sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Dentro da fumaça
Acordei com o roncar do estômago. Mais de três dias sem comer decentemente. E mais três dias na mesma miséria, pode apostar. Às três da manhã, contei quantos cigarros ainda me restavam. Se eu te dizer que o número é recorrente. Três.
Peguei algumas moedas que estavam misturadas à imundice do carpete e fui atrás de um maço. Minha boca não tinha gosto. Seca. Caminhei por alguns minutos e me senti à vontade no vazio da noite. Entrei no mercado e logo me direcionei ao caixa. Pedi um maço e ele - sim, era um cara - pegou o pacote sem nem me perguntar qual marca eu queria. Acertou, de fato. Joguei as moedas na esteira metálica e pedi um isqueiro. Ele, magro e de olhos fundos, tirou o próprio objeto do bolso e me ofereceu fogo. Ignorei a placa de "Proibido Fumar" e fui para dentro da fumaça.
Minhas mãos tremiam e a pele esticada entregava meu jejum nada religioso. Eu tentava emitir sons altos, trombando nas prateleiras, para evitar que ele ouvisse meu estômago. Inútil. O inevitável momento de silêncio veio e com ele o rugido da fera. Agradeci pelo isqueiro e sai rapidamente do local. A sensação de fome me comia.
Coloquei a mão no bolso para pegar as chaves e senti um peso estranho. Puxei um pacote enrolado por papel vagabundo e descobri que eram biscoitos. A menos que a falta de alimento tivesse me causado alucinações - ou a fome fosse capaz de roubar por mim - teria sentido encontrar tais guloseimas na minha jaqueta velha. O rapaz fez o serviço. Poupou-me do crime.
Em casa, abri a janela e observei o restante da noite. Não queria que amanhecesse. Odeio ter que assistir o nascimento do sol e toda a sua merda de prepotência. Odeio olhar para tudo e ver com detalhes o desgaste que o tempo trouxe. Foda-se, é a fome dialogando comigo.
Abandonei família e estudos. Agora vivo assim, um dia de cada vez. Mas bem mal vividos, diga-se de passagem. Não faço o que quero, porque para isso preciso de dinheiro. Sempre estou duro de grana. Enfim, escolhi recusar o que o mundo tinha reservado de melhor para mim. No final, os outros sofrem mais pela minha pessoa do que eu mesmo. Não é mesmo?
Fim de noite, começo do amanhã. Nenhuma expectativa, nenhuma frase de encerramento, nenhum relato bem escrito ou carregado de lirismo. Cru e direto, mais um dia comum em que eu não sou nada além de um cara qualquer.
Nem por isso me privei de escrever. E você de ler.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
O canto dos dragões
Elas estavam distantes demais. No alto, pareciam esconder algum tipo de tesouro. De repente, um monstro ou quem sabe uma princesa... Eu não sei, e isso me matava de curiosidade a cada segundo.
Todos os dias, meu pai acordava cedo e ia à Igreja. A missa reunião toda minha família e por isso eu gostava de estar ali, envolvido pelos meus. Quando garoto, admirava o fato de ser o meu pai aquele que desaparecia nas torres. Eu sabia que, de alguma forma, sem ele a cidade não seria a mesma. A curiosidade ainda me matava.
Certo dia, tentei subir as escadas de madeira, enquanto meu velho conversava com outro rapaz. Na metade do caminho, desisti da ideia. Imaginei a cara de decepção do meu pai ao ver que subi em seu território sem ter sido convidado, ou pior, sem tê-lo avisado. Enquanto descia, errei o passo e despenquei degrau a baixo. Uma mão calejada segurou firme meu braço. Ele me olhou diretamente nos olhos e sem dizer uma palavra, convidou-me para que, finalmente, fosse saciada minha ansiedade.
No alto da torre, podia ver toda a cidade. Mas minha atenção foi despertada por outra imagem. Rústico e preso como se fosse um dragão selvagem, aquele objeto entregava seu peso apenas pela forma. As cordas que o prendiam se assemelhavam à correntes. Sim, senti medo. Mas nada superava o desejo em ver o fogo sair pela boca de tal criatura. Meu pai, o cavaleiro da torre, pediu para que me afastasse. Nesse exato momento, sabia que a batalha teria início. Receoso, só pude obedecer e cruzar os dedos para que a vitória nos acompanhasse até nossa casa.
O monstro foi agarrado pelas mãos do cavaleiro. Forte, resistiu ao primeiro “puxão” e jogou seu peso contra meu pai. Sem desistir, o homem de braços resistentes investiu contra a besta mais uma vez. Agora, ambos pareciam dançar perigosamente pela borda da torre. Meu coração palpitava freneticamente. Ainda assim, só conseguia observar com atenção. E tensão.
Com maior velocidade, o dragão de metal dobrou o céu no intuito de preparar o golpe fatal contra meu pai. O homem, empunhando a espada da inteligência, esquivou-se do golpe e por pouco não perdeu a cabeça. Eis que nesse instante a batalha chega ao seu ápice. Da boca bem aberta, a língua da fera – presa por correntes – se encolheu. Detentor de um poder inesgotável, o fogo saiu para consumir meu pai. Sim, fomos tragados pelo som do badalo que ecoou por toda a cidade. Incessantemente, meu pai continuava a lutar contra o dragão enfurecido. Ele encantava dragões. Fazia com que estes trocassem o fogo pelo som. Fazia-os cantar.
Cada disparada de chamas parecia ganhar maior proporção enquanto outros monstros se juntavam ao embate. O rapaz que antes conversava com meu pai também o ajudava no confronto. Eu não fazia muito além de morder os lábios e apertas os dedos ainda cruzados.
Sem demonstrar cansaço, o cavaleiro olhou para mim e sorriu suavemente. Já vencido e dominado, o inimigo lamentava sua derrota e rugia cada vez mais alto. Cada vez mais triste. Já não sabia mais se aquele momento refletia a vitória. O que sabia é que, assim como meu pai, meu maior desejo era ser cavaleiro.
Foi assim que, em São João del-Rei, resolvi dominar as chamas dos dragões e seu canto seria meu prêmio diário. Foi assim que me tornei sineiro.
Todos os dias, meu pai acordava cedo e ia à Igreja. A missa reunião toda minha família e por isso eu gostava de estar ali, envolvido pelos meus. Quando garoto, admirava o fato de ser o meu pai aquele que desaparecia nas torres. Eu sabia que, de alguma forma, sem ele a cidade não seria a mesma. A curiosidade ainda me matava.
Certo dia, tentei subir as escadas de madeira, enquanto meu velho conversava com outro rapaz. Na metade do caminho, desisti da ideia. Imaginei a cara de decepção do meu pai ao ver que subi em seu território sem ter sido convidado, ou pior, sem tê-lo avisado. Enquanto descia, errei o passo e despenquei degrau a baixo. Uma mão calejada segurou firme meu braço. Ele me olhou diretamente nos olhos e sem dizer uma palavra, convidou-me para que, finalmente, fosse saciada minha ansiedade.
No alto da torre, podia ver toda a cidade. Mas minha atenção foi despertada por outra imagem. Rústico e preso como se fosse um dragão selvagem, aquele objeto entregava seu peso apenas pela forma. As cordas que o prendiam se assemelhavam à correntes. Sim, senti medo. Mas nada superava o desejo em ver o fogo sair pela boca de tal criatura. Meu pai, o cavaleiro da torre, pediu para que me afastasse. Nesse exato momento, sabia que a batalha teria início. Receoso, só pude obedecer e cruzar os dedos para que a vitória nos acompanhasse até nossa casa.
O monstro foi agarrado pelas mãos do cavaleiro. Forte, resistiu ao primeiro “puxão” e jogou seu peso contra meu pai. Sem desistir, o homem de braços resistentes investiu contra a besta mais uma vez. Agora, ambos pareciam dançar perigosamente pela borda da torre. Meu coração palpitava freneticamente. Ainda assim, só conseguia observar com atenção. E tensão.
