terça-feira, 2 de agosto de 2011

Asas

Eu não quero acertar na mosca.
Não quero começar já pensando no fim.
Não quero escrever seu nome em uma aliança (eu quero, mas não exatamente assim)
Não quero te prender
Não quero te perder
Não quero não te ter
mas quero te ter
Não quero te prejudicar
mas quero te amar
logo, quero te provocar
pois quero te amar
Não quero te privar
mas quero me libertar
tudo o que eu quero é ter um beijo
para compensar as palavras desnecessárias
Tudo o que eu quis, eu tive.
E depois?
Não quero idealizar.
Sentir é mais do que raciocinar.
Aprendi, sem querer.

sábado, 23 de julho de 2011

Secaram

Mundo, pare por um instante e me ouça. Ou melhor, não quero que me ouça, quero que se esforce para me compreender de uma vez por todas.

Era uma vez...

Nasci. Em silêncio. Minha mãe esperava um choro. Compreensível. Ela queria um parto "normal". A medicina dizia que sim, eu não dizia nada. Esse era o problema. Já nasci em silêncio e meu coração desistia de lutar antes mesmo de ser banhado pela luz de um novo mundo. Nasci cansado de viver.

Enquanto crescia, mais silêncio. "Meus pais são meus melhores amigos". Não, eles eram apenas meus pais. E que esse título seja suficiente. Não toleraria cobranças. Havia amor, não nego e nem tenho motivos para negar. Mas era um amor invisível que se fazia nos detalhes. Não mudei muito, devo admitir.

(In)Felizes para sempre. Fim.

Pense num grande empresário que conseguiu criar seu legado com esforço e recebeu dúzias e mais dúzias de palmas calorosas... Agora pense nesse mesmo individuo vendo que suas crias têm vontade própria. O que ele (você) faria? De repente, pegaria uma caneta e então listaria todas as coisas que seus filhos deveriam deixar de fazer e, principalmente, daria ênfase para as punições caso algum anarquista tentassse se destacar. Pois bem, ou você apelaria para a Constituição ou para a Bíblia Sagrada. Dois elmentos que mudam de nome em outros países e culturas, mas nunca de essência e propósito.

De repente, esse filho(a) decide questionar o poder absoluto. E aí, os dias dourados desaparecem e as asas que antes anunciavam o amanhcecer, hoje batem durante a noite, como se a escuridão e o fim do dia fossem algo amaldiçoado. De repente, o sorriso bonito e o olhar sagaz se tornassem o maior dos pecados. O poder não deve ser questionado. E esse único inconformado trilhou sua própria ruína. Queria, a qualquer custo, aquilo que mais detestava: o poder absoluto. Buscou sua própria morte. Buscou seu fim. E quem deve julgá-lo?

Quando você sente aquela dor na boca do estômago que gela a alma e te faz franzir a testa, passa a entender que nem todos querem viver assim para sempre. Acorda e diz que não quer dar a volta por cima, que prefere parar e chorar. Admite que está ferido(a) e nada mais faz tanto sentido. Busca uma forma de evitar que os outros possam perceber seus braços machucados, não por vergonha, mas porque quer apenas evitar longos discursos de pessoas que são tão covardes ao ponto de dizer que " é errado se sentir assim".

Quantas vezes eu mesmo não acordei com vontade de jogar ao vento tudo o que conquistei? E quantas vezes me disseram que eu era errado e que isso ia passar? Tentavam tirar de mim o direito de errar, não por que se preocupavam de fato, mas porque temiam o momento em que minhas lágrimas escorressem na mesa de jantar ou naquela festa em que tudo deveria dar certo. Evitavam-me, enquanto demonstravam acolhimento. Mas nunca se perguntaram se eu realmente queria contar algo. Eu nunca fiz questão e quanto fiz, escrevi ao invés de telefonar.

Ótimo que muitas pessoas consigam superar suas frustrações amorosas. Parabéns para aqueles que têm o dom de não transparecer as fraquezas. Para o resto do mundo, vocês são exemplares. Quase como totens adorados. Mas para mim... Talvez eu veja além das talhas na madeira. Eu já fui assim. Uma muralha intransponível. Porém, certo dia percebi que um fio de água escorria pelas pedras rústicas. Esse fio me conduziu até o oceano onde meu coração dançava junto com as ondas. Subia e descia, sempre fiel à maré. Nem por isso me tornei um incapaz. Muito pelo contrário. A muralha passou a ser mais forte ainda. Contava, agora, com a água limpa para revigorar sua armadura cansada de tantas batalhas.

