quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Coraç(m)ão



A chuva simplesmente parou. No seu lugar, o sol mais radiante do que nunca. Consegui manter meus pés secos e de quebra ainda aproveitei duas rodas: a de samba e a de capoeira. Tudo certo. Até que... 

Às vezes sinto que meu coração é feito de papel. Dobra, desdobra, amassa, recompõe o formato, encolhe, aumenta e no final das contas volta a ser aquela mesma folha em branco. 

Cada passo acelerava mais as batidas do coração e no segundo em que a fumaça adentrava meus pulmões senti como se a nicotina tomasse o lugar do sangue. As veias enlouqueceram. Traguei com tudo o que tinha – e tudo o que tinha. Envenenado, tentei manter a pose. Escureci os olhos com as lentes dos óculos e cerrei os lábios – uma vez que são eles o maior perigo dentre os muitos perigos. 

Às vezes sinto que meu coração é feito de fumaça. Muda de forma conforme a força do vento. Se a brisa é morna, ele desliza lentamente pela caixa torácica. Mas se vier fria, então pesa como nuvem carregada e berra seus trovões a esmo. Berra pra quem quiser ouvir, mas nunca para quem deveria ouvir.  

Impossível controlar as vontades. Só consegui silenciá-las. Olhava para as árvores, para outras pessoas, para a poça d’água. Olhava para qualquer lugar que não me trouxesse aqueles olhos. E por alguns bons minutos senti como se estivesse vivendo minha própria utopia. Um campo verde, uma criança correndo entre nós... e nós. 

Às vezes sinto que meu coração é feito de perfume. Engana o olfato da razão. Confunde os sentidos e envolve os pensamentos. Ele dá o “ar e aroma” da graça ao quê, na realidade, não passa de poeira inodora. Sabe agradar tanto quanto sabe enganar. 

Pouco depois, busquei um ponto para firmar minha atenção. Havia uma linha bem delicada, sempre pronta para arrebentar. O momento foi bom dentro do seu silêncio. E foi na ausência de som que compus a trilha sonora da tarde. Tudo o que eu gostaria de dizer ficou confinado dentro da cabeça. Não vou dizer que foi satisfatório. Mas foi bom. 

Às vezes sinto que meu coração é feito de calcário. Pesa tanto que obrigado meu corpo a se inclinar diante do amor. Pesa e não deixa que nada o invada. Ele quer invadir. Quer adentrar o peito dos outros como pedra que estoura o vidro da janela. Quer ser a rocha que cai do céu e cicatriza a terra sem empatia alguma. Seco, rústico, mal lapidado, bruto... E quente como uma lasca de magma. 

Quando já não havia mais nada a ser dito, desisti da fala e fui para os olhos. Os meus, no caso. Com as lentes da câmera focadas, deslizei os dedos pelo corpo da máquina e suavemente aumentei o zoom. Aquela pequena mão, talhada em madeira recém-nascida encontrou toda a firmeza na outra palma – que era firme como solo. Unidas, fizeram florescer a mais pura segurança... fruto do amor sem papel, sem fumaça, sem perfume e sem peso. Amor feito de gente. Amor, apenas. 

Às vezes sinto que meu coração é feito de carne. Pulsa como quem chora pelo peito que não amamenta mais. Vermelho como a ferida deixada pela decepção ou pelo joelho ralado no asfalto. Adoece com o tempo, assim como adoecem os corpos velhos, depois de anos e anos de vida compartilhada, retratos e netos. E netas. Sinto que meu coração segura o amor assim como aquela mão segurou a sua. Com a certeza de que só podemos enxergar o horizonte quando não tivermos mais a ilusão de alcançá-lo. Meu coração, aquele que deixou de bater e agora só toca. E um simples toque bastou. 

Valeu mais do que mil palavras. Mais do que mil imagens.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Recuo...

... quando sinto que me perdi durante o caminho. Não que seja minha meta sempre estar dentro de uma estrada ou ciente dos meus próprios passos, mas acabei ultrapassando certas linhas que não me trouxeram nada. E de “nada” já me basta o vácuo no peito.

Hoje, enquanto vinha para o serviço, lembrei de um velho amigo que tive. Ele já não faz mais parte da minha vida, ainda que esteja vivo. Talvez ainda leia meus textos... 

Era um garoto de olhos curiosos. Gostava de ouvir para depois mostrar que havia aprendido. Que já não estava mais “atrás” de ninguém. Não se conformava com o posto de retardatário. Precisa estar no páreo tanto quanto no pódio. 

