segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Ainda sobre águas



Não sabe garoar, só sabe ser temporal.
Não sabe chover, só sabe despencar.
Quem dirá fluir, no final só sabe transbordar.

E ele se segura, faz represa da própria vida
e preza por uma tranquilidade que
presa se transforma em rio de si mesmo

Parado.
Inundado de vontades
e impossibilidades.

Não sabe escorrer, mas aprendeu a arriscar
riscando na parede do peito
cada dia a mais afogado.

Fez-se mar por amar
Fez oceano por engano 
Grande demais para se caber

Sem cabimento subiu na maré do destino 
molhando os lábios arenosos 
Com o gosto salgado das lágrimas

Aprendeu a ser temporal 
Por bem ou por mal 
Aprendeu a despencar 
De tanto confiar 

Mas não deixou de transbordar
Quiçá navegar. Quiçá ancorar.

domingo, 18 de agosto de 2013

Chuva-íris

Há diferentes cores de chuva. As comuns são acinzentadas. Existem aquelas com cor de mel que geralmente despencam nos dias de calor. Algumas quebram a secura do inverno e caem azuladas, tremendo de frio antes mesmo de tocarem o chão. Rosadas ou arroxeadas, chuvas raras de final de tarde - crepúsculo. Prateadas, as que refletem o luar na madrugada. Mas de todas as chuvas que vi apenas uma me molhou: a esverdeada.

(Em algum lugar do que fui...)

- Filho, não fique muito tempo no quintal! A chuva está vindo.
- Tudo bem, eu entro quando começar a tempestade.

Ele havia arrumado todos os seus bonecos de acordo com a relevância de cada um. Os que voavam tinham lugar privilegiado no topo do muro que separava o quintal da horta. A parede rústica, que para os pequenos brinquedos era simplesmente insuperável, tinha superfície igual pele de elefante. Com as pontas dos dedos ele sentiu cada dobra imperfeita que se disfarçava de abrigo para ervas-daninhas e calculou o trajeto do boneco sem asas - aquele que salvaria o companheiro apenas com os braços de aço. Das nuvens carregadas era possível vê-lo esparramado no chão, tão confortável que parecia mais um dos brinquedos que ali fingiam ter algum destino. Alguma vontade.

A densidade do ar mudava a cada quebrante das correntes de vento. O que antes amaciava os pulmões agora encrostava-os com poeira de rua, de cansaço dos outros, de sola gasta das outras. Mas ele não se importava. Sua missão, assim como a de seus guerreiros de plástico, precisava ser finalizada. Que mundo seria o seu sem um capítulo a mais pra escrever no livro de conquistas? A voz da mãe trovejou novamente, porém nenhuma reação. O céu rosnou impaciente - já não podia mais segurar a água entre as coxas nubladas - e estalou-se num relâmpago ligeiro. Despertou um arrepio na espinha dele e o fez olhar diretamente para o oposto de si.

Ao encarar o alto, percebeu seu tom esverdeado, como se a velha muralha tivesse crescido até o pico do mundo e suas ervas-daninhas agora estivessem digerindo, lentamente, a vitalidade das nuvens fartas de si mesmas. Agora ele era o boneco. Pequeno, a mercê das trovoadas, na base de sua própria existência. No chão daquele muro gigante.

Filtrada pela tempestade celeste, a luz do sol camuflou-se de musgo, tingida pelos vãos da terra com um tom esverdeado que não era sublime como o esmeralda, mas imponente e tempestuoso como Júpiter. Ele se deu conta daquele cenário incrível que lhe envolvia e um chamado ancestral lhe fez perder os sentidos. Por alguns segundos viajou sem destino nas estradas da imaginação.

(Em algum lugar que fui...)

Peço licença nesse instante para todos os planos criados antes mesmo da minha consciência. Que desta terra fizeram história e marcaram sob a pele dos homens o símbolo do caos e o signo da ordem. Faço deste meu corpo templo do desconhecido.

Aqui, envolto neste chuva de jade, vejo como sou vulnerável. Corpo e mente não encontram harmonia, são incapazes de interpretar as gotas que agora lubrificam meus pensamentos e lábios. Enquanto a razão diz para correr e procurar um local seco para continuar mais seco do que já está, o outro - que pode ser interpretado como "coração" - encena surdez, pois acredita que tal sensação lhe trará prazer inenarrável.