Você pode se drogar e chorar durante toda a noite. Ou pode rir da desgraça que assola sua mente. Pode se drogar e ligar para a pessoa amada - na pior hora - e dizer as melhores palavras. Também pode se drogar e evitar os amigos, ligar o som e escutar as velhas músicas. Pode chegar na beira do precipício e rezar (algo que nunca fez durante toda a vida) ou simplesmente acender um cigarro e curtir a paisagem. Pode correr pela rua às 6h da manhã, enquanto os outros dormem. E, no mieo do caminho, para e percebe o quão precioso é aquele momento. Pode amar seu melhor amigo e odiar sua namorada. Você pode, entende? O que te mata é a voz de alguém que nunca lhe abraçou a dizer: "pare, isso é errado, o que vão pensar de você?" O que você vai pensar de si mesmo se parar? Já pensou? Então.

Cante as canções mais bontas. Saberemos para quem é. Escreva suas poesias e molhe a ponta da caneta com lágrimas. Elas sim sabem sobre sua essência. Desenhe até seus pulsos gritarem, eles sim conhecem sua força. Escreva e dance conforme as frases.

Escrever...

“A razão foi abençoada com a fidelidade da língua e da boca. Toda vez em que ela precisa se pronunciar ela procura essas duas parceiras e então se faz entender. Mas e o coração? Preso na caixa torácica, enjaulado como fera perigosa e indomável. Selvagem e sem dizer uma palavra. O mais invejado de todos.

Pois bem. No seu silêncio ele encontrou dois outros 'mudos': os olhos e as mãos. O coração pulsa mais forte quanto o olhar tímido capta aquela figura perfeita que foi roubada do cotidiano. Ele bate mais rápido, enquanto as mãos pedem licença para descrever as curvas irregulares do corpo, modelado com a melhor argila. Ele chora quando os olhos já não mais conseguem enxergar o sorriso do outro lado. Ele sofre quando aquelas mãos dizem 'adeus' lentamente. O coração e seus amigos, mudos e tão expressivos. Ele diz tanto. E para não se esquecer de todas as vivências, faz o último pedido: ‘Mãos, por favor, escrevam enquanto eu bater’. Obrigado. Mas por livre e espontânea vontade.

Aprender

Hoje, vejo claramente que todas as certezas devem ser bombardeadas por questionamentos. Devem ser desafiadas até que consigam provar sua legitimidade. E quando issi for provado, que o mundo possa parir outro espírito inquieto para desafiá-las. Mas desse modo, não teríamos algo para nos apoiarmos. Exatamente.

Seus amigos podem lhe dizer as melhores frases e fazerem os melhores convites que ainda assim, a chateação só vai partir quando VOCÊ decidir expulsá-la. A reabilitação só faz sentido quando é VOCÊ quem procura por ajuda. A garrafa só se torna algo ruim e destrutivo quando VOCÊ percebe que as lágrimas estão mais densas. Enquanto não chegar a tais conclusões, o que lhe disserem irá soar como piedade. E isso, meu amigo(a) é algo que TODOS repudiam. Isso sim é uma certeza. E quem vai questioná-la? VOCÊ?

É o amor. Ele é o culpado. Ele que nos faz humanos demais. O amor é algo exclusivo da nossa espécie. Não por que raciocinamos e somos capazes de pensar e criar novos pensamentos. Mas porque é ele quem nos faz viver todos os dias. Se há ódio é porque antes houve amor. Se você está triste é porque o amor passou pela sua vida e ficou pouco tempo. Se está feliz, é porque ele precisa de um novo lar. Mas como tudo passa, aproveite todas as noites em claro e o abrace bem forte. É o amor. Entendeu, mundo?

Hoje, uma das minhas lágrimas secou por conta própria.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Esta é a hora em que...