Quando o conheci não houve surpresa alguma. Magro, braços longos, joelho ossudo e rosto que misturava infância com adolescência. Eu, vestido de arrogância. Ele, agasalhado com prepotência. Daí veio a conexão. 

Aos poucos fomos ganhando espaço um dentro do outro. Um dentro da rotina do outro. Dias e dias deitados no chão do quarto olhando para o teto e imaginando como seria uma turnê com nossa futura banda. Pensávamos nas exposições de estêncil que montaríamos e os dias fumando nas calçadas gringas. Andávamos por horas à procura de um sorvete. Não tentávamos abafar as mágoas um do outro... pelo contrário, jogávamos sal para que ardessem muito e depois cicatrizassem. Falando assim, ninguém jamais acreditaria que tal história existiu na vida real. 

Lembro-me do dia em que meus pais estavam brigando em casa e eu já não suportava mais os gritos. Ele me ligou e tinha acabado de discutir com a mãe. Decidimos sair. Na mochila, duas chapas de estêncial, um lata de tinta e o dinheiro da passagem de ônibus. Calça rasgada, camiseta feia e rua. Jamais esquecerei disso... corríamos pelos becos pixando as paredes e depois completamos a aventura com um saco de pipoca velha e extremamente salgada. 

Com o tempo, certos fatores estragaram tudo, mas isso não vem ao caso. Hoje dediquei estas linhas aos bons momentos que guardo comigo. Tão preciosos quanto o último abraço recebido em setembro de 2011. 

Eu nunca vou te esquecer, caro amigo. Uma tragada em sua homenagem.

domingo, 11 de novembro de 2012

Tempo o insuficiente

Fiz minha mãe chorar. Fiz com que ela visse em mim um abismo tão profundo que seus olhos, feridos pelas cataratas do tempo, cegaram-se antecipadamente. Ela tentava me alcançar de qualquer jeito, mas eu já estava distante demais. Nem mesmo o chamado do amor foi capaz de me fazer recuar. Saltei dentro de mim mesmo e quando percebi, estava colado ao chão. Inseparáveis... eu e o fundo do poço. Lá do fundo dos m(s)eus olhos.

Entrei na sala e percebi que ele me observara dos pés à cabeça. Sem fazer questão de ser discreto. Quando me aproximei para dizer "bom dia", senti que seus dentes rangiam tanto quanto os ponteiros do relógio no canto superior esquerdo do consultório. Depois de acomodado, ele apenas pediu que eu dissesse o que estava me deixando triste.

Dentro de mim, uma enorme onda de sentimentos e palavras começou a se formar. De longe, os pássaros da razão começaram a voar frenéticamente numa direção oposta a do tsunami. Minha mente se tornou praia deserta e a boca não conseguiu dar espaço para tanta água. Calei.

Segundos depois, a angústia me cobrou mais do que tinha a oferecer. Sem sal no rosto. O único sal que não arde os olhos. O sal das lágrimas. Sem sal e sem palavras, o que mais eu tinha a perder? Nada. Foi aí que comecei a falar.

Convidei-o para passear pelos labirintos da minha mente. Ele se achava treinado demais. Tentava construir novas passagens só com o olhar e a maldita caneta que não parava de tentar - inutilmente - desenhar mapas com as vias dos meus pensamentos. Não me censurava com as palavras. Fazia isso com o silêncio. Mas eu falei, e falei bastante. Falei bastante mentira. Jamais iria me revelar para um estranho, pior ainda se fosse um estranho que achasse mesmo ter acesso ao que sou no âmago.

Fiz questão de desafiá-lo. Acendi um cigarro e comecei ali uma batalha de pequenos gestos. Pediu para que eu falasse olhando em seus olhos. Não pediu para que eu cessasse a fumaça. Nada é mais irritante do que ver a pessoa provocada se esquivando com maestria da provocação. Pois bem, entendi o recado e apaguei o cigarro. Dessa vez foi ele que entendeu a afronta.

Pediu para que eu discorresse a respeito da infância. Contei dos meus devaneios, da vontade de ficar sozinho e de brincar apenas comigo mesmo. Tudo porque não suportava a falta de ordem e destreza das outras crianças, que quebravam os brinquedos e faziam movimentos bruscos. Não sabia  mover o punho do boneco para simular um soco. Não sabiam girar o corpo do soldado para que esse realizasse uma cambalhota. Por que eu iria brincar com eles se só serviam para quebrar a dança simétrica que dava graça à batalha? Eu era meu inimigo e herói. Eu decidia o final. E nem sempre o vilão era o derrotado.

