domingo, 10 de fevereiro de 2013

O diabo e o tempo



O sono se foi. Olhos fechados e milhares de imagens dentro da cabeça. De repente, corpo, cama e travesseiro se tornam quentes demais. A paz se foi.

Desci as escadas lentamente, sentindo de longe a presença que esbarrava no silêncio da casa. Não imaginei que ele viria naquela noite. Quando acendi a luz da cozinha meus olhos se depararam com seu velho casaco preto. Havia muito para se conversar.

- Disse que não demoraria a voltar.
- Disse mesmo. E aí está você, na busca pelas migalhas que sustentam teu império.
- Não sei o porquê de tanta agressividade.
- Insônia. Fico irritado quando não consigo dormir.
- Imagino. Também imagino que você anda dormindo pouco ultimamente, certo?
- Sim. A cabeça não para. Já tentei de tudo. Drogas, chás, terapias... Até rezas.
- Por favor, não seja ridículo. Rezar? A que ponto chegamos?
- Você não está ajudando. Faça um café para nós.
- Tudo bem. Mas sem açúcar.
- Sem problemas. O amargo está de bom tamanho.

O café perfuma a pele. Desce pela garganta queimando o hálito. Escuro demais, não se mistura com o sangue e desvia o caminho das veias. Faz sua própria rota pelo corpo, acorda os músculos, atormenta o estômago, desperta o sonolento coração e busca abrigo no cérebro. O café censura a febre. Faz-se quente o bastante para reanimar a alma. Tinge-a de preto.

- Bem, você sabe o motivo da minha visita. Não temos muito tempo.
- Sei sim. Mas não mudei de ideia.
- Nem queria que mudasse. Mas, é importante você saber que não haverá mais volta. Lá, o tempo não existe. Muito menos resiste.
- Que seja. Ela será toda sua. Assim foi o trato, não é mesmo? Você me daria o sabor daquele amor e eu lhe entregaria minha essência. Trato é trato. Eu tive o que pedi.
- Nunca teve, de fato. Sabe que lido apenas com ilusões. Ele nunca te amou de verdade. Ele amou sua casca, seus artifícios, sua personalidade. Entretanto, nunca chegou tão fundo a ponto de enxergar seu âmago.
- Eu vivi momentos felizes. É o que importa.
- Não. Você sabe que não. Eu só lhe dei mais uma dose do seu veneno favorito. Sabe, nada pessoal, mas é minha missão. Missão, é esse o termo que usam, correto?
- É. É sim.
- Pois bem. Acabei de dizer que não cumpri totalmente o nosso trato, então ainda há uma chance de você continuar aqui.
- Não quero. Não há castigo pior do que vagar em um mundo que não nos recebe a cada manhã e não nos nina a cada noite. Não durmo quando a lua chega, cheia. Não desperto quando sol boceja, alaranjado. Percebe quantos "não" na minha fala?
- O que for pior para você é melhor para mim. Entenda, eu sou o tal mal necessário.
- Dispenso apresentações. Você precisa de mim tanto quanto eu precisei de você.
- Isso é verdade. Nem eu sou capaz de acumular um universo inteiro dentro do peito. Realmente, preciso de você.

O vácuo preenche o vazio. Infla o peito e encontra espaço entre as costelas. Folga suas longas asas por debaixo dos pulmões e lá se cria. A anulação. O ar dos sufocados. Espaço inutilizado e impossível de ser preenchido, pois o excesso de ausência faz das cavidades a morada do nada. O vácuo evita o vivo. Faz-se frio para disfarçar as mágoas.

- Já que você não faz questão alguma de aproveitar os últimos momentos aqui, levarei o que é meu por direito.
- Fique à vontade.
- Mas antes queria que você fosse franco comigo. Em nenhum momento você temeu nosso acordo?
- Temi.
- Ah, sabia! Então existe arrependimento dentro de você.
- Não. Sem arrependimentos, como já deixei claro. Meu medo era só meu. Medo de mim. De ter que continuar aqui. Entenda, eu quis perder tudo. Quis deixar que você fosse o vencedor. Tudo isso por razão nenhuma. A vida me levou qualquer justificativa. Qualquer vontade de argumentar contra suas imposições. Contra o destino.
- Que seja. Cansei dessa conversa. Vamos lá, está na hora de partir. Mostre-me o que é meu, anda.
- Aqui está. A caixa de carvalho e a chave.
- Excelente! Vamos abri-la logo. Quero ver o que você esconde aí dentro e que já é meu!
- Fique à vontade.

