sexta-feira, 16 de março de 2012

Dois dias



Eu poderia ter evitado logo de início. Eu sabia disso. E por este motivo não evitei. Considero importante saber a respeito daquilo que posso ou não fazer. Mas acredito ser fundamental a utilização da autonomia que me permite escolher o contrário. Eu tive tudo em dois dias.

Toda a atenção que sempre desejei e que não era fruto de interesses mesquinhos. Aquela que te faz existir dentro de um mundo que não é o seu. Você mantém o nome, mas perde todos os outros títulos que lhe deram. A necessidade de manter aquele contato sem toque, invisível e distante, fez de mim um poço de esperanças tolas. Ganhar uma barra de chocolate com sabor de vida. Ganhar sabor para temperar a vida insossa.

A voz quase muda e o jeito cuidadoso de escolher as palavras enfeitiçaram meus ouvidos. Eu queria escutar a todo o momento. Como se adentrasse em uma dança desconhecida esperei por alguém que fosse capaz de me conduzir. Dancei por dois dias. A valsa mais bela de todas. Aquela que não precisa de música.
Dois dias para ter o coração cheio novamente. Três para senti-lo vazio. O que eu teria dito, mas não disse? Certo:

“De repente, a folha com o plano prescrito pelo destino entrou em autocombustão. Vou resumir: tínhamos pouquíssimas chances de nos encontrarmos nesta situação. Mas cá estamos. Confesso que de início desconfiei bastante. Mas quis ver até onde iria tal atitude. Vi. E talvez fosse melhor nem ter visto. Na verdade, o problema foi ter sentido.

Desde a timidez até o chocolate, sabia que meu coração já estava partindo para outro caminho. Mas o que posso fazer? Eu sou assim, censurado pelo próprio silêncio e falta de fé em si mesmo. Deixei que seu sorriso partisse por medo de prendê-lo e nunca mais poder compartilhar daquela leveza espontânea. E jamais saberei o que, de fato, você sentiu por mim.

Obrigado por estes dois dias. Você foi o melhor.”
O que eu teria dito, mas não disse. No longo espaço entre um dia e o outro. Entre meu coração e o seu.

segunda-feira, 12 de março de 2012

A morte em tudo

Pessoas em meio ao apocalipse. Mortas. Dinossauros. Mortos. Galhos de "dama da noite". Mortos. Avó. Morta. Animais em páginas de enciclopédias. Mortos.

Hoje, lembrei-me de quando era criança e desenhava o apocalipse na contracapa dos livros. Era sempre a mesma imagem: um tornado gigante sugando tudo à sua volta e meteoros caindo do céu. Pessoas sendo carbonizadas e animais dilacerados. Para mim, a coisa mais normal de todas. Mesmo que não soubesse de onde vinha tal inspiração.

Também recordei dos dias em que eu arrancava pequenos galhos de uma "dama da noite" e os usava como personagens de alguma aventura. Geralmente, eram sereias que tentavam fugir do seu reino. Depois de escaparem eu as congelava em um copo de requeijão. Só as libertava no dia seguinte. Era a primeira coisa que eu fazia ao acordar. Ia até o congelador, pegava o copo, deixava-o debaixo d'água por alguns minutos e depois ficava observando o gelo se desfazer e a sereia ressurgir. Sempre fiz tudo isso sozinho e sem um motivo. Até tinha um. Eu gostava.

Adorava as enciclopédias de mamíferos dadas pelo meu pai. Naquela época eu não sabia ler. Mas observava as ilustrações de animais e ficava deslumbrado. Aos poucos, fui fazendo relações com a posição dos desenhos nas páginas e descobri do que cada animal de alimentava, qual eram os seus predadores e onde viviam. Aprendi o nome de todos, pois pedia que minha mãe os lesse. Em um dos meus aniversários, sentei com os amigos da minha prima - muitos mais velhos do que eu - e comecei a falar de cada criatura que habitava aquele livro de capa dura. Eles riam de mim. Eu não ria, apenas falava sobre alimentação, insetos consumidos, habilidades específicas...

