do nada que fui ao tudo que não sei se serei.
Parto em direção aos anos futuros, compromissos, relacionamentos, quebras, voltas etc.
Parto o laço com a vida, cansado e desgastado, e simplesmente vou. Morro.
Parto que me dá o primeiro choro. Parto para evitar mais choro. Parto e só deixo choro.
Parto e descubro o ar, o gosto, o frio e o calor. Parto e deixo as chaves, cartas e o perfume no seu lençol. Parto e não olho para trás, finalizo o que comecei sem nem saber.
Parto.
Do parto nasço e me faço assim, do nada que fui ao tudo que não sei se serei.
Parto em direção aos anos futuros, compromissos, relacionamentos, quebras, voltas etc.
Parto o laço com a vida, cansado e desgastado, e simplesmente vou. Morro.
Parto que me dá o primeiro choro. Parto para evitar mais choro. Parto e só deixo choro.
Parto e descubro o ar, o gosto, o frio e o calor. Parto e deixo as chaves, cartas e o perfume no seu lençol. Parto e não olho para trás, finalizo o que comecei sem nem saber.
Parto.
quarta-feira, 6 de agosto de 2014
Quanto custa sentir?
Todas as pessoas sentem algo. E "sentir" pode ter vários significados - desde os mais óbvios, semanticamente estabelecidos, até os mais complexos - subjetivamente escritos. Seja com for, há fluidez e alteração no corpo e no comportamento. Muda, como o olhar faz todos os dias. Inunda-se, como o mar faz todos as tardes.
E quanto custa permitir-se sentir o que há para ser sentido? O preço a pagar é sempre injusto. E assim pagamos. Pagamos o quanto for cobrado. Pagamos as passagens para visitar aquele amor de um dia; pagamos a cerveja bebida pela metade que rendeu a mesa a dois cheia de carinhos e mentiras; pagamos a entrada para a festa desinteressante com promessa de gente interessante; e no final da noite apagamos, como se não tivéssemos acontecido.
O preço do "sentir" está além da nossa capacidade de calcular. Ele oscila de acordo com a infla(ma)ção do querer e se faz nos detalhes de um perfume na nuca ou no descaramento em perguntar - "você está com alguém?". Geralmente, arriscamos linhas tortas - sem régua punidora - de um discurso sincero e patético que quer apenas ser amado, acolhido e - quem sabe - lido pela língua a frente. Depois, quando o efeito se desfaz pela correnteza sanguínea, a maré em nós deixa apenas uma sensação de derrota que custa a afundar na areia das expectativas. Cada palavra dita no momento de maior vulnerabilidade sentimental não pode ser apagada com os pés nem com a próxima onda. Marca profundamente e talvez um próximo verão possa então acobertar a memória do que a ponta dos dedos não entrelaçados entre mãos dadas pôde omitir. Paga-se se o preço, mas não apaga-se o peso - da rejeição, por exemplo.
Ainda assim, sentiremos. Espalharemos sobre o lençol exausto da cama as contas do peito e dividiremos a tristeza em suaves parcelas de consequências. Cada uma delas decididamente pronta a cobrar-nos diariamente um fragmento do carinho perdido.
E quanto custa permitir-se sentir o que há para ser sentido? O preço a pagar é sempre injusto. E assim pagamos. Pagamos o quanto for cobrado. Pagamos as passagens para visitar aquele amor de um dia; pagamos a cerveja bebida pela metade que rendeu a mesa a dois cheia de carinhos e mentiras; pagamos a entrada para a festa desinteressante com promessa de gente interessante; e no final da noite apagamos, como se não tivéssemos acontecido.
O preço do "sentir" está além da nossa capacidade de calcular. Ele oscila de acordo com a infla(ma)ção do querer e se faz nos detalhes de um perfume na nuca ou no descaramento em perguntar - "você está com alguém?". Geralmente, arriscamos linhas tortas - sem régua punidora - de um discurso sincero e patético que quer apenas ser amado, acolhido e - quem sabe - lido pela língua a frente. Depois, quando o efeito se desfaz pela correnteza sanguínea, a maré em nós deixa apenas uma sensação de derrota que custa a afundar na areia das expectativas. Cada palavra dita no momento de maior vulnerabilidade sentimental não pode ser apagada com os pés nem com a próxima onda. Marca profundamente e talvez um próximo verão possa então acobertar a memória do que a ponta dos dedos não entrelaçados entre mãos dadas pôde omitir. Paga-se se o preço, mas não apaga-se o peso - da rejeição, por exemplo.
Ainda assim, sentiremos. Espalharemos sobre o lençol exausto da cama as contas do peito e dividiremos a tristeza em suaves parcelas de consequências. Cada uma delas decididamente pronta a cobrar-nos diariamente um fragmento do carinho perdido.
sábado, 2 de agosto de 2014
A janela de Judas
Minha vida é o que escolhi para mim, e não o que escolhi ser. Não tive o privilégio de legislar sobre a constituição dos meus dias. Desde cedo precisei lidar com algo obscuro impregnado em minha essência. Os anos seguiram, e a guerra interior que destoava as atitudes do garoto calado cessou diante do acordo de paz entre bem e mal. Nenhum dos extremos abriu mão da própria natureza. Apenas admitiram a importância que um tem para o outro.
