sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Imersão Emersão



Imersão. Não basta afundar sua cabeça debaixo d’água. É preciso se afogar na própria alma. Vasculhar cada canto do corpo em busca de algum sinal vital. Entregue-se sem resistência. Só assim vai experimentar a sensação de leveza que lhe foi prometida desde o nascimento.

Quando a tristeza se instala no corpo, parece arranhar a pele por dentro. Risca os músculos sem considerar a dor. A tristeza tem esse dom. Camufla a dor. Acumula o sofrimento para que este seja despejado de uma só vez. E quando isso acontece, seus olhos são os primeiros a lhe trair. Você não consegue enxergar através da camada espessa criada pela angústia. Ainda que as cores estejam presentes, o buraco negro deixado pela ausência de alegria suga qualquer tom, no intuito de preencher-se novamente.

Lidar com o amor não é diferente. Ao invés de arranhar, ele pressiona o peito com uma força colossal. Parece nunca estar satisfeito com o tamanho do peito que lhe abriga. Inquieto, desconfortável, sempre vaza do coração. Sempre transborda. E quem surge para recolher seus excessos é justamente a melancolia. Aquela que sofre pelo amor, em silêncio, e se torna escrava de uma persistência doentia.

Tal carga sentimental e antagônica compõe o que alguns chamam de “pessoa”. Criatura capaz de mudar tudo ao redor, apenas com a mente. Com o descontrole. Com a ânsia por algo que nunca terá. Pelo prazer ou desprazer da eterna busca. Mosaico que desconstrói para depois refletir as dádivas que a natureza lhe deu. Sofre e ama ao mesmo tempo. Consegue maquiar a face da agonia com um sorriso. Chora de alegria. Sente-se humano quando erra sem se arrepender.

Mesmo que não exista fé ou esperança, existirão os pesares e as fugas. Seja o seu vício favorito ou sua prática mais odiada, anular-se pode ser o mantra principal da vida. Faz vibrar o universo. Clama por um sono sem despertador. Clama por uma chance de não ser. Se o amor é a prova de que não cabemos dentro de nós mesmos, a tristeza vem para recolher os pedaços da frustração. Depois que todos eles estão juntos, ela assopra e cobre nossa essência com as chagas de outrora.

Pai, mãe, irmão. Todos em um só lugar. Um só lugar capaz de abrigar a todos. Não está aqui, nem no céu. Está em todo o lugar. Mas principalmente na respiração. Alimenta os pulmões sem cobrar por isso. Pai, mãe e irmão. Vocês nunca existiram de verdade. Só na minha mente.

Emersão. Não basta tirar a cabeça debaixo d’água. É preciso querer estar fora da própria alma. Todos nós queremos. Eu, principalmente.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A parte à parte

- Eu queria morrer. Mas ainda não sou capaz de finalizar o que começaram.
- Não quero explicar. Não quero ter coragem. Não quero rezar nem acreditar em nenhuma força maior ou menor. Todas essas complicações em troca de uma dose bem servida de felicidade.
- Quando bate o desespero na veia, a gente larga tudo. Corre atrás do vício. Fica cego, violento, inquieto, faminto por alguns segundos alheio a tudo.
- Alguns segundos em que você se torna a parte à parte.
- Vazio. Desgosto. Angústia. Agonia. Sono. Desânimo. Impaciência.
- Causa? Nenhuma. Aparentemente, nenhuma.
- Diagnostico? Nenhum. Aparentemente nenhum.
- Frases positivas, dias ensolarados, sorrisos, esperanças, expectativas, empolgação.
- Vontade de morrer antes que essa felicidade foda mais ainda a minha alma.
- Que alma?
- Usei "alma" para não dizer "mente". Agora já não me importo.
- Não quer melhorar?
- Não.
- Por quê?
- Não me sinto motivado.
- E existe algo que poderia mudar isso?
- Deve existir. O mundo está soterrado de coisas.
- Parece que você complica ainda mais a situação.
- Parece não. Complico mesmo. E não faço questão de explicar nada.
- Então continue assim, sendo seu próprio inimigo.
- Não acredito nessas coisas.
- Você andou tanto pela sua mente que acabou se perdendo.
- Pelo menos assim ninguém mais me procura e o passado não me surpreende em cada esquina. Está difícil de perceber que eu não quero que a vida me guie. Não quero que algo chamado "destino" roube minha autonomia. Acho que é daí que vem a solidão. A maioria das pessoas prefere deixar a vida levá-las. Patético.
- Elas estão felizes, você não.
- O conceito de felicidade é bem relativo. Ainda assim, você está certo.
- Levante!
- Não quero.
- Prossiga!
- Não.
- Então tenha alguma reação! O que você quer, afinal?
- Anular-me.

E assim foi.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Estórias do coração, histórias da alma



Apanhei as cartas que cobriam o chão. Enquanto enchia as últimas caixas, senti uma profunda vontade de congelar o tempo e ali permanecer para sempre. Não se resumia apenas em mudar de casa. Estava prestes a deixar nosso mundo nas mãos de qualquer outra pessoa. Mas você já havia partido. Não há mais com que preencher meus dias. E essa tristeza já criou raízes fortes no meu peito.

Lentamente, soprava o pó dos envelopes. Lembrava-me de cada um deles e dos momentos em que foram entregues. Dói, mas não abro mão de tal sensação. Como se tivesse me tirado para dançar, a tristeza bailava com minha alma. Por não conseguir ouvir a música, apenas a deixava ser conduzida. Permaneci assim por muitos meses.

