segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
O que a chuva me trouxe
Escolhi sair de casa o quanto antes, pois já não havia mais ar. Os pulmões reclamavam e evitei a despedida. Não conseguia escrever uma palavra e, por este motivo, o que lhe restou foi a ausência de explicação.
Cada fragmento da infância queimava no peito. Caminhadas sem rumo e dias conversando com o vento. Sempre pedia para que ele me trouxesse a chuva. Parecia que além das nuvens os pedidos ganhavam forma. Era como se eu deixasse de estar no nível mais baixo e os pés finalmente abandonavam o chão. No quintal, repleto pelo verde do musgo que crescia nas beiradas das paredes, eu passava as horas envolvido pela atmosfera surreal, sem nem ao menos saber o que isso significava. Via nos galhos de árvores e pedras tudo o que precisava para criar um novo mundo. Eu não governava, mas observava minhas criaturas e seus conflitos. Sempre soou familiar.
Lembro-me do dia em que a noite chegou mais cedo. O céu escureceu e a terra exalou seu perfume. Descalço, senti o solo mais frio e o sopro do vento fez minha pele se recolher. Começou a chover e, inutilmente, tentei conter a lágrima que escorria. Eu não sabia o que isso significava. Sentia nas gotas de chuva uma paz inominável.
(...)
Aurora
"Não há luz que consiga evitar o reflexo da água. Não há terra que consiga mudar seu fluxo por inteiro. De tudo o que criei, foi a chuva que recebeu a bênção da vida. Despejei em sua essência o que havia de mais puro em mim. O amor".
Varuna
"Quando surgi, fui apresentada a uma terra seca e abandonada. Caminhei por muito tempo e só o que vi foram cicatrizes deixadas pela minha ausência. Mas eu não sentia pena nem tristeza. Estava estática e alimentada por uma antipatia profunda. Nada me comovia, nem mesmo o apelo daqueles pequenos seres.
Após alguns dias, voltei ao deserto e percebi que a vida ainda resistia. As criaturas lutavam para que o último fio de esperança não se perdesse em meio a tanta poeira. O que me encantou não foi a cena decadente nem mesmo a culpa que sabia ser minha. O que me encantou foi a capacidade de resistir e ainda assim pedir por mim sem rancor.
Toquei meu rosto e percebi que os olhos estavam molhados. Chorei. Deixei chover. E choveu muito".
(...)
O guarda-chuva foi responsável por te colocar ao meu lado. Seus sapatos estavam encharcados e eu não pude evitar o convite. Em silêncio, caminhamos pela cidade, que mais parecia um jornal molhado. Em seguida, muitos anos. Momentos marcados pela água que caia dos céus. Parecia nosso ritual e a única coisa que de fato nos pertencia. Podia chover sempre... Nos casamentos, nas festas, nos feriados. Podiam reclamar e praguejar. Nós sempre encontrávamos um lugar onde fôssemos bem-vindos.
E um dia ela passou. Você decidiu partir. Não havia mais a magia no som das gotas atiradas ao chão. Ainda assim, não restou tristeza, mas a forte sensação de que havíamos lavado nossas almas. E para as feridas, a água doce da chuva não ajudou. Eu fui buscar o sal do mar.
A chuva me trouxe o eterno. E todas as vezes em que ela chegar, estarei novamente em contato com você. Somos pequenos pedaços do infinito. Não sei o que isso significa. Apenas deixo ela cair sobre mim e se fundir com as lágrimas. Chorei. Deixei chover. E choveu muito.
domingo, 11 de dezembro de 2011
O dom de esquecer
Já havia se passado três meses. Parece que esse período de tempo não alterou nada. E eu ainda sinto o peso das malas em minhas mãos. Também ouço meus próprios passos pelo corredor e cerro os lábios ao me lembrar das últimas palavras ditas. Esquecer é um dom. Esquecer é uma dádiva.
Eu estava escrevendo mal. Não encontrava a mim mesmo. Foi o que ela me disse. Vestida com sua blusa florida e calças masculinas, olhou-me como se não suportasse aquela imagem distorcida. Pediu para que eu a desse um motivo que evitasse minha saída da escola. Eu só consegui dizer que "no lugar das páginas dos livros poderiam ter colocado folhas em branco". Estava fora do mundo, mais uma vez.
Resolvi ir até a colina. A cidade não me queria mais. E eu nunca a desejei. Caminhei por muitas horas, até que resolvi descansar encostado em um velho carvalho. A voz da floresta me conduzia. Eles jamais saberiam a respeito dos meus motivos. Nem família, nem amigos, nem você. Primeiro eu me apaixonei pelo céu.
Nublado e denso, seu rosto carrancudo não assustou meus olhos. Zéfiro soprava como nunca e o frio abraçava minha pele. As nuvens eram mas mesmas que cobriam nossos corpos. Deitados na grama, fizemos juras de amor com a ponta dos dedos. Escrevemos nas nuvens de chuva cada gota da esperança que nos unia e, futuramente, viria a nos destruir.
Eu sempre me senti como um balão solto no ar. Sem aquela mão para me manter por perto, eu partia diversas vezes e nunca voltava para dizer o que vi e senti. Naquele instante o céu me recebia como reflexo de sua decadência. Estirado no chão, eu o encarava sem vontade de levantar e caminhar novamente. E, lentamente, suas mãos envolveram meu rosto.
Os cinco dias da semana e os milhares de meses intermináveis. Os anos de poucas lembranças e as vontades urgentes, emergentes e inconsequentes. Depois de ter visto o céu, teto nenhum conseguiu me segurar. Ao buscar sempre um lugar onde estivesse próximo do alto, acabei me apaixonando pelas estradas.
Os joelhos sempre me foram fieis. Os pés também, apesar de reclamarem muito. Sendo assim, não tinha mais desculpas para ficar. As mãos que agora envolviam meu rosto eram as mesmas que me levavam comida à boca. Sozinho, caminhei como se essa fosse a forma mais confortável de se suicidar.
Enquanto olhava para horizonte, percebi que, aos poucos, deixava de me importar com as direção. Eu seguia uma vontade de chorar misturada com a batida acelerada de um coração inquieto. Gastava a água do corpo como caminhão que queima até a última gota de combustível. Eu já não tinha mais laços com a história que um dia me descreveu.
Na estrada, pude chorar e gritar sem ser acudido. Pude enlouquecer a ponto de socar um tronco e rasgar a carne dos dedos. Pude beber e fumar. Pude passar fome e dar valor ao que tinha para comer. Eu pude tantas coisas que acabei me cansando de tal liberdade. Decidi impor alguns limites e tentar desenhar uma borda que agregasse toda aquela bela pintura feita com a respingos de alma. Parei na pequena cidade e lá me apaixonei pelas velas.
