terça-feira, 29 de julho de 2014
A perspectiva dos invisíveis
De longe, do fundo da sala ou final da fila, é possível ver sem ser visto. Posição privilegiada.
Durante uma de minhas saídas noturnas em busca de sono, pensei muito sobre perspectivas. Quantas tive ao longo desses anos todos? Quantas evitei? Muitas, em ambos os casos. Mas apenas uma delas esteve sempre em vigor: a que me colocava como terceira pessoa de minha própria vida.
Atrás de mim, só a parede de concreto. A última carteira da sala guardava minhas costas e fazia com que olhos e ouvidos tivessem algum sossego - sem ponto cego ou cochicho alheio. Eu via e ouvia tudo e todos. E o melhor: sem ser percebido. Foi assim que conheci muito sobre pessoas, sem ter que conhecê-las, de fato. Seus movimentos, excitações, decepções, conquistas... Tudo ali, bastava pular de uma fileira para a outra.
Trabalhos em grupo também permitiam que a terceira pessoa se manifestasse livremente. Gostava de ajudar no processo de criação e execução, mas odiava ter que liderar, ordenar ou definir funções e, consequentemente, fiscalizar as pessoas para garantir que o trabalho fosse executado com maestria. Não. Há pessoas que são Arthur. Há aquelas vivem como Merlim. Eu era qualquer um que não queria ser citado no livro, mas que ainda assim garantiu a existência plena destes dois ícones. Gostava de ser a sombra por trás do brilho intenso, o silêncio que precedia o aplauso e a satisfação estava em não ser, sendo. À distância, o sucesso aquecia minha pele filtrado pelo denso manto do anonimato. Felicidade era - e ainda é - isso. Um dia, quem sabe, ser lembrado não pelo que fiz, mas pela dúvida a respeito do que eu poderia ter feito sem que ninguém percebesse. Sentir o calor sem precisar do sol.
O amigo, o conselheiro, aquele que não sofre a ponto de se abrir e ouve, ouve, ouve incansavelmente a lamúria alheia como se o peito fosse imune a sofrimento. Este amigo oculto, terceira pessoa numa mesa de bar, ainda que as cadeiras estejam ocupadas em par. Eu e minha mania de ouvir e, de fato, gostar disso. Depositar na minha alma o que o outro sente, sem entregar um pingo de mim. Doar-se ao contrário. Empresto os ouvidos e a razão de bom grado, enquanto recebo fragmentos de uma vivência fora de mim - sangue do outro incompatível com o meu, mas tão vermelho e intenso quanto. É parecido, não é igual. Dói, mas não faz ferida. O prazer está em não fazer parte, ver a distância, e mesmo assim se emocionar, querer ajudar ou se irritar com a redundância sentimental que cega a maioria das pessoas. O ombro amigo, sempre terceiro.
E na solidão dos dias que se seguem, preenchidos apenas por mim, consigo ser terceira pessoa. Encaro a existência como imposição, converso com a voz da madrugada e escrevo no intuito de me projetar como o outro. Semelhante a falar de mim para um alguém que não se importa, um desconhecido criado pela própria necessidade de dissertar-se a esmo. Sou escrita, imagem, silhueta. Vejo, penso a respeito, comento algo e admiro - ou não - o resultado do que faltou. Frustro-me, como qualquer um e me consolo como nenhum outro. Sou a terceira pessoa que cala o desejo quando "Eu" quero gostar; a terceira pessoa que reclama da vida quando "Eu" quero mudar; a terceira pessoa que sente raiva do mundo quando "Eu" quero viajar; a terceira pessoa que repete a dose quando "Eu" quero chorar. Alguém para finalmente culpar sem precisar se justificar ou reunir evidências. Alguém pra ouvir e sentir, querendo ou não, na pele. À flor, de preferência.
O motivo de fala e piada. Raramente de graça. Condenada a ter o ouvido nas costas e escutar por elas insultos e inverdades. A terceira pessoa que só ganha destaque quando conquista seu lugar fora do todo. Quando aceita o cabresto ou simplesmente se torna indiferente diante dos próprios direitos. Terceira pessoa que busca um corpo para o "ele" ou "ela" dentro de si e perde a vida ao almejar viver. A milhas da própria felicidade, caminha a contragosto do mundo e passa a existir somente ao anoitecer de suas vontades.
No canto do salão ainda existe a terceira pessoa, com seu copo e corpo prontos para terem a perspectiva dos invisíveis. Lá está ele, a terceira pessoa do singular. Ele, aparentemente imune à vaidade dos holofotes e incapaz de alcançar o palco mais alto, permanece confortável naquela inexistência insistente. Preparado para não deixar que as mãos se toquem ou as batidas dentro do peito se afinem de acordo com a música. Ama em silêncio para que os demais continuem associando quietude à desistência - e deixem em paz seus desejos. Há timbres que somente podem ser ouvidos na terceira pessoa do plural.