A caixa de carvalho guarda o coração. Madeira que chora travestida de pedra. Range mesmo sem dentes. Rústica, acolhedora, num tom marrom que pinta a imagem do conforto e do aconchego. Aquele abraço de mãe. Aquele chacoalho de pai. A segurança. A residência. A essência. Seu interior é vermelho como sangue. O artefato dos enamorados. Espólio dos amantes. A caixa de carvalho escraviza o amor. Faz-se amiga para transmutar apego em apelo.

- O quê?! Mas o que é isso?!
- É isso. Só que o "isso" não existe.
- Vazia? Impossível?! Você respira, come, fala, anda! Está vivo! Por que não há nada aqui dentro?
- Porque nunca houve nada dentro de mim. Eu sou o reflexo da sua frustração. Sou a linha que divide o divino do profano. Sou nulo por natureza. Tentei me preencher com o amargo do café, com o vazio do vácuo e com o amor que negociei com você. Mas minha caixa continuou anêmica. Do criador eu exigi um sabor para minha vida, mas recebi apenas aquela água negra. Dos homens tentei buscar preenchimento com as substâncias químicas e prazeres mundanos, porém só aumentei o tamanho do universo solitário que se expande debaixo do meu peito. E de você eu quis o amor. Quis que me vendesse tal sentimento. Blefei. Coloquei em jogo um coringa marcado. Não há nada aqui para nós. Eu sou aquilo que não existe nem resiste. Eu sou o tempo.
- Maldito seja! Você sempre esteve por perto.
- Perto o bastante para ter sido, ser e vir a ser. Infelizmente, todos me tem por um período, usam a mim sem se importarem com o que sou. Gastam-me e depois de cometerem todos os erros possíveis, imploram pela minha volta. Esquecem-se que eu só faço sentido no presente. Bom, agora preciso ir.
- Para onde?
- Vou dormir. O sono chegou.
- Mas o tempo não para, como você pode dormir?
- Só existe uma forma de aceitar todas as chagas que a vida impõe...
- E qual é?
- Dando tempo ao tempo. Boa noite.
- Vá para o inferno!

O relógio educa o tempo. Aos ponteiros, a ponta que aponta o "quando". O toque eterno e ritmado que marca apenas aquilo que passou. O relógio não deixa O Tempo dormir. Sempre alerta, desperta com ou sem despertador. Há tempos que O Tempo não encontra um segundo de paz. Sua mente não para. Orgulhoso demais para voltar. Medroso demais para avançar. Condenado a viver sob as vontades da relíquia dos condicionados. O relógio adianta as horas quando há amor. E retarda a passagem dos dias quando há dor. Faz-se senhor do tempo, do café, do vazio e da caixa de carvalho. Da dor, do dissabor, da angústia e do amor.

Pontualmente desagradável.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Eu(s)

Já não me incomodava mais com o frio. As telhas também não apresentavam perigo, estavam firmes. No teto de casa eu parei pra observar o teto do mundo. E quanta coisa eu vi - mesmo sem ver nada. Meu medo de altura selou meus olhos, mas apenas eles. Pela pele, pelo nariz, pelas orelhas pude ver tudo. E espero que você também possa. Vamos lá...

"Milhares de perguntas que não param de esbarrar nas paredes do meu pensamento. Tem horas que ouço claramente o som agudo adentrar minhas ideias. Eu não tenho o que fazer. Deixo-as lá, livres, na falsa esperança de que terão alguma resposta. E todo esse caos se deu pelo fato de que não me sinto mais um. Sinto-me vários.

Olho para mim e vejo aquele garoto quieto, introspectivo, extremamente detalhista e bom observador. Que ouve muito, mas tem toneladas de frases enroscadas nos dentes. Ele se senta sempre no canto menos observado. E como sabe que é o menos observado? Porque só ele percebeu aquele espaço vazio. Só. 