Eu abandono a mim mesmo e faço questão de redesenhar o mundo sem os traços de Deus. É quando reclamo meu direito de herdeiro do paraíso e guardo um lugar para nós. O momento exato em que consigo enxergar o que há de semelhante entre o céu e o inferno.

Faço um mar só para nós, onde as conchas cantam todas as canções que fazem nossos corações selvagens pulsarem... Nele, busco a profundidade do "sentir",então sem nome, faço o coração adoecer e o ensino a respeitar a paciência. No instante em que o infinito foi finito e no canto das extremidades não regulares foi regular, encontrei seu sorriso solitário e o fiz companhia. Eram dois sorrisos buscando um terceiro rosto para cortar. Eu sempre apostei na nossa falta de linearidade. Quase como um corte na face da modelo perfeita.

Empatia te faz entender. Se parece tudo muito confuso, use-a. Ponha-se no meu lugar e então faça questão de compreender. É como rebobinar uma fita dez vezes para decorar todas as falas... Sabe?

O corpo mal educado dança conforme a sua própria música. Canta a letra que lhe convém e então seduz outros corpos incapazes de trilhar o que lhes foi prescrito. Confortável mesmo é deitar na cama do outro, desarrumá-la e então acordar como se nada tivesse acontecido. Confortável é negar o beijo como se ele não tivesse acontecido. Mas veja, minhas palavras não entregam aquele momento único que vivemos. Quem o abriga é a vaga memória do dia no qual o corpo e a mente finalmente encontraram uma trégua. O que importa mesmo é saber que você estava lá. E que nossas almas se conectaram.

Quantas vezes tomei a guerra como filha única e matei qualquer pretendente que tentasse mudar a história? Ou melhor, a nossa história. Como pai, fui cego e manipulado. Preferi honrar algo invisível do que manter em vigor o que me era tangível. Todas as religiões me perdoaram, afinal sou pai. Mereço o sol. Mereço o direito de errar e não pedir desculpas. Meus filhos nunca ouviram isso e me orgulho de tê-los educado assim. Só a lua conhece a verdade.

Enquanto o dia encanta as ações, somente à noite é que encontramos espaço para exercer o lado "humano". Se os dedos dançam através das frases postadas em um Facebook, o coração chora insatisfeito. Se as risadas são esteticamente bem digitadas, o sorriso desaparece em instantes. Mas viver nessa frustração crônica não é como declarar a própria pena de morte. Através de códigos binários, todos somos iguais pelo zero e um, mas diferentes pelo uso exagerado da repetição. Se Apolo deu certo como deus do sol, Éris não precisa abandonar seu pomar dourado no intuito de ser convidada para a festa de Páris e sua amada. Concorda?

Vivemos hoje o que foi negado e abominado no passado. Vivemos hoje o que tínhamos que ter vivido ontem. Veja, não adianta, a história precisa ser escrita. Os leitores de hoje são os censurados de ontem. Os escritores de hoje nada mais são do que os inconformados de ontem.

O álcool escorre pela mesa assim como o sangue escorre pelo braço. Se a fuga não está nos amigos e família e nem mesmo nas toxinas, então que se faça útil o tempo em que estive isolado, escutando aos mesmos discos, milhares de vezes. Que eu mesmo não seja tão fraco ao ponto de eliminar todas as chances de fugir. O que procuramos todos os dias são as saídas. São os momentos em que alguém se responsabiliza pelos nossos erros. E se não houver ninguém, que pelo menos nos levem a sério. Pois se hoje somos os drogados e bêbados derrotados, amanhã seremos os conselheiros que ensinam o caminho para fora da escuridão. Por mais perdido que eu pareça ser, no fundo, sou reflexo daquilo que você sonha todos os dias em ser. Livre, para errar e acertar. Nem tudo se resume no "vencer".

ERROS DE PORTUGUÊS EXISTEM.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Além da cegueira

Controlar a raiva... Segurar o choro... Forçar um sorriso... Apertar a mão com pouca força... E quando só nos resta sentir? Nem sempre conseguimos censurar o que há de pior/melhor em nossa essência.