Terceira pessoa que não pode se defender porque estar ausente; que não sabe gostar porque está distante; que não sabe ter porque simplesmente abre mão de conquistar. Cruzei as vielas das décadas a passos curtos, tal qual os de quem não quer deixar pegadas. Ao olhar para trás, neste exato instante, percebo que muito do que eu disse não traz novidade alguma.
Afinal, eu sou a terceira pessoa a me dizer isso.
quarta-feira, 16 de julho de 2014
Um dia é o que preciso
Um dia. Só preciso de um dia.
A noite anterior foi uma bagunça. Suas falas não encontravam as minhas. Perdíamos os sentidos até que ambos não sentiram mais nada. Era sua cobrança libertária demais e meu apego egoísta. Totalmente contrários. Deixei tudo o que era importante para ser dito da maneira mais desesperada. Você apenas retribuiu com sarcasmo. Acabou assim: sem olho no olho, sem abraço demorado ou beijo de despedida. Acabou. E eu afundei em mim mesmo.
Goles e mais goles para amortecer aquela velha dor no peito que pressiona o coração como se alguém o estivesse segurando. Ao mesmo tempo em que o corpo relaxa, a mente começa a despertar e em disparada pelos corredores da minha pele, arrepiando tudo e transformando meu sangue em água fervente.
Falo com um, falo com outro, procuro só você, acho, sinto raiva, tento desprezar, bebo mais um pouco e resolvo ouvir música. Como se estivesse sentado numa mesa de bar, sozinho, apenas acompanhado por uma voz envolvente, vejo a vocalista cantar só para mim. Ela não estava lá, de fato. Ela cantava para não cheirar mais cocaína ou beber. Ela cantava para estancar alguma ferida. E eu ouvia para poder sentir a minha arder.
Sofri bastante enquanto imaginava aquilo que não mais teria. Era bom, apesar das divergências. Eu tinha dois corpos, dois sexos, muito sexo, um carinho, alguns sorrisos, risadas exageradas... Eu tinha tudo de mim em dobro. Fiquei mal acostumado e isso fez tanto bem. Até eu perceber que não tinha nada. Que tudo poderia passar em alguns dias. Ficar a deriva é algo muito íntimo e solitário. Não se deve entrar neste estado por conta do outro. Tem que ser por conta própria. Então eu tive que continuar sozinho. A distância, o silêncio, suas cobranças, sim, tudo isso era verdadeiro e munido de razão. Eu que quis levar assim, sabendo como acabaria. Sinceramente, saber que teria um fim breve me deu segurança o bastante para não tirar sua mão de cima da minha.
Sofrer durante um dia é essencial. Fingir que sol não esquenta, que céu azul não seduz - e sim, azul é uma cor muito atraente - ou que olhar para outros caras é inútil não surte efeito por mais do que 24h. Logo as coisas se acertam, o peito para de soluçar e provavelmente um cigarro vai provar que seu gosto é mais amargo do que o de bebida amanhecida ou do "não recebido" beijo de despedida.
Olhei no espelho e vi aquela imagem magra, manchada de sombras pelos cantos dos ossos, e percebi que não foi você que acabou comigo. Fui eu que nem me comecei.
A noite anterior foi uma bagunça. Suas falas não encontravam as minhas. Perdíamos os sentidos até que ambos não sentiram mais nada. Era sua cobrança libertária demais e meu apego egoísta. Totalmente contrários. Deixei tudo o que era importante para ser dito da maneira mais desesperada. Você apenas retribuiu com sarcasmo. Acabou assim: sem olho no olho, sem abraço demorado ou beijo de despedida. Acabou. E eu afundei em mim mesmo.
Goles e mais goles para amortecer aquela velha dor no peito que pressiona o coração como se alguém o estivesse segurando. Ao mesmo tempo em que o corpo relaxa, a mente começa a despertar e em disparada pelos corredores da minha pele, arrepiando tudo e transformando meu sangue em água fervente.
Falo com um, falo com outro, procuro só você, acho, sinto raiva, tento desprezar, bebo mais um pouco e resolvo ouvir música. Como se estivesse sentado numa mesa de bar, sozinho, apenas acompanhado por uma voz envolvente, vejo a vocalista cantar só para mim. Ela não estava lá, de fato. Ela cantava para não cheirar mais cocaína ou beber. Ela cantava para estancar alguma ferida. E eu ouvia para poder sentir a minha arder.