Quando ela me perguntou se eu estava com sono não precisou muito para que respondesse. Os olhos vermelhos imploravam por um segundo de paz. Aceitei o convite. Enquanto dormia, sonhei com a réplica perfeita daquele que seria o abraço mais gostoso de todos. Seus olhos espertos fitavam meu corpo cansado. Sem saber como começar a conversa inevitável, derrubou algumas coisas na mesa até que parou diante de mim e roubou meu ar. Eu não conseguia ver todo o seu rosto, parte dele estava escondido pelas sombras, mas a outra metade cintilava com a luz das velas. Aquele tom amarelado cobria de ouro o rosto da cor da madeira. Minhas mãos decidiram confortar aquele face esculpida com perfeição. Antes de partir, deixei uma carta com algumas palavras. Não agradeci, pois nunca esperamos nada um do outro.
Eu deveria tê-la amado intensamente. Deveria ter feito da última paixão a síntese de todo o sentimento que tanto cultivei. Mas não foi assim. Pois a natureza me ensinou a respeitar tudo o que não for compreensível ao meu ver. E o que corre pelas minhas veias é justamente essa ausência de nomes e definições. Meu coração não sabe escrever nem ler as linhas do mundo e suas regras complexas. Ele sente e sofre demais por isso, mas é uma dor tão necessária que sem ela eu jamais teria motivos para lutar contra algo. E como descrever meu coração? Não, não consigo. Claro que consigo, só evito fazê-lo. Mas faço, dessa vez.
Fragmento da essência de todas as energias, ele foi batizado pela Fênix e sua gana por destruição. A partir dos próprios estilhaços, recolhe todas as partes e constrói uma pseudo versão de si mesmo. Jogado num universo, vaga e explode, consome-se até que caia esgotado sobre sua própria solidão. Ainda assim não o conheço tão bem. Mas ele sabe tudo a meu respeito.
Debaixo daquela árvore, percebi que alguém me observava. Jamais imaginei que naquele instante me apaixonaria por você. Seu sorriso me trouxe o retrato mais belo do céu e nenhuma palavra precisou ser dita. Como se meu coração tivesse percorrido milhares de estradas até encontrar o seu, senti um peso no peito que me fez querer congelar o tempo. E os meus olhos brilhavam como luzes de velas assim que encontraram no seu a chama da ave de fogo, que renascia mais uma vez das cinzas de um amor distante.
Foi naquele dia, há três meses, que ergui as malas pesadas e caminhei para o corredor da velha casa de campo. Cerrei os lábios na tentativa de não dizer "entre", mas falhei. E quando me dei conta já havia esquecido de todo o mundo. Esquecer é um dom. Esquecer é uma dádiva.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Não vejo cores, mas as ouço
O refúgio está no silêncio. Quando a casa vazia abriga apenas minha ausência, sinto que o tempo começa a correr ao contrário e as velhas fotos voltam para a parede do quarto. Os corredores revivem flores e velhos móveis. As escadas fazem menos barulho. Meu coração bate mais calmo.
Não consegui adormecer. O mar cantarolava qualquer música e meu corpo pedia por uma caminhada. As ondas, em sua dança particular, conduziram-me por quilômetros até que encontrei aquela grande pedra. Coração da terra. Mais solitária do que nunca. Enquanto observava a imensidão, lembrei das pessoas que deram cor ao meus dias.
As verdes me traziam uma paz sobrenatural. Sempre centradas e com o tom de voz bem suave, sabiam me decifrar apenas pela vibração das cordas vocais. Procuravam nos meus olhos o que havia sobrado do último sorriso. Na esperança de não deixar que minha alma se rendesse ao sono dos inconformados, eles diminuíram a velocidade da vida e me embalavam numa longa melodia capaz de misturar o sal das lágrimas com o doce dos lábios.
Os vermelhos queriam mais de mim do que eu mesmo poderia pedir. Consumiam-me diariamente e colocam à prova toda a criatividade que viesse a ter. A diversão se misturava com a forte insegurança refletida nas palavras repetidas e no vocabulário propositalmente vasto. Aceleravam o tempo para que os maus momentos fossem breves interlúdios na longa jornada de um único dia. Apostavam no erro e o transformava em acerto. Alquimistas do intangível, sabiam lidar com o fogo, com o metal e com o sangue. Com eles, lutei sempre que pude.
As amarelas guardavam no sorriso o conforto do abraço de mãe. Gigantes e imponentes, tinham uma aura tão acolhedora que perto delas me sentia como um pequeno planeta girando em torno do sol de ouro. Alimentavam minhas ideias com a luz de sua segurança. Aqueciam meus dias e respeitavam meu período nas sombras. Tiravam do sabor dos alimentos a mágica de tecer um nosso gosto que superasse o amargo na boca. Tais pessoas deixavam de lado a própria vida para que as outras cores pudessem se manter em eterna plenitude.
Os azuis sempre me encantaram. Em especial, por sua distância do mundo real e o respeito pelo silêncio. Detentores de um saber único, transitavam - sem dificuldade - pelas vias da tristeza e traduziam o amor em pequenas doses de carinho. Implosivos, mostraram-me o infinito de sua sabedoria. A felicidade dos azuis se fez no instante em que o céu adotou sua cor como pele. Nesse momento, eles sorriram através das estrelas.
Eu, o preto, consumo todas essas cores. Sou eu o debilitado, incapaz de criar tais sentimentos dentro de mim. Preciso de cada uma das cores para me manter vivo e elas me servem de motivo para continuar. Aqueles que têm como cor o preto surgem para eliminar os excessos. Céticos, buscam em cada detalhe a queda das verdades e explicações inflexívies. Lidam com a contradição como se está fosse tão necessária quanto a sabedoria. E de fato é. Ultrapassam as linhas entre real e fantasioso para que suas mentes possam morrer e reviver das próprias cinzas. Acreditam no equilíbrio, mas desdenham das doutrinas. Eu, o preto, sou um pedaço do universo que por rebeldia se desprendeu do vazio.
E você, o branco, ainda encanta meus olhos. Com um toque, reuniu todas as cores possíveis e impossíveis para desenhar, à mão livre, todos os cantos do infinito. Criador da temperança, ensinou às outras cores a arte de se misturar. Não separou os quentes dos frios. No seu coração, fez com que eles produzissem uma luz tão forte que após sua ascensão nada mais cegou minha mente. E meus pulmões negros se encheram de um silêncio bucólico.
Enquanto vivermos, as cores serão o que são. Parte de nós. Parte de tudo o que nós mais amamos e odiamos. Parte do silêncio. Parte do nosso refúgio.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Sunday
Cada gota matava a sede. A chuva não atrapalhava os olhos, nem impedia o som. A chuva estava hipnotizante.