Nesta chuva eu me perco. Fico divido em tantas partes que cada uma delas se afoga no mar de gotas despencadas das alturas. Apenas me deixo molhar, com ou sem razão, sem ou com coração, eu me deixo ser a anulação. Encharco-me com um silêncio humilde de quem não sabe nada da vida, esteja ela em terra, no ar ou no molhar.

(Em algum lugar antes de fugir)

Eu devia ter levado o guarda-chuva. Mas a memória penas finge que pode ser domada e, quiçá, melhorada. Esqueci.

Mais dois cigarros e o maço estará condenado à lata do lixo. Preciso racionar o vício. Bom, apesar que isso soa bem patético, afinal, se fosse controlável não seria vício, mas sim hábito. E eu acho esse termo "hábito de fumar" tão ridículo. Suaviza algo que nem na própria fumaça se faz delicado. Descaracteriza, sabe? Parece até que diz: "Você trocaria o hábito de beijar seu irmão no rosto pelo hábito de fumar?" com total facilidade. Não. Um é apego no que vive. O outro, falso desapego no que se vive. Um é hábito, o outro é vício.

A chuva não traz nada de novo. Cai, molha tudo, borra os planos bem traçados horas antes e faz com que cada frase ensaiada escorra pela valeta. Eu queria encontrá-lo, mas desse jeito será impossível. Perco a paciência quando sinto meus pés molhados e sei que qualquer coisa que ele me diga soará como provocação. Vamos nos poupar então. Mas por enquanto eu fico aqui mesmo, esperando ela passar e ele chegar.

Já que tempo é o que me sobra - e tempo é o que não melhora -, vou fingir que este velho muro enrugado pelo tempo tem lá suas histórias pra contar e imaginarei quem foram os muitos que, assim como eu, encostaram em sua pele labiríntica.

- Moço, você está bem, quer ajuda?
- Não, obrigado. Só estou esperando um amigo...
- Mas moço, você está na chuva, sem sapatos, o que aconteceu?
- Nada, oras! Já disse, estou esperando um amigo... Ele vem, eu tenho certeza!
- Olha, ainda é cedo, está escuro por conta da chuva, mas é melhor você se levantar tem muita...
- Não! Eu quero ficar aqui, este muro é meu! Eu preciso subir para resgatar meu amigo lá do topo.
- Rapaz, você bebeu? Tão jovem... Bem, olha, esse muro aí é alto demais, só tendo braços de aço pra escalar isso...
- Você já reparou que a chuva tem várias cores?
- Não, água pra mim não tem cor. Moço, eu preciso ir, tente não ficar muito tempo neste local.
- Tudo bem, eu entro quando terminar a tempestade.





 

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Maria cheia





Foi batizada de “Maria” porque sua mãe amava o mar. E ela também amaria. 

Já não tinha mais casa pra limpar nem fogão pra alimentar. O passado tragou sua vida num gole de chuva sem começo nem fim que assim, desavisada de aviso, enxurrou o endereço e escorreu cada canto salinizado da sala para a vala. No litoral, basta ter casa pra acabar na rua, sem paredes, sem panelas, com abandono de cama e céu de teto.

Maria cansou de lutar pela chance de ser alguém. Esqueceu-se de resgatar dos escombros aquele documento que lhe atribuía nome, pai, mãe e uma pegada de polegar. Na verdade, fez questão de deixar de ser. Só não abriu mão do “Maria”, afinal, era a única herança que lhe restava. Decidiu que era hora de atender ao chamado ancestral de sua matriarca. 

Leve de bagagens e pesada de lembranças, a mulher arrastou as chinelas pelos paralelepípedos pulando a amarelinha do próprio desgosto, desviando da sola dos pés o bloco do inferno... Percebeu que era mais fácil jogar adiante a pedra do desconhecido e deixar que os números guiassem seu caminhar gingado. 

Como na transição da tarde para a noite, o chão duro de terra se desfez em areia. Mudou de cor, deixou de ser bronzeado, vermelho, caboclo, para então mostrar seus cachos dourados e finos. O terreno lambido virou beira de mar e o horizonte agora era só promessa velada pela noite. Maria sentiu uma forte vontade de banhar a pele negra com o breu das águas noturnas, mas a espinha gelada paralisou seus joelhos. Bastava observar a dança das ondas e ouvir suas saias zunindo num rodar infinito. Bastava ser Maria para amar o que via – o mar.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Amor em tempos de medo



Joshua não se conteve e desmaiou. A imagem da mãe destruindo todos os quadros em que fotos suas se aconchegavam partiu-lhe os ligamentos dos joelhos e o corpo desabou. Era tarde demais para voltar, porém, cedo demais para desistir da nova vida. Algo deve morrer. Só assim se faz o nascimento. 