Num dia chuvoso, minha avó me convidou para passear no centro da cidade. Eu adorava aquele lugar. O cheiro era diferente. As pessoas e os sons também. Tudo era enorme e velho. Muito cinza, azul, preto e verde escuro. Cores que gosto muito. O frio era grande e eu estava mais contente ainda. De mãos dadas, passamos por uma praça. Nela, muitas pessoas tentavam vender artesanatos e utensílios. Foi então que eu vi a coisa mais magnífica daquele tempo: um boneco de Tiranossauro Rex. Fiquei paralisado, olhando para aquele brinquedo incrível. Pedi com os olhos. Ela me entendeu. Ela sempre me entendeu, até mesmo no último encontro, quando lhe disse que não estaria em seu velório. Ela sorriu e partiu naquele mesmo instante. Jamais perderíamos a chance de nos despedirmos.

Eu dormia com aquele boneco. Tomava banho com ele. Mas diferente de outras crianças, eu não esqueci dos brinquedos mais antigos. Todos deveriam se reunir quando o novato chegasse para desafiá-lo. Geralmente, o forasteiro vencia a primeira batalha. Mas esta era a única "vantagem". Depois tudo voltava ao normal.

Desde pequeno eu era perfeccionista. Um defeito mínimo na pata esquerda do Rex me fazia gostar bem menos dele. O do meu irmão, como sempre, estava perfeito. E como sempre ele nem ligava para o objeto. Por questão de orgulho eu nunca quis trocar o meu pelo dele. Só por orgulho mesmo.

Depois minha avó me presenteou com fantásticas serpentes venenosas feitas de borracha e com um arame na parte interna. Assim, era possível modelar seus corpos esguios. As bocas eram abertas e pintadas de vermelho. Lembro-me da minha favorita: a coral. Eu simplesmente não permitia que ninguém brincasse com elas. Também tinha uma naja, mas esta passava a maior parte do tempo com meu irmão. Ele as queria apenas para não se sentir fora das brincadeiras. Ainda assim, eu passava meu tempo sozinho.

Certa vez, enquanto passava a noite na casa da minha tia, pensei sobre algo que até então não existira para mim: a morte. Perguntei para ela se as pessoas morriam. Sem pensar duas vezes, respondeu-me com um "sim" natural e tranquilo. Ainda insatisfeito, questionei se eu também morreria. E ela repetiu a resposta, desta vez complementando com a afirmativa de que todos nós morreríamos um dia. Tive certeza que neste instante a tristeza dominava meu ser. Tudo o que eu tinha feito até então estava sujeito à morte. Ao desaparecimento completo e anulação.

Nunca imaginei que hoje a morte já não seria mais um problema e sim a solução. Entendo a tranquilidade que envolveu aquele "sim" tão marcante. O Vinicius havia morrido naquele instante.

domingo, 11 de março de 2012

Low-fi



"Você é uma pessoa muito especial, como um irmão para mim. Só."

"Percebi que você estava gostando de mim, mas tive medo de falar alguma coisa e te magoar. Sabe como é."

"Você é uma pessoa para se ter algo sério e duradouro, entende? Só por isso não podemos ficar juntos."

"Você não aguentaria meu gênio e nós travaríamos uma briga por dia. Não acha?"

"Isto é o máximo que posso lhe oferecer. É o meu melhor."

"Também quero as mesmas coisas que VOCÊ. Mas ainda não encontrei alguém para compartilhar isso".

"Ainda estou fortemente ligado a outra pessoa. Não consigo superar isso e, consequentemente, não estou no momento certo para me relacionar com você".

"Acho que vai estragar nossa amizade."

"Quando você fizer 13 anos nós vamos namorar. Até lá, você terá mais mentalidade."

"Encontrei alguém que não fala de assuntos complexos, que não tenha interesse pelas coisas que eu me interesso. É bom, porque assim eu posso cuidar dele."

"Você vai encontrar alguém que mereça seu sentimento. Eu não mereço."

"Não posso entrar num mundo que mal conheço. Se eu acordar do sonho, o que terei de real?"

"Quem sabe um dia? Muita coisa pode acontecer. Hoje não."

"Eu quero ter uma família mesmo, entende?"

"Você tem que sair e conhecer novas pessoas. Certeza que vão se apaixonar pelo seu jeito de ser. Eu não me apaixonei, mas o problema está realmente em mim, acredite."

"Não sei o que você viu em mim. Certeza que poderá encontrar algo melhor."