Olha para o alto e a lama nos pés não diz mais nada. Sente o cheiro da terra e relaxa os ombros. Cada acorde, cada riff distorcido, cada segundo numa atmosfera sônica que matava os neurônios e libertava a mente das garras da racionalidade. Você não consegue olhar para si mesmo. A natureza pensou em tudo. Essa foi a maneira que ela encontrou de te manter vivo por mais tempo. Você não consegue se ver.
Domingo.
Caminhava com passos cuidadosos. O chão não era confiável. Respirava profundamente. Os pulmões ainda não estavam recuperados. A cidade deixa marcas. Cheguei ao local. Muitas gente, muita água, pouco espaço... Cheguei e já parti.
Como descrever uma sensação tão única? Como? Bem, não existe uma fórmula, mas existem palavras.... Muitas palavras.
"Primeiro, você deixa de sentir o corpo. É como se os membros esfarelassem como areia. Em seguida, o peso nas costas desaparece. A visão, cansada de sempre capturar o mesmo, decide dormir e tudo fica escuro. Então, você passa a "ver" com os ouvidos. Cada nota, cada vibração de corda, cada gota de chuva ecoava dentro do vazio que, agora, completava a existência. O "nada" dentro de mim parecia ter se misturado com o ambiente. Não havia mais direção a ser seguida e o coração batia devagar. Nem frio e nem calor. Apenas o vazio preenchendo o ser.
Não há mais nome, endereço, família, dor, paixão, vontades e frustrações. Não há nada. E por isso, existe algo no fundo das camadas soterradas de frequências inaudíveis. Existe a fuga".
O tempo escorreu até as pontas dos dedos molhados. Gota por gota, contou cada segundo gasto com a ausência da mente. Não me cobrou depois. Mas ainda assim, fez questão de registrar.
Conforme fui retornando, lembrei-me das pessoas que gostaria de ter comigo naquele momento. Dividir o vazio, repartir a inexistência e poder falar sobre aquilo que ninguém jamais vai entender.
A mente é como um cavalo selvagem. Enquanto puder cavalgar, será bela e imprevisível. Mas no instante em que ganhar cabresto, o que antes encantava, passará a tirar da beleza o dom de fazer sorrir sem estar realmente feliz.
sábado, 29 de outubro de 2011
O amor não é o suficiente
E nunca será.
Enquanto eu permanecer aqui, dentro dessa prisão de carne e ossos, nada mais será alcançável. Toda a distância será bem-vinda. Dentro do meu quarto, dentro do ônibus, dentro da sala de aula e, principalmente, dentro de você.
Mas que se foda. Um dia os textos poderão fluir de uma maneira menos óbvia. O desafio mesmo é escrever quando se está feliz. A tristeza já é presença fixa nos textos deste espaço. Ainda assim, resisto aos dias comuns.
O amor nunca será o bastante. E se um dia vier a ser... Estarei aqui, para registrar o momento.
A carta que nunca foi entregue
Não faz sentido nenhum. Nunca nos falamos. Ainda assim, acumulei dezenas de palavras para te dizer. Desculpe, não existe uma explicação racional, por isso valorizo tanto o que sinto. É algo que só sinto por você. Então, não pense que é loucura. Apenas não fiz questão de rotular.
Sabe, não consigo definir como vai ser ou como poderia ser. Só sei que quero que seja com você. Isso basta. Queria ser feliz com você. Vamos, temos pouco tempo! Acredite, vou encontrar um lugar para nós.
Eu gosto de você e te quero ao meu lado. Enquanto eu não souber explicar, garanto que seremos livres e os sentimentos vão deixar de ter nome. Só quero poder dormir e saber que, pela manhã, seu sorriso virá antes dos raios de sol.
E se alguém nos culpar, lavaremos as feridas com o sal da água do mar. Pode ser simples se a gente quiser. E eu quero.
O amor não é suficiente. Tem que ser mais forte do que o nome, do que a cor dos olhos e o tom de pele. O amor nunca será suficiente. Ele para no coração. Eu paro na alma. Quero o universo e não apenas o sol.
O amor jamais será o bastante.
Enquanto eu permanecer aqui, dentro dessa prisão de carne e ossos, nada mais será alcançável. Toda a distância será bem-vinda. Dentro do meu quarto, dentro do ônibus, dentro da sala de aula e, principalmente, dentro de você.
Mas que se foda. Um dia os textos poderão fluir de uma maneira menos óbvia. O desafio mesmo é escrever quando se está feliz. A tristeza já é presença fixa nos textos deste espaço. Ainda assim, resisto aos dias comuns.
O amor nunca será o bastante. E se um dia vier a ser... Estarei aqui, para registrar o momento.
A carta que nunca foi entregue
Não faz sentido nenhum. Nunca nos falamos. Ainda assim, acumulei dezenas de palavras para te dizer. Desculpe, não existe uma explicação racional, por isso valorizo tanto o que sinto. É algo que só sinto por você. Então, não pense que é loucura. Apenas não fiz questão de rotular.
Sabe, não consigo definir como vai ser ou como poderia ser. Só sei que quero que seja com você. Isso basta. Queria ser feliz com você. Vamos, temos pouco tempo! Acredite, vou encontrar um lugar para nós.
Eu gosto de você e te quero ao meu lado. Enquanto eu não souber explicar, garanto que seremos livres e os sentimentos vão deixar de ter nome. Só quero poder dormir e saber que, pela manhã, seu sorriso virá antes dos raios de sol.
E se alguém nos culpar, lavaremos as feridas com o sal da água do mar. Pode ser simples se a gente quiser. E eu quero.
O amor não é suficiente. Tem que ser mais forte do que o nome, do que a cor dos olhos e o tom de pele. O amor nunca será suficiente. Ele para no coração. Eu paro na alma. Quero o universo e não apenas o sol.
O amor jamais será o bastante.
sábado, 15 de outubro de 2011
Odiar
O dia em que cheguei ao limite. Desisti do silêncio. Aquela foi a última vez que evitei o ódio. Respeitei-o sem pensar duas vezes.
Esperei até que viesse até mim. Com aqueles olhos em chamas - quase como dois rubis - você rasgou minha carne e me jogou no chão. Quebrou meus ossos e perfurou meus músculos. Ria alto e mostrava seus dentes como uma fera descontrolada. Destruiu meus lábios. Destruiu meu sorriso. E eu te observava com o olhos ensanguentados, vermelhos como os seus rubis. Aprendi muito durante aqueles poucos segundos de violência.
Olhava a sola do seu sapato e tentava decifrar os pedaços de mim que ficaram presos nela. Era o momento em que a dor já não podia ser sentida. Ela teve pena de mim e resolveu me abandonar. Eu não estava mais ali, fisicamente. Porém, tinha certeza que iria voltar. E voltei.
Quantas vezes não deixei de ser apenas mais um idiota a buscar formas de aceitar coisas mais idiotas ainda? Sentir-se culpado por não achar graça nenhuma nas piadas. Esconder-se no silêncio, no fundo da sala, nas roupas largas. Esconder-se no canto da quadra. Antes de dormir eu só pedia uma coisa: faça-me invisível por mais um dia... Só mais um dia. Um dia, alguém me ouviu.