Há o mal em mim. Não sou o único hospedeiro de tal enfermidade moral. Porém, acredito ser um dos poucos que conseguiu aceitar a própria maldição sem crises. Na verdade, o que sempre me sufocou foi a impossibilidade de contar aos meus sentimentos sobre sua outra esfera. A escura.
Quantas vezes desejei o mal extremo dos inimigos e sorri com sua derrota. Ou simplesmente joguei com a vida de pessoas desinteressantes que queriam mais de mim do que eu mesmo poderia oferecer. Jogo de palavras, jogo de interesses, sentimentos simulados, cumplicidade por conveniência e puro egoísmo no lugar de amo verdadeiro. São estes estilhaços de mau caratismo (será mau caratismo mesmo?) que cortaram a alegria estúpida dos dias insuportavelmente inevitáveis pelos quais passei sem deixar rastro. Atuei com a maestria invejável. Às vezes é preciso fingir que se sente algo para, então, ser convincente. Para, então, perambular livremente pelos anos sem ser incomodado.
Olho ao meu redor e vejo tudo se decompondo. Depois que descobri, ainda bem pequeno, que tudo o vive está fadado a morrer, encantei-me pela finitude. Eu sabia que teria fim para tudo o e todos. Talvez, o único momento em que a igualdade se faz por completa. E então não me senti mais culpado por desejar a antecipação do fim alheio. Certas vezes desejei o minha própria morte e nunca senti nada tão confortante quanto isso. Saber que nem mesmo aquela maldita angústia de gelar as vísceras estava livre de se finar valia mais do que 30 moedas de prata.
Claro que conhecer parte da minha potencialidade desgraçada me obrigou a desenvolver um alto grau de controle. Há limites para tal força destrutiva. Não posso dizer que atingi o equilíbrio ideal, contudo desenvolvi certas "técnicas" eficazes quando se trata de não perder totalmente a sanidade e virar prisioneiro de si mesmo. O primeiro passo foi conversar com o demônio que habita em mim.
"Olhos de níquel
Ele me observava do canto da sala escura, apenas reluzindo o par de olhos prateados. Pele seca, pálida, unhas comidas, nu. Conhecíamos- nos desde sempre, ainda que nenhuma palavra tivesse sido trocada até então. Seu cheiro era muito familiar. O mesmo odor que untava minha pele nos momentos de ódio extremo - ou de desejo por vingança. Eu sabia o que ele queria: total controle sobre minhas ações. Ele também sabia o que eu desejava naquele momento - tudo o que nunca poderia ter sendo apenas uma pessoa comprometida com o "bem maior".
- Você me odeia?
- Sim.
- Eu não posso simplesmente deixá-lo livre dentro de mim. Você me destruiria.
- Não.
- O que tem feito todos esses anos?
- Sussurrado na sua nuca.
- Sim. Eu pude te ouvir. Na verdade, eu sempre te ouvi.
- E isso te angustiava, não? Ouvir aquilo que se quer ouvir e nada fazer.
- Foi difícil. Mas seguir os seus conselhos me custaria muito caro. Não posso pagar o preço.
- Eu entendo. É justamente por isso que eu estou aqui e você aí. Eu aqui e você humano.
- E o que você é?
- Seu álibi. Aquele que sempre levará a culpa por suas ações erradas.
- Eu deveria me sentir melhor por isso? Saber que você é responsável pelos danos que causei e causarei?
- Não sei. O que sei é que precisamos um do outro. Mesmo trancado, eu sinto o mundo através de você.
- E o que você sente a respeito do mundo?
- Desprezo. Essa existência embrionária na qual me encontro permite-me refletir muito sobre o que foi criado - e tudo o que faltou neste processo.
- Eu não queria sua passagem por esta realidade fosse tão limitada.
- Então me deixe sair um pouco. Ou melhor, abra as janelas desse quarto. Eu quero ver... Só me deixe ver.
- Não sei o porquê, mas sinto que quero fazer isso. Seria como tirar a corda do pescoço. Vá, veja com seus próprios olhos...
"
Depois, chegou a hora de colocar em prática o que nunca antes havia sido feito por mim. Não há navalha, marreta, chicote ou agulho que machuque mais do que as palavras. Elas abrem feridas que jamais serão fechadas, a menos que a memória se quime e leve consigo as páginas do passado. Caso contrário, irão devorar eternamente o fígado de Prometeu que existe em todos nós.
Após eu ter descoberto a traição, não tive muito escolha. Calei. Tornei-me incapaz de dizer qualquer coisa. Algo estava acontecendo dentro de mim. Eu queria sumir, no entanto sabia que era preciso construir outra lembrança daquela época. De preferência, uma que fosse esculpida em vingança.
Resolvemos conversar sobre o ocorrido.
- Você vai ficar me olhando assim? Com esses olhos opacos e metálicos?
- Eu preciso lhe falar algumas coisas. As últimas, prometo.
- Tudo bem, mas olha, não adianta ficarmos aqui remoendo o que já passou. Ou me desculpa de uma vez ou simplesmente seguimos nossos caminhos separadamente.
- Você está certo. Não vou remoer nada. Só queria pedir desculpas.
- Desculpas? Meu, não faz sentido e sinceramente? Não me faça ter pena de você. Não foi por alguém assim que me apaixonei.