"É isso. Boa noite. Nos falamos depois."


Por amor, compreendi todas elas.

quarta-feira, 7 de março de 2012

As três lágrimas de Lúcifer

Não sei como nasci. A primeira lembrança foi a voz Dele dizendo-me como abrir minhas frágeis asas. Sua paciência era inesgotável. Ao meu redor, os muitos irmãos e irmãs. Miguel ria do meu jeito atrapalhado. Eu ria de seu sorriso cativante. Suas quatro asas eram fortes e pareciam ter vida própria. As minhas seis eram pesadas e lentas. Mas tinham sua beleza.

Fui apresentado à música. Cada som parecia preencher a minha existência. Em pouco tempo, ele me escolheu como o maestro celestial. Agradeci.

Miguel gostava de treinar com as espadas. Eu também. Enquanto Ele nos ensinava a empunhar tais armas, imaginávamos nossas futuras armaduras. Novamente, era eu o atrapalhado. Durante as tardes, Miguel treinava outros movimentos e eu tocava lira, inventando notas e conduzindo o som por vias desconhecidas. Enquanto isso, Ele nos observava orgulhoso.

Fomos levados até o mundo material. Não podíamos tocar em nada.

Ele pediu para que ajudássemos a organizar os elementos e posicionar as montanhas. Passamos dias neste processo, até que recebemos o chamado para retornar.

Ele nos banhou com amor e carinho. Causou-nos uma felicidade descomunal. Afastei-me por alguns instantes e pela primeira vez me senti só. Estava comigo mesmo, apenas. Foi neste instante que o sorriso abandonou meu rosto. Percebi que o festejo era a recompensa por uma tarefa realizada, e que se eu não tivesse executado tal função talvez não fosse um dos que ali se esbaldavam na bonança. Quis sumir e foi o que fiz.

Desci até o mundo. Cuidadosamente, deixei que meus pés tocassem o chão. Senti. Nunca havia sentido com o corpo antes. Então, a primeira lágrima escorreu.

Aquela pequena gota refletia o luar. Fiz com que flutuasse entre minhas mãos. Jamais imaginei que fosse capaz de materializar algo. Por que fui privado disso?

O líquido tocou meus dedos e o levei até a boca. O incrível aconteceu. O sabor me foi apresentado. Subitamente, a gota mudou de cor. Tornou-se vermelha. Seu gosto era outro também. Metalizado. Sangue.

Quando a língua terminou sua degustação, algo estranho aconteceu. Uma brisa cortou minha pele e tremi com força. Estava com frio. Em seguida, a fome. Comi de tudo. E senti prazer. A fome é capaz de lhe causar desejos e estes só são saciados com o prazer. Era magnífico. Senti que a vida finalmente me dava à luz. Eu, a estrela da manhã, brilhei com minha própria luminosidade. Era hora de retornar. Subi. Mas já não era mais o mesmo.

Pela manhã, abri minhas seis asas e anunciei o começo de mais um dia. Trouxe a luz pura de amanhecer. Na hora da primeira ópera, toquei o mais belo ode de todos e Ele chorou, assim como Miguel. Mas foram choros diferentes. Miguel me admirava enquanto Ele sentia pena de mim. Naquela manhã não nos falamos.

Fui praticar com Miguel em campo aberto. Empunhando nossas espadas – já com as respectivas armaduras – demos início à batalha.

Miguel investia contra mim, usando toda a sua força. Mas eu já não era mais o mesmo. Com um único movimento, arremessei seu corpo para longe e no mesmo segundo estava sobre ele. Olhei profundamente em seus olhos até encontrar aquela criatura amável e submissa. Ele, a lebre e eu a serpente albina.

Alguma coisa batia forte e ritmada por debaixo do peito. Só conseguia pensar em Miguel. Queria senti-lo, da mesma forma que senti a lágrima na noite passada. Mordi a ponta de minha língua. O líquido vermelho começou a fluir. Queria que ele sentisse também. Lentamente, fui aproximando meus lábios dos dele e quando o toque dependia apenas de mais um segundo, uma força puxou minhas seis asas e as jogou ao ar. Ele mostrou-se furioso, como nunca tínhamos visto antes. Era fúria. Senti o mesmo.