Depois de abordar o tema "família", tentou recolher algum fragmento que justificasse aquela amargura. Amargura que exalava de mim desde o início da consulta. Falou do coração. Percebeu que ele estava mais soterrado do que o cinzeiro que me oferecera há poucos minutos. Não fiz questão de esconder. Disse que jamais amaria se o sentimento tivesse que atender a requisitos, fossem eles provenientes do destino ou de qualquer outra força invisível. Fui infantil ao ponto de deixar claro que preferia a solidão do que aceitar um amor morno. Foi então que ele teve a medida do quanto eu menti quando falei da época de criança. Eu nunca quis ser sozinho. Eu aprendi a ser sozinho.

Não se surpreendeu com minha aparência. Não achou nada de errado na minha dieta vegetariana. Drogas? Também não especulou muito. Apenas me alertou que elas só serviriam para me conduzir a um dos diagnósticos mais comuns de depressão profunda: tendência ao suicídio. Engoli suas perguntas e aos poucos me senti bem, pois foi baseado em mentiras que contei que o ego, sempre faminto, ganhou bons quilos. Cada farsa vestira no meu interior uma roupa de festa até então distante do meu orçamento e pior, distante do meu porte físico. Eu cabia em tudo, menos dentro de mim mesmo.

Horas se passaram até que ele finalmente chegou ao seu veredicto. Disse que não seria necessário uma série de encontros. Aquele bastava. Eu já me via sedento por explicações. Abandonei o personagem e todas as defesas. Queria ouvir daquele homem de meia idade, cabelos menos acinzentados do que seus olhos e rosto esculpido em marfim uma cura. Uma salvação ou qualquer coisa que tivesse valido o encontro forçado.

Fitou-me pela última vez e, com a voz fria de quem nada se surpreendeu, surpreendeu-me. Disse, sem rodeios: "Você precisa fazer apenas o que tem vontade de fazer, faça. Seja lá o que for, mas esteja ciente das consequências. Não há outra cura para o desejo, senão realizá-lo. E o seu mal, assim como o de todos os humanos de verdade, é querer."

Tempo insuficiente para que eu conhecesse o melhor psicólogo de todos: eu mesmo.


sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Nigrosina



O cigarro. Mais convidativo que a comida no prato. Era o restante de algo que já havia restado de outros restos, no canto da geladeira – que mais parecia uma gaveta de necrotério. Eu comia pra não sentir dor no estômago, mas ela, a úlcera, explodia da mesma forma. Minha vida patética de escritor só poderia durar o bastante para garantir algumas boas páginas escritas. Nelas, a desgraça de uma vida sem graça. Tão ordinária quanto essa falsa chuva que cai e não mata o maldito calor de verão. 

O livro seria sobre qualquer coisa. Não teria tema. Ou melhor, até tinha, só que ele não justificava a publicação nem mesmo a compra do publicado numa banca falida com cheiro de mijo e luz hepática. Eu estava escrevendo sobre o vício de escrever. Sobre a droga que havia se tornado a tinta da caneta e como o cheiro de papel envelhecido entorpecia minhas ideias. Era o placebo que eu tomava na fé de que fosse mais parecido com veneno do que com remédio diluído no café. Covarde demais para me matar, esperava que alguma força invisível tomasse coragem e fizesse o trabalho. Óbvio que era mais uma esquiva psicológica arquitetada por meus muitos Vinicius. 

Quem escreve é o Vinicius que abandonou a infância aos 3 anos. No dia em que caiu naquele buraco de barro, que viria a ser o futuro encanamento da minha humilde e imunda casa. Caí e lá fiquei. Parado e com medo de que o mundo fosse alto demais para que me aceitasse de volta em sua superfície. Sujo de terra, ralado e, acima de tudo, muito envergonhado. No buraco ficou a criança. Na superfície, a raiva. Foi aí que aprendi o quanto me matava sentir vergonha de mim mesmo. De todas as maldições, a pior delas se fantasiava de “eu” diante do espelho, rindo do que via. Rindo do reflexo pífio de que um dia havia sido o “Vinicius cheio de orgulho”. 