- Não é nada disso. Peço desculpas por ter te enganado desde o começo.
- Como assim?
- Eu nunca te amei. Nunca gostei de você pra valer.
- Ah, sei... Olha, eu entendo que você esteja dizendo isso pra tentar recuperar a autoestima. Só que é besteira, não precisa agir assim.
- Estou falando sério.
- Se não gostou de mim então por que ficou comigo? Por que foi sempre doce e atencioso? Por que ficou triste e calado quando soube da traição? Porque beijou minha mão?
- Porque perdi algo importante para mim. E acredite, não se tratava de você.
- Ah, não? Então o que era?
- O alimento para meu ego.
- Por favor, que argumento patético. Mas se você prefere assim, não vou discutir.
- Não vai mesmo, agora você vai ouvir.
- Bom, como sei que essa definitivamente será nossa última conversa, então vá em frente... Desabafe, acho que assim pago minha ultima parcela de dívida e caminharei sem culpa. Crucifique-me, vá em frente.
- Eu nunca gostei de você. Primeiro porque é praticamente impossível se interessar por alguém tão simplório. Com toneladas de frases, pensamentos e justificadas retiradas de filmes e livros tão básicos quanto seu léxico. Fiquei com você porque meu corpo precisava de alguém, mas alguém que voltasse mais vezes e permanecesse ao meu lado por mais tempo. Necessitava de uma válvula de escape e como sei que seu grau de esclarecimento sentimental é primário tive que alimentá-lo com todas as porcarias doces que o livro de receitas do "amor" ensina a fazer. A traição nunca foi o problema, afinal, eu te traia a cada vagão de trem ou mesa de bar. Você nunca me teve. O problema foi não ter encontrado alguém melhor antes que você se tornasse inútil. Não pensava em você quando escrevia mensagens ou telefonava, pensava nas minhas vontades sendo atendidas. Não pensava em você quando estava bebendo ou me divertindo, apenas me lembrava de manter algum laço para que você você voltasse na hora certa. Não pensava em você quando escrevia - nem de longe - ou ouvia música. Pensava em você quando minhas prioridades físicas e egocêntricas clamavam por satisfação. Todo sofrimento após a descoberta da traição não passou de uma última tentativa de evitar o fim das minhas regalias. Você é uma pessoa qualquer, básica e rasa demais. E não estou te atacando, de maneira alguma. Apenas estou apresentando você para si mesmo. Entretanto, sei que sua estupidez escudeira irá protegê-lo de qualquer auto-reflexão.
- Hunf, terminou?
- Faz tempo.
Se as pessoas soubessem como realmente parecem dentro da minha cabeça, debaixo do meu peito, entenderiam o porquê do esforço que faço para fingir que sinto alguma coisa por elas.
Há o mal em mim. Não sou o único hospedeiro de tal enfermidade moral. Porém, acredito ser um dos poucos que conseguiu aceitar a própria maldição sem crises. Na verdade, o que sempre me sufocou foi a impossibilidade de contar aos meus sentimentos sobre sua outra esfera. A escura.
Quantas vezes desejei o mal extremo dos inimigos e sorri com sua derrota. Ou simplesmente joguei com a vida de pessoas desinteressantes que queriam mais de mim do que eu mesmo poderia oferecer. Jogo de palavras, jogo de interesses, sentimentos simulados, cumplicidade por conveniência e puro egoísmo no lugar de amo verdadeiro. São estes estilhaços de mau caratismo (será mau caratismo mesmo?) que cortaram a alegria estúpida dos dias insuportavelmente inevitáveis pelos quais passei sem deixar rastro. Atuei com a maestria invejável. Às vezes é preciso fingir que se sente algo para, então, ser convincente. Para, então, perambular livremente pelos anos sem ser incomodado.
Olho ao meu redor e vejo tudo se decompondo. Depois que descobri, ainda bem pequeno, que tudo o vive está fadado a morrer, encantei-me pela finitude. Eu sabia que teria fim para tudo o e todos. Talvez, o único momento em que a igualdade se faz por completa. E então não me senti mais culpado por desejar a antecipação do fim alheio. Certas vezes desejei o minha própria morte e nunca senti nada tão confortante quanto isso. Saber que nem mesmo aquela maldita angústia de gelar as vísceras estava livre de se finar valia mais do que 30 moedas de prata.
Claro que conhecer parte da minha potencialidade desgraçada me obrigou a desenvolver um alto grau de controle. Há limites para tal força destrutiva. Não posso dizer que atingi o equilíbrio ideal, contudo desenvolvi certas "técnicas" eficazes quando se trata de não perder totalmente a sanidade e virar prisioneiro de si mesmo. O primeiro passo foi conversar com o demônio que habita em mim.
"Olhos de níquel
Ele me observava do canto da sala escura, apenas reluzindo o par de olhos prateados. Pele seca, pálida, unhas comidas, nu. Conhecíamos- nos desde sempre, ainda que nenhuma palavra tivesse sido trocada até então. Seu cheiro era muito familiar. O mesmo odor que untava minha pele nos momentos de ódio extremo - ou de desejo por vingança. Eu sabia o que ele queria: total controle sobre minhas ações. Ele também sabia o que eu desejava naquele momento - tudo o que nunca poderia ter sendo apenas uma pessoa comprometida com o "bem maior".