Minha mãe era uma pessoa doce e, ao mesmo tempo, robusta como uma montanha. Para atingir o pico de sua admiração era preciso muito mais do que carinho. Ela exigia dedicação total e uma absurda demonstração contínua de comprometimento com suas ideias e visões de mundo. O pacto ia além do sangue e rompia o cordão umbilical, estendendo-se até a mesa do bar, em forma de mensagens nervosas e preocupadas. Ela estava em todos os lugares. Deusa, onipresente na gente. 

Eu contei para Demien que não seria tão simples. Éramos somente ela, o cão cego de um olho e eu - cego do coração. Meu mundo havia se partido em dois: uma parte pertencia inquestionavelmente à minha mãe e a outra... Bem, essa estava perdidamente encantada com as mãos de Demien. Seu toque ninava a quimera dentro de mim e, como ele costumava dizer, “meu abraço tinha o poder de trazer o coração à flor da pele”. Éramos assim, para muitos um erro, para nós o único acerto. Entretanto – e sem saber – ela estava lá, entre nós. Entre tantos, justo entre nós.

Netos. Todas as vezes em que brigávamos ela me pedia netos. Dizia que só assim a chance de educar bem uma criança voltaria a lhe fazer visita. Eu saí errado. Nunca fui forte, nunca gostei de futebol, mas pior do que isso – eu nunca confidenciei nenhum romance. Uma vez, enquanto escrevia uma redação para escola com o título “Meu terceiro amor”, ela fez questão de sentar ao meu lado e ler o que havia escrito até então:

“Sempre ouço pessoas falando sobre a importância do primeiro amor. De o quanto ele é necessário para que nossa vida sentimental dê o primeiro passo. Há, nesse caso, uma forte necessidade de ensinar ao homem o que, supostamente, já está intrínseco. O primeiro amor arde, queima e faz querer mais. Ensina à carne que o sentimento queima feito chama e pra que sobreviva aos fortes invernos da saudade é preciso que consuma constantemente algo – ou alguém. 

Mas o tempo passa e, como escrito anteriormente, as longas nevascas que desenham estradas lisas e brancas pertencentes à solidão jamais admitem que tudo se resuma a faíscas apaixonadas. É preciso caminhar pelo chão escorregadio, ter equilíbrio, coragem e, principalmente, disposição. Se, ao dormirmos, esperamos da noite a escuridão e o silêncio, ao acordarmos, o par de olhos busca luz, sol, calor e algo que tranquilize nosso coração. Algo que reluza coerência. Mas a falta de alguém (do primeiro amor) fecha todas as janelas e deixa de luto a morada do bem-querer. Eis que surge, numa quina qualquer, o segundo amor. 

A mitologia grega usa como exemplo de renovação a imagem da Fênix. Aquele pássaro de fogo que se comete suicídio via incineração de si mesmo e retorna das próprias cinzas como se nada lhe tivesse acontecido. Pois aí está a pena de esperança que repentinamente faz cócegas no peito e arranca da carranca um sorriso sem sentido. Mas bem sentido pelo coração. Sutil, por assim dizer. 

Dos restos daquele primeiro e marcante rosto sobram apenas alertas. Borras acinzentadas no fundo da memória que não podem ser simplesmente apagadas nem mesmo varridas. Elas estão ali, mas foi justamente delas que o tal segundo amor despertou. Parido pelo acaso, ele trouxe novamente algum brilho. Sabe-se agora que tudo tem um fim, porém, para que se apegar nessa certeza se no final das contas toda certeza é apenas uma mentira imune a contra-argumentos? 

Subitamente, você seca. Deixa de querer, irrita-se com o riso, com o carinho facilmente adquirido, com o corpo cedido sem muitos protestos, com o beijo que não traz mais gosto de cereja e café – mas um azedume intestinal batizado no limão. Tudo te repele. Diante das súplicas apenas a voz seca e rouca dentro da sua mente parece levar em consideração o que é dito. O “não” nunca lhe pareceu tão fácil, assim como o “nunca mais” nunca esteve tão próximo de suas mãos. Na verdade, ele escorregou pelos dedos, rodou trinta e três vezes em torno de si mesmo e repousou na mesa, escondendo o outro nome até então gravado “para sempre”. Deixou de brilhar feito prata, feito ouro, e aceitou – em silêncio – a sentença de morte que lhe reduzia a uma simples e banal aliança sem fiança.