Levantei e recolhi o resto da vergonha. O olhar não conseguia se erguer diante de toda aquela cena deplorável. Achei que tivesse no fundo do poço, mas descobri que podia ir mais a fundo. Algo molhado estalou no meu rosto. A saliva grossa escorria pela bochecha e o sal que lavou as feridas foi o das lágrimas que não conseguiram se conter. Terra, sangue e livros. Meus novos companheiros.
Quando cheguei em casa, apenas evitei qualquer objeto que pudesse refletir a imagem do garoto assassinado. Sim, já não existia ali o que antes atendia pelo meu nome. Sem nome, sem alma e se tiver alma, está agora esta coberta de terra, sangue e livros. Por um instante, senti que algo tentava resgatar os sentimentos que moviam o menino morto. Desejei apenas um abraço. Queria que o seu ombro sufocasse meu choro. Não tive. Não tenho mais nada. Tenho algo novo. Não perco mais nada.
Dez semanas deitado e em silêncio. A mente não existia. Resistia. Assim como o corpo. Odiava meus pais e toda a minha família. Odiava a raça humana. Odiei-me com todas as forças. Levantei.
Pelas ruas, eu andava na esperança de receber uma bala na cabeça. Achava que, finalmente, algo ou alguém terminaria o que aquele par de rubis havia começado. Mas não foi assim. Não existia alguém mais covarde do que a criatura proveniente da intolerância.
(...)
- Hoje, faço questão de ir te encontrar depois da aula. Faz tempo que não nos vemos. Tenho saudades, sabe?
- Eu também tenho. Preparei algo para você. Acredite, vai gostar...
- Sabe que não ligo para essas coisas de "ganhar" e tudo mais...
- Eu sei e não ligo para o fato de você não ligar. Então, esteja lá.
- Estarei.
No meu bolso, guardava aquele pequeno objeto prateado que mais parecia um fragmento de estrela. Ali, havia depositado todo o universo que preenchia o espaço do coração. Não gravei nenhuma data ou nome. Ali, registrei apenas o que importava: o sentimento sem nome.
- Você é pontual mesmo, hein?
- Sim. E então, o que tem de tão importante para me dar?
- Abra a mão... Não olhe ainda!
- Humm... Poxa! Isso deve ter sido caríssimo!
- Só isso que você tem a dizer?
- Claro que não! Adorei! Deixe-me abri-lo... Não acredito que você colocou essa foto...
- Não poderia ser outra. Este relógio de bolso irá marcar as horas que nos envolveram. E, sempre que você quiser encurtar o período em que estivermos distantes, não dê corda nele. Deixe-o parado, até que nos encontremos novamente. Essa fotografia é a prova de que o tempo parou no momento mais feliz de nossas vidas.
- Eu te amo. E também tenho algo para lhe entregar.
- O que é?
- De-me sua mão... Agora... Hum... bem, coube certinho!
- Você sabe que a próxima será dourada, não sabe?
- Sei. Até lá, compartilharemos do mesmo universo.
- Eu te amo, sabia?
- Sei.
Os olhos de rubi estavam ali, nas sombras. Esperou até que a última palavra fosse dita e então resolveu entregar a nós o presente que havia reservado. Sem pensar duas vezes, saltou em minha direção e me atingiu a cabeça com um soco. Pegou ele pelos braços e o chutou o estômago. Nós dois estávamos no chão, mas ele foi arrastado para outro canto. Lá, eu só pude ver o pedaço de estrela cair junto com a mão, agora morta e sem reação. Eu sobrevivi. Infelizmente.
(...)
O dia em que a dor sentiu pena de mim
Um passo. Mais uma facada. Dois passos e mais duas facadas. Olhos de pedra, coração preto e alma banhada com ódio. Boca amarga. Joelhos doloridos e ouvidos extremamente sensíveis. Estômago gelado, peito apertado e respiração fora de ritmo. Fora de tudo.
Olhei para aquela enorme caixa feita de carvalho e enfiei a mão no bolso. O relógio estava parado. A aliança só pendia no meu dedo. Eu estava só. Eu te amo, sabia? (Sei).
Sempre desejei ser invisível. Naquele dia, alguém me ouviu mais uma vez. Anulei-me.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
O limite da dor, nas mãos do silêncio
Devia me questionar mais. Na verdade, nunca deveria ter parado de fazer isso. Olhar para aquilo que acredito ser e então desconstruir qualquer conclusão ou imagem pré-fabricada. Quantas coisas para fazer. Quanto tempo para perder.
E quem sou eu? Covardia seria encontrar uma resposta. A morte pode me servir de resposta. Pelo menos, por enquanto é o que tenho como definição do que sou.
A morte das minhas próprias esperanças sou eu durante os dias que se passam. Também sou a morte da expectativa, e no lugar dela coloco frustração. Morri antes mesmo de nascer e se nasci, nasci cansado. Morto de cansaço.
Sou a morte da minha raiva. Deixo ela queimar até consumir minha razão e noção. Passo dos limites e entro no espaço vago da mente de quem trocou os pensamentos pelos sentimentos. Não sei raciocinar, sou a morte das minhas capacidades cognitivas.
Queria pegar toda a vida e colocá-la num recipiente. E que só me fosse permitido o acesso a ela durante as noites em que o céu estivesse mais pesado e sufocasse meu peito. Pois a vida me consome mais do que a própria morte. Tira de mim o direito de não existir.
Quantas vezes eu vou ter que prender meus pulsos a tais questões? Continuo perguntando e deixando que a dúvida me sirva de combustível. Corro por ruas sem nome, passo por casas sem pessoas. Piso na grama seca de jardins proibidos. Acaricio a cabeça de cães cansados de procurar por comida. Escuto, no fundo daquele quintal de concreto, o assovio da maldade. Na mesa, o prato vazio e o copo cheio de água suja.
Deram-me um mundo no qual sou o rei do nada. Nele, governo a inexistência. Sem leis, sem ninguém para me prender ou chamar de tirano, passo os dias desenhando meus ideais. Desenho em muros e paredes tudo o que não cabe na minha cabeça. Se a alma transbordar, serão minhas mãos que irão recolhe-la.
Enquanto me sentir assim, tão distante das definições alheias, os espinhos não deixaram de caminhar junto aos meus pés. O coração que resiste, os pulmões que reclamam, a mente que clama por embriaguez, os ouvidos que sangram, os olhos que adormecem e a boca que se cala. Fala pelos dedos e não pelos cotovelos. Escrevo quando canso de ser a minha própria morte. Escrevo para...