- Você me odeia?
- Sim.
- Eu não posso simplesmente deixá-lo livre dentro de mim. Você me destruiria.
- Não.
- O que tem feito todos esses anos?
- Sussurrado na sua nuca.
- Sim. Eu pude te ouvir. Na verdade, eu sempre te ouvi.
- E isso te angustiava, não? Ouvir aquilo que se quer ouvir e nada fazer.
- Foi difícil. Mas seguir os seus conselhos me custaria muito caro. Não posso pagar o preço.
- Eu entendo. É justamente por isso que eu estou aqui e você aí. Eu aqui e você humano.
- E o que você é?
- Seu álibi. Aquele que sempre levará a culpa por suas ações erradas.
- Eu deveria me sentir melhor por isso? Saber que você é responsável pelos danos que causei e causarei?
- Não sei. O que sei é que precisamos um do outro. Mesmo trancado, eu sinto o mundo através de você.
- E o que você sente a respeito do mundo?
- Desprezo. Essa existência embrionária na qual me encontro permite-me refletir muito sobre o que foi criado - e tudo o que faltou neste processo.
- Eu não queria sua passagem por esta realidade fosse tão limitada.
- Então me deixe sair um pouco. Ou melhor, abra as janelas desse quarto. Eu quero ver... Só me deixe ver.
- Não sei o porquê, mas sinto que quero fazer isso. Seria como tirar a corda do pescoço. Vá, veja com seus próprios olhos...
"
Depois, chegou a hora de colocar em prática o que nunca antes havia sido feito por mim. Não há navalha, marreta, chicote ou agulho que machuque mais do que as palavras. Elas abrem feridas que jamais serão fechadas, a menos que a memória se quime e leve consigo as páginas do passado. Caso contrário, irão devorar eternamente o fígado de Prometeu que existe em todos nós.
Após eu ter descoberto a traição, não tive muito escolha. Calei. Tornei-me incapaz de dizer qualquer coisa. Algo estava acontecendo dentro de mim. Eu queria sumir, no entanto sabia que era preciso construir outra lembrança daquela época. De preferência, uma que fosse esculpida em vingança.
Resolvemos conversar sobre o ocorrido.
- Você vai ficar me olhando assim? Com esses olhos opacos e metálicos?
- Eu preciso lhe falar algumas coisas. As últimas, prometo.
- Tudo bem, mas olha, não adianta ficarmos aqui remoendo o que já passou. Ou me desculpa de uma vez ou simplesmente seguimos nossos caminhos separadamente.
- Você está certo. Não vou remoer nada. Só queria pedir desculpas.
- Desculpas? Meu, não faz sentido e sinceramente? Não me faça ter pena de você. Não foi por alguém assim que me apaixonei.
- Não é nada disso. Peço desculpas por ter te enganado desde o começo.
- Como assim?
- Eu nunca te amei. Nunca gostei de você pra valer.
- Ah, sei... Olha, eu entendo que você esteja dizendo isso pra tentar recuperar a autoestima. Só que é besteira, não precisa agir assim.
- Estou falando sério.
- Se não gostou de mim então por que ficou comigo? Por que foi sempre doce e atencioso? Por que ficou triste e calado quando soube da traição? Porque beijou minha mão?
- Porque perdi algo importante para mim. E acredite, não se tratava de você.
- Ah, não? Então o que era?
- O alimento para meu ego.
- Por favor, que argumento patético. Mas se você prefere assim, não vou discutir.
- Não vai mesmo, agora você vai ouvir.
- Bom, como sei que essa definitivamente será nossa última conversa, então vá em frente... Desabafe, acho que assim pago minha ultima parcela de dívida e caminharei sem culpa. Crucifique-me, vá em frente.
- Eu nunca gostei de você. Primeiro porque é praticamente impossível se interessar por alguém tão simplório. Com toneladas de frases, pensamentos e justificadas retiradas de filmes e livros tão básicos quanto seu léxico. Fiquei com você porque meu corpo precisava de alguém, mas alguém que voltasse mais vezes e permanecesse ao meu lado por mais tempo. Necessitava de uma válvula de escape e como sei que seu grau de esclarecimento sentimental é primário tive que alimentá-lo com todas as porcarias doces que o livro de receitas do "amor" ensina a fazer. A traição nunca foi o problema, afinal, eu te traia a cada vagão de trem ou mesa de bar. Você nunca me teve. O problema foi não ter encontrado alguém melhor antes que você se tornasse inútil. Não pensava em você quando escrevia mensagens ou telefonava, pensava nas minhas vontades sendo atendidas. Não pensava em você quando estava bebendo ou me divertindo, apenas me lembrava de manter algum laço para que você você voltasse na hora certa. Não pensava em você quando escrevia - nem de longe - ou ouvia música. Pensava em você quando minhas prioridades físicas e egocêntricas clamavam por satisfação. Todo sofrimento após a descoberta da traição não passou de uma última tentativa de evitar o fim das minhas regalias. Você é uma pessoa qualquer, básica e rasa demais. E não estou te atacando, de maneira alguma. Apenas estou apresentando você para si mesmo. Entretanto, sei que sua estupidez escudeira irá protegê-lo de qualquer auto-reflexão.
- Hunf, terminou?
- Faz tempo.