Ele escrevia e desenhava pra não prestar atenção nas vozes ao seu redor. Gostava de alguns professores, mas admirava apenas um: Marcos César Alves, docente de Literatura. E a amizade se fez no silêncio, na troca de textos e na camiseta que tinha como estampa "Cansei de Ilusões". 

Amou. Bastante. Ou pelo menos classificou aquele frio na barriga e o calor no rosto como tal sentimento. Sofreu? Claro, e qual é o amor que não traz consigo uma ponta de dor? Mas esteve ali pra ajudá-la a superar os ex-namorados. Esteve ao seu lado quando a mãe dela impediu sua ida às festas. Passou horas acordado, olhando para o portão, na esperança de vê-la chegar em casa. Amou tanto... Mas como disseram num dos seus filmes favoritos: "Nós aceitamos o amor que pensamos merecer". E ele merecia mais. Ainda que estivesse contente com o pouco. 

Cresceu, endureceu, sobreviveu, renasceu. Encontrou nos lábios dele um novo condimento. E junto dos seus passos aprendeu a dançar. Mais uma vez se feriu - e continua se referindo. Querendo mais do que pode ter e sentindo no peito o peso da rejeição. É, "eles aceitam o amor que pensam merecer" e mesmo quando encontram o tal sentimento, temem o fim sem nem viver o começo. Deixam passar. 

De repente, ele volta e percebe que não é só isso.

Esqueceu a maçã sobre a mesa e decidiu comprar cigarros. Decidiu fumar. Fumou. Decidiu beber. Bebeu. Decidiu se arriscar em aventuras emocionais. Pois bem, arriscou-se. Riscou-se mais do que devia. Saiu do papel e foi para os braços, correu pelas pernas e no ápice do desapego caiu na barriga. Tentou tirar dali - com mão trêmula de quem executa sua própria cesariana - os malditos frutos dos romances frustrados. Queria abortar a Saudade, a Lembrança e Frustração. Três bastardas. 

Tornou-se um fragmento diante de si mesmo. Estilhaçou-se sem pensar duas vezes e quando o corpo se rendeu, ouviu-se. Reergueu-se e fez tudo novamente. Enganou a saúde. Fez pouco caso da vida que lhe sustentava. Ingrato. Mas continuava escrevendo. Agora, compulsivamente. 

E numa noite em que nada mais parecia valer a pena, ele deitou no chão do banheiro e apagou. Horas e horas em outro lugar. Algo parecido com uma sala de hospital, silenciosa e ameaçadora. Esperou para que o médico entrasse e desse a ele o veredicto. Contudo, não houve sentença. Houve sequência. 

Voltou ao trabalho. Voltou aos estudos e no final do ciclo acadêmico conheceu um garoto tímido. Esse garoto o fez feliz por muitos meses e quando partiu levou não só a felicidade compartilhada, mas também toda a esperança. 

Sem quedas, ele desejou cair apenas para não sentir mais o peso sob seu corpo. Teve que se manter erguido. 

Ele não é mais um. Não é só um. Ele é grande demais para si mesmo. E grandeza não reflete nobreza de espírito. Grandeza mostra o quanto de nós mesmos está sobrando. O quanto de nós mesmos é desperdiçado. Sua mente continua cheia de perguntas e para cada uma delas, bocas de pessoas diferentes.

Caleidoscópio." 

Ele também sou eu. Só que não por hoje. 

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Décimo terceiro arcano maior

Ajoelha. Pede, implora. Reza pra qualquer um. Fale todos os nomes em vão. Faça-se merecedor de todo o sofrimento que anda sentindo. Justifique cada faca cravada em seu peito. Depois disso, lave as mãos e o rosto, faça a barba e tire o gosto de café da boca com sua escova de dentes.

Rotina.

Inspira. Esse dia não lhe foi dado como presente, mas como fardo. Não agradeça por mais uma manhã. Fique em silêncio, pois alguém pode ouvir sua voz e querer conversar dentro do trem. Vinte e quatro horas dispostas a impor desafios que pouco fazem sentido para você. Expira.