Sempre tive fortes ondas de raiva que destruíam os castelos de areia feitos pela razão. Não me importava com a complexidade das paredes ou os detalhes na escadaria. Era areia e devia ser derrubada. Devia voltar a sua forma homogênea e sem definição. Sem razão, sem pontas, sem forma. É isso, a raiva quer isso de mim. Quer que eu não me reconheça e apenas dissolva o que sobrou. Poeira. Fragmentos. Restos de restos.

Mas de repente, as ondas recuaram e então pude enxergar além do óbvio. Pude perceber que a raiva, tão poderosa, se traiu. Ao invés de me cegar e não permitir que visse a simplicidade das coisas, me ajudou a encontrar um ponto de canalização. E qual foi este ponto? O fato de olhar para mim mesmo e perceber que não sou eu o perdido. Não sou eu quem conta grãos no litoral, como se buscasse a si mesmo. Tão pequeno.

Basta saber lidar com o mar e saber que ele está cheio de possibilidades. Um dia a maré sobe, no outro...

quarta-feira, 15 de junho de 2011

No peito, o universo

As palavras estão acabando. E o entendimento nunca chega. Sem compreensão sobre minha própria existência, passo a ter dificuldade em aceitar o fato de que me considero apenas um fragmento perdido no espelho estilhaçado. Me recuso, e essa é a minha doença crônica. Recusar.

Esse universo que tomou lugar do apertado coração é grande demais. Não é vazio, pois sempre captura algo perdido com sua gravidade peculiar. Há sempre uma estrela que traz esperança e a mata segundos depois. Sua luz já está morta. Estrelas brilham mesmo depois de mortas. E ainda assim, me encanto com elas. Em outros instantes, tenho vontade de fazer parte de algum mundo particular. Ser presença exclusiva em terras que me recebam com os braços abertos e suas veias expostas. Como rios, me vejo envolvido pelas águas seguras de um amor simples e natural. Mas o meu peito é o universo, não posso fazer parte de algo em especial, pois dou o todo em que todos depositam os problemas de seus "universos particulares". Eu captalizo as vibrações e tenho a missão de levá-las para bem longe desses planetas que, mesmo pequenos e turbulentos, dão cor à imensidão escura que sustenta meu ser.

Tais palavras não refletem uma tristeza profunda e fúnebre. Abandonei os estereótipos em torno de termos como "escuridão", "vazio", "silêncio". Ao lidar com estes elementos, percebi que é possível se adaptar e, principalmente, ouvir-se, ver-se e completar-se. Meu peito e seu universo em constante expansão cobram muito da mente. Cobram do corpo, cobram de tudo. Sugam. E eu vivo apenas para alimetá-los.

Um universo... gosto assim. Um coração é pouco para tudo o que sinto.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Origens

"No começo eu não percebia. Elas ficavam rindo de longe. Depois de alguns meses, descobri que era por causa do meu peso. Evitava as aulas de educação física. Evitava usar blusas que mostrassem meus braços. Eu evitava a mim mesma, todos os dias.

Não era sozinha por completo. Tinha minhas amigas e amigos. Com eles, meu coração se enchia de alegria. Eu podia ser o que sou, rir e chorar como qualquer outra pessoa. Nunca me senti mal de verdade por ser assim. Para mim, é normal. E o que é anormal? Me pergunto todos os dias. Talvez, quando encontrar a resposta, pare de me importar com o que os outros dizem. Porque eles falam sem ter levantado tal questão a respeito si mesmos.

Me apaixonei muitas vezes. Tudo em silêncio. Só quem ouvia meus pensamentos era o coração."

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"Ela tinha os olhos mais lindos. Eram verdes. Minha cor favorita. Fiz questão de aprender a "língua" dela, para poder elogiar aquele par de esmeraldas. Mas ela nunca quis aprender a ler meus sinais... Gostei muito dela. Tudo em silêncio".

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"A voz dele acalmava meu espírito. Nunca vi um rosto. Nunca vi o mundo. Nasci no escuro e minha conexão com o mundo exterior se fazia pelo silêncio. Tudo em silêncio. Todos os dias nos encontrávamos e a conversa fluía como um rio selvagem. Não tinha um caminho certo. Era possível falar de tudo, sem que os olhos julgassem o que era certo ou errado.