Se as pessoas soubessem como realmente parecem dentro da minha cabeça, debaixo do meu peito, entenderiam o porquê do esforço que faço para fingir que sinto alguma coisa por elas.
terça-feira, 29 de julho de 2014
A perspectiva dos invisíveis
De longe, do fundo da sala ou final da fila, é possível ver sem ser visto. Posição privilegiada.
Durante uma de minhas saídas noturnas em busca de sono, pensei muito sobre perspectivas. Quantas tive ao longo desses anos todos? Quantas evitei? Muitas, em ambos os casos. Mas apenas uma delas esteve sempre em vigor: a que me colocava como terceira pessoa de minha própria vida.
Atrás de mim, só a parede de concreto. A última carteira da sala guardava minhas costas e fazia com que olhos e ouvidos tivessem algum sossego - sem ponto cego ou cochicho alheio. Eu via e ouvia tudo e todos. E o melhor: sem ser percebido. Foi assim que conheci muito sobre pessoas, sem ter que conhecê-las, de fato. Seus movimentos, excitações, decepções, conquistas... Tudo ali, bastava pular de uma fileira para a outra.
Trabalhos em grupo também permitiam que a terceira pessoa se manifestasse livremente. Gostava de ajudar no processo de criação e execução, mas odiava ter que liderar, ordenar ou definir funções e, consequentemente, fiscalizar as pessoas para garantir que o trabalho fosse executado com maestria. Não. Há pessoas que são Arthur. Há aquelas vivem como Merlim. Eu era qualquer um que não queria ser citado no livro, mas que ainda assim garantiu a existência plena destes dois ícones. Gostava de ser a sombra por trás do brilho intenso, o silêncio que precedia o aplauso e a satisfação estava em não ser, sendo. À distância, o sucesso aquecia minha pele filtrado pelo denso manto do anonimato. Felicidade era - e ainda é - isso. Um dia, quem sabe, ser lembrado não pelo que fiz, mas pela dúvida a respeito do que eu poderia ter feito sem que ninguém percebesse. Sentir o calor sem precisar do sol.
O amigo, o conselheiro, aquele que não sofre a ponto de se abrir e ouve, ouve, ouve incansavelmente a lamúria alheia como se o peito fosse imune a sofrimento. Este amigo oculto, terceira pessoa numa mesa de bar, ainda que as cadeiras estejam ocupadas em par. Eu e minha mania de ouvir e, de fato, gostar disso. Depositar na minha alma o que o outro sente, sem entregar um pingo de mim. Doar-se ao contrário. Empresto os ouvidos e a razão de bom grado, enquanto recebo fragmentos de uma vivência fora de mim - sangue do outro incompatível com o meu, mas tão vermelho e intenso quanto. É parecido, não é igual. Dói, mas não faz ferida. O prazer está em não fazer parte, ver a distância, e mesmo assim se emocionar, querer ajudar ou se irritar com a redundância sentimental que cega a maioria das pessoas. O ombro amigo, sempre terceiro.
E na solidão dos dias que se seguem, preenchidos apenas por mim, consigo ser terceira pessoa. Encaro a existência como imposição, converso com a voz da madrugada e escrevo no intuito de me projetar como o outro. Semelhante a falar de mim para um alguém que não se importa, um desconhecido criado pela própria necessidade de dissertar-se a esmo. Sou escrita, imagem, silhueta. Vejo, penso a respeito, comento algo e admiro - ou não - o resultado do que faltou. Frustro-me, como qualquer um e me consolo como nenhum outro. Sou a terceira pessoa que cala o desejo quando "Eu" quero gostar; a terceira pessoa que reclama da vida quando "Eu" quero mudar; a terceira pessoa que sente raiva do mundo quando "Eu" quero viajar; a terceira pessoa que repete a dose quando "Eu" quero chorar. Alguém para finalmente culpar sem precisar se justificar ou reunir evidências. Alguém pra ouvir e sentir, querendo ou não, na pele. À flor, de preferência.
O motivo de fala e piada. Raramente de graça. Condenada a ter o ouvido nas costas e escutar por elas insultos e inverdades. A terceira pessoa que só ganha destaque quando conquista seu lugar fora do todo. Quando aceita o cabresto ou simplesmente se torna indiferente diante dos próprios direitos. Terceira pessoa que busca um corpo para o "ele" ou "ela" dentro de si e perde a vida ao almejar viver. A milhas da própria felicidade, caminha a contragosto do mundo e passa a existir somente ao anoitecer de suas vontades.
No canto do salão ainda existe a terceira pessoa, com seu copo e corpo prontos para terem a perspectiva dos invisíveis. Lá está ele, a terceira pessoa do singular. Ele, aparentemente imune à vaidade dos holofotes e incapaz de alcançar o palco mais alto, permanece confortável naquela inexistência insistente. Preparado para não deixar que as mãos se toquem ou as batidas dentro do peito se afinem de acordo com a música. Ama em silêncio para que os demais continuem associando quietude à desistência - e deixem em paz seus desejos. Há timbres que somente podem ser ouvidos na terceira pessoa do plural.
Terceira pessoa que não pode se defender porque estar ausente; que não sabe gostar porque está distante; que não sabe ter porque simplesmente abre mão de conquistar. Cruzei as vielas das décadas a passos curtos, tal qual os de quem não quer deixar pegadas. Ao olhar para trás, neste exato instante, percebo que muito do que eu disse não traz novidade alguma.