Olhei para o chão e vi que mais uma lágrima havia caído. Esta era de raiva. Miguel voltou para o grande jardim e eu resolvi andar pelo mundo. Desci. Mas já não era mais o mesmo.

Estava confuso e só queria alimentar minhas necessidades. Senti muito frio e aquela fina túnica não era suficiente. Encontrei uma criatura. Ele havia começado a criá-las. Chifres chamativos e uma pelugem macia. Algo estimulava minhas mãos. Empunhei a espada e perfurei sua carcaça. Cobri-me e então pude partir.

Lá, todos me olhavam com curiosidade. Tapavam a boca. Miguel veio até mim e me deu um forte abraço. Pouco se importou com minha aparência. Juntos, fomos até Ele. Lembro-me da pele de bode sendo transformada em cinzas. Nu e com uma sensação ruim, lidei com a vergonha pela primeira vez. Miguel cobriu meu corpo e desapareceu com Ele.

Voltei para mundo e lá passei dias e dias refletindo sobre tudo o que havia acontecido. Por que estava sendo tratado daquele jeito? Por que não me era permitido perguntar? Por que fui privado de todas aquelas sensações? Por que não podia amar Miguel ao meu modo? Endureci.

Quando retornei, chamei muitos e a eles fiz as mesmas perguntas que eu havia feito anteriormente. Alguns praguejaram. Outros me apoiaram. Propus que todos fossem ao mundo para experimentar o que eu havia vivido. Só assim me compreenderiam.

Antes de chegar aos limites do campo, uma legião se pôs diante de mim. Sabia o que aquilo significava. Empunhei minha lâmina e abri caminho. Em seguida, estiquei minhas asas e todos caíram de joelhos. Foi então que Miguel apareceu.

Eu já conseguia criar minha própria luz, sem que “ele” me alimentasse. Miguel estava frio, mas os olhos chafurdavam nas chamas. Atacou-me.

Só podia me esquivar, e assim continuei até que ele me perguntou: “Por quê?”. Só pude responder: “Porque te amo, mas não tanto quanto a mim mesmo”.

“Ele” tentou intervir e passou a queimar meu corpo. Mais uma vez abri minhas asas e afastei sua mão invisível. “Ele” apenas disse: “Veja o que você fez com Miguel”. Dilacerado, ele havia protegido seu criador e agora estava prestes a desaparecer. Desespero.

Atirei-me sobre seu corpo, abri as seis asas, mordi meu pulso, aqueci meu sangue com ma mais pura alquimia até que se transmutasse em prata e o depositei no peito de Miguel. Ele despertou e, sem exitar, perfurou meu corpo. Olhei profundamente em seus olhos e a última lágrima caiu. Tristeza. Fugi, mas não de mim, afinal, já não era mais o mesmo.

terça-feira, 6 de março de 2012

A dança



Ficar em casa. Dentro do quarto. Dentro da zona de conforto. Não sair e nem atender ao telefone. Estes eram meus planos para o domingo. Mas como bem sei, planos só servem para serem destruídos. Quando percebi, já estava passando a chave na porta e ajeitando os óculos.

Caminhei pelas ruas do bairro. O frio tirava as pessoas do caminho e só assim eu conseguia enxergar as belas árvores nas alamedas. Passei diante de uma casa velha e na varanda um garoto me observava. Seus sapatos verdes com detalhes em marrom me lembraram das árvores que há pouco tinha visto. Com seu pequeno violão, tocou algumas notas e cantarolou qualquer coisa. Fingi não ter visto e segui mais adiante. Subi algumas ladeiras até chegar à praça. Tudo vazio, menos eu.

Senti os passos atrás de mim e quando me virei, o garoto estava lá. Sorriu e se convidou. Havia planejado caminhar sozinho, mas como disse os planos só... Ouvi suas notas por muitas horas. Quando voltei, os ouvidos já não eram mais os mesmos. Algo os tinha atingido.

Outro domingo, e desta vez fiz diferente. Havia uma festa para ir então fui. O plano era evitá-la, mas... Enfim. Ao chegar no local, todas as pessoas mais populares se arrastavam pelos cômodos, como se buscassem algo fundamental para as suas vidas. Anos mais tarde eu descobriria o que era tão importante.