Com o tempo outros surgiram, alguns se fundiram e no final das contas me fiz em dois. Vinicius e Veny. O azedo e o distante. O depressivo e o agressivo. O sonolento e o autodestrutivo. Mas ambos insatisfeitos. Ambos teimosos e relutantes. Ambos desfocados e deslocados. Espectros no cotidiano daqueles que muito fingiam – e fingem - compreender tais entidades.  

Fui lendo muita coisa e aprendendo a me entender em cada fragmento de história. Não havia santo que deixasse de causar em mim a sensação de que ainda havia algo de bom dentro do meu corpo, mesmo com pulmões tingidos de cinza e sangue frequentemente adulterado. E quanto aos demônios? Bem... Todos eles sabiam meu nome, conheciam meu corpo e amaldiçoavam minhas conquistas. Eu os mantinha, pois precisava daquela culpa, da sensação de ser errado mesmo sem fazer nada. Os amaldiçoados são enfermos protegidos pela própria doença. Não morrem. Precisam viver eternamente para sofrer eternamente. Maldição é isso. Aprendi com os humanos. 

O cigarro continua queimando e eu não consigo tragar mais nada... A brisa cortou o apartamento antes mesmo que os vidros cortassem meus dedos. O copo caiu e eu pouco me importei. Dopado pelas frases, deixei que minha atenção continuasse imersa no eterno gozo da composição de parágrafos. Descia de leve a ponta da caneta pelas linhas retas e transformava aquela simetria em curvas úmidas de letras sugestivas. Qualquer palavra se fazia como tatuagem num corpo tímido e desajeitado. Escrevia para sentir os pulsos doendo. Sem cortá-los, sem fazer mais sujeira do que a vodka já havia feito. Por não exalar cheiro, deixei-a ali, marcando o carpete. Encerrando o porre. 

Mais música... sempre peço mais música a mim mesmo. Na adolescência, um dos Vinicius descobriu o peso das guitarras e sutileza pessimista do contrabaixo. Desde então, usou a música como trilha sonora do eterno seriado chamado “vida”. Não ouvia mais as pessoas no trem e ônibus. Encontrou paz num tipo diferente de silêncio. Aquele que se ouve e não se escuta. 

Enquanto terminava mais um capítulo, enxerguei antigos amores perdidos nos recortes e fotografias que a nostalgia havia feito questão de guardar. Abri minha própria caixa de Pandora e dela libertei os males do amor. Amor platônico, um Mefistófeles que habita o coração; Amor Possessivo, rei das moscas que Belzebu mandou para devorar a alegria; Amor Inseguro, travestido de Lilith; Amor Pagão, o Lúcifer que rejeitou as regras da casa, da mãe, do pai, da sociedade e saiu na rua de mãos dadas com Miguel, seu algoz...

 Assim que a inquietação me dominou e não mais sentira vontade de escrever, cheguei à conclusão que há poucos instantes havia fugido das minhas reflexões: agora sim consigo tragar outro cigarro.

domingo, 4 de novembro de 2012

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Esta é a quarta vez que tento iniciar o texto. Escrevo, leio, apago e ainda assim não perco a vontade de escrever. Não sei se é o álcool que começou a fazer efeito... o que sei é que preciso escrever, pois hoje me sinto o homem mais solitário do mundo.

Neste fundo de casa, com paredes velhas e cheiro de antiguidade, exilei-me. A mente se mantém inconstante e os pensamentos ainda insistem em não me respeitar. Sou um estranho dentro de mim mesmo. Tento, com toda a sagacidade que tenho, encontrar saídas para meus devaneios, contudo, permaneço perdido. Percorro minha consciência como se estivesse deslocado. Nada me parece familiar. Nenhum sentimento positivo consegue se manter por muito tempo e, com isso, faz com que tudo pareça apenas mais uma ilusão.

Perdi a vontade de me olhar no espelho. Pouco a pouco destruo meu corpo sem ressentimentos. E a juventude ainda me pertence, mas essa angústia sem nome - tão sem nome quanto o sentimento de amor - retira o semblante do vigor. Sou apenas mais uma criatura. Cheia de ar e não cheia de vida. Cheia de vazio. Cheia de transparência. Sem toque, sem peso, sem cor... Sendo soprado como um balão que há tempos perdeu as mãos de quem lhe dava segurança.