Acomode-se. Alinhe os lembretes. Arrume a altura da cadeira. Arruíne-se. Anule-se. É perda de tempo tentar interagir com pessoas que nunca passaram pelo inferno.

O inferno em si mesmo. Uma sala reservada, cheia de prazeres e vícios. Uma cela divertida. O meu está aqui dentro de mim, dividindo espaço com os órgãos vitais. E o seu?

Saia pra fumar, puxe a fumaça, não puxe o assunto. Amargue as palavras e seque os lábios. Encha os pulmões de veneno e gaste a vida, antes que o filtro comece a queimar. Nicotina. Rotina.

Puxe uma carta. Isso. Mentalize a pergunta que quer fazer. Certo. Agora olhe para a lâmina diante dos seus olhos. "A Morte". Décimo terceiro arcano maior. O fim inevitável. A força invisível que impulsiona a vida. Mudança forçada. Destruição para que o novo tome lugar do velho. Não há nada que você possa fazer além de viver a morte. Morra quantas vezes for necessário. Pegue a lâmina diante dos seus olhos e...

Deite-se. Afinal, é tarde demais pra chorar. Amanhã você acorda cedo, menino.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Faísca



Não renego mais. Não sufoco o sentimento que aqui dentro gera calor e dor ao restante do corpo. Como faísca, como fagulha, ele busca a razão para então carbonizá-la sem piedade. Esse estalo de chama - que mal se sustenta na escuridão da minha caixa torácica - ilumina os pensamentos, ainda que timidamente. E lá na mente se faz quente. Revive-me essa tal combustão.

E eu sei que é amor porque - assim como uma vela - consegue resistir aos sopros do cotidiano. Alguns que saem de bocas amargas, outros que surgem dos lábios desejados. Sopros que tentam tirar de mim algo que só depende do meu querer, independente do ter. E dói, claro que dói. Qual é o fogo que não come? Qual é o amor que não consome algo para existir? O meu se alimenta de mim. Leva muito da minha paciência e paz, mas deixa no lugar uma falsa sensação de conforto, na qual se banham minhas frustrações - que quanto mais limpas, mais revelam suas cicatrizes. Não há vergonha em assumir que o passado virou receptáculo dos erros cometidos. Pago por eles até hoje. Neste exato momento, estou pagando antes que minha fagulha apague de vez.

No final das contas eu não queria ter a infelicidade de não sentir nada. Não queria ser uma cama vazia, feita pra se deitar com a ausência. Não, não queria e não quero. Mas um dia posso vir a querer. Só que esse "um dia" me custaria o dia de hoje e pensar no amanhã não me faz viver o agora. E eu preciso viver o agora.

Assim como a chama, necessito queimá-lo pra existir, de fato. Talvez eu seja privilegiado por não me render aos caprichos do coração. Sempre carente e insatisfeito, lido com ele como se fosse meu filho. Com cara emburrada, fica diante do bolo de aniversário que lhe comprei. Não demonstra alegria muito menos interesse no que vê diante de si. E é nesse instante que eu retiro meu isqueiro do bolso e acendo os "25". Aquela faísca, fragmento de estrela, faz amanhecer no rosto do garoto o sol dele de cada dia. Sem risada, mas com sorriso, sorriu-me. Enquanto na face do meu coração reluzia a tal chama, na minha escorria o rio formado pela velha chuva que me molhou por dentro.

E sei que com tudo isso o amor ainda vale muito. Ele não foi feito para ser tocado, assim como as labaredas também não. Ele foi feito para ser sentido, assim como calor que batiza o fogo. Assim como o ardor que sinto quando me aproximo demais de outras faíscas.

Não renego mais. Deixo escorrer, soprar, tremer e queimar tudo aquilo que dentro da minha essência se autoproclamou "sentimento".

Sinto muito. Muito mesmo. Chega até a arder. Se é que você me entende.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Esperar a lança pra por um fim em tudo isso

Parece que quando não temos mais nada a perder é que começamos a ganhar.