Afinal, eu sou a terceira pessoa a me dizer isso.
quarta-feira, 16 de julho de 2014
Um dia é o que preciso
Um dia. Só preciso de um dia.
A noite anterior foi uma bagunça. Suas falas não encontravam as minhas. Perdíamos os sentidos até que ambos não sentiram mais nada. Era sua cobrança libertária demais e meu apego egoísta. Totalmente contrários. Deixei tudo o que era importante para ser dito da maneira mais desesperada. Você apenas retribuiu com sarcasmo. Acabou assim: sem olho no olho, sem abraço demorado ou beijo de despedida. Acabou. E eu afundei em mim mesmo.
Goles e mais goles para amortecer aquela velha dor no peito que pressiona o coração como se alguém o estivesse segurando. Ao mesmo tempo em que o corpo relaxa, a mente começa a despertar e em disparada pelos corredores da minha pele, arrepiando tudo e transformando meu sangue em água fervente.
Falo com um, falo com outro, procuro só você, acho, sinto raiva, tento desprezar, bebo mais um pouco e resolvo ouvir música. Como se estivesse sentado numa mesa de bar, sozinho, apenas acompanhado por uma voz envolvente, vejo a vocalista cantar só para mim. Ela não estava lá, de fato. Ela cantava para não cheirar mais cocaína ou beber. Ela cantava para estancar alguma ferida. E eu ouvia para poder sentir a minha arder.
Sofri bastante enquanto imaginava aquilo que não mais teria. Era bom, apesar das divergências. Eu tinha dois corpos, dois sexos, muito sexo, um carinho, alguns sorrisos, risadas exageradas... Eu tinha tudo de mim em dobro. Fiquei mal acostumado e isso fez tanto bem. Até eu perceber que não tinha nada. Que tudo poderia passar em alguns dias. Ficar a deriva é algo muito íntimo e solitário. Não se deve entrar neste estado por conta do outro. Tem que ser por conta própria. Então eu tive que continuar sozinho. A distância, o silêncio, suas cobranças, sim, tudo isso era verdadeiro e munido de razão. Eu que quis levar assim, sabendo como acabaria. Sinceramente, saber que teria um fim breve me deu segurança o bastante para não tirar sua mão de cima da minha.
Sofrer durante um dia é essencial. Fingir que sol não esquenta, que céu azul não seduz - e sim, azul é uma cor muito atraente - ou que olhar para outros caras é inútil não surte efeito por mais do que 24h. Logo as coisas se acertam, o peito para de soluçar e provavelmente um cigarro vai provar que seu gosto é mais amargo do que o de bebida amanhecida ou do "não recebido" beijo de despedida.
Olhei no espelho e vi aquela imagem magra, manchada de sombras pelos cantos dos ossos, e percebi que não foi você que acabou comigo. Fui eu que nem me comecei.
A noite anterior foi uma bagunça. Suas falas não encontravam as minhas. Perdíamos os sentidos até que ambos não sentiram mais nada. Era sua cobrança libertária demais e meu apego egoísta. Totalmente contrários. Deixei tudo o que era importante para ser dito da maneira mais desesperada. Você apenas retribuiu com sarcasmo. Acabou assim: sem olho no olho, sem abraço demorado ou beijo de despedida. Acabou. E eu afundei em mim mesmo.
Goles e mais goles para amortecer aquela velha dor no peito que pressiona o coração como se alguém o estivesse segurando. Ao mesmo tempo em que o corpo relaxa, a mente começa a despertar e em disparada pelos corredores da minha pele, arrepiando tudo e transformando meu sangue em água fervente.
Falo com um, falo com outro, procuro só você, acho, sinto raiva, tento desprezar, bebo mais um pouco e resolvo ouvir música. Como se estivesse sentado numa mesa de bar, sozinho, apenas acompanhado por uma voz envolvente, vejo a vocalista cantar só para mim. Ela não estava lá, de fato. Ela cantava para não cheirar mais cocaína ou beber. Ela cantava para estancar alguma ferida. E eu ouvia para poder sentir a minha arder.
Sofri bastante enquanto imaginava aquilo que não mais teria. Era bom, apesar das divergências. Eu tinha dois corpos, dois sexos, muito sexo, um carinho, alguns sorrisos, risadas exageradas... Eu tinha tudo de mim em dobro. Fiquei mal acostumado e isso fez tanto bem. Até eu perceber que não tinha nada. Que tudo poderia passar em alguns dias. Ficar a deriva é algo muito íntimo e solitário. Não se deve entrar neste estado por conta do outro. Tem que ser por conta própria. Então eu tive que continuar sozinho. A distância, o silêncio, suas cobranças, sim, tudo isso era verdadeiro e munido de razão. Eu que quis levar assim, sabendo como acabaria. Sinceramente, saber que teria um fim breve me deu segurança o bastante para não tirar sua mão de cima da minha.
Sofrer durante um dia é essencial. Fingir que sol não esquenta, que céu azul não seduz - e sim, azul é uma cor muito atraente - ou que olhar para outros caras é inútil não surte efeito por mais do que 24h. Logo as coisas se acertam, o peito para de soluçar e provavelmente um cigarro vai provar que seu gosto é mais amargo do que o de bebida amanhecida ou do "não recebido" beijo de despedida.