Fora toda essa carga negativa, algumas coisas ainda me fazem pulsar. Sinto como se a batalha não tivesse saído de mim. Olho para a situação do mundo e consigo ter uma ponta de fé. E esta fé não está ligada à religião. É uma crença no próprio homem. Carnal, incompleto, corruptível e carente. Sim, tenho fé nessa criatura imunda e falida, derrotada por si mesma. Acredito que no auge de sua loucura e crueldade será digno o bastante para se anular e fazer de sua espécie mais uma página amarelada no grande livro da vida. Suicídio.

E se a morte não vier pelas minhas mãos...

Vejo alguns casais apaixonados, deixando de lado as chagas do mundo e desenvolvendo a invejável capacidade de negligenciar a decadência do meio social. Individualistas ou egocêntricos, egoístas ou mesquinhos, não sou eu quem vai julgá-los. Afinal, não dizem que só se conhece uma pessoa quando esta tem o poder em suas mãos? O mesmo serve para o amor. Você só vai conhecer a pessoa que está dentro de ti quando o amor envolver sua existência.

Com ele em mãos, o covarde vira valente, o valente chora feito covarde, o orgulhoso implora e o humilde se envaidece. Aquela que sempre nadou na fúria agora levita por entre as nuvens da alegria e o outro que não tinha coragem de explorar as sensações do próprio corpo agora anseia pelas curvas virginais.

O beijo inocente passa a ser quente. O abraço demora tempo o bastante para que as almas se conectem. As mãos fazem o corpo enxergar e os olhos se fecham de prazer. O amor faz você conhecer a si mesmo, como se nunca tivesse se visto antes. Ele muda as funções da mente, corpo e alma. Veja você... somos desconhecidos dentro de nosso próprio "templo sagrado". O tal santuário dado por deus.

É este amor anárquico e destrutivo que me faz ter fé na humanidade. É essa vontade de não ser santo e mesmo assim ser louvado e amado que faz do homem a peça-chave para tudo o que existe no universo. Esses homens e mulheres abençoados pela fênix. Renascem das próprias cinzas e sabem lidar com a finitude do "todo". Destroem para construir. Partem, devastam, morrem, renascem, trazem luz, alegria, calor, vida, para então retornar ao início do ciclo e fazer do fogo o alicerce que sustenta a criação e a aniquilação. Todos filhos de fênix.

Amor que queima, que peca, erra, machuca, carboniza. Amor que reconstrói, que esquenta, que cria. Se o naipe de copas é a verdadeira expressão de tal sentimento - representado pela água - então que o símbolo de paus reivindique sua importância, pois é da tocha da criatividade, imaculada pela chama intensa do saber,   que nasce a vontade dos homens e mulheres. O fogo não foi roubado à toa. Assim como o amor nunca é roubado à toa.

Infelizmente, existem casos em que roubamos, mas não somos roubados. Escolhemos e não somos escolhidos. Amamos mesmo sem sermos amados.

Infelizmente, o verdadeiro amor é assim. Desapego, servidão e solidão. O restante é vaidade.



terça-feira, 23 de outubro de 2012

Desprezo

Vem assim, camuflado de silêncio. Você começa a ficar transparente, vai perdendo a cor, o peso, a própria sombra. De início, busca desesperadamente por alguma forma de manter o pouco que ainda lhe resta, mas só com o tempo percebe que não há mais nada.

Percebi que sua postura estava diferente. Minha presença parecia lhe causar sufocamento. As frases eram curtas e secas, mais secas do que o olhar. Do que o descaso. Em mim apenas jorrava a tristeza que, aos poucos, começou a formar poços e mais poços. Encharcado e distante de mim mesmo.

Não sei lidar com o desprezo. Devolvo no mesmo tom. O tom cinza da indiferença. No começo ela é forçada. Depois se desenvolve feito erva-daninha. Suga o que um dia foi fértil. O que um dia floresceu naturalmente. De terra a asfalto. Do solo ao concreto. Do "só" ao mal "adubado".

Despreza seu sentimento. Renega tua vontade. Mata a sede com arrependimento, que desta fonte não sangra mais amor. Nem mesmo dor. Pisa no sentimento que te ofereceram e mostra o quão vil consegue ser. Nem teu sorriso vai mascarar o egoísmo e medo que juntos maquiam sua simpatia.

E que todo o bem querer que para ti eu guardei se transforme em sal. Tire o sabor, tire o gosto, seque minha boca e não permita que mais nada brote aqui.

De agora em diante, há deserto em mim.


sábado, 20 de outubro de 2012

Ligue

O que aconteceu comigo? O que aconteceu conosco?