Percebi que havia uma folha manchada. Como se gotas d'água tivessem despencado sobre a superfície lisa, percebi que aquele pedaço de papel continha um fragmento do que um dia chamamos de nós. E tinha.

Enquanto houver inverno... (A carta)

"A história se faz no momento em que algo marca a pele e a alma de quem vive o agora. Profunda e silenciosa, apropria-se dos relatos e sonhos. Abraça as palavras e as aconchega num fino pano de tom azulado. Confortáveis, tais palavras adormecem e tornam-se incapazes de reivindicar a verdade. São eternizadas no túmulo da estória, que há tempos abandonou seu compromisso com a realidade.

Foi exatamente assim que me senti quando te vi pela primeira vez. Minha história transformou-se em estória e qualquer frase soaria como desespero. Porque, na verdade, eu queria ouvir sobre seu dia. Queria conhecer sua rotina e fazer parte dela. Inexplicavelmente, senti-me à parte de um universo que nunca me pertenceu. Senti raiva, para então sentir o amor.

Nenhum dia será esquecido. Nenhuma palavra será omitida. Juramos isso e como pagamento, oferecemos nossas almas a qualquer um que passasse pela rua. A caminhada não nos levaria a um destino premeditado. Entretanto, guiava os dois corações confiantes. Perder-se nos permitiu abandonar o passado que sempre nos cobrava mais histórias e menos estórias.

Em cada esquina, sentíamo-nos como desconhecidos. Finalmente, havia um lugar para nós. Nele, estávamos flutuando entre a sobrevivência e o prazer em deixar de existir. Sim, foi com você que eu perdi o medo da morte. O medo de não viver mais os momentos que me mantinham ligado a este mundo.

Mas a felicidade não cabia mais dentro deste corpo. Nem o coração aguentava tanto amor. Então, venho aqui lhe pedir para que não chores eternamente, após minha partida. Chore um dia inteiro, ou dois, talvez. Mas chore sem parar, assim saberei que quando as lágrimas secarem um novo dia irá começar. Um belo dia de inverno, onde as gotas salgadas são densas e raras.

A qualquer momento meu peito pode parar de vibrar. Agora já não dói mais. Você me curou antes mesmo da doença aparecer. Foi sua história que marcou minha pele e alma, no momento em que me convidou para viver o seu presente. Em seguida, olhei para nossas mãos e percebi que estavam bem apertadas. Naquele instante, dizia-lhe quanto o amava. Amo e amarei. Nossos corações entraram em sincronia.

Desculpe-me por partir. Estão querendo ouvir nossas estórias em terras distantes. Prometo que contarei cada detalhe. Lembra quando citei o instante em que nossas mãos traduziam as batidas dos corações em chamas? Pois bem, sempre que sentir a minha falta, toque seu peito e deixe que minha mão encoste na sua. Estarei no melhor lugar do mundo. No seu universo. Debaixo da sua carne. Aconchegado na sua alma.

Amo-te o bastante para amar a nós dois. Você daí e eu daqui.".

Sem pensar muito, toquei meu coração e a chuva começou a cair lentamente. O gosto das lágrimas salgava meus lábios. Levantei-me e caminhei pelo corredor até o quarto onde dormíamos. Abri a caixa de costura e peguei uma velha agulha. O pequeno furo no dedo resultou no sangue espesso que serviria de tinta.

Havia um canto em que eu escrevia frases com lápis e de tempos em tempos trocava o que estava registrado ali. Sem a fragilidade do grafite e com a eternidade do sangue, escrevi meu último pensamento.

"Amo e amarei, pois nossos corações sempre estiveram em sincronia".

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Havia

Um belo dia para morrer. A temperatura estava baixa e o tom de azul banhava as paredes descascadas da minha casa. Chovia pouco e pela janela pude observar meu corpo ali, parado. Do outro lado não existia nada além de um silêncio profundo.

_______

Joshua era um rapaz atencioso. Fazia questão de perguntar o nome das pessoas com quem conversava. Acreditava que isso as trazia para perto. Uma maneira de arrancar algum sorriso durante a conversa.

Delicado como um floco de neve, sorria com o olhar. Penetrava na alma das pessoas quando conversava com elas. O olhar vidrado nos olhos diante dos seus absorvia confissões e medos. Assim como paixões e amor.

Preferia não pensar sobre a maldade. Evitava a tristeza com todas as forças. Queria manter aquele eterno estado de satisfação que envolvia sua existência. Jamais perdera a paciência. Vivia a ditadura da felicidade.

Tinha uma bela namorada que o admirava demais. Ao contrário dele, a garota de cabelos curtos e braços inquietos parecia um vulcão adormecido. Mesmo em silêncio, impunha respeito e intimidava os demais ao seu redor. Mas seu coração era quente, feito de lava. E estava mais vivo do que o sol.

Joshua e Maleena não tinham nada de especial. Não merecem esse texto porque tiveram uma incrível história de amor ou vivenciaram dramas complexos. Eles estão aqui porque souberam viver a simplicidade do seu relacionamento. Não se preocuparam em encontrar explicações para todas as coisas que os motivavam a manter o compromisso. Eram livres o bastante para optarem por pertencer um ao outro, apenas.

Eram normais. E se você buscava aqui um relato surpreendente sobre casais, sentimentos, vontades e verdades, perdeu seu tempo. Tudo aqui é dissolvido no mesmo instante em que seus olhos chegam ao ponto final.

Não há nada. Pode partir.