Olhei no espelho e vi aquela imagem magra, manchada de sombras pelos cantos dos ossos, e percebi que não foi você que acabou comigo. Fui eu que nem me comecei.
domingo, 13 de julho de 2014
XXY
Não sabe disfarçar suas vontades. Entrega tudo no olhar. Escolhe as piores palavras e quando as ordena de uma maneira menos tosca, não calcula o impacto causado. Por isso se torna inesquecível e inigualável.
Irresistível.
Sol
De manhã quer simplesmente acordar e comer, sem se preocupar com o cabelo desgrenhado, olheiras ou barba por fazer, nem com os seios doloridos ou ereção involuntária. Deseja não se incomodar com o hálito, lembrar de calçar os chinelos ou se vestir. É acordar e sair. Um parto diário sem que lhe recebam com roupas azuis ou rosas - muito menos verdes ou amarelas. Quer chegar nua, tão nu quanto nasceu.
Não pediu para ser X nem Y. Nada disso lhe pertence e do "tudo um pouco" quer muito. Imagina-se com a cabeça raspada e os lábios rubros. Depois muda um pouco o tom da pele - tira a maquiagem e a deixa natural. Calça sapatos, depois - descalça - corre em busca de uma tesoura. Corta as mangas da camiseta, vê as próprias costelas enjaulando as laterais do corpo e sorri. Aprecia o traseiro, arranca os pelos das axilas, apara os das pernas e deixa os do rosto. Gargalha por alguns minutos, olha para os pés, modela as unhas com perfeição e vai assim mesmo. Sem perfume, só com cheiro de gente mesmo - gente homem, gente mulher. Gente, gente!
Não disfarça nada. Está se sentindo uma mulher lindo. O cara mais gata do dia.
Estrelas
À tarde, passeia pelas ruas como se o mundo lhe devesse tudo. A comida tinha que ser agridoce, o cozinheiro precisava ir além de suas próprias convicções e então ser capaz de preparar um prato digno do paladar "hermafrodizíaco" daquela pessoa. Ele lhe devia isso.
E as lojas abriam suas pernas com facilidade e sorriso emprestado. Queriam aquele corpo em todas as peças. Clamavam pelas coxas musculosas, pela cintura desenhada à mão, os ombros de cabide, a espinha sempre ereta, os pés pequenos, as mãos com unhas sem cor e tudo mais que pudessem comprar ao vender. Ele, por sua vez, ria, rodava, desprezava e depois pedia de volta. No final das compras, conta para quem não quisesse ouvir que corpo de verdade só se veste de nu. Pano nenhum derrama sobre a pele o que ela mesma nunca teve: gênero forte ou fraco. Apenas gênero. Gênero é gênero. Pele é pele. Seja na sua ou na minha pele.
Serviu-se do prazer de rejeitar - e entendeu o porquê de tantos e tantas a lhe dizer "não". Livre, livre demais, tão livre que se perdeu no caminho de volta. Chegou em sua casa e deu-se para o primeiro que a esperava. Devia-se isso.
Lua
O véu da escuridão não se atrasa. Vem todas as noites para ocultar as almas que têm vergonha de si mesmas e borra as cicatrizes do colo, alisando-o novamente. Chega silenciosamente por entre as pernas e então provoca o sexo. Desperta o corpo dela na hora do sono sem nem se importar com o cansaço. Busca então suas costas largas e a barba mal feita. Ele quer ser dominado ao passo em que busca um desentendimento pontual entre o psíquico e o físico. Enquanto o mundo do lado de fora respeita a lei do silêncio, quatro paredes de concreto e uma cama escandalosa abafam as palavras proferidas ao pé do ouvido.
Sente-se à vontade, como se o universo renascesse por debaixo do tórax, explodindo constantemente e revelando locais até então nunca visitados. Quando finalmente todos os sentimentos se alinham, as cores se fundem num branco absoluto e espirrado que mancha o breu, o teto, o sol e o lençol abstratamente. Uma via-láctea recém-nascida e já vazia. Oito segundos de morte. Criação. Gênesis. Gemido. Ela e Ele no mesmo. Ambos no mesmo corpo, (con)fundindo-se inocentemente. E o terceiro, aquele que tirou proveito e mordeu todos os frutos - proibidos e permitidos - esgueirou-se para o pico mais alto do pomar invejando a criatura inversa. Infinitamente indefinida, tal qual o universo.
Condenada e condenado a nunca caber no dia comum.
Começo.
Meio.
Sem fim.
Céu grisalho e barba de mangue
Se você visse essa foto me chamaria de doente e viraria o corpo para o lado oposto ao meu. Uma praia petrificada pelo frio polar, uma areia metálica, um mar ausente de si mesmo, riscado no horizonte como fina linha escura. A paisagem não poderia ser melhor e essa visita ao litoral foi realmente incrível.
Dias assim me fazem querer pensar não só por mim, mas por todos que amei. Cada um deles inserido na peculiaridade de seus sorrisos e olhares. Todos sempre cheios de falsa segurança ou dependência que tentam me prender de um jeito ou de outro. A dialética do romance, do apaixonar-se, ensinando aos novos amantes os passos básicos da dança bipolar que é o tal amor - às vezes juntos, de tórax colado, às vezes só tocando a pele com o calor do corpo. Cada um deles sempre em mim, seja dentro do meu corpo ou fora dele, alisando minha nuca ou dizendo "adeus" com lábios mudos.