Sentado e afogado na bebida, olhava o chão para conseguir manter o mínimo de foco. Foi quando avistei aqueles sapatos que me faziam lembrar de hortelã e dias chuvosos. Músicas irritantes, as vozes agudas, não. Eu queria o grave de um baixo, o clima tenso de um fundo de bar e a paz daquele sorriso. Os olhos eram sempre os mesmos, mas lá no fundo havia algo de diferente.

Saímos daquele inferno e fomos buscar nosso próprio purgatório. No telhado da casa, saquei do bolso um player de música e dividi o fone. Suavemente, meus braços foram encostando-se aos dele. Quase perdi o equilíbrio, mas sua tranquilidade me conduziu com segurança. Foi então que a melodia envolveu toda aquela atmosfera. E o céu sobre nós converteu-se em inveja. Fomos banhados pelo luar e os olhos estáticos cintilavam como nunca. “Quer dançar comigo?”. Sim.

Mirou os ouvidos, mas acertou meu coração. Era a última dança. A última música. A última chance. Foi tão simples. Dançamos sobre os corpos esquálidos dos que nunca entenderiam aquele momento. Dois para cá e sete bilhões para lá...

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Meu rio



Naquele dia, a chuva queimou como fogo. Caiu sobre meu rosto e se misturou ao sal das lágrimas. Ganhou peso quando encharcou o peito e calou os ouvidos com o estrondo de cada gota. A chuva, que nunca havia me sido tão agressiva, mostrou-se mais viva do que meus olhos. Eles ardiam tanto que eu já nem sabia mais se o que via era apenas mais uma distorção causada pelo calor.

Mas não me movi. Recebi cada pingo, estático e firme. Cerrei os lábios com força. Os punhos imitavam tal postura. Fechado. Lacrado dentro da minha própria angústia. Vi a mente se render à tristeza imediata e não lutei. Já me bastava resistir àquela chuva intensa.

Não havia mais cordão umbilical. Não havia mais ligação alguma. Abri o coração até que seu tecido rasgasse nas mãos de outra pessoa. Abri não com esperanças, mas como forma de alcançar um estado de paz maior. Sim, abri com esperanças. Muitas, inquietas e insatisfeitas. Ansiosas, como se a existência do meu ser dependesse dos seus desejos atendidos. Morremos, mais uma vez.

Não cedi. Não corri nem berrei. Aproveitei que a água camuflava o choro e chorei. Mais do que a própria chuva. Fiz um rio e no fundo depositei cada fragmento do amor que havia se estilhaçado. Não consegui deixar que a correnteza os levasse. Só queria que se tornassem inacessíveis. Foi o que aconteceu.

Bati o pé, tentei invocar a raiva, mas só meu veio a imagem daquele rosto tão sereno. E os olhos marejados perfuravam ainda mais minha alma. Entendia cada palavra, mas lançava ao labirinto qualquer explicação que buscasse desviar ou condicionar a minha maneira de gostar. Pois gosto tanto, ainda, mais do que gostaria. Não faltava mais ar. Faltava metade do meu coração.

Vejo-me aqui, parado no meio da tormenta. Castigando a pele na tentativa de atingir a essência. Cavando o peito, ignorando a dor. Mas dói. Muito mesmo. Dói tanto que chego a perder a sensibilidade. De repente, tudo escorre. Por entre meus dedos sinto vazar o que sobrou de mim. Deixo ir. Ainda queimando, olho para o céu e aquele vermelho tortuoso começa a enfraquecer.

Ensopado, quente, ferido, firme, em silêncio, parado, insensível e amando com mais força ainda. Não era para ser assim, mas quem disse que seria fácil?

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Úmida



Ascendeu as velas e me pegou pelas mãos. Lentamente, conduziu-me até a porta, sem tirar os olhos dos meus. Amortecidos pelo álcool e 1/4 de ácido, caímos antes mesmo que o mundo começasse a pesar nas costas.

Sempre fui inseguro nesse sentido. Todos os assuntos da mente e da razão eram resolvidos com maestria, mas quando se tratava do corpo... Subestimava sua capacidade. Hoje pago por isso. Hoje não mais.

O calor crescia e a respiração mudava. O coração, acelerado como um cavalo selvagem, clamava pelo toque. A pele se mostrou receptiva, sorriu para os dedos e aos poucos foi se tornando úmida.