Não há nada mais confortável do que se sentir capaz de por um fim em todo o sofrimento. Imaginar que a qualquer momento eu posso desligar a chave que transmite angústia pelas veias. Saber que não tão distante está o direito de silenciar a agonia. No limite da dor, é possível encontrar paz nas mãos do silêncio. Suporto apenas por ter a certeza de que posso optar por não suportar, a qualquer momento, em qualquer lugar.
E que chorem por mim. Que julguem minha alma como imprópria e ingrata. Ainda assim, serão incapazes de recolhe-la no instante em que a existência se libertar da insistência de viver uma vida sem graça e cheia de sofrimentos. Faça-os dizer meu nome com rancor e tristeza. Faça-os pedir para que minha essência fique presa neste mundo. Do egoísmo, saciei-me a ponto de não suportar nem mesmo o seu cheiro, reproduzido nos meus desejos mais intensos. E quem sou eu, senão a morte das minhas próprias palavras? Sou assim tão deslocado que perco o ritmo da escrita e conduzo a mim e a você numa viagem sem sentido e sem destino. Cheia de espaço para que ambos possamos construir algo melhor do que apenas mais um texto.
Jamais vou deixar de me questionar e, principalmente, de justificar os meus atos, baseando-me na (in)certeza de que sou minha própria anulação. Posso, logo, desapareço.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
O sexto
Naquela manhã, fiz questão de acordar mais cedo. Além das tarefas habituais, decidi que iria colher alguns legumes para o almoço. Já havia passado a época das colheitas, no entanto eu sentia falta de vegetais frescos. O caminho era sempre o mesmo: estrada de terra e longas árvores nas laterais. E lá estava o sol a banhar todas as folhas verdes. Pois bem, era só mais um dia comum.
Não... Definitivamente não era.
Anos e anos na solidão. Depois que perdi meus familiares nunca mais sai daquele vilarejo. Éramos doze irmãos. Minha mãe costumava dizer que cada um de nós carregava uma constelação em nossas almas e, coincidentemente, cada um de nós nasceu em um mês do ano. Eu era a sexta constelação.
Asmin
O mais velho. Asmin tinha ombros largos e olhos flamejantes. Seus cabelo dourado o diferenciava dos demais irmãos. Seu espírito era vívido e criativo, parecia que estava sempre em combustão. Queria tudo ao mesmo tempo e sempre enchia os pulmões para gritar aos quatro ventos os seus desejos. Asmin, meu querido irmão, inquieto e valente. Seu coração não cabia dentro do peito.
Tenos
A rocha que jamais se moveria. Tenos era intransponível. Dominador e autosuficiente adorava cultivar todos os bens materiais que conseguia em suas aventuras. Cada conquista amorosa era como um diamante bruto que entrava para sua coleção. Tenos tinha a beleza como aliada. Mas não a beleza física e sim a beleza dos gestos. Seus braços fortes envolviam as moças carentes e davam coragem aos rapazes medrosos. Tenos era filho da terra e sua coragem não cabia dentro das palavras.
Nivad
O universo cabia dentro do sorriso de Nivad. Aquele que gostava de conversar e também de desafiar as barreiras entre pessoas. Meu irmão, que tantas vezes me fez cair no sono com suas longas estórias, vagava pelo mundo dos sonhos. Era como o vento e mudava sem avisar. Repudiava qualquer forma de dominação e lutava contra a rotina. Era inseguro, pois as suas bases se faziam no ar. Nivad - senhor da palavra e mestre na arte de reinventar-se - lutava para não demonstrar que seu maior medo era ter as asas cortadas por um amor qualquer. Era filho do céu, e sua liberdade não cabia dentro de casa.
Gamon
Com seus laços invisíveis, Gamon envolvia a toda a família. Fragmentou seu coração e para cada um de nós fez questão de deixar um pedaço. Conhecia o silêncio dos mortos, pois desde pequeno conversava com aqueles que já não mais habitavam este planeta. Gamon chorava e não tinha vergonha disso. Sabia muito sobre a água e seus mistérios. Contou-me, uma vez, que no fundo de cada rio existia uma bela moça com sorriso de pérola. Gamon era filho da água e suas lágrimas não cabiam dentro dos olhos.
Silas
Jamais conheci um espírito mais forte do que o de Silas. Seu espírito de liderança também era a fonte de arrogância que o fazia tomar frente da maioria das decisões. O que tinha em seu olhar não era coragem, de fato, mas sim força. E força está além da capacidade de arriscar-se. Força também se faz nos momentos de resignação. Silas gostava de exercitar-se à luz do sol. Dizia que sua alma passava a ser preenchida com o dourado celeste. Não aceitava um "não" como resposta, mas era forte o bastante para abrir mão do "sim". Era filho da luz e não cabia dentro do sol.
Eu...
Não agora... Não.
Chivat
Carregava a paz em seu colo. Sempre atento e pronto para equilibrar os ânimos, Chivat tinha uma beleza particular. Movimentava-se com graça e leveza. Optou pela razão e abriu mão do amor. Chivat queria viver num mundo onde tristeza e felicidade fossem aliadas. Acreditava com todas as forças na capacidade de extinguir-se e então voltar a existir como parte de um todo. Chivat, filho do silêncio, não cabia dentro das guerras.
Celos
Abençoado com olhos negros, Celos gostava de criticar os demais irmãos. Ele dizia que sua crítica nada mais era do que a ajuda que todos precisavam para crescer. Sempre atacava o ponto fraco de cada um, mas quando o seu era tocado, jurava vingança. Celos conhecia o lado difícil da vida, não porque tivesse sofrido, mas porque optou por isso. Encontrou no sofrimento derivado da solidão o recanto de suas forças. Meu irmão, que tanto me ensinou sobre a dor, não cabia dentro das próprias lamentações.
Dário
O protetor. Quantas vezes vi Dário deixar seu sono de lado para velar pelo dos demais irmãos. Ótimo atleta tinha olhos de falcão. Seus cabelos dourados o faziam parecer muito com Silas, ainda que os temperamentos se distanciassem. Dário vivia o amor eo queimava com todas as forças. Era um eterno apaixonado, mas sempre acabava sozinho. Vivia a frustração de suas próprias expectativas e esperava, em vão, pelo coração perfeito. Dário era filho do fogo e seu amor não cabia dentro das chamas.
Benzar
Benzar podia trabalhar por uma década sem pausa que manteria a pose e a promessa feita. Conhecia as artes e não o cansaço. Era leal e justo, tinha nos olhos a lâmina de uma espada capaz de cortar as falsas aparências e revelar o que havia no interior de cada pessoa. Abandonava a si mesmo para poder ajudar aos demais e sua bondade não cabia dentro deste mundo.