Com maior velocidade, o dragão de metal dobrou o céu no intuito de preparar o golpe fatal contra meu pai. O homem, empunhando a espada da inteligência, esquivou-se do golpe e por pouco não perdeu a cabeça. Eis que nesse instante a batalha chega ao seu ápice. Da boca bem aberta, a língua da fera – presa por correntes – se encolheu. Detentor de um poder inesgotável, o fogo saiu para consumir meu pai. Sim, fomos tragados pelo som do badalo que ecoou por toda a cidade. Incessantemente, meu pai continuava a lutar contra o dragão enfurecido. Ele encantava dragões. Fazia com que estes trocassem o fogo pelo som. Fazia-os cantar.
Cada disparada de chamas parecia ganhar maior proporção enquanto outros monstros se juntavam ao embate. O rapaz que antes conversava com meu pai também o ajudava no confronto. Eu não fazia muito além de morder os lábios e apertas os dedos ainda cruzados.
Sem demonstrar cansaço, o cavaleiro olhou para mim e sorriu suavemente. Já vencido e dominado, o inimigo lamentava sua derrota e rugia cada vez mais alto. Cada vez mais triste. Já não sabia mais se aquele momento refletia a vitória. O que sabia é que, assim como meu pai, meu maior desejo era ser cavaleiro.
Foi assim que, em São João del-Rei, resolvi dominar as chamas dos dragões e seu canto seria meu prêmio diário. Foi assim que me tornei sineiro.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
O menino que descobriu ser o diabo
Na sala, todos me olhavam fixamente. Menos você. Eu já havia desistido de tentar reverter a situação. Eles queriam me matar de uma vez por todas, na esperança que das minhas cinzas nascesse uma criança normal. No instante em que senti o sangue escorrer pelas mãos, o tempo - que antes então corria acelerado - se desfez como poeira ao vento.
Antes
Acordava cedo e arrumava a roupa para, então, ir ao culto. Fazia parte da minha rotina ouvir os mais velhos falarem sobre Deus e suas normas. Falavam bastante do Diabo e o local onde o mesmo reinava. Lembro-me de como descreviam tal ambiente: "Um lugar quente, onde as pessoas não escondem mais o que são e sofrem constantemente. Lá, todos estão condenados à dor eterna e Deus simplesmente ignora o apelo dos que não seguiram suas leis", enfatizava o homem puro de vestes brancas.
Eu gostava de ir à Igreja. Encontrava meus amigos e minha família parecia feliz, livre, finalmente, das brigas diárias. Meus pais ficavam de mãos dadas e meu irmão se entretia com a comida - o que resultava na minha paz. Era o paraíso, ao meu ver. Eu não me importava em repetir as mesmas palavras vazias e difíceis de entender, o que eu queria mesmo era fazer parte daquela atmosfera. Queria ser parte de Deus.
Certo dia, voltamos do culto e a chuva torrencial sufocou qualquer diálogo. Meus pais estavam mais cinzas do que as nuvens e meu irmão dormia com a boca suja de açúcar. Pela janela, via as ruas vazias e as luzes alaranjadas dos postes criavam gotas de ouro. Por alguns instantes, pensei que a ida à Igreja não havia sido em vão. Não é todo o dia que se vê gotas de ouro.
Já em casa, corri para tirar os sapatos. Odeio ficar com os pés molhados. Dentro do pijama, desci para jantar e o clima não havia melhorado. A chuva estava sob nossas cabeças. Os olhos de minha mãe cortavam os de meu pai como um raio. Já a voz do patriarca fazia estremecer meu coração e o do meu irmão. Eles se retalhavam na sutileza do mastigar. Deus estava escondido entre as nuvens carregadas.
Sempre que eles começavam a trocar suas ofensas, eu tentava mergulhar dentro de minha mente e, como se estivesse imerso na água, abafava a retumbância do ódio conjugal. Viajava sem rumo por longos campos esverdeados nos quais gotículas de chuva ainda enfeitavam a grama e o céu se fazia indeciso - uma mescla de cinza, azul e branco. Eu olhava para o horizonte e me via nele, infinito, imenso e utópico. Quanto mais andava, menos me aproximava de algum lugar. Mas era essa eterna busca que me afastava da cólera dos meus pais.
Quando voltei, minha barriga estava gelada e meu irmão soluçava na cama. Não havia amor, alegria ou açúcar pra sujar a boca e, mesmo assim, rezamos para Deus. Repetimos o que nos havia sido ensinado, ainda que o sentimento não fosse de devoção, mas de profunda tristeza. Mais um dia longe daqui.
O sábio homem de Deus dizia que a briga entre casais era consequência da presença do mal entre as pessoas. Repetia várias vezes que o casamento era a consumação do amor maior e que somente o Diabo seria capaz de atrapalhar algo tão sublime. Ele explicou que a entidade maléfica trazia vergonha, traição, decepção e morte à família. Era como se fosse capaz de impedir que novas vidas surgissem no decorrer dos anos. Senti uma ira descomunal, porém, mantive-a presa nos diversos mundos que criei dentro em pensamento.
Muitas coisas que flutuavam na minha cabeça entravam em choque com o que era dito no santuário. Eu sentia interesse por conhecer ambos os lados. Queria saber mais sobre o que o mal era de fato, entretanto, meus pais sempre me censuravam. Ao longo das idas à Igreja, comecei a adquirir certas aversões em relação à minha própria pessoa. Odiava não ter controle sobre meu corpo, mas tinha mais raiva ainda por não conseguir escolher as vontades do meu corpo.
Os sonhos eram sempre encarados como pesadelos. Uma constante onda de tensão e sensação de falha surgia todas as vezes em que a noite trazia prazeres condenados pela palavra do Criador. Eu só estava cansado e precisava dormir. O que estava acontecendo? Eu não fazia nada de diferente e mesmo assim tudo começou a mudar.
As rezas já não eram mais sem sentido. As palavras ganharam significados imutáveis. Eu rezava por medo. Fazia as preces para conseguir manter o foco longe de mim mesmo. Costurei meus olhos, ouvidos e mãos. Matei meu corpo sem nem ao menos pensar duas vezes. Sentia que estava próximo de Deus e isso me trazia alívio. Mas não felicidade.
Meus pais evitavam as brigas, despejando sobre mim elogios e esperanças. Eu era o único elo que ainda os unia. Ambos diziam que eu era fruto do que tinham de melhor. Meu irmão não se importava. Ele me conhecia mais do que eu mesmo.
A infância secava como folhas caídas. O inverno estava próximo e com ele, calor e luminosidade deixariam de atormentar minha existência. Aprofundei minha concentração nos estudos e encontrei abrigo. Não havia mais espaço para refletir. Bastava-me assimilar os conceitos e decorá-los. Para que discutir sobre eles? Não fui eu quem os criou. Não fui eu quem ditou as palavras de Deus. A mim só cabia reproduzir.
Ainda que as brigas fossem constantes, meus pais não permitiam mais que elas fossem travadas diante de mim. Tinham medo de que isso me desviasse dos estudos e também da boa conduta. Ao invés dos berros na cozinha, eles dormiam em camas separadas e não se encontravam no café da manhã. Eu não ouvia e nem via mais nada. E isso, sem dúvidas, foi bem pior do que presenciar discussões violentas. Mas na Igreja, a peça chamada "Amor entre casais" ainda era encenada com maestria.
Durante uma festa da comunidade limpa e religiosa, conheci um garoto chamado Demian.
Durante
Sem motivo, ele veio até mim e pegou minha mão. Rapidamente, separei-me dele e fingi que nada havia acontecido. Com calma, ele voltou e pediu que eu o acompanhasse.
Demian era mais alto do que eu, apesar de ser um ano mais novo. Era ótimo nos esportes e também nos estudos. Entretanto, sofria com o desprezo das demais pessoas. Cabelos vermelhos, olhos vermelhos e a pele branca como leite. O rosto fino e as mãos sensíveis. Ruivo, só trazia a cor fria nos olhos azuis. Nenhuma medalha mudava sua condição em meio aos demais. Era um menino muito bonito, mas como disseram várias vezes, "pecou em um único detalhe". Ele não se misturava e, mesmo assim, vivia sua vida tranquilamente. Era vermelho demais para a opacidade dos demais.