Ao tocar minhas mãos, ele me fez sentir as batidas fortes do coração. Ao me beijar, provou que a respiração pode se tornar algo mais forte do que qualquer frase. Nessa hora, percebi que sentir é bem melhor do que ver. Tudo em silêncio."

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"Nós duas caminhávamos pelo parque quando avistamos aquele pequeno cão. Estava faminto e com as costelas tentando fugir do corpo. Por alguns segundos olhamos seus olhos e depois nos olhamos. Tudo em silêncio. Se o mundo nos privava do direito de ter um filho, a mãe natureza nos dava a chance de formar uma família. A nossa família.

Ali nascia Joshua, nosso primeiro filho. O amor é assim".

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"Fomos ao cinema e por alguns segundos tive o que tanto quis. A sensação de pertencer. Nos pequenos gestos senti que podia descansar meu corpo e ser envolvido por braços que me protegessem. Eu que tanto lutei sozinho, percebi que batalha nenhuma tem valor se ao vencer não houver um amor à espera. Tudo em silêncio. Observei quando você se foi, esperando por reticências..."

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domingo, 5 de junho de 2011

O que é

Alguns recuperam parte de si em uma música. Outros encontram nos filmes e novelas. Caminhos alternativos que são capazes de reagrupar fragmentos de si mesmo. Olhe para os olhos azuis e sentirá o perfume daquela manhã. Os olhos, sim.

Da cor da terra

Não são todas as histórias de amor que se baseiam na troca equalitária de sentimento. Livres das correntes do "gostar" pré-frabricado, alguns casos são contados apenas por uma das partes. Pois bem, eu conto.

O medo nunca será vencido. É uma doença crônica que se carrega durante toda a vida. Mas é possível ser feliz e viver com ele. O tratamento? Cada um sabe do seu. Assim que consegui fazer com que os meus temores não me impedissem de sorrir, encontrei seu olhar, ali. Da cor da terra. Minha base, meu chão.

Bastaram poucos dias para que o universo se transformasse em dois pedaços do céu. As palavras saiam mudas. O encanto estava em observar você me observar. Era como ler mais sobre mim mesmo, interpretado por outro alguém. Eu me tornava poesia naqueles olhos castanhos.

Agora não me importa se esse sentimento vai ou não virar algo para ser lembrado. Eu já lembro. Todos os dias. Me sinto vivo.

Assim, vejo as cores nos dias mais comuns. E nada mais é tão dissaturado assim.

O que é? O que somos? O que sou? Invisível. Invisíveis. Completamente invisível.

domingo, 29 de maio de 2011

The lights to find h...

Ficou tudo nos discos. Cada faixa revive um pedaço do que fui e ainda insisto em ser. A música substituiu o sangue. O álcool substitui a razão. Você substitui a si mesmo. Anula-se diante de mim.

Trinta vocalistas, 60 guitarras, 30 bateristas, poucos baixistas. Escravos dos meus devaneios e nostalgia. Rezam todos os dias para que eu os escolha. São apaixonados pelos meus ouvidos. Poucos atingem o coração. Normal, hoje em dia é assim em quase todos os (des)casos.

Idioma é detalhe. Letras pouco importam. Sempre me apropriei das melodias. São elas que dialogam comigo. O que o compositor tem a dizer pouco me importa. Egocentrismo pede licença. Egocentrismo pouco se importa com direitos autorais. Copy my sins, you have the rights.

Agora eu sei por que Deus não destrói logo toda essa porra. Em cada humano ele vê a sua própria droga. A sua catarse. A sua chance de errar sem ser julgado. A sua chance de sorrir mesmo com tantos problemas. Deus é viciado nos humanos. Sim, nós somos a droga mais potente. Matamos Deus lentamente.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

This time, no love is what I need




No love. That's what I need. That's what I asked for the first God I saw. Can you imagine yourself waking up every fucking day and praying not to fall in love? No, You can't. The World celebrates your relationship while it spits on my face for being such an odd guy. This time no love is what I need, you see?

Turning up the sound is a good way to suffocate the heart beats. Silence the beats and try just do listen your own thoughts. It sounds perfect, right? Then wait until your whole family sleep to open that bottle. Another way to suffocate the junk of the heart. This time no love is what I need.