Sofri bastante enquanto imaginava aquilo que não mais teria. Era bom, apesar das divergências. Eu tinha dois corpos, dois sexos, muito sexo, um carinho, alguns sorrisos, risadas exageradas... Eu tinha tudo de mim em dobro. Fiquei mal acostumado e isso fez tanto bem. Até eu perceber que não tinha nada. Que tudo poderia passar em alguns dias. Ficar a deriva é algo muito íntimo e solitário. Não se deve entrar neste estado por conta do outro. Tem que ser por conta própria. Então eu tive que continuar sozinho. A distância, o silêncio, suas cobranças, sim, tudo isso era verdadeiro e munido de razão. Eu que quis levar assim, sabendo como acabaria. Sinceramente, saber que teria um fim breve me deu segurança o bastante para não tirar sua mão de cima da minha.
Sofrer durante um dia é essencial. Fingir que sol não esquenta, que céu azul não seduz - e sim, azul é uma cor muito atraente - ou que olhar para outros caras é inútil não surte efeito por mais do que 24h. Logo as coisas se acertam, o peito para de soluçar e provavelmente um cigarro vai provar que seu gosto é mais amargo do que o de bebida amanhecida ou do "não recebido" beijo de despedida.
Olhei no espelho e vi aquela imagem magra, manchada de sombras pelos cantos dos ossos, e percebi que não foi você que acabou comigo. Fui eu que nem me comecei.
domingo, 13 de julho de 2014
XXY
Não sabe disfarçar suas vontades. Entrega tudo no olhar. Escolhe as piores palavras e quando as ordena de uma maneira menos tosca, não calcula o impacto causado. Por isso se torna inesquecível e inigualável.
Irresistível.
Sol
De manhã quer simplesmente acordar e comer, sem se preocupar com o cabelo desgrenhado, olheiras ou barba por fazer, nem com os seios doloridos ou ereção involuntária. Deseja não se incomodar com o hálito, lembrar de calçar os chinelos ou se vestir. É acordar e sair. Um parto diário sem que lhe recebam com roupas azuis ou rosas - muito menos verdes ou amarelas. Quer chegar nua, tão nu quanto nasceu.
Não pediu para ser X nem Y. Nada disso lhe pertence e do "tudo um pouco" quer muito. Imagina-se com a cabeça raspada e os lábios rubros. Depois muda um pouco o tom da pele - tira a maquiagem e a deixa natural. Calça sapatos, depois - descalça - corre em busca de uma tesoura. Corta as mangas da camiseta, vê as próprias costelas enjaulando as laterais do corpo e sorri. Aprecia o traseiro, arranca os pelos das axilas, apara os das pernas e deixa os do rosto. Gargalha por alguns minutos, olha para os pés, modela as unhas com perfeição e vai assim mesmo. Sem perfume, só com cheiro de gente mesmo - gente homem, gente mulher. Gente, gente!
Não disfarça nada. Está se sentindo uma mulher lindo. O cara mais gata do dia.
Estrelas
À tarde, passeia pelas ruas como se o mundo lhe devesse tudo. A comida tinha que ser agridoce, o cozinheiro precisava ir além de suas próprias convicções e então ser capaz de preparar um prato digno do paladar "hermafrodizíaco" daquela pessoa. Ele lhe devia isso.
E as lojas abriam suas pernas com facilidade e sorriso emprestado. Queriam aquele corpo em todas as peças. Clamavam pelas coxas musculosas, pela cintura desenhada à mão, os ombros de cabide, a espinha sempre ereta, os pés pequenos, as mãos com unhas sem cor e tudo mais que pudessem comprar ao vender. Ele, por sua vez, ria, rodava, desprezava e depois pedia de volta. No final das compras, conta para quem não quisesse ouvir que corpo de verdade só se veste de nu. Pano nenhum derrama sobre a pele o que ela mesma nunca teve: gênero forte ou fraco. Apenas gênero. Gênero é gênero. Pele é pele. Seja na sua ou na minha pele.
Serviu-se do prazer de rejeitar - e entendeu o porquê de tantos e tantas a lhe dizer "não". Livre, livre demais, tão livre que se perdeu no caminho de volta. Chegou em sua casa e deu-se para o primeiro que a esperava. Devia-se isso.
Lua
O véu da escuridão não se atrasa. Vem todas as noites para ocultar as almas que têm vergonha de si mesmas e borra as cicatrizes do colo, alisando-o novamente. Chega silenciosamente por entre as pernas e então provoca o sexo. Desperta o corpo dela na hora do sono sem nem se importar com o cansaço. Busca então suas costas largas e a barba mal feita. Ele quer ser dominado ao passo em que busca um desentendimento pontual entre o psíquico e o físico. Enquanto o mundo do lado de fora respeita a lei do silêncio, quatro paredes de concreto e uma cama escandalosa abafam as palavras proferidas ao pé do ouvido.