Certo dia, enquanto jogávamos Taco, a bola ultrapassou os limites do jardim da Igreja e foi parar no quintal da casa vizinha. Todos os garotos, inclusive eu e Deminan, estavam cientes do enorme cão que ali vivia e da cerca que protegia o muro de invasores. Não demorou muito para que escolhessem o garoto "cabelo de fogo" como responsável por resgatar a bola. A razão da escolha? Ele era o que havia pecado em um único detalhe. Eu, que pouco me importava para aquele jogo, falei no ouvido de Demian, tentando impedi-lo de cometer tal tentativa de suicídio.
Disse a ele que nenhum jogo valia o risco que estava prestes a correr e que aqueles garotos eram imbecis e covardes. Sacrificar-se por pessoas assim era tolice e que ele de tolo não tinha nada. Minha tentativa era a de mostrar preocupação, mas só consegui deixá-lo mais próximo do muro. Com serenidade, olhou nos meus olhos com ambas as safiras e pediu para que eu o deixasse fazer aquilo que tinha que ser feito. Explicou-me que o sacrifício não era apenas pelos garotos imbecis, mas por mim também, que de imbecil não tinha nada. Suavemente, senti que sua voz corria pelas minhas veias e só pude sentir vergonha das palavras que havia dito.
Demian subiu com cuidado até a superfície do muro. Lá, avistou a bolinha e desceu suavemente, aterrizando do outro lado da parede. Os demais garotos subiram para ver o que aconteceria com o ruivo. Eu fiz o mesmo. E então, avistamos aquele corpo branco voltando com o objeto de desejo na mão. Em apenas um segundo, tudo mudou. O cão do vizinho sentiu o cheiro de Demian e o atacou com fúria. O garoto usou as mãos para se proteger e, por conta disso, gritou quando elas foram perfuradas pelos caninos da besta. Caído no chão, tentou afastar o cachorro com os pés, mas só conseguiu entregá-los às mandíbulas de aço. Mais perfurações. No momento de desespero, conseguiu se erguer e, ao tentar voltar para o alto do muro, enroscou os cabelos no arame e rasgou a pele da testa.
Eu o deixei lá, não consegui assistir a tudo. Os meninos socorreram Demian e o levaram de volta para a Igreja. Quando passou por mim, seus olhos azuis sorriram e a bola - coberta de sangue - foi deixada no meu bolso. O incidente rendeu muitas conversas entre adultos, mas foi entre os jovens que a odisseia ganhou grandes proporções. Herói, corajoso, imortal, salvador de todos, bondoso... Alguns dos troféus que recebe por ser simplesmente ele mesmo. Não nos falamos por muitos meses. Eu o evitava. E ele me procurava.
Cansado de fugir e desistir de muitas festas para adiar o encontro inevitável, decidi que ia ceder ao apelo por uma conversa. Estávamos com 17 anos. No jardim sagrado da casa de Deus, passamos muitas horas trocando ideias e questionamentos. Minha racionalidade, baseada nas fantasiosas analogias da bíblia, ia de encontro ao dom surreal que Demian tinha de criar mundos. Os conflitos nos aproximavam. Até que o beijo aconteceu. Depois dele, não consegui mais conter a necessidade de refletir sobre tudo. Principalmente sobre mim.
Depois
Foi como se todos os mistérios, medos e avisos sobre as consequências tivessem sido queimados de uma só vez. Todas aquelas regras, punições e acusações se dissolveram. Eu, que acreditava num repentino sentimento de tristeza e vergonha, não consegui perceber qualquer insatisfação. Pelo contrário. Entrei em contato com alguém que me fazia bem. Alguém que, assim como eu, nunca havia se importado com o sentido das coisas. Por medo, escondi minha essência numa sala repleta de páginas velhas e mal escritas. Por medo de não ser feliz de verdade, Demian se sacrificou mais uma vez. No ápice de nossa inocência, achamos que a boa postura que sempre nos acompanhou seria suficiente para que nossos pais aceitassem a união. Mal sabíamos que já não tínhamos mais pais. Nem paz.
Minha mãe tentou suicídio pela 7ª vez, durante meu aniversário de 18 anos. Antes de atear fogo na própria cabeça, ela fez um discurso que resumia muito do que, no fundo, sempre soube. Aos dezoito anos, descobri que eu era o Diabo.
Diante dos convidados - entre eles Demian - minha mãe demonstrou porque tinha permitido a presença do garoto ruivo e problemático. Suas palavras deveriam matar duas criaturas no mesmo instante. Três, se ela tivesse conseguido se matar. E assim ela profetizou:
"Maior infelicidade não seria nem mesmo essa doença asquerosa que envolve aquele que pari. Maior infelicidade seria viver para presenciar a degradação do meu sangue, contido nas veias de um porco imundo. Bebeu do meu leite, comeu de minha comida e no meu lar encontrou abrigo. Ardiloso, sorriu e disse que me amava, mas escondia uma navalha debaixo da língua bifurcada. A pele macia pedia por carinho, o que na verdade era apenas egoísmo e vaidade. Afastou meu marido de mim, trouxe vergonha para nossa casa e influenciou o irmão para que o mesmo não falasse nada. Adubou o solo de nossa família com infertilidade, matando os frutos que estavam por vir.
Como uma serpente, devorou o conhecimento para que assim conseguisse destilar seu veneno. Entrou na casa de Deus sobre duas pernas e de lá saiu rastejando. Maldito seja!"
Parabéns pelos dezoito anos. Foi o que meu pai disse antes de pular para a cozinha atrás de um balde com água. Depois de ter apagado as chamas que consumiam o rosto de minha mãe, ele voltou e pediu desculpas. Disse que havia falhado no seu papel e por isso eu estava doente e perdido.
O único presente que ganhei naquela festa foi o fim da mesma. Demian me olhou e com isso disse o que precisava ser dito. Após tal episódio, guardei comigo apenas as palavras que davam sentido aos meus dias. Sai de casa, fui conhecer mais sobre o mundo e sobre mim mesmo.
Demian foi comigo e sempre respeitou meu tempo. Sua capacidade de construir mundos nos foi muito útil. Em pouco tempo, encontramos um lugar seguro e tranquilo onde só o sentimento sem nome é quem imperava.
Deus? Às vezes ele aparece na minha mente. Eu? Aceitei minha condição. Descobri que de Diabo eu só tinha uma coisa: o ódio que as pessoas depositavam em mim.
Antes
Acordava cedo e arrumava a roupa para, então, ir ao culto. Fazia parte da minha rotina ouvir os mais velhos falarem sobre Deus e suas normas. Falavam bastante do Diabo e o local onde o mesmo reinava. Lembro-me de como descreviam tal ambiente: "Um lugar quente, onde as pessoas não escondem mais o que são e sofrem constantemente. Lá, todos estão condenados à dor eterna e Deus simplesmente ignora o apelo dos que não seguiram suas leis", enfatizava o homem puro de vestes brancas.
Eu gostava de ir à Igreja. Encontrava meus amigos e minha família parecia feliz, livre, finalmente, das brigas diárias. Meus pais ficavam de mãos dadas e meu irmão se entretia com a comida - o que resultava na minha paz. Era o paraíso, ao meu ver. Eu não me importava em repetir as mesmas palavras vazias e difíceis de entender, o que eu queria mesmo era fazer parte daquela atmosfera. Queria ser parte de Deus.
Certo dia, voltamos do culto e a chuva torrencial sufocou qualquer diálogo. Meus pais estavam mais cinzas do que as nuvens e meu irmão dormia com a boca suja de açúcar. Pela janela, via as ruas vazias e as luzes alaranjadas dos postes criavam gotas de ouro. Por alguns instantes, pensei que a ida à Igreja não havia sido em vão. Não é todo o dia que se vê gotas de ouro.