Essa leitura é para todos aqueles que, como eu, renderam-se ao álcool e seus efeitos alucinógenos. Simples, para todos os que desistiram ou negligenciaram a realidade, pois dela só tiraram o soro com gosto de fel, sem açúcar, sem sal, tal qual o cinza que mistura todas as cores e elimina o conceito de “quentes” ou “frias”. Uma mancha no céu da boca, tal qual a mancha na alma e no nome, que borra o número do RG e te transforma em indigente. Aquela gente que não pode ser mais gente. Aquela gente que existe apenas para figurar em alguma praça ou esquina.

Só fará sentido se o sangue não abandonar seu dever e conduzir as toxinas para que o fígado as filtre e, depois do esforço hercúleo, seja capaz de apagar os pecados da noite passada, contidos no copo e no corpo. Pecados oferecidos em pequenas doses sem gelo. Só assim, caso contrário, o que restará é o arrependimento. A culpa por não ter chegado ao fundo do poço, do copo, e lá ter encontrado uma justificativas para suas ações estúpidas e moralmente imorais.

Corra, ligue, erre o número pela primeira vez, acerte na quarta, fale “Oi, tudo bem?” e depois dê seu endereço. Aguarde a chegada e ignore a partida. Faça dessa noite eterna. Faça dessa noite a última noite dentre as muitas noites que iniciaria se tivesse coragem suficiente.  Vai menino. Corra menina. Que ninguém está aqui para esperar por vocês. Ou por sua “coragem”.

Coração é um só. Assim como o corpo inteiro. Então os gaste. Faça isso por você. Jure para qualquer entidade que tal oferenda será capaz de apagar todos os erros cometidos ao longo do caminho. Os santos só são santos porque você erra. Porque você é incompleto ou imaturo. Em outras palavras, só são santos porque você é pecador. Então, pra que esperar? Pra que se limitar? Faça, erre, e um dia – quem sabe e se quiser – você possa começar a acertar?

Está com vontade de ligar para uma pessoa querida? Ligue. Está com vontade de ter os beijos de um antigo romance mais uma vez grudados aos seus lábios? Ligue. Quer se declarar para quem já disse mil vezes que não te ama? Escreva. Acha que nada aqui vale à pena? Então desligue... Para ligar novamente. Eu sei, você sabe, ele sabe, ela sabe, nós sabemos, vós sabeis, eles sabem, elas sabem que você ligará novamente. 

domingo, 14 de outubro de 2012

Livre

Eu sempre quis ser livre. Quando criança, gastava horas e horas imaginando um mundo em que fosse possível voar, respirar debaixo d'água e andar sobre os rios de lava. Queria sentir como se fosse possível estar em todos os locais, não ao mesmo tempo, mas a qualquer hora.

Perto da adolescência, conheci a liberdade nas ruas asfaltadas. A liberdade nas calçadas cheias de amigos e risadas. A mesma liberdade que fazia com que a bola rolasse para dentro do gol sem nenhum obstáculo. Já na escola, não estava tão solto assim. Porém, conseguia me distrair como pouco de "fuga" que me restava. Eu escrevia e desenhava muito. Tanto quanto estudava. Melhorei minha escrita e os traços. Também me sentia livre quando corria em direção ao gol e, após ter dado os "três passos", saltava com a bola presa pelos finos dedos. Gol. Por alguns segundos voltava a ser criança e voava naquele mundo que tanto envolveu meus sonhos.

Foi então que descobri o amor e a liberdade deixou de existir. Fui pego pelas vinhas do sentimento e amarrado a um emaranhado de sensações até então desconhecidas. Só pensava na mesma pessoa. Acordava e dormia pensando nela. As rezas clamavam apenas por seu carinho. Era assim, esqueci de voar... de respirar submerso... de caminhar pelos lagos em chamas.

Só consegui me libertar depois de ter expelido todo o veneno em lágrimas e noites perdidas. Aos poucos, reconstruí a mim mesmo, mas a partir daí aprendi que tal situação voltaria. Cedo ou tarde ela voltaria. Ou ele, de repente.

Cresci. O dinheiro veio. O trabalho veio. Uma nova vida, vivida à noite. Encontrei outra forma de liberdade. Ela vinha em estado líquido. Nem sempre tinha um gosto bom, entretanto causava um efeito viciante. Relaxava os músculos do corpo e da mente. O coração perdia o compasso assim como os pés. Libertava como nada havia me libertado antes. Eu sorria por qualquer motivo e, nos instantes em que buscava o exílio dentro do quarto, chorava de soluçar. Deixava fluir e, mesmo acordado, eu sentia o corpo flutuando... via tudo lentamente como se estivesse debaixo d'água e meu peito queimava de calor, envolto em uma densa capa de magma.