Sente-se à vontade, como se o universo renascesse por debaixo do tórax, explodindo constantemente e revelando locais até então nunca visitados. Quando finalmente todos os sentimentos se alinham, as cores se fundem num branco absoluto e espirrado que mancha o breu, o teto, o sol e o lençol abstratamente. Uma via-láctea recém-nascida e já vazia. Oito segundos de morte. Criação. Gênesis. Gemido. Ela e Ele no mesmo. Ambos no mesmo corpo, (con)fundindo-se inocentemente. E o terceiro, aquele que tirou proveito e mordeu todos os frutos - proibidos e permitidos - esgueirou-se para o pico mais alto do pomar invejando a criatura inversa. Infinitamente indefinida, tal qual o universo.
Condenada e condenado a nunca caber no dia comum.
Começo.
Meio.
Sem fim.
Céu grisalho e barba de mangue
Se você visse essa foto me chamaria de doente e viraria o corpo para o lado oposto ao meu. Uma praia petrificada pelo frio polar, uma areia metálica, um mar ausente de si mesmo, riscado no horizonte como fina linha escura. A paisagem não poderia ser melhor e essa visita ao litoral foi realmente incrível.
Dias assim me fazem querer pensar não só por mim, mas por todos que amei. Cada um deles inserido na peculiaridade de seus sorrisos e olhares. Todos sempre cheios de falsa segurança ou dependência que tentam me prender de um jeito ou de outro. A dialética do romance, do apaixonar-se, ensinando aos novos amantes os passos básicos da dança bipolar que é o tal amor - às vezes juntos, de tórax colado, às vezes só tocando a pele com o calor do corpo. Cada um deles sempre em mim, seja dentro do meu corpo ou fora dele, alisando minha nuca ou dizendo "adeus" com lábios mudos.
O suspiro oceânico acariciou meus pelos com arrepio e então encolhi os ombros. Era a praia que todos odiavam, aquela que só serve de morada para bestas marinhas. Perfeita. Fomos eu e meus demônios.
Afundei os pés naquele enorme cinzeiro e lá fiquei, apagado. Olhos vagos buscando nada. Aos poucos consegui esvaziar a cabeça e somente o barulho das ondas se manteve igual. Um cigarro, barras da calça dobradas, barba de mangue, ossos confortavelmente enterrados por debaixo das roupas velhas. Eu e mais ninguém. Uma foto para registrar aquele momento. Pronto.
Não sei quantas horas se passaram naquele instante, nem mesmo se eu seria capaz de me recompor depois de tudo que experienciei. Não saber me ajudou a viver tudo o que tinha para ser vivido - não como imposição, mas como forma curiosa de morrer subitamente. O tudo era fim.
Eu te disse uma vez que minha intenção era fingir - por alguns bons instantes - do meu ceticismo. E acreditar que sim, havia espaço para querer e conseguir. Não se trata de esperança, mas de utopia, morfina, benflogin ou algo próximo disso. Sentimento sob controle não passa de razão, entende? Precisávamos viver a fluidez da insensatez, simples assim. Você riu, rasgando um traço de pedantismo no rosto. Foi aí que meu querer se calou.
Nunca acreditei na beleza de uma praia afundada no clima gélido. De qualquer forma, não me importava muito com ela. Mas lá, sentado, caído como Samael, eu me entreguei à incoerência. Louvei a solidão com um entusiasmo doentio e falei sozinho sem poupar entonação. Fiz o deus de mim mesmo. Era a única criatura ali capaz de chorar.
Definitivamente, um deus de mim mesmo.
Dias assim me fazem querer pensar não só por mim, mas por todos que amei. Cada um deles inserido na peculiaridade de seus sorrisos e olhares. Todos sempre cheios de falsa segurança ou dependência que tentam me prender de um jeito ou de outro. A dialética do romance, do apaixonar-se, ensinando aos novos amantes os passos básicos da dança bipolar que é o tal amor - às vezes juntos, de tórax colado, às vezes só tocando a pele com o calor do corpo. Cada um deles sempre em mim, seja dentro do meu corpo ou fora dele, alisando minha nuca ou dizendo "adeus" com lábios mudos.
O suspiro oceânico acariciou meus pelos com arrepio e então encolhi os ombros. Era a praia que todos odiavam, aquela que só serve de morada para bestas marinhas. Perfeita. Fomos eu e meus demônios.