Já em casa, corri para tirar os sapatos. Odeio ficar com os pés molhados. Dentro do pijama, desci para jantar e o clima não havia melhorado. A chuva estava sob nossas cabeças. Os olhos de minha mãe cortavam os de meu pai como um raio. Já a voz do patriarca fazia estremecer meu coração e o do meu irmão. Eles se retalhavam na sutileza do mastigar. Deus estava escondido entre as nuvens carregadas.
Sempre que eles começavam a trocar suas ofensas, eu tentava mergulhar dentro de minha mente e, como se estivesse imerso na água, abafava a retumbância do ódio conjugal. Viajava sem rumo por longos campos esverdeados nos quais gotículas de chuva ainda enfeitavam a grama e o céu se fazia indeciso - uma mescla de cinza, azul e branco. Eu olhava para o horizonte e me via nele, infinito, imenso e utópico. Quanto mais andava, menos me aproximava de algum lugar. Mas era essa eterna busca que me afastava da cólera dos meus pais.
Quando voltei, minha barriga estava gelada e meu irmão soluçava na cama. Não havia amor, alegria ou açúcar pra sujar a boca e, mesmo assim, rezamos para Deus. Repetimos o que nos havia sido ensinado, ainda que o sentimento não fosse de devoção, mas de profunda tristeza. Mais um dia longe daqui.
O sábio homem de Deus dizia que a briga entre casais era consequência da presença do mal entre as pessoas. Repetia várias vezes que o casamento era a consumação do amor maior e que somente o Diabo seria capaz de atrapalhar algo tão sublime. Ele explicou que a entidade maléfica trazia vergonha, traição, decepção e morte à família. Era como se fosse capaz de impedir que novas vidas surgissem no decorrer dos anos. Senti uma ira descomunal, porém, mantive-a presa nos diversos mundos que criei dentro em pensamento.
Muitas coisas que flutuavam na minha cabeça entravam em choque com o que era dito no santuário. Eu sentia interesse por conhecer ambos os lados. Queria saber mais sobre o que o mal era de fato, entretanto, meus pais sempre me censuravam. Ao longo das idas à Igreja, comecei a adquirir certas aversões em relação à minha própria pessoa. Odiava não ter controle sobre meu corpo, mas tinha mais raiva ainda por não conseguir escolher as vontades do meu corpo.
Os sonhos eram sempre encarados como pesadelos. Uma constante onda de tensão e sensação de falha surgia todas as vezes em que a noite trazia prazeres condenados pela palavra do Criador. Eu só estava cansado e precisava dormir. O que estava acontecendo? Eu não fazia nada de diferente e mesmo assim tudo começou a mudar.
As rezas já não eram mais sem sentido. As palavras ganharam significados imutáveis. Eu rezava por medo. Fazia as preces para conseguir manter o foco longe de mim mesmo. Costurei meus olhos, ouvidos e mãos. Matei meu corpo sem nem ao menos pensar duas vezes. Sentia que estava próximo de Deus e isso me trazia alívio. Mas não felicidade.
Meus pais evitavam as brigas, despejando sobre mim elogios e esperanças. Eu era o único elo que ainda os unia. Ambos diziam que eu era fruto do que tinham de melhor. Meu irmão não se importava. Ele me conhecia mais do que eu mesmo.
A infância secava como folhas caídas. O inverno estava próximo e com ele, calor e luminosidade deixariam de atormentar minha existência. Aprofundei minha concentração nos estudos e encontrei abrigo. Não havia mais espaço para refletir. Bastava-me assimilar os conceitos e decorá-los. Para que discutir sobre eles? Não fui eu quem os criou. Não fui eu quem ditou as palavras de Deus. A mim só cabia reproduzir.
Ainda que as brigas fossem constantes, meus pais não permitiam mais que elas fossem travadas diante de mim. Tinham medo de que isso me desviasse dos estudos e também da boa conduta. Ao invés dos berros na cozinha, eles dormiam em camas separadas e não se encontravam no café da manhã. Eu não ouvia e nem via mais nada. E isso, sem dúvidas, foi bem pior do que presenciar discussões violentas. Mas na Igreja, a peça chamada "Amor entre casais" ainda era encenada com maestria.
Durante uma festa da comunidade limpa e religiosa, conheci um garoto chamado Demian.
Durante
Sem motivo, ele veio até mim e pegou minha mão. Rapidamente, separei-me dele e fingi que nada havia acontecido. Com calma, ele voltou e pediu que eu o acompanhasse.
Demian era mais alto do que eu, apesar de ser um ano mais novo. Era ótimo nos esportes e também nos estudos. Entretanto, sofria com o desprezo das demais pessoas. Cabelos vermelhos, olhos vermelhos e a pele branca como leite. O rosto fino e as mãos sensíveis. Ruivo, só trazia a cor fria nos olhos azuis. Nenhuma medalha mudava sua condição em meio aos demais. Era um menino muito bonito, mas como disseram várias vezes, "pecou em um único detalhe". Ele não se misturava e, mesmo assim, vivia sua vida tranquilamente. Era vermelho demais para a opacidade dos demais.
Certo dia, enquanto jogávamos Taco, a bola ultrapassou os limites do jardim da Igreja e foi parar no quintal da casa vizinha. Todos os garotos, inclusive eu e Deminan, estavam cientes do enorme cão que ali vivia e da cerca que protegia o muro de invasores. Não demorou muito para que escolhessem o garoto "cabelo de fogo" como responsável por resgatar a bola. A razão da escolha? Ele era o que havia pecado em um único detalhe. Eu, que pouco me importava para aquele jogo, falei no ouvido de Demian, tentando impedi-lo de cometer tal tentativa de suicídio.
Disse a ele que nenhum jogo valia o risco que estava prestes a correr e que aqueles garotos eram imbecis e covardes. Sacrificar-se por pessoas assim era tolice e que ele de tolo não tinha nada. Minha tentativa era a de mostrar preocupação, mas só consegui deixá-lo mais próximo do muro. Com serenidade, olhou nos meus olhos com ambas as safiras e pediu para que eu o deixasse fazer aquilo que tinha que ser feito. Explicou-me que o sacrifício não era apenas pelos garotos imbecis, mas por mim também, que de imbecil não tinha nada. Suavemente, senti que sua voz corria pelas minhas veias e só pude sentir vergonha das palavras que havia dito.
Demian subiu com cuidado até a superfície do muro. Lá, avistou a bolinha e desceu suavemente, aterrizando do outro lado da parede. Os demais garotos subiram para ver o que aconteceria com o ruivo. Eu fiz o mesmo. E então, avistamos aquele corpo branco voltando com o objeto de desejo na mão. Em apenas um segundo, tudo mudou. O cão do vizinho sentiu o cheiro de Demian e o atacou com fúria. O garoto usou as mãos para se proteger e, por conta disso, gritou quando elas foram perfuradas pelos caninos da besta. Caído no chão, tentou afastar o cachorro com os pés, mas só conseguiu entregá-los às mandíbulas de aço. Mais perfurações. No momento de desespero, conseguiu se erguer e, ao tentar voltar para o alto do muro, enroscou os cabelos no arame e rasgou a pele da testa.
Eu o deixei lá, não consegui assistir a tudo. Os meninos socorreram Demian e o levaram de volta para a Igreja. Quando passou por mim, seus olhos azuis sorriram e a bola - coberta de sangue - foi deixada no meu bolso. O incidente rendeu muitas conversas entre adultos, mas foi entre os jovens que a odisseia ganhou grandes proporções. Herói, corajoso, imortal, salvador de todos, bondoso... Alguns dos troféus que recebe por ser simplesmente ele mesmo. Não nos falamos por muitos meses. Eu o evitava. E ele me procurava.