R.I.P. Veny's Heart.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Dentro da fumaça



Acordei com o roncar do estômago. Mais de três dias sem comer decentemente. E mais três dias na mesma miséria, pode apostar. Às três da manhã, contei quantos cigarros ainda me restavam. Se eu te dizer que o número é recorrente. Três.

Peguei algumas moedas que estavam misturadas à imundice do carpete e fui atrás de um maço. Minha boca não tinha gosto. Seca. Caminhei por alguns minutos e me senti à vontade no vazio da noite. Entrei no mercado e logo me direcionei ao caixa. Pedi um maço e ele - sim, era um cara - pegou o pacote sem nem me perguntar qual marca eu queria. Acertou, de fato. Joguei as moedas na esteira metálica e pedi um isqueiro. Ele, magro e de olhos fundos, tirou o próprio objeto do bolso e me ofereceu fogo. Ignorei a placa de "Proibido Fumar" e fui para dentro da fumaça.

Minhas mãos tremiam e a pele esticada entregava meu jejum nada religioso. Eu tentava emitir sons altos, trombando nas prateleiras, para evitar que ele ouvisse meu estômago. Inútil. O inevitável momento de silêncio veio e com ele o rugido da fera. Agradeci pelo isqueiro e sai rapidamente do local. A sensação de fome me comia.

Coloquei a mão no bolso para pegar as chaves e senti um peso estranho. Puxei um pacote enrolado por papel vagabundo e descobri que eram biscoitos. A menos que a falta de alimento tivesse me causado alucinações - ou a fome fosse capaz de roubar por mim - teria sentido encontrar tais guloseimas na minha jaqueta velha. O rapaz fez o serviço. Poupou-me do crime.

Em casa, abri a janela e observei o restante da noite. Não queria que amanhecesse. Odeio ter que assistir o nascimento do sol e toda a sua merda de prepotência. Odeio olhar para tudo e ver com detalhes o desgaste que o tempo trouxe. Foda-se, é a fome dialogando comigo.

Abandonei família e estudos. Agora vivo assim, um dia de cada vez. Mas bem mal vividos, diga-se de passagem. Não faço o que quero, porque para isso preciso de dinheiro. Sempre estou duro de grana. Enfim, escolhi recusar o que o mundo tinha reservado de melhor para mim. No final, os outros sofrem mais pela minha pessoa do que eu mesmo. Não é mesmo?

Fim de noite, começo do amanhã. Nenhuma expectativa, nenhuma frase de encerramento, nenhum relato bem escrito ou carregado de lirismo. Cru e direto, mais um dia comum em que eu não sou nada além de um cara qualquer.

Nem por isso me privei de escrever. E você de ler.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O canto dos dragões

Elas estavam distantes demais. No alto, pareciam esconder algum tipo de tesouro. De repente, um monstro ou quem sabe uma princesa... Eu não sei, e isso me matava de curiosidade a cada segundo.

Todos os dias, meu pai acordava cedo e ia à Igreja. A missa reunião toda minha família e por isso eu gostava de estar ali, envolvido pelos meus. Quando garoto, admirava o fato de ser o meu pai aquele que desaparecia nas torres. Eu sabia que, de alguma forma, sem ele a cidade não seria a mesma. A curiosidade ainda me matava.

Certo dia, tentei subir as escadas de madeira, enquanto meu velho conversava com outro rapaz. Na metade do caminho, desisti da ideia. Imaginei a cara de decepção do meu pai ao ver que subi em seu território sem ter sido convidado, ou pior, sem tê-lo avisado. Enquanto descia, errei o passo e despenquei degrau a baixo. Uma mão calejada segurou firme meu braço. Ele me olhou diretamente nos olhos e sem dizer uma palavra, convidou-me para que, finalmente, fosse saciada minha ansiedade.

No alto da torre, podia ver toda a cidade. Mas minha atenção foi despertada por outra imagem. Rústico e preso como se fosse um dragão selvagem, aquele objeto entregava seu peso apenas pela forma. As cordas que o prendiam se assemelhavam à correntes. Sim, senti medo. Mas nada superava o desejo em ver o fogo sair pela boca de tal criatura. Meu pai, o cavaleiro da torre, pediu para que me afastasse. Nesse exato momento, sabia que a batalha teria início. Receoso, só pude obedecer e cruzar os dedos para que a vitória nos acompanhasse até nossa casa.

O monstro foi agarrado pelas mãos do cavaleiro. Forte, resistiu ao primeiro “puxão” e jogou seu peso contra meu pai. Sem desistir, o homem de braços resistentes investiu contra a besta mais uma vez. Agora, ambos pareciam dançar perigosamente pela borda da torre. Meu coração palpitava freneticamente. Ainda assim, só conseguia observar com atenção. E tensão.

Com maior velocidade, o dragão de metal dobrou o céu no intuito de preparar o golpe fatal contra meu pai. O homem, empunhando a espada da inteligência, esquivou-se do golpe e por pouco não perdeu a cabeça. Eis que nesse instante a batalha chega ao seu ápice. Da boca bem aberta, a língua da fera – presa por correntes – se encolheu. Detentor de um poder inesgotável, o fogo saiu para consumir meu pai. Sim, fomos tragados pelo som do badalo que ecoou por toda a cidade. Incessantemente, meu pai continuava a lutar contra o dragão enfurecido. Ele encantava dragões. Fazia com que estes trocassem o fogo pelo som. Fazia-os cantar.