Afundei os pés naquele enorme cinzeiro e lá fiquei, apagado. Olhos vagos buscando nada. Aos poucos consegui esvaziar a cabeça e somente o barulho das ondas se manteve igual. Um cigarro, barras da calça dobradas, barba de mangue, ossos confortavelmente enterrados por debaixo das roupas velhas. Eu e mais ninguém. Uma foto para registrar aquele momento. Pronto.
Não sei quantas horas se passaram naquele instante, nem mesmo se eu seria capaz de me recompor depois de tudo que experienciei. Não saber me ajudou a viver tudo o que tinha para ser vivido - não como imposição, mas como forma curiosa de morrer subitamente. O tudo era fim.
Eu te disse uma vez que minha intenção era fingir - por alguns bons instantes - do meu ceticismo. E acreditar que sim, havia espaço para querer e conseguir. Não se trata de esperança, mas de utopia, morfina, benflogin ou algo próximo disso. Sentimento sob controle não passa de razão, entende? Precisávamos viver a fluidez da insensatez, simples assim. Você riu, rasgando um traço de pedantismo no rosto. Foi aí que meu querer se calou.
Nunca acreditei na beleza de uma praia afundada no clima gélido. De qualquer forma, não me importava muito com ela. Mas lá, sentado, caído como Samael, eu me entreguei à incoerência. Louvei a solidão com um entusiasmo doentio e falei sozinho sem poupar entonação. Fiz o deus de mim mesmo. Era a única criatura ali capaz de chorar.
Definitivamente, um deus de mim mesmo.
quarta-feira, 9 de julho de 2014
O que há no fim da estrada
Às vezes eu penso que a gente só ama quando abre mão do amor. E chama gostar de "querer pra sempre". Rodamos os ponteiros do relógio ansiando acelerar os segundos e fazer deles anos, décadas, bodas de prata...
Penso constantemente que "coração", "paixão", "chocolate", "cartão", "mãos dadas" e "mensagem de madrugada" são as melhores coisas do mundo.
E as melhores coisas do mundo foram feitas para serem lembradas e não vividas eternamente. Quando você abre o álbum de fotos, o sorriso é mais sincero do que aquele que foi congelado na imagem. E por quê? Porque tudo passou. Porque virou lembrança, virou algo que não se toca e se não toca não dói e se não dói não se sente e se não se sente não se sofre.
E não estamos preparados pra sofrer. Por isso inventaram o choro. Ele é físico, no primeiro soluço, mas depois vira etéreo - no segundo suspiro.
sexta-feira, 6 de junho de 2014
Decay
Se no vazio do meu interior eu sentisse que alguma essência residisse, não teria dúvidas de que seu anseio maior seria o de desaparecer. Sair de mim, libertar-se. Essa vida, esse compromisso forçoso com a existência que se faz logo após o parto pesa, pesa muito. E o mistério da morte está à mercê da minha imaginação. Tem dias que eu espero o pior - e me rasgo em pedaços na tentativa de descobrir o que falta -, e há outros nos quais eu abro a janela para ver o nada. Olhar, apenas. Quanto mais distante, melhor. Mais próximo do que sinto. E eu sinto longe demais.
Chego a buscar lugares que nunca estive. Construo o que falta nos meus dias - espaços abertos sem casas, estradas só de ida, praia em dia nublado e frio -, e calo as vontades. Falta, essa é a motivação. O que falta, o que não se ergue por dentro, o que deixou de existir ou nunca existiu, aquilo que eu busco só pela busca, não pela conquista. Uma falta que preenche o abismo. Querer também satisfaz, porque você - no caso, eu - sente o pulsar da frustração ainda em estágio de expectativa. Ultimamente eu estou sentindo falta de solidão.
Preciso me frustrar em breve.
Chego a buscar lugares que nunca estive. Construo o que falta nos meus dias - espaços abertos sem casas, estradas só de ida, praia em dia nublado e frio -, e calo as vontades. Falta, essa é a motivação. O que falta, o que não se ergue por dentro, o que deixou de existir ou nunca existiu, aquilo que eu busco só pela busca, não pela conquista. Uma falta que preenche o abismo. Querer também satisfaz, porque você - no caso, eu - sente o pulsar da frustração ainda em estágio de expectativa. Ultimamente eu estou sentindo falta de solidão.
Preciso me frustrar em breve.
terça-feira, 15 de abril de 2014
Com vocês, meu coração
Há tempos que no peito dele eu me sinto negligenciado. No fundo de mim, eu sei que sou bastante importante e por isso que ser ignorado me fere demais. Tento entender os motivos dele, juro que tento, mas é muito complicado. Eu não sei racionalizar. Só sei experimentar. Então ele vem e me surpreende. Decide nos levar para sair. Cinema, é isso que ele disse. Parece interessante. Experimentarei.