Perdi meus pais aos 6 anos. Eram tantas discussões, gritos e ofensas que acabei matando os dois dentro de mim e daí em diante não tive mais ligação nenhuma com eles. Habitávamos o mesmo espaço e, em alguns casos, dividíamos as mesmas necessidades. Apenas o básico pra continuar vivendo.

Ganhei tempo, idade, cigarros e bebidas. O dia só prestava para dormir. Trabalho era uma merda. Escola uma merda. Obrigações de merda. Tudo se resumia numa porcaria de vida repleta de lixo ao meu redor. A comida fedia, a água era turva e minhas unhas viviam sujas.

Nunca fui bonito. Magro, olhos grandes e cansados, cabelo ralo, dedos tortos, pernas finas e orelhas alargadas. Talvez meu sorriso fosse a única coisa "menos feia" a compor o que sou. No começo da adolescência isso foi um problema. Depois de um tempo eu nem me importava mais, estava tão chapado que era impossível me reconhecer diante do espelho.

A lista de motivos que me levaram a usar drogas possui frases universais do tipo: "Problemas familiares, falta de estrutura familiar, ausência de afeto familiar". Família em tudo. E em nada, ao mesmo tempo. Servem para uns, não para mim.

Sim, meus pais sempre brigaram bastante, mas carinho nunca me faltou. Comecei a me drogar porque quis me drogar. Porque não via ligação alguma com a vida e apostava todos os dias comigo mesmo que sucumbiria aos efeitos dos tóxicos em pouco tempo. Pelo visto estou perdendo até hoje.

Não fui influenciado por amigos. Todos eles tinham consciência das desgraçadas trazidas pelo uso de tais substâncias. Eram pessoas muito boas e empenhadas em alcançar o topo da montanha chamada "sucesso". Tinham belas namoradas e namorados, problemas do tipo: "não vou conseguir comprar um novo celular neste mês, mas no próximo...". Viviam, e eu achava isso fantástico de se assistir. Enfatizo: assistir, apenas. Como no cinema. A gente gosta porque sabe que não vai passar da tela. Só vai passar na tela.

Mudei. Parei de me matar com tanta frequência. Agora são só cigarros. E a vida melhorou? Não, mas consigo ficar quieto ao invés de despir as desgraças que assolam minha mente. Deixei de fazer isso em festas, reuniões de família, amigos etc. Infelizmente, tive que me tornar aquilo que sempre odiei: uma pessoa consciente.

Consciente do quê? Diga-me! Que mundo podre é esse em que a vida é imposta como máxima e mesmo na miséria - seja ela física ou mental - você é obrigado a cumprir toda a "agenda da felicidade estereotipada" e sorrir ou abraçar pessoas nos muitos feriados ao longo do ano? Minha pergunta não passa de uma resposta com ponto de interrogação. Fuga literária.

Sou eu quem habita o caos instalado nas bordas do pensamento. Arranho as paredes da minha mente como se fosse possível escalá-las. Deve haver um topo, um teto, algo que me deixe tão alto, mas tão alto que o ar me faltaria não pelos pulmões, mas pelas veias da razão. Faltaria-me razão o bastante para voltar ao solo da consciência e minha cara não mais ficaria afundada na lama.

No âmago do poço que se criou aqui dentro, encharcado seu fundo de lágrimas...
Fez-se assim, da minha alma, um mar morto. Onde os batismos de fogo contemplam a existência com o sono dos desistentes.

Quer mesmo saber qual droga é a minha favorita? A que mais me mata e maltrata o corpo? Sim, ela é bem fácil de se encontrar. Está em cada esquina. Em cada suspiro. Nos finais de ano e começo de semana. Na porta das escolas e universidades. Dentro dos hospitais. No interior das igrejas e templos religiosos. Ela está  no cartório, na lanchonete, no teto da sua casa e no chão do seu quintal...No seio da mãe. Na carteira do pai. Não é vendida. Ela simplesmente mente, é e está.

Essa droga tem nome sim. Esperança.



segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Morrendo enquanto se vive

Título fúnebre. Só o título, não se preocupe.

De repente, escutei uma música que me fez lembrar do passado. Clichê. Natural, estou vivo, como não passar por clichês? O som é triste, sim, e me faz tão bem...