Cada disparada de chamas parecia ganhar maior proporção enquanto outros monstros se juntavam ao embate. O rapaz que antes conversava com meu pai também o ajudava no confronto. Eu não fazia muito além de morder os lábios e apertas os dedos ainda cruzados.

Sem demonstrar cansaço, o cavaleiro olhou para mim e sorriu suavemente. Já vencido e dominado, o inimigo lamentava sua derrota e rugia cada vez mais alto. Cada vez mais triste. Já não sabia mais se aquele momento refletia a vitória. O que sabia é que, assim como meu pai, meu maior desejo era ser cavaleiro.

Foi assim que, em São João del-Rei, resolvi dominar as chamas dos dragões e seu canto seria meu prêmio diário. Foi assim que me tornei sineiro.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O menino que descobriu ser o diabo

Na sala, todos me olhavam fixamente. Menos você. Eu já havia desistido de tentar reverter a situação. Eles queriam me matar de uma vez por todas, na esperança que das minhas cinzas nascesse uma criança normal. No instante em que senti o sangue escorrer pelas mãos, o tempo - que antes então corria acelerado - se desfez como poeira ao vento.

Antes
Acordava cedo e arrumava a roupa para, então, ir ao culto. Fazia parte da minha rotina ouvir os mais velhos falarem sobre Deus e suas normas. Falavam bastante do Diabo e o local onde o mesmo reinava. Lembro-me de como descreviam tal ambiente: "Um lugar quente, onde as pessoas não escondem mais o que são e sofrem constantemente. Lá, todos estão condenados à dor eterna e Deus simplesmente ignora o apelo dos que não seguiram suas leis", enfatizava o homem puro de vestes brancas.

Eu gostava de ir à Igreja. Encontrava meus amigos e minha família parecia feliz, livre, finalmente, das brigas diárias. Meus pais ficavam de mãos dadas e meu irmão se entretia com a comida - o que resultava na minha paz. Era o paraíso, ao meu ver. Eu não me importava em repetir as mesmas palavras vazias e difíceis de entender, o que eu queria mesmo era fazer parte daquela atmosfera. Queria ser parte de Deus.

Certo dia, voltamos do culto e a chuva torrencial sufocou qualquer diálogo. Meus pais estavam mais cinzas do que as nuvens e meu irmão dormia com a boca suja de açúcar. Pela janela, via as ruas vazias e as luzes alaranjadas dos postes criavam gotas de ouro. Por alguns instantes, pensei que a ida à Igreja não havia sido em vão. Não é todo o dia que se vê gotas de ouro.

Já em casa, corri para tirar os sapatos. Odeio ficar com os pés molhados. Dentro do pijama, desci para jantar e o clima não havia melhorado. A chuva estava sob nossas cabeças. Os olhos de minha mãe cortavam os de meu pai como um raio. Já a voz do patriarca fazia estremecer meu coração e o do meu irmão. Eles se retalhavam na sutileza do mastigar. Deus estava escondido entre as nuvens carregadas.

Sempre que eles começavam a trocar suas ofensas, eu tentava mergulhar dentro de minha mente e, como se estivesse imerso na água, abafava a retumbância do ódio conjugal. Viajava sem rumo por longos campos esverdeados nos quais gotículas de chuva ainda enfeitavam a grama e o céu se fazia indeciso - uma mescla de cinza, azul e branco. Eu olhava para o horizonte e me via nele, infinito, imenso e utópico. Quanto mais andava, menos me aproximava de algum lugar. Mas era essa eterna busca que me afastava da cólera dos meus pais.

Quando voltei, minha barriga estava gelada e meu irmão soluçava na cama. Não havia amor, alegria ou açúcar pra sujar a boca e, mesmo assim, rezamos para Deus. Repetimos o que nos havia sido ensinado, ainda que o sentimento não fosse de devoção, mas de profunda tristeza. Mais um dia longe daqui.

O sábio homem de Deus dizia que a briga entre casais era consequência da presença do mal entre as pessoas. Repetia várias vezes que o casamento era a consumação do amor maior e que somente o Diabo seria capaz de atrapalhar algo tão sublime. Ele explicou que a entidade maléfica trazia vergonha, traição, decepção e morte à família. Era como se fosse capaz de impedir que novas vidas surgissem no decorrer dos anos. Senti uma ira descomunal, porém, mantive-a presa nos diversos mundos que criei dentro em pensamento.

Muitas coisas que flutuavam na minha cabeça entravam em choque com o que era dito no santuário. Eu sentia interesse por conhecer ambos os lados. Queria saber mais sobre o que o mal era de fato, entretanto, meus pais sempre me censuravam. Ao longo das idas à Igreja, comecei a adquirir certas aversões em relação à minha própria pessoa. Odiava não ter controle sobre meu corpo, mas tinha mais raiva ainda por não conseguir escolher as vontades do meu corpo.

Os sonhos eram sempre encarados como pesadelos. Uma constante onda de tensão e sensação de falha surgia todas as vezes em que a noite trazia prazeres condenados pela palavra do Criador. Eu só estava cansado e precisava dormir. O que estava acontecendo? Eu não fazia nada de diferente e mesmo assim tudo começou a mudar.

As rezas já não eram mais sem sentido. As palavras ganharam significados imutáveis. Eu rezava por medo. Fazia as preces para conseguir manter o foco longe de mim mesmo. Costurei meus olhos, ouvidos e mãos. Matei meu corpo sem nem ao menos pensar duas vezes. Sentia que estava próximo de Deus e isso me trazia alívio. Mas não felicidade.