Acomodados. Agora só silêncio. Começou e eu estou agitado. O tempo passa, mas não passa simplesmente. Toda a beleza das cenas me acelerou demais. Transpiro feito um louco. Estou bem. Fadigado e bem. Oras, é claro que eu suei amor.
O amor resiste, sabe? Ele acha formas de ser e se fazer. Não desiste nem aceita ser esquecido. Quando é invocado, faz questão de marcar a ferro os meus tantos outros irmãos corações. Impossível de ser mensurado, esse amor oscila entre o inundar-se e o recolher-se, seja em ondas ou cacos, amor é invencível. Se ele acaba? Não. Ele se modifica, camufla-se, adormece, torna-se recluso ou até mesmo conformado, mas jamais deixa de '(r)existir'.
Ah, o amor e suas tantas faces. Os dois garotos, o meu e o outro, cultivando-o em seu estado mais puro e bruto. O toque, o olhar cego cheio de vontades e o olhar vivo vazio de medos, o cheiro na blusa que, na madrugada de insônia, tira do corpo qualquer vestígio de cansaço, o ciúme e o beijo. Ele, o beijo, que faz o tempo perder seu sentido e vagar a esmo pelo mundo. Este mesmo beijo tão esperado e ao mesmo tempo inesperado que recai sobre mim como uma chuva morna de verão. Eu, coração de um menino também marcado pelo amor e despertado em meio aos cheiros do querer, fui beijado também. Algumas boas vezes, algumas boas bocas. E confesso: sempre que os lábios se encontravam eu tentava pular do peito para espiar o leve sorriso que se esquivava por entre as línguas.
Batia forte, porque ser ignorado me fere demais.
Acomodados. Agora só silêncio. Começou e eu estou agitado. O tempo passa, mas não passa simplesmente. Toda a beleza das cenas me acelerou demais. Transpiro feito um louco. Estou bem. Fadigado e bem. Oras, é claro que eu suei amor.
O amor resiste, sabe? Ele acha formas de ser e se fazer. Não desiste nem aceita ser esquecido. Quando é invocado, faz questão de marcar a ferro os meus tantos outros irmãos corações. Impossível de ser mensurado, esse amor oscila entre o inundar-se e o recolher-se, seja em ondas ou cacos, amor é invencível. Se ele acaba? Não. Ele se modifica, camufla-se, adormece, torna-se recluso ou até mesmo conformado, mas jamais deixa de '(r)existir'.
Ah, o amor e suas tantas faces. Os dois garotos, o meu e o outro, cultivando-o em seu estado mais puro e bruto. O toque, o olhar cego cheio de vontades e o olhar vivo vazio de medos, o cheiro na blusa que, na madrugada de insônia, tira do corpo qualquer vestígio de cansaço, o ciúme e o beijo. Ele, o beijo, que faz o tempo perder seu sentido e vagar a esmo pelo mundo. Este mesmo beijo tão esperado e ao mesmo tempo inesperado que recai sobre mim como uma chuva morna de verão. Eu, coração de um menino também marcado pelo amor e despertado em meio aos cheiros do querer, fui beijado também. Algumas boas vezes, algumas boas bocas. E confesso: sempre que os lábios se encontravam eu tentava pular do peito para espiar o leve sorriso que se esquivava por entre as línguas.
Batia forte, porque ser ignorado me fere demais.
quarta-feira, 2 de abril de 2014
De tempos em tempos se faz o para sempre
A vontade era de reencontrar o ancestral em mim. Aquele que
se instalou no meu corpo e trouxe seus antigos escritos e histórias. Um “eu” de
ontem que nasceu anos antes do parto. Mais de suas décadas se passaram e com
ele tive alguns instantes de interação, deixando que assumisse por completo o
controle do corpo e mente. Ele nunca pediu licença para isso, eu que sempre dei
minhas lacunas como espaço para que se criasse. Alcateia de um predador só. Só
em mim.
Neste instante, sinto sua pele envelhecida e acinzentada
roçando por debaixo da minha, ainda no auge de sua vitalidade. Aos poucos me
retiro, resigno-me sem objeções e passo todas as palavras a quem, em silêncio,
sussurrou verdades e mentiras de dentro para fora dos meus ouvidos.
E que assim se faça o chamado do esquecido.
“Exilei-me em terras distantes. Castigado pelo tempo, caminhei
vagarosamente pelas bordas da moral, sempre desenhando um contorno torto que no intuito de cercar meus excessos. Já vivi demais. Vi e vivi demais.