Mas a liberdade tem asas justamente para poder partir a qualquer instante. E assim ela se foi. Deixou apenas as marcas nos braços e fortes dores. Encheu meu estômago de fome e estourou feridas nos lábios. Voltei a ficar preso. Preso pela saudade de tê-la novamente. De tê-lo aqui novamente, deitado no chão, olhando para o teto. Eu e ele, achando que o mundo era pequeno demais para nos fazer livres.

Após um longo período perdido nos labirintos criados pelos meus próprios desejos, encontrei a estrada que me guiaria até o infinito. De primeira foi difícil aceitar a finitude. Refletir sobre a morte e suas implicações. Ou melhor, as implicações que surgem antes de se alcançar o suposto descanso eterno. Eu estava em uma fase que bastava estar vivo para sentir um gosto amargo na boca. A angústia sem nome me corroía sem piedade. Falar, comer, tomar banho, acordar, andar, assinar, acessar, escrever, estudar, escutar... tudo era um martírio. Templo nenhum seria capaz de me libertar. Foi então que assumi um desejo oculto por muito tempo, mas que precisava ganhar espaço dentro de mim. Decidi que se o sofrimento ganhasse um peso insuportável eu mesmo colocaria fim em tudo. Encontrei aí mais uma parte da liberdade.

Livre. Escolhi as cores mais vivas. Queria que seu olhar fosse profundo e calmo. Verdes. Ela precisava manter aquele "tom" latino que expira emoção sem precisar de movimento algum. Rosas, também precisava de rosas. Sentei na cama e lembrei que há liberdade na morte. Há liberdade na falência e na desistência. Há liberdade na falha, na derrota e na ruína. A agulha rasgou minha pele e, a cada segundo, deixava uma trilha de tinta e sangue. Curvas e mais curvas, até que seu rosto começou a ganhar forma. Doía. A pele morria, o sangue jorrava e, de certa forma, eu deixava para trás a vida e suas regras. Morria ali obrigação, a prestação de contas, a normalidade, a aceitação. Morria para libertar. Livre. Até que a morte me prepare.

Até que a liberdade me separe.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Pegadas

Depois de muito tempo, o garoto viu o dia amanhecer. Seu corpo estava cansado e a mente distante. Mas os olhos lhe fizeram prender a atenção no vasto horizonte, tão desconhecido quanto o sentimento que se expandia dentro do peito.

Esqueceu da fome e do frio. Umedeceu os lábios com o pouco de saliva que ainda lhe restava e respirou profundamente. O perfume da terra devolveu aos limitados pulmões a vitalidade que há tempos havia abandonado aquele pequeno corpo. Neste instante, percebeu que o passado nada mais é do que a chance de modelar tudo o que um dia aconteceu, e que hoje pode ser apresentado de uma forma diferente. Mais leve ou mais pesada. Ele não apresentou nada. Escolheu fazer de seu passado apenas passado.

A grandeza do presente tirou de suas costas o peso do mundo. Deu-lhe alguns instantes de paz. Era a desordem em seu coração encontrando o equilíbrio com a organização da mante. Deixava de ser um para integrar o todo. Perdeu o nome. Era apenas ele, "eu" e também "você". Transbordou de si mesmo. E se em algum momento não foi ouvido por quem o rodeava, agora tinha a chance de falar. E falou.

"E que neste caminho encontre o novo dentro do novo. Que cada passo faça valer toda a carga que carreguei. Em silêncio, fiz minha reivindicação. Em silêncio, abaixei minha cabeça não para expressar submissão, mas para que meus ouvidos ganhassem o lugar da boca. Em silêncio, pus-me de joelhos não para implorar, mas para descansar os pés que conheciam mais a leveza do ar. Fiz o que senti que deveria ter feito, com toda a dor que me era de direito.

Olho para esta linha dourada que corta as montanhas e sinto que nada foi em vão. Na busca pela minha utopia, encontrei o que havia de mais valioso no caminho: o caminhar. Andar é escrever com pegadas as muitas linhas desta página em branco, chamada por muitos de "vida". Cada passo, um compasso novo para as batidas do meu coração. As lágrimas imitavam a chuva: lavavam meu rosto seco, enquanto dos céus caía a benção da terra. Mas em dias ensolarados eu também chorava. Eu também chovia. Entretanto, o que se formava era uma mar de alegria sobre a fina areia que tinge minha pele com um tom amarelado. A maré subiu. O rio se formou após o banho pluvial. Havia - e sempre houve - água o suficiente para me ensinar que "transbordar" é necessário. Traz vida para quem já vive e viveu demais.