Leucad
O misterioso. Para nós, era um desafio saber o que se passava na cabeça de Leucad. Falava com os olhos e sempre afogava o pensamento nos livros. Frio e distante nos amava de uma maneira bem peculiar. Seu sorriso era lindo, pois era raro. Com isso, valorizávamos até mesmo o mais simples gesto de afeto. Leucad amou muito outra pessoa, mas sua natureza não o permitiu se aproximar muito do calor de uma nova paixão. Leucad era filho da água e não cabia dentro daquele oceâno de incertezas.
Fermis
Seu rosto era como a lua. Iluminava qualquer escuridão. A beleza se definia no seu sorriso perfeito e olhos azuis como céu. Gentil e delicado, Fermis era protegido pelos outros e quase nunca se envolvia em conflitos. Sonhador e amoroso conquistou todos os corações a sua volta. Cantava com a alma e dançava como um peixe envolvido pelas correntezas do hedonismo. Fermis era filho das rosas, mas seu perfume não pertencia a nenhum jardim.
Eu...
Kalim
Enquanto voltava com a cesta cheia de belos legumes e frutas, aquela velha cena voltou. Pensei que nunca mais aconteceria algo do tipo, mas aconteceu. Ele veio até mim e disse:
"Kalim, lágrima que deixei escorrer e na terra foi parar, até quando vai me evitar? Sou seu pai, sua mãe, seu irmão, seu amor... Sou você, Kalim. Não deixe que o medo vença a guerra e te faça prisioneiro pelo resto da eternidade. Você, que carrega na mente o universo, que tem perfume de rosas, lida com o silêncio e sabe captar as palavras com o olhar. Kalim conheça-te a ti mesmo, meu filho. Não negue sua essência. Não abandone o que tens de mais precioso: sua própria alma".
Desde pequeno conversávamos muito. Um dia o questionei e então tudo mudou:
- Sinto-me solitário, mesmo com doze irmãos ao meu redor. Diga-me, estou sendo cruel, certo?
- Só serás cruel se assim se sentir, Kalim. Veja, todos nós precisamos de um momento de solidão.
- Até você?
- Sim, até mesmo eu.
- Nunca percebi.
- Já reparou na chuva?
- O que tem ela? Só atrapalha a brincadeira dos meus irmãos e me causa sono.
- Exato. Vocês simplesmente ficam reclusos, protegendo-se das minhas lamúrias.
- Sei...
- Por que esse olhar triste?
- Porque não posso falar com você sobre o que sinto.
- E por qual motivo, posso saber?
- Não encontro as palavras certas.
- Pois bem, vou ajudá-lo. Feche os olhos. Agora inspire. Certo. Solte o ar. Abra os olhos.
- Não vejo nada, mesmo com os olhos abertos! Estou cego!
- Calma, Kalim. Você está vendo sim, o que não consegue fazer é enxergar.
- Mas meus olhos estão abertos!
- Pois sua alma continua fechada.
- E o que eu faço? Como eu faço?
(silêncio)
- Vai me abandonar agora? Então é isso? Tirou de mim a capacidade de ver, apenas por capricho? Maldito seja! Acha que podes tudo apenas porque está dentro da minha mente. Mas veja, este mundo me parece velho e repetitivo. Não vejo sentido em viver aqui, muito menos em me relacionar com as demais pessoas. Elas são preguiçosas e mesquinhas. Eu não sou daqui, não quero ficar aqui.
(uma luz surge)
- Hum... Então era isso que você queria me dizer. Entendi.
- Estava aí o tempo todo? Covarde!
- Escute, Kalim. De fato, você está em outro nível. Este mundo já lhe é familiar há muito tempo. Sua essência, seu espírito e sua existência marcaram muitas vidas e no final do percurso você optou por voltar. Qual o sentido de viver num mundo cheio de sofrimento? Qual o sentido em se relacionar com pessoas cheias de defeitos e fraquezas? Para que levantar todos os dias e fazer tarefas que não preenchem o seu ser? Diga-me.
- Tudo isso, para viver. Presenciar o futuro que não me pertence e apostar no indefinido. Meu nome é Kalim, e eu não caibo dento de mim mesmo.
- Sim, Kalim, o menino que carrega em si o berço da luz. Nascido na lama, banhado pela vergonha de um mundo decadente, fez do seu sofrimento o caminho para a elevação. Ainda que esteja cansado, você, pequeno Kalim, trilhará na escuridão a estrada para que mais onze estrelas encontrem seu lugar no céu. Sei que não cabe dentro de si mesmo, pois no seu peito eu depositei o universo e suas constelações.
- Om.
Não... Definitivamente não era.
Anos e anos na solidão. Depois que perdi meus familiares nunca mais sai daquele vilarejo. Éramos doze irmãos. Minha mãe costumava dizer que cada um de nós carregava uma constelação em nossas almas e, coincidentemente, cada um de nós nasceu em um mês do ano. Eu era a sexta constelação.
Asmin
O mais velho. Asmin tinha ombros largos e olhos flamejantes. Seus cabelo dourado o diferenciava dos demais irmãos. Seu espírito era vívido e criativo, parecia que estava sempre em combustão. Queria tudo ao mesmo tempo e sempre enchia os pulmões para gritar aos quatro ventos os seus desejos. Asmin, meu querido irmão, inquieto e valente. Seu coração não cabia dentro do peito.
Tenos
A rocha que jamais se moveria. Tenos era intransponível. Dominador e autosuficiente adorava cultivar todos os bens materiais que conseguia em suas aventuras. Cada conquista amorosa era como um diamante bruto que entrava para sua coleção. Tenos tinha a beleza como aliada. Mas não a beleza física e sim a beleza dos gestos. Seus braços fortes envolviam as moças carentes e davam coragem aos rapazes medrosos. Tenos era filho da terra e sua coragem não cabia dentro das palavras.
Nivad
O universo cabia dentro do sorriso de Nivad. Aquele que gostava de conversar e também de desafiar as barreiras entre pessoas. Meu irmão, que tantas vezes me fez cair no sono com suas longas estórias, vagava pelo mundo dos sonhos. Era como o vento e mudava sem avisar. Repudiava qualquer forma de dominação e lutava contra a rotina. Era inseguro, pois as suas bases se faziam no ar. Nivad - senhor da palavra e mestre na arte de reinventar-se - lutava para não demonstrar que seu maior medo era ter as asas cortadas por um amor qualquer. Era filho do céu, e sua liberdade não cabia dentro de casa.
Gamon
Com seus laços invisíveis, Gamon envolvia a toda a família. Fragmentou seu coração e para cada um de nós fez questão de deixar um pedaço. Conhecia o silêncio dos mortos, pois desde pequeno conversava com aqueles que já não mais habitavam este planeta. Gamon chorava e não tinha vergonha disso. Sabia muito sobre a água e seus mistérios. Contou-me, uma vez, que no fundo de cada rio existia uma bela moça com sorriso de pérola. Gamon era filho da água e suas lágrimas não cabiam dentro dos olhos.