No entanto, cansei pouco. Dormi menos ainda e cá estou em chão novo e
desconhecido. Meus bolsos sempre foram vazios de sementes, então o que me
resta é jogar neste vasto campo cinzas e mais cinzas. Dos cigarros nunca me abstive.
Vilão, herói, comum. Nenhum. Só um, eu e mais ninguém. Digo,
as memórias ainda me habitam. Tenho muitas delas guardadas nas gavetas da
cabeça. Do amor herdei a mágoa, um "não saber" do outro que deixou o malefício da dúvida
latente na cavidade do peito. Um rastro de poeira de gente perdida pela rua.
Do ódio, tudo. Rancor, raiva, angustia calada, pele dos
dedos a sangrar e peso - do corpo perdido, do cansaço ganho. Muito peso. Se havia movimento dentro de mim, se ainda
restava fluxo, hipócrita eu seria caso não atribuísse à promessa de vingança
total força motora. E sejamos francos, combustível melhor do que ela não há.
Mata a quem dela se farta, mas ao poucos. Mata de imediato os que a recebem como juíza,
ceifadora, algoz.
Este menino, cuja história ainda clama por muito a ser
escrito, deu-me morada, ofereceu-me casa. Aconchegado por entre seus órgãos eu
me transformo no mal. Puro mal que contrapõe tal existência raquítica de reais
frustrações. Ele não sabe o que é sucumbir ao próprio dissabor. Mas vai saber.
De tempos em tempos se faz o para sempre.”
Rosnou o coração. O verdadeiro lobo nunca se satisfaz.
sexta-feira, 28 de março de 2014
Lucro
Comece por perder. Esfarele o próprio orgulho sobre a mesa, organize a carreira e inspire. Encha-se dos cacos que ontem compunham o belo espelho a refletir sua soberba e confiança. Aquele mesmo espelho que tanto falou sobre sua beleza. Fragmente-se como nunca antes e então dê o passo seguinte: suporte sua própria falação compulsiva.
Grite se for necessário, desespere os vizinhos ao se libertar às 3h da manhã sem compromisso com o relógio. Atenda apenas à angustia que te corrói e ata suas mãos e pés diariamente. Que te impede de “seguir em frente”, de “superar obstáculos” de “ser alguém forte”. Hoje eu quero que você se derrote. Caia, rasteje, sofra como nunca antes e queime de uma vez por todas as esperanças que sempre lhe enganaram. E não se esqueça das pessoas.
Sim, cada nome que amaldiçoou seu coração e fez do peito um limbo profundo deve ser invocado, lembrado, desejado e merecedor da sua ira. Sei que deve estar sendo difícil e que seu corpo provavelmente está oscilando entre rigidez e desfalecimento. Sei e não me importo.
Sofra. Sofra muito. Sofra tudo. O que sobrar, sem sombra de dúvidas, será lucro. E será só seu, de mais ninguém.
Grite se for necessário, desespere os vizinhos ao se libertar às 3h da manhã sem compromisso com o relógio. Atenda apenas à angustia que te corrói e ata suas mãos e pés diariamente. Que te impede de “seguir em frente”, de “superar obstáculos” de “ser alguém forte”. Hoje eu quero que você se derrote. Caia, rasteje, sofra como nunca antes e queime de uma vez por todas as esperanças que sempre lhe enganaram. E não se esqueça das pessoas.
Sim, cada nome que amaldiçoou seu coração e fez do peito um limbo profundo deve ser invocado, lembrado, desejado e merecedor da sua ira. Sei que deve estar sendo difícil e que seu corpo provavelmente está oscilando entre rigidez e desfalecimento. Sei e não me importo.
Sofra. Sofra muito. Sofra tudo. O que sobrar, sem sombra de dúvidas, será lucro. E será só seu, de mais ninguém.
Banho de madrugada
Acordei com o soluço das minhas vontades. Acordei, caminhei até a janela e olhei para o céu. Não esperava nada, absolutamente nada. A memória ainda adormecida me impedia de invocar a razão – detentora do meu nome, idade, cor dos olhos, número de celular e tamanho de sapato. Como num nascimento, levantei da cama despido, nu, perdido, sem palavras, só suspiros. Só língua não falada. E como num último anseio antes do pulo rumo ao precipício, deixei que a liberdade me dominasse por completo. De olhos fechados eu vi tudo. Presenciei algo que jamais havia vivido, de fato, nesta existência. Eu finalmente pude descansar.
“A liberdade
Meus olhos percorrem toda a estrada. Sua pele grossa feita de cascavéis conduzia ambos os corpos para o bote inevitável, o fim do caminho jamais anunciado. Estávamos envenenados pela toxina da liberdade e queríamos apenas o que nos foi prometido antes da mordida: a dormência.