E o que te resta? O terceiro amor. Aquele por si mesmo. Aquele que se faz porque não há mais nada a ser feito. Esse amor não renegado os outros dois, apenas se cansa de tentar unir vários mundos numa palavra tão pequena, fraca e rasa. O tal terceiro amor te resgata das cinzas, apaga o fogo que só queima e não mais esquenta e então ensina que agora é a hora de ser o primeiro ou o segundo de alguém. 

Só assim é que o amor deixa de ser palavra solta. Só assim, na terceira vez, é que você passa a enxergar os laços invisíveis.”

 Sem dizer absolutamente nada, pegou a canta vermelha e circulou todas as palavras “amor” alegando que havia muita repetição e isso enfraquecia o texto. Desisti do tema e fiz algo sobre “Como as pessoas deveriam se tratar no transporte público”. Mas não me desfiz do texto inicial. Ele virou uma carta para Demien. 

O problema nasceu das consequências. Depois de ter lido a redação, minha mãe gastou horas e mais horas vasculhando meus pertences. Ouvia as ligações por trás das paredes como se buscasse algum ruído de ninho de rato ou cupins. Ela sabia que estava me perdendo para alguém. Só não sabia que jamais me perderia, pois não há criatura viva que seja capaz de lhe roubar o lugar dentro de mim. Contudo, ciúme é ciúme. Vinagre poderoso que finge temperar as relações, quando na verdade rouba por completo o sabor delas. 

Demien era um garoto suave, quieto, perdido em seus próprios devaneios, mas adoravelmente dedicado a me ouvir. Quando nos conhecemos ele fez um esforço hercúleo para não rir do meu pessimismo exacerbado. E eu também me esforcei para que minha arrogância não revelasse a ele o quanto seu ar de “alheio à realidade” assemelhava-se à demência. 

Um dia, bem naquele em que você sente que tem todos os argumentos para exorcizar a vida em praça pública e ainda ser reconhecido como salvador de si mesmo pelos demais, ele me tocou com as pontas dos dedos. Traçou um contorno em minhas mãos e lentamente caminhou pelo braço. Tateou cada pelo que se levantava feito grama recém-crescida e então fez apoio para o meu queixo. Sem reação, beijou meus lábios. Sem reação eu fiquei. Cheios de emoção, nós ficamos, mas em silêncio. Lábios selados. 

Era questão de tempo até que ela descobrisse. Percebeu a mudança clara no meu humor. As noites acordado e sempre com sede. O calor que não vinha do sol nem das aulas de educação física; a falta de fome acompanhada de uma gula descontrolada nos finais de semana; as músicas sempre extremas – ou gravemente pesadas ou açucaradamente agudas – e o sorriso cimentado no rosto. Sua fúria manifestou-se calmamente. Num dia deixou de cozinhar o almoço. No outro, queimou minhas roupas com o ferro de passar. Até que chegou ao extremo e jogou álcool nas minhas cartas e as queimou. Eu achei que ela estivesse louca, mas não era álcool, era apenas vinagre.

“Vá pedir para as suas vadias fazerem o serviço então. Não sou sua empregada”. De fato, não era. Mas a questão estava além de estruturas sociais, patriarcado ou feminismo. Ela sabia que eu podia muito bem fazer todas as tarefas de casa, mas alegava que antes de contribuir com os esforços físicos eu precisava contribuir com dinheiro e que, para isso, era fundamental ter boas notas na escola. De qualquer forma me senti mal, um explorador machista e limitado. E eu não era – nem sou assim. Tentei mudar minha postura, mas ela enrijeceu a dela. A questão de gênero que nos envolveria em breve estava bem longe das bases mais tradicionais. 

Quem é ela? Ela quem? Ela, a dona da sua atenção, a razão desse seu bom humor canalha! Não tem “ela”, mãe. Claro que tem, não me subestime moleque! Não tem ela... Fale o nome dela! Não tem ela... mas tem... Tem o quê?! Demien. “Demien”, o que é isso? Ele. Ele?! Ele. Puta que o pariu, era o que me faltava, você está maluco?! Não tem ela...

Joshua não se conteve e desmaiou. A imagem da mãe destruindo todos os quadros em que fotos suas se aconchegavam partiu-lhe os ligamentos dos joelhos e o corpo desabou. Era tarde demais para voltar, porém, cedo demais para desistir da nova vida. Algo deve morrer. Só assim se faz o nascimento. 