O suspiro oceânico acariciou meus pelos com arrepio e então encolhi os ombros. Era a praia que todos odiavam, aquela que só serve de morada para bestas marinhas. Perfeita. Fomos eu e meus demônios.
Afundei os pés naquele enorme cinzeiro e lá fiquei, apagado. Olhos vagos buscando nada. Aos poucos consegui esvaziar a cabeça e somente o barulho das ondas se manteve igual. Um cigarro, barras da calça dobradas, barba de mangue, ossos confortavelmente enterrados por debaixo das roupas velhas. Eu e mais ninguém. Uma foto para registrar aquele momento. Pronto.
Não sei quantas horas se passaram naquele instante, nem mesmo se eu seria capaz de me recompor depois de tudo que experienciei. Não saber me ajudou a viver tudo o que tinha para ser vivido - não como imposição, mas como forma curiosa de morrer subitamente. O tudo era fim.
Eu te disse uma vez que minha intenção era fingir - por alguns bons instantes - do meu ceticismo. E acreditar que sim, havia espaço para querer e conseguir. Não se trata de esperança, mas de utopia, morfina, benflogin ou algo próximo disso. Sentimento sob controle não passa de razão, entende? Precisávamos viver a fluidez da insensatez, simples assim. Você riu, rasgando um traço de pedantismo no rosto. Foi aí que meu querer se calou.
Nunca acreditei na beleza de uma praia afundada no clima gélido. De qualquer forma, não me importava muito com ela. Mas lá, sentado, caído como Samael, eu me entreguei à incoerência. Louvei a solidão com um entusiasmo doentio e falei sozinho sem poupar entonação. Fiz o deus de mim mesmo. Era a única criatura ali capaz de chorar.
Definitivamente, um deus de mim mesmo.
Dias assim me fazem querer pensar não só por mim, mas por todos que amei. Cada um deles inserido na peculiaridade de seus sorrisos e olhares. Todos sempre cheios de falsa segurança ou dependência que tentam me prender de um jeito ou de outro. A dialética do romance, do apaixonar-se, ensinando aos novos amantes os passos básicos da dança bipolar que é o tal amor - às vezes juntos, de tórax colado, às vezes só tocando a pele com o calor do corpo. Cada um deles sempre em mim, seja dentro do meu corpo ou fora dele, alisando minha nuca ou dizendo "adeus" com lábios mudos.
O suspiro oceânico acariciou meus pelos com arrepio e então encolhi os ombros. Era a praia que todos odiavam, aquela que só serve de morada para bestas marinhas. Perfeita. Fomos eu e meus demônios.
Afundei os pés naquele enorme cinzeiro e lá fiquei, apagado. Olhos vagos buscando nada. Aos poucos consegui esvaziar a cabeça e somente o barulho das ondas se manteve igual. Um cigarro, barras da calça dobradas, barba de mangue, ossos confortavelmente enterrados por debaixo das roupas velhas. Eu e mais ninguém. Uma foto para registrar aquele momento. Pronto.
Não sei quantas horas se passaram naquele instante, nem mesmo se eu seria capaz de me recompor depois de tudo que experienciei. Não saber me ajudou a viver tudo o que tinha para ser vivido - não como imposição, mas como forma curiosa de morrer subitamente. O tudo era fim.
Eu te disse uma vez que minha intenção era fingir - por alguns bons instantes - do meu ceticismo. E acreditar que sim, havia espaço para querer e conseguir. Não se trata de esperança, mas de utopia, morfina, benflogin ou algo próximo disso. Sentimento sob controle não passa de razão, entende? Precisávamos viver a fluidez da insensatez, simples assim. Você riu, rasgando um traço de pedantismo no rosto. Foi aí que meu querer se calou.
Nunca acreditei na beleza de uma praia afundada no clima gélido. De qualquer forma, não me importava muito com ela. Mas lá, sentado, caído como Samael, eu me entreguei à incoerência. Louvei a solidão com um entusiasmo doentio e falei sozinho sem poupar entonação. Fiz o deus de mim mesmo. Era a única criatura ali capaz de chorar.
Definitivamente, um deus de mim mesmo.
quarta-feira, 9 de julho de 2014
O que há no fim da estrada
Às vezes eu penso que a gente só ama quando abre mão do amor. E chama gostar de "querer pra sempre". Rodamos os ponteiros do relógio ansiando acelerar os segundos e fazer deles anos, décadas, bodas de prata...
Penso constantemente que "coração", "paixão", "chocolate", "cartão", "mãos dadas" e "mensagem de madrugada" são as melhores coisas do mundo.
E as melhores coisas do mundo foram feitas para serem lembradas e não vividas eternamente. Quando você abre o álbum de fotos, o sorriso é mais sincero do que aquele que foi congelado na imagem. E por quê? Porque tudo passou. Porque virou lembrança, virou algo que não se toca e se não toca não dói e se não dói não se sente e se não se sente não se sofre.
E não estamos preparados pra sofrer. Por isso inventaram o choro. Ele é físico, no primeiro soluço, mas depois vira etéreo - no segundo suspiro.
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