Se o corpo pesa, deixe que caia. Se a mente pesa, deixe que se apague. E se o coração torna-se insustentável, deixe que parta. Foi assim que saímos, dispostos a encontrar um motivo que justificasse a ausência de nós mesmos. Algo para compensar os anos de angústia, de vida planejada, de frustrações garantidas e parceladas. Os anos de enganos, de passos e não de caminhadas, de fúria silenciosa. Um convite à anulação de si mesmo. Morrer em vida.
Preso às costas de quem agora me guia, sinto o corpo gelar a cada assovio da noite. E as estrelas que agora forram o céu guiam-nos para qualquer lugar. Madrugada sem lua, só rua, estrada longa que traga cada fumaça fugida do escapamento. Duas rodas, duas pessoas e tantas outras em nossas lembranças.
Hoje eu sou poeira, resto de vivência, rastro de insistência, de gente que passou, voltou, foi, mas nunca ficou. Sou calor que despenca pela avenida como estrela cadente, anjo caído que sinaliza com seu brilho o caminho da queda. Sou pecado original, puro, escuro, profundo, com asas que não servem para voar, apenas pesam nas costas. E me deixo guiar, deixo que você me conduza pelas montanhas, vales e desertos que tingem os dias de cores quentes. Dei-me como presente e maldição a liberdade. Fiz questão de ser livre para pertencer a quem me interessasse. Ser livre para pertencer. É isso. Mas não só isso.
O tempo, quando estamos felizes e plenos, escorre como néctar pelos cantos dos lábios e, quando a garganta seca novamente, deixa um sabor inesquecível. Algo como o gosto da saudade.”
A luz morna do sol recém-nascido despertou-me do sonho. Minha pele foi banhada por um dourado inconfundível: a coroa do astro rei reluzia nos olhos terrosos de quem a encarava. Olhei para o meu corpo, olhei para mim – de verdade – e gostei do que vi. Senti o sangue, o ar, as marcas na pele, o cheiro de gente. Era real. Deixei que os pelos se arrepiassem com o frio, é preciso sentir frio. Não fugi das sensações. Fiquei. Eu, ali parado, morri em vida.
“A liberdade
Meus olhos percorrem toda a estrada. Sua pele grossa feita de cascavéis conduzia ambos os corpos para o bote inevitável, o fim do caminho jamais anunciado. Estávamos envenenados pela toxina da liberdade e queríamos apenas o que nos foi prometido antes da mordida: a dormência.
Se o corpo pesa, deixe que caia. Se a mente pesa, deixe que se apague. E se o coração torna-se insustentável, deixe que parta. Foi assim que saímos, dispostos a encontrar um motivo que justificasse a ausência de nós mesmos. Algo para compensar os anos de angústia, de vida planejada, de frustrações garantidas e parceladas. Os anos de enganos, de passos e não de caminhadas, de fúria silenciosa. Um convite à anulação de si mesmo. Morrer em vida.
Preso às costas de quem agora me guia, sinto o corpo gelar a cada assovio da noite. E as estrelas que agora forram o céu guiam-nos para qualquer lugar. Madrugada sem lua, só rua, estrada longa que traga cada fumaça fugida do escapamento. Duas rodas, duas pessoas e tantas outras em nossas lembranças.
Hoje eu sou poeira, resto de vivência, rastro de insistência, de gente que passou, voltou, foi, mas nunca ficou. Sou calor que despenca pela avenida como estrela cadente, anjo caído que sinaliza com seu brilho o caminho da queda. Sou pecado original, puro, escuro, profundo, com asas que não servem para voar, apenas pesam nas costas. E me deixo guiar, deixo que você me conduza pelas montanhas, vales e desertos que tingem os dias de cores quentes. Dei-me como presente e maldição a liberdade. Fiz questão de ser livre para pertencer a quem me interessasse. Ser livre para pertencer. É isso. Mas não só isso.
O tempo, quando estamos felizes e plenos, escorre como néctar pelos cantos dos lábios e, quando a garganta seca novamente, deixa um sabor inesquecível. Algo como o gosto da saudade.”
A luz morna do sol recém-nascido despertou-me do sonho. Minha pele foi banhada por um dourado inconfundível: a coroa do astro rei reluzia nos olhos terrosos de quem a encarava. Olhei para o meu corpo, olhei para mim – de verdade – e gostei do que vi. Senti o sangue, o ar, as marcas na pele, o cheiro de gente. Era real. Deixei que os pelos se arrepiassem com o frio, é preciso sentir frio. Não fugi das sensações. Fiquei. Eu, ali parado, morri em vida.
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