Cansado de fugir e desistir de muitas festas para adiar o encontro inevitável, decidi que ia ceder ao apelo por uma conversa. Estávamos com 17 anos. No jardim sagrado da casa de Deus, passamos muitas horas trocando ideias e questionamentos. Minha racionalidade, baseada nas fantasiosas analogias da bíblia, ia de encontro ao dom surreal que Demian tinha de criar mundos. Os conflitos nos aproximavam. Até que o beijo aconteceu. Depois dele, não consegui mais conter a necessidade de refletir sobre tudo. Principalmente sobre mim.
Depois
Foi como se todos os mistérios, medos e avisos sobre as consequências tivessem sido queimados de uma só vez. Todas aquelas regras, punições e acusações se dissolveram. Eu, que acreditava num repentino sentimento de tristeza e vergonha, não consegui perceber qualquer insatisfação. Pelo contrário. Entrei em contato com alguém que me fazia bem. Alguém que, assim como eu, nunca havia se importado com o sentido das coisas. Por medo, escondi minha essência numa sala repleta de páginas velhas e mal escritas. Por medo de não ser feliz de verdade, Demian se sacrificou mais uma vez. No ápice de nossa inocência, achamos que a boa postura que sempre nos acompanhou seria suficiente para que nossos pais aceitassem a união. Mal sabíamos que já não tínhamos mais pais. Nem paz.
Minha mãe tentou suicídio pela 7ª vez, durante meu aniversário de 18 anos. Antes de atear fogo na própria cabeça, ela fez um discurso que resumia muito do que, no fundo, sempre soube. Aos dezoito anos, descobri que eu era o Diabo.
Diante dos convidados - entre eles Demian - minha mãe demonstrou porque tinha permitido a presença do garoto ruivo e problemático. Suas palavras deveriam matar duas criaturas no mesmo instante. Três, se ela tivesse conseguido se matar. E assim ela profetizou:
"Maior infelicidade não seria nem mesmo essa doença asquerosa que envolve aquele que pari. Maior infelicidade seria viver para presenciar a degradação do meu sangue, contido nas veias de um porco imundo. Bebeu do meu leite, comeu de minha comida e no meu lar encontrou abrigo. Ardiloso, sorriu e disse que me amava, mas escondia uma navalha debaixo da língua bifurcada. A pele macia pedia por carinho, o que na verdade era apenas egoísmo e vaidade. Afastou meu marido de mim, trouxe vergonha para nossa casa e influenciou o irmão para que o mesmo não falasse nada. Adubou o solo de nossa família com infertilidade, matando os frutos que estavam por vir.
Como uma serpente, devorou o conhecimento para que assim conseguisse destilar seu veneno. Entrou na casa de Deus sobre duas pernas e de lá saiu rastejando. Maldito seja!"
Parabéns pelos dezoito anos. Foi o que meu pai disse antes de pular para a cozinha atrás de um balde com água. Depois de ter apagado as chamas que consumiam o rosto de minha mãe, ele voltou e pediu desculpas. Disse que havia falhado no seu papel e por isso eu estava doente e perdido.
O único presente que ganhei naquela festa foi o fim da mesma. Demian me olhou e com isso disse o que precisava ser dito. Após tal episódio, guardei comigo apenas as palavras que davam sentido aos meus dias. Sai de casa, fui conhecer mais sobre o mundo e sobre mim mesmo.
Demian foi comigo e sempre respeitou meu tempo. Sua capacidade de construir mundos nos foi muito útil. Em pouco tempo, encontramos um lugar seguro e tranquilo onde só o sentimento sem nome é quem imperava.
Deus? Às vezes ele aparece na minha mente. Eu? Aceitei minha condição. Descobri que de Diabo eu só tinha uma coisa: o ódio que as pessoas depositavam em mim.
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
O que a chuva me trouxe
Escolhi sair de casa o quanto antes, pois já não havia mais ar. Os pulmões reclamavam e evitei a despedida. Não conseguia escrever uma palavra e, por este motivo, o que lhe restou foi a ausência de explicação.
Cada fragmento da infância queimava no peito. Caminhadas sem rumo e dias conversando com o vento. Sempre pedia para que ele me trouxesse a chuva. Parecia que além das nuvens os pedidos ganhavam forma. Era como se eu deixasse de estar no nível mais baixo e os pés finalmente abandonavam o chão. No quintal, repleto pelo verde do musgo que crescia nas beiradas das paredes, eu passava as horas envolvido pela atmosfera surreal, sem nem ao menos saber o que isso significava. Via nos galhos de árvores e pedras tudo o que precisava para criar um novo mundo. Eu não governava, mas observava minhas criaturas e seus conflitos. Sempre soou familiar.
Lembro-me do dia em que a noite chegou mais cedo. O céu escureceu e a terra exalou seu perfume. Descalço, senti o solo mais frio e o sopro do vento fez minha pele se recolher. Começou a chover e, inutilmente, tentei conter a lágrima que escorria. Eu não sabia o que isso significava. Sentia nas gotas de chuva uma paz inominável.
(...)
Aurora
"Não há luz que consiga evitar o reflexo da água. Não há terra que consiga mudar seu fluxo por inteiro. De tudo o que criei, foi a chuva que recebeu a bênção da vida. Despejei em sua essência o que havia de mais puro em mim. O amor".
Varuna
"Quando surgi, fui apresentada a uma terra seca e abandonada. Caminhei por muito tempo e só o que vi foram cicatrizes deixadas pela minha ausência. Mas eu não sentia pena nem tristeza. Estava estática e alimentada por uma antipatia profunda. Nada me comovia, nem mesmo o apelo daqueles pequenos seres.
Após alguns dias, voltei ao deserto e percebi que a vida ainda resistia. As criaturas lutavam para que o último fio de esperança não se perdesse em meio a tanta poeira. O que me encantou não foi a cena decadente nem mesmo a culpa que sabia ser minha. O que me encantou foi a capacidade de resistir e ainda assim pedir por mim sem rancor.
Toquei meu rosto e percebi que os olhos estavam molhados. Chorei. Deixei chover. E choveu muito".
(...)
O guarda-chuva foi responsável por te colocar ao meu lado. Seus sapatos estavam encharcados e eu não pude evitar o convite. Em silêncio, caminhamos pela cidade, que mais parecia um jornal molhado. Em seguida, muitos anos. Momentos marcados pela água que caia dos céus. Parecia nosso ritual e a única coisa que de fato nos pertencia. Podia chover sempre... Nos casamentos, nas festas, nos feriados. Podiam reclamar e praguejar. Nós sempre encontrávamos um lugar onde fôssemos bem-vindos.
E um dia ela passou. Você decidiu partir. Não havia mais a magia no som das gotas atiradas ao chão. Ainda assim, não restou tristeza, mas a forte sensação de que havíamos lavado nossas almas. E para as feridas, a água doce da chuva não ajudou. Eu fui buscar o sal do mar.
A chuva me trouxe o eterno. E todas as vezes em que ela chegar, estarei novamente em contato com você. Somos pequenos pedaços do infinito. Não sei o que isso significa. Apenas deixo ela cair sobre mim e se fundir com as lágrimas. Chorei. Deixei chover. E choveu muito.
domingo, 11 de dezembro de 2011
O dom de esquecer
Já havia se passado três meses. Parece que esse período de tempo não alterou nada. E eu ainda sinto o peso das malas em minhas mãos. Também ouço meus próprios passos pelo corredor e cerro os lábios ao me lembrar das últimas palavras ditas. Esquecer é um dom. Esquecer é uma dádiva.
Eu estava escrevendo mal. Não encontrava a mim mesmo. Foi o que ela me disse. Vestida com sua blusa florida e calças masculinas, olhou-me como se não suportasse aquela imagem distorcida. Pediu para que eu a desse um motivo que evitasse minha saída da escola. Eu só consegui dizer que "no lugar das páginas dos livros poderiam ter colocado folhas em branco". Estava fora do mundo, mais uma vez.
Resolvi ir até a colina. A cidade não me queria mais. E eu nunca a desejei. Caminhei por muitas horas, até que resolvi descansar encostado em um velho carvalho. A voz da floresta me conduzia. Eles jamais saberiam a respeito dos meus motivos. Nem família, nem amigos, nem você. Primeiro eu me apaixonei pelo céu.