Silas
Jamais conheci um espírito mais forte do que o de Silas. Seu espírito de liderança também era a fonte de arrogância que o fazia tomar frente da maioria das decisões. O que tinha em seu olhar não era coragem, de fato, mas sim força. E força está além da capacidade de arriscar-se. Força também se faz nos momentos de resignação. Silas gostava de exercitar-se à luz do sol. Dizia que sua alma passava a ser preenchida com o dourado celeste. Não aceitava um "não" como resposta, mas era forte o bastante para abrir mão do "sim". Era filho da luz e não cabia dentro do sol.
Eu...
Não agora... Não.
Chivat
Carregava a paz em seu colo. Sempre atento e pronto para equilibrar os ânimos, Chivat tinha uma beleza particular. Movimentava-se com graça e leveza. Optou pela razão e abriu mão do amor. Chivat queria viver num mundo onde tristeza e felicidade fossem aliadas. Acreditava com todas as forças na capacidade de extinguir-se e então voltar a existir como parte de um todo. Chivat, filho do silêncio, não cabia dentro das guerras.
Celos
Abençoado com olhos negros, Celos gostava de criticar os demais irmãos. Ele dizia que sua crítica nada mais era do que a ajuda que todos precisavam para crescer. Sempre atacava o ponto fraco de cada um, mas quando o seu era tocado, jurava vingança. Celos conhecia o lado difícil da vida, não porque tivesse sofrido, mas porque optou por isso. Encontrou no sofrimento derivado da solidão o recanto de suas forças. Meu irmão, que tanto me ensinou sobre a dor, não cabia dentro das próprias lamentações.
Dário
O protetor. Quantas vezes vi Dário deixar seu sono de lado para velar pelo dos demais irmãos. Ótimo atleta tinha olhos de falcão. Seus cabelos dourados o faziam parecer muito com Silas, ainda que os temperamentos se distanciassem. Dário vivia o amor eo queimava com todas as forças. Era um eterno apaixonado, mas sempre acabava sozinho. Vivia a frustração de suas próprias expectativas e esperava, em vão, pelo coração perfeito. Dário era filho do fogo e seu amor não cabia dentro das chamas.
Benzar
Benzar podia trabalhar por uma década sem pausa que manteria a pose e a promessa feita. Conhecia as artes e não o cansaço. Era leal e justo, tinha nos olhos a lâmina de uma espada capaz de cortar as falsas aparências e revelar o que havia no interior de cada pessoa. Abandonava a si mesmo para poder ajudar aos demais e sua bondade não cabia dentro deste mundo.
Leucad
O misterioso. Para nós, era um desafio saber o que se passava na cabeça de Leucad. Falava com os olhos e sempre afogava o pensamento nos livros. Frio e distante nos amava de uma maneira bem peculiar. Seu sorriso era lindo, pois era raro. Com isso, valorizávamos até mesmo o mais simples gesto de afeto. Leucad amou muito outra pessoa, mas sua natureza não o permitiu se aproximar muito do calor de uma nova paixão. Leucad era filho da água e não cabia dentro daquele oceâno de incertezas.
Fermis
Seu rosto era como a lua. Iluminava qualquer escuridão. A beleza se definia no seu sorriso perfeito e olhos azuis como céu. Gentil e delicado, Fermis era protegido pelos outros e quase nunca se envolvia em conflitos. Sonhador e amoroso conquistou todos os corações a sua volta. Cantava com a alma e dançava como um peixe envolvido pelas correntezas do hedonismo. Fermis era filho das rosas, mas seu perfume não pertencia a nenhum jardim.
Eu...
Kalim
Enquanto voltava com a cesta cheia de belos legumes e frutas, aquela velha cena voltou. Pensei que nunca mais aconteceria algo do tipo, mas aconteceu. Ele veio até mim e disse:
"Kalim, lágrima que deixei escorrer e na terra foi parar, até quando vai me evitar? Sou seu pai, sua mãe, seu irmão, seu amor... Sou você, Kalim. Não deixe que o medo vença a guerra e te faça prisioneiro pelo resto da eternidade. Você, que carrega na mente o universo, que tem perfume de rosas, lida com o silêncio e sabe captar as palavras com o olhar. Kalim conheça-te a ti mesmo, meu filho. Não negue sua essência. Não abandone o que tens de mais precioso: sua própria alma".
Desde pequeno conversávamos muito. Um dia o questionei e então tudo mudou:
- Sinto-me solitário, mesmo com doze irmãos ao meu redor. Diga-me, estou sendo cruel, certo?
- Só serás cruel se assim se sentir, Kalim. Veja, todos nós precisamos de um momento de solidão.
- Até você?
- Sim, até mesmo eu.
- Nunca percebi.
- Já reparou na chuva?
- O que tem ela? Só atrapalha a brincadeira dos meus irmãos e me causa sono.
- Exato. Vocês simplesmente ficam reclusos, protegendo-se das minhas lamúrias.
- Sei...
- Por que esse olhar triste?
- Porque não posso falar com você sobre o que sinto.
- E por qual motivo, posso saber?
- Não encontro as palavras certas.
- Pois bem, vou ajudá-lo. Feche os olhos. Agora inspire. Certo. Solte o ar. Abra os olhos.
- Não vejo nada, mesmo com os olhos abertos! Estou cego!
- Calma, Kalim. Você está vendo sim, o que não consegue fazer é enxergar.
- Mas meus olhos estão abertos!
- Pois sua alma continua fechada.
- E o que eu faço? Como eu faço?
(silêncio)
- Vai me abandonar agora? Então é isso? Tirou de mim a capacidade de ver, apenas por capricho? Maldito seja! Acha que podes tudo apenas porque está dentro da minha mente. Mas veja, este mundo me parece velho e repetitivo. Não vejo sentido em viver aqui, muito menos em me relacionar com as demais pessoas. Elas são preguiçosas e mesquinhas. Eu não sou daqui, não quero ficar aqui.
(uma luz surge)
- Hum... Então era isso que você queria me dizer. Entendi.
- Estava aí o tempo todo? Covarde!
- Escute, Kalim. De fato, você está em outro nível. Este mundo já lhe é familiar há muito tempo. Sua essência, seu espírito e sua existência marcaram muitas vidas e no final do percurso você optou por voltar. Qual o sentido de viver num mundo cheio de sofrimento? Qual o sentido em se relacionar com pessoas cheias de defeitos e fraquezas? Para que levantar todos os dias e fazer tarefas que não preenchem o seu ser? Diga-me.
- Tudo isso, para viver. Presenciar o futuro que não me pertence e apostar no indefinido. Meu nome é Kalim, e eu não caibo dento de mim mesmo.
- Sim, Kalim, o menino que carrega em si o berço da luz. Nascido na lama, banhado pela vergonha de um mundo decadente, fez do seu sofrimento o caminho para a elevação. Ainda que esteja cansado, você, pequeno Kalim, trilhará na escuridão a estrada para que mais onze estrelas encontrem seu lugar no céu. Sei que não cabe dentro de si mesmo, pois no seu peito eu depositei o universo e suas constelações.