Meus pais evitavam as brigas, despejando sobre mim elogios e esperanças. Eu era o único elo que ainda os unia. Ambos diziam que eu era fruto do que tinham de melhor. Meu irmão não se importava. Ele me conhecia mais do que eu mesmo.

A infância secava como folhas caídas. O inverno estava próximo e com ele, calor e luminosidade deixariam de atormentar minha existência. Aprofundei minha concentração nos estudos e encontrei abrigo. Não havia mais espaço para refletir. Bastava-me assimilar os conceitos e decorá-los. Para que discutir sobre eles? Não fui eu quem os criou. Não fui eu quem ditou as palavras de Deus. A mim só cabia reproduzir.

Ainda que as brigas fossem constantes, meus pais não permitiam mais que elas fossem travadas diante de mim. Tinham medo de que isso me desviasse dos estudos e também da boa conduta. Ao invés dos berros na cozinha, eles dormiam em camas separadas e não se encontravam no café da manhã. Eu não ouvia e nem via mais nada. E isso, sem dúvidas, foi bem pior do que presenciar discussões violentas. Mas na Igreja, a peça chamada "Amor entre casais" ainda era encenada com maestria.

Durante uma festa da comunidade limpa e religiosa, conheci um garoto chamado Demian.

Durante

Sem motivo, ele veio até mim e pegou minha mão. Rapidamente, separei-me dele e fingi que nada havia acontecido. Com calma, ele voltou e pediu que eu o acompanhasse.

Demian era mais alto do que eu, apesar de ser um ano mais novo. Era ótimo nos esportes e também nos estudos. Entretanto, sofria com o desprezo das demais pessoas. Cabelos vermelhos, olhos vermelhos e a pele branca como leite. O rosto fino e as mãos sensíveis. Ruivo, só trazia a cor fria nos olhos azuis. Nenhuma medalha mudava sua condição em meio aos demais. Era um menino muito bonito, mas como disseram várias vezes, "pecou em um único detalhe". Ele não se misturava e, mesmo assim, vivia sua vida tranquilamente. Era vermelho demais para a opacidade dos demais.

Certo dia, enquanto jogávamos Taco, a bola ultrapassou os limites do jardim da Igreja e foi parar no quintal da casa vizinha. Todos os garotos, inclusive eu e Deminan, estavam cientes do enorme cão que ali vivia e da cerca que protegia o muro de invasores. Não demorou muito para que escolhessem o garoto "cabelo de fogo" como responsável por resgatar a bola. A razão da escolha? Ele era o que havia pecado em um único detalhe. Eu, que pouco me importava para aquele jogo, falei no ouvido de Demian, tentando impedi-lo de cometer tal tentativa de suicídio.

Disse a ele que nenhum jogo valia o risco que estava prestes a correr e que aqueles garotos eram imbecis e covardes. Sacrificar-se por pessoas assim era tolice e que ele de tolo não tinha nada. Minha tentativa era a de mostrar preocupação, mas só consegui deixá-lo mais próximo do muro. Com serenidade, olhou nos meus olhos com ambas as safiras e pediu para que eu o deixasse fazer aquilo que tinha que ser feito. Explicou-me que o sacrifício não era apenas pelos garotos imbecis, mas por mim também, que de imbecil não tinha nada. Suavemente, senti que sua voz corria pelas minhas veias e só pude sentir vergonha das palavras que havia dito.

Demian subiu com cuidado até a superfície do muro. Lá, avistou a bolinha e desceu suavemente, aterrizando do outro lado da parede. Os demais garotos subiram para ver o que aconteceria com o ruivo. Eu fiz o mesmo. E então, avistamos aquele corpo branco voltando com o objeto de desejo na mão. Em apenas um segundo, tudo mudou. O cão do vizinho sentiu o cheiro de Demian e o atacou com fúria. O garoto usou as mãos para se proteger e, por conta disso, gritou quando elas foram perfuradas pelos caninos da besta. Caído no chão, tentou afastar o cachorro com os pés, mas só conseguiu entregá-los às mandíbulas de aço. Mais perfurações. No momento de desespero, conseguiu se erguer e, ao tentar voltar para o alto do muro, enroscou os cabelos no arame e rasgou a pele da testa.

Eu o deixei lá, não consegui assistir a tudo. Os meninos socorreram Demian e o levaram de volta para a Igreja. Quando passou por mim, seus olhos azuis sorriram e a bola - coberta de sangue - foi deixada no meu bolso. O incidente rendeu muitas conversas entre adultos, mas foi entre os jovens que a odisseia ganhou grandes proporções. Herói, corajoso, imortal, salvador de todos, bondoso... Alguns dos troféus que recebe por ser simplesmente ele mesmo. Não nos falamos por muitos meses. Eu o evitava. E ele me procurava.

Cansado de fugir e desistir de muitas festas para adiar o encontro inevitável, decidi que ia ceder ao apelo por uma conversa. Estávamos com 17 anos. No jardim sagrado da casa de Deus, passamos muitas horas trocando ideias e questionamentos. Minha racionalidade, baseada nas fantasiosas analogias da bíblia, ia de encontro ao dom surreal que Demian tinha de criar mundos. Os conflitos nos aproximavam. Até que o beijo aconteceu. Depois dele, não consegui mais conter a necessidade de refletir sobre tudo. Principalmente sobre mim.