Nublado e denso, seu rosto carrancudo não assustou meus olhos. Zéfiro soprava como nunca e o frio abraçava minha pele. As nuvens eram mas mesmas que cobriam nossos corpos. Deitados na grama, fizemos juras de amor com a ponta dos dedos. Escrevemos nas nuvens de chuva cada gota da esperança que nos unia e, futuramente, viria a nos destruir.
Eu sempre me senti como um balão solto no ar. Sem aquela mão para me manter por perto, eu partia diversas vezes e nunca voltava para dizer o que vi e senti. Naquele instante o céu me recebia como reflexo de sua decadência. Estirado no chão, eu o encarava sem vontade de levantar e caminhar novamente. E, lentamente, suas mãos envolveram meu rosto.
Os cinco dias da semana e os milhares de meses intermináveis. Os anos de poucas lembranças e as vontades urgentes, emergentes e inconsequentes. Depois de ter visto o céu, teto nenhum conseguiu me segurar. Ao buscar sempre um lugar onde estivesse próximo do alto, acabei me apaixonando pelas estradas.
Os joelhos sempre me foram fieis. Os pés também, apesar de reclamarem muito. Sendo assim, não tinha mais desculpas para ficar. As mãos que agora envolviam meu rosto eram as mesmas que me levavam comida à boca. Sozinho, caminhei como se essa fosse a forma mais confortável de se suicidar.
Enquanto olhava para horizonte, percebi que, aos poucos, deixava de me importar com as direção. Eu seguia uma vontade de chorar misturada com a batida acelerada de um coração inquieto. Gastava a água do corpo como caminhão que queima até a última gota de combustível. Eu já não tinha mais laços com a história que um dia me descreveu.
Na estrada, pude chorar e gritar sem ser acudido. Pude enlouquecer a ponto de socar um tronco e rasgar a carne dos dedos. Pude beber e fumar. Pude passar fome e dar valor ao que tinha para comer. Eu pude tantas coisas que acabei me cansando de tal liberdade. Decidi impor alguns limites e tentar desenhar uma borda que agregasse toda aquela bela pintura feita com a respingos de alma. Parei na pequena cidade e lá me apaixonei pelas velas.
Quando ela me perguntou se eu estava com sono não precisou muito para que respondesse. Os olhos vermelhos imploravam por um segundo de paz. Aceitei o convite. Enquanto dormia, sonhei com a réplica perfeita daquele que seria o abraço mais gostoso de todos. Seus olhos espertos fitavam meu corpo cansado. Sem saber como começar a conversa inevitável, derrubou algumas coisas na mesa até que parou diante de mim e roubou meu ar. Eu não conseguia ver todo o seu rosto, parte dele estava escondido pelas sombras, mas a outra metade cintilava com a luz das velas. Aquele tom amarelado cobria de ouro o rosto da cor da madeira. Minhas mãos decidiram confortar aquele face esculpida com perfeição. Antes de partir, deixei uma carta com algumas palavras. Não agradeci, pois nunca esperamos nada um do outro.
Eu deveria tê-la amado intensamente. Deveria ter feito da última paixão a síntese de todo o sentimento que tanto cultivei. Mas não foi assim. Pois a natureza me ensinou a respeitar tudo o que não for compreensível ao meu ver. E o que corre pelas minhas veias é justamente essa ausência de nomes e definições. Meu coração não sabe escrever nem ler as linhas do mundo e suas regras complexas. Ele sente e sofre demais por isso, mas é uma dor tão necessária que sem ela eu jamais teria motivos para lutar contra algo. E como descrever meu coração? Não, não consigo. Claro que consigo, só evito fazê-lo. Mas faço, dessa vez.
Fragmento da essência de todas as energias, ele foi batizado pela Fênix e sua gana por destruição. A partir dos próprios estilhaços, recolhe todas as partes e constrói uma pseudo versão de si mesmo. Jogado num universo, vaga e explode, consome-se até que caia esgotado sobre sua própria solidão. Ainda assim não o conheço tão bem. Mas ele sabe tudo a meu respeito.
Debaixo daquela árvore, percebi que alguém me observava. Jamais imaginei que naquele instante me apaixonaria por você. Seu sorriso me trouxe o retrato mais belo do céu e nenhuma palavra precisou ser dita. Como se meu coração tivesse percorrido milhares de estradas até encontrar o seu, senti um peso no peito que me fez querer congelar o tempo. E os meus olhos brilhavam como luzes de velas assim que encontraram no seu a chama da ave de fogo, que renascia mais uma vez das cinzas de um amor distante.
Foi naquele dia, há três meses, que ergui as malas pesadas e caminhei para o corredor da velha casa de campo. Cerrei os lábios na tentativa de não dizer "entre", mas falhei. E quando me dei conta já havia esquecido de todo o mundo. Esquecer é um dom. Esquecer é uma dádiva.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Não vejo cores, mas as ouço
O refúgio está no silêncio. Quando a casa vazia abriga apenas minha ausência, sinto que o tempo começa a correr ao contrário e as velhas fotos voltam para a parede do quarto. Os corredores revivem flores e velhos móveis. As escadas fazem menos barulho. Meu coração bate mais calmo.
Não consegui adormecer. O mar cantarolava qualquer música e meu corpo pedia por uma caminhada. As ondas, em sua dança particular, conduziram-me por quilômetros até que encontrei aquela grande pedra. Coração da terra. Mais solitária do que nunca. Enquanto observava a imensidão, lembrei das pessoas que deram cor ao meus dias.
As verdes me traziam uma paz sobrenatural. Sempre centradas e com o tom de voz bem suave, sabiam me decifrar apenas pela vibração das cordas vocais. Procuravam nos meus olhos o que havia sobrado do último sorriso. Na esperança de não deixar que minha alma se rendesse ao sono dos inconformados, eles diminuíram a velocidade da vida e me embalavam numa longa melodia capaz de misturar o sal das lágrimas com o doce dos lábios.
Os vermelhos queriam mais de mim do que eu mesmo poderia pedir. Consumiam-me diariamente e colocam à prova toda a criatividade que viesse a ter. A diversão se misturava com a forte insegurança refletida nas palavras repetidas e no vocabulário propositalmente vasto. Aceleravam o tempo para que os maus momentos fossem breves interlúdios na longa jornada de um único dia. Apostavam no erro e o transformava em acerto. Alquimistas do intangível, sabiam lidar com o fogo, com o metal e com o sangue. Com eles, lutei sempre que pude.
As amarelas guardavam no sorriso o conforto do abraço de mãe. Gigantes e imponentes, tinham uma aura tão acolhedora que perto delas me sentia como um pequeno planeta girando em torno do sol de ouro. Alimentavam minhas ideias com a luz de sua segurança. Aqueciam meus dias e respeitavam meu período nas sombras. Tiravam do sabor dos alimentos a mágica de tecer um nosso gosto que superasse o amargo na boca. Tais pessoas deixavam de lado a própria vida para que as outras cores pudessem se manter em eterna plenitude.
Os azuis sempre me encantaram. Em especial, por sua distância do mundo real e o respeito pelo silêncio. Detentores de um saber único, transitavam - sem dificuldade - pelas vias da tristeza e traduziam o amor em pequenas doses de carinho. Implosivos, mostraram-me o infinito de sua sabedoria. A felicidade dos azuis se fez no instante em que o céu adotou sua cor como pele. Nesse momento, eles sorriram através das estrelas.
Eu, o preto, consumo todas essas cores. Sou eu o debilitado, incapaz de criar tais sentimentos dentro de mim. Preciso de cada uma das cores para me manter vivo e elas me servem de motivo para continuar. Aqueles que têm como cor o preto surgem para eliminar os excessos. Céticos, buscam em cada detalhe a queda das verdades e explicações inflexívies. Lidam com a contradição como se está fosse tão necessária quanto a sabedoria. E de fato é. Ultrapassam as linhas entre real e fantasioso para que suas mentes possam morrer e reviver das próprias cinzas. Acreditam no equilíbrio, mas desdenham das doutrinas. Eu, o preto, sou um pedaço do universo que por rebeldia se desprendeu do vazio.