Cansado, mas satisfeito. Contente por ter negado todos os pedidos de morte que minha mente fez ao restante do corpo. Porém, sei que este desejo fúnebre ainda habita o meu ser. E também sou feliz por isso. Sinto que ele me traz a noção da finitude. Risca o contorno que define até onde vai a existência e até onde deve ir a insistência. Foi assim que aprendi a deixar pelo cominho tudo aquilo que não entendia o fluxo natural do tempo.

É... é bem isso mesmo. A gente vive pra se desgastar ao longo do caminho. Vive para morrer mesmo. Morrer e deixar pegadas. Não para que os vivos as sigam, mas para que contem diferentes histórias sobre quem as deixou ali.

Como uma sábia mulher me disse em tempos de partida: 'A gente só vive pra sempre na mente de quem nos ama'.

Depois de muito tempo, vivi o amanhecer."

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Rejeição

Meu rosto estava queimando, mas as mãos e estômago gelavam. Aproximei meus lábios, fechei os olhos e, quando senti o contato, percebi que minhas pernas tremiam. Envolveu a língua e apresentou um novo sabor. Desceu rasgando pela garganta. Segundos depois, meu coração - que até então batia desesperado - começou a acalmar. Um gole. Apenas um gole tomado com gosto.

Eu quero tantas coisas, mas tantas coisas, que às vezes não encontro mais espaço para pedidos. Peço para qualquer um que consiga ouvir meus pensamentos. Peço pra mim mesmo, na verdade. Só que sempre são coisas impossíveis de serem compradas numa loja ou em qualquer outro lugar. Essas coisas são intocáveis e, por isso, vejo-as como as mais belas.

Recentemente conheci a rejeição. A priori, parecia apenas uma distração. Transição do "não" para o "sim". Mas com o passar dos dias entendi que não se tratava de outra fase. Ela se fez insistente, tal qual a tristeza. Não consigo aceitá-la. Muito menos compreendê-la. Só que, por incrível que pareça, sinto-me incapaz de eliminá-la. No máximo, deixo que se dilua nas entrelinhas.

Quando alguém devolve o seu amor, o corpo se nega a aceitar tal sentimento de volta. Imagine que uma rosa foi retirada do jardim e colocada num arranjo para então ser entregue à pessoa amada. No instante em que ela (ou ele) avista a flor, não esboça nenhuma reação e simplesmente recusa o agrado. Como esse delicado ser iria voltar para seu local de origem? Como se prenderia novamente à essência que lhe concebera? Impossível. Utópico.

Cada palavra que li parecia ultrapassar a alma. Letra por letra, fui absorvendo os impactos sem emitir som algum. Sem gritar ou morder os lábios. Tudo porque fui incapaz de me mover. Moviam-se apenas os olhos. Nem lágrimas fluíram. Descia pela garganta cada rosa que entreguei. Descia uma a uma, com seus espinhos.

E como colocá-las novamente no coração? Como dizer a mim mesmo que o sentimento não foi bom o bastante e era preciso encaixar novamente cada fragmento dele? Impossível. Utópico. Mas real. Real porque doía. Porque ainda dói.

Entreguei-me aos beijos de minha própria boca. Fiz dela a entrada para a saliva aditivada, densa e licorosa proveniente do álcool. Matei a sede da tristeza, não a minha. Deixei que o corpo fosse hipnotizado pela falsa - porém maravilhosa - sensação de que o peso do mundo não se hospedava em minhas costas. Principalmente no meu âmago.

Vivia por questão de sobrevivência. Reneguei qualquer tentativa de evolução. Nem mesmo lembrava de quem fez pouco caso do meu bem-querer. Voltava a guerrear comigo mesmo sem esperança alguma de que tal batalha chegasse ao fim. Fim para quê? Se o que mais precisava era uma chance de começar. Construir, entende? Não. E se entende, nega-se a admitir.

Rejeição... a ruína de si mesmo tecida em palavras que nunca abandonarão sua memória. Rejeição, a rosa que perdeu a glória ao sair de seu jardim. O amor cujo perfume se tornou inodoro.

Rejeição.