Depois

Foi como se todos os mistérios, medos e avisos sobre as consequências tivessem sido queimados de uma só vez. Todas aquelas regras, punições e acusações se dissolveram. Eu, que acreditava num repentino sentimento de tristeza e vergonha, não consegui perceber qualquer insatisfação. Pelo contrário. Entrei em contato com alguém que me fazia bem. Alguém que, assim como eu, nunca havia se importado com o sentido das coisas. Por medo, escondi minha essência numa sala repleta de páginas velhas e mal escritas. Por medo de não ser feliz de verdade, Demian se sacrificou mais uma vez. No ápice de nossa inocência, achamos que a boa postura que sempre nos acompanhou seria suficiente para que nossos pais aceitassem a união. Mal sabíamos que já não tínhamos mais pais. Nem paz.

Minha mãe tentou suicídio pela 7ª vez, durante meu aniversário de 18 anos. Antes de atear fogo na própria cabeça, ela fez um discurso que resumia muito do que, no fundo, sempre soube. Aos dezoito anos, descobri que eu era o Diabo.

Diante dos convidados - entre eles Demian - minha mãe demonstrou porque tinha permitido a presença do garoto ruivo e problemático. Suas palavras deveriam matar duas criaturas no mesmo instante. Três, se ela tivesse conseguido se matar. E assim ela profetizou:

"Maior infelicidade não seria nem mesmo essa doença asquerosa que envolve aquele que pari. Maior infelicidade seria viver para presenciar a degradação do meu sangue, contido nas veias de um porco imundo. Bebeu do meu leite, comeu de minha comida e no meu lar encontrou abrigo. Ardiloso, sorriu e disse que me amava, mas escondia uma navalha debaixo da língua bifurcada. A pele macia pedia por carinho, o que na verdade era apenas egoísmo e vaidade. Afastou meu marido de mim, trouxe vergonha para nossa casa e influenciou o irmão para que o mesmo não falasse nada. Adubou o solo de nossa família com infertilidade, matando os frutos que estavam por vir.

Como uma serpente, devorou o conhecimento para que assim conseguisse destilar seu veneno. Entrou na casa de Deus sobre duas pernas e de lá saiu rastejando. Maldito seja!"

Parabéns pelos dezoito anos. Foi o que meu pai disse antes de pular para a cozinha atrás de um balde com água. Depois de ter apagado as chamas que consumiam o rosto de minha mãe, ele voltou e pediu desculpas. Disse que havia falhado no seu papel e por isso eu estava doente e perdido.

O único presente que ganhei naquela festa foi o fim da mesma. Demian me olhou e com isso disse o que precisava ser dito. Após tal episódio, guardei comigo apenas as palavras que davam sentido aos meus dias. Sai de casa, fui conhecer mais sobre o mundo e sobre mim mesmo.

Demian foi comigo e sempre respeitou meu tempo. Sua capacidade de construir mundos nos foi muito útil. Em pouco tempo, encontramos um lugar seguro e tranquilo onde só o sentimento sem nome é quem imperava.

Deus? Às vezes ele aparece na minha mente. Eu? Aceitei minha condição. Descobri que de Diabo eu só tinha uma coisa: o ódio que as pessoas depositavam em mim.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O que a chuva me trouxe



Escolhi sair de casa o quanto antes, pois já não havia mais ar. Os pulmões reclamavam e evitei a despedida. Não conseguia escrever uma palavra e, por este motivo, o que lhe restou foi a ausência de explicação.

Cada fragmento da infância queimava no peito. Caminhadas sem rumo e dias conversando com o vento. Sempre pedia para que ele me trouxesse a chuva. Parecia que além das nuvens os pedidos ganhavam forma. Era como se eu deixasse de estar no nível mais baixo e os pés finalmente abandonavam o chão. No quintal, repleto pelo verde do musgo que crescia nas beiradas das paredes, eu passava as horas envolvido pela atmosfera surreal, sem nem ao menos saber o que isso significava. Via nos galhos de árvores e pedras tudo o que precisava para criar um novo mundo. Eu não governava, mas observava minhas criaturas e seus conflitos. Sempre soou familiar.

Lembro-me do dia em que a noite chegou mais cedo. O céu escureceu e a terra exalou seu perfume. Descalço, senti o solo mais frio e o sopro do vento fez minha pele se recolher. Começou a chover e, inutilmente, tentei conter a lágrima que escorria. Eu não sabia o que isso significava. Sentia nas gotas de chuva uma paz inominável.

(...)

Aurora


"Não há luz que consiga evitar o reflexo da água. Não há terra que consiga mudar seu fluxo por inteiro. De tudo o que criei, foi a chuva que recebeu a bênção da vida. Despejei em sua essência o que havia de mais puro em mim. O amor".

Varuna


"Quando surgi, fui apresentada a uma terra seca e abandonada. Caminhei por muito tempo e só o que vi foram cicatrizes deixadas pela minha ausência. Mas eu não sentia pena nem tristeza. Estava estática e alimentada por uma antipatia profunda. Nada me comovia, nem mesmo o apelo daqueles pequenos seres.

Após alguns dias, voltei ao deserto e percebi que a vida ainda resistia. As criaturas lutavam para que o último fio de esperança não se perdesse em meio a tanta poeira. O que me encantou não foi a cena decadente nem mesmo a culpa que sabia ser minha. O que me encantou foi a capacidade de resistir e ainda assim pedir por mim sem rancor.

Toquei meu rosto e percebi que os olhos estavam molhados. Chorei. Deixei chover. E choveu muito".

(...)