Os lábios faziam estalar minhas orelhas, segundos antes de alcançarem a língua. Entrelaçadas, dançavam como se fosse a última valsa. Cedi, fiz questão de demitir os nervos e músculos tensos. Como se tivesse encaixado perfeitamente em mim, o outro corpo transpirava o descontrole.

A cada segundo, os movimentos ganhavam mais velocidade. Anestesiado, olhava para o teto em busca do nada. Finalmente, a mente havia partido. Os sussurros no ouvido também não diziam nada. De repente, reagi.

Joguei o peso para o lado e prendi os braços com minhas mãos. Imóvel, aceitou minha investida e abriu os selos de seu corpo. Cheguei até sua alma e lá depositei uma parte da minha.

Fim de noite. Começo de dia. Meio de vida.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Cocaína e Cristo



Camuflava-se entre os ratos. Confortavelmente, traçava uma linha fina e branca, com cuidado para não desperdiçar nenhum grão. Nem fome, nem sono. O rastro era químico e nada espiritual. Uma curta estrada até o topo da montanha escondia os anos de peregrinação que lhe custariam a vida. Aceitou a cruz. Inalou os pregos.

As unhas imundas raspavam a parede com cheiro de urina. Tudo estava em evidência. Solidão, desgosto, libido, decadência. Amplificavam-se ali os ruídos. Anulou-se, mas o mundo continuou preso ao seu calcanhar, como uma bola de ferro. Os ratos estavam caminhando de maneira caótica. Isso o irritou. Curiosos, eles o observavam. Alguns pareciam lamentar e sofrer com a cena peculiar. Uma criatura tão grande e auto-suficiente, abençoada com uma inteligência superior, ali, jogada na poeira de ossos.

Foi erguido. O peso do corpo se desfez. Apenas a sensação dos pregos percorrendo as veias rumo ao coração. Não se lembrava de nome algum, logo, era incapaz de clamar pela misericórdia alheia. Os ratos não entendiam sua língua.

Sangue escorrendo, silêncio. Levantou-se e decidiu procurar um abrigo. Aos poucos, foi se esgueirando – com o corpo magro e debilitado - até entrar naquela enorme porta entreaberta. Um templo distante do tempo. Dentro, o forte cheiro de cera cortou suas narinas. Feridas, ardiam como se chamas entrassem sem aviso. Os pulmões lutavam como cavalos. E a mente já havia partido.

Caminhou por alguns minutos, tentando reconhecer o local. A escuridão privava os olhos daquela criatura deslocada. De repente, viu aquele homem preso a uma enorme haste de madeira. Os joelhos magros possuíam feridas abertas e na cabeça, o adorno de espinhos. Parecia distante de tudo e todos. Olhar focado no nada. Pequeno e reduzido a condição de rato, não compreendia aquela cena. Nem mesmo entendia o porquê daquela criatura sufocada dentro de si mesma, presa por falsas asas douradas e circulada por crianças seminuas.

Percebera que o homem no topo do mundo estava condenado à eterna condição de vítima. Que apenas o sofrimento lhe valeu o título que carrega até hoje. Percebeu que a fuga estava naquela situação e que sentir dor parecia ser a única prova de que o caminhar não foi apenas mais uma volta ao final da tarde, mas sim a peregrinação dos involuídos.

Diante de si mesmo, aceitou a cruz e recebeu os pregos. O pequeno rato, invasor e aflito, imaginava quem estaria acima de tudo isso. No mínimo, outro rato, subalterno de outro rato, que não entende a língua dos outros ratos. Mas que vive sua eterna fuga. Sua eterna busca por pregos que consigam o deixar acima dos demais ratos. Erguido pela dor. Admirado pela dor. Lembrado pela dor. Mas esquecido por si mesmo.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Imersão Emersão



Imersão. Não basta afundar sua cabeça debaixo d’água. É preciso se afogar na própria alma. Vasculhar cada canto do corpo em busca de algum sinal vital. Entregue-se sem resistência. Só assim vai experimentar a sensação de leveza que lhe foi prometida desde o nascimento.