Trouxe-me de volta a uma época em que eu ainda cultivava alguma esperança de viver o amor que escolhi para mim, mesmo sem ter sido escolhido por ele. Naquele tempo, bastava acordar sem o "não" como resposta definitiva para que a cabeça começasse a tecer infinitas histórias felizes, com direito a finais de semana na praia e jantares.

Porém, cá estou eu, sem amor. Mentira. Essas palavras só estão aqui porque tem um sentimento tão forte dentro de mim que nem mesmo negligenciá-lo fará com que seu impacto seja menor. É como se a melancolia fosse o combustível básico e o amor a deixasse aditivada. É, mais ou menos isso.

Veja, não foi tão fúnebre. Foi curto como o último segundo antes da morte.

Agora sim, fúnebre.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Laço das almas


Os fogos já estalavam no céu. Escuridão profunda. Sem bordas, sem mapa, sem linhas, apenas algumas estrelas. Mais um ano começava e eu nem ao menos tinha como acender o primeiro cigarro de 2013. Virei o ano com vontade de morrer mais um pouco. Nada de inédito.

Comecei a caminhar pela praia. Sentia o mar diferente. Espreitava-me cuidadosamente. Sabia que seu eu adentrasse em sua pele jamais voltaria. E se voltasse, não seria o mesmo. Mantive certa distância, mas tive que molhar meus pés com suas lágrimas salgadas. À noite ele lamenta. Reclama da solidão. Vira deserto e só conta com a companhia da areia, sempre lá, fiel.

Gritava dentro de mim a necessidade ancestral de ficar só. Confundir-me com os grãos espalhados pelo litoral. Abri mão dos abraços e sorrisos, dos votos e goles no vinho seco. Senti uma forte brisa me cortar o rosto e então tive a certeza que estava no caminho certo. Aquele que não sabemos aonde nos levará.

A cidade em que nasci estava longe, assim como os rostos que diariamente ornamentam meu calendário. Mas tive saudades, sim. Muita. Porém, mais forte do que a falta foi a necessidade de ter você aqui comigo. Veja, tudo o que sinto fica no silêncio mesmo. No máximo viram palavras, textos, relatos...

Não se pode ter tudo. Mas se pode querer tudo. Querendo ou não.

O cigarro ainda desfilava nos meus lábios. Até que vi aquela faísca vagando solitária, um pouco a minha frente. Três tentativas, nada de fogo. Na quarta, o fumo se rendeu às chamas, assim como eu me rendi àqueles olhos tão escuros quanto o céu.

Horas e horas de conversas trocadas no alto de uma pedra escorregadia. Aquela parte da praia era vazia de gente. Só restava a natureza e suas manifestações. As ondas já haviam se deitado e só nos sobrava a calmaria.

Sem apresentações corriqueiras, trocamos poucas confissões: nomes, signos e bebida favorita. Em seguida, uma mão toca a outra. Um braço encontro o ombro do outro. A cabeça repousa no peito e a alma se entrelaça com o perfume de maresia. Ali, atados, provando para o mundo que o compromisso está além - muito além - das promessas. Sem dizer uma palavra, o beijo sussurrou em meus ouvidos um "eu te amo" puro, sem domínio, livre dos formatos. E eu amei.

Nunca mais nos vimos. Mesmo assim, ainda te vejo (sinto).

domingo, 13 de janeiro de 2013

Se habita em mim, pesa nos pulmões



A borda daquele litoral não passou de um detalhe. Detalhe esse que me trouxe você, distante pela física, mas colado ao meu lado pela metafísica. Era de éter que se fazia nosso laço. Ambos atados pela brisa da manhã que arrepiava a pele queimada. Descasquei o peito e nele encontrei nosso recanto. Nosso lar. Meu coração, teu refúgio.