Algo como o primeiro, segundo e terceiro amor. Eles devem morrer para que nasça o quarto amor, vulgo compaixão. 

Sua mãe foi cremada e virou cinza de si mesma. Não amou e, por conta disso, tornou-se incapaz de renascer.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Desgaste


Encha o tanque de gasolina, recarregue o celular, credite o Bilhete Único, troque os tênis furados, compre um novo maço, transborde um velho copo...

Quem gasta quem?

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Volume



De esquina em esquina, uma chance de manchar a própria sina. Um simples sorriso e a camaradagem tá acertada. Um sorriso superficial e a falsa cumplicidade vem apertar a mão levemente, sem apego.  Logo em seguida, o favor é cobrada e você, rapaz, apagado.

Confiar em quem? Vai mesmo passar pela viela como se nela a saída não fosse estreita? Passa, mas passa mal, apertado, quase se cagando, todo sujo de lixo, e tudo por quê? Porque acha que “proceder” tá colado na sola de bandido. Cola fácil como band-aid. Descola fácil como band-aid. 

Demien não suporta quem fala alto. Quem agita a língua feito chocalho e fala alto pra caralho. Na sua rua só tem gente assim, com disposição de autofalante. Por isso, só sai de casa com o fone no talo, no pico da cabeça, raspando as paredes do pensamento e vibrando o cérebro sem piedade. Seu pai sempre dizia “Ande olhando pro chão, senão você vai tropeçar em algo e cair feio”. Então a postura fica ereta ao inverso do verso: no baixo, cabeça e visão; no alto, volume e ódio. No meio, ele, sua alma e alguns mega-hertz de sentimento. 

Seu bairro é comum. Não tinha nada de especial. Muros envelhecidos pelo tempo e eternizados pelos pichos. Calçadas bombardeadas, asfalto descascado revelando a antepassada terra, postes adornados com linhas de pipas, rabiolas e Plasmas Soro que passaram a servir de rél. Tudo ali lhe aceita, sem nenhuma exigência. Ele é mais um moleque na média que provavelmente irá viver para sempre na mesma casa. Só sairão do quarteirão os que forem abortados ou pela vida ou pela pobreza. De resto, o berço da miséria continua convidativo. Ninado pela morte.  

De repente, um cutucão de dedo – que mais parecia um tiro de Glock – partiu sua concentração em pequenos pedaços de raiva.

- E aí, cara, beleza?
- Tudo indo.
- Pô, nunca mais te vi na rua, tá trampando?
- Nem, to resolvendo minhas coisas, só isso só.
- Tô ligado, tá estudando?
- Um pouco.
- E as namoradas? Pegando quem?
- Ninguém, tô de boa.
- Como assim, mano? Várias cocotinhas por aí! Que papo é esse?
- Quer mesmo saber que papo é esse?

“Demien, meu filho, por favor, largue a cabeça do rapaz”. 

Quer mesmo saber? 

Filho da puta, miserável, rato escroto. Saiu da porra do seu esgoto pra ficar me intimando? Que porra você pensa que é, Zé cu de merda! Vem com esse questionário a troco que quê, bróder? Acorda ae, palhaço e vai tomar conta da sua vida. Não quero falar, odeio você, nunca te fiz favor, nunca te chamei pra tomar uma cerveja, nunca nem te dei “bom dia”, então segura essa língua senão vou fazer você lamber o próprio rabo. E não adianta ficar com fuça de pica gripada não! Pode encolher a merda da beiça e vê se costura esse borga que você chama de boca que tô sentindo daqui seu bafo de bosta. Espero que sua casa pegue fogo com todo mundo dentro. 

- Vai se foder, Demien seu verme, vou te matar! 

- Vai mesmo me matar? 

“Demien, já falei pra você largar a cabeça do rapaz, pelo amor de Deus, filho.”

Vai mesmo me matar?

Em menos de dois segundos, Demien trinca o nariz de Joshua com um soco, em seguida, mais três, quatro, doze e os dentes passam a vacilar na gengiva. O sangue espirra rapidamente. O instinto de sobrevivência do rapaz não consegue superar o instinto de assassino do algoz.
Demien continua espancando o rosto – que já não pode mais ser chamado de rosto – de Joshua. Os gruídos de dor parecem estimular a violência. A falta de criatividade também parece estimulá-la. “Bater” se tornou o ato mais racional naquele momento. 

Demien não tirou os fones de ouvido, não abaixou o volume e nem levantou os olhos. Só a cabeça.