O guarda-chuva foi responsável por te colocar ao meu lado. Seus sapatos estavam encharcados e eu não pude evitar o convite. Em silêncio, caminhamos pela cidade, que mais parecia um jornal molhado. Em seguida, muitos anos. Momentos marcados pela água que caia dos céus. Parecia nosso ritual e a única coisa que de fato nos pertencia. Podia chover sempre... Nos casamentos, nas festas, nos feriados. Podiam reclamar e praguejar. Nós sempre encontrávamos um lugar onde fôssemos bem-vindos.

E um dia ela passou. Você decidiu partir. Não havia mais a magia no som das gotas atiradas ao chão. Ainda assim, não restou tristeza, mas a forte sensação de que havíamos lavado nossas almas. E para as feridas, a água doce da chuva não ajudou. Eu fui buscar o sal do mar.

A chuva me trouxe o eterno. E todas as vezes em que ela chegar, estarei novamente em contato com você. Somos pequenos pedaços do infinito. Não sei o que isso significa. Apenas deixo ela cair sobre mim e se fundir com as lágrimas. Chorei. Deixei chover. E choveu muito.

domingo, 11 de dezembro de 2011

O dom de esquecer



Já havia se passado três meses. Parece que esse período de tempo não alterou nada. E eu ainda sinto o peso das malas em minhas mãos. Também ouço meus próprios passos pelo corredor e cerro os lábios ao me lembrar das últimas palavras ditas. Esquecer é um dom. Esquecer é uma dádiva.

Eu estava escrevendo mal. Não encontrava a mim mesmo. Foi o que ela me disse. Vestida com sua blusa florida e calças masculinas, olhou-me como se não suportasse aquela imagem distorcida. Pediu para que eu a desse um motivo que evitasse minha saída da escola. Eu só consegui dizer que "no lugar das páginas dos livros poderiam ter colocado folhas em branco". Estava fora do mundo, mais uma vez.

Resolvi ir até a colina. A cidade não me queria mais. E eu nunca a desejei. Caminhei por muitas horas, até que resolvi descansar encostado em um velho carvalho. A voz da floresta me conduzia. Eles jamais saberiam a respeito dos meus motivos. Nem família, nem amigos, nem você. Primeiro eu me apaixonei pelo céu.

Nublado e denso, seu rosto carrancudo não assustou meus olhos. Zéfiro soprava como nunca e o frio abraçava minha pele. As nuvens eram mas mesmas que cobriam nossos corpos. Deitados na grama, fizemos juras de amor com a ponta dos dedos. Escrevemos nas nuvens de chuva cada gota da esperança que nos unia e, futuramente, viria a nos destruir.

Eu sempre me senti como um balão solto no ar. Sem aquela mão para me manter por perto, eu partia diversas vezes e nunca voltava para dizer o que vi e senti. Naquele instante o céu me recebia como reflexo de sua decadência. Estirado no chão, eu o encarava sem vontade de levantar e caminhar novamente. E, lentamente, suas mãos envolveram meu rosto.

Os cinco dias da semana e os milhares de meses intermináveis. Os anos de poucas lembranças e as vontades urgentes, emergentes e inconsequentes. Depois de ter visto o céu, teto nenhum conseguiu me segurar. Ao buscar sempre um lugar onde estivesse próximo do alto, acabei me apaixonando pelas estradas.

Os joelhos sempre me foram fieis. Os pés também, apesar de reclamarem muito. Sendo assim, não tinha mais desculpas para ficar. As mãos que agora envolviam meu rosto eram as mesmas que me levavam comida à boca. Sozinho, caminhei como se essa fosse a forma mais confortável de se suicidar.

Enquanto olhava para horizonte, percebi que, aos poucos, deixava de me importar com as direção. Eu seguia uma vontade de chorar misturada com a batida acelerada de um coração inquieto. Gastava a água do corpo como caminhão que queima até a última gota de combustível. Eu já não tinha mais laços com a história que um dia me descreveu.

Na estrada, pude chorar e gritar sem ser acudido. Pude enlouquecer a ponto de socar um tronco e rasgar a carne dos dedos. Pude beber e fumar. Pude passar fome e dar valor ao que tinha para comer. Eu pude tantas coisas que acabei me cansando de tal liberdade. Decidi impor alguns limites e tentar desenhar uma borda que agregasse toda aquela bela pintura feita com a respingos de alma. Parei na pequena cidade e lá me apaixonei pelas velas.

Quando ela me perguntou se eu estava com sono não precisou muito para que respondesse. Os olhos vermelhos imploravam por um segundo de paz. Aceitei o convite. Enquanto dormia, sonhei com a réplica perfeita daquele que seria o abraço mais gostoso de todos. Seus olhos espertos fitavam meu corpo cansado. Sem saber como começar a conversa inevitável, derrubou algumas coisas na mesa até que parou diante de mim e roubou meu ar. Eu não conseguia ver todo o seu rosto, parte dele estava escondido pelas sombras, mas a outra metade cintilava com a luz das velas. Aquele tom amarelado cobria de ouro o rosto da cor da madeira. Minhas mãos decidiram confortar aquele face esculpida com perfeição. Antes de partir, deixei uma carta com algumas palavras. Não agradeci, pois nunca esperamos nada um do outro.