E você, o branco, ainda encanta meus olhos. Com um toque, reuniu todas as cores possíveis e impossíveis para desenhar, à mão livre, todos os cantos do infinito. Criador da temperança, ensinou às outras cores a arte de se misturar. Não separou os quentes dos frios. No seu coração, fez com que eles produzissem uma luz tão forte que após sua ascensão nada mais cegou minha mente. E meus pulmões negros se encheram de um silêncio bucólico.
Enquanto vivermos, as cores serão o que são. Parte de nós. Parte de tudo o que nós mais amamos e odiamos. Parte do silêncio. Parte do nosso refúgio.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Sunday
Cada gota matava a sede. A chuva não atrapalhava os olhos, nem impedia o som. A chuva estava hipnotizante.
Olha para o alto e a lama nos pés não diz mais nada. Sente o cheiro da terra e relaxa os ombros. Cada acorde, cada riff distorcido, cada segundo numa atmosfera sônica que matava os neurônios e libertava a mente das garras da racionalidade. Você não consegue olhar para si mesmo. A natureza pensou em tudo. Essa foi a maneira que ela encontrou de te manter vivo por mais tempo. Você não consegue se ver.
Domingo.
Caminhava com passos cuidadosos. O chão não era confiável. Respirava profundamente. Os pulmões ainda não estavam recuperados. A cidade deixa marcas. Cheguei ao local. Muitas gente, muita água, pouco espaço... Cheguei e já parti.
Como descrever uma sensação tão única? Como? Bem, não existe uma fórmula, mas existem palavras.... Muitas palavras.
"Primeiro, você deixa de sentir o corpo. É como se os membros esfarelassem como areia. Em seguida, o peso nas costas desaparece. A visão, cansada de sempre capturar o mesmo, decide dormir e tudo fica escuro. Então, você passa a "ver" com os ouvidos. Cada nota, cada vibração de corda, cada gota de chuva ecoava dentro do vazio que, agora, completava a existência. O "nada" dentro de mim parecia ter se misturado com o ambiente. Não havia mais direção a ser seguida e o coração batia devagar. Nem frio e nem calor. Apenas o vazio preenchendo o ser.
Não há mais nome, endereço, família, dor, paixão, vontades e frustrações. Não há nada. E por isso, existe algo no fundo das camadas soterradas de frequências inaudíveis. Existe a fuga".
O tempo escorreu até as pontas dos dedos molhados. Gota por gota, contou cada segundo gasto com a ausência da mente. Não me cobrou depois. Mas ainda assim, fez questão de registrar.
Conforme fui retornando, lembrei-me das pessoas que gostaria de ter comigo naquele momento. Dividir o vazio, repartir a inexistência e poder falar sobre aquilo que ninguém jamais vai entender.
A mente é como um cavalo selvagem. Enquanto puder cavalgar, será bela e imprevisível. Mas no instante em que ganhar cabresto, o que antes encantava, passará a tirar da beleza o dom de fazer sorrir sem estar realmente feliz.
sábado, 29 de outubro de 2011
O amor não é o suficiente
E nunca será.
Enquanto eu permanecer aqui, dentro dessa prisão de carne e ossos, nada mais será alcançável. Toda a distância será bem-vinda. Dentro do meu quarto, dentro do ônibus, dentro da sala de aula e, principalmente, dentro de você.
Mas que se foda. Um dia os textos poderão fluir de uma maneira menos óbvia. O desafio mesmo é escrever quando se está feliz. A tristeza já é presença fixa nos textos deste espaço. Ainda assim, resisto aos dias comuns.
O amor nunca será o bastante. E se um dia vier a ser... Estarei aqui, para registrar o momento.
A carta que nunca foi entregue
Não faz sentido nenhum. Nunca nos falamos. Ainda assim, acumulei dezenas de palavras para te dizer. Desculpe, não existe uma explicação racional, por isso valorizo tanto o que sinto. É algo que só sinto por você. Então, não pense que é loucura. Apenas não fiz questão de rotular.
Sabe, não consigo definir como vai ser ou como poderia ser. Só sei que quero que seja com você. Isso basta. Queria ser feliz com você. Vamos, temos pouco tempo! Acredite, vou encontrar um lugar para nós.
Eu gosto de você e te quero ao meu lado. Enquanto eu não souber explicar, garanto que seremos livres e os sentimentos vão deixar de ter nome. Só quero poder dormir e saber que, pela manhã, seu sorriso virá antes dos raios de sol.
E se alguém nos culpar, lavaremos as feridas com o sal da água do mar. Pode ser simples se a gente quiser. E eu quero.
O amor não é suficiente. Tem que ser mais forte do que o nome, do que a cor dos olhos e o tom de pele. O amor nunca será suficiente. Ele para no coração. Eu paro na alma. Quero o universo e não apenas o sol.
O amor jamais será o bastante.
Enquanto eu permanecer aqui, dentro dessa prisão de carne e ossos, nada mais será alcançável. Toda a distância será bem-vinda. Dentro do meu quarto, dentro do ônibus, dentro da sala de aula e, principalmente, dentro de você.
Mas que se foda. Um dia os textos poderão fluir de uma maneira menos óbvia. O desafio mesmo é escrever quando se está feliz. A tristeza já é presença fixa nos textos deste espaço. Ainda assim, resisto aos dias comuns.
O amor nunca será o bastante. E se um dia vier a ser... Estarei aqui, para registrar o momento.
A carta que nunca foi entregue
Não faz sentido nenhum. Nunca nos falamos. Ainda assim, acumulei dezenas de palavras para te dizer. Desculpe, não existe uma explicação racional, por isso valorizo tanto o que sinto. É algo que só sinto por você. Então, não pense que é loucura. Apenas não fiz questão de rotular.
Sabe, não consigo definir como vai ser ou como poderia ser. Só sei que quero que seja com você. Isso basta. Queria ser feliz com você. Vamos, temos pouco tempo! Acredite, vou encontrar um lugar para nós.
Eu gosto de você e te quero ao meu lado. Enquanto eu não souber explicar, garanto que seremos livres e os sentimentos vão deixar de ter nome. Só quero poder dormir e saber que, pela manhã, seu sorriso virá antes dos raios de sol.
E se alguém nos culpar, lavaremos as feridas com o sal da água do mar. Pode ser simples se a gente quiser. E eu quero.
O amor não é suficiente. Tem que ser mais forte do que o nome, do que a cor dos olhos e o tom de pele. O amor nunca será suficiente. Ele para no coração. Eu paro na alma. Quero o universo e não apenas o sol.
O amor jamais será o bastante.
sábado, 15 de outubro de 2011
Odiar
O dia em que cheguei ao limite. Desisti do silêncio. Aquela foi a última vez que evitei o ódio. Respeitei-o sem pensar duas vezes.
Esperei até que viesse até mim. Com aqueles olhos em chamas - quase como dois rubis - você rasgou minha carne e me jogou no chão. Quebrou meus ossos e perfurou meus músculos. Ria alto e mostrava seus dentes como uma fera descontrolada. Destruiu meus lábios. Destruiu meu sorriso. E eu te observava com o olhos ensanguentados, vermelhos como os seus rubis. Aprendi muito durante aqueles poucos segundos de violência.
Olhava a sola do seu sapato e tentava decifrar os pedaços de mim que ficaram presos nela. Era o momento em que a dor já não podia ser sentida. Ela teve pena de mim e resolveu me abandonar. Eu não estava mais ali, fisicamente. Porém, tinha certeza que iria voltar. E voltei.
Quantas vezes não deixei de ser apenas mais um idiota a buscar formas de aceitar coisas mais idiotas ainda? Sentir-se culpado por não achar graça nenhuma nas piadas. Esconder-se no silêncio, no fundo da sala, nas roupas largas. Esconder-se no canto da quadra. Antes de dormir eu só pedia uma coisa: faça-me invisível por mais um dia... Só mais um dia. Um dia, alguém me ouviu.