- Om.
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
364
Nem sei por que abri a caixa de texto. Não tenho um motivo forte, assunto ou devaneio para registrar aqui. Amanhã é meu aniversário e... Também não tenho nada para falar sobre. Eu acho.
Expectativas? Evito sempre que possível. Por medo da frustração? Não. Na verdade, elas me causam frio no estômago e ansiedade, aí acabo deixando de comer e dormir, duas coisas que gosto muito. Não tenho aquela coisa de "penar em tudo o que já vivi". Minha memória é bem seletiva, sabe? Eu lembro das coisas que, para determinados momentos, são essenciais. Foge do meu controle. Tem horas que estou feliz e no mesmo segundo lembro de algo que azeda o humor.
A última coisa que me lembro foi do meu irmão dizendo que "a solidão causa loucura". De certa forma isso me marcou. Não por acreditar no que ele disse (ou deixar de acreditar), mas porque eu não senti nada. Nem medo, nem raiva. Absolutamente nada. É como se ele tivesse dito qualquer coisa sem importância. Marcou-me pelo fato de saber que no fundo isso tem muita importância.
Recentemente, tive aquelas decepções amorosas de "inverno". Tem que ter, não é mesmo? Então. O pior é que sempre descubro as coisas em horas muito inesperadas. Aí é aquela correria para transformar em poeira o sentimento que estava prestes a nascer. E para piorar, disseram-me que tenho "Vênus em virgem", ou seja, sou extremamente criterioso quando se trata de relacionamentos. No mundo de hoje é a mesma coisa que dizer "vai ficar sozinho e louco". Meu irmão sabe das coisas.
Profissionalmente falando - isso mais parece aquelas listas de coisas que abordam seu signo, tipo amor, trabalho, sorte, roupa a ser usada etc - acho que estou bem. Na verdade, só me resta achar isso. Gosto mesmo é de saber que trabalho com cultura e que direta ou indiretamente estou contribuindo para que mais pessoas tenham lazer sem gastar até a alma. De certa forma sinto que estou resistindo e contribuindo para a resistência alheia.
Trezentos e sessenta e quatro dias e eu ainda acho que não tenho nada para falar. Mas olha, até que falei/escrevi/pensei bastante, não é mesmo? Pois é, nunca sei o que virá pela frente. Duas linhas, seis parágrafos, um ponto.
Expectativas? Evito sempre que possível. Por medo da frustração? Não. Na verdade, elas me causam frio no estômago e ansiedade, aí acabo deixando de comer e dormir, duas coisas que gosto muito. Não tenho aquela coisa de "penar em tudo o que já vivi". Minha memória é bem seletiva, sabe? Eu lembro das coisas que, para determinados momentos, são essenciais. Foge do meu controle. Tem horas que estou feliz e no mesmo segundo lembro de algo que azeda o humor.
A última coisa que me lembro foi do meu irmão dizendo que "a solidão causa loucura". De certa forma isso me marcou. Não por acreditar no que ele disse (ou deixar de acreditar), mas porque eu não senti nada. Nem medo, nem raiva. Absolutamente nada. É como se ele tivesse dito qualquer coisa sem importância. Marcou-me pelo fato de saber que no fundo isso tem muita importância.
Recentemente, tive aquelas decepções amorosas de "inverno". Tem que ter, não é mesmo? Então. O pior é que sempre descubro as coisas em horas muito inesperadas. Aí é aquela correria para transformar em poeira o sentimento que estava prestes a nascer. E para piorar, disseram-me que tenho "Vênus em virgem", ou seja, sou extremamente criterioso quando se trata de relacionamentos. No mundo de hoje é a mesma coisa que dizer "vai ficar sozinho e louco". Meu irmão sabe das coisas.
Profissionalmente falando - isso mais parece aquelas listas de coisas que abordam seu signo, tipo amor, trabalho, sorte, roupa a ser usada etc - acho que estou bem. Na verdade, só me resta achar isso. Gosto mesmo é de saber que trabalho com cultura e que direta ou indiretamente estou contribuindo para que mais pessoas tenham lazer sem gastar até a alma. De certa forma sinto que estou resistindo e contribuindo para a resistência alheia.
Trezentos e sessenta e quatro dias e eu ainda acho que não tenho nada para falar. Mas olha, até que falei/escrevi/pensei bastante, não é mesmo? Pois é, nunca sei o que virá pela frente. Duas linhas, seis parágrafos, um ponto.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
O fio vermelho
No final da noite sou eu e uma dose. Nada mais.
Era uma mente inquieta e insatisfeita. Deslocada no tempo e no espaço. Aos sete anos, sentia um gosto amargo que não vinha da comida. Não tinha noção do tamanho do mundo e nem ao menos sabia que as pessoas iriam morrer. Achava que conhecia o amor e que ele se chamava "Fabiana".
Ainda que o corpo fosse novo, a alma era velha e cansada. Escrevia declarações em pedações de papel, sempre com letras invertidas ou pequenas. O primeiro "eu te amo" foi ilegível. Imperceptível também.
Aonde você está agora, garotinho? No fundo deste copo? Aquecido nesse coração gasto e desconfiado? Cadê você?
Porre nenhum é pior do que aquele frio na barriga que vem sempre que você vê o seu grande amor com outra pessoa. Frio nenhum fere mais a pele do que aquele que surge no instante em que você ouve o "adeus" definitivo. Nunca senti uma dor tão grande no peito, como daquela vez em que presenciei o beijo que não tocava os meus lábios.
Então que se foda você e suas convicções. Hoje, fiz questão de ser "demasiado eu mesmo".
Era uma mente inquieta e insatisfeita. Deslocada no tempo e no espaço. Aos sete anos, sentia um gosto amargo que não vinha da comida. Não tinha noção do tamanho do mundo e nem ao menos sabia que as pessoas iriam morrer. Achava que conhecia o amor e que ele se chamava "Fabiana".
Ainda que o corpo fosse novo, a alma era velha e cansada. Escrevia declarações em pedações de papel, sempre com letras invertidas ou pequenas. O primeiro "eu te amo" foi ilegível. Imperceptível também.
Aonde você está agora, garotinho? No fundo deste copo? Aquecido nesse coração gasto e desconfiado? Cadê você?
Porre nenhum é pior do que aquele frio na barriga que vem sempre que você vê o seu grande amor com outra pessoa. Frio nenhum fere mais a pele do que aquele que surge no instante em que você ouve o "adeus" definitivo. Nunca senti uma dor tão grande no peito, como daquela vez em que presenciei o beijo que não tocava os meus lábios.
Então que se foda você e suas convicções. Hoje, fiz questão de ser "demasiado eu mesmo".
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