Tive que sair sozinho. Comprar mais cigarros e menos motivos para viver triste. Amargar a boca logo cedo e tão cedo deixar de acreditar que a vida se baseia no medo de morrer. E que dor será essa que de tão forte me fará sofrer mais do que pela saudade de ti, que me corrói a cada segundo? Não vi razão para não ir e pesar meus pulmões com a fumaça dos nossos momentos. Queimei na ponta da toxina parte da nossa sina: sempre assim, atados, presos dentro um do outro, correndo pelas veias, enganando os batimentos e dispersos no ar - quando fora do refúgio estivermos.

Andei muito. Do meu lado esquerdo o mar de areia, modelado pelos pés de ontem. Do lado direito, o oceano, diretamente acomodado no meu ombro, sussurrando em meus ouvidos os segredos mais profundos. Ouvi tudo, sem dar um piu. E falei de você para ele. As ondas quebraram.

Eu me quebrei. Vi que não havia nada além da minha imaginação criando você, a outra metade em mim. Falso, como a inocência da maré, esse amor me cobriu silenciosamente. Agora, afogado, mal posso respirar por conta própria. Não é culpa do cigarro. É culpa sua.

Nunca existiu nada disso que aqui escrevi. Tudo foi fruto de sussurros, quebrantes, marcas na areia e saudade. Saudade daquilo que eu nem vivi.






sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Lobo em mim

A comida não tinha gosto. Não tinha cheiro. Não tinha nada além do espaço do prato. Espalhada, parecia eterna. Garfada atrás de garfada e nada de encher a barriga. Só enchia minha cabeça de desgosto.

Enquanto isso, meus pais continuavam imersos em sua esfera alheia a tudo, inclusive ao casamento, ao amor e a todos aqueles votos feitos no altar. Mas comiam como lobos.

A faca na mão esquerda pesava tanto... Era como se um magnetismo atraísse sua lâmina para os vasos em meu pulso. Escorria na mesa o sangue que tingia a superfície de madeira com aquele vermelho queimado, insatisfeito e cheio de nicotina. Parei de comer para ir fumar e no caminho até a porta escutei alguém bater.

Sete batidas, bem pausadas e um suspiro gélido. Eu não quis saber quem era. Fiz questão de ficar em silêncio, na espera de que a criatura desistisse de entrar em minha casa. Vi suas unhas rachadas por debaixo da porta. Era temporada de caça e minha casa virava refúgio para logos, raposas, veados e corvos. Meus pais odiavam tais criaturas e por esse motivo as devoravam no jantar, no almoço e no café de amanhã... e da manhã de amanhã... e depois...

Lobos devorando lobos. A fome de si mesmo. A vontade de se sentir, de se saborear. De saber qual é o seu gosto e do que gosta. De salivar ao ouvir o próprio nome e ser capaz de saciar a própria anemia. Eu, meu próprio lobo, a fera domada que clama todas as noites por nomes e corpos desconhecidos. Uiva solitário, seja na floresta esbranquiçada ou no banquete nosso de cada mentira. 

No sétimo dia, decidi que era hora de abrir a entrada para a besta e seus caninos. Vagarosamente, fitou-me com seus olhos negros. Analisou minha carne como se visse nela algum valor. Nenhuma gota de saliva, apenas o faro a me varrer. Coberto por uma densa poeira de mim mesmo, sacudi os braços e acariciei sua cabeça.

Servi os pratos, dispensei os talheres e então tive a refeição das refeições. Meus pais, que tanto me encheram de um vazio acinzentado agora eram saboreados por aquele lobo desconhecido. Tão desconhecido que até pude chamá-lo de irmão. Éramos os dois ali, a saborear a carne macia que um dia me deu leite, conforto e casa.

O lobo em mim devorou laços falhos desenvolvidos durante anos e anos de âmbito familiar. Eles não tiveram culpa de nada. Apenas a natureza que se manifestou.

Um dia para a caça. Todos os outros para o caçador.

Pobresia


Que porra de poesia
de métrica fabricada
de disritmia calculada
que trança a língua
na ponta dos dedos
finge beleza e finge fraqueza
Encanta quem não tem
domínio da leitura
Mas que só lê pra libertar
Pra quem se diz concreta
Larga a régua e a caneta
Se rabisco é ensaiado
Perde a graça o verso versado.
E de concreto só o chão
Pra cara bater antes mesmo do coração.