Levantei e recolhi o resto da vergonha. O olhar não conseguia se erguer diante de toda aquela cena deplorável. Achei que tivesse no fundo do poço, mas descobri que podia ir mais a fundo. Algo molhado estalou no meu rosto. A saliva grossa escorria pela bochecha e o sal que lavou as feridas foi o das lágrimas que não conseguiram se conter. Terra, sangue e livros. Meus novos companheiros.
Quando cheguei em casa, apenas evitei qualquer objeto que pudesse refletir a imagem do garoto assassinado. Sim, já não existia ali o que antes atendia pelo meu nome. Sem nome, sem alma e se tiver alma, está agora esta coberta de terra, sangue e livros. Por um instante, senti que algo tentava resgatar os sentimentos que moviam o menino morto. Desejei apenas um abraço. Queria que o seu ombro sufocasse meu choro. Não tive. Não tenho mais nada. Tenho algo novo. Não perco mais nada.
Dez semanas deitado e em silêncio. A mente não existia. Resistia. Assim como o corpo. Odiava meus pais e toda a minha família. Odiava a raça humana. Odiei-me com todas as forças. Levantei.
Pelas ruas, eu andava na esperança de receber uma bala na cabeça. Achava que, finalmente, algo ou alguém terminaria o que aquele par de rubis havia começado. Mas não foi assim. Não existia alguém mais covarde do que a criatura proveniente da intolerância.
(...)
- Hoje, faço questão de ir te encontrar depois da aula. Faz tempo que não nos vemos. Tenho saudades, sabe?
- Eu também tenho. Preparei algo para você. Acredite, vai gostar...
- Sabe que não ligo para essas coisas de "ganhar" e tudo mais...
- Eu sei e não ligo para o fato de você não ligar. Então, esteja lá.
- Estarei.
No meu bolso, guardava aquele pequeno objeto prateado que mais parecia um fragmento de estrela. Ali, havia depositado todo o universo que preenchia o espaço do coração. Não gravei nenhuma data ou nome. Ali, registrei apenas o que importava: o sentimento sem nome.
- Você é pontual mesmo, hein?
- Sim. E então, o que tem de tão importante para me dar?
- Abra a mão... Não olhe ainda!
- Humm... Poxa! Isso deve ter sido caríssimo!
- Só isso que você tem a dizer?
- Claro que não! Adorei! Deixe-me abri-lo... Não acredito que você colocou essa foto...
- Não poderia ser outra. Este relógio de bolso irá marcar as horas que nos envolveram. E, sempre que você quiser encurtar o período em que estivermos distantes, não dê corda nele. Deixe-o parado, até que nos encontremos novamente. Essa fotografia é a prova de que o tempo parou no momento mais feliz de nossas vidas.
- Eu te amo. E também tenho algo para lhe entregar.
- O que é?
- De-me sua mão... Agora... Hum... bem, coube certinho!
- Você sabe que a próxima será dourada, não sabe?
- Sei. Até lá, compartilharemos do mesmo universo.
- Eu te amo, sabia?
- Sei.
Os olhos de rubi estavam ali, nas sombras. Esperou até que a última palavra fosse dita e então resolveu entregar a nós o presente que havia reservado. Sem pensar duas vezes, saltou em minha direção e me atingiu a cabeça com um soco. Pegou ele pelos braços e o chutou o estômago. Nós dois estávamos no chão, mas ele foi arrastado para outro canto. Lá, eu só pude ver o pedaço de estrela cair junto com a mão, agora morta e sem reação. Eu sobrevivi. Infelizmente.
(...)
O dia em que a dor sentiu pena de mim
Um passo. Mais uma facada. Dois passos e mais duas facadas. Olhos de pedra, coração preto e alma banhada com ódio. Boca amarga. Joelhos doloridos e ouvidos extremamente sensíveis. Estômago gelado, peito apertado e respiração fora de ritmo. Fora de tudo.
Olhei para aquela enorme caixa feita de carvalho e enfiei a mão no bolso. O relógio estava parado. A aliança só pendia no meu dedo. Eu estava só. Eu te amo, sabia? (Sei).
Sempre desejei ser invisível. Naquele dia, alguém me ouviu mais uma vez. Anulei-me.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
O limite da dor, nas mãos do silêncio
Devia me questionar mais. Na verdade, nunca deveria ter parado de fazer isso. Olhar para aquilo que acredito ser e então desconstruir qualquer conclusão ou imagem pré-fabricada. Quantas coisas para fazer. Quanto tempo para perder.
E quem sou eu? Covardia seria encontrar uma resposta. A morte pode me servir de resposta. Pelo menos, por enquanto é o que tenho como definição do que sou.
A morte das minhas próprias esperanças sou eu durante os dias que se passam. Também sou a morte da expectativa, e no lugar dela coloco frustração. Morri antes mesmo de nascer e se nasci, nasci cansado. Morto de cansaço.
Sou a morte da minha raiva. Deixo ela queimar até consumir minha razão e noção. Passo dos limites e entro no espaço vago da mente de quem trocou os pensamentos pelos sentimentos. Não sei raciocinar, sou a morte das minhas capacidades cognitivas.
Queria pegar toda a vida e colocá-la num recipiente. E que só me fosse permitido o acesso a ela durante as noites em que o céu estivesse mais pesado e sufocasse meu peito. Pois a vida me consome mais do que a própria morte. Tira de mim o direito de não existir.
Quantas vezes eu vou ter que prender meus pulsos a tais questões? Continuo perguntando e deixando que a dúvida me sirva de combustível. Corro por ruas sem nome, passo por casas sem pessoas. Piso na grama seca de jardins proibidos. Acaricio a cabeça de cães cansados de procurar por comida. Escuto, no fundo daquele quintal de concreto, o assovio da maldade. Na mesa, o prato vazio e o copo cheio de água suja.
Deram-me um mundo no qual sou o rei do nada. Nele, governo a inexistência. Sem leis, sem ninguém para me prender ou chamar de tirano, passo os dias desenhando meus ideais. Desenho em muros e paredes tudo o que não cabe na minha cabeça. Se a alma transbordar, serão minhas mãos que irão recolhe-la.
Enquanto me sentir assim, tão distante das definições alheias, os espinhos não deixaram de caminhar junto aos meus pés. O coração que resiste, os pulmões que reclamam, a mente que clama por embriaguez, os ouvidos que sangram, os olhos que adormecem e a boca que se cala. Fala pelos dedos e não pelos cotovelos. Escrevo quando canso de ser a minha própria morte. Escrevo para...
Não há nada mais confortável do que se sentir capaz de por um fim em todo o sofrimento. Imaginar que a qualquer momento eu posso desligar a chave que transmite angústia pelas veias. Saber que não tão distante está o direito de silenciar a agonia. No limite da dor, é possível encontrar paz nas mãos do silêncio. Suporto apenas por ter a certeza de que posso optar por não suportar, a qualquer momento, em qualquer lugar.
E que chorem por mim. Que julguem minha alma como imprópria e ingrata. Ainda assim, serão incapazes de recolhe-la no instante em que a existência se libertar da insistência de viver uma vida sem graça e cheia de sofrimentos. Faça-os dizer meu nome com rancor e tristeza. Faça-os pedir para que minha essência fique presa neste mundo. Do egoísmo, saciei-me a ponto de não suportar nem mesmo o seu cheiro, reproduzido nos meus desejos mais intensos. E quem sou eu, senão a morte das minhas próprias palavras? Sou assim tão deslocado que perco o ritmo da escrita e conduzo a mim e a você numa viagem sem sentido e sem destino. Cheia de espaço para que ambos possamos construir algo melhor do que apenas mais um texto.
Jamais vou deixar de me questionar e, principalmente, de justificar os meus atos, baseando-me na (in)certeza de que sou minha própria anulação. Posso, logo, desapareço.
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