Quando a tristeza se instala no corpo, parece arranhar a pele por dentro. Risca os músculos sem considerar a dor. A tristeza tem esse dom. Camufla a dor. Acumula o sofrimento para que este seja despejado de uma só vez. E quando isso acontece, seus olhos são os primeiros a lhe trair. Você não consegue enxergar através da camada espessa criada pela angústia. Ainda que as cores estejam presentes, o buraco negro deixado pela ausência de alegria suga qualquer tom, no intuito de preencher-se novamente.

Lidar com o amor não é diferente. Ao invés de arranhar, ele pressiona o peito com uma força colossal. Parece nunca estar satisfeito com o tamanho do peito que lhe abriga. Inquieto, desconfortável, sempre vaza do coração. Sempre transborda. E quem surge para recolher seus excessos é justamente a melancolia. Aquela que sofre pelo amor, em silêncio, e se torna escrava de uma persistência doentia.

Tal carga sentimental e antagônica compõe o que alguns chamam de “pessoa”. Criatura capaz de mudar tudo ao redor, apenas com a mente. Com o descontrole. Com a ânsia por algo que nunca terá. Pelo prazer ou desprazer da eterna busca. Mosaico que desconstrói para depois refletir as dádivas que a natureza lhe deu. Sofre e ama ao mesmo tempo. Consegue maquiar a face da agonia com um sorriso. Chora de alegria. Sente-se humano quando erra sem se arrepender.

Mesmo que não exista fé ou esperança, existirão os pesares e as fugas. Seja o seu vício favorito ou sua prática mais odiada, anular-se pode ser o mantra principal da vida. Faz vibrar o universo. Clama por um sono sem despertador. Clama por uma chance de não ser. Se o amor é a prova de que não cabemos dentro de nós mesmos, a tristeza vem para recolher os pedaços da frustração. Depois que todos eles estão juntos, ela assopra e cobre nossa essência com as chagas de outrora.

Pai, mãe, irmão. Todos em um só lugar. Um só lugar capaz de abrigar a todos. Não está aqui, nem no céu. Está em todo o lugar. Mas principalmente na respiração. Alimenta os pulmões sem cobrar por isso. Pai, mãe e irmão. Vocês nunca existiram de verdade. Só na minha mente.

Emersão. Não basta tirar a cabeça debaixo d’água. É preciso querer estar fora da própria alma. Todos nós queremos. Eu, principalmente.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A parte à parte

- Eu queria morrer. Mas ainda não sou capaz de finalizar o que começaram.
- Não quero explicar. Não quero ter coragem. Não quero rezar nem acreditar em nenhuma força maior ou menor. Todas essas complicações em troca de uma dose bem servida de felicidade.
- Quando bate o desespero na veia, a gente larga tudo. Corre atrás do vício. Fica cego, violento, inquieto, faminto por alguns segundos alheio a tudo.
- Alguns segundos em que você se torna a parte à parte.
- Vazio. Desgosto. Angústia. Agonia. Sono. Desânimo. Impaciência.
- Causa? Nenhuma. Aparentemente, nenhuma.
- Diagnostico? Nenhum. Aparentemente nenhum.
- Frases positivas, dias ensolarados, sorrisos, esperanças, expectativas, empolgação.
- Vontade de morrer antes que essa felicidade foda mais ainda a minha alma.
- Que alma?
- Usei "alma" para não dizer "mente". Agora já não me importo.
- Não quer melhorar?
- Não.
- Por quê?
- Não me sinto motivado.
- E existe algo que poderia mudar isso?
- Deve existir. O mundo está soterrado de coisas.
- Parece que você complica ainda mais a situação.
- Parece não. Complico mesmo. E não faço questão de explicar nada.
- Então continue assim, sendo seu próprio inimigo.
- Não acredito nessas coisas.
- Você andou tanto pela sua mente que acabou se perdendo.
- Pelo menos assim ninguém mais me procura e o passado não me surpreende em cada esquina. Está difícil de perceber que eu não quero que a vida me guie. Não quero que algo chamado "destino" roube minha autonomia. Acho que é daí que vem a solidão. A maioria das pessoas prefere deixar a vida levá-las. Patético.
- Elas estão felizes, você não.
- O conceito de felicidade é bem relativo. Ainda assim, você está certo.
- Levante!
- Não quero.
- Prossiga!
- Não.
- Então tenha alguma reação! O que você quer, afinal?
- Anular-me.

E assim foi.