Eu deveria tê-la amado intensamente. Deveria ter feito da última paixão a síntese de todo o sentimento que tanto cultivei. Mas não foi assim. Pois a natureza me ensinou a respeitar tudo o que não for compreensível ao meu ver. E o que corre pelas minhas veias é justamente essa ausência de nomes e definições. Meu coração não sabe escrever nem ler as linhas do mundo e suas regras complexas. Ele sente e sofre demais por isso, mas é uma dor tão necessária que sem ela eu jamais teria motivos para lutar contra algo. E como descrever meu coração? Não, não consigo. Claro que consigo, só evito fazê-lo. Mas faço, dessa vez.

Fragmento da essência de todas as energias, ele foi batizado pela Fênix e sua gana por destruição. A partir dos próprios estilhaços, recolhe todas as partes e constrói uma pseudo versão de si mesmo. Jogado num universo, vaga e explode, consome-se até que caia esgotado sobre sua própria solidão. Ainda assim não o conheço tão bem. Mas ele sabe tudo a meu respeito.

Debaixo daquela árvore, percebi que alguém me observava. Jamais imaginei que naquele instante me apaixonaria por você. Seu sorriso me trouxe o retrato mais belo do céu e nenhuma palavra precisou ser dita. Como se meu coração tivesse percorrido milhares de estradas até encontrar o seu, senti um peso no peito que me fez querer congelar o tempo. E os meus olhos brilhavam como luzes de velas assim que encontraram no seu a chama da ave de fogo, que renascia mais uma vez das cinzas de um amor distante.

Foi naquele dia, há três meses, que ergui as malas pesadas e caminhei para o corredor da velha casa de campo. Cerrei os lábios na tentativa de não dizer "entre", mas falhei. E quando me dei conta já havia esquecido de todo o mundo. Esquecer é um dom. Esquecer é uma dádiva.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Não vejo cores, mas as ouço



O refúgio está no silêncio. Quando a casa vazia abriga apenas minha ausência, sinto que o tempo começa a correr ao contrário e as velhas fotos voltam para a parede do quarto. Os corredores revivem flores e velhos móveis. As escadas fazem menos barulho. Meu coração bate mais calmo.

Não consegui adormecer. O mar cantarolava qualquer música e meu corpo pedia por uma caminhada. As ondas, em sua dança particular, conduziram-me por quilômetros até que encontrei aquela grande pedra. Coração da terra. Mais solitária do que nunca. Enquanto observava a imensidão, lembrei das pessoas que deram cor ao meus dias.

As verdes me traziam uma paz sobrenatural. Sempre centradas e com o tom de voz bem suave, sabiam me decifrar apenas pela vibração das cordas vocais. Procuravam nos meus olhos o que havia sobrado do último sorriso. Na esperança de não deixar que minha alma se rendesse ao sono dos inconformados, eles diminuíram a velocidade da vida e me embalavam numa longa melodia capaz de misturar o sal das lágrimas com o doce dos lábios.

Os vermelhos queriam mais de mim do que eu mesmo poderia pedir. Consumiam-me diariamente e colocam à prova toda a criatividade que viesse a ter. A diversão se misturava com a forte insegurança refletida nas palavras repetidas e no vocabulário propositalmente vasto. Aceleravam o tempo para que os maus momentos fossem breves interlúdios na longa jornada de um único dia. Apostavam no erro e o transformava em acerto. Alquimistas do intangível, sabiam lidar com o fogo, com o metal e com o sangue. Com eles, lutei sempre que pude.

As amarelas guardavam no sorriso o conforto do abraço de mãe. Gigantes e imponentes, tinham uma aura tão acolhedora que perto delas me sentia como um pequeno planeta girando em torno do sol de ouro. Alimentavam minhas ideias com a luz de sua segurança. Aqueciam meus dias e respeitavam meu período nas sombras. Tiravam do sabor dos alimentos a mágica de tecer um nosso gosto que superasse o amargo na boca. Tais pessoas deixavam de lado a própria vida para que as outras cores pudessem se manter em eterna plenitude.

Os azuis sempre me encantaram. Em especial, por sua distância do mundo real e o respeito pelo silêncio. Detentores de um saber único, transitavam - sem dificuldade - pelas vias da tristeza e traduziam o amor em pequenas doses de carinho. Implosivos, mostraram-me o infinito de sua sabedoria. A felicidade dos azuis se fez no instante em que o céu adotou sua cor como pele. Nesse momento, eles sorriram através das estrelas.

Eu, o preto, consumo todas essas cores. Sou eu o debilitado, incapaz de criar tais sentimentos dentro de mim. Preciso de cada uma das cores para me manter vivo e elas me servem de motivo para continuar. Aqueles que têm como cor o preto surgem para eliminar os excessos. Céticos, buscam em cada detalhe a queda das verdades e explicações inflexívies. Lidam com a contradição como se está fosse tão necessária quanto a sabedoria. E de fato é. Ultrapassam as linhas entre real e fantasioso para que suas mentes possam morrer e reviver das próprias cinzas. Acreditam no equilíbrio, mas desdenham das doutrinas. Eu, o preto, sou um pedaço do universo que por rebeldia se desprendeu do vazio.

E você, o branco, ainda encanta meus olhos. Com um toque, reuniu todas as cores possíveis e impossíveis para desenhar, à mão livre, todos os cantos do infinito. Criador da temperança, ensinou às outras cores a arte de se misturar. Não separou os quentes dos frios. No seu coração, fez com que eles produzissem uma luz tão forte que após sua ascensão nada mais cegou minha mente. E meus pulmões negros se encheram de um silêncio bucólico.

Enquanto vivermos, as cores serão o que são. Parte de nós. Parte de tudo o que nós mais amamos e odiamos. Parte do silêncio. Parte do nosso refúgio.