But I want you to want mine.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O jornalismo que ninguém lê

Sempre que começava um novo semestre, algum professor arriscava a mesma pergunta: “Por que escolheu o jornalismo?”. Respostas clichês à parte, o que faltava nas explicações era aquela sinceridade ousada e espontânea. De aluno em aluno, o professor se desinteressava pelo o que era dito, talvez por também não saber responder a tal pergunta. Talvez, por arrependimento.

Ao longo dos anos, o fantasma que perseguia esta questão assombrou meus pensamentos, meus textos e minhas entrevistas. Minha mãe costumava dizer que eu era uma criança muito quieta e pensativa. Alguns familiares arriscavam autismo. Meu pai nunca dizia nada. Meu irmão me achava estranho. Ainda assim, o amor permaneceu. Nos momentos que passei abraçado à minha essência, tecia histórias e construía possibilidades. O mundo não era desinteressante e eu não odiava as pessoas. Apenas gostava de criar meus próprios roteiros, ainda que não soubesse o que significava essa palavra. Escrevia sem saber escrever.

Anos e anos acumulando folhas e o jornalismo não surgiu como único caminho. Pensei em fazer biologia, psicologia e pediatria – para poder me vingar dos filhos dos médicos que me receitavam injeções. Entrei no curso sem ter uma resposta ensaiada. Eu gostava de escrever. Hoje percebo que isso não tem muito a ver com minha graduação. O meu “escrever” ainda desconhece muitas palavras e regras seguidas pelos grandes jornalistas. É um “escrever” analfabeto e feliz. Mas toda felicidade dura pouco.

Aprender é um processo lento e delicado. Uma relação complexa onde os sentimentos se rompem com uma simples vírgula. Formatar minha escrita, padronizar minha introdução e diminuir minhas frases foi como domar um cavalo. Tirar um peixe dourado do mar e colocá-lo no aquário da sala. Dar um jantar para os amigos jornalistas e exibir o troféu roubado de Poseidon. Resisti ao máximo e consegui seguir a lógica coorporativa. O verbo “conseguir” não veio seguido do sabor da vitória. Consegui me trair. Entreguei meus cavalos a fazendeiros frustrados e meus peixes dourados viraram notas no boletim. Números quebrados. Nada mais característico.

No último dia 16 de maio foi o “Dia do Gari”. Algum jornal ou site deve ter dado uma nota sobre. Pegam a forma básica de algo publicado no ano passado - ou no século passado - e enaltecem, com muita falsidade, a profissão sem respeitar o profissional. Muito mais do que o “Dia do Gari”, a data também deveria permitir que o João falasse dos seus sonhos, que a Rita dissesse o que pensa sobre as ruas, que o José, tão conhecido por todos, falasse um pouco sobre música, futebol ou qualquer coisa que compensasse a dura jornada de trabalho. Mas esse é o jornalismo que ninguém lê, ainda que muitos escrevam.

Não posso terminar esse texto sem citar o livro que me fez devolver ao mar os peixes roubados do meu oceano de ideias. “A vida que ninguém vê”, da jornalista Eliane Brum, explora as áreas mais temidas do jornalismo. Com simplicidade e interesse verdadeiro – não aquele que quer saber apenas de prestígio e elogio por parte dos colegas de trabalho – ela tece uma colcha de histórias onde as diferenças sociais são detalhes. A vida que não se vê é justamente aquela que, por um dia, mês ou ano, vivemos ou viveremos. São fragmentos do desconhecido que amedrontam nossas casas e escritórios. Desconhecer o que vem depois ou o que pode acontecer com nossos destinos. Palavras de efeito defeituoso ou ambíguo. Que não percam seu valor, mas ao menos se permitam cair em contradição. Conte ao povo algo sobre o povo, alguma coisa desse tipo.

O jornalismo que ninguém lê é justamente o que me encanta. É o que carrego nas mãos que ainda estranham muitas palavras. É um jornalismo que nasce da essência tímida e inquieta. Ele quer ouvir. Quer saber. Conhecer. E não ser egoísta. Quer contar. Quer ser compreendido e não apenas lido. Minha avó não sabia ler com maestria. Mas escreveu com traços invisíveis a única palavra que lhe deu força durante toda a vida: amor.